Prévia do material em texto
SUMÁRIO
1. Introdução ..................................................................................... 3
2. Classificação ............................................................................... 4
3. Noções de taxonomia .............................................................. 7
4. Importância da microbiologia ................................................ 8
5. Morfologia ..................................................................................... 9
6. Estruturas externas da célula bacteriana ...................... 13
7. Membrana plasmática – modelo mosaico fluido ........ 17
8. Estruturas internas ................................................................. 19
9. Reprodução bacteriana ........................................................ 20
10. Microbiota normal ................................................................ 24
11. Microbiota da pele ............................................................... 26
12. Microbiota dos olhos e conjuntiva ................................. 29
13. Microbiota do trato respiratório ...................................... 30
14. Microbiota do trato gastrointestinal .............................. 34
15. Microbiota do trato genitourinário ................................. 39
16. Patogênese bacteriana ...................................................... 41
17. Resistências aos antibióticos .......................................... 48
Referências bibliográficas ....................................................... 53
3BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
1. INTRODUÇÃO
A microbiologia [do grego: mikros
(“pequeno”), bios (“vida”) e logos (“ci-
ência”)] é o estudo dos organismos
microscópicos e de suas atividades.
Preocupa-se com a forma, a estru-
tura, a reprodução, a fisiologia, o me-
tabolismo e a identificação dos mi-
crorganismos. Assim a microbiologia
envolve o estudo de organismos pro-
cariotos (bactérias, archaeas), euca-
riotos inferiores (algas, protozoários,
fungos).
A microbiologia teve início com o
polimento de lentes, feitas a partir
de peças de vidro, combinadas até
produzir aumentos suficientemen-
te grandes que possibilitassem a vi-
sualização dos microrganismos. Os
relatos de Robert Hooke e Antony
van Leeuwenhoek possibilitaram as
primeiras observações de bactérias e
outros microrganismos. Embora não
tenha sido, provavelmente, o primeiro
a ver as bactérias e os protozoários, o
holandês Antony van Leeuwenhoek
(1632-1723) foi o primeiro a relatar
suas observações, com descrições
precisas e desenhos. Embora van Le-
euwenhoek seja considerado o “pai”
da microbiologia, os relatos de Hooke,
descrevendo a estrutura de um bolor,
foram publicados anteriormente aos
de Leeuwenhoek. Assim, esses dois
pesquisadores são considerados os
pioneiros nessa ciência.
Os microrganismos procariontes
compreendem as bactérias, que se
dividem em eubactérias e arqueobac-
térias, e os microrganismos eucarion-
tes, que compreendem os protozoá-
rios e alguns fungos.
4BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
CONCEITO! Bactérias são organismos
unicelulares. Podem ser encontrados de
forma isolada ou em colônias; são cons-
tituídos por uma célula (unicelulares),
não possuem núcleo celular definido
(procariontes) e não possuem organelas
membranosas.
2. CLASSIFICAÇÃO
Quanto ao grau de organização
celular
As células dos microrganismos po-
dem ser divididas em duas catego-
rias: células eucarióticas apresentam
um núcleo separado do citoplasma
por uma membrana nuclear (cariote-
ca); células procarióticas apresentam
material nuclear sem membrana.
CARACTERÍSTICAS DOS PRINCIPAIS GRUPOS DE MICRORGANISMOS
Microrganismos Características
Vírus
Acelulares; menores e mais simples em estrutura que as bactérias; contém geralmente um
tipo de ácido nucleico (DNA ou RNA), protegido por uma capa proteica; podem multiplicar-
-se apenas dentro das células vivas. Porém, poucos vírus de DNA, como o citomegalovírus
e o vírus da hepatite B, podem iniciar a síntese de moléculas de RNA enquanto ainda estão
se formando, de modo que a partícula viral contém os dois tipos de ácidos nucleicos (DNA
e RNA).
Bactérias
São procariontes; não possuem membrana nuclear (carioteca) e estruturas membranosas
intracelulares organizadas; são divididas em dois grupos: Eubactérias e Arqueobactérias.
Eubactérias
Apresentam várias formas (esféricas, bastonetes e espirilo), aparecem isoladas ou em for-
mas de colônia; variam de 0,2 – 5,0 µm; são unicelulares e algumas apresentam flagelos.
Arqueobactérias
São semelhantes às eubactérias, mas apresentam diferenças importantes quanto a sua
composição química, habitam ambientes extremos como os de altas concentrações salinas,
os de acidez e os de temperatura.
Protozoários
São eucariontes; unicelulares, não apresentam parede celular rígida, não contém clorofila;
alimentam-se por ingestão; alguns movem-se por meio de flagelos ou cílios e são ampla-
mente distribuídos na natureza.
Fungos
São eucariontes; com parede celular rígida; uni ou pluricelulares; desprovidos de clorofila;
alimentam-se por absorção. São conhecidos como bolores, leveduras e cogumelos.
Algas
São eucariontes; contém clorofila (realizam fotossíntese); podem ser uni ou pluricelula-
res; apresentam parede celular rígida; crescem em diversos ambientes, mas a maioria é
aquática.
Tabela 1. Características dos principais grupos de microrganismos. Fonte: Adaptado de Amabis e Martho. Disponível
em: http://estudio01.proj.ufsm.br/cadernos/ifgo/tecnico_acucar_alcool/microbiologia_geral.pdf
5BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
Figura 1. Estrutura de uma célula bacteriana. Fonte: retirado de https://paixaoporbiologia.blogspot.com/
Figura 2. Estrutura da célula animal. Fonte: Carvalho, Irineide Teixeira de. Microbiologia básica / Irineide Teixeira de
Carvalho. – Recife: EDUFRPE, 2010.
6BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
Os procariontes possuem duas linha-
gens distintas: Bactéria (ou eubac-
téria) e Archea. São os menores
organismos e os mais simples es-
truturalmente. Em termos evolutivos,
eles são também os mais antigos or-
ganismos da Terra (foram encontra-
dos fósseis de cerca de 3,5 bilhões
de anos).
CÉLULAS PROCARIONTES CÉLULAS EUCARIONTES
Grupos pertencentes Bactérias e cianobactérias
Protozoários, algas, fungos,
vegetais e animais
Tamanho da célula 0,2 – 5,0 µm 10 – 100 µm
Núcleo Ausente – ausência de carioteca Presente – presença de carioteca
Organelas membranosas Ausentes Presentes
Glicocálice Presente Presente em células animais
Parede celular
Presente e complexa bioquimica-
mente (parede celular bacteriana
típica apresenta peptidoglicano)
Quando presente é simples quimi-
camente (apenas plantas e fungos)
Ribossomos Distribuídos no citoplasma
Distribuídos no retículo endo-
plasmático, na mitocôndria e no
cloroplasto
DNA
Cromossomo único, circular, sem
histonas
Cromossomo múltiplos, linear, com
histonas
Divisão celular Fissão binária Mitose e meiose
Tabela 2. Diferenças entre células procariontes e células eucariontes. Fonte: retirado de http://estudio01.proj.ufsm.br/
cadernos/ifgo/tecnico_acucar_alcool/microbiologia_geral.pdf
Quanto ao metabolismo
O metabolismo apresenta dois com-
ponentes: o catabolismo e o anabolis-
mo. O metabolismo catabólico englo-
ba processos de obtenção de energia,
liberada pela clivagem de diferentes
compostos (p. ex., glicose), que é usa-
da para síntese de ATP. O metabolis-
mo anabólico, ou de biossíntese inclui
processos que utilizam a energia ar-
mazenada no ATP para sintetizar e
montar as subunidades das macro-
moléculas que compõem a célula.
As bactérias apresentam grande di-
versidade metabólica. Existem espé-
cies heterótrofas e espécies autótro-
fas. Dentre as primeiras, destacam-se
as parasitas, as decompositoras de
matéria orgânica e as que obtêm ma-
téria orgânica de outros seres vivos,
com os quais se associam sem pre-
judicá-los. Dentre as autótrofas, exis-
tem espécies que produzem matéria
orgânica por fotossíntese e outras
que produzem por quimiossíntese.de sinergismo com ß-lactâmicos
para o tratamento de infecções entero-
cócicas graves, como a endocardite.
Resistência a sulfametoxazol-tri-
metoprima: Os enterococos fre-
quentemente exibem suscetibilidade
a sulfametoxazol-trimetoprima em
testes in vitro, mas esses fármacos
não são eficazes no tratamento de in-
fecções. Tal discrepância decorre da
capacidade dos enterococos de uti-
lizarem folatos exógenos disponíveis
51BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
in vivo, escapando, assim, da inibição
pelos fármacos.
Resistência às quinolonas: Está as-
sociada a alguns mecanismos de re-
sistência, como: alteração de permea-
bilidade e hiperexpressão de bombas
de efluxo; alterações do sítio de ação
(topoisomerases); resistência media-
da por plasmídeos; alteração enzimá-
tica da molécula do antimicrobiano.
SE LIGA! A emergência de resistência a
fluoroquinolonas tem implicações no tra-
tamento de infecções hospitalares e co-
munitárias. As enterobactérias são pa-
tógenos frequentemente associados a
infecções do trato urinário, comunitárias,
e pneumonias associadas à assistência
à saúde. A emergência de mutantes re-
sistentes de K. pneumoniae durante tra-
tamento com ciprofloxacina já foi descri-
ta, podendo levar à falha terapêutica.
52BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
MAPA MENTAL GERAL
Parede celular
Flagelos
Pêlos
Glicocálice
BACTERIOLOGIACLASSIFICAÇÃO
MORFOLOGIA
RESISTÊNCIA
REPRODUÇÃO
ESTRUTURAS
INTERNAS
MICROBIOTA
ESTRUTURAS
EXTERNAS
PATOGÊNESE
Citoplasma
Inclusões
citoplasmáticas
Nucleoide
Plasmídeos
Cocos
Bastonetes
Espirilos
Espiroquetas
Cocobacilo
Vibrião
Transformação
Conjugação
Transdução
Residente
Transitória
Mutualista
Comensais
Oportunistas
Mecanismo usado pelo
patógeno para causar
lesões no hospedeiro
Grau de
organização celular
Transmissão de
plasmídeos via
conjugação
Causa: uso
indiscriminado de ATB
Metabolismo
53BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
KUMAR, Vinay; ABBAS, Abul K.; ASTER, Jon C. Robbins patologia básica. 9. ed. Rio de
Janeiro: Elsevier, 2013.
