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2023 QUEM SÃO ELAS? MAPEAMENTO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA EM MANHUAÇU - MG Revista premiada pelo Desafio 8M realizado pela A Casa Elza em junho de 2023 ANA ROSA CAMPOS BÁRBARA ROCHA MORATTI VÍTOR OLIVEIRA RÚBIO RODRIGUES DIAGNÓSTICO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA - MANHUAÇU MG Quem são elas?. Ana Rosa Campos; Bárbara Rocha Moratti; Vítor Oliveira Rubio Rodrigues. Vol. 1, 1ª ed. Unifacig Manhuaçu, 2023. ISBN nº 978-65-89250-19-7 REALIZAÇÃO Centro Universitário UNIFACIG COORDENAÇÃO GERAL Ana Rosa Campos 3 Q U E M S à O E L A S ? ORGANIZAÇÃO Ana Rosa Campos Bárbara Rocha Moratti Vítor Oliveira Rubio Rodrigues REVISÃO Igor de Souza Rodrigues ILUSTRAÇÃO DA CAPA Fernanda Marques Cordeiro Original - Aquarela e nanquim Papel 100% algodão. Elas"de Fernanda Cordeiro Manhuaçu - MG / Outubro 2023 4 Q U E M S à O E L A S ? Aléxia Tinoco Rodrigues de Melo Amanda Maria Saraiva de Sousa Ana Luisa Augusta Silva Anderson Soares Ribeiro Filho Caetano Geiler Dias Cíntia de Matos Mesquita Daiana Lopes Nunes Sindra Daniella Henrique da Silveira Colombo Deborah Keilla Barbosa da Silva Brito Dhara Daniely Oliveira Eduardo de Carvalho Dutra Fernanda Cosendei do Amaral Gabriel Diniz Borel Gabriel Henrique da Silva Freitas Gabrielle Monteiro de Castro Carvalho Iara Silva Sobrinho Isabela Cezar Melo Afonso Jhonatan Henrique Máximo Moreira Jose Luiz De Freitas Junior Karoline Maria Ferreira Cunha Larissa Rodrigues Soares Laysa Estevam Firmino Lucas Eduardo de Sousa Azine Luisa Kele Dias Ponsiano Luiz Antônio Barbosa Caetano Luiz Phelype Pereira Alves Maic Isac Coutinho Gomes Fonseca Maria Júlia Maximiano de Souza Maria Victoria Dutra de Freitas Mirella Valentine Couto de Freitas Natane Soti Langames de Castro Ronei Carlos Nascimento Júnior Samella Nascente Alves Tamires Ramos Morethson Yasmim Aparecida Gomes Rosa DISCENTES COLABORADORES 5 Q U E M S à O E L A S ? PREFÁCIO INTRODUÇÃO METODOLOGIA CAPÍTULO I SÃO MÃES, FILHAS, DONAS DE CASA, GUERREIRAS CAPÍTULO II FATORES QUE CONTRIBUEM PARA A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA EM MANHUAÇU MG CAPÍTULO III O PERFIL DAS VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA EM MANHUAÇU MG CAPÍTULO I V PRISÕES EM FLAGRANTE, EM DOMICÍLIO EM CASOS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E O PERFIL DO AGRESSOR CAPÍTULO V A REDE DE PROTEÇÃO À MULHER VÍTIMA DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA EM MANHUAÇU MG SAIBA MAIS CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS 7 8 10 11 19 34 51 65 76 83 85 6 Q U E M S à O E L A S ? Transpor o academicismo infrutífero e displicente aos problemas enfrentados pela sociedade, sob a perspectiva teórica ou empírica, é um dos grandes desafios das instituições de ensino e pesquisa no Brasil. O problema se agrava ainda mais na área jurídica, que insiste em uma “ciência” sem empiria, metodologicamente precária, com discussões teóricas ensaísticas ou sem sistematicidade. Encharcados de artigos sentenciais cuja base é a mera opinião e a ausência de pesquisa – do tipo “é inconstitucional ou não é” – boa parte dos “cientistas” ligados à área jurídica tem sido blasé em relação aos desafios vivenciados pelo Brasil, atendo-se à discussões fora de lugar com conceitos europeus sem tradução para pensar as instituições nacionais. Além da desconexão entre a produção científica aos problemas locais, há um tipo constante de “pesquisa jurídica de gabinete” que identifica objetos distantes e os manipula sem qualquer aproximação com o campo, seja por meio de etnografias, seja por meio de observação participante ou outro recurso metodológico, como acontece com as pesquisas jurídicas sobre etnias indígenas. Na contramão deste tipo de pseudociência, este trabalho opera sob demanda social, cultural e econômica diagnosticada no âmbito da instituição de origem. A violência doméstica em Manhuaçu- MG carecia de uma boa radiografia, ainda que relevantes projetos tenham sido criados e desenvolvidos na cidade, como o Chame a Frida e o Serviço de Prevenção à Violência Doméstica (PPVD), faz-se necessário produzir dados mais diversificados no espectro que envolve a violência doméstica, inclusive para acompanhamento e monitoramento dos próprios programas, públicos ou privados. A Revista “Quem são elas?”, produzida pelos alunos do 4º período do curso de Direito do Centro Universitário UNIFACIG sob a supervisão da Professora Ana Rosa Campos, cuja trajetória na área da violência doméstica, da segurança pública e da cidadania é, nacional e internacionalmente, reconhecida, utiliza recursos metodológicos diversos em prol da compreensão de questões sensíveis à Manhuaçu. Foram levantados boletins de ocorrência e estabelecidos critérios objetivos para a definição do universo amostral. Tomou-se o cuidado estatístico em relação às variáveis classe, cor, sexo, faixa etária, bairro, entre outras. Este t rabalho foi premiado pela instituição A Casa Elza e pela Controladoria do Estado de Minas Gerais, ao reconhecerem o projeto como prática eficaz na disseminação e democratização de dados e informações concretas sobre o problema em questão. O resultado evidencia um diagnóstico de como a violência doméstica opera, quais os seus interstícios e estratificações, mecanismos de perpetuação, perfis da vítima e do agressor, distribuição territorial e mapeamento institucional. Na verdade, esta produção fixa um marco nas pautas e agendas públicas enquanto uma espécie de anuário da violência doméstica da cidade, diante disso, faz-se necessária a discussão, inclusão da Revista nas instituições como um instrumento de transparência singular produzido em Manhuaçu. Dr. Igor de Souza Rodrigues Coordenador do curso de Direito UNIFACIG PREFÁCIO 7 Q U E M S à O E L A S ? INTRODUÇÃO A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a violência como o uso intencional da força ou poder em uma forma de ameaça ou efetivamente, contra si mesmo, outra pessoa, grupo ou comunidade, que pode ocasionar lesão, morte, dano psíquico, alterações do desenvolvimento ou privação (OMS, 2002, online). Neste sentido, especificamente contra a mulher, a violência se constitui como um fenômeno social persistente, multiforme e articulado por facetas psicológica, moral e física, na qual, os atos praticados são formas de estabelecer uma relação de submissão (vítima) e de poder (agressor), implicando em situações de medo, isolamento, dependência e intimidação (BANDEIRA, 2014, p. 449- 469). Segundo Bastos (2013, p.38), “o papel social da mulher foi construído ao longo dos anos, supedâneo em premissas deturpadas e discriminatórias, as quais se estranharam em nossa cultura como verdadeiros códigos de conduta, fazendo com que a mulher se resignou a obedecer: primeiro, à autoridade do pai; depois, à do marido”. Esta lógica reserva às mulheres apenas as funções domésticas e a geração e criação dos filhos, consideradas menos importantes para a sobrevivência do grupo. Dessa forma, ao decorrer do tempo, foi-se moldando o arquétipo do macho protetor e provedor, com poderes supremos sobre a família, características essenciais do homem, bônus pater familiar e romano (PORTO, 2014, p. 14-15). O homem passou a entender o corpo e a vontade da mulher e dos filhos como sua propriedade, assim, foi consolidado o entendimento por parte da sociedade machista, que o homem possuía o direito de utilizar a força física para coagir a mulher quando necessário (DIAS, 2007, p. 16). Não obstante, ditados populares, repetidos de forma jocosa, absolveram a violência doméstica, tais como “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, “ele pode não saber porque bate, mas ela sabe porque apanha”. Esses, entre outros ditos repetidos como brincadeira, sempre esconderam uma certa conivência da sociedade para com a violência doméstica (DIAS, 2007, p. 15). O sentimento de fragilidade e inferioridade perante o sexo masculino esteve muito presente no dia a dia das mulheres, tornando-as, assim, submissas aos seus companheiros. Com isso, as mulheres passaram a dependerconsta” e, no segundo, 6%. Outra questão a ser discutida é o indicador “Zona Rural”, estando em 5,2% em 2021 e 6% em 2022. Abre a linha de pensamento sobre o procedimento utilizado em áreas afastadas do centro urbano e como se dá o desenvolvimento do atendimento às mulheres que estão situadas nestes lugares. Os baixos índices de violência registrados na Zona Rural em Manhuaçu/MG são frutos de sua inexistência ou de eventual falta de denúncias? Para Lorenzoni, Rodrigues e Santos (2021, p.148) as mulheres que vivem no campo estão, tecnicamente, isoladas do restante da cidade: Consideravelmente pequena, com população estimada em pouco mais 90 mil (IBGE, 2021, online) fica preocupantemente exposto que qualquer mulher está vulnerável a sofrer violência independentemente do local, seja ele rural ou urbano, dito isso notasse que é necessário o levante de políticas públicas que resultem na diminuição da violência urgente, visto que ela ocorre em todos os lugares, até nos menos esperados. 