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Mestrado em Teologia ITG – Instituto Teológico Gamaliel 
1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mestrado em Teologia ITG – Instituto Teológico Gamaliel 
2 
V 
 
Apresentação 
 
 
 
ocê está começando o estudo da disciplina Didática. Mas o que é, afinal de contas, 
“Didática”? São “receitas”, ou um conjunto de técnicas para ensinar? Por que o 
conhecimento dessa disciplina é importante para a formação de professores? De que 
forma ela pode contribuir para o ensino das Ciências Naturais e da Matemática? 
 
Pretendemos que este curso lhe dê subsídios para responder a essas e outras questões. 
Para tanto, caracterizaremos o pensamento didático, situando-o no terreno mais amplo da 
Pedagogia e abordando aspectos de sua evolução histórica. A seguir, trataremos de 
temas e assuntos relacionados às recentes reformas educacionais e aos resultados das 
pesquisas das áreas de ensino de Ciências e Matemática. Por fim, discutiremos aspectos da 
organização do trabalho dos professores. 
 
Esperamos que a Didática possa contribuir significativamente em sua formação, 
ajudando a promover uma reflexão constante sobre o fazer docente. 
Além da leitura das aulas e da realização das atividades presentes em cada uma delas, 
você também deverá executar certas “Práticas” (assim identificadas ao longo das 
aulas) previstas na carga horária total da disciplina. 
 
 
 
 
Objetivos 
 
O principal objeto desta aula é oferecer a você uma visão 
preliminar e abrangente sobre a Didática enquanto disciplina 
pedagógica, com objeto e temas de estudo próprios. 
Esperamos, ainda, que você conheça aspectos da 
origem histórica do pensamento didático e seja capaz de 
perceber a importância dessa disciplina 
para a sua formação como 
professor. 
 
 
 
 
 
Mestrado em Teologia ITG – Instituto Teológico Gamaliel 
3 
 
Caracterizando a Didática 
 
 
 
 
 
Atividade 1 
 
 
 
 
 
Leia os dois pequenos diálogos (fictícios) abaixo. O primeiro, entre dois estudantes 
de graduação em História. 
 
− Ei, você já “pagou” a disciplina de “História Moderna e Contemporânea I”? 
− Não, ainda não... Vai ser oferecida este semestre? 
− Vai, sim. Por aquele professor do departamento... não lembro o nome! Acho que é 
Manoel. 
− Ih... então não vou “pagar” este semestre, não. Dizem que ele é um ótimo historiador, mas não tem 
didática. 
E o segundo, entre um pesquisador e um aluno do Ensino Médio: 
− Estamos fazendo uma pesquisa sobre a qualidade das aulas do Ensino Médio. Você pode 
responder a algumas perguntas? 
− Claro... 
− Quais as matérias de que você mais gosta, e por quê? 
− História, Geografia e Ciências. Acho que gosto de ler, saber do passado, do que aconteceu... 
Geografia também é legal, a gente aprende sobre os diferentes lugares, as regiões... Ciências eu 
gosto porque o professor é legal! Ele ensina bem... 
− O que tem que ter um professor pra “ensinar bem”? 
− Sei lá... acho que tem que entender a matéria, ser legal com os alunos, ter paciência. E tem que ter 
didática, né? Tem gente que não tem “jeito” pra dar aula, não... 
 
 
E agora, procure responder às questões abaixo. 
 
 
Que visão sobre a “didática” é passada pelos diálogos? O que parece 
1 significar, para os personagens, “ter didática”? 
 
 
 Você já presenciou diálogos como esses? Em que situações? 
 
 
Você concorda com a visão apresentada nos diálogos? Qual a sua 
3 visão pessoal sobre a didática? 
 