Microbiologia médica de Jawetz, Melnick e Adelberg. 26. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014.
Gallagher, Jason C., author. | MacDougall, Conan, author. Title: Antibiotics simplified / Ja-
son C. Gallagher, Conan MacDougall. Description: Fourth edition. | Burlington, MA : Jones &
Bartlett Learning, [2017]
“A diversidade metabólica das bactérias” em Só Biologia. Virtuous Tecnologia da Informa-
ção, 2008-2020. Consultado em 28/03/2020 às 14:35. Disponível na Internet em https://
www.sobiologia.com.br/conteudos/Reinos/biomonera2.php
DE ARAÚJO, Ana Paula Ulian; BOSSOLAN, Nelma Regina Segnini. Noções de Taxonomia e
Classificação Introdução à Zoologia.
FEDERAL, GOVERNO DO DISTRITO. Segurança do Paciente: higienização das mãos nos
serviços de saúde.
Vieira, Darlene Ana de Paula. Microbiologia Geral / Darlene Ana de Paula Veira, Nayara Cláu-
dia de Assunção Queiroz. Inhumas: IFG; Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria,
2012.
Carvalho, Irineide Teixeira de. Microbiologia básica / Irineide Teixeira de Carvalho. – Recife:
EDUFRPE, 2010.
54BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)7BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
3. NOÇÕES DE
TAXONOMIA
O estudo descritivo de todas as espé-
cies de seres vivos e sua classificação
dentro de uma verdadeira hierarquia
de grupamentos constitui a sistemá-
tica ou taxonomia.
MAPA MENTAL: CLASSIFICAÇÃO
CLASSIFICAÇÃO
Presença de carioteca
separando o núcleo do
citoplasma
GRAU DE ORGANIZAÇÃO
CELULAR
Linhagens
Material nuclear
inserido no citoplasma
Parasitas,
decompositoras de
matéria orgânica.
Produtoras de matéria
orgânica por
fotossíntese e por
quimiossíntese.
EUCARIONTES PROCARIONTES HETERÓTROFAS AUTÓTROFAS
METABOLISMO
BACTERIANO
Bactéria Archea
A classificação, a nomenclatura e a
identificação constituem três áre-
as distintas, porém inter-relaciona-
das da taxonomia. A classificação
pode ser definida como a categori-
zação de microrganismos em grupos
taxonômicos.
A classificação de bactérias exige
um conhecimento adquirido por meio
8BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
de técnicas experimentais e de ob-
servação, devido à frequente neces-
sidade de se recorrer a propriedades
bioquímicas, fisiológicas, genéticas e
morfológicas para efetuar uma des-
crição adequada de um táxon.
Nomenclatura refere-se à designa-
ção de um organismo segundo re-
gras internacionais (estabelecidas
por um grupo de profissionais clínicos
reconhecidos), de acordo com suas
características.
A identificação é o uso prático de
um esquema de classificação para: (
1) isolar e distinguir microrganismos
desejáveis de outros indesejáveis; (2)
verificar a autenticidade ou as pro-
priedades especiais de determinada
cultura, (3) isolar e identificar o agente
etiológico de determinada doença. A
última função pode levar à seleção de
um tratamento farmacológico orien-
tado para a erradicação do agente,
de uma vacina que atenue sua pa-
tologia, ou de uma medida de saúde
pública (p. ex., lavagem de mãos ou
uso de preservativo) que previna sua
transmissão.
Na designação científica os nomes
devem ser em latim de origem ou, en-
tão, latinizados.
• Todo nome científico deve estar
destacado no texto. Pode ser es-
crito em itálico, se for impresso,
ou sublinhado se for em trabalhos
manuscritos.
• Cada organismo deve ser reconhe-
cido por uma designação binomial,
sendo o primeiro termo para de-
signar o seu gênero e o segundo,
a sua espécie. Considera-se um
erro grave usar o nome da espécie
isoladamente, sem ser antecedido
pelo gênero.
• O nome relativo ao gênero deve ser
um substantivo simples ou com-
posto, escrito com inicial maiúscula.
• O nome relativo à espécie deve
ser um adjetivo escrito com inicial
minúscula, salvo raríssimas exce-
ções: nos casos de denominação
específica em homenagem a pes-
soa célebre. Por exemplo no Bra-
sil, há quem escreva: Trypanoso-
ma Cruzi, já que o termo Cruzi é
a transliteração latina do nome de
Oswaldo Cruz, uma homenagem a
esse grande sanitarista brasileiro.
4. IMPORTÂNCIA DA
MICROBIOLOGIA
A microbiologia aplicada estuda o
controle e o uso dos microrganismos
de maneira benéfica (processos in-
dustriais, controle de pragas e de do-
enças, produção de alimentos, etc.).
Na área industrial, os microrganismos
são utilizados na síntese de substân-
cias químicas como ácido cítrico, an-
tibióticos mais complexos e enzimas.
Na área ambiental, os microrganis-
mos são usados como agentes de
9BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
biodegradação e de limpeza ambien-
tal, no controle de pragas, etc.
A microbiologia médica trata dos mi-
crorganismos causadores de doen-
ças e da prevenção e controle das
mesmas.
A microbiologia dos alimentos está
relacionada com doenças transmiti-
das por alimentos, controle de quali-
dade e produção de alimentos (quei-
jos, bebidas, pães, etc.).
5. MORFOLOGIA
As bactérias são variáveis quanto
ao tamanho e quanto às formas que
apresentam.
Em relação ao tamanho, a unidade de
medida das bactérias é o mm (micrô-
metro) que equivale a 10^3 mm. Mui-
tas bactérias medem de 2 a 6 mm de
comprimento e 1 a 2 mm de largura.
Tamanho variável: 0,1 – 0,2 m 5,0
mm.
Embora existam milhares de espécies
bacterianas, elas podem ser agrupa-
das em três tipos morfológicos gerais:
cocos, bacilos e espiralados.
• Formas de cocos (esféricas) – é o
grupo de bactérias mais homogê-
neo em relação ao tamanho. Os
cocos tomam denominações dife-
rentes de acordo com o seu arranjo.
◊ Micrococos – cocos.
◊ Diplococos – cocos agrupados
aos pares.
◊ Tétrades – agrupamentos de
quatro cocos.
◊ Sarcina – agrupamentos de
oito cocos em forma cúbica.
◊ Estreptococos – cocos agru-
pados em cadeias.
◊ Estafilococos – cocos agru-
pados em grupos irregulares,
lembrando cachos de uva.
10BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
Figura 3. Diferentes arranjos de bactérias esféricas (cocos): (a) Coco: Methanococcus sp; (b) Diplococo: Neisseria sp
(gonococo); (c) Tétrade: Deinococcus sp; (d) Sarcina: Methanosarcina sp; (e) Estreptococo: Streptococcus sp e (f) Estáfi-
lococo: Staphylococcus sp. Fonte: retirado de www.estudio01.proj.ufsm.br
• Forma de bastonete – são células
cilíndricas em forma de bastone-
te; apresentam grande variação na
forma e no tamanho entre gêneros
e espécies.
SE LIGA! As células bacterianas cilín-
dricas ou em bastonetes (bacilos) não
apresentam a mesma disposição dos
cocos, mas podem apresentar-se iso-
lados, aos pares (diplobacilos) e em ca-
deias (estreptobacilos). Em alguns casos
esses arranjos não constituem padrões
morfológicos característicos, mas é de-
vido às etapas de crescimento ou às
condições de cultivo. De um modo geral,
essas duas formas de bactérias (cocos
e bacilos) são as mais comuns entre as
contaminantes nas indústrias de açúcar
e de álcool.
11BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
Figura 4. Exemplos de bastonetes: (a) Halobacterium e (b) Salmonella, causadora de aguda infecção intestinal em
humanos. Fonte: retirado de www.estudio01.proj.ufsm.br
◊ Espiroquetas – são flexíveis
e locomovem-se geralmente
por contrações do citoplas-
ma, podendo dar várias voltas
completas em torno do próprio
eixo. Ex.: Gênero Treponema.
• Formas espiraladas – caracteriza-
das por células em espiral; divi-
dem-se em:
◊ Espirilos – possuem corpo rí-
gido e movem-se à custa de
flagelos externos. Ex.: Gênero
Aquaspirillium.
Figura 5. Exemplos de bactérias com formas espiraladas: (a) espirilo e (b) espiroqueta Leptospira interrogans, causa-
dora da leptospirose. Fonte: retirado de www.estudio01.proj.ufsm.br
• Além desses três tipos morfológi-
cos, existem algumas formas de
transição.
◊ Bacilos muito curtos: coco-
bacilo.
◊ Unidades celulares que se
assemelham a uma vírgula:
vibrião.
12BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
Figura 6. Formas bacterianas de transição: exemplos de vibriões (a) Vibrio cholerae, causador da cólera em humanos e
(b) Vibrio vulnificus, agressiva bactéria carnívora. Fonte: retirado de www.estudio01.proj.ufsm.br
MAPA MENTAL: MORFOLOGIA
MORFOLOGIA
Diplococos
COCOS
(esféricas)
BACILOS VIBRIÃO
BASTONETES
(cilíndricas)
FORMAS
ESPIRALADAS
(espiral)
Micrococos
Tétrades
Sarcina
Estreptococos
Estafilococos
Espirilos
Espiroquetas
13BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
6. ESTRUTURAS
EXTERNAS DA CÉLULA
BACTERIANA
Parede celular
A parede celular é uma estrutura rígida
que está presente em quase todas as
bactérias e localiza-se acima da mem-
brana citoplasmática. Ela contém po-
límeros complexos conhecidos como
peptidioglicanos, que são responsá-
veis pela sua rigidez. A parede celular
impede que a célula estoure em de-
corrência do grande turgor, atua como
uma barreira de proteção contra de-
terminados agentes químicos e físicos
externos e funciona como suporte de
antígenos somáticos bacterianos.
