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SP 2.3 Ginástica de avião Heparina e anticoagulantes orais utilizados em distúrbios trombóticos 1 2 3 4 188 5 Nas atividades a seguir, espera-se que o estudante compreenda os principais anticoagulantes utilizados em distúrbios trombóticos e relacione o peso molecular das heparinas com suas propriedades farmacocinéticas e farmacodinâmicas. Além disso, espera-se que seja capaz de descrever o monitoramento dos fármacos anticoagulantes com o coagulograma e as principais artérias e veias dos membros inferiores correlacionando-as à fisiopatologia do tromboembolismo pulmonar. ATIVIDADE 1: VIDEOAULA NO ULIFE 1. Acesse o Ulife e assista às videoaulas: • Principais vasos sanguíneos dos membros inferiores; • Tromboembolismo pulmonar (TEP): fisiopatologia e alterações morfológicas; • Exames de imagens na TVE e TEP importância do ultrassom (US) com doppler colorido no estudo dos vasos; • Anticoagulantes. ATIVIDADE 2: APLICATIVO E-ANATOMY (IMAIOS) 1. Acesse o App IMAIOS e-Anatomy e isole os vasos dos membros inferiores (artérias e veias) para visualização da vascularização por segmento em imagens de ressonância magnética de membros inferiores em todos seus segmentos: quadril, coxas, pernas e pés. ATIVIDADE 3: LEITURA 1. Acesse o Ulife, em Minha Biblioteca faça a busca pelo livro Bogliolo-Patologia, de Filho, e realize a leitura do Capítulo 16, página 534, sobre vasos sanguíneos e linfáticos e Capítulo 9, páginas 203 a 2011, sobre alteração da circulação. Após a leitura, responda às questões “A” a “D”. Trilha de Aprendizagem Pré-aulaSP 2.3 Os principais vasos sanguíneos dos membros inferiores são compostos por artérias e veias que garantem a irrigação e a drenagem sanguínea da região. O suprimento arterial inicia-se com a artéria ilíaca externa, que, ao atravessar o ligamento inguinal, passa a chamar-se artéria femoral. Esta percorre a coxa e emite ramos importantes, como a artéria femoral profunda, que irriga a musculatura da coxa. Na região posterior do joelho, a femoral torna-se artéria poplítea, a qual se divide em artéria tibial anterior e artéria tibial posterior. A tibial anterior segue para a face anterior da perna e continua como artéria dorsal do pé (ou pediosa), enquanto a tibial posterior percorre a face posterior da perna e origina, no pé, as artérias plantares medial e lateral. Há ainda a artéria fibular (ou peroneal), ramo da tibial posterior, que contribui para a irrigação lateral da perna. O retorno venoso ocorre por meio de dois sistemas: o profundo e o superficial. O sistema venoso profundo acompanha as artérias homônimas, como as veias tibiais, fibulares, poplítea e femoral, sendo este o principal responsável pelo retorno sanguíneo. Já o sistema superficial é representado sobretudo pela veia safena magna, que se origina no dorso do pé e ascende pela face medial da perna e coxa até drenar na veia femoral, e pela veia safena parva, que sobe pela face posterior da perna e termina na veia poplítea. A drenagem final do sangue venoso dos membros inferiores segue pela veia femoral até a veia ilíaca externa, convergindo para a veia cava inferior. O processo inicia-se com a trombose venosa profunda (TVP), normalmente nas veias dos membros inferiores ou da pelve, motivada por fatores de risco que se enquadram na tríade de Virchow — estase sanguínea, lesão endotelial e hipercoagulabilidade. Com algum estímulo (cirurgia, imobilização, trauma, câncer etc.), forma-se um coágulo aderido à parede venosa; partes desse trombo podem se desprender, convertendo-se em êmbolos que viajam pela circulação venosa até o átrio direito do coração, seguem para o ventrículo direito e daí para a artéria pulmonar ou seus ramos. Quando o êmbolo alcança uma artéria pulmonar, passa a obstruir total ou parcialmente o fluxo de sangue daquele segmento pulmonar. Dependendo do tamanho do êmbolo, pode obstruir ramos grandes (como artéria lobar ou tronco pulmonar) ou múltiplos ramos menores. A obstrução vascular provoca aumento súbito da resistência pulmonar, forçando o ventrículo direito a se contrair contra uma carga elevada; isso eleva sua tensão de parede, aumenta o consumo de oxigênio no músculo cardíaco do lado direito, podendo gerar sua disfunção ou dilatação. Como o débito do ventrículo direito cai, a pré-carga do ventrículo esquerdo também se reduz, levando a queda do débito cardíaco geral e possível hipotensão sistêmica. Simultaneamente, nos alvéolos perfundidos que deixam de receber sangue por causa da obstrução, há ventilação sem troca gasosa — ou seja, aumento do espaço morto alveolar. Também ocorre desequilíbrio ventilação/perfusão (V/Q), com áreas ventiladas sem perfusão, resultando em hipoxemia. O pulmão tenta compensar com vasoconstrição hipóxica e redistribuição de fluxo, mas isso pode aumentar ainda mais a resistência vascular e afetar regiões que ainda mantêm perfusão. Em casos de êmbolos grandes, ou múltiplos, o paciente pode evoluir para choque circulatório por comprometimento do ventrículo direito e falha do sistema cardiopulmonar. Macroscopicamente observa-se o êmbolo impactado no lúmen de vasos pulmonares — ele pode ter conformação cilíndrica ou filamentosa, às vezes moldado ao interior da artéria obstruída e com cor variando de vermelho-acinzentado. Em casos de êmbolo tipo “em sela”, ele se localiza na bifurcação da artéria pulmonar principal. Nas regiões pulmonares distalmente à obstrução, pode ocorrer infarto hemorrágico: áreas triangulares com base na pleura (a pleura recebe sangue pela circulação bronquial) e vértice voltado ao hilo pulmonar, inicialmente vermelhas-escuras pela congestão e extravasamento de hemácias, depois com necrose tecidual e, mais tarde, com deposição de hemossiderina, conferindo aspecto marrom. Microscopicamente, há necrose coagulativa do parênquima alveolar, hemorragia alveolar, infiltrado inflamatório, congestão vascular, edema e, com o tempo, organização do trombo — com recanalização parcial e proliferação fibroblástica. Nas situações de TEP recorrente ou em evolução crônica, o trombo embolizado pode aderir à parede vascular, organizando- se e provocando espessamento da íntima arterial, fibrose, remodelamento vascular, o que pode gerar hipertensão pulmonar persistente (hipertensão pulmonar tromboembólica crônica). Na investigação da trombose venosa e do tromboembolismo pulmonar, os exames de imagem exercem papel central tanto no diagnóstico quanto no acompanhamento. No caso da trombose venosa profunda (TVP), a ultrassonografia (US) com Doppler colorido é considerada o método de escolha, pois permite avaliar de forma não invasiva, rápida e segura a compressibilidade das veias, a presença de trombos intraluminais e o fluxo sanguíneo em tempo real. A avaliação pela compressão é fundamental: uma veia normal colaba sob a pressão do transdutor, enquanto uma veia trombosada permanece rígida. O uso do Doppler colorido acrescenta a possibilidade de analisar a direção e a velocidade do fluxo, evidenciando áreas de ausência ou redução da perfusão, além de detectar refluxos e avaliar a repercussão hemodinâmica do trombo. Esse exame apresenta elevada sensibilidade e especificidade para trombose em veias femorais e poplíteas, sendo mais limitado nas veias pélvicas e na veia cava inferior. Já no tromboembolismo pulmonar (TEP), a confirmação diagnóstica costuma ser feita por métodos como a angiotomografia computadorizada de tórax, que permite visualizar diretamente o êmbolo nas artérias pulmonares, ou pela cintilografia de ventilação-perfusão. No entanto, a ultrassonografia com Doppler colorido dos membros inferiores ganha importância porque, ao demonstrar a presença de uma TVP, fornece evidência indireta da fonte emboligênica, reforçando o diagnóstico de TEP, principalmente em pacientes instáveis em que a realização da angiotomografia não é viável. Além disso, é um método de beira-leito, acessível e sem radiação, podendo ser repetido em seguimento evolutivo. Assim, o ultrassom com Doppler colorido se destacamonitorar o efeito anticoagulante por meio do INR (International Normalized Ratio), ajustando a dose conforme necessário. O clopidogrel é um fármaco antiplaquetário amplamente utilizado na prevenção de eventos aterotrombóticos, como infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral e trombose em stents coronários. Do ponto de vista farmacodinâmico, trata-se de um pró-fármaco que, após ativação hepática, atua como antagonista irreversível dos receptores de ADP do subtipo P2Y₁₂ localizados na superfície das plaquetas. Ao bloquear esses receptores, o clopidogrel impede a ativação da glicoproteína IIb/IIIa, que é essencial para a ligação do fibrinogênio e para a agregação plaquetária. Assim, sua ação reduz a formação de trombos arteriais sem afetar diretamente a coagulação plasmática. Como a inibição é irreversível, as plaquetas permanecem disfuncionais durante toda a sua vida útil (7 a 10 dias). Nos aspectos farmacocinéticos, o clopidogrel apresenta boa absorção oral, mas apenas cerca de 15% da dose ingerida é convertida em metabólito ativo, já que depende da bioativação pelo citocromo P450, principalmente pela isoenzima CYP2C19. Essa característica faz com que polimorfismos genéticos que reduzem a atividade da CYP2C19 estejam associados a menor resposta clínica ao fármaco. Após ativação, o metabólito ativo liga-se de forma irreversível aos receptores plaquetários, e a eliminação ocorre predominantemente pela via renal e em menor grau pelas fezes. Sua meia-vida plasmática é curta, mas o efeito clínico é prolongado devido à inativação irreversível das plaquetas. O potencial de toxicidade do clopidogrel está relacionado principalmente ao risco de sangramento, que pode variar de pequenos hematomas e epistaxe até hemorragias graves, como gastrintestinais ou intracranianas. Outro risco importante é a variabilidade interindividual na resposta, decorrente tanto de fatores genéticos quanto de interações medicamentosas (por exemplo, com inibidores de bomba de prótons como omeprazol, que reduzem a ativação do fármaco). Os efeitos adversos mais comuns incluem sangramentos leves, equimoses e hematomas. Entre os efeitos menos frequentes, mas clinicamente relevantes, estão a púrpura trombocitopênica trombótica (rara, mas potencialmente fatal), neutropenia, trombocitopenia, além de distúrbios gastrointestinais como dor abdominal, diarreia e dispepsia. Reações alérgicas cutâneas também podem ocorrer, ainda que raramente. A rivaroxabana é um anticoagulante oral direto pertencente à classe dos inibidores do fator Xa, utilizada principalmente na prevenção e no tratamento de tromboembolismo venoso, tromboembolismo pulmonar e na prevenção de eventos tromboembólicos em pacientes com fibrilação atrial não valvar. Do ponto de vista farmacodinâmico, sua ação consiste na inibição seletiva e reversível, porém potente, do fator Xa livre e ligado ao complexo protrombinase. Ao bloquear esse fator, interrompe-se a conversão da protrombina em trombina, reduzindo assim a formação de fibrina e, consequentemente, a geração e estabilização de coágulos. Diferentemente da varfarina, a rivaroxabana atua em um ponto específico da cascata de coagulação, sem interferir na síntese hepática dos fatores, e não necessita de monitorização laboratorial rotineira na maioria dos casos. Nos aspectos farmacocinéticos, a rivaroxabana apresenta boa biodisponibilidade oral, que é aumentada quando administrada com alimentos, especialmente em doses mais altas. A absorção ocorre principalmente no estômago e no intestino delgado. O fármaco possui alta ligação às proteínas plasmáticas (cerca de 90%) e é parcialmente metabolizado no fígado, principalmente pelas enzimas CYP3A4, CYP2J2 e por mecanismos independentes do citocromo. Sua eliminação é mista: aproximadamente um terço é excretado inalterado pelos rins, e o restante é eliminado após metabolização hepática, tanto pela urina quanto pelas fezes. A meia-vida varia entre 5 e 9 horas em adultos jovens e até 13 horas em idosos. O potencial de toxicidade da rivaroxabana está relacionado ao risco de hemorragias, especialmente em pacientes com insuficiência renal ou hepática, devido ao acúmulo do fármaco. Diferente da varfarina, não há necessidade de ajustes frequentes de dose baseados em exames de coagulação, mas essa ausência de monitorização pode atrasar a identificação de toxicidade em alguns casos. Até recentemente, um dos grandes desafios era a ausência de antídoto específico, mas hoje já existe o andexanet alfa, ainda que de uso restrito. Quanto aos efeitos adversos, os mais comuns são sangramentos, que podem se manifestar como epistaxe, hematomas, sangramento gengival, hemorragia gastrintestinal ou urinária, e, mais raramente, hemorragias graves como a intracraniana. Além disso, podem ocorrer sintomas gastrointestinais como náuseas, dor abdominal e dispepsia, além de fadiga, tontura e prurido cutâneo em alguns pacientes. Eventos hepáticos, como elevação de enzimas e raros casos de hepatotoxicidade, também estão descritos. 