 
 
 
Mestrado em Teologia ITG – Instituto Teológico Gamaliel 
4 
 
Prática 
 
Faça uma breve entrevista informal (munido apenas de um bloco de notas e 
uma caneta), com três pessoas diferentes, acerca do significado da palavra 
‘didática’. Sugestão: escolha pessoas com vivências e idades diferenciadas, 
como, por exemplo, alguém mais velho da família (pai, mãe etc.), um professor 
de uma escola pública da sua região e um aluno do Ensino Médio. 
 
Como produto, produza um texto comparando as visões entre si, estabelecendo 
semelhanças e diferenças entre elas. 
 
 
 
 
É comum, como vimos nos diálogos da Atividade 1, e como você deve ter percebido nas 
entrevistas da Prática, associarmos a palavra ‘didática’ ao ensino, mas quase sempre como algo 
(provavelmente, um conjunto de “técnicas”...) que o indivíduo (professor) deve “possuir”, “ter”. 
Assim, o bom professor é visto como alguém que “tem didática”, o que normalmente parece 
ser uma espécie de “dom natural” ou uma “arte”. 
 
Por outro lado, sabe-se que a disciplina Didática faz parte dos currículos dos cursos de 
Pedagogia e das Licenciaturas, sendo, portanto, um conjunto de saberes aparentemente 
constituído e sistematizado. Será, então, que ao cursar tal disciplina, o futuro profissional do 
ensino passa a “ter didática”, mesmo que não tivesse o “dom”? O que se estuda em tal 
disciplina? Qual o seu objeto? 
 
Os pedagogos e teóricos da educação não concordam plenamente entre si quanto a uma 
definição de ‘didática’. Mas, isso não é um problema, porque, ao invés de uma “definição”, 
busca-se entender a Didática como um corpo de conhecimentos que evoluiu histórica e 
socialmente, e que comporta hoje múltiplas compreensões, embora com importantes pontos em 
comum. 
 
Vejamos a seguir dois pequenos trechos, de autoria de dois importantes educadores da 
área de Didática. 
 
 
“Didática para nós é uma reflexão sistemática sobre o processo de ensino-aprendizagem que acontece na 
escola e na aula, buscando alternativas para os problemas da prática pedagógica.” (MASETTO, 1997, p. 
13) 
 
“A Didática é o principal ramo de estudos da Pedagogia. Ela investiga os fundamentos, condições e modos 
de realização da instrução e do ensino. A ela cabe converter objetivos sócio-políticos e pedagógicos em 
objetivos de ensino, selecionar conteúdos e métodos em função desses objetivos, estabelecer os vínculos 
entre ensino e aprendizagem, tendo em vista o desenvolvimento das capacidades mentais dos alunos.” 
(LIBâNEO, 
1994, p. 25-26) 
 
 
 
Mestrado em Teologia ITG – Instituto Teológico Gamaliel 
5 
 
 
É importante que não tomemos esses trechos como definições! Os autores citados 
procuram caracterizar a Didática ao longo de suas obras, e não apenas com esses trechos! 
 
Ainda assim, é possível caracterizar o “fenômeno ensino” como o objeto de estudo da 
Didática enquanto disciplina. Note que isso abre um leque muito grande de temas, assuntos 
e conhecimentos específicos que passam a fazer parte do campo da Didática. 
 
Vejamos o porquê. 
 
O ensino é um fenômeno complexo. Ocorre na escola, mas não apenas nela. É uma prática 
social, portanto, condicionada por fatores históricos, políticos e econômicos. Considerar o 
ensino como objeto de estudo significa, então, em princípio, trazer para o debate todos os 
potenciais e reais fatores que podem influenciá-lo e determiná-lo. Desse modo, passa a ser 
relevante para a Didática conhecimentos oriundos da Filosofia, da Antropologia, da Sociologia, 
da Política, da Psicologia, entre outras áreas. Mais especificamente, podemos pensar em 
“sub-áreas” – como Psicologia da Educação ou História da Educação – que contemplam 
saberes de interesse para a Didática. Também estão aí incluídas as metodologias específicas 
das disciplinas, por exemplo. 
Vemos, assim, que o campo da Didática é muito amplo, no sentido de que essa disciplina 
faz uso de uma gama significativamente grande de outros saberes para tentar constituir sua 
especificidade. A Didática pode ser vista, nesse sentido, como uma espécie de “disciplina 
integradora”, como a Figura 1, a seguir,tenta mostrar. 
 
