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Propriedades da Língua Portuguesa

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PMO v.13, n.2, 2025
ISSN: 2319-023X
https://doi.org/10.21711/2319023x2025/pmo1315
Matemática e Português: Variações Luso-Brasileiras e
Algumas Propriedades Estatı́sticas da Lı́ngua Portuguesa
Humberto José Bortolossi Ana Breda Liliana da Costa
Resumo
Este trabalho evidencia algumas diferenças de expressões linguı́sticas matemáticas entre o português bra-
sileiro e o português europeu e, também, apresenta alguns padrões matemáticos que são caracterı́sticos da
lı́ngua portuguesa.
Palavras-chave: Variações Luso-Brasileiras de termos matemáticos; Propriedades Estatı́sticas da Lı́ngua
Portuguesa.
Abstract
This work highlights some differences in mathematical linguistic expressions between Brazilian Portuguese
and European Portuguese and presents some mathematical patterns that are characteristic of the Portuguese
language.
Keywords: Luso-Brazilian Variations of Mathematical Terms; Statistical Properties of the Portuguese
Language.
1. Introdução
As dinâmicas de trânsito e adaptação da Lı́ngua Portuguesa em movimento geográfico-temporal1 não se
manifestam apenas na literatura e nas artes, mas também tem seus reflexos em todas as áreas do conhecimento
que fazem uso da lı́ngua materna, como é o caso da Matemática. Por um lado, já existem vários estudos
apontando diferenças entre o português brasileiro e o português europeu. Por exemplo, Venâncio em
[31] oferece uma análise detalhada das diferenças e semelhanças entre o português europeu e o português
brasileiro. O autor, conhecido linguista e estudioso da lı́ngua portuguesa, aborda como essas duas variantes
evoluı́ram ao longo dos séculos e como as tensões culturais e linguı́sticas entre Portugal e Brasil moldaram
suas respectivas formas de falar e escrever. Venâncio inicia sua obra refletindo sobre o “antibrasileirismo”
que existe em alguns setores portugueses, uma visão crı́tica e muitas vezes desinformada sobre a norma
linguı́stica brasileira, considerada por alguns como um “desvio” ou uma “degeneração” do português
original. Ele desmistifica essas percepções, argumentando que o português do Brasil, longe de ser uma
1Observamos que o Português é a lı́ngua oficial nos seguintes paı́ses: Brasil (América), Portugal (Europa), Angola (África), Cabo
Verde (África), Guiné-Bissau (África), Moçambique (África), São Tomé e Prı́ncipe (África), Timor-Leste (Ásia) e o território chinês
de Macau (Ásia). Com aproximadamente 300 milhões de falantes, o português é a 5a lı́ngua mais falada no mundo, a 3a mais falada
no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul do planeta.
223
https://doi.org/10.21711/2319023x2025/pmo1315
https://orcid.org/0000-0003-1212-6252
https://orcid.org/0000-0002-0106-284X
https://orcid.org/0000-0002-5258-1447
Bortolossi, Breda e da Costa
forma inferior, apresenta uma riqueza criativa, flexı́vel e inovadora que merece ser estudada e respeitada.
O autor examina as raı́zes históricas das diferenças entre as duas variantes, destacando a independência
polı́tica do Brasil, as influências culturais e a falta de uma polı́tica linguı́stica rı́gida, especialmente por
parte de Portugal em suas colônias. A ausência de uma “regulamentação” imposta ao idioma no Brasil
permitiu o surgimento de uma lı́ngua mais livre e adaptada ao contexto brasileiro. Um dos pontos centrais
do livro é a abordagem de como a norma culta brasileira difere da portuguesa, tanto na fala quanto na
escrita. Venâncio ressalta que, enquanto Portugal se prendeu a formas mais conservadoras, o Brasil inovou
linguı́stica e culturalmente. Ele faz uma análise cuidadosa de aspectos fonéticos, gramaticais e lexicais,
apontando fenômenos como o uso de pronomes, a sintaxe informal, e até mesmo as diferenças no vocabulário
cotidiano2.
Além disso, Venâncio aborda o impacto da mı́dia, das telenovelas, da música e da cultura popular brasileira
sobre o português europeu, observando como essas influências penetraram na fala coloquial em Portugal. Ele
ressalta que essa assimetria de influências (com Portugal recebendo mais produções culturais brasileiras)
contribuiu para uma imagem mais popular e, às vezes, estigmatizada do português brasileiro. O autor,
contudo, não aborda ou discute especificamente divergências linguı́sticas de expressões matemáticas, ou
seja, o Português da Matemática.