203 1 2 3 4 5 Roteiro de Medicina LaboratorialSP 2.3 1. Ruptura da placa → exposição do colágeno e vWF → adesão plaquetária • Aqui ocorre a ativação inicial das plaquetas. • Fármaco: não há inibidor direto dessa etapa clínica, mas desmopressina (no contexto de deficiência de vWF) pode potencializar. 2. Adesão plaquetária e secreção → COX-1 (enzima da plaqueta que gera TxA₂) • O TxA₂ (tromboxano A₂) promove vasoconstrição e ativação plaquetária. • Fármaco: Ácido Acetilsalicílico (AAS/aspirina) inibe irreversivelmente a COX-1, bloqueando a formação de TxA₂. 3. ADP → receptor P2Y₁₂ na plaqueta • O ADP liberado ativa receptores P2Y₁₂ e favorece o recrutamento plaquetário. • Fármacos: • Clopidogrel • Ticlopidina • Prasugrel • Ticagrelor → Todos inibem o receptor de ADP, bloqueando a ativação plaquetária. 4. Ativação do receptor GPIIb/IIIa → agregação plaquetária • Esse receptor liga fibrinogênio, conectando plaquetas umas às outras. • Fármacos: • Abciximabe • Tirofiban • Eptifibatida → São antagonistas do GPIIb/IIIa, bloqueando a agregação. 5. Cascata da coagulação • Conjunto de reações enzimáticas que levam à geração de trombina e fibrina. • Fármacos: • Heparina (ativa antitrombina III, inibindo trombina e fator Xa). • Varfarina (inibe síntese de fatores vitamina K-dependentes). • Novos anticoagulantes orais (DOACs): rivaroxabana, apixabana (inibem Xa), dabigatrana (inibe trombina). 6. Fibrinogênese → Coágulo/Trombo • Última etapa, formação da malha de fibrina estabilizando o coágulo. • Fármacos fibrinolíticos (agem depois da formação): alteplase, estreptoquinase, tenecteplase. ✅ Resumindo o fluxograma com fármacos nos pontos principais: • COX-1 / TxA₂: AAS (aspirina). • ADP / receptor P2Y₁₂: Clopidogrel, Ticagrelor, Prasugrel, Ticlopidina. • GPIIb/IIIa: Abciximabe, Tirofiban, Eptifibatida. • Cascata de coagulação: Heparina, Varfarina, DOACs (rivaroxabana, apixabana, dabigatrana). • Fibrina formada: fibrinolíticos (alteplase, estreptoquinase, tenecteplase). 204 1 2 3 4 5 Roteiro de Medicina LaboratorialSP 2.3 2. Para melhor compreensão sobre a cascata de coagulação, assista aos vídeos indicados: • Agregação plaquetária. • Cascata de coagulação. ATIVIDADE 2: CASO CLÍNICO 1. Leia o caso clínico e responda às questões “A” a “C”. Cleonice, uma mulher de 63 anos, é uma talentosa costureira que adora passar horas em sua máquina de costura, confeccionando belas peças em casa. Em um dia como qualquer outro, ela estava profundamente concentrada no trabalho, costurando há muitas horas consecutivas sem se dar conta do tempo que passou. Ao longo do dia, Cleonice começou a notar que a perna esquerda estava levemente inchada e dolorida. No início, não deu muita importância, atribuindo a sensação ao longo período em que permaneceu sentada e imóvel, costurando. À medida que o tempo passava, ela também começou a sentir “falta de ar” e uma dor desconfortável no lado direito do peito, sintomas que se intensificaramprogressivamente. Preocupada com a piora, Cleonice decidiu buscar atendimento médico de urgência. Ao chegar ao hospital, a equipe médica realizou exames físicos e complementares. Seu quadro clínico indicava uma cianose acentuada e dispneia extrema. Apesar disso, não foram encontradas anormalidades no exame físico relacionadas ao aparelho respiratório. Sua pressão arterial era de 150/90 mmHg e o pulso arterial estava em 105 bpm. Após confirmação diagnóstica de TVP em seguida à a análise do D-dímero, iniciou-se uma infusão venosa de heparina para o tratamento anticoagulante e posteriormente manejando da forma mais adequada. A. Qual o tipo de heparina (de alto ou baixo peso molecular) seria mais indicado para Cleonice? B. Explique a farmacodinâmica e as diferenças farmacocinéticas entre as heparinas. No caso de Cleonice, que apresenta trombose venosa profunda (TVP) com sinais sugestivos de tromboembolismo pulmonar (dispneia, dor torácica, cianose e taquicardia), a escolha da heparina deve considerar eficácia, segurança e praticidade do manejo. A heparina de baixo peso molecular (HBPM) é geralmente preferida em situações como a dela, pois apresenta várias vantagens em relação à heparina não fracionada (HNF). A HBPM tem farmacocinética mais previsível, permitindo administração subcutânea em doses fixas sem necessidade de monitorização constante do tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPa) na maioria dos pacientes, o que facilita o manejo ambulatorial e reduz o risco de erro de dosagem. Além disso, o risco de trombocitopenia induzida por heparina é menor com a HBPM, e estudos mostram eficácia equivalente ou superior na prevenção da progressão da TVP e do tromboembolismo pulmonar. Por outro lado, a heparina não fracionada pode ser preferida em pacientes com alto risco de sangramento ou necessidade de rápida reversão do efeito anticoagulante, devido à sua meia-vida curta e à possibilidade de monitorização rigorosa. No caso de Cleonice, considerando idade avançada, necessidade de anticoagulação eficaz e possibilidade de manejo mais seguro e prático, a heparina de baixo peso molecular seria a escolha mais indicada para iniciar o tratamento, podendo ser posteriormente transicionada para anticoagulantes orais conforme evolução clínica e estabilidade hemodinâmica. No caso de Cleonice, que apresenta trombose venosa profunda (TVP) com sinais sugestivos de tromboembolismo pulmonar (dispneia, dor torácica, cianose e taquicardia), a escolha da heparina deve considerar eficácia, segurança e praticidade do manejo. A heparina de baixo peso molecular (HBPM) é geralmente preferida em situações como a dela, pois apresenta várias vantagens em relação à heparina não fracionada (HNF). A HBPM tem farmacocinética mais previsível, permitindo administração subcutânea em doses fixas sem necessidade de monitorização constante do tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPa) na maioria dos pacientes, o que facilita o manejo ambulatorial e reduz o risco de erro de dosagem. Além disso, o risco de trombocitopenia induzida por heparina é menor com a HBPM, e estudos mostram eficácia equivalente ou superior na prevenção da progressão da TVP e do tromboembolismo pulmonar. Por outro lado, a heparina não fracionada pode ser preferida em pacientes com alto risco de sangramento ou necessidade de rápida reversão do efeito anticoagulante, devido à sua meia-vida curta e à possibilidade de monitorização rigorosa. No caso de Cleonice, considerando idade avançada, necessidade de anticoagulação eficaz e possibilidade de manejo mais seguro e prático, a heparina de baixo peso molecular seria a escolha mais indicada para iniciar o tratamento, podendo ser posteriormente transicionada para anticoagulantes orais conforme evolução clínica e estabilidade hemodinâmica. Os exames de D-dímero e de RNI têm finalidades distintas, mas complementares, na avaliação e acompanhamento de pacientes com distúrbios tromboembólicos ou em uso de anticoagulantes. O D-dímero é um fragmento proteico produzido durante a degradação da fibrina, ou seja, é um marcador indireto da formação e dissolução de coágulos. Sua dosagem é utilizada principalmente na investigação diagnóstica de trombose venosa profunda (TVP) e tromboembolismo pulmonar (TEP), pois níveis elevados indicam a presença de atividade fibrinolítica associada à formação de trombos. Embora não seja específico — podendo estar elevado em situações como infecção, inflamação, cirurgia recente, trauma ou idade avançada — o D-dímero é extremamente útil para excluir a presença de trombose quando está dentro da faixa normal, especialmente em pacientes de baixo risco clínico. Por outro lado, o RNI (Razão Normalizada Internacional) é um exame padronizado derivado do tempo de protrombina, utilizado para monitorar a coagulação em pacientes em uso de anticoagulantes orais, principalmente a varfarina. A varfarina atua inibindo a síntese hepática de fatores de coagulação dependentes da vitamina K (fatores II, VII, IX e X), e a intensidade de seu efeito anticoagulante precisa ser controlada para equilibrar a prevenção de trombose com o risco de hemorragia. O RNI fornece um valor padronizado que permite ajustar a dose de varfarina de forma segura, garantindo que o paciente permaneça dentro da faixa terapêutica adequada — geralmente entre 2,0 e 3,0 para a maioria das indicações —, evitando complicações tanto por sub-anticoagulação quanto por excesso de anticoagulação. Em resumo, o D-dímero é utilizado para auxiliar no diagnóstico e exclusão de eventos trombóticos, enquanto o RNI é empregado para o acompanhamento e ajuste da anticoagulação oral, assegurando eficácia e segurança no tratamento a longo prazo. 205 1 2 3 4 5 Roteiro de Medicina LaboratorialSP 2.3 C. Explique a finalidade da realização dos exames D-dímero e RNI para avaliação e/ou acompanhamento de pacientes em uso de anticoagulantes. MATERIAIS NECESSÁRIOS Folhas de papel ofício A4, canetas coloridas, computadores ou tablets com acesso à internet. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA As bases farmacológicas da terapêutica de Goodman e Gilman, acessível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788580556 155/pageid/744 206 1 2 3 4 5 Roteiro de Medicina LaboratorialSP 2.3 ESTAÇÃO 2: ANTICOAGULANTES Duração total: 37 minutos ATIVIDADE 1: MAPA CONCEITUAL 1. Acesse o Ulife, em Minha Biblioteca, faça a busca pelo livro A Base Fisiopatológica da Farmacologia, de Golan, e faça a leitura das páginas 393 e 396. Depois, construa um mapa conceitual, em uma cartolina, diferenciando os tipos de anticoagulantes. Dica: o mapa conceitual deve conter conceitos como mecanismo de ação, dose usual administrada e nome fantasia dos medicamentos. Anticoagulantes orais • Exemplos: • Varfarina (nome fantasia: Marevan ® / Coumadin ® ) • Novos anticoagulantes orais (DOACs): • Dabigatrana (Pradaxa ® ) – inibidor direto da trombina. • Rivaroxabana (Xarelto ® ), Apixabana (Eliquis ® ), Edoxabana – inibidores diretos do fator Xa. • O que são: Fármacos usados por via oral para prevenir e tratar fenômenos tromboembólicos (FA, TVP, TEP, pós-prótese valvar, etc.). • Mecanismo de ação: • Varfarina: inibe a enzima vitamina K epóxido redutase → diminui síntese dos fatores II, VII, IX e X. • DOACs: inibem diretamente a trombina (dabigatrana) ou o fator Xa (rivaroxabana, apixabana, edoxabana). Heparina Baixo peso molecular (HBPM) – enoxaparina, dalteparina, nadroparina • Mecanismo de ação: potencializam ação da antitrombina III, inibindo preferencialmente o fator Xa. • Via de administração: subcutânea. Alto peso molecular (heparina não fracionada – HNF) • Mecanismo de ação: liga-se à antitrombina III e inibe tanto a trombina (fator IIa) quanto o fator Xa. • Via de administração: endovenosa (EV) ou subcutânea. ✅ Resumo visual para preencher o fluxograma: • Anticoagulantes orais: Varfarina, Dabigatrana, Rivaroxabana, Apixabana. • Nome fantasia: Marevan ® , Pradaxa ® , Xarelto ® , Eliquis ®. • O que são: Fármacos orais que previnem trombose. • Mecanismo de ação: Inibem vitamina K redutase (varfarina) ou atuam como inibidores diretos de Xa/Trombina (DOACs). • HBPM: inibe fator Xa via antitrombina III / subcutânea. • HNF (alto peso): inibe IIa e Xa via antitrombina III / EV ou SC. 