 
 
 
 
Psicologia 
 
Sociologia 
 
 
 
 
Sociologia da 
Educação 
Psicologia da 
Educação 
 
 
 
DIDÁTICA Metodologia do 
Ensino de Ciências 
 
 
História da 
Educação 
 
 
Filosofia da 
Educação 
 
 
 
Mestrado em Teologia ITG – Instituto Teológico Gamaliel 
6 
A Figura 1 é, obviamente, uma aproximação. Além de não esgotar as diversas áreas que 
compõem o terreno da Didática, a figura não explicita outros vínculos, como os existentes entre 
Sociologia e Psicologia, ou entre essa última e a Filosofia da Educação, por exemplo. 
 
Até aqui vimos que o objeto de estudo da Didática é o ensino, em sua totalidade, e que ela faz uso 
de saberes de diversas áreas do conhecimento humano. Poderíamos, então, perguntar: mais 
especificamente, o que a Didática vai estudar? Que temas são do seu interesse? 
 
Como “teoria do ensino”, a Didática acaba por preocupar-se com diversos temas e 
problemas relacionados ao ensino, por exemplo: 
 
1. o currículo escolar; 
 
2. aspectos psicológicos do processo ensino-aprendizagem; 
 
 
3. organização do trabalho pedagógico na escola; 
 
 
4. motivação dos alunos para aprender; 
 
 
5. ensino em espaços não-formais; 
 
 
6. objetivos e fins do processo educativo; 
 
 
7. planejamento do ensino; 
 
 
8. relacionamento interpessoal na escola; 
 
 
9. uso de novas tecnologias no ensino; 
 
 
10. entre outros. 
 
Tomemos como exemplo os itens 3 e 7, “organização do trabalho pedagógico na escola” 
e “planejamento do ensino”. 
 
A escola tem um papel fundamental na sociedade, no que diz respeito à conquista da 
cidadania por todos. O acesso dos sujeitos ao conhecimento sistematizado e à promoção do 
desenvolvimento individual em diversas áreas (motora, afetiva, social, cognitiva etc.) são 
princípios da ação pedagógica. Para que esses princípios concretizem-se, é necessário organizar 
o trabalho pedagógico na escola. 
Para isso, é preciso, dentre outras coisas, conhecer as leis e normas que regem a 
educação nacional, ter clareza dos fins e propósitos do processo educativo, estabelecer metas e 
objetivos adequados à realidade local, envolver a comunidade nas ações da escola, mobilizar recursos 
materiais e humanos para promover as ações desejadas. Assim, a “organização do trabalho 
pedagógico na escola” surge como condição para o bom andamento do processo de ensino que 
ocorre no espaço escolar. É, portanto, um tema (ou assunto) para a Didática, enquanto disciplina 
pedagógica. 
 
Mestrado em Teologia ITG – Instituto Teológico Gamaliel 
7 
 
 
A organização do trabalho pedagógico implica planejamento. O ato de planejar deve 
ser compreendido como uma forma de organizar as ações, e não como uma atividade 
burocrática. Precisa envolver todos os atores do processo educativo (diretores, professores, 
alunos, comunidade escolar) e ser pensado para diferentes níveis e propósitos (planejamento 
da escola como um todo, das diferentes séries, das disciplinas etc.). A qualidade e eficiência 
do ensino dependem, portanto, de uma boa organização das ações, ou seja, de um bom 
planejamento. Daí que o “planejamento do ensino” seja também um tema (ou assunto) da 
disciplina Didática. 
 