Cabe observar que as variações podem ter diferentes nı́veis de resolução. Por exemplo, no contexto
entonacional, Frota et al., [12], identificam diversas variantes do português, destacando especificamente
quatro variedades do português Europeu (EP) e quatro do português brasileiro (BP). No contexto europeu,
as variantes incluem o português padrão europeu, comumente falado em Lisboa, uma variedade do Norte
representada pelo Porto, e duas variedades do Sul, localizadas no Alentejo e no Algarve3. Já para o português
brasileiro, as variantes abrangem o baiano de Salvador, o mineiro de Belo Horizonte, além das variantes
sulistas com foco na região Sudeste, representada por São Paulo, e na região Sul, por Porto Alegre, Rio
Grande do Sul.
Por outro lado, em outra parte do espectro, temos a Matemática do Português: o Processamento de
Linguagem Natural (Natural Language Processing - NLP) que, com a linguı́stica computacional, a análise
de Corpus e a Mineração de Textos, utiliza técnicas matemáticas e estatı́sticas para analisar, modelar
e processar linguagens, incluindo linguagens naturais humanas (veja, por exemplo, as referências [4],
[13] e [18]). Neste texto pretendemos situar estes dois aspectos das interconexões entre o Português e
a Matemática, a saber (1): variações linguı́sticas de expressões e termos matemáticos entre o português
brasileiro e o português europeu e (2): algumas métricas quantitativas da lı́ngua portuguesa.
2. Matemática e Lı́ngua Materna
As interconexões entre a matemática e a lı́ngua materna são complexas e multifacetadas, refletindo a relação
intrincada entre a proficiência linguı́stica e a compreensão matemática. Pesquisas indicam que a lingua-
gem desempenha um papel crucial na educação matemática, especialmente para aprendizes bilı́ngues e
multilı́ngues. Por exemplo, estudos demonstram que estudantes proficientes em sua lı́ngua materna frequen-
temente utilizam essa competência linguı́stica para aprimorar sua compreensão de conceitos matemáticos,
facilitando, assim, um engajamento mais profundo com o conteúdo ([21]; [27]; [5]). Esse fenômeno é
particularmente evidente em salas de aula bilı́ngues, onde os alunos utilizam tanto sua primeira lı́ngua (L1)
quanto a segunda lı́ngua (L2) para navegar no discurso matemático, promovendo, assim, um desenvolvi-
mento matemático em duas lı́nguas ([27]; [15]).
2em Portugal usa-se quotidiano.
3sem contar as regiões autônomas, onde o português falado chega a parecer um dialeto.
224
Bortolossi, Breda e da Costa
Além disso, os desafios linguı́sticos inerentes à matemática, especialmente em problemas de palavras,
podem impactar significativamente o desempenho dos alunos. Pesquisas destacam que a complexidade
linguı́stica dos textos matemáticos pode criar barreiras para os estudantes, particularmente aqueles que
não possuem pleno domı́nio do idioma de instrução ([25]; [8]). Por exemplo, a construção de problemas
matemáticos em forma de texto frequentemente envolve caracterı́sticas linguı́sticas intrincadas que podem
obscurecer as relações matemáticas subjacentes, que podem ser de teor numérico, geométrico ou de outro
campo conceitual, dificultando a compreensão e a resolução eficaz desses problemas pelos alunos ([8];
[10]). Isso ressalta a necessidade de os educadores adotarem estratégias4 de ensino responsivas ao aspecto
linguı́stico, que reconheçam e enfrentem esses desafios, apoiando assim os estudantes a superar os obstáculos
relacionados à linguagem natural na matemática ([30]; [23]; [19]).
Além disso, o papel das habilidades linguı́sticasprecoces na formação das competências matemáticas tem
sido amplamente documentado, especialmente entre crianças de contextos linguı́sticos diversos. Pesquisas
sugerem que a exposição precoce à linguagem pode influenciar significativamente a cognição matemática
e as habilidades de resolução de problemas ([32] [9]). Isso é particularmente relevante em contextos
onde os alunos aprendem matemática em um idioma que não é sua lı́ngua materna, pois podem enfrentar
dificuldades tanto nos aspectos linguı́sticos quanto nos conceituais das tarefas matemáticas ([17]; [16]).
Consequentemente, integrar o desenvolvimento linguı́stico ao ensino de matemática é essencial para pro-
mover ambientes de aprendizagem equitativos para todos os alunos, especialmente para aqueles que estão
aprendendo uma segunda lı́ngua ([19]; [26]).