42 Q U E M S à O E L A S ? III.I - OS FORMULÁRIOS DE AVALIAÇÃO DE RISCO O Formulário Nacional de Avaliação de Risco é um dispositivo presente nos boletins de ocorrência que possuem como fim a prevenção de crimes de violência doméstica e a redução das consequências resultantes desses atos que violam os direitos humanos. (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2020, p.1-13). Instituído pela Resolução Conjunta n.o 5 de 03/03/2020, é amparado pela Lei No 14.149 de 5 de maio de 2021, que prevê em seu segundo artigo, parágrafo primeiro: Dado o exposto, nota-se a imprescindibilidade de projetar os padrões que caracterizam as vítimas de violência doméstica em Manhuaçu/MG, uma vez que, para produção de políticas públicas que visam a proteção dessas mulheres e a prevenção de possíveis crimes, é necessário identificar as condições socioeconômicas vivenciadas por essa população, os fatores que desencadeiam sua vulnerabilidade e os métodos que serão eficazes no combate à violência doméstica. O presente capítulo visou apresentar esse perfil e explorar diferentes perspectivas que influenciam a suscetibilidade feminina na cidade estudada. Desta maneira, ao definir esses parâmetros e desenvolver os contextos necessários, tem-se um melhor entendimento dos resultados obtidos. Nesse sentido, como afirma a juíza Luciana Lopes Rocha, a violência contra mulher “é um fenômeno social complexo e multifatorial e requer um modelo sociológico de compreensão, que perpassa as esferas individual, relacional, comunitária e social”. Tendo em vista que o crime supracitado é uma das principais causas de morte no país, estipular medidas de redução se faz indubitável e urgente. (TJMG, 2022, ONLINE) Os formulários são divididos em 2 partes (I e II, sendo a primeira parte preenchida pela vítima e a segunda pelo agente que atendeu a ocorrência) e subdivididas em blocos, como “histórico de violência” e “sobre o autor”. (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2020, p. 1-13). Como o presente artigo propõe traçar o perfil das mulheres que sofreram/sofrem violência doméstica, o enfoque será nos blocos III e IV, nomeados como “sobre você” e “outras informações importantes”, respectivamente. Em 2021, nota-se um impasse: dos 53 boletins analisados, apenas 11 continham o Formulário de Risco, situação esta que entra em debate com a Resolução citada acima. Destes 11 boletins, seis vítimas preencheram o formulário, enquanto 1 se recusou e 4 não tiveram condições de preenchê- lo. Por outro lado, em 2022, todos os 49 documentos estudados possuíam o Formulário, sendo que, destes, 38 aceitaram preencher, 5 recusaram-se e 7 não tiveram condições. Ademais, as vítimas de violência doméstica não estão condicionadas apenas às relações conjugais com o agressor, portanto, a análise dos formulários se dividirá entre “I - Relações conjugais/ matrimoniais e II - relações familiares em geral”. Art. 2o É instituído o Formulário Nacional de Avaliação de Risco para a prevenção e o enfrentamento de crimes e de demais atos de violência doméstica e familiar praticados contra a mulher, conforme modelo aprovado por ato normativo conjunto do Conselho Nacional de Justiça e do Conselho Nacional do Ministério Público. § 1o O Formulário Nacional de Avaliação de Risco tem por objetivo identificar os fatores que indicam o risco de a mulher vir a sofrer qualquer forma de violência no âmbito das relações domésticas, para subsidiar a atuação dos órgãos de segurança pública, do Ministério Público, do Poder Judiciário e dos órgãos e das entidades da rede de proteção na gestão do risco identificado, devendo ser preservado, em qualquer hipótese, o sigilo das informações (BRASIL, 2006, online ). 43 Q U E M S à O E L A S ? Em 2021 e em 2022 foi apurado que a maioria das mulheres atendidas em Manhuaçu/MG se separaram recentemente do agressor ou manifestaram intenção de se separar. Em vista destes dados, percebe-se que o término da relação com o homem autor do crime não fornece a certeza de que as agressões irão cessar ou de que serão evitadas. Diante dos casos de violência doméstica, a atitude dos órgãos públicos deve ser de instruir as mulheres e possibilitar meios de se livrar destes vínculos com segurança. (FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, et. al., 2023, p.32-33). Das cinco vítimas presentes nos Formulários em 2021, 2 possuíam filhos de outro relacionamento, enquanto 3 tinham filhos com o agressor. Em 2022, com maior número de dados a serem analisados, observa-se que 12 vítimas não eram mães, mas a maioria possuía filhos com o autor do crime. Nos últimos dois anos, nenhuma vítima possuía filho portador de deficiência. 44 Q U E M S à O E L A S ? Das vítimas mães, em 2021, todas relataram que não viviam conflitos relacionados à guarda, pensão ou visita dos filhos. No outro ano, a maioria das mulheres mantiveram esta resposta, porém, com um aumento nos índices das que enfrentaram este impasse nas relações com o agressor. Prosseguindo com este tópico, tanto em 2021 quanto em 2022, percebe-se uma maioria significativa de mulheres que indicaram que seus filhos estavam presentes em situações de violência sofridas por elas. 45 Q U E M S à O E L A S ? Nos últimos 2 anos, a maioria das vítimas que preencheram o Formulário relataram que seus filhos já presenciaram alguma violência sofrida pelas mães e que já sofreram violência durante a gravidez e pós-parto. Das demais vítimas, em 2021, 4 indicaram que não estiveram grávidas nos últimos 3 meses, enquanto 01 estava. Em 2022, 29 não estavam grávidas ou estiveram grávidas e 05 se encontravam nestas condições. 46 Q U E M S à O E L A S ? Em fase percebe-se que nos dois anos pesquisados, as agressões por motivo de insatisfação com uma nova relação foram relativamente baixas, tendo apenas 2% no ano de 2021 e 4,6% no ano de 2022. 47 Q U E M S à O E L A S ? Levando em consideração que o Estado deve fornecer uma rede de proteção às mulheres vítimas de violência doméstica, é de suma importância apresentar os dados da situação da moradia das mulheres que sofreram a violência, o formulário de risco aponta que, 3% das vítimas moravam em casas particulares em 2021, percentual esse que cresce para 16% no ano de 2022, já as mulheres que moravam em residências alugadas em 2021 era de 2% crescendo para 13% em 2022, é interessante demonstrar nesse estudo as mulheres que moram em casas cedidas ou de favor que no ano de 2022 teve 4%, faz necessário ainda salientar mais uma vez que a falta de informação nos formulários de risco, dificultou o levante do percentual. Foi levantado quanto a porcentagem de vítimas que teriam algum tipo de doença degenerativa, ou deficiência, e o resultado foi o seguinte, no ano de 2021 apenas 2% das mulheres tinham algum tipo de doença, já no ano de 2022 o número cai para 1%. 48 Q U E M S à O E L A S ? No tocante ao formulário de risco respondido pelas vítimas de manhuaçu, em 2021 4% das mulheres disseram que sim,se consideram dependentes financeiramente do agressor. Já em 2022 essa porcentagem sobe para 7%, porém em 2021 1% das mulheres responderam que não, porcentagem essa que cresce e vai para 27% em 2022. Para as mulheres que, de alguma maneira, sofrem violência doméstica, mas mantêm suas relações por dependência financeira de seus maridos, foi idealizado por algumas cidades como Juiz de Fora (Lei nº 14.424) a criação de casas abrigos que acolhem essas mulheres que desejam sair da casa do agressor, mas não possuem condições. Dito isso, é importante a presença da coleta de informação acerca das mulheres que aceitariam ir para essas casas abrigos, para que as políticas de segurança acolham todas as vítimas, retirando essas mulheres do ambiente no qual ocorreu a agressão. No entanto, como constante no gráfico, as mulheres não estão muito abertas a essa opção, no ano de 2021 apenas 1% das mulheres responderam que aceitariam ir para essa “casa Abrigo” no ano de 2022 essa porcentagem cresce para 4%. consideravelmente pouco, referindo ao total de mulheres vítimas de dependência financeira do marido. Em 2018 o Senado Federal publicou um relatório intitulado como “aprofundando o olhar sobre o enfrentamento à violência contra as mulheres”. Do relatório, alguma das conclusões foram que elas deixam de denunciar a agressão, principalmente, pelo medo de sofrerem mais violência e de não conseguirem sustentar a si ou aos seus filhos. (KNOPFELMACHER; CAVALCANTI; PADUAN, 2021). A condição econômica pode ser enquadrada como um desses elementos vulneráveis, pois “as desvantagens econômicas e sociais, quando relacionadas àquelas referentes a grupos populacionais, podem impor maiores desvantagens”. (CORTE IDH, 2021, p. 13)3. 