CONCEITO! Polímeros são macromolé-
culas formadas a partir de unidades es-
truturais menores.
As bactérias podem ser divididas em
dois grandes grupos, com base na
capacidade de suas paredes celula-
res fixarem o corante violeta cristal: as
Gram-positivas (que coram em roxo)
e as Gram-negativas (que coramem
vermelho).
A parede celular de bactérias Gram-
-positivas é composta basicamen-
te por peptideoglicano, que constitui
uma espessa camada ao redor da
célula. Outros polímeros, tais como
ácidos lipoteicóicos e polissacarídeos,
também podem estar presentes nes-
sa camada.
Nas bactérias Gram-negativas o pep-
tideoglicano constitui uma camada
basal delgada, sobre a qual se encon-
tra outra camada, denominada mem-
brana externa que é composta por li-
poproteínas, fosfolipídios, proteínas e
lipopolissacarídeos.
Figura 7. Paredes bacterianas gram-positivas e gram-negativas. Fonte: Microbiologia médica de Jawetz, Melnick e
Adelberg. 26. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014.
14BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
peptideoglicano torne-se menos per-
meável, retendo o corante. Nas Gram-
-negativas, devido à pequena espes-
sura da camada de peptideoglicano,
o complexo corado é extraído pelo ál-
cool, deixando as células descoradas.
O tratamento com fucsina não altera a
cor roxa das Gram-positivas, ao passo
que as Gram-negativas descoradas
pelo álcool tornam-se avermelhadas.
A coloração de Gram é amplamente
utilizada para identificar e classificar
bactérias.
O processo de coloração de Gram
consiste basicamente em tratar bac-
térias sucessivamente com cristal
violeta, lugol, álcool e fucsina. O cris-
tal violeta e o lugol penetram tanto
nas bactérias Gram-positivas quanto
nas Gram-negativas, formando um
complexo de cor roxa.
O tratamento com álcool é a etapa di-
ferencial; nas Gram-positivas, o álco-
ol não retira o complexo cristal violeta
+ lugol, pois a sua ação desidratante
faz com que a espessa camada de
Figura 8. Processo de coloração do Gram. Fonte: retirado de www.estudio01.proj.ufsm.br
SE LIGA! O processo de coloração de
Gram é usado para classificar as bacté-
rias em Gram-positivas ou Gram-nega-
tivas, conforme fixam ou não o corante.
Essa classificação é importante, pois as
bactérias Gram-positivas são mais sen-
síveis à penicilina e à sulfa. Este processo
de coloração é um dos mais importantes
métodos realizados em laboratório de
microbiologia.
Flagelos
São organelas especiais (apêndices
delgados) responsáveis pela locomo-
ção das bactérias. De acordo com o
número e distribuição dos flagelos,
as bactérias podem ser classificadas
como: atríquias (sem flagelos), mono-
tríquias (um único flagelo), anfitríquias
15BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
(um flagelo em cada extremidade),
lofotríquias (um tufo de flagelos em
uma, ou ambas as extremidades) e
peritríquias (apresentando flagelos ao
longo de todo o corpo bacteriano).
NA PRÁTICA! Algumas bactérias mo-
vimentam-se por outros meios, diversos
da atividade flagelar, tais como o des-
lizamento provocado pelo fluxo proto-
plasmático ou pela resposta táxica (fo-
totaxia, quimiotaxia).
Figura 9. Exemplos de bactérias com flagelos: (a) monotríquia Pseudomonas aeruginosa; (b) anfitríquia Fetus venerea-
lis; (c) lofotriquia Spirillum volutans e (d) peritríquia Salmonella. Fonte: retirado de www.estudio01.proj.ufsm.br
Pêlos (fímbrias)
São apêndices finos, retos e curtos
que estão presentes em muitas bac-
térias Gram-negativas. São encon-
trados tanto nas espécies móveis
como nas imóveis e, portanto, não
desempenham papel relativo à mo-
bilidade. Os pêlos originam-se de
corpúsculos basais na membrana
citoplasmática e sua função parece
estar relacionada com a troca de ma-
terial genético durante a conjugação
16BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
Figura 10. Exemplos de bactérias fimbriadas: (a) bactéria Escherichia coli recoberta de fímbrias e (b) com fímbrias e
flagelos. Fonte: retirado de www.estudio01.proj.ufsm.br
Glicocálice
É formado por uma substância muci-
laginosa ou gelatinosa (viscosa) e fica
ligada à parede celular como um re-
vestimento externo. Se o glicocálice
estiver organizado de maneira defi-
nida e acoplado firmemente à parede
celular, recebe o nome de cápsula; se
estiver desorganizado e sem qual-
quer forma frouxamente acoplada à
parede celular, recebe o nome de ca-
mada limosa. O glicocálice pode ser
de natureza polissacarídica (um ou
vários tipos de açúcares como galac-
tose, ramnose, glicana, etc.) ou poli-
peptídica (ácido glutâmico). O glico-
cálice desempenha papel importante
na infecção, permitindo que a bactéria
patogênica se ligue a tecidos especí-
ficos do hospedeiro. Acredita-se que
o glicocálice possa proteger as bacté-
rias da dessecação.
bacteriana (fímbria sexual) com a
aderência às superfícies mucosas. As
fímbrias podem ser removidas sem
comprometimento da viabilidade ce-
lular e regeneram-se rapidamente.
17BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
MAPA MENTAL: ESTRUTURAS EXTERNAS DA CÉLULA BACTERIANA
ESTRUTURAS
EXTERNAS
DA CÉLULA
BACTERIANA
Gram negativas
FLAGELOS
Membrana externa
de lipoproteínas,
fosfolipídio, proteínas
GLICOCÁLICE
PÊLOSPAREDE CELULAR
Atríquias
Monotríquias
Anfitríquias
Lofotríquias
Peritríquias
Troca de material
genético durante a
conjugação bacteriana
com a aderência às
superfícies mucosas.
Cápsula
Camada limosa
Gram positivas
Camada espessa de
Peptideoglicano
Camada delgada de
Peptideoglicano
7. MEMBRANA
PLASMÁTICA – MODELO
MOSAICO FLUIDO
Fina membrana que separa a parede
celular do citoplasma. Sua espessu-
ra é da ordem de 7,5 nanômetros e
é composta principalmente por uma
bicamada de fosfolipídeos (20 a 30%)
e proteínas (50 a 70%); desempenha
importante papel na permeabilidade
seletiva da célula. A membrana é o
sítio da atividade enzimática específi-
ca e do transporte de moléculas para
dentro e para fora da célula.
18BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
Os mesossomos são invaginações
da membrana plasmática que podem
ser simples dobras ou estruturas tu-
bulares ou vesiculares. Alguns auto-
res associam ainda aos mesossomos
o valor funcional das mitocôndrias,
atribuindo a eles o papel na respira-
ção bacteriana.
Ela difere da membrana plasmática
das células eucarióticas por:
• Não apresentar esteróides em sua
composição;
• Ser sede de numerosas enzimas
do metabolismo respiratório das
bactérias (mesmas funções das
cristas mitocondriais);
• Controlar a divisão bacteriana atra-
vés dos mesossomos.
Figura 11. Estrutura celular da membrana plasmática. Fonte: Microbiologia médica de Jawetz, Melnick e Adelberg. 26.
ed. Porto Alegre: AMGH, 2014.
Este diagrama acima do modelo de
mosaico fluido da estrutura da mem-
brana bacteriana mostra as proteínas
integrais (verde e vermelha) inseridas
na bicamada lipídica. Proteínas peri-
féricas (amarela) estão frouxamente
associadas à membrana de superfície
interna. As pequenas esferas repre-
sentam as extremidades hidrofílicas
da membrana fosfolipídica, e as cau-
das duplas, as cadeias de ácidos gra-
xos hidrofóbicos. Outros lipídeos de
19BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
vegetais. O cromossomo bacteriano
consiste em um cromossomo único
e circular e ocupa uma posição pró-
xima ao centro da célula. Pode ser
chamado de nucleóide. Várias bacté-
rias apresentam também moléculas
de DNA extracromossomal, denomi-
nadas plasmídeos, as quais são ge-
ralmente circulares, contendo muitas
vezes genes que conferem carac-
terísticas adaptativas vantajosas ao
microrganismo.
CONCEITO! Plasmídeos são moléculas
de DNA de dupla fita pequenas e circu-
lares. Não estão conectados ao cromos-
somo bacteriano principal e replicam-se,
independentemente, do DNA cromos-
sômico. Podem ser ganhos ou perdidos
sem lesar a celular e transferidos de uma
bactéria para outra. Podem transportar
genes para atividades como a resistên-
cia aos antibióticos, tolerância aos me-
tais tóxicos, produção de toxinas e sínte-
se de enzimas. Quanto mais alto o peso
molecular maior será sua importância.
Cada plasmídeo tem uma função pró-
pria, os que não têm função são crípticos
e apresentam baixo peso molecular.
membrana, tais como os hopanoides
(púrpura), podem estar presentes.
Por razões de clareza, os fosfolipíde-
os são mostrados proporcionalmente
em tamanho muito maiordo que o ta-
manho real nas membranas.
8. ESTRUTURAS
INTERNAS
Citoplasma
É composto pela porção fluida e con-
tém substâncias dissolvidas e partí-
culas, tais como ribossomos, e ma-
terial nuclear ou nucleóide, rico em
DNA.
Inclusões citoplasmáticas
As inclusões são formações não vivas
existentes no citoplasma, como grãos
de amido, gotas de óleo, chamadas de
grânulos, e podem servir como fonte
de material de reserva ou energia
Nucleoide e plasmídeos
As células bacterianas não contêm
o núcleo típico das células animais e
20BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
9. REPRODUÇÃO
BACTERIANA
As bactérias geralmente reprodu-
zem-se assexuadamente por fissão
binária ou cissiparidade. Nesse pro-
cesso reprodutivo ocorre à replica-
ção do cromossomo e uma única cé-
lula divide-se em duas; em seguida
ocorre a divisão do cromossomo bac-
teriano replicado e o desenvolvimen-
to de uma parede celular transversal.