Em resumo, a interação entre a matemática e a lı́ngua materna é crucial para uma aprendizagem e ensino
eficazes. A linguagem não é apenas um meio de transmitir conceitos matemáticos, mas também molda
os processos cognitivos envolvidos no raciocı́nio matemático. Portanto, os educadores devem reconhecer
a importância da linguagem natural na educação matemática e implementar estratégias que promovam
a proficiência linguı́stica junto com a compreensão matemática ([1]; [23]; [9]).
3. Diferenças linguı́sticas de termos matemáticos entre o português brasileiro e o europeu
3.1. Divergências ortográficas
Apesar do Acordo Ortográfico de 1990 ter uniformizado muitas regras, algumas diferenças na grafia ainda
permanecem, refletindo a diversidade linguı́stica entre o português de Portugal e o português do Brasil.
Por meio de um levantamento bibliográfico e consultas em fóruns especializados (como o Portuguese Lan-
guage Stack Exchange (https://portuguese.stackexchange.com), levantamos algumas diferenças no Campo
da Matemática. (ver Tabela 1).5
As palavras proparoxı́tonas ou esdrúxulas, ou as palavras paroxı́tonas, também chamadas grave, que no
Brasil têm acentuação circunflexa na vogal o, têm em Portugal acentuação aguda na mesma vogal,por
exemplo, em BP se escreve cônica e polinômio, enquanto que em EP se escreve cónica e polinómio.
4Um exemplo de estratégia eficaz para integrar linguagem natural e compreensão matemática é a Resolução de Problemas com
Foco Linguı́stico (RPFL), que envolve: análise coletiva do vocabulário e da estrutura sintática de enunciados matemáticos, reescrita
colaborativa dos problemas, resolução orientada e justificativa oral e escrita das soluções. Essa abordagem fortalece simultaneamente
o raciocı́nio lógico e a proficiência linguı́stica, sendo especialmente valiosa em contextos multilı́ngues, conforme indicam estudos que
destacam os desafios linguı́sticos presentes nos problemas matemáticos e sua influência significativa na aprendizagem.
5Ainda assim, o acordo conseguiu uniformizar algumas palavras como “seção” e “projeção”, “vetor”, “fator” , “retângulo”,
“interseção”, “assı́ntotas” (antes, “secção”, “projecção”, “vector”, “factor”, “rectângulo”, “intersecção”, “assimptotas” no português
europeu). Não obstante muitos portugeses apesar de retirarem o “c” na grafia ainda o mantém na pronúncia.
225
https://portuguese.stackexchange.com
Bortolossi, Breda e da Costa
Português brasileiro Português europeu
cônica cónica
Cronômetro cronómetro
Fatorial Factorial
Coplanares Complanares
Porcentagem Percentagem
Autômato Autómato
quatorze ou catorze catorze
dezesseis dezasseis
dezessete dezassete
dezenove dezanove
Tabela 1: Exemplos de diferenças ortográficas em termos matemáticos.
3.2. Divergências gramaticais
(gênero) O termo matemático integral tem gênero feminino no português brasileiro (a integral) e gênero
masculino no português europeu (o integral). Em Portugal lê-se 1,5 como uma unidade e cinco décimas
enquanto que, no Brasil, lê-se uma unidade e cinco décimos. Também, no Brasil diz-se uma hora e pouca,
e em Portugal uma hora e pouco. Possivelmente, no Brasil, o pouca se refere à hora e o pouco de Portugal
se refere ao tempo.
(número) No português europeu diz-se zero gatos (no plural) , no português brasileiro diz-se zero gato (no
singular)6.
Müller e Oliveira, [20], concluı́ram que há diferenças significativas no uso de nominais nus 7 (BNs) entre o
português europeu (EP) e o brasileiro (BP). No EP, os BNs são mais restritos, aparecendo principalmente em
posições licenciadas e não tendo leituras independentes de tipo. Já no BP, os BNs, tanto singulares quanto
plurais, podem ocorrer em posições argumentais de forma mais livre e podem ter interpretações existenciais
ou genéricas, sem necessariamente denotar tipos. Essa flexibilidade do BP destaca a necessidade de revisão
de teorias como a de Chierchia, mostrando que a denotação e o uso de nomes comuns variam entre as
lı́nguas e explicam diferenças tipológicas importantes.