49 Q U E M S à O E L A S ? Nesse sentido, percebe-se a importância e a relevância dessa revista, visto que a mesma pontuou e irá pontuar importantíssimos pontos para o desenvolvimento dos órgãos de segurança pública que poderão identificar o perfil das vítimas, e suas falhas nas omissões de informação no momento do preenchimento dos boletins de ocorrência, bem como nos formulários de risco. No tocante a esse capítulo, fica visível que apesar de algumas mulheres com perfis parecidos, nenhuma mulher está imune a sofrer violência doméstica, uma vez que o levantamento nos mostra desde vítimas graduadas a vítimas semianalfabetas, porém o capítulo percebe e indica os bairros com o maior índice de violência, a cor, a idade, a escolaridade, estado civil, a relação entre a vítima e o autor. O que ajudará o estado a diminuir a sua omissão em relação às mulheres que sofrem com o problema de "violência Doméstica” e necessitam de ajuda dos poderes da república. 50 Q U E M S à O E L A S ? PRISÕES EM FLAGRANTE EM DOMICÍLIO EM CASOS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E O PERFIL DO AGRESSOR Ana Rosa Campos Bárbara Rocha Moratti Vítor Oliveira Rubio Rodrigues Karoline Maria Ferreira Cunha CAPÍTULO 4 1 2 3 8 Graduanda em Direito pelo Centro Universitário UNIFACIG, karolinemariafcunha@gmail.com, https://lattes. cnpq.br/4825020215812518. Modus operandi/locução substantivo modo pelo qual um indivíduo ou uma organização desenvolve suas atividades ou opera. (fonte: Definições de Oxford Languages). 8 9 A violência doméstica é um tema complexo e delicado devido a sensibilidade que atinge todas as camadas da sociedade, sobretudo a sociedade patriarcal ainda majoritária no mundo todo. Se aprofundarmos no estudo de patriarcado e gênero, iremos nos deparar com distintas formas de manifestações e diversas instituições que sustentam a desigualdade fundamentada em sexo e gênero, operando, essencialmente, na submissão das mulheres e seu papel dentro do sistema de patriarcado. (MENDES, SORAIA; 2017, p.88). Ao falar de violência precisamos dar rosto ao agente da agressão e, ainda, precisamos falar do modus operandi que eles possuem em sua maioria. Inicialmente, deve-se classificar a relação entre vítima e autor para identificar o começo do ciclo de violência. A presente pesquisa aponta que se tratam respectivamente de maridos, ex-namorados, companheiros atuais ou pessoas próximas como os filhos. Sendo assim, inegavelmente é feita a associação entre o agressor e a situação vulnerável que a vítima se encontra, uma vez que o agente se sente em posição de poder e logo o ciclo da violência começa a se desenvolver. Os dados foram obtidos através do sistema da Polícia Civil de Minas Gerais e pode-se constatar que na cidade de Manhuaçu a principal relação entre autor e vítima se trata de ex-cônjuges, correspondendo a 38% dos boletins analisados. O agente pretende mostrar que o corpo e a vida da mulher são um território controlado por ele, a agressão e os abusos transformam o espaço da mulher em meio de comunicação entre disciplina e masculinidade (ANGÉLICO et al., 2014, p. 281-303). 9 51 Q U E M S à O E L A S ? Tratando-se de agressores, não se aborda apenas a agressão, mas todas as razões sociais e culturais que orbitam no cenário da violência doméstica, em que, para os homens em geral a violência é algo condenável, mas para os agressores é um ato educativo (OLIVEIRA, GOMES, 2011, p. 2401-2413) Para a construção do perfil do agressor dentro da cidade de Manhuaçu/MG, terá partida tabulação da idade do agente nos anos de 2021 e 2022, tendo a maioria entre 30 a 35 anos, o que corresponde a 21,5% dos boletins analisados. 52 Q U E M S à O E L A S ? No que se trata a cútis/raça podemos articular acerca da teoria do criminoso nato do médico Cesare Lombroso, a qual ele defendia a ideia da predisposição biológica do indivíduo à conduta antissocial. Ainda nos dias atuais vemos que as pessoas tendem a creditar a pessoas pretas, pobres e periféricas a conduta criminosa, todavia, os dados analisados nos boletins de 2021 e 2022 mostram que a massa é composta por pessoas que se declaram pardas, correspondendo a 43%, o que quebra a máxima social estigmatizada. Tratam-se de informações importantes para o mapeamento, identificação e construção do perfil do agressor. Em 2021, foram 50 (94%) boletins a orientação sexual foi ignorada, posteriormente, em 2022, foram 43 (88%) ignorados. A respeito da identidade de gênero: em 2021 foram 15 boletins constando “ignorado” e 38 como “não se aplica”, já em 2022, foram 14 boletins constando “ignorado”, e 35 como “não se aplica” sendo assim a pergunta sobre identidade de gênero não obteve resposta. Ainda falando sobre o estigma, foi relevantemente observado lacunas no preenchimento de informações sobre o autor no boletim de ocorrência, dados importantes para a análise e desenvolvimento de políticas públicas como orientação sexual e identidade de gênero foram ignorados ou classificados como “não se aplica” devido às crenças culturais do responsável pela coleta da informação. Nesse aspecto técnico- burocrático, gera-se um verdadeiro curto- circuito na medida em que a ficha e os campos do boletim de ocorrência e demais relatórios passam a ser considerados apenas figurativos ou anódinos. Por outro lado, esse tipo de reação blasé à informação demonstra como, muitas vezes, os órgãos de controle oficiais são reféns de lógicas e julgamentos cujo próprio aguilhão é o combate. 53 Q U E M S à O E L A S ? O nível de escolaridade e ocupação também costumam ser ignorados, nos boletins de 2021, em 12 (22,6%) foram ignorados o nível de escolaridade, e a ocupação foi ignorada em 20 (38%) boletins. No ano de 2022, o nível de escolaridade foi ignorado 16 vezes (32,6%), e a ocupação foi ignorada em 35 (71%), afetando diretamente no trabalho de prevenção e proteção das vítimas uma vez que não se tem conhecimento acerca do grau de instrução e perfil de trabalho do agente. Desafortunadamente, a falta destes dados dificulta e pode comprometer a prevenção para coibir possíveis agentes dentro do seu grau de instrução, determinando a maneira da abordagem, bem como a ocupação para adaptaçãodo comportamento e linguagem do policial para com esses homens, sendo necessário identificar e neutralizar esses agressores. 54 Q U E M S à O E L A S ? Mandelbaum (2016, p. 422-430) descreve que, a violência doméstica está associada com a masculinidade, dominação e imposição, mas é preciso entender a gênese da ignorância e o epicentro desse comportamento, mapear a ocupação do agente é uma forma importantíssima de entender se existe uma co-dependência financeira da vítima, se tem a ver com dependência da vítima para prover a subsistência do agente, ou até mesmo se existe a violência patrimonial. Durante o desenvolvimento dessa pesquisa, foram analisados dados a respeito do ato de violência, local que ocorre, como ocorre, quais os horários, os dias da semana, os instrumentos utilizados e se o agente estava sob efeito de álcool ou outras drogas, dessa maneira podemos trabalhar na prevenção através de patrulhamento, instrução e cuidado com as vítimas. Os dados analisados nos anos de 2021 e 2022 em Manhuaçu/MG apontam que os principais tipos de violência são a psicológica e moral, correspondendo a 78% e 6% respectivamente. Richmond e outros (2008, p.368-377) afirmam que, a violência psicológica tende a ser tolerada, o que nos mostra que apesar dos altos índices de denúncias relativas a esse tipo de violência, ainda pouco se fala sobre ela. 55 Q U E M S à O E L A S ? Fazendo uma análise a respeito do local onde ocorrem os atos de violência, constata-se que ela está, majoritariamente, dentro dos lares das vítimas, correspondendo a 75% dos casos e confirmando os dados a respeito da relação autor e vítima, reforçando a importância do trabalho do Patrulhamento de Prevenção à Violência Doméstica (PPVD), em muitas das vezes a vítima que faz a denúncia não tem o intuito de produzir o caráter punitivo ao agressor, mas de restituição da relação familiar sem violência, e é nesse momento que cabe o cuidado e sensibilidade com o acolhimento das vítimas que ainda sofrem com dependência emocional e até mesmo financeira do agressor. 