A fissão binária não é o único método
reprodutivo assexuado entre as bac-
térias. Também pode ocorrer esporu-
lação e brotamento.
MAPA MENTAL: ESTRUTRAS INTERNAS
Porção fluida
rica em DNA
CITOPLASMA
PLASMÍDEOS
INCLUSÕES
CITOPLASMÁTICASNUCLEOIDE
Fonte de material de
reserva de energia
Cromossomo
único e circular
Genes que conferem
características
adaptativas vantajosas
ao microrganismo
ESTRUTURAS
INTERNAS
21BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
Figura 12. (a) Fissão binária e (b) exemplo de divisão binária em bactéria Moraxella catarrhalis
• Transformação – incorporação de
fragmentos de DNA perdidos por
outra bactéria que se rompeu. Esse
mecanismo demonstra formal-
mente que o DNA é a base quími-
ca da hereditariedade.
Embora não ocorra reprodução se-
xuada, pode ocorrer troca de mate-
rial genético entre as bactérias. Tal
recombinação genética pode ocorrer
por transformação, conjugação ou
transdução.
Figura 13. Transformação bacteriana
22BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
• Conjugação – duas células bac-
terianas geneticamente diferen-
tes trocam DNA através de pêlo
sexual.
Figura 14. (a) Conjugação bacteriana e (b) exemplo de conjugação entre bactérias
• Transdução – moléculas de DNA
são transferidas de uma bactéria
para outra usando os vírus como
vetores (bacteriófagos). Quando
o bacteriófago entra numa célula
bacteriana, o DNA do vírus mistu-
ra-se com uma parte do DNA bac-
teriano, de modo que o vírus pas-
sa a carregar essa parte do DNA.
Se o vírus infecta uma segunda
bactéria, o DNA da primeira pode
misturar-se com o DNA da segun-
da. Essa nova informação genéti-
ca é então replicada a cada nova
divisão.
23BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
Figura 15. Transdução bacteriana
24BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
A expressão “microbiota normal” re-
fere-se à população de microrganis-
mos que habita a pele e as mucosas
dos indivíduos normais e sadios. Es-
ses microrganismos, referidos como
microbiota normal, que vivem den-
tro e sobre os seres humanos supe-
ram em cerca de 10 vezes o número
de células somáticas e germinativas
humanas somadas. Os genomas
desses microrganismos simbiontes
são coletivamente definidos como
microbioma.
Pesquisas têm mostrado que a “mi-
crobiota normal”, fornece a primei-
ra linha de defesa contra patógenos
microbianos, auxilia na digestão, de-
sempenha um papel na degradação
das toxinas e contribui para a matu-
ração do sistema imunológico. Mu-
danças na microbiota normal ou na
estimulação da inflamação por es-
ses comensais podem causar doen-
ças, tais como as doenças intestinais
inflamatórias.
CLASSIFICAÇÃO DA MICROBIOTA
Fonte: https://cienciasaudeefarmacia.files.wordpress.com/2014/10/aula-8-microbiota.pdf
Mirobiota
Residente
Composição influenciada por
hábitos do hospedeiro
Mirobiota
Transitória
Gêneros e espécies típicas de
determinados sítios anatômicos
Composição influenciada por
características dos sítios anatômicos
Recomposição rápida após remoção
por degermação ou anti-sepsia
Presente temporariamente
no sítio anatômico
Facilmente removida por
degermação ou anti-sepsia
10. MICROBIOTA NORMAL
25BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
A pele e as membranas mucosas
sempre abrigam uma variedade de
microrganismos que podem ser clas-
sificados em dois grupos:
• Microbiota residente, que con-
siste em tipos relativamente fixos
de microrganismos encontrados
com regularidade em determina-
das áreas e em certa idade, e que,
quando perturbada, recompõe-se
prontamente; e
• Microbiota transitória, que con-
siste em microrganismos não pa-
togênicos ou potencialmente pa-
togênicos, os quais permanecem
na pele ou nas mucosas por horas,
dias ou semanas, vindos do meio
ambiente, não causando doença e
nem se estabelecendo permanen-
temente na superfície.
Em geral, os membros da microbiota
transitória são de pouca importância,
enquanto a microbiota residente nor-
mal permanece intacta. Entretanto, se
a microbiota residente for perturbada,
os microrganismos transitórios pode-
rão colonizar e proliferar-se, ocasio-
nando doença.
No corpo humano encontra-se gran-
de quantidade de microrganismos,
os quais se distribuem em diferentes
órgãos e tecidos, podendo-se encon-
trar dez vezes mais células microbia-
nas que células humanas. A distribui-
ção dos microrganismos depende de
vários fatores, tais como: umidade,
acidez, temperatura e disponibilidade
de nutrientes. Esses microrganismos
influenciam o sistema imunológico, a
resistência aos patógenos e o apro-
veitamento dos alimentos.
Na microbiota humana os microrga-
nismos podem ser mutualistas, co-
mensais e oportunistas.
• Mutualistas são os microrganis-
mos que protegem o hospedeiro,
pois produzem nutrientes impor-
tantes e colaboram para o cresci-
mento e desenvolvimento do sis-
tema imunológico.
• Comensais são os microrganismos
que mantêm associações sem be-
nefícios ou malefícios detectáveis,
sendo estas associações neutras.
• Oportunistas são os microrganis-
mos que causam doenças em indi-
víduos com o sistema imune com-
prometido devido a vários fatores,
tais como nos casos de: infecção
pelo vírus da imunodeficiência ad-
quirida humana, terapia imunossu-
pressora de transplantados, radio-
terapia, quimioterapia anticâncer,
queimaduras extensas ou perfura-
ções das mucosas.
O organismo humano dispõe de me-
canismos de defesa contra a pato-
gênese bacteriana decorrente da
microbiota humana. Porém, alguns
microrganismos podem agir como
26BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
oportunistas, sendo assim, a micro-
biota constitui-se em reservatório de
bactérias patogênicas e estas podem
invadir os tecidos do hospedeiro cau-
sando doenças graves, mas apenas
no caso de imunodeficiência transitó-
ria ou persistente.
11. MICROBIOTA DA PELE
BACTÉRIAS ASSOCIADAS À MICROBIOTA DA PELE
COCOS GRAM
POSITIVOS
Staphylococcus aureus
Staphylococcus epidermidis
Micrococcus
Streptococcus
Difteroides
Propionilbacterium acnes
Corynebacterium xerosis
BACILOS
GRAM
POSITIVOS
ANAERÓBIOS
A pele é o maior órgão do corpo hu-
mano e é colonizada por uma varie-
dade de microrganismos não pato-
gênicos e, eventualmente, benéficos
para o hospedeiro. Em virtude de sua
constante exposição e contato com
o meio ambiente, a pele mostra-se
particularmente propensa a abrigar
microrganismos transitórios. Entre-
tanto, existe uma microbiota residen-
te constante e bem definida, modifi-
cada em diferentes áreas anatômicas
por secreções, uso habitual de roupas
ou proximidade de membranas mu-
cosas (boca, nariz e área perineal).
27BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
percutânea está no interior do estra-
to córneo que é o mais fino e menor
compartimento da pele.
A estrutura básica da pele inclui, da
camada externa para a mais inter-
na: estrato córneo, epiderme, derme
e hipoderme. A barreira à absorção
Figura 16. Camadas da pele. Fonte: retirado de http://dicas-enfermagem.blogspot.com/
Os microrganismos residentes en-
contrados predominantemente na
pele são os bacilos difteroides ae-
róbios e anaeróbios (p. ex., Coryne-
bacterium,Propionibacterium); esta-
filococos aeróbios e anaeróbios não
hemolíticos (Staphylococcus epider-
midis e outros estafilococos coagu-
lase-negativos, ocasionalmente Sta-
phylococcus aureus e espécies de
Peptostreptococcus); bacilos gram-
-positivos, aeróbios e formadores de
esporos, onipresentes no ar, na água
e no solo; estreptococos a-hemolíti-
cos (estreptococos viridans) e entero-
cocos (espécies de Enterococcus); e
bacilos gram-negativos coliformes e
Acinetobacter. Com frequência, veri-
fica-se a presença de fungos e leve-
duras nas dobras cutâneas; ocorrem
micobactérias não patogênicas álco-
ol-acidorresistentes em áreas ricas
em secreções sebáceas (genitália,
orelha externa).
28BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
Entre os fatores que podem ser im-
portantes na eliminação de microrga-
nismos não residentes da pele, des-
tacam-se pH baixo, ácidos graxos
nas secreções sebáceas e presença
de lisozima. Nem a sudorese profusa,
nem a lavagem e o banho são capa-
zes de eliminar ou modificar signifi-
cativamente a microbiota residente
normal. O número de microrganis-
mos superficiais pode ser diminuído
por escovação vigorosa diária com
sabão que contenha hexaclorofeno
ou outros desinfetantes; todavia, a
microbiota recupera-se rapidamen-
te a partir das glândulas sebáceas e
sudoríparas mesmo quando o conta-
to com outras áreas da pele ou com
o meio ambiente é totalmente evita-
do. O uso de curativo oclusivo na pele
tende a resultar em aumento acentu-
ado da população microbiana total, e
pode também causar alterações qua-
litativas da microbiota.
SE LIGA! Com frequência, bactérias
anaeróbias e aeróbias unem-se para
causar infecções sinérgicas (gangrena,
fasceíte necrosante e celulite) na pele
e nos tecidos moles. As bactérias fre-
quentemente fazem parte da microbio-
ta normal. Em geral, é difícil apontar um
microrganismo específico como respon-
sável pela lesão progressiva, visto que
em geral estão envolvidas misturas de
microrganismos.
Além de ser uma barreira física, a pele
é uma barreira imunológica. Os que-
ratinócitos continuamente reconhe-
cem a microbiota da pele por meio
dos receptores de reconhecimento de
padrão (PRRs, p. ex., receptores do
tipo Toll (TLR), receptores de manose,
receptores do tipo NOD). A ativação
dos receptores de reconhecimento
de padrão presentes nos queratinóci-
tos pelos padrões moleculares asso-
ciados a patógenos (PAMPs) inicia a
resposta imune inata, resultando na
secreção de peptídeos antimicrobia-
nos, citocinas e quimiocinas. Embora
a pele seja exposta a um grande nú-
mero de microrganismos, ela é capaz
de reconhecer entre microrganismos
da microbiota normal e microrganis-
mos potencialmente patogênicos. Os
mecanismos que permitem essa se-
letividade não estão completamente
esclarecidos.
29BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
12. MICROBIOTA DOS
OLHOS E CONJUNTIVA
Devido à sua constante exposição ao
meio externo, a conjuntiva está sujei-
ta a intensa contaminação microbia-
na. A maioria dos microrganismos é
removida por lacrimação, restando
apenas uma microbiota de densidade
relativamente baixa, consistindo em
um número reduzido de espécies.
CARACTERÍSTICAS GERAIS DA CONJUNTIVITE
CONJUNTIVITE
1 a 2 semanas
Duração
• Haemophilus influenzae
• Chlamydia trachomatis
• Neisseria gonorrhoeae
• Pseudomonas
Etiologia
SintomasConceito
Inflamação da conjuntiva
(membrana externa do
globo ocular)
Coceira, irritação,
hiperemia e sensação de
desconforto nos olhos
Bacteriana ViralAlérgica
Os microrganismos predominantes
da conjuntiva consistem em:
• Difteroides (Corynebacterium xe-
rosis);
• S. epidermidis; e
• Estreptococos não hemolíticos.
30BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
Com frequência, verifica-se também
a presença de Neisseria e bacilos
gram-negativos semelhantes ao Ha-
emophilus (espécies de Moraxella). A
microbiota da conjuntiva normalmen-
te é controlada pelo fluxo da lágrima.
A lágrima, é um fluido constituído por
componentes como lisozima, lactofer-
rina, beta-lisina e IgG. A combinação
sinérgica desses componentes tem
a capacidade de destruir bactérias,
explicando a ação antibacteriana re-
conhecida das lágrimas. As lágrimas,
agem também de maneira mecânica,
removendo a maioria dos microrga-
nismos que invadem a conjuntiva ou
a superfície do globo ocular através
dos ductos lacrimais em direção às
fossas nasais.
SE LIGA! As propriedades antibacteria-
nas das lágrimas são refletidas no fato
de que os pacientes com paralisia de
Bell, por exemplo, que perderam a ca-
pacidade para piscar e remover micror-
ganismos da córnea, desenvolvem fre-
quentemente a conjuntivite bacteriana.
A paralisia de Bell é um distúrbio de ins-
talação repentina, sem causa aparente,
marcado pelo enfraquecimento ou para-
lisia dos músculos de um dos lados do
rosto.
13. MICROBIOTA DO
TRATO RESPIRATÓRIO
Figura 17. Infecções do trato respiratório. Fonte: retirado de www.ufjf.br/microbiologia
31BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
realizado. Assim, nos primeiros está-
gios (menos de 5 minutos após o par-
to) a microbiota é homogeneamente
distribuída pelo corpo. A composição
da microbiota normal de neonatos
nascidos por parto normal é seme-
lhante à microbiota vaginal das mães,
enquanto neonatos nascidos de ce-
sária raramente apresentam na com-
posição de sua microbiota microrga-
nismos vaginais (p. ex. Lactobacillus,
Prevotella, Atopobium e Sneathia
spp.). Esses neonatos são coloniza-
dos nos diferentes habitats do seu
corpo por microrganismos da pele
de suas mães (p. ex. Staphylococcus,
Corynebacterium e Proprionibacte-
rium spp.)
No decorrer de 4 a 12 horas após o
nascimento, os estreptococos viridans
estabelecem-se como membros mais
proeminentes da microbiota residen-
te e assim permanecem por toda a
vida. Provavelmente, originam-se das
vias respiratórias da mãe e dos aten-
dentes. No início da vida, aparecem
estafilococos aeróbios e anaeróbios,
diplococos gram-negativos (Neisse-
ria, Moraxella catarrhalis ), difteroides
e lactobacilos ocasionais.
Na faringe e na traqueia, verifica-se o
estabelecimento de uma microbiota
semelhante, enquanto poucas bac-
térias são encontradas nos brônquios
normais. Os bronquíolos e alvéolos
são normalmente estéreis. Os micror-
ganismos predominantes nas vias
respiratórias superiores, em particular
A composição da microbiota pulmo-
nar é moldada primeiramente pelo
ambiente: clima, zona geográfica, a
área onde vive e a exposição a ani-
mais domésticos, entre outros, mas
tem também muitas semelhanças
com a microbiota intestinal.
São vários os fatores que podem di-
minuir a diversidade bacteriana e le-
var a desequilíbrios na microbiota
respiratória: alguns estão relaciona-
dos com o corpo (defesas imunitárias
reuzidas, tosse, etc.), outros com o
ambiente (tabaco, infeções virais, tra-
tamento com antibióticos, etc.). Um
desequilíbrio (disbiose) na microbiota
pulmonar pode levar ao aparecimen-
to de bactérias e fungos patogénicos
e contribuir para o desenvolvimen-
to de doenças respiratórias crónicas,
como a asma e a Doença Pulmonar
Obstrutiva Crónica (DPOC).
Um amplo espectro de organismo
coloniza o nariz, a garganta e a boca,
porém os brônquios inferiores e al-
véolos contém poucos organismos
ou nenhum. O nariz é colonizado por
uma variedade de espécies estrepto-
cócicas e estafilocócicas, a mais im-
portante é S. aureus.
Ao contrário de suas mães que apre-
sentam uma microbiota normal com-
plexa e diferenciada, os neonatos são
inicialmente colonizados por uma co-
munidade microbiana simples e indi-
ferenciada nos vários habitats do seu
corpo, independente do tipo de parto
32BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
na faringe, consistem em estreptoco-
cos não hemolíticos e a-hemolíticos,
bem como neisserias. Também são
observados estafilococos, difteroides,
Haemophilus, pneumococos, Myco-
plasma e Prevotella.
SE LIGA! A aspiração de saliva (conten-
do até 10^2 desses microrganismos,
bem como aeróbios) pode resultar em
pneumonianecrosante, abscesso pul-
monar e empiema.
DOENÇA PATÓGENO SINTOMAS TRATAMENTO
Epiglotite Haemophilus influenzae Inflamação da epiglote
Antibióticos: manutenção
das vias aéreas
Prevenção: vacina Hib
Faringite
estreptocócica
Streptococcus, especialmente,
Streptococcus pyogenes
Membranas mucosas da
garganta inflamada
Penicilina
Difteria Corynebacterium diphtheriae
Forma-se uma membrana
na garganta; a forma cutâ-
nea também ocorre
Penicilina e antitoxina
Prevenção: vacina DTP
Otite média
Muitos agentes, especialmente
Staphylococcus aureus, Strep-
tococcus pneumoniae e Haemo-
philus influenzae
Acúmulo de pus no ouvido
médio causando dor e pres-
são no conduto auditivo
Antibióticos de amplo
espectro
Prevenção: vacina
pneumocócica
Tabela 3. Infecções do trato respiratório superior. Fonte: http://www.ufjf.br/microbiologia
DOENÇA PATÓGENO SINTOMAS TRATAMENTO
Pneumonia
bacteriana
Streptococcus pneumoniae,
Pseudomonas aeruginosa, Kleb-
siella pneumoniae, Haemophilus
influenzae, Moraxella catarrhalis
e Staphylococcus aureu
Febre, tosse com escarro
amarelado, dispneia
Antibióticos de amplo
espectro
Prevenção: vacina
pneumocócica
Coqueluche Bordetella pertussis
Espasmos de tosse intensa
para limpar o muco
Eritromicina
Prevenção: vacina DTP/
DTP- Hib
Tuberculose
Mycobacterium tuberculosis,
Mycobacterium bovis
Tosse, sangue no muco
Drogas múltiplas
antimicobactérias
Prevenção: leite pasteuri-
zado; vacina BCG
Tabela 4. Infecções do trato respiratório superior - continuação. Fonte: retirado de www.ufjf.br/microbiologia
33BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
MECANISMOS PATOGÊNICOS PROVOCADOS POR BACTÉRIAS DO TRATO GASTROINTESTINAL
Invadem e danificam a mucosa
intestinal e lâmina própria
Shigella
Salmonella
Campylobacter
Vibrio cholerae
Escherichia coli
toxicogênica
Salmonella typhi
Se multiplicam no interior da
camada mucosa que recobre o epitélio
intestinal e liberam endotoxinas
Passa da mucosa danificada, através das
placas de Peyer e linfonodos mesentéricos,
para alcançar a corrente sanguínea
Ulceração
Inflamação
Hemorragia
Grandes volumes de
fluido secretado pelo
epitélio intestinal
Infecção sistêmica
Disenteria
Diarreia aquosa
Fonte: KUMAR, Vinay; ABBAS, Abul K.; ASTER, Jon C. Robbins
patologia básica. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.
34BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
14. MICROBIOTA
DO TRATO
GASTROINTESTINAL
O trato gastrintestinal humano é di-
vidido em diferentes compartimentos
permitindo a digestão e a absorção
de nutrientes na região proximal, que
é separada de uma grande popula-
ção microbiana presente no intestino
grosso. Ao nascimento, o intestino é
estéril, porém diferentes microrganis-
mos são introduzidos com os alimen-
tos. O ambiente (p. ex., a microbiota
vaginal, fecal e da pele materna) é o
principal fator determinante do perfil
inicial da microbiota.
Nos lactentes alimentados por ma-
madeiras, existe uma microbiota mais
diversificada no intestino, e os lacto-
bacilos são menos proeminentes. À
medida que os hábitos alimentares
evoluem para o padrão do adulto, a
microbiota intestinal modifica-se. A
dieta exerce acentuada influência so-
bre a composição relativa das micro-
biotas intestinal e fecal. O intestino
dos neonatos em berçários de trata-
mento intensivo tende a ser coloni-
zado por Enterobacteriaceae, como,
por exemplo, Klebsiella, Citrobacter e
Enterobacter.
NA PRÁTICA! As bifidobactérias são as
bactérias mais prevalentes na microbiota
infantil e sua quantidade é significativa-
mente maior nos lactentes alimentados
com leite materno do que nos alimenta-
dos com fórmulas. Os lactobacilos são
parte da microbiota subdominante, e
estão sob o controle das bifidobactérias.