🩸 Heparinas 1. Heparina Não Fracionada (HNF) Mecanismo de ação: Potencializa a atividade da antitrombina III, inibindo os fatores de coagulação IIa (trombina) e Xa. Dose usual: Administração intravenosa ou subcutânea, com ajuste conforme monitoramento do tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPa). Nomes fantasia: Liquemine®, Hepamax®. 2. Heparina de Baixo Peso Molecular (HBPM) Mecanismo de ação: Também potencializa a antitrombina III, com maior afinidade para o fator Xa, oferecendo menor risco de efeitos adversos. Dose usual: Administração subcutânea em doses fixas, com menor necessidade de monitoramento. Nomes fantasia: Clexane® (enoxaparina), Fragmin® (dalteparina). 💊 Antagonistas da Vitamina K Varfarina Mecanismo de ação: Inibe a enzima epóxido redutase, impedindo a ativação da vitamina K e, consequentemente, a síntese dos fatores de coagulação II, VII, IX e X. Dose usual: Administração oral, com monitoramento regular do índice internacional normalizado (INR) para ajuste da dose. Nomes fantasia: Marevan®, Coumadin®. ⚡ Inibidores Diretos da Trombina Dabigatrano Mecanismo de ação: Inibe diretamente a trombina (fator IIa), interrompendo a conversão de fibrinogênio em fibrina. Dose usual: Administração oral, com dose ajustada conforme a função renal. Nome fantasia: Pradaxa®. 🔷 Inibidores Diretos do Fator Xa Rivaroxabano Mecanismo de ação: Inibe diretamente o fator Xa, prevenindo a conversão de protrombina em trombina. Dose usual: Administração oral, com dose ajustada conforme a condição clínica e função renal. Nome fantasia: Xarelto®. • Apixabano Mecanismo de ação: Inibe diretamente o fator Xa, com perfil farmacocinético favorável. Dose usual: Administração oral, com dose ajustada conforme a condição clínica e função renal. Nome fantasia: Eliquis®. Roteiro de Medicina LaboratorialSP 2.3 1 2 4 53 Nome fantasia Mecanismo de ação O que são: Mecanismo de ação Via de administração Mecanismo de ação Via de administração 208 1 2 3 4 5 Roteiro de Medicina LaboratorialSP 2.3 ATIVIDADE 2: PREENCHIMENTO DE QUADRO Analise as situações descritas e discuta em grupo às questões propostas. 1. Acesse o Ulife, em Minha Biblioteca, faça a busca do Manual de hematologia: Programa Integrado de Hematologia e Transplante de Medula Óssea. Após a leitura preencha o quadro abaixo. MATERIAIS NECESSÁRIOS Cartolina, canetas coloridas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Golan DE. Princípios de farmacologia – a base fisiopatológica da farmacologia. 3. ed. Acessível em: https://integrada.minhabiblioteca. com.br/reader/books/978-85-277-2600-9/epubcfi/6/84[%3Bvnd.vst. idref%3Dchapter22]!/4/346/6 Acesse o Manual de hematologia: Programa Integrado de Hematologia e Transplante de Medula Óssea acessível em: https://integrada.minhabiblioteca. com.br/reader/books/9788520459676/pageid/305 HEPARINA DE BAIXO PESO MOLECULAR HEPARINA DE ALTO PESO MOLECULAR VARFARINA TEMPO DE MEIA-VIDA VALORES DE REFERÊNCIA DESEJÁVEIS NO TTPA (TEMPO DE TROMBOPLASTINA PARCIAL ATIVADA) VALORES DE REFERÊNCIA DESEJÁVEIS NO TP (TEMPO DE PROTROMBINA) VALORES DESEJÁVEIS NA RELAÇÃO NORMATIZADA INTERNACIONAL, RNI OU INR HNF é monitorada pelo TTPa porque sua ação anticoagulante depende da ativação da antitrombina e inibição de fatores da coagulação IIa e Xa. HBPM tem ação mais previsível; por isso, normalmente não é necessário monitorar TTPa, sendo usado o anti-Xa quando indicado (como em insuficiência renal ou obesidade). Varfarina atua na via dependente da vitamina K, por isso se monitora o TP e o INR, que refletem a atividade dos fatores II, VII, IX e X. 209 1 2 3 4 5 Encerramento da SessãoSP 2.3 Duração total: 25 minutos ATIVIDADE 1: RELATO DE CASO 1. Leia a reportagem abaixo, publicada no Portal G1 AC — Rio Branco em 26/06/2023. Depois, responda às questões propostas. “A família toda está no Acre, ela estava com o pé fraturado e não tinha como ficar dentro do apartamento, estava de atestado. A família se disponibilizou a mandar alguém ficar com ela, mas disse que vinha. Esse voo que foi o problema, muito tempo dentro do avião, a perna parada e tudo contribuiu para a embolia pulmonar”, contou em relato à jornalista. A. Explique como o TEP pode ser associado com fraturas ósseas e imobilidade de membros. B. Quais são os cuidados necessários em procedimentos pós-cirúrgicos dos membros inferiores? A observação dos familiares foi válida? C. Quais são os vasos dos membros inferiores frequentemente acometidos por TVP e quais as medidas utilizadas para reversão desse quadro clínico? D. Qual a conduta terapêutica medicamentosa mais indicada na emergência para essa paciente? E. Qual a conduta terapêutica medicamentosa mais indicada para uso contínuo pós-TVP? A. Associação entre TEP, fraturas ósseas e imobilidade de membros O tromboembolismo pulmonar (TEP) é frequentemente consequência de uma trombose venosa profunda (TVP), que ocorre devido à tríade de Virchow: estase venosa, lesão endotelial e hipercoagulabilidade. Fraturas ósseas, especialmente de membros inferiores, geram inflamação local e trauma endotelial, ativando a cascata de coagulação. Além disso, a imobilidade do membro fraturado favorece estase venosa, dificultando o retorno sanguíneo ao coração, aumentando o risco de formação de trombos. Viagens longas de avião, como no caso relatado, intensificam ainda mais a estase devido à posição sentada prolongada e à falta de mobilização das pernas, aumentando significativamente a probabilidade de desenvolvimento de TEP. B. Cuidados necessários em procedimentos pós-cirúrgicos dos membros inferiores e observação dos familiares Após cirurgias de membros inferiores, é essencial prevenir a TVP por meio de mobilização precoce, fisioterapia, exercícios de flexão e extensão de pés e tornozelos, uso de meias de compressão graduada e, quando indicado, profilaxia farmacológica com anticoagulantes. A observação dos familiares foi válida, pois eles perceberam fatores de risco claros, como a impossibilidade de imobilidade adequada durante o voo e a necessidade de alguém acompanhar a paciente para minimizar o risco de complicações. Esse tipo de atenção contribui para prevenção de episódios tromboembólicos. C. Vasos dos membros inferiores frequentemente acometidos por TVP e medidas para reversão As veias mais frequentemente acometidas por TVP são as veias profundas da coxa e da perna, incluindo a veia femoral comum, femoral superficial, poplítea, tibial anterior e posterior, e veias ilíacas. Para reversão do quadro clínico, o tratamento pode incluir anticoagulação sistêmica imediata, geralmente com heparina de baixo ou alto peso molecular, para impedir crescimento do trombo e prevenir embolização. Em casos graves ou com contraindicação ao anticoagulante, pode-se optar por trombólise dirigida por cateter, trombectomia mecânica ou colocação de filtro de veia cava inferior para prevenir TEP recorrente. D. Conduta terapêutica medicamentosa mais indicada na emergência para essa paciente Na emergência, o tratamento mais indicado é a anticoagulação imediata, preferencialmente com heparina de baixo peso molecular (HBPM) ou heparina não fracionada (HNF) por via intravenosa ou subcutânea. A escolha depende da gravidade do TEP, função renal e risco de sangramento. O objetivo é interromper a progressão do trombo existente, prevenir embolização adicional e estabilizar a paciente hemodinamicamente. Em casos graves com instabilidade cardiovascular, pode ser considerada a trombólise sistêmica. E. Conduta terapêutica medicamentosa para uso contínuo pós-TVP Para prevenção de recorrência após alta hospitalar, a paciente deve iniciar anticoagulação oral de longa duração, geralmentecom varfarina (monitorada pelo INR entre 2,0–3,0 para TVP/TEP usual) ou, quando indicado, anticoagulantes orais diretos (DOACs), como rivaroxabana ou apixabana. A duração do tratamento depende do risco de recorrência e das condições de cada paciente, podendo variar de 3 a 6 meses em casos de TVP secundária a fator transitório, ou indefinida em casos de TVP idiopática ou recorrente. A monitoração contínua e adesão rigorosa ao anticoagulante são essenciais para prevenir novos eventos tromboembólicos. 210 1 2 3 4 5 ATIVIDADE 1: LEITURA 1. Para melhor detalhamento do conteúdo abordado em sala, acesse no Ulife, em EBSCO, faça a busca pelo artigos indicados e faça a leitura: • Kwan KJ, Li HL, Chan YC, Huang JX, Cui DZ, Cheng SW. Venous tromboembolism with interrupted vena cava and compressed azygos continuation: a Case Report and review of literature. Vasc Endovascular Surg.; ISSN: 1938-9116, Vol. 57 (6), pp. 643-649; 2023. • Hashimoto Y, Komiya E, Nishino K, Nishida Y, Masuda A, Nakamura H. Postoperative D-dimer levels predict venous tromboembolism detect with detected with contrast computerized tomography in patients undergoing anterior cruciate ligament reconstruction, BMC Musculoskelet Disord, ISSN: 1471-2474, 2023 Feb 06; Vol. 24 (1), p. 95, 2023. • Kalyanasundaram S, Sudarsanam H, Dhas D, Shankar A, Varadan B, Ethiraj D, Rajakumar A, Devarajan V, Hakeem AR. Role of combinated CT pulmonar angiography and indirect CT venography in diagnosing venous tromboembolism in COVID 19 patients. Vasc Endovascular Surg, ISSN: 1938-9116, Vol. 57 (2), p. 129-136; 2023. ATIVIDADE 2: DYNAMED 1. Acesse o DynaMed e faça a busca utilizando os seguintes descritores: venous tromboembolism, evaluation, management, complications, etiology and pathogenesis. Depois, registre em seu portfólio as informações importantes apreendidas. 2. Ainda no DynaMed faça a busca pelo descritor deep-vein-thrombosis. Trilha de Aprendizagem Pós-aulaSP 2.3como exame de primeira linha no estudo da trombose venosa, sendo essencial para identificar a origem do êmbolo no TEP, auxiliar no raciocínio diagnóstico e orientar a conduta terapêutica. Os anticoagulantes são fármacos utilizados para prevenir a formação ou a expansão de trombos no sistema circulatório, atuando em diferentes pontos da cascata de coagulação. Eles não dissolvem coágulos já formados, mas evitam sua progressão e a formação de novos, permitindo que o organismo, por meio do sistema fibrinolítico, promova a resolução natural do trombo. Podem ser divididos em duas grandes classes: os anticoagulantes de uso parenteral, como as heparinas, e os de uso oral, como os antagonistas da vitamina K e os anticoagulantes orais diretos. As heparinas existem em duas formas principais: a heparina não fracionada e as heparinas de baixo peso molecular. Ambas atuam potencializando a ação da antitrombina III, inibindo a trombina e o fator Xa, embora a heparina não fracionada tenha ação mais ampla e necessite de monitorização frequente por meio do tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPa). Já as heparinas de baixo peso molecular apresentam farmacocinética mais previsível, meia-vida maior e geralmente não requerem monitorização laboratorial, sendo muito utilizadas na profilaxia e no tratamento da trombose venosa profunda e do tromboembolismo pulmonar. Os antagonistas da vitamina K, como a varfarina, atuam inibindo a síntese hepática dos fatores de coagulação dependentes da vitamina K (II, VII, IX e X), além das proteínas C e S, que são anticoagulantes naturais. Sua ação demora alguns dias para se instalar, pois depende da queda progressiva dos níveis circulantes desses fatores, exigindo monitorização rigorosa do tempo de protrombina (INR) para garantir eficácia e segurança. Apesar de sua ampla utilização histórica, possuem inúmeras interações medicamentosas e alimentares, além de risco de sangramento e de teratogenicidade, o que limita seu uso em alguns contextos. Mais recentemente, surgiram os anticoagulantes orais diretos (DOACs ou NOACs), que incluem os inibidores diretos do fator Xa (como rivaroxabana, apixabana e edoxabana) e os inibidores diretos da trombina (como o dabigatrana). Esses fármacos apresentam início de ação rápido, farmacocinética previsível, não requerem monitorização laboratorial de rotina e têm menos interações em comparação à varfarina, tornando-se preferidos em diversas situações clínicas, como na prevenção do acidente vascular cerebral em pacientes com fibrilação atrial não valvar e no tratamento do tromboembolismo venoso. Apesar de sua eficácia, todos os anticoagulantes compartilham um risco inerente de complicações hemorrágicas, exigindo avaliação criteriosa da relação risco-benefício em cada