 
 
 
 
Atividade 2 
 
 
 
 
Escolha outro item da nossa breve lista de “temas” da Didática (excetuando- 
se o 3o e o 7o), justificando por que ele deve ser objeto de preocupação 
dessa disciplina. Para tanto, use suas palavras, levando em consideração a 
caracterização feita até agora sobre a Didática. 
 
 
 
 
Atividade 3 
 
 
 
Realize uma pequena pesquisa sobre “didática” em livros da área de 
1 educação que tratem do tema. Veja o que dizem os autores sobre 
essa disciplina, como (e se) a definem, e que temas associam a ela 
(sugestão: vá a uma biblioteca e procure – em “título” ou “assunto” 
– pela palavra ‘didática’). 
 
Quais as principais semelhanças e diferenças entre as visões que 
você obteve e aquela apresentada aqui? Escreva um pequeno texto 
a esse respeito. 
 
 
Retome o item 1, mas, agora, pesquisando no espaço virtual da 
Internet (sugestão: coloque a palavra ‘didática’ num site de busca). 
 
 
 
 
 
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que ocorre nas escolas, há certamente características que são 
compartilhadas nacionalmente, enquanto outras são regionais 
ou mesmo locais. Pensando em uma escola da sua 
comunidade, apresente aspectos didáticos de dois tipos: 
 
a) aqueles que você considera que sejam compartilhados, em 
maior ou menor grau, nacionalmente; 
 
b) e aqueles que você considera que sejam 
exclusivamente locais. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Você deve ter percebido, pela nossa caracterização da Didática, que o rol de 
conhecimentos abarcado por essa disciplina pedagógica é muito grande. Isso 
é muito importante para ser assinalado, pois é preciso ter consciência que 
o estudo da Didática não pode se esgotar apenas num semestre letivo, no 
conjunto de umas poucas aulas. Ao contrário, o profissional da educação deve 
estar em contínuo e constante processo de formação, incluídos aí os 
conteúdos dessa disciplina. 
 
Em função disso, o que privilegiar? 
 
Neste curso, especificamente, faremos um recorte particular da 
Didática. Iniciando com elementos da história do pensamento didático, 
privilegiaremos tópicos relacionados ao ensino na atual conjuntura de 
reformas educacionais no Brasil. Dada a característica primordial deste 
curso – de formação inicial de professores de Ciências da Natureza e 
Matemática –, abordaremos, também, tópicos particulares das áreas de 
Ensino de Ciências e Ensino de Matemática (aliás, essas áreas detêm 
conhecimentos específicos dentro da Didática, a ponto de podermos falar 
em Didática das Ciências ou Didática da Matemática como sub-áreas). Mais 
adiante, trataremos de alguns aspectos do que se costuma chamar de 
“Didática instrumental” ou “técnica”. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mestrado em Teologia ITG – Instituto Teológico Gamaliel 
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Mercantilismo 
 
Doutrina econômica, em 
voga no século XVII, que 
enfatizava a importância 
do comércio exterior 
para a economia de um 
país. Defendia a ação 
do Estado em favor da 
expansão das exportações 
e de seu monopólio 
por companhias de 
comércio, e da restrição 
às importações (Dicionário 
Aurélio Eletrônico, versão 
3.0, Novembro de 1999, 
verbete ‘mercantilismo’). 
 
Reforma 
Protestante 
 
Movimento religioso 
do começo do séc. 
XVI que rompeu com a 
Igreja Católica Romana, 
originando numerosas 
igrejas cristãs dissidentes 
(Dicionário Aurélio 
Eletrônico, versão 3.0, 
Novembro de 1999, 
verbete ‘reforma’). 
 
Heliocentrismo 
 
Sistema cosmológico 
proposto por Nicolau 
Copérnico, mas que tem 
suas raízes na Antigüidade 
(com Aristarco de Samos), 
e que postula ser o Sol o 
centro do Universo, com 
os demais astros (planetas 
e estrelas) girando ao seu 
redor. 
 