56 Q U E M S à O E L A S ? Os meios de agressão são os mais diversos, mas existem os de maior incidência começando pela verbal que é a mais relatada nos boletins de ocorrência dos anos de 2021 e 2022 de Manhuaçu/MG, que corresponde a 54%, seguido de aparelhos eletrônicos, que corresponde a 20,5%, e uso de arma branca como objetos cortantes (lâminas, navalhas), perfurocortantes (faca, garrafa de vidro quebrado, canivetes), contundentes (martelo, pedaço de pau, soqueira) e corto contundentes (machado, foice), que correspondem a 15,6%. 57 Q U E M S à O E L A S ? A violência pode acontecer desde empurrões, espancamentos, ofensas morais, xingamentos e humilhações, queimaduras, violência sexual, uma vez que a vítima pode ser ameaçada a manter relação sexual com o parceiro mesmo contra sua vontade, e em todos esses casos, se a violência acontece dentro do ambiente familiar por uma relação desigual de poder entre homem e mulher é considerada violência doméstica sendo passível de denúncia e punição. Na tabulação feita nesta pesquisa, foi constatado que a violência psicológica é a maior praticada pelos agressores, representado em 2021 por 81% e em 2022 por 75,5%. Acerca dos dias da semana e horários, existe uma predominância diferente entre os anos de 2021 e 2022, sendo em 2021 os dias da semana de maior incidência em Manhuaçu o sábado com cerca de 26,4% da totalidade dos dados analisados, em seguida, a quarta-feira com cerca de 18,9% da totalidade dos dados, e posteriormente, a terça-feira que totalizou com 15,1%. Já em 2022, a maioria foi registrada no domingo apresentando 20,4% dos dados analisados, em seguida, a sexta-feira que apresentou 18,4% dos casos e seguido da terça-feira que apresentou 16, 3%. Os horários foram estabelecidos a partir da madrugada (00:00:01 às 05:59:59), manhã (06:00:01 às 11:59:59), tarde (12:00:01 às 17:59:59), e noite (18:00:01 ás 23:59:59).Esses dados são de suma importância para se observar o modus operandi e a partir de aí estabelecer as medidas de proteção e prevenção enrustidas das políticas públicas que serão desenvolvidas pelo Estado. 58 Q U E M S à O E L A S ? É necessário o enfoque nos endereços onde os autores residiam à época do crime, pois dessa maneira é possível relacionar o ambiente ao índice de criminalidade, elencar a respeito de ser um bairro periférico ou de alto padrão, entender as condições sob as quais os moradores residem e trabalham, relação de comércio, de bares, de pontos de tráfico de entorpecentes, pois a partir dessa análise micro é que se pode entender o funcionamento do macro e agir. No entanto, novamente nos deparamos com a falta dessa informação no boletim de ocorrência porque foram sumariamente ignorados pela autoridade policial, sendo 26% ignorado nos dois anos analisados (2021 e 2022), 7,8% em Vila Nova, 3,9% no bairro Santa Terezinha, 3% no bairro Sagrada Família, 2,9% nos bairros Santa Luzia, Matinha, Santana, Bom Pastor e Zona Rural, e 1,9 em Palmeiras e São Francisco de Assis. 59 Q U E M S à O E L A S ? A análise sobre uso de substâncias feita na presente pesquisa apresenta que no ano de 2021, 32% dos agressores estavam sob efeito de álcool, 13% sob efeito de drogas e 54% não foi informado, no ano de 2022, 24% fez uso de álcool, 8% fez uso de drogas e 65% não foi informado, sendo assim é demonstrado que o acesso e/ou uso nocivo de álcool e drogas interferem e se associam à violência de gênero, pois implicam na geração de comportamentos agressivos por parte do autor da violência. Ressalta - se ainda que os dados que apontam a não utilização de álcool ou drogas no momento do ato violento não exime a influência de tais substâncias quanto à situação de violência, visto que críticas ao hábito de consumo feitas pelas vítimas aos seus companheiros também são causas de discussões que podem levar a episódios de violência (D’OLIVEIRA et al., 2009, p. 299-311). Não obstante, é interessante a observação do estado civil dos agressores, que são comumente solteiros sendo eles 30%, e 28% são casados no ano de 2021, no ano de 2022, 30% são solteiros e 12% são casados, esse dado é importante para observar que geralmente esses homens passaram por diversos relacionamentos e assim é possível identificar se em todos eles houve a prática de violência doméstica, em comum ao estado civil foi identificado que os atos violentos foram praticados majoritariamente por indivíduos que não têm mais relações afetivas com as vítimas e entre as motivações para a violência destacam se o inconformismo com o fim da relação, ciúmes, dentre outros, estendendo inclusive a violência aos atuais parceiros, com ameaças, violência moral, física, entre outras. 60 Q U E M S à O E L A S ? 61 Q U E M S à O E L A S ? Depois de discutido sobre o perfil do agressor, inicia-se a análise das prisões em flagrante em domicílio nos crimes de violência doméstica. Ainda que a máquina judiciária do Brasil seja lenta e possua diversos problemas sistemáticos, não se pode afirmar que ela é ineficiente, nas situações de violência doméstica se entende que a vítima corre risco iminente e não está com sua integridade física resguardada, por isso, a Polícia age no menor tempo hábil para retirar o agente do convívio social e garantir a segurança e o princípio constitucional da dignidade da pessoa humana à vítima. Através dos canais de denúncia disponíveis a vítima, como o 190, 180, e, em Manhuaçu/MG, a vítima pode recorrer ao “Chame a Frida”, programa desenvolvido pela escrivã de polícia Ana Rosa Campos exclusivamente para atender vítimas de violência doméstica, em que a denúncia é feita através de um número de WhatsApp. Nos casos mais graves a polícia se desloca imediatamente com o intuito de atender a demanda da vítima e se necessário realizar a prisão em flagrante. A vítima também pode recorrer a Delegacia de Polícia, se assim preferir.Nos 102 boletins analisados por essa pesquisa, foram constatadas 16 prisões em flagrante, decorrentes de denúncia e ação rápida da Polícia para proteger a vida da vítima. Uma vez que a denúncia acontece e como previamente visto, a violência ocorre em sua maioria dentro da residência, as prisões em flagrante em domicílio são majoritárias. O Supremo Tribunal Federal (STF) considerou válida a alteração promovida na Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) para permitir que, em casos excepcionais, a autoridade policial afaste o suposto agressor do domicílio ou do lugar de convivência quando for verificado risco à vida ou à integridade da mulher, mesmo sem autorização judicial prévia.” DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E NECESSIDADE DE MEDIDAS EFICAZES PARA PREVENIR A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER. CONSTITUCIONALIDADE DE MEDIDA PROTETIVA DE URGÊNCIA CORRESPONDENTE AO AFASTAMENTO IMEDIATO DO AGRESSOR DO LOCAL DE CONVIVÊNCIA COM A OFENDIDA EXCEPCIONALMENTE SER CONCEDIDA POR DELEGADO DE POLÍCIA OU POLICIAL. IMPRESCINDIBILIDADE DE REFERENDO PELA AUTORIDADE JUDICIAL. LEGÍTIMA ATUAÇÃO DO APARATO DE SEGURANÇA PÚBLICA PARA RESGUARDAR DIREITOS DA VÍTIMA DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR. IMPROCEDÊNCIA. (ADI 6138, Órgão julgador: Tribunal Pleno, Relator: Ministro Alexandre de Moraes, Data de Julgamento: 23/03/2022, Data de Publicação: 09/06/2022) 62 Q U E M S à O E L A S ? A prisão em flagrante pode ser implementada pelo delegado de polícia, e na sua falta, pela autoridade policial, entretanto a prisão precisa ser remetida ao juiz no prazo de 24 horas para que o mesmo decida sobre a manutenção ou suspensão da mesma. O flagrante ocorre quando o agente coloca em iminente risco à vítima e seus dependentes, sendo necessário o imediato afastamento do agressor do local. Para tanto, a reserva de jurisdição acontece quando, sem flagrante delito, a autoridade policial não pode dar entrada em qualquer domicílio sem autorização judicial, respeitando o princípio constitucional da inviolabilidade de domicílio. Nos casos de violência doméstica, a medida é excepcional. Por isso é sumamente importante a denúncia rápida para que haja celeridade no atendimento à mulher vitimada. É necessário a atuação coletiva para interromper o ciclo da violência doméstica, para além da prisão em flagrante, a doutrina e a jurisprudência aceitam a medida protetiva da Lei Maria da Penha, que se trata de uma medida cautelar para