paciente. Em casos de sangramento grave, existem estratégias de reversão específicas: a protamina para as heparinas, a vitamina K e o plasma fresco congelado ou concentrado de complexo protrombínico para a varfarina, e agentes reversores específicos para alguns DOACs, como o idarucizumabe para a dabigatrana e o andexanet alfa para os inibidores do fator Xa. Dessa forma, o uso de anticoagulantes deve sempre ser individualizado, considerando indicações, contraindicações, monitorização e estratégias de reversão disponíveis. A tríade de Virchow descreve os três mecanismos fundamentais que favorecem a formação de trombos no sistema vascular: a lesão endotelial, a estase ou turbulência do fluxo sanguíneo e a hipercoagulabilidade. Essa última corresponde ao estado em que há um aumento anormal da tendência do sangue a coagular, resultado de alterações nos componentes plasmáticos ou celulares envolvidos na hemostasia. A hipercoagulabilidade pode ser hereditária, quando relacionada a mutações genéticas que afetam fatores de coagulação, como na mutação do fator V de Leiden, que o torna resistente à ação da proteína C ativada, ou na mutação do gene da protrombina, que eleva seus níveis circulantes; também podem estar envolvidos déficits de anticoagulantes naturais como proteína C, proteína S e antitrombina III. Já a forma adquirida é mais comum e está associada a diversas condições clínicas, como imobilização prolongada, cirurgia, trauma, gestação, uso de anticoncepcionais orais, terapia de reposição hormonal, câncer, síndrome nefrótica e estados inflamatórios ou infecciosos. Essas situações aumentam a atividade pró-coagulante ou reduzem os mecanismos anticoagulantes fisiológicos, favorecendo a formação de trombos. Assim, a hipercoagulabilidade é um dos pilares da tríade de Virchow, e, quando somada à estase sanguínea e à lesão endotelial, cria um ambiente propício para o desenvolvimento da trombose venosa e suas complicações, como o tromboembolismo pulmonar. A propensão para desenvolvimento de trombose venosa profunda (TVP) e, consequentemente, de tromboembolismo pulmonar (TEP), pode ser compreendida a partir dos mecanismos descritos pela tríade de Virchow: lesão endotelial, alterações do fluxo sanguíneo e hipercoagulabilidade. A lesão endotelial representa um fator crítico, pois a integridade do endotélio é fundamental para manter o sangue em estado fluido; quando ocorre dano por trauma, cirurgia, inflamação ou inserção de cateteres, há ativação de plaquetas e da cascata de coagulação, facilitando a formação do trombo. A alteração do fluxo sanguíneo, especialmente a estase venosa, é outro componente decisivo, pois reduz a eliminação de fatores de coagulação ativados e diminui o aporte de anticoagulantes naturais ao local, criando um microambiente propício à coagulação; isso é observado em imobilizações prolongadas, viagens longas, insuficiência cardíaca congestiva ou compressão venosa por massas tumorais. Já a hipercoagulabilidade pode ser hereditária ou adquirida: entre as formas hereditárias, destacam-se mutações como a do fator V de Leiden e a da protrombina, além de deficiências de antitrombina III, proteína C e proteína S; entre as adquiridas, estão situações como neoplasias, síndrome nefrótica, gestação, uso de anticoncepcionais orais, terapia de reposição hormonal, obesidade, estados inflamatórios crônicos e pós-operatórios. A interação desses fatores determina a maior ou menor propensão de um indivíduo ao desenvolvimento de TVP. Na prática clínica, raramente atuam de forma isolada; geralmente, a trombose resulta da combinação de pelo menos dois deles, como ocorre em pacientes hospitalizados que associam estase por imobilidade a uma condição pró-trombótica, ou em portadores de câncer, nos quais coexistem hipercoagulabilidade e lesão endotelial induzida por quimioterápicos. Quando o trombo se forma nas veias profundas, sobretudo das pernas e da pelve, há risco de fragmentação e deslocamento, originando êmbolos que, ao atingirem a circulação pulmonar, causam o TEP, com repercussões hemodinâmicas e respiratórias potencialmente graves. Dessa forma, segundo Bogliolo, compreender a tríade de Virchow e os fatores de risco associados é essencial não apenas para o entendimento da fisiopatologia da TVP e do TEP, mas também para o direcionamento da prevenção e do manejo clínico adequado. Os critérios de Wells são um escore clínico desenvolvido para estimar a probabilidade pré-teste de tromboembolismo pulmonar (TEP) em um paciente, antes mesmo da realização dos exames de imagem. Esse sistema é utilizado para guiar a conduta diagnóstica e terapêutica, ajudando a decidir se o paciente deve seguir diretamente para exames confirmatórios, se deve ser submetido a testes laboratoriais adicionais, como o dímero-D, ou se pode ter o diagnóstico de TEP descartado. Na prática, o escore atribui pontos a determinados achados clínicos e fatores de risco. Entre eles estão: sinais e sintomas de trombose venosa profunda, que têm grande peso; diagnóstico alternativo menos provável do que TEP; frequência cardíaca elevada; imobilização recente ou cirurgia nas últimas semanas; história prévia de TEP ou TVP; presença de hemoptise; e neoplasia ativa.Cada item possui uma pontuação específica, e a soma final classifica o paciente em diferentes categorias de risco. Tradicionalmente, o escore pode ser interpretado de duas formas: em três níveis, em que o risco é considerado baixo (0 a 1 ponto), moderado (2 a 6 pontos) ou alto (≥ 7 pontos); ou em dois níveis, simplificado, em que os pacientes são divididos em TEP provável (mais de 4 pontos) e TEP improvável (4 pontos ou menos). Segundo a lógica do escore, quanto maior a pontuação, maior a probabilidade de que o quadro clínico represente um TEP verdadeiro, orientando assim a sequência de exames complementares. Por exemplo, em pacientes classificados como de baixa probabilidade, um teste de dímero-D negativo praticamente exclui o diagnóstico, evitando exames de imagem desnecessários; já em pacientes de alta probabilidade, o protocolo clínico recomenda avançar diretamente para exames confirmatórios, como a angiotomografia pulmonar. As principais classes de anticoagulantes são definidas de acordo com o ponto de ação na cascata de coagulação e a forma de administração. Elas podem ser divididas em heparinas, antagonistas da vitamina K e anticoagulantes orais diretos (DOACs/NOACs). As heparinas constituem uma das classes mais antigas e eficazes. A heparina não fracionada (HNF) atua ligando-se à antitrombina III, potencializando sua ação inibitória contra múltiplos fatores da coagulação, principalmente a trombina (fator IIa) e o fator Xa, mas também IXa, XIa e XIIa. Já as heparinas de baixo peso molecular (HBPM), obtidas por fracionamento da HNF, também se ligam à antitrombina III, mas atuam de maneira mais seletiva, inibindo preferencialmente o fator Xa. Isso confere farmacocinética mais estável, meia-vida maior e menor necessidade de monitorização laboratorial, tornando-as amplamente utilizadas na profilaxia e no tratamento de eventos tromboembólicos. Os antagonistas da vitamina K, como a varfarina, inibem a enzima epóxido redutase da vitamina K no fígado, impedindo a regeneração da vitamina K ativa. Com isso, há redução da carboxilação e ativação dos fatores de coagulação II, VII, IX e X, além das proteínas C e S, que também dependem da vitamina K. O efeito clínico demora alguns dias para se estabelecer, pois depende da depuração dos fatores já sintetizados, motivo pelo qual muitas vezes é necessário iniciar a terapia concomitante com heparina até que o INR atinja níveis terapêuticos. Os anticoagulantes orais diretos (DOACs ou NOACs) representam uma geração mais recente, com início de ação rápido e farmacocinética previsível. Dentro deles, há duas subclasses: os inibidores diretos do fator Xa, como rivaroxabana, apixabana e edoxabana, que bloqueiam de forma específica e reversível o fator Xa, impedindo a conversão da protrombina em trombina; e os inibidores diretos da trombina, como a dabigatrana, que se liga diretamente ao sítio ativo da trombina, inativando-a e, consequentemente, prevenindo a transformação do fibrinogênio em fibrina. Assim, cada classe interfere em pontos distintos da cascata de coagulação, mas todas convergem no objetivo de impedir a formação e a propagação do trombo. O conhecimento do mecanismo de ação de cada uma é essencial para a escolha adequada do fármaco em diferentes contextos clínicos, levando em conta eficácia, rapidez de ação, necessidade de monitorização e risco de sangramento. 1. Heparinas (Heparina não fracionada e Heparinas de baixo peso molecular) As heparinas atuam potencializando a ação da antitrombina III, uma glicoproteína plasmática que inibe vários fatores da coagulação. A heparina não fracionada (HNF) inibe principalmente os fatores IIa (trombina) e Xa, enquanto as heparinas de baixo peso molecular (HBPM), como a enoxaparina, têm maior afinidade pelo fator Xa. Essa ação impede a conversão da protrombina em trombina, interrompendo a formação de fibrina e a propagação do trombo. 2. Antagonistas da vitamina K (como a varfarina) A varfarina age inibindo a enzima epóxido redutase, responsável pela regeneração da vitamina K ativa. Isso reduz a carboxilação e ativação dos fatores de coagulação dependentes da vitamina K: II (protrombina), VII, IX e X, além das proteínas anticoagulantes naturais C e S. Com isso, há uma diminuição na formação de trombina e, consequentemente, na formação de fibrina. 3. Anticoagulantes orais diretos (DOACs) Os DOACs podem ser classificados em: Inibidores diretos do fator Xa: como a rivaroxabana e apixabana, que inibem diretamente o fator Xa, impedindo a conversão da protrombina em trombina. Inibidores diretos da trombina: como a dabigatrana, que se liga diretamente à trombina, inibindo sua ação. Esses fármacos têm início de ação rápido, farmacocinética previsível e não requerem monitorização laboratorial frequente. 1. Inibidores da cicloxigenase (COX-1) – AAS (ácido acetilsalicílico) O AAS age inibindo irreversivelmente a enzima COX-1 nas plaquetas, impedindo a síntese de tromboxano A2, um potente mediador da ativação e agregação plaquetária. Com isso, reduz-se a capacidade das plaquetas de se agregarem e formar trombos arteriais. Essa inibição dura pelo tempo de vida da plaqueta (7 a 10 dias), já que as plaquetas não possuem núcleo e não podem sintetizar nova COX-1. 2. Inibidores dos receptores de ADP (P2Y12) – Clopidogrel, Ticagrelor, Prasugrel Esses fármacos bloqueiam o receptor P2Y12 da adenosina difosfato (ADP) na membrana plaquetária, que é essencial para a ativação do complexo GPIIb/IIIa, responsável pela ligação do fibrinogênio entre plaquetas e formação do agregado plaquetário. A inibição pode ser irreversível (clopidogrel e prasugrel) ou reversível (ticagrelor), e impede a amplificação da agregação plaquetária estimulada pelo ADP. 3. Inibidores do complexo GPIIb/IIIa – Abciximabe, Eptifibatida, Tirofibana Esses fármacos bloqueiam diretamente o receptor GPIIb/IIIa, que é o ponto final comum da ativação plaquetária, impedindo a ligação do fibrinogênio e do fator von Willebrand entre plaquetas. São potentes inibidores de agregação e geralmente usados em situações de alto risco, como intervenções coronárias percutâneas. 4. Inibidores da fosfodiesterase – Dipiridamol O dipiridamol aumenta os níveis intracelulares de AMP cíclico nas plaquetas, inibindo sua ativação e agregação. Geralmente é usado em combinação com AAS para prevenção de eventos tromboembólicos. Em resumo, os antiplaquetários diferem dos anticoagulantes porque atuam especificamente na função plaquetária, bloqueando mediadores químicos ou receptores essenciais para a agregação plaquetária, enquanto os anticoagulantes atuam na cascata de coagulação para impedir a formação de fibrina. Essa diferenciação de alvos farmacológicos permite que cada classe seja utilizada de forma estratégica dependendo do tipo de trombose (arterial ou venosa) e do contexto clínico do paciente. 