Origens históricas da Didática 
como disciplina 
 
 
O ensino e a aprendizagem, como processos sociais, são certamente tão antigos 
quanto as primeiras sociedades humanas. Na realidade, é possível identificarmos, inclusive, 
aspectos desses processos em outras espécies animais, além do Homo sapiens. 
 
No entanto, desde as épocas mais remotas, a ação pedagógica de “ensinar” esteve 
vinculada às tradições de cada povo ou comunidade, à religião e aos rituais, às necessidades 
práticas, de uma forma mais ou menos espontânea. Desse modo, a “didática” como uma 
atividade planejada e intencional é algo relativamente recente na História.Os teóricos da área 
costumam concordar em situar o “surgimento” da Didática como disciplina no século XVII. 
Vejamos o que diz, por exemplo, Libâneo: 
 
Na chamada Antigüidade Clássica (gregos e romanos) e no período medieval também se 
desenvolvem formas de ação pedagógica, em escolas, mosteiros, igrejas, universidades. 
Entretanto, até meados do século XVII não podemos falar de Didática como teoria do 
ensino, que sistematize o pensamento didático e o estudo científico das formas de 
ensinar. (LIBâNEO, op.cit., p. 57) 
 
Qual o “marco” dessa época para a Didática? 
 
O século XVII representa um período de profundas transformações políticas, sociais, 
científicas, filosóficas, religiosas e econômicas, no mundo ocidental. O mercantilismo e a 
expansão marítima européia, a formação dos Estados Nacionais, a reforma protestante, 
a proposta heliocêntrica são diferentes aspectos dessas transformações. É nessa época 
que João Amós Comenius (1592-1670) escreveu a primeira obra clássica sobre Didática: a 
Didática Magna, publicada em 1657. 
Mestrado em Teologia ITG – Instituto Teológico Gamaliel 
10 
 
 
Comenius era um “homem do século XVII”, sintonizado parcialmente com os ideais da 
Modernidade que estavam por surgir. Pastor protestante, natural da Boêmia (atual República 
Tcheca), considerava a educação como um caminho para a salvação, uma formação para a 
vida eterna. “Ser homem” era, para ele, conhecer as coisas do mundo, e não apenas uma 
pequena área do saber. Disso decorre a importância do processo educativo tanto para a 
criação da identidade individual quanto para a socialização do indivíduo. A educação teria 
como uma de suas finalidades a transformação do indivíduo e da sociedade. 
 
Em sua Didática Magna, que tinha a pretensão de apresentar a “arte de ensinar tudo a 
todos”, ele propõe uma série de princípios e regras que deveriam nortear a educação. Entre 
outras coisas, Comenius defende uma escola para todos, ou seja, a universalização do ensino 
(princípio da igualdade). Além disso, considerava a escola como espaço (locus) privilegiado 
da educação, e a figura do professor como a do profissional específico e qualificado para a 
ação de educar. Preocupou-se em estabelecer princípios para o ensino das ciências e um 
planejamento escolar com vários “graus” de ensino vinculados aos graus de desenvolvimento 
do indivíduo. 
 
Para Comenius, o conhecimento vem dos sentidos, é trabalhado pela razão e iluminado 
pela fé. Em função disso, considera que o conhecimento verdadeiro provém de uma 
“observação correta” das coisas. Daí que o seu método de ensino – que ele pretendia “claro 
e único” – fosse baseado na observação da natureza e dos fenômenos, no olhar das próprias 
coisas e não na consulta aos livros. É por meio dos sentidos que se estabelece o contato 
entre a natureza e a mente. Esta, por sua vez, não é uma “tábula rasa”, mas “moldável”. 
Vemos, assim, que a epistemologia subjacente à proposta comeniana apresenta uma forte 
ênfase empirista e sensorialista (nesse terreno, Comenius foi influenciado pelo pensamento 
de Francis Bacon e pela idéia de “indução”). 
 
