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Revolução e Contra-Revolução

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que fora convidado pelo famoso Collège de France
92 .
Ante tais alternativas, o ex-líder comunista, derrotado no Oriente, parece só ter o embaraço de
escolha entre os convites mais lisonjeiros no Ocidente. Até o momento, ele apenas se decidiu por
escrever uma série de artigos para uma cadeia de vários jornais do mundo capitalista, mundo este
em cujas altas esferas continua a encontrar um apoio tão fervoroso quanto inexplicável. E a fazer
uma viagem aos Estados Unidos, cercado de grande aparato publicitário, a fim de conseguir fundos
para a chamada Fundação Gorbachev.
Assim, enquanto Gorbachev está na penumbra em sua própria pátria – e, mesmo no Ocidente,
vem tendo seu papel seriamente questionado -, magnatas do ocidente se empenham de diversos
modos em manter as luzes de uma lisonjeira publicidade assestadas sobre o homem da perestroika,
o qual, entretanto, durante toda a sua carreira política insistiu em dizer que essa reforma por ele
proposta não é o oposto do comunismo, mas um requinte deste 93.
Quanto à frouxa federação soviética que agonizava quando Gorbachev foi precipitado do
Poder, acabou por se transformar em uma quase imaginária “Comunidade de Estados
Independentes”, entre cujos componentes se vêm acendendo sérias fricções, as quais causam
preocupação a homens públicos e a analistas políticos. Tanto mais quanto várias dessas repúblicas
ou republiquetas possuem armamentos atômicos que podem disparar, umas contra as outras (ou
contra os adversários do Islã, cuja influência no mundo ex-soviético cresce dia a dia), com vivas
apreensões para os que se preocupam com o equilíbrio planetário.
Os efeitos dessas eventuais agressões atômicas podem ser múltiplos. Entre eles,
principalmente, o êxodo de populações contidas outrora pelo que foi a cortina de ferro, e que,
premidas pelos rigores de um inverno habitualmente inclemente e pelos riscos de catástrofes
imensas, podem sentir redobrados impulsos para “pedir” a hospitalidade da Europa Ocidental. E não
só dela, mas também de nações do continente americano...
Em abono dessas perspectivas, no Brasil, o sr. Leonel Brizola, governador do Estado do Rio
de Janeiro, com aplauso do ministro da Agricultura do Brasil, propôs atrair lavradores do Leste
europeu, dentro dos programas oficiais de Reforma Agrária 94. Em seguida, o presidente da
Argentina, Carlos Menem, em contatos com a Comunidade Econômica Européia, manifestou-se
disposto a que seu país acolha muitos milhares desses imigrantes 95. E, pouco depois, a titular da
Chancelaria colombiana, sra. Nohemí Sanín, disse que o governo de seu país estuda a admissão de
técnicos provenientes do Leste 96. Até estes extremos podem chegar os vagalhões das invasões.
E o comunismo? O que é feito dele? A forte impressão de que ele morrera apoderou-se da
maior parte da opinião pública do Ocidente, deslumbrada ante a perspectiva de uma paz universal
de duração indeterminada. Ou quiçá de uma duração perene, com o conseqüente desaparecimento
do terrível fantasma da hecatombe nuclear mundial.
Esta “lua de mel” do Ocidente com seu suposto paraíso de desanuviamento e de paz, vem
refulgindo gradualmente menos.
Com efeito, referimo-nos pouco atrás às agressões de toda ordem que relampagueiam nos
territórios da finada URSS. Cabe-nos, pois, perguntar se o comunismo morreu. De início, as vozes
91 Cfr. “O Estado de S. Paulo”, 11-1-92.
92 Cfr. “Le Figaro”, Paris, 12-3-92.
93 Cfr. Comentário de 1992 à Parte III, Capítulo II, sob o título: “Perestroika” e “glasnost”: desmantelamento da III Revolução, ou
metamorfose do comunismo?
94 Cfr “Jornal da Tarde”, 27-12-91.
95 Cfr. “Ambito Financiero”, Buenos Aires, 19-2-92.
96 Cfr. “El Tiempo”, Bogotá, 22-2-92.
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que punham em dúvida a autenticidade da morte do comunismo foram raras, isoladas e escassas em
fundamentação.
Aos poucos, de cá e de lá, sombras foram aparecendo no horizonte. Em nações da Europa
Central e dos Bálcãs, como do próprio território da ex-URSS, foi-se notando que os novos
detentores do Poder eram figuras de destaque do próprio Partido Comunista local. Exceto na
Alemanha Oriental, a caminhada para a privatização na maioria das vezes se vem fazendo muito
mais na aparência do que na realidade, isto é, a passos de cágado, lentos e sem rumo inteiramente
definido.
Ou seja, pode-se dizer que nesses países o comunismo morreu? Ou que ele entrou
simplesmente num complicado processo de metamorfose? Dúvidas a este respeito se vêm
avolumando, enquanto os últimos ecos da alegria universal pela suposta queda do comunismo se
vêm apagando discretamente.
Quanto aos partidos comunistas das nações do Ocidente, murcharam de modo óbvio, ao
estampido das primeiras derrocadas na URSS. Mas já hoje vários deles começam a se reorganizar
com rótulos novos. Esta mudança de rótulo é uma ressurreição? Uma metamorfose? Inclino-me de
preferência por esta última hipótese. Certezas, só o futuro as poderá dar.
Esta atualização do quadro geral em função do qual o mundo vai tomando posição, pareceu-
me indispensável como tentativa de pôr um pouco de clareza e de ordem num horizonte em cujos
quadrantes o que cresce principalmente é o caos. Qual é o rumo espontâneo do caos senão uma
indecifrável acentuação de si próprio?
* * *
Em meio a esse caos, só algo não variará. É, em meu coração e em meus lábios, como no de
todos os que vêem e pensam comigo, a oração transcrita ao final da Parte III: “Ad te levavi oculos
meos, qui habitas in coelis. Ecce sicut oculi servorum in manibus dominorum suorum, sicut oculi
ancilae in manibus dominae suae; ita oculi nostri ad Dominam Matrem nostram donec misereatur
nostri”. É a afirmação da invariável confiança da alma católica, genuflexa, mas firme, em meio à
convulsão geral.
Firme com toda a firmeza dos que, em meio da borrasca, e com uma força de alma maior do
que esta, continuarem a afirmar do mais fundo do coração: “Credo in Unam, Sanctam, Catholicam
et Apostolicam Ecclesiam”, ou seja, Creio na Igreja Católica, Apostólica, Romana, contra a qual,
segundo a promessa feita a Pedro, as portas do inferno não prevalecerão.
Cópia da edição abaixo:
Revolução e Contra-Revolução
4ª edição em português
Artpress – São Paulo – 1998