1. Activadores do plasminogênio – Alteplase, Reteplase, Tenecteplase Esses fármacos são análogos do ativador tecidual do plasminogênio (t-PA). Eles se ligam ao plasminogênio presente no trombo e o convertem em plasmina, uma enzima que degrada a fibrina em produtos solúveis. A ação é relativamente seletiva para trombos formados recentemente, pois o t-PA tem maior afinidade pelo plasminogênio associado à fibrina do que pelo circulante. 2. Estreptoquinase e Uroquinase Essas drogas atuam de maneira indireta, formando complexos com o plasminogênio circulante e ativando-o em plasmina, que então degrada a fibrina do trombo. A estreptoquinase é imunogênica, podendo causar reações alérgicas em uso repetido, enquanto a uroquinase é menos imunogênica. 3. Mecanismo geral de ação Os trombolíticos convertem plasminogênio em plasmina, promovendo degradação da fibrina e consequente dissolução do trombo. Essa ação pode restaurar rapidamente a perfusão em vasos obstruídos, como em casos de infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral isquêmico ou tromboembolismo pulmonar grave. 4. Considerações farmacodinâmicas O efeitodos trombolíticos é mais eficaz em trombos recentes, ricos em plaquetas e fibrina solúvel. Há risco significativo de hemorragia, incluindo intracraniana, pois a plasmina pode degradar fibrina hemostática em outros locais do organismo. Por isso, a seleção cuidadosa do paciente e a avaliação de contraindicações são essenciais. Em resumo, os trombolíticos diferem dos anticoagulantes e antiplaquetários porque atuam na fase final do trombo já formado, ativando o sistema fibrinolítico e degradando a fibrina, enquanto os outros modulam a coagulação ou a agregação plaquetária para prevenir a formação ou expansão do trombo. 1 2 3 4 189 5 A. Relacione o postulado pela tríade de Virchow e os fatores que determinam a hipercoagulabilidade. B. Discuta os fatores que determinam a propensão para desenvolvimento de TVP (trombose venosa profunda) TEP. C. O que são os critérios de Wells utilizados como parâmetro para avaliação clínica de risco de TEP? D. Quais são as principais classes de anticoagulantes e seus mecanismos de ação? 2. Acesse o Ulife, em Minha Biblioteca faça a busca pelo livro As bases farmacológicas da terapêutica, de Goodman e Gilman, e leia os Capítulos 32 e 44. Após a leitura, responda às questões “A” a “C”. A. Descreva a farmacodinâmica das classes farmacológicas a seguir diferenciando seus alvos farmacológicos: • Anticoagulantes; • Antiplaquetários; • Trombolíticos. B. Explique como monitorar o paciente em uso de anticoagulantes por meio de exames laboratoriais e cite quais os exames e seus respectivos valores de referência. C. Especifique os aspectos de escolha da terapêutica medicamentosa em casos de TVE e TEP. Trilha de Aprendizagem Pré-aulaSP 2.3 O monitoramento laboratorial de pacientes em uso de anticoagulantes é essencial para garantir a eficácia da terapia e minimizar o risco de complicações hemorrágicas. O tipo de exame utilizado depende da classe de anticoagulante administrada, já que cada fármaco atua em pontos diferentes da cascata de coagulação. No caso da heparina não fracionada (HNF), o monitoramento é realizado principalmente por meio do tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPa). O TTPa avalia a via intrínseca e a via comum da coagulação, sendo prolongado quando há efeito anticoagulante adequado. O valor de referência do TTPa em pacientes sem anticoagulação costuma variar entre 25 e 35 segundos, e o alvo terapêutico durante o uso da HNF é geralmente de 1,5 a 2,5 vezes o valor basal. Em algumas situações clínicas, a heparina de baixo peso molecular não requer monitoramento rotineiro devido à farmacocinética mais previsível, embora em pacientes com insuficiência renal, obesidade ou risco de sangramento elevado possa ser necessário medir o fator Xa, com valores terapêuticos entre 0,5 e 1,0 UI/mL, dependendo da dose e da indicação. Para os antagonistas da vitamina K, como a varfarina, o monitoramento é feito por meio do tempo de protrombina (TP), que avalia a via extrínseca e a via comum da coagulação. Os resultados são geralmente expressos como INR (International Normalized Ratio), padronizando as diferenças entre laboratórios. O INR terapêutico depende da indicação clínica: na maioria das situações de prevenção ou tratamento de trombose venosa, o valor alvo é entre 2,0 e 3,0, enquanto em pacientes com próteses valvares cardíacas mecânicas o alvo pode ser mais elevado, entre 2,5 e 3,5. Nos anticoagulantes orais diretos (DOACs), como os inibidores do fator Xa (rivaroxabana, apixabana) e os inibidores diretos da trombina (dabigatrana), o monitoramento laboratorial de rotina não é necessário devido à farmacocinética previsível. No entanto, em situações especiais, como insuficiência renal grave, eventos hemorrágicos, cirurgia de emergência ou suspeita de superdosagem, podem ser realizados exames específicos: os DOACs anti-Xa calibrados para rivaroxabana e apixabana, e o tempo de trombina ou teste de diluição do dabigatrana para dabigatrana, embora não existam valores de referência padronizados universalmente, sendo interpretados em contexto clínico. Além disso, exames de função renal e hepática podem ser monitorados periodicamente, já que muitos anticoagulantes dependem da depuração renal ou da metabolização hepática, e alterações nesses órgãos podem modificar a farmacocinética e o risco de sangramento. Em resumo, a monitorização laboratorial individualizada, combinada à avaliação clínica contínua, é fundamental para o uso seguro e eficaz de anticoagulantes. A escolha da terapêutica medicamentosa em casos de trombose venosa profunda (TVP) e tromboembolismo pulmonar (TEP) deve considerar diversos fatores relacionados ao paciente, à gravidade do evento, ao risco de sangramento e às características farmacológicas dos anticoagulantes disponíveis. Inicialmente, em pacientes com TVP ou TEP agudo, recomenda-se iniciar a anticoagulação rapidamente, mesmo antes da confirmação diagnóstica definitiva, sempre que houver suspeita clínica significativa e ausência de contraindicações. A heparina não fracionada (HNF) ou as heparinas de baixo peso molecular (HBPM) são frequentemente escolhidas para início imediato, devido à ação rápida e à possibilidade de reversão em caso de complicações hemorrágicas. As HBPM têm a vantagem de farmacocinética mais previsível, menor necessidade de monitorização e administração subcutânea, tornando-as adequadas para pacientes estáveis, enquanto a HNF intravenosa é preferida em situações de instabilidade hemodinâmica, insuficiência renal grave ou quando há necessidade de ajuste frequente da dose. Para manutenção e prevenção de recorrência, a terapia oral é geralmente indicada. Os antagonistas da vitamina K, como a varfarina, têm sido historicamente o padrão-ouro, exigindo monitorização do INR para manter a anticoagulação em níveis terapêuticos e seguros. Atualmente, os anticoagulantes orais diretos (DOACs), incluindo inibidores do fator Xa (rivaroxabana, apixabana, edoxabana) e inibidores diretos da trombina (dabigatrana), são preferidos em muitos cenários clínicos devido ao início rápido de ação, farmacocinética previsível e menor necessidade de monitorização laboratorial, sendo indicados em pacientes sem contraindicações como insuficiência renal grave ou interações medicamentosas significativas. A escolha específica também depende do perfil do paciente: idade, função renal e hepática, comorbidades, risco de sangramento, gravidez, estado de hipercoagulabilidade e necessidade de reversão rápida. Por exemplo, pacientes gestantes geralmente não recebem varfarina devido à teratogenicidade, sendo as heparinas a opção segura. Em casos de TEP maciço com instabilidade hemodinâmica, pode ser necessário considerar trombolíticos para dissolver rapidamente o trombo, associados ou não à anticoagulação contínua. Além disso, a duração da anticoagulação é individualizada: eventos tromboembólicos provocados por fatores transitórios podem necessitar de 3 a 6 meses de terapia, enquanto casos idiopáticos ou com fatores de risco persistentes podem exigir anticoagulação prolongada ou indefinida. Portanto, a escolha da terapêutica medicamentosa em TVP e TEP deve ser personalizada, balanceando eficácia, segurança, facilidade de uso e características clínicas do paciente para otimizar os resultados e reduzir complicações. A progressão de trombos e êmbolos no interior dos vasos sanguíneos ocorre em etapas complexas, envolvendo interação entre plaquetas, fatores de coagulação e fibrina, e cada ponto dessa cascata oferece alvos farmacológicos distintos para prevenção e tratamento da trombose. Inicialmente, a formação do trombo começa com lesão endotelial ou alteração do fluxo sanguíneo, que expõe o colágeno e outras proteínas subendoteliais, promovendo adesão e ativação plaquetária. Nesse estágio, os antiplaquetários atuam de forma eficaz: o ácido acetilsalicílico (AAS) inibe irreversivelmente a COX-1, reduzindo a síntese de tromboxano A2; os inibidores do receptor P2Y12, como clopidogrel, prasugrel e ticagrelor,bloqueiam a ativação do complexo GPIIb/IIIa; e fármacos como abciximabe impedem a ligação do fibrinogênio entre plaquetas, prevenindo a agregação. À medida que o trombo se forma, ocorre ativação da cascata de coagulação, convertendo a protrombina em trombina, que por sua vez transforma o fibrinogênio em fibrina, estabilizando o trombo. É nesse ponto que os anticoagulantes exercem seu efeito: as heparinas (não fracionada e de baixo peso molecular) potencializam a antitrombina III para inibir a trombina (IIa) e o fator Xa; os antagonistas da vitamina K, como a varfarina, reduzem a síntese hepática dos fatores II, VII, IX e X, impedindo a geração de trombina; e os anticoagulantes orais diretos (DOACs) atuam diretamente sobre a trombina (dabigatrana) ou o fator Xa (rivaroxabana, apixabana), bloqueando a formação de fibrina. Quando ocorre fragmentação do trombo e formação de êmbolos, estes podem se deslocar pela circulação, alcançando órgãos-alvo como os pulmões, causando tromboembolismo pulmonar, ou outros vasos arteriais, provocando isquemia. Nos casos de obstrução aguda de grandes vasos, os trombolíticos tornam-se fundamentais, ativando o plasminogênio em plasmina, que degrada a fibrina e dissolve o trombo. Exemplos incluem alteplase, reteplase e tenecteplase, bem como uroquinase e estreptoquinase. Portanto, a progressão de trombos e êmbolos pode ser modulada em vários pontos farmacológicos: antiplaquetários atuam na fase inicial de adesão e agregação plaquetária, anticoagulantes interferem na geração de trombina e formação de fibrina, e trombolíticos promovem a degradação ativa do trombo já formado. A escolha do fármaco adequado depende do estágio do trombo, da gravidade clínica, do risco de sangramento e do órgão-alvo afetado. 190 1 2 3 4 5 Duração total: 25 minutos ATIVIDADE 1: DRAMATIZAÇÃO Em grupo, os estudantes deverão criar uma dramatização e eleger 25 a 30 estudantes para dramatizar processo de formação e de progressão de trombos e êmbolos, no interior dos vasos sanguíneos, bem como os principais alvos farmacológicos mostrando os fármacos que atuam em cada sítio. Para dramatizar esse processo, alguns alunos serão eleitos como hemácias, outros representantes serão plaquetas e outro grupo será de leucócitos. Agora , é só usarem a criatividade e unirem-se por agrupamento durante a formação de trombos e coágulos. Os componentes formadores do trombo também deverão ser representados em seus grupos. Os alunos que farão esta representação deverão segurar nas mãos suas identificações registradas em papel sulfite durante a atividade. A turma elegerá democraticamente a melhor encenação. ATIVIDADE 2: DISCUSSÃO EM GRUPO 1. Leia a afirmação abaixo e, após, comente-a, discutindo a sua relação. “Acessos venosos nos membros inferiores não são indicados, sendo preferencialmente escolhidas as veias dos membros superiores, ou de outros segmentos, devido ao risco de ocorrência de TVP ou TEP." Abertura da SessãoSP 2.3 A frase significa que, na prática clínica, a punção ou inserção de cateteres em veias dos membros inferiores deve ser evitada sempre que possível, porque essas veias apresentam maior propensão à estase sanguínea, o que aumenta o risco de trombose venosa profunda (TVP). A formação de trombos nas veias das pernas pode evoluir para tromboembolismo pulmonar (TEP) caso o trombo se desprenda e alcance a circulação pulmonar, podendo causar complicações graves e até fatais. Por isso, sempre que houver necessidade de acesso venoso para administração de medicamentos, fluidos ou cateteres de longa permanência, são preferencialmente escolhidas veias dos membros superiores ou de outros segmentos com menor risco trombótico, como veias centrais (jugular interna ou subclávia), reduzindo a probabilidade de eventos tromboembólicos. 