proteger a vítima e seus dependentes, elas possuem tutela de urgência, e podem perdurar por todo o período de risco da vítima, e possuem diversas formas, como: Lei 11.340, de 7 de agosto de 2006 Art. 22 Constatada a prática de violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos desta Lei, o juiz poderá aplicar, de imediato, ao agressor, em conjunto ou separadamente, as seguintes medidas protetivas de urgência, entre outras: I - suspensão da posse ou restrição do porte de armas, com comunicação ao órgão competente, nos termos da Lei nº 10.826, de 22 de dezembro de 2003; II - afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a ofendida; III - proibição de determinadas condutas, entre as quais: a) aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas, fixando o limite mínimo de distância entre estes e o agressor; b) contato com a ofendida, seus familiares e testemunhas por qualquer meio de comunicação; c) freqüentação de determinados lugares a fim de preservar a integridade física e psicológica da ofendida; IV - restrição ou suspensão de visitas aos dependentes menores, ouvida a equipe de atendimento multidisciplinar ou serviço similar; V - prestação de alimentos provisionais ou provisórios. VI – comparecimento do agressor a programas de recuperação e reeducação; e VII – acompanhamento psicossocial do agressor, por meio de atendimento individual e/ou em grupo de apoio. (BRASIL, 2006, online). 63 Q U E M S à O E L A S ? O ministro Alexandre de Moraes salientou que durante a pandemia aumentaram os casos de violência doméstica e nesse período, 24,4% das mulheres brasileiras com mais de 16 anos sofreram algum tipo de violência ou agressão, física ou psicológica. Segundo ele, 66% dos feminicídios ocorreram na casa da vítima e 3% na do agressor. Em 97% dos casos, afirmou, não havia qualquer medida protetiva contra o agressor.” DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E NECESSIDADE DE MEDIDAS EFICAZES PARA PREVENIR A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER. CONSTITUCIONALIDADE DE MEDIDA PROTETIVA DE URGÊNCIA CORRESPONDENTE AO AFASTAMENTO IMEDIATO DO AGRESSOR DO LOCAL DE CONVIVÊNCIA COM A OFENDIDA EXCEPCIONALMENTE SER CONCEDIDA POR DELEGADO DE POLÍCIA OU POLICIAL. IMPRESCINDIBILIDADE DE REFERENDO PELA AUTORIDADE JUDICIAL. LEGÍTIMA ATUAÇÃO DO APARATO DE SEGURANÇA PÚBLICA PARA RESGUARDAR DIREITOS DA VÍTIMA DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR. IMPROCEDÊNCIA. (ADI 6138, Órgão julgador: Tribunal Pleno, Relator: Ministro Alexandre de Moraes, Data de Julgamento: 23/03/2022, Data de Publicação: 09/06/2022) Nas pesquisas de Acosta e outros (2013, p. 547 - 555.) é descrito sobre um novo ciclo de violência, o que ocorre para além da vitimização, a eventual ineficácia da lei que não consegue fazer valer as medidas protetivas, dando origem a mais um crime, o de descumprimento de medida judicial. Mas tal advento possui respaldo na lei que tipifica o descumprimento ocasionando a detenção de 3 meses a 2 anos, para a garantia da integridade física da vítima. Vale ressaltar que a lei também apresenta respaldo sobre o vínculo empregatício, uma vez que o juiz deverá assegurar que a mulher que estiver afastada do local do trabalho para garantir sua integridade física, psicológica e moral, tenha a manutenção do seu vínculo de trabalho por até 6 meses. Por fim, a presente pesquisa buscou mapear, desenvolver e destrinchar os perfis presentes dentro do ciclo de violência, e assim como entender o perfil da vítima, é importante entender o perfil do agressor para que haja a neutralização e que o Estado juntamente com os Órgãos de Segurança Pública, possam agir, proteger, prevenir, controlar e punir a todos os agressores, mas não se esquecendo da reeducação desses agentes para que ao retornarem para o convívio social, passem a ter um comportamento virtuoso e não mais propague o ciclo de violência e até mesmo possa ajudar na prevenção de novos crimes. 64 Q U E M S à O E L A S ? A REDE DE PROTEÇÃO À MULHER VÍTIMA DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA EM MANHUAÇU/MG Ana Rosa Campos Bárbara Rocha Moratti Vítor Oliveira Rubio Rodrigues Luisa Kele Dias Ponsiano CAPÍTULO 5 1 2 3 10 Tendo em vista a necessidade de proteger, informar, orientar e acolher mulheres vítimas de violência doméstica, além de prevenir a recorrência dos crimes e principalmente, quebrar este ciclo, percebe-se a necessidade da implementação de políticas públicas eficazes que complementam a legislação e incentivam a criação de uma rede de proteção para essas mulheres, cuja finalidade é garantir todos os direitos à mulher vítima desta modalidade de violência, com a pretensão de formar uma teia composta por diversos órgãos e entidades que, ao se juntarem, oferecem todo suporte adequado para vítimas de violência doméstica (DELZIOVO, 2022, p. 24). Destarte, para que mulheres em situação de violência sejam atendidas, existe a Rede de Atendimento que se divide em quatro principais setores, sendo eles a segurança pública, a justiça, a assistência social e a saúde (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2023, online). Tais setores são compostos por duas categorias principalmente, a Rede de Enfrentamento à Violência Doméstica e a Rede de Atendimento às mulheres que se encontram em situação de violência. Assim, no que se tange à Rede de Atendimento, esta contempla todos os eixos de Política Nacional e consiste na atuação combinada entre as instituições, comunidade e os serviços prestados por serviços governamentais e não-governamentais, cujo o foco principal é desenvolver estratégias pontuais e eficazes para o enfrentamento,prevenção, construção e garantia dos direitos dessas mulheres e uma assistência qualificada para elas, além da responsabilização dos agressores (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2023, online). Já a Rede de Atendimento se compõe pelo conjunto de serviços e ações de diversos setores que visam humanizar e trazer mais qualidade aos atendimentos dessas vítimas, identificar suas necessidades e principalmente, encaminhar e conduzi-las ao caminho mais adequado para esse enfrentamento, porém, esta refere-se apenas ao eixo da assistência e do atendimento, sendo adjacente a rede de enfrentamento (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2023, online). Essa Rede de Atendimento é composta por serviços especializados que são os Centros e Núcleos de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, Casas Abrigo, Casas de Acolhimento Provisórios, também conhecidas como Casas- de-Passagem, Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, Núcleos nas Defensorias Públicas, Promotorias Especializadas, Juizados Especiais de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, Central de Atendimento à Mulher - 180, Ouvidoria da Mulher, Serviços de saúde voltados ao atendimento aos casos de violência sexual e doméstica (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2023, online). Graduanda em Direito pelo Centro Universitário UNIFACIG, vinculado ao grupo de Pesquisa Democracia,Cidadania e Estado de Direito, luisakeledp@gmail.com, http://lattes.cnpq. 10 65 Q U E M S à O E L A S ? No município de Manhuaçu/MG, no âmbito do Serviço de Segurança Pública, a Polícia Civil atua de maneira pertinente no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra mulheres através da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM), que conta com o chatbot “CHAME A FRIDA”, em conjunto com Polícia Militar, através da Patrulha de Prevenção à Violência Doméstica (PPVD), além da participação do conselho tutelar nos casos que envolvem menores de idade. Para além disso, no Brasil existem ainda os serviços não especializados, ou seja, ferramentas que não foram criadas exclusivamente para isso, mas que prestam esse atendimento à mulher, estes são serviços de atenção básica como hospitais, delegacias comuns, polícia militar, Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2023, online). Assim, mulheres que se encontram em situação de vulnerabilidade, podem buscar suporte no âmbito social, através do CRAS, CREAS e CAPS, cujo objetivo é disponibilizar apoio social e psicológico para as vítimas. Além desses suportes, o município de Manhuaçu/MG conta com o Serviço Municipal de Assistência Jurídica (SMAJ), popularmente conhecido como Defensoria Pública Municipal, e um Núcleo de Práticas Jurídicas, disponibilizado pelo Centro Universitário UNIFACIG, que em convênio com a PPVD, presta atendimento à vítimas de violência doméstica uma vez por semana no 11º Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais (11º BPMMG) (UNIFACIG, 2021, online). V.I - REDE DE ENFRENTAMENTO - SERVIÇOS DE SEGURANÇA PÚBLICA No que se refere aos serviços de segurança pública, estes que visam assegurar à população no que tange qualquer tipo de violência, além de garantir a ordem pública, há um entendimento de que se faz necessário a implementação de alguns serviços que compõem a rede de enfrentamento à violência doméstica, tais que apesar de não serem especializados, oferecem suporte para as mulheres que se tornam vítimas de violência, sendo eles: a Polícia Rodoviária Federal (PRF), o Instituto Médico Legal (IML), a Polícia Civil (PC), a Polícia Federal (PF), a Polícia Militar (PM) e os Bombeiros (DELZIOVO, p. 28, 2022) Além das instituições acima referidas, também deve ser disposto serviços especializados, como Núcleo/Posto/Seção de Atendimento à Mulher e especialmente a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM). Os serviços especializados de atendimento à mulher, se definem como recursos direcionados ao atendimento específico para mulheres, sendo estes fundamentais para o enfrentamento e prevenção da violência doméstica (DELZIOVO, p. 28, 2022). V.II (A) - SERVIÇOS NÃO ESPECIALIZADOS DE SEGURANÇA PÚBLICA O município de Manhuaçu é instituído com uma rede de enfrentamento bem estruturada na esfera da Segurança Pública. Está presente no município em questão no âmbito do enfrentamento não especializado, os seguintes serviços: O Instituto Médico Legal (IML), que exerce uma função crucial no atendimento à mulher violentada. Participa de maneira fundamental na coleta de provas e é responsável por todo laudo pericial, principalmente em casos de vítimas violentadas física e/ou sexualmente, coleta essa que se torna uma importante e decisiva prova para o processo e para a condenação do agressor. (SENADO, 2011, p. 32) A Polícia Civil (PC) e a Polícia Militar (PM), as delegacias comuns também possuem como dever prestar atendimento para mulheres que se encontram em situação de violência, além de encaminhá-las para os órgãos especializados. (SENADO, 2011, p. 32) 66 Q U E M S à O E L A S ? O Corpo de Bombeiros Militar, também possui o dever legal de prestar atendimento para vítimas de violência doméstica, tendo em vista que constitui a rede de enfrentamento no setor da segurança pública. (DELZIOVO. 2022, p. 25) A Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal, não se faz presente no município de Manhuaçu/MG, e levando em consideração que o município em questão, tem se expandido cada vez mais e de acordo com o censo demográfico do IBGE, produzido em 2021, atualmente possui um total de 92.074 habitantes, se faz necessária a instituição dos referidos serviços em Manhuaçu/MG. (IBGE. 2023, online)” V.III - SERVIÇOS ESPECIALIZADOS DE SEGURANÇA PÚBLICA O município de manhuaçu conta com serviços especializados de segurança pública de fiscalização e repressão, a saber: V.III.I - DELEGACIA ESPECIALIZADA DE ATENDIMENTO À MULHER (DEAM) A DEAM é uma divisão especializada dentro da Polícia Civil que visa atender mulheres que se encontram em situação de violência, conta com uma área de convívio social, sala de investigação, ambulatório e sala de acolhimento provisório para vítimas que não têm para onde ir. A sua atuação possui caráter preventivo e repressivo, ou seja, possui como objetivo principal prevenir e investigar os crimes cometidos que se enquadram como violência contra as mulheres, como também busca ser um ambiente acolhedor e aconchegante, para que as vítimas se sintam à vontade, esse fator auxilia significativamente na investigação, considerando que ao se sentir acolhida, protegida e confortável, a vítima tende a expressar-se de forma mais ampla e detalhada sobre o ocorrido. (DELZIOVO, 2022, p. 28) V. IV ENTENDA SEUS DIREITOS Art. 22. Constatada a prática de violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos desta Lei, o juiz poderá aplicar, de imediato, ao agressor, em conjunto ou separadamente, as seguintes medidas protetivas de urgência, entre outras: I - suspensão da posse ou restrição do porte de armas, com comunicação ao órgão competente, nos termos da Lei nº 10.826, de 22 de dezembro de 2003; II - afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com ofendida; III - determinação de determinadas condutas, entre as quais: a) aproximar-se da ofensa, dos seus familiares e das testemunhas, fixando o limite mínimo de distância entre estes e o agressor; b) contato com a ofensa, seus familiares e testemunhas por qualquer meio de comunicação; c) frequência de determinados locais a fim de preservação da integridade física e psicológica da ofensa; IV - restrição ou suspensão de visitas a dependentes menores, ou vida de equipe de atendimento multidisciplinar ou serviço similar; V - fornecimento de alimentos provisórios ou provisórios. VI – comparação do agressor a programas de recuperação e reeducação; e (Incluído pela Leinº 13.984, de 2020) VII – acompanhamento psicossocial do agressor, por meio de atendimento individual e/ou em grupo de apoio. (Incluído pela Lei nº 13.984, de 2020) § 1º As medidas referidas neste artigo não impedem a aplicação de outras disposições na legislação em vigor, sempre que a segurança da ofendida ou as circunstâncias o exigiam, devendo as disposições serem comunicadas ao Ministério Público. § 2º Nas hipóteses de aplicação do inciso I, encontrando-se o agressor nas disposições mencionadas no caput e incisos do art. 6º da Lei nº 10.826, de 22 de dezembro de 2003, o juiz comunicará ao respectivo órgão, corporação ou instituição as medidas protetivas de urgência concedidas e determinará a restrição do porte de armas, ficando o superior imediato do agressor pelo cumprimento da determinação judicial , sob pena de cometer nos crimes de prevaricação ou de desobediência, conforme o caso. 67 Q U E M S à O E L A S ? Outrossim, os artigos 23 e 24 da referida Lei dispõe sobre o amparo das ofendidas: Art. 23. Escolha o juiz, quando necessário, sem prejuízo de outras medidas: I - encaminhar a ofendida e seus dependentes a programa oficial ou comunitário de proteção ou de atendimento; II - determinar a recondução da ofensa e dos seus dependentes ao respectivo domicílio, após afastamento do agressor; III - determinar o afastamento da ofensa do lar, sem prejuízo dos direitos relativos a bens, guarda dos filhos e alimentos; IV - determinar a separação de corpos. V - determinar a matrícula dos dependentes da ofensa em instituição de ensino básico mais próxima do seu domicílio, ou a transferência deles para essa instituição, independentemente da existência de vaga. (Incluído pela Lei nº 13.882, de 2019) Arte. 24. Para a proteção patrimonial dos bens da sociedade conjugal ou daqueles de propriedade particular da mulher, o juiz poderá determinar, liminarmente, as seguintes medidas, entre outras: I - restituição de bens indevidamente subtraídos pelo agressor ofendido; II - transferência temporária para a celebração de atos e contratos de compra, venda e transação de propriedade em comum, salvo autorização expressa judicial; III - suspensão das procurações conferidas pela ofensa ao agressor; as medidas protetivas de urgência serão concedidas em juízo de cognição sumária a partir do depoimento da ofendida perante a autoridade policial ou da apresentação de suas alegações escritas e poderão ser indeferidas no caso de avaliação pela autoridade de inexistência de risco à integridade física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral da ofendida ou de seus dependentes. (BRASIL, 2023, online) Art. 38-A. O juiz competente providenciará o registro da medida protetiva de urgência. Parágrafo único. As medidas protetivas de urgência serão, após sua concessão, imediatamente registradas em banco de dados mantido e regulamentado pelo Conselho Nacional de Justiça, garantido o acesso instantâneo do Ministério Público, da Defensoria Pública e dos órgãos de segurança pública e de assistência social, com vistas à fiscalização e à efetividade das medidas protetivas. (Redação dada Lei nº 14.310, de 2022) Vigência (BRASIL, 2023, online). Nesse diapasão, as DEAMs funcionam nos termos da Lei Maria da Penha, nª 11.340, de 07 de agosto de 2006, a qual cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra mulheres. Ao ser vítima de violência doméstica, a mulher deve se dirigir à delegacia mais próxima e registrar o Boletim de Ocorrência contra o autor do crime, e tão logo requerer a uma MPU. Para além disso, é importante salientar que após a alteração trazida pela Lei n° 14.550/23, seu 4º§ dispõe o seguinte: Assim, a vítima