Os lactobacilos e as bifidobactérias ini-
bem o crescimento de bactérias exóge-
nas e/ou nocivas, estimulam as funções
imunológicas, auxiliam na digestão e/ou
absorção dos ingredientes e minerais
dos alimentos, e contribuem para a sín-
tese de vitaminas.
A microbiota normal da boca tem um
papel importante na placa dental e
na cárie. A cárie é uma desintegra-
ção do dente que começa pelo es-
malte e progride para a dentina e a
polpa dentária. Primeiramente, o es-
malte dentário, o qual é inteiramen-
te acelular, é desmineralizado. Esse
processo é atribuído aos microrganis-
mos presentes no biofilme dental que
pela atividade metabólica glicolítica
produzem ácidos orgânicos a partir
de determinados substratos. Em se-
guida, a decomposição da dentina e
do cemento da superfície radicular
exposta envolve a digestão bacteria-
na da matriz proteica. O S. mutans é
considerado o microrganismo predo-
minante na iniciação da cárie, porém
múltiplos membros do biofilme den-
tal participam na evolução dessa le-
são, incluindo outros Streptococcus (
S. sobrinus, S. sanguinis e S. saliva-
rius), Lactobacillus (L. acidophilus, L
35BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
casei) e Actinomyces (A. viscosis e A.
naeslundii).
SE LIGA! Uma dieta à base de monos-
sacarídeos (p. ex. glicose e frutose) e de
dissacarídeos (sacarose, lactose e mal-
tose) proporciona um substrato funda-
mental para a glicólise bacteriana.
HORA DA REVISÃO! |
A placa dental é um biofilme complexo
composto por uma microbiota normal.
O metabolismo de carboidratos por mi-
crorganismos pertencentes a esse bio-
filme, como o Streptococcus mutans, é
responsável pela patogênese da cárie.
No adulto normal, o esôfago contém
microrganismos transportados pela
saliva e pelos alimentos. Por con-
ta do pouco trânsito alimentar nesse
segmento do trato gastrointestinal,
o esôfago possui pouca proliferação
bacteriana associada.
A acidez do estômago mantém o nú-
mero de microrganismos em nível mí-
nimo, a não ser que a obstrução do pi-
loro favoreça a proliferação de cocos e
bacilos gram-positivos. Das centenas
de filotipos detectados no estôma-
go humano, somente o Helicobacter
pylori persiste nesse ambiente. O pH
ácido normal do estômago protege
acentuadamente o indivíduo contra
infecções por alguns patógenos en-
téricos (p. ex., o Vibrio cholerae).
A administração de antiácidos, an-
tagonistas de receptor H2 e inibido-
res de bomba de prótons para úlce-
ra péptica e refluxo gastresofágico
resulta em acentuado aumento da
microbiota do estômago, inclusive
muitos microrganismos em geral pre-
valentes nas fezes.
SE LIGA! À medida que o pH do conte-
údo intestinal se torna alcalino, a micro-
biota residente aumenta gradualmente.
No duodeno de um adulto, existem
10^3 a 10^4 bactérias/mL efluen-
tes; uma maior população no jejuno
(10^4-10^5/mL), no íleo (10^8 bac-
térias/mL), no ceco e no colo transver-
so, (10^11 bactérias/mL). No intesti-
no delgado a população microbiana
associada à mucosa inclui os filos
Bacteroidetes e Clostridiales, enquan-
to no lúmen incluem membros do filo
Enterobacteriales e Enterococcus.
No colo sigmoide e no reto as bacté-
rias constituem 60% da massa fecal.
Os anaeróbios são predominantes
sobre os organismos facultativos em
uma proporção de 1.000 para 1. Na
diarreia o conteúdo de bactérias pode
diminuir acentuadamente, ao passo
que a contagem aumenta na estase
intestinal. No colo normal do adulto,
96 a 99% da microbiota residente
consistem em anaeróbios.
36BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
Figura 18. Nichos metabólicos no microbioma intestinal. Fonte: retirado de www.researchgate.net/
figure/A-Metabolic-niches-in-the-gut-microbiome-The-localization-and-spatial-organization-of_fig1_331881807
Estômago
Duodeno
Jejuno e Íleo
Cólon
Intestino
delgado
37BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
As importantes funções da micro-
biota intestinal podem ser divididas
em três categorias principais:
A primeira desta são as funções
de proteção, nas quais as bacté-
rias residentes deslocam e inibem
indiretamente patógenos poten-
ciais, pela competição por nutrien-
tes e receptores ou indiretamente
através da produção de fatores
antimicrobianos, tais como bacte-
riocinas e ácido láctico.
Em segundo lugar, organismoscomensais são importantes para
o desenvolvimento e a função
do sistema imunológico das mu-
cosas. Eles induzem a secreção
de lgA, influenciam o desenvol-
vimento do sistema imunológico
humoral intestinal e modulam a
resposta T celular e os perfis de
citocinas.
A terceira categoria consiste em
uma grande variedade de fun-
ções metabólicas. A microbiota
do intestino delgado pode con-
tribuir para as necessidades de
aminoácidos apresentadas pelo
hospedeiro, caso não fornecido
pela alimentação. As bactérias
intestinais produzem ácidos gra-
xos de cadeia curta que contro-
lam a diferenciação das células
epiteliais intestinais. Elas sinteti-
zam vitamina K, biotina e folato
e melhoram a absorção de íons.
Certas bactérias metabolizam
substâncias carcinogênicas da
dieta e auxiliam na fermenta-
ção de resíduos não digestíveis
da dieta. Existem atualmente
evidências de que as bactérias
intestinais podem influenciar a
deposição de gorduras no hos-
pedeiro, levando a obesidade.
Nos seres humanos, a administração
oral de antimicrobianos pode supri-
mir temporariamente os componen-
tes da microbiota fecal suscetíveis
aos fármacos. Os efeitos agudos
da antibioticoterapia na microbio-
ta intestinal nativa variam de uma
diarreia autolimitada até uma colite
pseudomembranosa.
CONCEITO! Colite pseudomembrano-
sa é uma inflamação no intestino grosso
que provoca diarreia e dor, causada pela
bactéria C. difficile.
A supressão intencional da microbio-
ta fecal é comumente efetuada pela
administração oral pré-operatória de
fármacos insolúveis. Por exemplo, a
neomicina combinada com a eritro-
micina pode, em 1 a 2 dias, suprimir
parte da microbiota intestinal, parti-
cularmente os aeróbios. O metroni-
dazol exerce o mesmo efeito sobre os
anaeróbios.
Se for efetuada uma cirurgia de in-
testino grosso quando as contagens
1
2
3
38BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
microbianas estiverem em seu valor
mínimo, poderá ser obtida alguma
proteção contra a infecção decorren-
te de extravasamento acidental. En-
tretanto, pouco depois a contagem da
microbiota fecal aumenta novamente
e atinge níveis normais ou acima da
faixa normal, incluindo principalmente
alguns microrganismos em virtude de
sua resistência relativa aos fármacos
administrados. Os microrganismos
sensíveis aos fármacos são substitu-
ídos por microrganismos resistentes,
em particular estafilococos, entero-
bactérias, enterococos, Pseudomo-
nas, Clostridium difficile e leveduras.
A ingestão de grandes quantidades
de Lactobacillus acidophilus pode re-
sultar em estabelecimento temporá-
rio desse microrganismo no intestino,
com a supressão parcial concomitan-
te de outra microbiota intestinal.
CONCEITO! Lactobacillus acidophilus
indicado no tratamento das enteroco-
lites (inflamação do intestino delgado
e grosso) e suas manifestações. É indi-
cado também durante a terapêutica por
antibióticos e quimioterápicos por via
oral.
Embora as bactérias da microbiota
intestinal sejam normalmente inócu-
as para o hospedeiro, em indivíduos
geneticamente suscetíveis alguns
componentes da microbiota podem
resultar em doença. Por exemplo, a
doença inflamatória intestinal pode
estar associada pela baixa tolerância
imunológica a antígenos bacterianos.
Isso leva a uma intensa inflamação
causada por uma exuberante respos-
ta imunológica. Mecanismos similares
podem ser importantes em maligni-
dades intestinais, tais como o câncer
de colo.
As Enterobacteriaceae constituem
um grande grupo heterogêneo de ba-
cilos gram-negativos cujo habitat na-
tural é o trato intestinal de seres hu-
manos e animais. A família abrange
muitos gêneros (Escherichia, Shigella,
Salmonella, Enterobacter, Klebsiella,
Serratia, Proteus e outros). Alguns
microrganismos entéricos, tais como
a Escherichia coli, fazem parte da
microbiota normal e acidentalmente
provocam doenças, enquanto outros,
como as salmonelas e shigelas, são
regularmente patogênicos para os
seres humanos.
As E. coli que provocam diarreia são
extremamente comuns no mundo
inteiro. São classificadas com base
nas características de suas proprie-
dades de virulência. As propriedades
de aderência nas células epiteliais
do intestino delgado ou do intestino
grosso são codificadas por genes nos
plasmídeos. De modo semelhante, as
toxinas são frequentemente media-
das por plasmídeos ou fagos.
Os clostrídeos são bastonetes gram-
-positivos grandes, anaeróbios e mó-
veis. Muitos decompõem proteínas ou
39BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
formam toxinas, e alguns fazem am-
bos os processos. Seu habitat natural
é o solo ou o trato intestinal de ani-
mais e seres humanos, onde vivem
como saprófitas. Entre os patógenos,
estão os microrganismos respon-
sáveis pelo botulismo, pelo tétano,
pela gangrena gasosa e pela colite
pseudomembranosa.
BACTÉRIAS ASSOCIADAS ÀS INFECÇÕES GASTROINTESTINAIS
Bactérias
Gram -
Família
Enterobacteriaceae
Escherichia
Bactérias
Gram +
Formadoras de
endospóros
Não formadoras de
endospóros
Shigella
Salmonella
Enterobacter
Klebsiella
Serratia
Proteus
Clostridium botulinum
Staphylococcus aureus
http://www.ufjf.br/microbiologia
15. MICROBIOTA DO
TRATO GENITOURINÁRIO
O trato urinário, dos rins ao meato
uretral, é normalmente estéril e resis-
tente à colonização bacteriana ape-
sar da contaminação frequente da
uretra distal com bactérias colônicas.