191 1 2 3 4 5 Roteiro de Laboratório Morfofuncional Heparina e anticoagulantes orais utilizados em distúrbios trombóticos LOCAL Laboratório Morfofuncional. OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Reconhecer o sistema de irrigação (artérias) dos membros inferiores. Reconhecer o sistema de drenagem sanguínea (veias) dos membros inferiores. Relacionar com a fisiopatologia de TEP (tromboembolismo pulmonar) e TVP (trombose venosa profunda). ESTAÇÃO 1: VASCULARIZAÇÃO DE MEMBROS INFERIORES E FORMAÇÃO DE TROMBOS E ÊMBOLOS Duração total: 37 minutos ATIVIDADE 1: EXERCÍCIO 1. Observe os esquemas de visões posteriores dos membros inferiores esquerdos representados na imagem abaixo. As figuras representam alterações vasculares dos membros inferiores: A- telangiectasia; B- varicosidades; C- edema. Em seguida, responda às questões “A” a “E”. SP 2.3 192 1 2 3 4 5 Roteiro de Laboratório MorfofuncionalSP 2.3 Fonte: Server Medical Art by servier is licensed under a Cretive Comons Atributions 3.0 Unported License. A. Quais são os fatores predisponentes às alterações observadas em A e B? B. Cite os principais vasos possivelmente acometidos nas alterações em A e B. C. Quais são os mecanismos de formação de edema observado em C? D. Relacione a incidência de TVP com as alterações vasculares demonstradas em A, B e C. E. Qual a importância da utilização do doppler colorido para identificação de alterações vasculares agravantes? ATIVIDADE 2: RELATO CLÍNICO 1. Leia o Relato A e responda às questões propostas. RELATO A - “Marlene, 48 anos, moradora do Flamengo, faleceu ontem vítima de tromboembolismo pulmonar, após cirurgia de lipoaspiração em uma clínica de cirurgia plástica clandestina na zona norte do Rio de Janeiro". • História familiar (predisposição genética). • Sexo feminino (influência hormonal, gestação). • Obesidade. • Idade avançada. • Permanecer longos períodos em pé ou sentado. • Sedentarismo. • Uso de anticoncepcionais hormonais ou terapia de reposição hormonal. • Insuficiência venosa crônica. • Em A (telangiectasias e veias reticulares): vasos de pequeno calibre, localizados no plexo dérmico superficial (veias intradérmicas). • Em B (varizes): veia safena magna, veia safena parva e suas tributárias. • Aumento da pressão venosa (estase venosa por insuficiência valvar). • Extravasamento de líquido para o interstício devido ao aumento da pressão hidrostática. • Alterações na drenagem linfática secundárias à hipertensão venosa crônica. • Inflamação crônica da parede venosa, levando a maior permeabilidade capilar. • A (telangiectasias): pouco ou nenhum risco direto para trombose venosa profunda (TVP), mas indicam predisposição para insuficiência venosa. • B (varizes): risco aumentado de tromboflebite superficial; indiretamente, pode aumentar a chance de complicações trombóticas. • C (edema): sinal de insuficiência venosa avançada, que pode estar associada a maior risco de estase venosa e, portanto, maior probabilidade de desenvolvimento de TVP. • Permite avaliar o fluxo venoso em tempo real. • Identifica refluxo venoso e insuficiência valvar. • Detecta presença de trombos em veias superficiais e profundas. • Diferencia entre causas venosas, arteriais e linfáticas do edema. • Fundamenta a escolha do tratamento (clínico, escleroterapia, cirurgia, laser). • Previne complicações, como progressão para insuficiência venosa crônica grave e TVP. O tromboembolismo pulmonar (TEP) é uma complicação grave que pode ocorrer após procedimentos cirúrgicos, especialmente aqueles de caráter estético, como a lipoaspiração, devido a múltiplos fatores que aumentam o risco de trombose venosa profunda (TVP), que é a principal fonte de êmbolos pulmonares. Durante a cirurgia, ocorre imobilização prolongada, que favorece a estase venosa nos membros inferiores, criando um ambiente propício para a formação de coágulos. Além disso, procedimentos invasivos provocam lesão endotelial e ativação da cascata de coagulação por meio de respostas inflamatórias e hipercoagulabilidade transitória induzida pelo trauma cirúrgico. A lipoaspiração, em particular, envolve manipulação extensa do tecido adiposo e pode causar microlesões nos vasos, favorecendoa formação de trombos. Quando fragmentos desses trombos se desprendem, eles podem atingir a circulação pulmonar, obstruindo artérias pulmonares e levando ao TEP, que pode se manifestar de forma súbita e ser fatal. No caso relatado, a associação temporal entre a cirurgia realizada em uma clínica clandestina, possivelmente sem adequada avaliação de risco, profilaxia antitrombótica ou monitoramento pós-operatório, e o desenvolvimento do TEP evidencia que o procedimento cirúrgico foi o principal fator precipitante do evento tromboembólico. No caso relatado, a formação do êmbolo está diretamente relacionada aos mecanismos fisiopatológicos que levam à trombose venosa profunda após cirurgia. Durante a lipoaspiração, ocorre imobilização prolongada, trauma tecidual e manipulação extensa dos vasos sanguíneos, fatores que contribuem para a estase venosa e para a ativação local da cascata de coagulação. Essa ativação provoca agregação plaquetária e deposição de fibrina, resultando na formação de um trombo nas veias profundas dos membros inferiores ou da pelve. O trombo pode crescer e, eventualmente, fragmentar-se, desprendendo-se e entrando na circulação venosa central. Esse fragmento móvel, agora denominado êmbolo, é transportado pelo sistema venoso até o coração direito e, daí, para as artérias pulmonares, onde causa obstrução do fluxo sanguíneo pulmonar, caracterizando o tromboembolismo pulmonar. Assim, o mecanismo principal envolve a tríade de Virchow — estase venosa, lesão endotelial e hipercoagulabilidade — desencadeada pelo trauma cirúrgico, imobilização e inflamação pós-operatória, culminando na formação do trombo e sua migração como êmbolo. Um trombo pode ser classificado com base em sua localização, composição e aparência macroscópica, refletindo diferenças nos mecanismos de formação e nas consequências clínicas. Quanto à localização, distinguimos trombos arteriais, que se formam em artérias geralmente sobre placas ateroscleróticas e são ricos em plaquetas, de trombos venosos, típicos das veias profundas dos membros inferiores, ricos em fibrina e hemácias devido à menor velocidade do fluxo sanguíneo. Em termos de composição, os trombos podem ser classificados como plaquetários, quando predominam plaquetas e fibrina, típicos de locais de alta cisalhamento arterial; fibrinosos ou vermelhos, quando há maior acúmulo de hemácias dentro de uma rede de fibrina, característicos das veias; ou mistos, apresentando camadas alternadas de plaquetas e hemácias, o que lhes confere aparência estratificada. Macroscopicamente, os trombos arteriais costumam ser firmes, aderidos à parede do vaso e friáveis, enquanto os trombos venosos geralmente são mais macios, alongados e preenchendo parcialmente a luz do vaso. Essa classificação não apenas auxilia na compreensão do mecanismo de formação do trombo, mas também orienta a abordagem terapêutica e o prognóstico das complicações tromboembólicas. 193 1 2 3 4 5 Roteiro de Laboratório MorfofuncionalSP 2.3 A. Qual a relação entre o procedimento cirúrgico realizado e o evento de TEP relatado? B. Qual seria o mecanismo associado à formação do êmbolo no caso relatado? C. Como podemos classificar um trombo? 2. Leia o Relato B e responda às questões propostas. RELATO B - “Lúcia, 65 anos, vítima de acidente doméstico, teve o fêmur esquerdo fraturado, necessitando ser imobilizada durante algumas semanas. Foi readmitida depois da 3ª semana de alta no pronto atendimento com suspeita de TEP por não seguir orientações médicas pós-cirúrgicas”. A. Qual a relação entre o traumatismo ósseo e o surgimento de TEP em Lúcia? B. Quais procedimentos deveriam ser realizados para reversão desse quadro clínico? C. Qual a classificação para esse tipo de trombo? ATIVIDADE 2: EXERCÍCIO 1. Analise a lâmina apresentada a seguir e responda às questões “A” e “B”. O traumatismo ósseo, como a fratura do fêmur sofrida por Lúcia, está fortemente associado ao surgimento de tromboembolismo pulmonar devido à combinação de fatores que favorecem a formação de trombos venosos. A fratura causa lesão direta nos vasos sanguíneos e tecidos ao redor, promovendo ativação endotelial e desencadeando a cascata de coagulação local. Além disso, o período prolongado de imobilização necessário para a consolidação óssea leva à estase venosa nos membros inferiores, um dos principais fatores de risco para trombose, pois o sangue circula mais lentamente, favorecendo a agregação plaquetária e a deposição de fibrina. O trauma também induz uma resposta inflamatória sistêmica, que aumenta a hipercoagulabilidade, alterando o equilíbrio natural entre fatores pró-coagulantes e anticoagulantes endógenos. No contexto pós-operatório ou pós-traumático, a ausência de adesão às medidas preventivas, como mobilização precoce, exercícios de contração muscular e, quando indicado, profilaxia farmacológica com anticoagulantes, intensifica o risco de trombose venosa profunda. Quando o trombo formado nas veias profundas se desprende, ele migra até a circulação pulmonar, causando obstrução arterial e caracterizando o tromboembolismo pulmonar. Dessa forma, o traumatismo ósseo, ao gerar lesão endotelial, estase e hipercoagulabilidade, estabelece as condições ideais para o desenvolvimento do TEP. A reversão do quadro clínico de tromboembolismo pulmonar em Lúcia exige medidas imediatas e direcionadas para restaurar o fluxo sanguíneo pulmonar, prevenir a progressão do trombo e reduzir o risco de morte súbita. Inicialmente, é essencial a estabilização hemodinâmica, com monitoramento contínuo de sinais vitais e, se necessário, suporte ventilatório e administração de oxigênio para corrigir hipóxia. O tratamento farmacológico de primeira linha consiste na anticoagulação, geralmente com heparina não fracionada ou de baixo peso molecular, que impede a formação de novos trombos e limita o crescimento dos já existentes. Em casos de TEP maciço ou instabilidade hemodinâmica, pode ser indicada a trombólise sistêmica com agentes fibrinolíticos, que promovem a dissolução do trombo de forma mais rápida, ou a terapia farmacomecânica direcionada por cateter, quando disponível, combinando ação mecânica e trombólise local. Em pacientes com contraindicação à anticoagulação ou trombólise, pode-se considerar a implantação de filtro de veia cava inferior para prevenir embolização adicional. Paralelamente, é fundamental tratar fatores predisponentes, como mobilização precoce, reabilitação adequada e adesão à profilaxia pós-traumática, a fim de reduzir o risco de novos eventos tromboembólicos. O manejo deve ser individualizado, considerando idade, comorbidades, extensão do trombo e estabilidade clínica, sempre sob monitoramento intensivo e avaliação multidisciplinar. O trombo associado ao caso de Lúcia, formado após fratura de fêmur e imobilização, pode ser classificado como um trombo venoso profundo, típico do sistema venoso dos membros inferiores, rico em fibrina e hemácias, com menor proporção de plaquetas em comparação aos trombos arteriais. Macroscopicamente, esses trombos são geralmente alongados, macios e podem preencher parcialmente a luz da veia, aderindo à parede endotelial de maneira menos firme que os trombos arteriais. Eles se formam predominantemente em condições de estase venosa, lesão endotelial e hipercoagulabilidade — os três componentes da tríade de Virchow — sendo, portanto, denominados trombos vermelhos ou fibrinosos, refletindo sua composição rica em hemácias embebidas em fibrina. Esse tipo de trombo apresenta grande potencial