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A VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA E OS DESAFIOS DA HUMANIZAÇÃO NO PARTO Maria Clara de Sousa Nunes¹ Isabela da Silva Rosa Ximenes² Centro Universitário Leonardo da Vinci - UNIASSELVI ³ Enfermagem (0953 EFM) - TCC I 29.09.2025 1 DISCUSSÃO A análise dos resultados obtidos demonstra que a violência obstétrica é uma realidade persistente nos serviços de saúde e se apresenta como um fenômeno multifacetado, que pode assumir formas físicas, verbais, psicológicas e de negligência. Esses achados dialogam com a fundamentação teórica apresentada anteriormente, que já apontava que a violência obstétrica se caracteriza por práticas abusivas, desrespeitosas e desnecessárias, muitas vezes legitimadas por uma cultura institucional hierárquica e tecnicista (MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARÁ, 2024; SANTOS et al., 2024). Constatou-se que os efeitos dessa violência não se restringem ao momento do parto, mas repercutem na saúde física e emocional da mulher em longo prazo. Isso corrobora a análise de Kloch (2021), que alerta para o impacto de tais práticas na autoestima, na saúde mental e na própria decisão reprodutiva futura da mulher. Em muitos relatos, observa-se que experiências de violência obstétrica provocaram traumas tão significativos que levaram à recusa de novas gestações, ao desenvolvimento de transtornos psicológicos e ao afastamento dos serviços de saúde por medo de reviver tais experiências. Essa constatação reforça a necessidade de compreender a violência obstétrica não apenas como uma falha pontual de conduta, mas como um grave problema de saúde pública e de violação de direitos humanos. Ao mesmo tempo, a revisão evidenciou avanços importantes relacionados à humanização do parto. Iniciativas como a Rede Cegonha, a Política Nacional de Humanização do Pré-Natal e Nascimento e a Política Nacional de Atenção Obstétrica e Neonatal são exemplos de políticas públicas que trouxeram avanços para a saúde materna e neonatal. Esses programas têm assegurado direitos fundamentais, como a presença de acompanhante, o acesso a métodos não farmacológicos de alívio da dor, a valorização do protagonismo da mulher e a oferta de ambientes mais acolhedores (RODRIGUES et al., 2022). Quando essas políticas são implementadas de forma consistente, observa-se a redução significativa das práticas abusivas e o aumento da satisfação das gestantes com o atendimento recebido. A literatura analisada também destacou o papel transformador dos enfermeiros obstétricos e obstetrizes. Esses profissionais, por sua formação humanizada e pelo contato mais próximo com a realidade das mulheres, desempenham funções centrais na promoção do cuidado respeitoso. Ao atuarem com empatia, escuta ativa e utilização de práticas baseadas em evidências científicas, os enfermeiros contribuem para a redução da medicalização excessiva e da violência obstétrica, além de ampliarem a confiança das gestantes nos serviços de saúde (KLOCH, 2023). Nesse sentido, a valorização da enfermagem obstétrica é apresentada como uma estratégia eficaz para a mudança do modelo de assistência, ainda fortemente centrado no profissional médico. Outro ponto importante é a relação entre informação e empoderamento. Os resultados mostraram que as mulheres que têm acesso a informações claras e acessíveis sobre seus direitos, sobre o processo fisiológico do parto e sobre condutas que podem ser consideradas abusivas apresentam maior autonomia para questionar, denunciar e exigir uma assistência respeitosa. Esse dado confirma o que afirma Santos et al. (2024), ao destacar que o desconhecimento das gestantes ainda é um dos fatores que favorece a perpetuação da violência obstétrica. Portanto, a educação em saúde, realizada desde o pré-natal, configura-se como uma ferramenta indispensável para prevenir práticas abusivas e fortalecer a autonomia da mulher. Apesar das conquistas, os resultados também evidenciam contradições e desafios. Muitos serviços ainda funcionam de acordo com um modelo biomédico autoritário, que prioriza procedimentos técnicos em detrimento do cuidado humanizado. A sobrecarga de trabalho das equipes, a escassez de recursos humanos e materiais, a falta de capacitação contínua e a ausência de fiscalização rigorosa fazem com que políticas públicas importantes permaneçam subutilizadas. Esses dados indicam que a humanização do parto não deve ser vista apenas como uma recomendação, mas como um compromisso ético e institucional que precisa ser efetivamente incorporado ao cotidiano da prática obstétrica. Dessa forma, ao relacionar os resultados obtidos com a literatura, pode-se afirmar que a violência obstétrica é um fenômeno complexo que envolve dimensões sociais, culturais e institucionais. Superá-la exige mais do que a criação de leis e programas: requer mudanças profundas na cultura organizacional dos serviços de saúde, na formação acadêmica dos profissionais e no fortalecimento do protagonismo da mulher. A discussão, portanto, confirma a relevância de pensar a humanização não