poderá solicitar a medida protetiva na delegacia, esta lhe será concedida independente da tipificação penal da violência, do ajuizamento de ação penal ou cível, da existência de inquérito policial ou do registro de boletim de ocorrência, assim como diz o Artigo 9º em seu § 5º, da Lei nº 14.550/23 (BRASIL, 2023, online). Além do mais, a Lei Maria da Penha dispõe a respeito de procedimentos relativos a Medida Protetiva de Urgência, em seu Artigo 38, a legislação afirma o seguinte: 68 Q U E M S à O E L A S ? Em análise aos boletins de ocorrência (REDS), constatou-se a frequência com que as vítimas requerem Medidas Protetivas de Urgência. A análise do gráfico aponta que em 2021, a solicitação de MPU foi de 50,94% por parte das vítimas que registraram boletim de ocorrência, sendo que no ano de 2022 houve uma queda para 48,98%. Esses números refletem a necessidade do acesso à informação e do acesso a rede de apoio no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher, haja vista que em muitas das vezes a vítima registra a ocorrência, e em quase 50% dos casos deixa de representar pelas medidas protetivas de urgência. Essa observação reflete diretamente na utilização dos recursos oferecidos para garantia do bem estar e da integridade da vítima e seus dependentes, se houver. 69 Q U E M S à O E L A S ? V. V SERVIÇOS EXCLUSIVOS DA DEAM DE MANHUAÇU/MG Além de prestar os atendimentos padronizados e instituídos em todas as DEAMs, é estabelecido na DEAM do município de Manhuaçu, três serviços de extrema importância denominados como “Chame a Frida”, nomenclatura que homenageia a renomada pintora e ativista mexicana Frida Kahlo, o “Projeto Elzas”, que faz referência à cantora de MPB Elza Soares, que durante a vida, foi vítima de violência doméstica e, por fim, o projeto “Diálogos Sobre Masculinidades", o qual se trata de um grupo de reeducação e conscientização de homens envolvidos em casos de violência doméstica. V. VI - CHAME A FRIDA Chame a Frida é um chatbot1 integrado ao aplicativo WhatsApp, idealizado pela Escrivã de Polícia Ana Rosa Campos, atualmente lotada na DEAM da Comarca de Manhuaçu-MG, que em março de 2020 (durante a pandemia da Covid-19), percebeu que era necessário ampliar os meios de comunicação e formas de contato entre a Polícia Civil e as vítimas de violência doméstica, tanto pelo distanciamento social necessário em razão da Covid-19, quanto pela dificuldade de as mulheres da zona rural entrarem em contato com a Polícia Civil, dado o aumento dos casos de violência doméstica, levando em consideração que com o isolamento social, as mulheres passaram mais tempo em suas casas, muitas vezes em convívio com seus agressores (BUENO; LAGRECA, 2022, p. 65). O “Chame a Frida” além de ser um canal de denúncia para vítimas que estão em situação de risco, ainda oferece às vítimas e a qualquer pessoa informações acerca dos tipos de violências que podem ocorrer no âmbito doméstico e familiar contra a mulher, logo, auxilia no processo de desenvolvimento da capacidade de identificá-la e denunciá-la. A cidade de Manhuaçu possui um alto percentual de moradores na zona rural. Com isso, é de suma importância a difusão dos meios pelos quais as vítimas tenham acesso facilitado à polícia, além de protocolos de como agir em caso de violência e principalmente a possibilidade de se realizar denúncias (BUENO; LAGRECA, 2022, p. 67) Projetos como o mencionado acima, mostram-se uma ferramenta imprescindível no enfrentamento da violência doméstica, visto que atualmente, cerca de 92% dos lares brasileiros contam com pelo menos um aparelho celular e que estes possuem acesso ao aplicativo de WhatsApp, este que, usado no dia a dia como um dos principais meios de comunicação. Logo, a implementação e divulgação de tais projetos contribui para que as vítimas possam realizar a denúncia mesmo sem precisar se deslocar até uma delegacia, e também, possibilitam com que a vítima tenha conhecimento de seus direitos e de que é amparada pela lei (IBGE, 2015, online). WhatsApp é um software para smartphones utilizado para troca de mensagens de texto instantaneamente, além de vídeos, fotos e áudios através de uma conexão à internet. (fonte: significados.com.br)11 11 70 Q U E M S à O E L A S ? Ao observar a situação a partir de uma perspectiva distinta e empática, o projeto que foi inicialmente implantado na Delegacia de Polícia Civil da cidade de Manhuaçu/MG, atualmente está presente em 50 municípios do estado de Minas Gerais, sendo eles em Alpercata, Barbacena, Betim, Bocaiúva, Brasília de Minas, Caratinga, Claro dos Poções, Coração de Jesus, Dores de Guanhães, Espinosa, Francisco Sá, Frei Inocêncio, Glaucilândia, Grão Mogol, Guanhães, Itabira, Itacambira, Itacarambi, Itaúna, Jaíba, Janaúba, Januária, Juatuba, Juiz de Fora, Juramento, Manga, Manhuaçu, Marilac, Matias Lobato, Mato Verde, Mirabela, Montalvânia, Monte Azul, Montes Claros, Ouro Preto, Paracatu, Periquito, Porteirinha, Ribeirão das Neves, Rio Pardo de Minas, Salinas, São Francisco, São Geraldo da Piedade, São João da Ponte, São João do Paraíso, São José da Safira, Senhora do Porto, Taiobeiras, Três Corações e Varzelândia (PCMG, online, 2023) O projeto “Chame a Frida” se tornou referência no âmbito da violência doméstica, vez que este colabora de forma efetiva no enfrentamento da violência, além de já ter recebido diversos prêmios nacionais e um prêmio internacional, totalizando nove prêmios, sendo eles: PRÊMIO VIVA 2020 na categoria “Justiça e Segurança” (Prêmio nacional da revista “Marie Claire” e “Instituto Avon”) 1° lugar do “PRÊMIO INOVA 2020” (do governo de Minas Gerais) 1o Prêmio "Innovare" (do CNJ e demais órgãos da justiça) Prêmio espírito público Prêmio Juíza Patrícia Acioli de Direitos Humanos Prêmio práticas INOVADORAS do Fórum Brasileiro de Segurança Pública 1° primeiro lugar no ENAP (escola nacional de administração pública). Prêmio internacional alemão "The Creative Bureaucracy Festival" 4o lugar no Prêmio Empreendedorismo Feminino na Segurança Pública (Associação dos Oficiais da Polícia Militar) O projeto Chame a Frida pode ser entendido como uma forma prática para a Polícia Civil fornecer informações a respeito da Lei Maria da Penha e como um instrumento de interlocução entre a equipe da Polícia Civil e a PPVD. (BUENO; LAGRECA, 2022, p. 80). V.VII - PROJETO ELZAS O Projeto Elzas foi instituído no município de Manhuaçu/MG em março de 2021 e pode ser entendido como um núcleo de atendimento à mulher. Este projeto foi idealizado e teve sua fundação coordenada pela Delegada de Polícia Adline Ribeiro de Mello Rodrigues e pela Escrivã de Polícia Ana Rosa Campos. O projeto Elzas, visa acolher e prestar atendimento psicológico para as vítimas de violência doméstica da comarca de Manhuaçu/MG, realizando um papel primordial na quebra do ciclo da violência. O Projeto tem como lema, “acolher, entender, compartilhar”, e é um ambiente onde qualquer vítima de violência doméstica pode compartilhar suas experiências e participar das rodas de conversa. O atendimento é feito com estagiários do curso de psicologia e acontece às quartas e quintas-feiras das 14h30 às 17h30 na DEAM de Manhuaçu/MG. V.VIII - DIÁLOGOS SOBRE MASCULINIDADES Diálogos sobre Masculinidades, projeto estruturado pela escrivã Ana Rosa Campos e pelas psicólogas Raiane F. Coelho e Sara Alves de Assis é um grupo de reeducação e conscientização para homens autores de violência doméstica. O projeto tem como objetivo geral possibilitar que os autores de violência repensem suas atitudes, desconstruam padrões problemáticos que foram aprendidos socialmente, reflitam e se informem a respeito do tema de cada encontro e, através das informações, vivências e diálogos realizados no grupo, sejam capazes de transformar seu comportamento através de pensamentos, emoções e atitudes mais assertivas. 