4. Divergências semânticas
No português brasileiro (que usa a escala curta [14]), 1 bilhão vale mil milhões, ou seja, 1.000.000.000
unidades, já no Português europeu (que usa a escala longa [14]), 1 bilião ou bilhão vale 1 milhão de
milhões, ou seja,1.000.000.000.000 unidades (veja também https://pt.wikipedia.org/wiki/Escalas curta e
longa. Aqui é evidente a influência estadunidense no BP, enquanto que no EP é patente a influência europeia.
O fato do número zero ser considerado ou não um número natural é ainda uma questão de discussão no
Brasil. Em Portugal, antes da introdução das Novas Aprendizagens Essenciais de Matemática, zero não era
considerado um número natural, mas, depois, passou a ser.
5. Divergências lexicais
6em Portugal o singular é usado apenas para a unidade e suas partes. Assim, diz-se em Portugal: ½ litros de água.
7Nominais nus são substantivos que não possuem número, não havendo o uso de artigo antes do substantivo. Em BP diz-se Vitor
lê jornal todo dia em EP diz-se Vitor lê o jornal todo dia
226
https://pt.wikipedia.org/wiki/Escalas_curta_e_longa
https://pt.wikipedia.org/wiki/Escalas_curta_e_longa
Bortolossi, Breda e da Costa
Divergências lexicais são diferenças no vocabulário entre variedades de uma mesma lı́ngua, como o por-
tuguês brasileiro e o português europeu (Tabela 2). Essas diferenças lexicais refletem a evolução natural
da lı́ngua em diferentes contextos geográficos e culturais. Elas não indicam que uma forma está “certa” e
a outra “errada”, apenas que há variação no uso de certas palavras entre as variedades do português.
Português-Brasileiro Português-Europeu
Modelagem Modelação
Fatorar Fatorizar
Fatoração Fatorização
ká 𝜅(kappa)
Sequência (infinita) Sucessão
Injetora Injetiva/injeção (raro)
bijetora Bijetiva/bijeção (raro)
[: colchetes [: parêntesis reto
{: chaves {: chaveta
autovalor Valor próprio
posto da matriz caracterı́stica da matriz
cota superior majorante
cota inferior minorante
contradomı́nio Conjunto de chegada
conjunto imagem contradomı́nio
enumerável numerável
Vezes Multiplicado por
Dividido por A dividir por
Logaritmos na base dez Logaritmos de base dez
Construtı́vel Construı́vel
Perpendicular Ortogonal
Limite quando x tende a 0 Limite quando x tende para 0
Tabela 2: Exemplos de diferenças lexicais em termos matemáticos.
Em Portugal usa-se vı́rgula como separador decimal e espaço para separar as classes (unidades, milhares,
milhões, etc.), ou seja, grupos de 3 ordens, isto é, 3 dı́gitos. Com esta finalidade, no Brasil usa-se o ponto.
6. Matemática do Português
Com a popularização dos computadores, as análises matemáticas e estatı́sticas de grandes corpora (conjun-
tos de textos de diversos gêneros, como literários, jornalı́sticos, cientı́ficos, jurı́dicos, legendas de filmes,
letras de músicas, blogs e postagens em mı́dias sociais) [29] tornaram-se mais acessı́veis e viáveis. Con-
sequentemente, diversas propriedades matemáticas foram estabelecidas para diferenteslı́nguas, incluindo
o português. Destacamos a seguir algumas destas caracterı́sticas que valem para as duas variações do
português: EP e BP :
1. Em textos longos naturais em Português, a letra mais frequente é a letra “a” [24]. Um lipograma é um
texto produzido com a restrição intencional de uma ou mais letras do alfabeto sendo um exemplo de
escrita constrangida (constrained writing). Curiosamente ao contrário de outras lı́nguas como o Francês,
o Inglês e o Espanhol, o Português não tem uma tradição e prática em escrita constrangida (não há, por
227
Bortolossi, Breda e da Costa
exemplo, lipogramas longos sem a letra “a”. Para detalhes, consulte [11] e [28]). Uma exceção digna
de menção é a carta escrita por João Guimarães Rosa em 1957 em que todas as palavras começam com
a letra “c” (veja https://youtu.be/6hL8gDpR83w).
2. A proporção de consoantes e vogais no Português é de aproximadamente 50% de vogais e 50% de
consoantes.