Ainda que várias de suas idéias tenham sido superadas, principalmente no que se refere 
à compreensão psicológica do processo de ensino e aprendizagem, Comenius foi realmente 
avançado para a época, podendo ser considerado o precursor da Didática como disciplina 
pedagógica. Num período em que o catolicismo dominava e a educação católica voltava-se à 
formação das classes dirigentes, com privilégio do latim, Comenius propôs a educação para 
todos e o uso do vernáculo. 
 
Apesar da Didática Magna só ter sido traduzida para o português em 1954, a obra de 
Comenius chegou a exercer certa influência no Brasil, ainda no início da República. Autores 
como Rui Barbosa e Fernando de Azevedo interessaram-se por suas idéias que, identificadas 
com o “método ativo e intuitivo”, foram em parte adotadas pela chamada Escola Nova e 
bastante utilizadas no ensino de Ciências. 
Na aula seguinte, teremos a oportunidade de analisar algumas das principais correntes 
do pensamento didático ao longo da História. Veremos que as teorias do ensino oscilaram 
entre privilegiar a atividade do professor, a atividade do aluno e o método de ensino. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Comenius 
 
Para falar desse autor, 
adotaremos como 
referência principal o 
trabalho de Kulesza 
(1992). 
 
Tábula rasa 
 
‘Tábula rasa’ é uma 
expressão muito usada em 
Educação que simboliza 
um estado de vazio 
completo da mente. Para 
Comenius, a mente não 
estaria nesse estado de 
vazio absoluto antes de 
qualquer experiência, mas 
teria a potencialidade de 
moldar-se, ajustar-se às 
experiências sensíveis. 
 
Indução 
 
Francis Bacon (1561- 
1626) procurou, no 
alvorecer da ciência 
moderna, estabelecer um 
método de investigação 
da natureza baseado na 
indução experimental. 
Para ele, deveria se 
partir da experimentação 
para se chegar às 
hipóteses que, testadas, 
levariam à formulação 
de leis e princípios 
gerais. Sinteticamente, 
o método baconiano 
iria da experiência para 
a racionalização, e do 
particular para o geral. 
 
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Atividade 5 
 
 
 
 
A partir do que foi apresentado sobre Comenius, tente apontar alguma de suas idéias 
e propostas que permanecem atuais, e outras que pareçam superadas. 
Justifique sua resposta. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mestrado em Teologia ITG – Instituto Teológico Gamaliel 
12 
Leituras Complementares 
 
 
Para que você possa aprofundar seus conhecimentos sobre o tema apresentado 
nesta aula, indicamos as referências a seguir. 
 
CANDAU, V. M. (org.). A didática em questão. Petrópolis: Vozes, 
1986. 
 
Esse conjunto de textos, organizados por Vera Candau, é um marco na 
história recente da Didática no Brasil. Resultado de um seminário realizado na PUC-
SP em 1982, no qual se discutiu e se refletiu sobre os novos rumos da Didática a 
partir do processo de redemocratização do país, essa publicação contém artigos dos 
principais autores nacionais do campo da Didática, e tornou-se um dos trabalhos mais 
citados nos anos que se seguiram. Ganhou, recentemente, uma nova edição. 
 
LIBâNEO, J. C. Educação: pedagogia e didática – o campo investigativo da pedagogia e 
da didática no Brasil: esboço histórico e buscas de identidade epistemológia e 
profissional. In: PIMENTA, S. G. (org.). Didática e formação de professores: percursos 
e perspectivas no Brasil e em Portugal. São Paulo: Cortez, 1997. 
O autor inicia abordando a problemática da identidade no campo do 
conhecimento pedagógico, defendendo que a Pedagogia seja uma das “ciências da 
educação” que busca integrar e dar coerência a todas elas, sendo o seu objeto o 
fenômeno educativo em seu conjunto. A seguir, Libâneo faz uma retrospectiva histórica 
dos estudos teóricos da Pedagogia no Brasil, dos jesuítas à década de noventa do século 
passado. Aponta a necessidade de se buscar uma identidade epistemológica para esse 
campo e procura diferenciar o “pedagógico” do “didático”, caracterizando-os. 
 