apenas como uma diretriz, mas como um princípio norteador do cuidado obstétrico, capaz de transformar realidades e garantir o respeito à dignidade feminina. CONSIDERAÇÕES FINAIS FINAIS Este estudo teve como objetivo analisar a violência obstétrica e os principais desafios da humanização do parto no contexto da assistência à saúde da mulher. A partir da revisão bibliográfica, foi possível identificar práticas abusivas ainda recorrentes nos serviços de saúde, suas consequências para a saúde física e psicológica das mulheres e as estratégias de humanização que vêm sendo implementadas para transformar esse cenário. Os resultados mostraram que, apesar dos avanços normativos e programáticos, como a Rede Cegonha e a Política Nacional de Humanização, a violência obstétrica continua sendo um problema grave e frequente. As mulheres ainda vivenciam situações de desrespeito, humilhação e imposição de procedimentos desnecessários, o que viola seus direitos e compromete sua saúde integral. Tais práticas, além de provocar sofrimento imediato, deixam marcas duradouras, repercutindo na saúde mental, na percepção da maternidade e até na decisão de engravidar novamente. Por outro lado, também foram observadas iniciativas exitosas que apontam caminhos para a transformação desse cenário. A valorização do protagonismo feminino, a presença de acompanhantes, o uso de métodos de alívio da dor não farmacológicos, a promoção da escuta ativa e a atuação de enfermeiros obstétricos foram elementos centrais para o fortalecimento da humanização do parto. Tais práticas mostraram que é possível construir uma assistência mais ética, segura e respeitosa, que considere a mulher não apenas como paciente, mas como sujeito de direitos. Do ponto de vista social, esta pesquisa contribui para dar visibilidade a um problema muitas vezes naturalizado e silenciado. Ao reunir dados e reflexões sobre a violência obstétrica, o estudo fortalece o debate público e incentiva a criação de estratégias de enfrentamento. Do ponto de vista acadêmico, o trabalho colabora com a produção científica na área da saúde da mulher, oferecendo subsídios para futuros estudos que aprofundem a temática em diferentes realidades regionais. No campo profissional, os achados reforçam a importância de capacitar continuamente os profissionais de saúde, em especial os que atuam diretamente na assistência obstétrica, de modo que incorporem práticas humanizadas e baseadas em evidências. Conclui-se que a superação da violência obstétrica e a consolidação da humanização do parto exigem um conjunto de ações articuladas. É fundamental investir em educação permanente para profissionais de saúde, assegurar a fiscalização do cumprimento das leis e políticas já existentes, ampliar campanhas de conscientização voltadas para as gestantes e fomentar a presença de profissionais capacitados em humanização. Também é necessário reconhecer a importância de mudanças culturais, que passam pela desconstrução de modelos autoritários e pelo fortalecimento da visão da mulher como protagonista do processode nascimento. Sugere-se que futuros trabalhos possam investigar a violência obstétrica em diferentes recortes sociais e regionais, analisar a eficácia das políticas públicas em contextos específicos e propor novas estratégias de humanização que possam ser aplicadas em larga escala. Também se recomenda maior investimento em pesquisas qualitativas que deem voz às experiências das próprias mulheres, permitindo compreender com mais profundidade os impactos da violência obstétrica em suas vidas. Portanto, a reflexão desenvolvida neste trabalho aponta para a necessidade de um compromisso coletivo: profissionais de saúde, gestores, instituições e sociedade devem unir esforços para que a violência obstétrica seja definitivamente superada e substituída por uma prática obstétrica centrada no respeito, na dignidade e nos direitos humanos. Somente assim será possível garantir que o nascimento seja vivenciado como um momento de acolhimento e vida, e não como uma experiência de dor, medo e violação. REFERÊNCIAS GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2019. KLOCH, L. L. Assistência de enfermagem no centro obstétrico. 1. ed. Indaial: Santa Catarina, 2023. KLOCH, L. L. A percepção das mulheres sobre a violência. 2021. 130 f. Dissertação (Mestrado em Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica) – Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Portugal, 2021. Disponível em: http://web.esenfc.pt?url=p07NfJ9G. Acesso em: 29 set. 2025. MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO PARÁ. Cartilha de violência obstétrica. Belém: MPPA, 2024. RODRIGUES, D. P. et al. Parto humanizado: valores de profissionais de saúde no cotidiano do cuidado obstétrico. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 75, n. 2, p. 1-9, 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rebem/a/TfJgKJ9CsHHJyJpmrn93PN/?lang=pt. Acesso em: 29 set. 2025. SANTOS, S. P. et al. Violência obstétrica e humanização da assistência no parto. Revista FT: Ciências da Saúde, v. 28, n. 133, p. 1-12, abr. 2024.