A principal defesa contra infecção do
trato urinário é o esvaziamento com-
pleto da bexiga durante a micção.
Outros mecanismos que mantêm a
esterilidade do trato urinário incluem
40BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
assim até a puberdade), verifica-se a
presença de uma microbiota mista de
cocos e bacilos.
Na puberdade, os lactobacilos ae-
róbios e anaeróbios reaparecem em
grande número e contribuem para
manutenção do pH ácido com a pro-
dução de ácido a partir de carboidra-
tos, em particular glicogênio. Trata-se
aparentemente de um mecanismo
importante para evitar o estabeleci-
mento, na vagina, de outros micror-
ganismos possivelmente prejudiciais.
ESQUEMA DE FORMAÇÃO DO MEIO ÁCIDO VAGINAL
ESTROGÊNIO Produção de
glicogênio vaginal
Metabolização de
glicogênio vaginal
Fermentação por
Lactobacillus
Proteção do
meio vaginal Diminuição do pH Produção de
ácido lático
a válvula vesicoureteral e várias bar-
reiras mucosas e imunológicas.
A uretra anterior de ambos os sexos
contém um pequeno número dos
mesmos tipos de microrganismos en-
contrados na pele e no períneo. Esses
microrganismos aparecem regular-
mente na urina normal eliminada em
números de 10^2 a 10^4/mL.
Pouco depois do nascimento, apare-
cem na vagina lactobacilos aeróbios
que persistem enquanto o pH perma-
nece ácido (várias semanas). Quando
o pH se torna neutro (permanecendo
Se os lactobacilos forem suprimidos
pela administração de antimicrobia-
nos, o número de leveduras ou várias
bactérias aumentará, causando irrita-
ção e inflamação.
A vaginose bacteriana é uma sín-
drome caracterizada por alterações
drásticas nas espécies da microbiota
vaginal e em suas proporções relati-
vas. Ocorrem mudanças a partir de
um ecossistema vaginal saudável,
onde há lactobacilos, para um estado
de doença marcado pela presença de
microrganismos pertencentes ao filos
Bacteroidetes e Actinobacteria.
41BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
Após a menopausa, o número de lac-
tobacilos novamente diminui, e rea-
parece uma microbiota mista. A mi-
crobiota normal da vagina inclui os
estreptococos do grupo B em apro-
ximadamente 25% das mulheres no
período da gravidez.
SE LIGA! Durante o parto, a criança
pode adquirir um estreptococo do grupo
B, que pode subsequentemente causar
sepse neonatal e meningite.
A microbiota vaginal normal tam-
bém inclui estreptococos a-hemo-
líticos, estreptococos anaeróbios
(peptoestreptococos), espécies de
Prevotella, Clostridium, Gardnerella
vaginalis, Ureaplasma urealyticum e,
mais raramente, espécies de Listeria
ou Mobiluncus. O muco cervical tem
atividadeantibacteriana e contém
lisozima.
Em algumas mulheres, o introito vagi-
nal contém uma microbiota densa que
se assemelha à microbiota do períneo
e da área perineal, o que pode consti-
tuir um fator predisponente nas infec-
ções recorrentes do trato urinário.
SE LIGA! Gardnerella vaginalis é um
bacilo Gram-negativo que está impli-
cado como principal causa de vaginose
bacteriana (vaginite). As pacientes tipi-
camente apresentam uma secreção va-
ginal fina, verde-acinzentada, com odor
desagradável (peixe).
16. PATOGÊNESE
BACTERIANA
FATORES DETERMINANTES PARA INVASÃO MICROBIANA
https://www.msdmanuals.com/pt-br/profissional/doen%C3%A7as-infecciosas/biologia-
das-doen%C3%A7as-infecciosas/fatores-facilitadores-da-invas%C3%A3o-microbiana
Invasão
microbiana
Cápsulas,
enzimas e toxinasFatores de virulência
Aderência microbriana
Resistência aos antimicrobianos
Defeitos nos mecanismos
de defesa do hospedeiro
42BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
EXOTOXINAS ENDOTOXINAS
Exotoxina
Parede celular
Endotoxina
Secretadas pelas bactérias; atingem concentra-
ções altas no meio da cultura
Parte integrante da parede das bactérias gram-
-negativas. São liberadas principalmente, quando
as bactérias morrem
Produzidas por bactérias gram-positivas e
gram-negativas
Encontradas exclusivamente nas bactérias
gram-negativas
Polipeptídios com peso molecular de 10 a 900kDa Lipopolissacarídios da parede bacteriana
Altamente tóxicas Toxicidade moderada
Instáveis: a toxicidade é destruída pelo aqueci-
mento superior a 60°C
Mais estáveis; resistem ao aquecimento
Ligam-se a receptores da membrana celular Não foi observada a ligação com receptores
Geralmente não causam febre
Geralmente causam febre, pela liberação de subs-
tâncias ativas no organismo infectado
Tabela 4. Características das exotoxinas e endotoxinas das bactérias patogênicas. Fonte: Microbiologia médica de
Jawetz, Melnick e Adelberg [recurso eletrônico] / Geo. F. Brooks ... [ et al.] ; [tradução: Cláudio M. Rocha-de-Souza ;
revisão técnica: José Procópio Moreno Senna]. - 26. ed. - Dados eletrônicos. - Porto Alegre : AMGH, 2014.
43BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
A patogênese da infecção bacteriana
abrange o início do processo infec-
cioso e os mecanismos que levam ao
aparecimento dos sinais e sintomas
da doença.
As bactérias patogênicas caracteri-
zam-se por sua capacidade de dis-
seminação, aderência e persistência,
bem como invasão de células e teci-
dos do hospedeiro, toxigenicidade e
capacidade de escapar ou sobreviver
ao sistema imunológico do hospedei-
ro. A resistência a antimicrobianos e
a desinfetantes também pode contri-
buir para virulência ou para capacida-
de do microrganismo em causar do-
ença. Muitas infecções causadas por
bactérias geralmente tidas como pa-
tógenos são assintomáticas. Ocorre-
rá doença se as bactérias ou reações
imunológicas à sua presença prejudi-
carem o hospedeiro.
ALGUNS FATORES DE VIRULÊNCIA BACTERIANOS
FATORES DE
VIRULÊNCIA
BACTERIANOS
Fatores de aderência
Enzimas que
degradam tecidosEnzimas
Variação antigênica
Toxinas
Crescimento intracelular
Fatores antifagocíticos
Formação de biofilme
Endotoxinas e
exotoxinas
Cápsulas
44BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
CONCEITO!
Patogênese: mecanismo usado
pelo patógeno para causar lesões no
hospedeiro.
Patogenicidade: capacidade que um
agente infeccioso tem de provocar
doença.
Toxigenicidade: capacidade que um mi-
crorganismo tem de produzir uma toxina
que contribui para o desenvolvimento
de doença.
Virulência: capacidade quantitativa de
um agente provocar doença. A virulên-
cia envolve aderência, persistência, in-
vasão e toxigenicidade.
Aderência {adesão, fixação): processo
pelo qual as bactérias se fixam à super-
fície das células do hospedeiro. Após as
bactérias terem penetrado no organis-
mo, a aderência constitui uma etapa ini-
cial importante no processo de infecção.
Os termos aderência, adesão e fixação
frequentemente são utilizados como
sinônimos.
Invasão: processo pelo qual bactérias,
parasitas animais, fungos e vírus pene-
tram nas células ou nos tecidos do hos-
pedeiro e disseminam-se pelo corpo.
Cepas: Grupos ou linhagens de um
agente infeccioso.
As bactérias (e outros microrganis-
mos) podem se adaptar a uma va-
riedade de ambientes que incluem
fontes externas como: solo, água e
matéria orgânica ou em ambientes
internos encontrados nos insetos ve-
tores, animais e em seres humanos,
onde normalmente habitam e subsis-
tem. Assim, dotadas dessa capacida-
de, as bactérias asseguram sua so-
brevida e aumentam a possibilidade
de transmissão.
As mais frequentes portas de entra-
da das bactérias patogênicas são os
locais do corpo nos quais as mucosas
entram em contato com a pele: vias
respiratórias (superiores e inferiores),
trato gastrintestinal (principalmente a
boca), trato genital e vias urinárias.
45BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
Figura 19. Rotas de entradas e disseminação dos microrganismos. Fonte: KUMAR, Vinay; ABBAS, Abul K.; ASTER,
Jon C. Robbins patologia básica. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013.
46BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
No processo infeccioso, as bactérias
que causam doenças têm de se aderir
às células do hospedeiro, geralmente
às células epiteliais. Estabelecido um
local primário de infecção, as bactérias
multiplicam-se e disseminam-se di-
retamente, através dos tecidos ou do
sistema linfático, para a corrente san-
guínea. Essa infecção (bacteriemia)
pode ser transitória ou persistente, e
permite que as bactérias se propa-
guem amplamente pelo corpo até al-
cançarem os tecidos particularmente
apropriados para a sua multiplicação.
A invasão microbiana pode ser facili-
tada pelo seguinte:
• Fatores de virulência
• Aderência microbiana
• Resistência aos antimicrobianos
• Defeitos nos mecanismos de defe-
sa do hospedeiro
A aderência microbiana auxilia os mi-
crorganismos a estabelecerem uma
base através da qual penetram nos
tecidos. Entre os fatores que deter-
minam a aderência estão as adesi-
nas (moléculas microbianas que são
mediadoras da adesão à célula) e os
receptores do hospedeiro, aos quais
as adesinas se ligam. Estes incluem
resíduos de açúcares e proteínas de
superfície celular, como a fibronecti-
na, que aumenta a ligação de certos
microrganismos Gram-positivos (p.
ex., estafilococos).
Outros determinantes de aderência
incluem estruturas finas nas paredes
de certas bactérias (p. ex., estrep-
tococos), denominadas fibrilas, por
meio das quais certas bactérias se
ligam às células epiteliais humanas.