3. A palavra não costuma aparecer entre as palavras mais frequentes ([6]) em textos longos.
4. A lı́ngua portuguesa satisfaz a Lei de Zip.8
O leitor pode experimentar/verificar estas propriedades por meio do aplicativo gratuito disponı́vel em http:
//www.cdme.im-uff.mat.br/desktop/lpp/mod-02-br.jar[3] (é preciso instalar o interpretador Java primeiro9).
No Este vı́deo: https://youtu.be/5y02FhGABEM?si=zFMX2wkUt0KXfw4R&t=355 se ensina como usar
o software disponibilizado.
A Matemática também pode ajudar a entender a evolução da linguagem, especialmente no que diz respeito
à regularização de verbos irregulares ao longo do tempo. Utilizando um conceito da fı́sica nuclear chamado
“meia-vida”, pesquisadores de Harvard, liderados por Martin Nowak, classificaram verbos irregulares do
inglês com base na sua frequência de uso, desde o perı́odo arcaico até os dias atuais. O estudo mostrou que
os verbos mais comuns tendem a manter suas formas irregulares, enquanto os menos usados são regularizados
mais rapidamente. Essa regularização foi quantificada em diferentes grupos de verbos, evidenciando que
a meia-vida de um verbo irregular é inversamente proporcional à raiz quadrada da sua frequência de uso.
O estudo conclui que mudanças linguı́sticas ocorrem de maneira previsı́vel e que o próximo verbo a ser
regularizado em inglês provavelmente será “wed”(casar), uma previsão que já começa a se confirmar pela
forma “wedded” cada vez mais presente na linguagem contemporânea. Para detalhes, veja [7]. Em Portugal
usa-se muito o verbo haver, no Brasil é raro encontrar o seu uso, sendo quase sempre substituı́do por
ter. O verbo “pegar” tem dois particı́pios, ”pegado”e “pego”: ‘Pegado” é o particı́pio regular, “Pego” é
o particı́pio irregular. Em Portugal usa-se o regular e no Brasil o irregular.
7. Considerações Finais
Esta riqueza de variações apresentadas neste texto, longe de ser um obstáculo intransponı́vel, representa
a vitalidade e a capacidade de adaptação da lı́ngua portuguesa em diferentes contextos culturais, mesmo em
uma área aparentemente universal como a matemática. Embora não impeçam a comunicação matemática
entre falantes dos dois paı́ses, elas representam marcadores importantes de identidade linguı́stica e cul-
tural. Não obstante, estas diferenças podem constituir um complicador em projetos colaborativos. Karla
Pequenino, ([22]), por exemplo, aponta as tensões entre os editores da Wikipédia em português devido às
diferenças linguı́sticas entre as variantes do português falado em diferentes paı́ses. A maioria dos edito-
res é masculina, estudante e brasileira, e a interação entre esses editores de paı́ses como Brasil, Portugal,
Moçambique, Angola, entre outros, muitas vezes resulta em conflitos devido às tentativas de impor variantes
linguı́sticas especı́ficas. O estudo conduzido pela Universidade do Minho procura entender melhor quem
são esses editores e como eles influenciam o conteúdo da Wikipédia. Além disso, o artigo menciona que
8A Lei de Zipf é um princı́pio empı́rico que afirma que, em qualquer texto em linguagem natural, a frequência de ocorrência de
uma palavra é inversamente proporcional à sua posição no ranking de frequência. Em outras palavras, a palavra mais comum ocorre
aproximadamente duas vezes mais que a segunda palavra mais comum, três vezes mais que a terceira mais comum, e assim por diante,
seguindo uma distribuição matemática conhecida como lei de potência. Esta lei se aplica não apenas à linguı́stica, mas também foi
observada em diversos outros fenômenos naturais e sociais. Esta lei foi proposta pelo professor de linguı́stica George Kingsley Zipf
(1902-1950) da Universidade de Harvard, que na sua época colocava seus alunos para contar as palavras.
9O que pode ser feito por meio do endereço https://www.java.com/pt-BR/.
228
https://youtu.be/6hL8gDpR83w
http://www.cdme.im-uff.mat.br/desktop/lpp/mod-02-br.jar
http://www.cdme.im-uff.mat.br/desktop/lpp/mod-02-br.jar
https://youtu.be/5y02FhGABEM?si=zFMX2wkUt0KXfw4R&t=355
https://www.java.com/pt-BR/
Bortolossi, Breda e da Costa
a falta de diversidade de gênero também é um problema, com apenas 15% dos editores sendo mulheres.
