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historia da musica ocidenteal

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salmos raramente se expandiam em formas vocais e instrumentais de maiores proporções, ao invés do que sucedeu com os corais alemães; por isso mesmo, tÊm um papel muito menos relevante na história geral da música. Todavia, en-quanto música religiosa, são excelentes; a sua linha melódica, que evolui predominantemente por graus conjuntos, tem um carácter, até certo ponto, análogo ao do cantochão, e as frases organizam-se numa rica variedade de esquemas rítmicos. Não deixa de ser surpreendente que encontremos nos modernos hinários tão poucas melodias do Livro de Salmos francÊs de 1562; o exemplo mais conhecido é a melodia com a qual se cantava originalmente o salmo 134, utilizada nos livros ingleses para o salmo 100 e, por isso, conhecida como Old Hundreth ("O antigo centésimo") [exemplo 8.3, b)].
Um movimento anterior à Reforma que teve lugar na Boémia, encabeçado por Jan Hus (1373-1415), levou a uma total proscrição da música polifónica e dos instrumentos nas igrejas até meados do século xvi. Os hussitas cantavam hinos simples, geralmente monofónicos, de carácter popular. + medida que o rigor primitivo foi abrandando, começou a ser permitida a música a várias vozes, embora ainda em estilo de nota contra nota. Em 1561 um grupo conhecido como os Irmãos Checos publicou um hinário com textos em língua checa e melodias extraídas do reportório do canto gregoriano, das canções profanas ou dos salmos calvinistas franceses em versões a quatro vozes. Os Irmãos Checos, mais tarde chamados Irmãos Morávios, emigraram para a América no início do século xviii; as suas colónias -- especialmente a de Bethlehem, na Pensilvânia -- tornaram-se importantes centros musicais.
Na Polónia a Reforma não teve influÊncia duradoura, mas uma das consequÊncias foi a publicação em Cracóvia, no ano de 1580, de uma colecção de salmos com textos polacos da responsabilidade de Mikolaj Gomólka (c. 1535-c. 1609).
A Contra-Reforma
Os anos que precederam e se sucederam de perto a 1560 foram decisivos para a música católica do século xvi. A conquista e saque de Roma pelos mercenários espanhóis e alemães ao serviço de Carlos V, em 1527, vibrara um profundo golpe no estilo de vida luxuoso e secularizado dos prelados dessa cidade. Os partidários de uma reforma ganharam influÊncia crescente dentro da Igreja. A reforma do Norte da Europa e a perda ou risco de perda da Inglaterra, dos Países Baixos, da Alemanha, da -ustria, da Boémia, da Polónia e da Hungria tornavam ainda mais urgente o trabalho da Contra-Reforma.
O Concílio de Trento -- Entre 1545 e 1563, embora com numerosas interrupções, rea-lizou-se um concílio em Trento, no Norte de Itália, com o fim de formular e sancionar oficialmente um certo número de medidas destinadas a expurgar a Igreja de abusos e laxismos. No tocante à música sacra (que apenas ocupou uma pequena parte dos traba-lhos do concílio), as principais queixas que se fizeram ouvir no Concílio de Trento diziam respeito ao seu espírito frequentemente profano, evidenciado nas missas baseadas em cantus firmus profanos ou na imitação de chansons, e à complexa polifonia que impossibilitava a compreensão das palavras da liturgia. Além disso, houve quem criticasse o uso excessivo de instrumentos ruidosos na igreja e a pronúncia incorrecta, a negligÊncia e a atitude geralmente irreverente dos cantores; em 1555 o papa dirigiu ao coro de S. Pedro uma reprimenda memorável a este respeito. Todavia, a decisão final do Concílio de Trento acerca destas matérias foi extremamente vaga: afirmava--se apenas a necessidade de evitar tudo o que fosse "impuro ou lascivo" para "que a casa de Deus possa de direito ser chamada uma casa de oração" (v. vinheta). A aplica-ção desta directiva foi deixada ao cuidado dos bispos diocesanos, tendo sido também nomeada uma comissão especial de cardeais para superintender na sua aplicação em Roma. O concílio não abordou quaisquer aspectos de carácter técnico: não foram espe-cificamente proibidas nem a polifonia nem a imitação de modelos profanos.