de se desprender e migrar até a circulação pulmonar, causando tromboembolismo pulmonar, que é a complicação observada no caso. 194 1 2 3 4 5 Fonte: https://anatpat.unicamp.br/lamdc7.html A. Explique a relação entre os processos patológicos: aterosclerose e trombose. Um precede o outro? B. Diferencie esses dois processos e explique os termos "trombose recente" e "trombo recanalizado". Roteiro de Laboratório MorfofuncionalSP 2.3 A aterosclerosee a trombose estão intimamente relacionadas, mas correspondem a processos patológicos distintos, que frequentemente se interconectam. A aterosclerose é uma doença crônica das artérias caracterizada pelo acúmulo de lipídios, células inflamatórias e tecido fibroso na parede arterial, formando placas ateroscleróticas. Essas placas podem se tornar instáveis, rompendo o endotélio e expondo o conteúdo lipídico e o colágeno subendotelial à corrente sanguínea. Esse evento de ruptura é um estímulo direto para a trombose, pois desencadeia a ativação plaquetária e da cascata de coagulação, levando à formação de um trombo sobre a placa. Nesse sentido, a aterosclerose pode preceder a trombose, criando o substrato estrutural que favorece a formação do coágulo. No entanto, a trombose também pode ocorrer em outros contextos, como estase venosa ou hipercoagulabilidade, sem presença prévia de aterosclerose, especialmente em veias profundas. Em resumo, a aterosclerose fornece a base estrutural e inflamatória que aumenta significativamente o risco de trombose arterial, tornando a sequência patológica comum: desenvolvimento da placa aterosclerótica seguido de ruptura ou erosão endotelial e formação de trombo, o que pode resultar em eventos agudos como infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral. A aterosclerose e a trombose são processos distintos, embora frequentemente interligados. A aterosclerose é uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo de lipídios, células inflamatórias e tecido fibroso na parede arterial, formando placas que estreitam o lúmen vascular e podem se tornar instáveis. Por outro lado, a trombose é um evento agudo ou subagudo, no qual um trombo se forma dentro de um vaso sanguíneo, podendo obstruir total ou parcialmente o fluxo sanguíneo. A trombose pode ocorrer em artérias, muitas vezes sobre placas ateroscleróticas rompidas, ou em veias, frequentemente associada à tríade de Virchow (estase, lesão endotelial e hipercoagulabilidade). O termo “trombose recente” refere-se a um trombo recém-formado, geralmente ainda macio, vermelho e frouxamente aderido à parede do vaso, com elevado risco de fragmentação e embolização. Já o termo “trombo recanalizado” descreve um trombo antigo que sofreu processos de organização e reparo tecidual: novos canais vasculares se formam dentro do trombo, permitindo que algum fluxo sanguíneo seja restabelecido. A recanalização é um mecanismo natural do organismo para tentar restaurar a perfusão, mas não elimina completamente o risco de complicações, podendo deixar áreas de estenose ou fragilidade vascular. 195 1 2 3 4 5 Roteiro de Laboratório MorfofuncionalSP 2.3 Fonte: https://anatpat.unicamp.br/lamdc7.html A. Explique os componentes vasculares representados nos esquemas. B. Explique os mecanismos de formação do processo patológico. C. Como diferenciar os termos "coágulo", "trombo" e "êmbolo"? Podemos associar esses processos ao esquema representado? Justifique sua resposta. D. Quais as classificações de um trombo e os aspectos associados a essa diferença? 2. Analise as imagens abaixo e responda às questões propostas. • Parede vascular: representada em azul, mostrando o endotélio e as válvulas venosas. • Lúmen do vaso: espaço por onde circulam as hemácias (em vermelho). • Válvulas venosas: estruturas em azul claro, responsáveis por impedir o refluxo sanguíneo. • Formações patológicas: aglomerados de células e fibrina (em vermelho escuro), representando o trombo. O processo ilustrado corresponde à trombose venosa, fundamentado na Tríade de Virchow: 1. Estase venosa: fluxo lento do sangue, principalmente em áreas valvulares. 2. Lesão endotelial: dano à parede do vaso ou disfunção endotelial. 3. Hipercoagulabilidade: alteração nos mecanismos de coagulação, favorecendo deposição de fibrina e plaquetas. Esses fatores levam à formação do trombo, inicialmente plaquetário e depois fibrino-hemático, que pode obstruir parcial ou totalmente o lúmen. • Coágulo: massa de fibrina e elementos celulares formada geralmente fora dos vasos ou em resposta a hemorragia (ex.: em tubo de ensaio ou após corte). Não está aderido ao endotélio. • Trombo: formação intravascular patológica de fibrina e células sanguíneas, aderido à parede vascular, podendo obstruir o vaso. • Êmbolo: fragmento sólido, líquido ou gasoso que circula no sangue e pode obstruir vasos em locais distantes (ex.: tromboembolismo pulmonar). 👉 No esquema: • Na segunda imagem vemos a formação do trombo (aderido à parede e válvula). • Na terceira imagem, parte do trombo parece desprender-se, representando a formação de êmbolo. Os trombos podem ser classificados de várias formas: 1. Segundo a composição: • Brancos: ricos em plaquetas e fibrina, comuns em artérias. • Vermelhos: ricos em hemácias, comuns em veias. • Mistos: apresentam zonas alternadas de plaquetas/fibrina e hemácias. 2. Segundo a localização: • Venoso (flebótrombo): mais comum em membros inferiores (TVP). • Arterial: geralmente associado à aterosclerose e lesão endotelial. • Cardíaco: em cavidades ou válvulas cardíacas. 3. Segundo a evolução: • Progressão: crescimento do trombo. • Embolização: fragmentação e migração do trombo. • Organização e recanalização: formação de tecido fibroso e restauração parcial do fluxo. • Resolução: lise do trombo por fibrinólise. 196 1 2 3 4 5 MATERIAIS NECESSÁRIOS Tablets e notebooks. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA Brasileiro Filho G. Bogliolo Patologia/Geraldo Brasileiro Filho. 10. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021. Capítulo 9 (Alteração da circulação p.203 a 211). Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/ books/9788527738378/epubcfi/6/40[%3Bvnd.vst.idref%3Dhtml20]!/4/376/ 1:336[o%20c%2Cont] Roteiro de Laboratório MorfofuncionalSP 2.3 197 1 2 3 4 5 Roteiro de Laboratório MorfofuncionalSP 2.3 ESTAÇÃO 2: IRRIGAÇÃO E DRENAGEM DE MEMBROS INFERIORES - VASCULARIZAÇÃO ASSOCIADA AOS SEGMENTOS Duração total: 37 minutos ATIVIDADE 1: MEDROOM ANATOMY O MedRoom Anatomy é um equipamento de realidade virtual em que o aprendiz é inserido em ambientes virtuais de aprendizagem, como laboratórios de anatomia, com o objetivo de proporcionar uma fácil integração com o conteúdo didático estudado, e representa uma ferramenta complementar aos estudos teóricos. Seu uso é importante como mediador entre a tecnologia e a aprendizagem, solidificando conhecimentos adquiridos. 1. Para desenvolver esta atividade, você utilizará o MedRoom Anatomy. Para isso, os estudantes deverão ser distribuídos nos papéis abaixo descritos. • 1 estudante para ser explorador (sua função será isolar os componentes da vascularização de membros inferiores e detalhar as estruturas para os demais colegas, conforme solicitado por esse roteiro - estruturas indicadas em negrito nas questões). • 1 estudante deve ser o guia (sua função será garantir a segurança do explorador enquanto estiver imerso no software). • 1 estudante deve ser o tradutor (sua função será mostrar aos demais estudantes no aplicativo Visible Body e/ou nos modelos anatômicos as estruturas relatadas pelo explorador). • 1 ou mais estudantes devem ser os relatores (sua função será, com a ajuda dos colegas, responder às questões dirigidas nas estações). 198 1 2 3 4 5 Roteiro de Laboratório MorfofuncionalSP 2.3 Siga o passo a passo. A. Higienize os óculos e controles manuais. B. Identifique as seguintes estruturas: ARTÉRIAS PROVEDORAS DE IRRIGAÇÃO DOS MEMBROS INFERIORES • Aa. ilíacas comuns (direita e esquerda); • Aa. ilíacas internas (direita e esquerda); • Umbilical – a. vesical superior: • Obturatória; • Glútea superior; • Glútea inferior; • Pudenda interna. • Aa. ilíacas externas (direita e esquerda); • A. femoral: • A. femoral profunda; • Aa. circunflexas femorais (lateral e medial); • A. obturatória; • Aa. perfurantes; • A. descendente do joelho; • A. poplítea; • A. superior medial do joelho; • A. inferior medial do joelho; • A. superior lateral do joelho; • A. inferior lateral do joelho;• A. tibial recorrente; • Aa. tibiais anterior e posterior; • A. fibular; • A. maleolar anterior lateral. 199 1 2 3 4 5 Roteiro de Laboratório MorfofuncionalSP 2.3 • A. dorsal do pé • A. arqueada: • Aa. plantares medial e lateral; • Aa. metatarsais dorsais; • Aa. metatarsais plantares; • Arco plantar profundo; • Aa. digitais plantares; • Aa. digitais dorsais. VEIAS DOS MEMBROS INFERIORES • V. cava inferior; • Vv. ilíacas (comum, interna e externa); • Vv. femorais profundas; • V. safena magna; • V. femoral; • V. poplítea: • V. safena parva; • Vv. tibial anterior; • Vv. tibial posterior; • Arco venoso dorsal do pé. Responda às questões propostas: A. Como é possível fazer a palpação do pulso pedioso? B. Por que a veia safena magna é utilizada para cirurgias de revascularização cardíaca (pontes de safena)? C. Quais as consequências da retirada cirúrgica da veia safena magna comprometida por trombos e obstruções vasculares? D. Quais exames devem ser solicitados para verificar a integridade de vasos de drenagem dos membros inferiores? Para palpar o pulso pedioso o paciente deve estar em decúbito dorsal com o pé relaxado e levemente em dorsiflexão; o examinador posiciona-se ao lado do pé, usa as pontas dos dois primeiros dedos (indicador e médio) — nunca o polegar — e aplica pressão suave e gradual sobre o dorso do pé, distalmente ao tornozelo, na região entre os tendões extensores do hálux e dos dedos (aproximadamente sobre a face dorsal do osso cuneiforme/primeira articulação tarsometatarsal); procura-se um pulso fino, rítmico, palpável logo lateral ao tendão do extensor longo do hálux. Deve-se comparar ambos os pés, avaliar frequência, ritmo e amplitude (classificando de 0 = ausente, 1+ = fraco, 2+ = normal, 3+ = forte/ hiperdinâmico) e registrar qualquer assimetria; se o pulso for difícil de localizar, verificar posição do pé (relaxe novamente o tornozelo), aquecer a extremidade se estiver fria e comparar com o pulso tibial posterior; a ausência do pulso pedioso isolada pode ser variante anatômica, mas associada a diminuição do tibial posterior ou sinais isquêmicos sugere doença arterial periférica, quando então procede-se à avaliação com Doppler e exames vasculares complementares. A veia safena magna é amplamente utilizada em cirurgias de revascularização cardíaca, como nas pontes de safena, porque apresenta características anatômicas e funcionais que a tornam um enxerto adequado. Trata-se da maior veia superficial do corpo, de trajeto longo e relativamente retilíneo, o que fornece segmentos extensos que podem ser retirados sem comprometer de forma significativa a circulação venosa do membro inferior, já que a drenagem pode ser compensada pelas veias profundas. Além disso, seu calibre é compatível com o das artérias coronárias, permitindo uma anastomose eficaz. Outro ponto relevante é sua acessibilidade cirúrgica, pois está localizada no subcutâneo e pode ser dissecada com relativa facilidade. Apesar de apresentar maior propensão a desenvolver aterosclerose e degeneração em comparação às artérias utilizadas como enxertos, como a artéria torácica interna, a veia safena magna ainda é uma opção valiosa, especialmente quando múltiplos enxertos são necessários, devido à sua disponibilidade e extensão. A retirada cirúrgica da veia safena magna comprometida por trombos e obstruções vasculares traz algumas consequências que variam conforme a extensão da retirada e as condições circulatórias do paciente. Em primeiro lugar, a principal consequência é a redução da drenagem venosa superficial do membro inferior, uma vez que a safena magna é a maior veia superficial da perna, responsável por coletar sangue da face medial do pé, perna e coxa e conduzi-lo até a veia femoral. Essa perda, contudo, costuma ser