Outras bactérias, como as Entero-
bacteriaceae (p. ex., Escherichia coli),
possuem organelas específicas de
adesão denominadas fímbrias ou pili.
As fímbrias capacitam o microrganis-
mo a aderir a quase todas as células
humanas, incluindo neutrófilos e cé-
lulas epiteliais do trato geniturinário,
boca e intestino.
O biofilme é uma estrutura fina que
pode se formar ao redor de algumas
bactérias, conferindo resistência à fa-
gocitose e a antibióticos. Desenvol-
ve-se ao redor de Pseudomonas ae-
ruginosa nos pulmões de pacientes
com fibrose cística e também ao redor
de estafilococos coagulase-negativos
em dispositivos médicos sintéticos,
como cateteres intravenosos, enxer-
tos vasculares prostéticos e material
de sutura.
Em geral, as toxinas produzidas por
bactérias são classificadas em dois
grupos: exotoxinas, e endotoxinas.
As exotoxinas são proteínas frequen-
temente excretadas pela célula bac-
teriana. Contudo, algumas exotoxinas
se acumulam no interior do citosol e
47BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
são injetadas diretamente no interior
da célula hospedeira ou são libera-
das durante lise celular. As endoto-
xinas são moléculas lipídicas que são
componentes da membrana da célula
bacteriana.
A cápsula contribui para a capacida-
de de invasão das bactérias patogê-
nicas - as células encapsuladas ficam
protegidas da fagocitose, a não ser
que sejam recobertas por anticorpo
anticapsular.
Algumas bactérias (p.ex., M. tubercu-
losis, Listeria monocytogenes, espé-
cies de Brucella e de Legionella) vivem
e crescem em ambiente hostil no in-
terior das células polimorfonucleares,
macrófagos ou monócitos. Esse cres-
cimento intracelular favorece a bacté-
ria já que evita o contato com anticor-
pos ou o sistema complemento.
Algumas bactérias e outros microrga-
nismos têm a capacidade de efetuar
alterações frequentes na forma anti-
gênica de suas estruturas de super-
fície in vitro e, presumivelmente, in
vivo. A frequente mudança de formas
antigênicas possibilita a essas bacté-
rias escaparem do sistema imunoló-
gico do hospedeiro.
Ainda como mecanismos de esca-
pes bacterianos, muitas espécies de
bactérias produzem enzimas não in-
trinsecamente tóxicas, mas que de-
sempenham importante papel no
processo infeccioso. Destacam-se,
a seguir, as bactérias que degradam
tecidos:
• O C. perfringens produz a enzima
proteolítica colagenase, que de-
grada o colágeno, a principal pro-
teína do tecido conectivo fibroso,
promovendo a disseminação da
infecção nos tecidos.
• S. aureus produz a coagulase, que
atua em combinação com fatores
sanguíneos para coagular o plas-
ma. A coagulase contribui para a
formação das paredes de fibrina
ao redor das lesões estafilocó-
cicas, ajudando esses microrga-
nismos a persistirem nos tecidos.
Também provoca a deposição de
fibrina sobre a superfície de alguns
estafilococos, podendo ajudar a
protegê-los contra fagocitose ou
destruição no interior das células
fagocíticas.
• Muitos estreptococos hemolíticos
produzem estreptoquinase (fibri-
nolisina), substância que ativa uma
enzima proteolítica do plasma. Em
seguida, essa enzima é capaz de
dissolver o plasma coagulado e,
provavelmente, ajudar na rápida
propagação dos estreptococos
através dos tecidos. A estrepto-
quinase tem sido utilizada no tra-
tamento do infarto agudo do mio-
cárdio para dissolver os coágulos
de fibrina.
48BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
17. RESISTÊNCIAS AOS
ANTIBIÓTICOS
Figura 20. Mecanismos de resistência a antibióticos. Fonte: Gallagher, Jason C., author. | MacDougall, Conan, author.
Title: Antibiotics simplified / Jason C. Gallagher, Conan MacDougall. Description: Fourth edition. | Burlington, MA : Jones
& Bartlett Learning, [2017]
Atb Permeabilidade
reduzida
Atb
Modificação
enzimática
AtbAlteração no
sítio de ligação
Atb
Efluxo ativo
A causa básica da resistência aos
antibióticos é simples: uso de antibi-
óticos. Alguns organismos são notó-
rios por sua capacidade intrínseca de
expressar vários tipos de resistência,
como Acinetobacter baumannii ou
Pseudomonas aeruginosa.
Outros são geralmente tratáveis por
muitos anos e só recentemente se
tornam altamente resistentes a me-
dicamentos através da aquisição de
novos elementos de resistência, como
Klebsiella pneumoniae. E alguns
permaneceram altamente suscetí-
veis a antibióticos “antigos” desde a
sua introdução, como Streptococcus
pyogenes e penicilina.
Em qualquer espécie de bactéria, a
resistência a antibióticos precisa ter
um ponto de origem. A resistência
pode emergir no organismo de inte-
resse através de mutações aleatórias
no alvo do antibiótico ou em outros
elementos-chave. No entanto, é mais
comum que uma determinada espé-
cie de bactéria adquira os genes, que
49BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
permitem um mecanismo de resistên-
cia, de outra espécie de bactéria que
já o possuía através da transferência
de elementos genéticos móveis. As
bactérias são pequenos organismos
promíscuos e não são exigentes - ge-
ralmente trocam genes não apenas
entre suas próprias espécies, mas
também entre espécies diferentes e
até gêneros.
Existem várias maneiras pelas quais
os genes são transmitidos entre bac-
térias, mas a mais importante é a
transmissão de plasmídeos via con-
jugação. Os plasmídeos são laços
de DNA que podem conter múltiplos
genes que codificam para vários pro-
cessos (incluindo resistência a anti-
bióticos) e são altamente portáteis.
Como os plasmídeos podem conter
múltiplos genes, eles podem codificar
vários tipos de resistência que não es-
tão relacionados, como resistência às
cefalosporinas através da produção
de uma beta-lactamase e resistência
à fluoroquinolona devido a uma bom-
ba de efluxo. Com um ato de troca de
genes, nasce uma cepa bacteriana
multirresistente.
A permeabilidade reduzida impe-
de que o antibiótico penetre na cé-
lula bacteriana, diminuindo a con-
centração intracelular do antibiótico.
A modificação enzimática devido a
uma enzima produzida pela bactéria
destrói o antibiótico antes que ele te-
nha a chance de atingir seu local de
atividade ou até mesmo entrar na cé-
lula. Podem ocorrer alterações no local
de destino, levando a uma eliminação
ou modificação do local de atividade
do antibiótico, de modo que ele não
funcione. O efluxo ativo ocorre quan-
do bombas de efluxo nas bactérias
bombeiam antibióticos, diminuindo
as concentrações intracelulares.
Se uma bactéria sofre a ação de um
antibiótico, esta diz-se sensível; se
pelo contrário, o antibiótico não exerce
qualquer efeito sobre a bactéria esta
diz-se resistente. A resistência pode
ser natural ou adquirida (por exemplo,
pela transferência de plasmídeos ou
por ocorrência de mutações). Portan-
to, para cada bactéria há um conjun-
to de antibióticos que são eficazes e
outros não eficazes. Ainda, de acor-
do com a faixa de bactérias sensíveis
a determinado antibiótico, podemos
classificá-los de largo espectro e de
espectro estreito.
Produção de ẞ-lactamase e resis-
tência aos ẞ-lactâmicos: Três me-
canismos básicos de resistência aos
ß-lactâmicos são descritos: altera-
ção do sítio de ligação, que no caso
seriam as proteínas ligadoras de
penicilina (PBPs); alteração da per-
meabilidade da membrana externa
bacteriana (a impermeabilidade da
membrana externa ocorre quando
bactérias mutantes passam a não
50BACTERIOLOGIA (MICROBIOLOGIA)
produzir os habituais canais da mem-
brana externa bacteriana, porinas,
locais por onde penetram os ß-lactâ-
micos, este mecanismo de resistência
é mais comumente observado entre
amostras de P. aeruginosa); e degra-
dação da droga através da produção
de b-lactamases.
As amostras bacterianas pertencen-
tes aos gêneros Citrobacter, Entero-
bacter, Morganella, Serratia e isolados
de Proteus vulgaris são reconhecida-
mente produtores de ß-lactamases
AmpC. Estas enzimas são codifica-
das pelo gene ampC, e sua produção
pode ser induzida quando estes iso-
lados clínicos são expostos a agen-
tes ß-lactâmicos. A hiperprodução
desta enzima pode acarretar hidrólise
de cefalosporinas, como ceftazidima
e ceftriaxona, ocasionando falência
terapêutica durante tratamento com
estes agentes. As cefalosporinas de
quarta geração e os carbapenens são
mais estáveis à hidrólise pela AmpC.
SE LIGA! ESBLs (ß-lactamases de es-
pectro estendido) são ß-lactamases que
sofreram mutações e são capazes de
hidrolisar o anel beta-lactâmico de ce-
falosporinas de terceira geração e dos
monobactâmicos.
Resistência aos aminoglicosídeos:
A modificação enzimática é o me-
canismo mais comum de resistên-
cia aos aminoglicosídeos. Este tipo
de mecanismo pode resultar em alto
grau de resistência a estes agentes
antimicrobianos. Os genes respon-
sáveis por esta resistência encon-
tram-se geralmente em plasmídios
ou transposons. Os aminoglicosíde-
os contêm em sua estrutura grupos
amino ou hidroxila, os quais podem
ser modificados pelas enzimas aci-
ma, produzidas por isolados bacte-
rianos. Os aminoglicosídeos modifi-
cados nestes grupamentos perdem
a habilidade de se ligar ao ribosso-
mo e, consequentemente, de inibir a
síntese protéica bacteriana. Outros
mecanismos de resistência aos ami-
noglicosídeos como alteração no sítio
de ação (subunidade 30S do RNA ri-
bossomal) e alterações na permeabi-
lidade da membrana celular externa
também são descritos.
SE LIGA! Na prática clínica, a presença
de resistência aos aminoglicosídeos leva
à perda