Durante muito tempo correu uma lenda segunda a qual, quando o Concílio de Trento estava a ser instado a abolir a polifonia, Palestrina teria composto uma missa a seis vozes para demonstrar que o estilo polifónico não era de modo algum incompatível com um espírito reverente e não perturbava necessariamente a compreensão do texto; Palestrina ter-se-ia, assim, tornado o "salvador da música sacra". A veracidade desta lenda foi, no entanto, contestada.
A missa em causa é a que foi publicada em 1567 com o título de Missa do Papa Marcelo; poderá ter sido escrita durante o breve pontificado de Marcelo II (1555) ou, mais provavelmente, em data posterior, sendo dedicada à memória desse papa. O que não sabemos ao certo é qual terá sido a sua relação com o Concílio de Trento. O concílio foi seguramente influenciado nas suas decisões finais pela música de Jaco-bus de Kerle (c. 1532-1591), compositor flamengo que em 1561 comp?s uma série de preces speciales que foram cantadas numa sessão do concílio e que, pela transparÊncia da sua escrita polifónica, pelo uso frequente do idioma homofónico e pelo seu espírito religioso e sóbrio, convenceram a generalidade dos membros do concílio do valor da música polifónica, silenciando os poucos extremistas que se mostravam inclinados a bani-la.
Palestrina -- É o nome da pequena localidade próxima de Roma onde nasceu o compositor Giovanni da Palestrina. Foi menino do coro e recebeu a formação musical em Roma; depois, em 1544, foi nomeado organista e mestre de capela na cidade natal. Em 1551 tornou-se mestre da Cappella Giulia de S. Pedro de Roma; em 1554 publicou o primeiro livro de missas, dedicado ao seu patrono, o papa Júlio III. Foi por breves meses, em 1555, cantor da Cappella Sistina, a capela oficial do papa, mas teve de abandonar o cargo por ser casado, não satisfazendo, por conseguinte, o requisito do celibato. Ocupou depois o posto de mestre de capela em S. João de Latrão (Roma), e seis anos depois transferiu-se para um cargo semelhante, mas de maior importância, em Santa Maria Maior. De 1556 a 1571 ensinou no recém-criado Seminário Jesuíta de Roma. Em 1571 foi de novo chamado a S. Pedro, onde permaneceu como mestre da Cappella Giulia até à sua morte, em 1594.
Palestrina rejeitou por duas vezes ofertas que o afastariam de Roma: uma do imperador Maximiliano II, em 1568 (foi Philippe de Monte quem acabou por ocupar o cargo), e outra do duque Guglielmo Gonzaga, em Mântua, no ano de 1853; embora Palestrina não tenha aceitado o convite do duque, escreveu nove missas para a capela ducal, que só recentemente foram redescobertas.
Na última parte da sua vida Palestrina superintendeu a revisão da música dos livros litúrgicos oficiais para que esta concordasse com as alterações entretanto introduzidas nos textos por ordem do Concílio de Trento e para expurgar os cantos de "barbarismo, obscuridades, contrariedades e superfluidades" que neles se haviam infiltrado, segundo o papa Gregório XIII, "em consequÊncia da inabilidade, negligÊncia ou mesmo perversidade dos compositores, escribas e impressores"1. Esta tarefa não ficou completa em vida de Palestrina, mas foi continuada por outros até 1614, ano em que veio a lume a edição do Gradual de Médicis. Esta e outras edições, mais ou menos divergentes, permaneceram em diversos países até à reforma definitiva do canto, que tomou corpo na edição vaticana de 1908.
Na sua esmagadora maioria, as obras de Palestrina são sacras: escreveu 104 missas, cerca de 250 motetes, muitas outras composições litúrgicas e cerca de 50 madrigais espirituais com textos italianos. Os seus cento e poucos madrigais profanos são tecnicamente perfeitos, mas conservadores no estilo; ainda assim, Palestrina veio mais tarde a confessar que "corava e se recriminava" por ter composto sobre poemas de amor.
O estilo palestriniano -- Não há compositor anterior a Bach cujo renome iguale o de Palestrina, nem outro cuja técnica de composição tenha sido objecto de análise tão minuciosa. Palestrina