bem compensada pela circulação colateral através das veias safena parva, perfurantes e veias profundas, de modo que, em pacientes com sistema venoso profundo íntegro, a repercussão clínica tende a ser pequena. No entanto, podem ocorrer edema, sensação de peso, dor, varizes residuais e maior risco de insuficiência venosa crônica, especialmente se já houver comprometimento prévio do sistema profundo. Outra consequência possível é o surgimento de alterações tróficas da pele, como hiperpigmentação, dermatite ocre e até ulcerações, caso o retorno venoso se torne ineficiente. Além disso, a retirada da safena comprometida inviabiliza seu uso futuro como enxerto em cirurgias de revascularização miocárdica ou arterial periférica, o que pode limitar opções terapêuticas em casos de doença cardiovascular progressiva. Para verificar a integridade dos vasos de drenagem dos membros inferiores, os exames solicitados devem permitir a avaliação anatômica e funcional do sistema venoso profundo e superficial. O exame de primeira escolha é o ecodoppler venoso dos membros inferiores, que combina ultrassonografia bidimensional com doppler colorido, permitindo identificar a presença de trombos, avaliar o fluxo sanguíneo, verificar a competência valvar e mapear tanto as veias superficiais quanto as profundas. Em casos que exigem maior detalhamento anatômico, podem ser solicitadas a flebografia por contraste iodado (considerada padrão-ouro em termos de visualização, embora menos utilizada por ser invasiva) ou métodos mais modernos, como a angiorressonância magnética e a angio-TC, que permitem reconstruções tridimensionais e avaliação da permeabilidade vascular. Em situações específicas, testes funcionais como a pletismografia venosa também podem ser usados para estudar a capacidade de enchimento e esvaziamento venoso, auxiliando no diagnóstico de insuficiência venosa crônica. Esses exames, em conjunto, permitem uma análise precisa da integridade estrutural e funcional dos vasos de drenagem dos membros inferiores, orientando condutas clínicas ou cirúrgicas. 200 1 2 3 4 5 ATIVIDADE 2: MAPA MENTAL 1. Elabore um mapa mental contendo a rota do sangue provindo da artéria aorta e destinado à irrigação dos membros inferiores, do segmento do quadril até os pés. 2. Elabore um mapa mental contendo a rota do sangue provindo da drenagem dos pés (superficial e profunda) até a veia femoral. MATERIAIS NECESSÁRIOS Notebooks e tablets para consulta. Modelos anatômicos da pelve e do membro inferior. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA Moore KL, Dalley AF, Agur AMR. Anatomia orientada para a clínica. 8. ed. 2022. Capítulo Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/ reader/books/9788527734608/epubcfi/6/40[%3Bvnd.vst.idref%3Dchapter 07]!/4/2/106/2. Roteiro de Laboratório MorfofuncionalSP 2.3 A rota do sangue destinado à irrigação dos membros inferiores, a partir da aorta abdominal, pode ser descrita em forma de um mapa mental em texto corrido. A aorta abdominal, ao atingir a altura da quarta vértebra lombar, bifurca-se em duas artérias ilíacas comuns, direita e esquerda. Cada artéria ilíaca comum segue em direção à pelve e se divide em duas ramificações principais: a artéria ilíaca interna, responsável pela irrigação dos órgãos pélvicos, glúteos e parte da coxa, e a artéria ilíaca externa, que prossegue em direção ao membro inferior. A artéria ilíaca externa atravessa o ligamento inguinal e passa a chamar-se artéria femoral, considerada o principal vaso de irrigação da coxa. Na região femoral, essa artéria emite ramos colaterais importantes, como a artéria femoral profunda, que irriga a musculatura da coxa. Seguindo distalmente, a artéria femoral atravessa o hiato do adutor e transforma-se em artéria poplítea, situada na fossa poplítea posterior ao joelho. A artéria poplítea bifurca-se em artéria tibial anterior e artéria tibial posterior. A artéria tibial anterior atravessa a membrana interóssea e segue pela face anterior da perna, continuando como artéria dorsal do pé (pediosa), responsável pela irrigação do dorso do pé e dedos. Já a artéria tibial posterior percorre a face posterior da perna e, ao nível do tornozelo, divide-se em artéria plantar medial e artériaplantar lateral, que formam o arco plantar profundo, irrigando a planta do pé. Além disso, a artéria fibular (ou peroneal), ramo da tibial posterior, auxilia na irrigação da face lateral da perna e do calcanhar. Dessa forma, o trajeto sanguíneo pode ser mentalmente organizado como um encadeamento hierárquico: aorta abdominal → ilíacas comuns → ilíaca externa → femoral → poplítea → tibial anterior (→ dorsal do pé) e tibial posterior (→ artérias plantares), assegurando a distribuição de sangue arterial desde o quadril até os pés. A drenagem venosa dos pés até a veia femoral pode ser organizada em forma de mapa mental em texto corrido, contemplando os sistemas superficial e profundo. No sistema superficial, o sangue inicia-se na rede venosa dorsal do pé, formada pelo arco venoso dorsal, que drena para as duas principais veias safenas: a veia safena magna, situada medialmente, que ascende pela face medial da perna e coxa até desembocar na veia femoral, e a veia safena parva, situada posteriormente e lateralmente, que sobe pela panturrilha e geralmente drena para a veia poplítea, podendo apresentar variações anatômicas. No sistema profundo, a drenagem inicia-se nas veias plantares mediais e laterais, que se unem para formar as veias plantares e, posteriormente, as veias tibiais posteriores. Associadas a elas, as veias fibulares (peroneais) drenam a face lateral da perna, enquanto as veias tibiais anteriores originam-se do dorso do pé. Essas veias profundas confluem para formar a veia poplítea, localizada atrás do joelho. A veia poplítea continua em direção proximal, atravessando o hiato do adutor, e passa a denominar-se veia femoral, responsável por receber tanto o sangue profundo quanto o sangue superficial através da junção safeno-femoral. Assim, o fluxo pode ser mentalmente esquematizado como: rede venosa dorsal e plantar → safena magna (superficial, medial) → femoral; safena parva (superficial, posterior) → poplítea → femoral; e veias tibiais anteriores, posteriores e fibulares (profundas) → poplítea → femoral, integrando os sistemas venoso superficial e profundo na drenagem do membro inferior. 201 1 2 3 4 5 Heparina e anticoagulantes orais utilizados em distúrbios trombóticos LOCAL Laboratório Multidisciplinar. OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Classificar os medicamentos utilizados no tratamento da TVP e na sua profilaxia. Analisar o mecanismo de ação dos anticoagulantes. Correlacionar os componentes do coagulograma com o monitoramento dos pacientes portadores de distúrbios coagulativos. ESTAÇÃO 1: ANTICOAGULANTES, ANTIPLAQUETÁRIOS E TROMBOLÍTICOS Duração total: 37 minutos ATIVIDADE 1: FLUXOGRAMA 1. Acesse o site de bulário da Anvisa e observe as orientações a seguir: A. Na barra Medicamento, insira o nome dos seguintes medicamentos e clique no botão azul Consultar (veja o modelo a seguir). • Ácido acetilsalicílico; • Varfarina; • Clopidogrel; • Rivaroxabana. Roteiro de Medicina LaboratorialSP 2.3 202 1 2 3 4 5 Roteiro de Medicina LaboratorialSP 2.3 B. Escolha a primeira opção da lista e clique no PDF da opção Bula do Profissional. C. Leia na bula a descrição dos aspectos farmacodinâmicos e farmacocinéticos, o potencial de toxicidade e os efeitos adversos. D. Após a leitura, complete o fluxograma a seguir com nomes de fármacos a partir do alvo farmacológico. O ácido acetilsalicílico (AAS) é um fármaco amplamente utilizado por suas propriedades analgésicas, antipiréticas, anti- inflamatórias e, sobretudo, antiplaquetárias. Do ponto de vista farmacodinâmico, seu principal mecanismo de ação é a inibição irreversível da enzima ciclo-oxigenase (COX-1 e COX-2), o que bloqueia a conversão do ácido araquidônico em prostaglandinas e tromboxanos. Isso reduz a síntese de prostaglandinas responsáveis pela febre, dor e inflamação, e inibe a formação de tromboxano A₂, diminuindo a agregação plaquetária. A característica de ligação irreversível à COX-1 confere ao AAS um efeito antiplaquetário prolongado, durando todo o ciclo de vida das plaquetas (cerca de 7 a 10 dias). Em termos farmacocinéticos, o AAS é rapidamente absorvido no estômago e no intestino delgado, com alta biodisponibilidade oral. Sofre hidrólise no fígado e no plasma, sendo convertido em ácido salicílico, o principal metabólito ativo. A ligação às proteínas plasmáticas, principalmente à albumina, é significativa, e sua metabolização hepática ocorre por conjugação com glicina e ácido glucurônico. A eliminação é renal, dependendo do pH urinário: em meio alcalino, a excreção é acelerada devido à ionização do salicilato. O potencial de toxicidade do AAS está relacionado principalmente à dose. Em concentrações elevadas, ocorre acúmulo de salicilato, resultando em salicilismo, caracterizado por zumbido, vertigem, cefaleia, sudorese e confusão. Em intoxicações graves, podem surgir acidose metabólica, alcalose respiratória, distúrbios hidroeletrolíticos, hipertermia, convulsões, coma e até óbito. O risco aumenta em crianças e idosos, assim como em pacientes com insuficiência renal ou hepática. Os efeitos adversos mais comuns estão ligados à inibição da COX-1 na mucosa gástrica, levando a irritação gastrointestinal, dispepsia, gastrite e úlceras pépticas, com risco de hemorragia digestiva. Outros efeitos incluem prolongamento do tempo de sangramento, reações alérgicas (como broncoespasmo em asmáticos sensíveis), hepatotoxicidade, nefrotoxicidade e, em crianças com infecção viral, a rara mas grave síndrome de Reye. Em doses baixas, seu uso contínuo é benéfico na prevenção de eventos trombóticos, mas exige monitorização clínica cuidadosa devido ao risco hemorrágico. A varfarina é um anticoagulante oral pertencente ao grupo dos antagonistas da vitamina K, sendo amplamente utilizada na prevenção e no tratamento de eventos tromboembólicos. Do ponto de vista farmacodinâmico, sua ação se dá pela inibição da enzima epóxido redutase da vitamina K no fígado, o que impede a regeneração da forma ativa da vitamina K. Com isso, há redução da síntese dos fatores de coagulação vitamina K-dependentes (II, VII, IX e X) e das proteínas anticoagulantes C e S, resultando em diminuição da capacidade de formação de coágulos. Como o fármaco não afeta fatores já circulantes, seu efeito anticoagulante pleno surge apenas após alguns dias, quando os fatores previamente sintetizados são degradados Nos aspectos farmacocinéticos, a varfarina é administrada por via oral e apresenta absorção quase completa no trato gastrointestinal. Ela se liga extensamente às proteínas plasmáticas, principalmente à albumina, o que limita sua distribuição tecidual. É uma mistura racêmica, composta por enantiômeros S e R, sendo o S mais potente. A metabolização ocorre no fígado por meio de enzimas do citocromo P450, em especial CYP2C9, e sua meia-vida relativamente longa (cerca de 36 a 42 horas) garante efeito prolongado, mas também aumenta o risco de interações. A eliminação é feita principalmente por via renal, sob a forma de metabólitos inativos. O potencial de toxicidade da varfarina é elevado, pois sua janela terapêutica é estreita. Pequenas variações de dose, alterações na dieta (ingestão de vitamina K), polimorfismos genéticos (como mutações em VKORC1 e CYP2C9) ou interações medicamentosas podem levar a flutuações importantes na atividade anticoagulante. O risco mais grave é o sangramento, que pode ser leve, como epistaxe ou hematúria, ou grave, com hemorragia intracraniana ou digestiva. Outro aspecto relevante é a teratogenicidade: o uso da varfarina durante a gestação pode causar aborto espontâneo, hemorragia fetal ou a embriopatia varfarínica, caracterizada por malformações ósseas e defeitos do sistema nervoso central. Entre os efeitos adversos, destacam-se as hemorragias, que são a complicação mais frequente e clinicamente significativa. Também podem ocorrer necrose cutânea associada à deficiência de proteína C, livedo reticular, alopecia e, raramente, reações alérgicas. Devido a esses riscos, é essencial