Essas dinâmicas complicam a colaboração e a neutralidade esperadas na plataforma, levando a desafios
como racismo epistêmico e desigualdade. Outro exemplo é dado pelo software gratuito de matemática
dinâmica GeoGebra (http://www.geogebra.org/) que possui uma rede de tradutores voluntários. As equipes
de Portugal e do Brasil, mesmo após o acordo ortográfico decidiram manter suas traduções diferentes10.
Esperamos, no futuro, aprofundar o estudo das diferenças linguı́sticas em nı́vel psicolinguı́stico, mais
sutil, ainda com foco na matemática, averiguando como variáveis como Idade de aquisição (idade em
que uma palavra é aprendida pela primeira vez), prevalência (frequência de uso de uma palavra em uma
lı́ngua), valência (carga emocional positiva ou negativa associada a uma palavra), ativação (intensidade
emocional evocada por uma palavra), dominância (grau de controle emocional atribuı́do a uma palavra),
concretude (nı́vel de tangibilidade ou abstração de uma palavra), diversidade contextual (variedade de
contextos em que uma palavra é usada), diferenças de prevalência entre gêneros (variação de uso de uma
palavra entre homens e mulheres), frequência de palavras (número de ocorrências de uma palavra em um
corpus linguı́stico), percepções sensoriais (associação de uma palavra a estı́mulos sensoriais), referências
a partes do corpo (uso de palavras relacionadas ao corpo humano), tempo de reação (tempo necessário
para reconhecer ou responder a uma palavra).
Observamos que estas diferenças se estendem para as lı́nguas de sinais: no Brasil temos o sistema LIBRAS
(Lı́ngua Brasileira de Sinais), enquanto em Portugal temos o sistema LGP (Lı́ngua Gestual Portuguesa). O
sinal para o número 3 difere nos dois sistemas, como mostra a imagem a seguir.
O número 3 em LGP (Lı́ngua Gestual Portuguesa), representado na imagem à esquerda, e em LIBRAS
(Lı́ngua Brasileira de Sinais), mostrado na imagem à direita. Fonte: RTP e UFS.
Observamos que:
• Os teclados de computador para português no Brasil e em Portugal apresentam diferenças significativas
no layout. No Brasil, o padrão ABNT2 é predominante, com a tecla ”Ç”dedicada e a função ”Alt
Gr”para acessar caracteres terciários, além de uma localização especı́fica para o ponto de interrogação.
Em Portugal, embora também utilize o padrão QWERTY, a posição dos sı́mbolos como o ponto de
10As equipes do inglês britânico e do inglês americano, bem como as equipes do alemão austrı́aco e do alemão da Alemanha, assim
como as diferentes equipes do espanhol, também optaram por manter as traduções separadas.
229
http://www.geogebra.org/
Bortolossi, Breda e da Costa
interrogação é diferente, e a funcionalidade da tecla ”Alt Gr”pode variar, refletindo as necessidades dedigitação especı́ficas de cada variante da lı́ngua portuguesa. Portanto, a escolha da configuração correta
do teclado é essencial para uma digitação eficiente em cada paı́s.
• o sistema braille possui especificidade linguı́stica, pois, embora o princı́pio dos pontos em relevo seja
universal, a atribuição desses pontos a letras, números e sinais de pontuação varia para corresponder aos
alfabetos e convenções de cada idioma. Além disso, muitas lı́nguas desenvolvem contrações e abreviações
especı́ficas para otimizar a leitura e a escrita em braille, tornando o aprendizado do braille em uma lı́ngua
diferente do aprendizado em outra, similarmente ao que ocorre com as lı́nguas escritas convencionais.
Agradecimentos
Os autores agradecem os exemplos fornecidos por colegas que tiveram a oportunidade de vivenciar as
duas culturas linguı́sticas (Brasil e Portugal): Maria João Lima Soares de Resende, Fábio Chalub, os
estudantes do programa de licenciatura internacional Universidade Federal Fluminense/Universidade de
Coimbra: Gabi Galera, Crı́sia Ramos e Emanuel Luiz. Os autores também agradecem aos professores que
revisaram o texto original: Karla Waack Nogueira, Edilson José Curvello Machado e Evaristo José das
Mangas. Agradecemos também ao avaliador anônimo que sugeriu abordar outros aspectos interessantes de
diferenças linguı́sticas, como a lı́ngua de sinais, o sistema braille e os layouts de teclados de computador.
Referências
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Humberto José Bortolossi
Universidade Federal Fluminense
Ana Breda
Universidade de Aveiro
Liliana da Costa
Colégio Pedro II
Recebido: 04/12/2024
Publicado: 29/05/2025
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