OLIVEIRA, M. R. N. S. Elementos teórico-metodológicos no processo de construção 
e reconstrução da didática (por uma nova teoria da prática pedagógica escolar). In: 
OLIVEIRA, M. R. N. S. (org.). Didática: ruptura, compromisso e pesquisa. Campinas: 
Papirus, 1995. 
Partindo de uma concepção dialético-materialista do ensino, Maria Rita 
Oliveira defende que a Didática rompa com o tecnicismo e volte-se a uma prática 
educativa transformadora da realidadesocial. A autora pensa o ensino na 
perspectiva da prática social, como uma “totalidade concreta”. As diversas 
dimensões do fenômeno ensino (histórica, ideológica, antropológica e 
epistemológica) delineariam os elementos teórico- metodológicos do campo da 
Didática. 
 
PENIN, S. T. S. O Ensino como “Acontecimento”. Cadernos de Pesquisa, no 98, pp. 14-23, 
1996. 
 
Nesse artigo, Sônia Penin analisa o “objeto” da Didática, defendendo que ele 
Mestrado em Teologia ITG – Instituto Teológico Gamaliel 
13 
seja o “acontecimento ensino”, em toda a sua extensão e profundidade. Discute as 
características da Didática como área do conhecimento em processo de 
epistemologização. Nessa direção, defende um rompimento com a epistemologia 
dominante (oriunda das Ciências Naturais), pois os parâmetros clássicos da investigação 
científica não esgotariam o estudo dos eventos presentes no ensino. 
 
PIMENTA, S. G. Para uma re-significação da didática – ciências da educação, pedagogia e 
didática (uma revisão conceitual e síntese provisória). In: PIMENTA, S. G. (org.). Didática 
e formação de professores: percursos e perspectivas no Brasil e em Portugal. São Paulo: 
Cortez, 1997. 
 
A autora propõe re-significar a Didática partindo da própria prática docente, rompendo com o 
triângulo professor-aluno-conhecimento. Aponta a importância da discussão epistemológica 
para a realização dessa tarefa, mas pensada a partir da prática, e não do ponto de vista 
teórico. Discute o objeto e o campo de atuação da Pedagogia e da Didática. No caso da 
última, defende que sua tarefa seja a de tomar o ensino como prática social e compreender o 
seu funcionamento enquanto tal, sua função social e suas implicações estruturais. 
 
 
 
 
 
Resumo 
 
 
Nesta aula, você percebeu que a Didática, enquanto disciplina pedagógica, tem 
como objeto de estudo o “fenômeno ensino”. Ela não é – como se costuma 
pensar – um “conjunto de técnicas para ensinar”, mas constitui-se em um 
corpo de conhecimentos amplo e complexo, que abraça saberes de diversas 
outras áreas. Por isso, os temas e assuntos que lhe dizem respeito são também 
variados e em grande número. Embora o ensino seja algo tão antigo quanto 
as primeiras sociedades humanas, a Didática configura-se como disciplina no 
século XVII, a partir da obra de João Amós Comenius. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mestrado em Teologia ITG – Instituto Teológico Gamaliel 
14 
Auto-avaliação 
 
 
 
Com base na leitura do texto e nas atividades desenvolvidas por você, faça uma 
reflexão sobre o que aprendeu e analise os principais aspectos mencionados 
nesta aula, considerando os seguintes itens: 
 
 
n a visão adquirida sobre a Didática enquanto disciplina pedagógica; 
 
n a origem e as características do pensamento didático; 
 
n a importância dessa disciplina para a sua formação como professor. 
 
 
 
 
Referências 
 
 
 
CANDAU, V. M. (Org.). A Didática em Questão. Petrópolis: Vozes, 
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