71 Q U E M S à O E L A S ? A conscientização é parte fundamental para que haja reflexão, arrependimento e, dessa forma, transformação. Se quisermos realmente avançar na discussão e mudar os números que temos hoje sobre violência contra mulheres e meninas, precisamos trazer os homens para os debates. O principal caminho para mudança de atitude é o diálogo. Assim, os objetivos específicos do grupo perpassam a informação sobre desigualdade de gênero, direitos e deveres entre homens e mulheres e os papéis que ambos desempenham atualmente na sociedade, para que, dessa forma, seja possível romper o ciclo da violência. Os encontros acontecem semanalmente na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de Manhuaçu/MG e são conduzidos pela psicóloga Raiane F. Coelho. Cada encontro possui um tema específico e tem a duração de 2h. No total, são realizados 10 encontros estruturados em: exposição do conteúdo; grupo reflexivo e debates/ encerramento. V.IV - POLÍCIA MILITAR - PATRULHA DE PREVENÇÃO À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA (PPVD) PPVD ou Patrulha de Prevenção à Violência Doméstica é um serviço instituído pela Polícia Militar em todo estado de Minas Gerais; a patrulha é obrigatoriamente formada por um Policial Militar masculino e uma Policial Militar feminina, tendo como principal objetivo, prevenir a ocorrência de crimes relacionados à violência doméstica e familiar contra a mulher. Nos casos de ocorrência do crime, tem a função de acolher e apoiar a mulher no menor tempo possível. (POLÍCIA MILITAR, online, 2023) O serviço foi iniciado em Manhuaçu/MG, em fevereiro de 2021 e nesses dois anos de atuação obteve um resultado positivo e juntamente com a rede de proteção conseguiu alcançar um número significativo da diminuição da violência doméstica. (POLÍCIA MILITAR, online, 2023) Como funciona? O serviço de prevenção a Violência Doméstica, é fundamental no município de Manhuaçu/MG, por a rede de proteção estar interligada e de certa forma se completar. Se uma vítima de violência doméstica registra um boletim de ocorrência através do Chame a Frida ou diretamente na polícia civil, a PPVD é comunicada e presta atendimento à vítima. Em um primeiro momento, a vítima é atendida pelos policiais militares que estão em patrulha no momento do ato, isso é chamado de "primeira resposta". Como “segunda resposta”, após uma análise minuciosa do caso, a PPVD entra em contato com a vítima, explica sobre o programa e verifica o interesse e a necessidade da mesma ser acompanhada pela PPVD. A “segunda resposta” atua de maneira mais pertinente no processo de quebra de ciclo da violência. (PEREIRA, 2023) Durante o acompanhamento, a vítima é orientada sobre seus direitos, sobre a Lei Maria da Penha, e em caso de necessidade, é instruída a buscar outros serviços que compõem a rede de apoio, como o SUS, CRAS, CREAS e/ou Assistência Social. O atendimento é adaptado de acordo com as necessidades da vítima. 72 Q U E M S à O E L A S ? Ou seja, é incumbido ao Estado o dever de fornecer defesa gratuita para pessoas que se encontram em situação de hipossuficiência, englobando as mulheres vítimas de violência doméstica que precisam ter acesso à justiça Assim, considerando os boletins analisados, observou-se que o número de vítimas atendidas somente pela PPVD em 2021 foi de 70%, já em 2022, este número reduziu-se para 40%, além disso, foi mostrado que 21% das mulheres foram atendidas por ambos serviços. Esses números apontam que cada vez mais as vítimas têm buscado por suporte, e que a rede de proteção a vítima de violência doméstica no município de Manhuaçu/MG tem se complementado de maneira concisa no enfrentamento a violência doméstica. O acesso automático aos boletins de ocorrência faz com que a PPVD consiga alcançar as vítimas que se encontram em situação de violência doméstica e vulnerabilidade. V.X - JUDICIÁRIO No que tange à esfera judicial, juntamente com os Serviços de Segurança Pública, a rede visa colaborar com a responsabilização dos agressores para com seus atos. O direito de acesso à justiça para as mulheres é um componente essencial do Estado de Direito quando se trata de políticas públicas de igualdade de gênero (LIMA, 2022, p. 97) A comarca de Manhuaçu atualmente não possui Juizado Especializadoem Violência A Defensoria Pública é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe, como expressão e instrumento do regime democrático, fundamentalmente, a orientação jurídica, a promoção dos direitos humanos e a defesa, em todos os graus, judicial e extrajudicial, dos direitos individuais e coletivos, de forma integral e gratuita, aos necessitados, na forma do inciso LXXIV do art. 5º desta Constituição Federal (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 80, de 2014) (BRASIL, 1988) e não possuem condições de arcar com tal custo. Esse serviço está presente no município de Manhuaçu/MG, e se encontra na Rua Ulisses Calheiros de Araújo, 193 - Bom Pastor, Manhuaçu - MG. O Ministério Público possui um papel fundamental no acompanhamento da rede de atendimento às vítimas de violência doméstica, visto que é responsável pela fiscalização das violações dos direitos fundamentais, podendo exigir através de meios legais que o governo municipal e/ou estadual, fortaleça de maneira efetiva a criação de políticas públicas para o enfrentamento da violência doméstica. (SENADO, 2011, p. 27) Especialmente no município de Manhuaçu/MG, é possível encontrar o Núcleo de Práticas Jurídicas do UNIFACIG, que em parceria com a PPVD, presta atendimento jurídico às vítimas de violência doméstica uma vez por semana, atendimentos esses, coordenados e acompanhados pela professora da instituição Me. Milena Temer. A parceria prevê o atendimento mensal na sala PPVD e essa parceria entre o UNIFACIG e a Polícia Militar visa garantir às mulheres atendimento para resolução de conflitos interpessoais nas questões cíveis com profissional habilitado na área. V.XII - SERVIÇOS ESPECIALIZADOS Dentro do campo dos serviços especializados destinados à justiça para mulheres vítimas de violência doméstica, pode-se encontrar, Juizados especializados de violência doméstica e familiar contra a mulher ou varas adaptadas de violência doméstica e familiar, Promotorias Especializadas além de Defensorias Especializadas. Esses serviços, se configuram como uma versão especializada para as vítimas, bem parecida com os serviços convencionais (SENADO, 2011, p. 52). V. XIII - ASSISTÊNCIA SOCIAL - SERVIÇO NÃO ESPECIALIZADO Os serviços não especializados de atendimento à mulher constituem, também, portas de entrada da mulher na rede e são essenciais para o enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher. 73 Q U E M S à O E L A S ? V.XIII.I - CENTRO DE REFERÊNCIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL (CRAS) O CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), é um serviço disponibilizado pelo Governo Federal juntamente com a prefeitura, que visa oferecer assistência e proteger as famílias que se encontram em situação de vulnerabilidade, além de assegurar o serviço social promovendo a inclusão social (MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2019, online). Pode este servir como de porta de entrada para a mulher vitimada nos serviços de rede de apoio, visto que por acompanhar as famílias de perto, o CRAS pode ser capaz de identificar a violência doméstica, mesmo que a vítima não o tenha identificado, além de encaminhar as mulheres para os órgãos responsáveis pelo acompanhamento especializado. (SENADO. 2011, p. 30) V.XIV - SERVIÇOS ESPECIALIZADOS DE ASSISTÊNCIA SOCIAL O Centro de Referência Especializado de Assistência Social é uma unidade pública da Assistência Social que atende pessoas que vivenciam situações de violações de direitos ou de violências. (GOV, 2023, online) XIV.I - CENTRO DE REFERÊNCIA ESPECIALIZADO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL (CREAS) O CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), tem como objetivo atender famílias e indivíduos que se encontram em situação de risco social e/ou tiveram seus direitos violados. Deve prestar atendimento especializado e oferece serviços como abordagem social e oferece informações, orientação jurídica e apoio à família. É importante frisar, o acompanhamento minucioso feito pelo CREAS e a observação aproximada de cada caso. (MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2019, online) V. XV - CASA-ABRIGO Apesar de todos os serviços da rede de apoio serem essenciais e colaborarem de forma produtiva com o enfrentamento à violência doméstica por oferecerem suporte às mulheres que se encontram em situação vulnerável, existe um vazio e uma lacuna a ser preenchida quando levado em consideração o seguinte questionamento: para onde vão as mulheres violentadas que são dependentes do marido economicamente? Em alguns municípios do estado de Minas Gerais como Juiz de Fora e Governador Valadares, é possível encontrar as chamadas “casas abrigo”. A casa abrigo é um atendimento que oferta o serviço de acolhimento para mulheres, vítimas de violência doméstica que se encontram em situação vulnerável, bem como de seus dependentes. Casa-abrigo pode ser definido como um lugar seguro que oferece moradia para as vítimas que se encontram em uma situação vulnerável ocasionada pela violência doméstica. O serviço é confidencial e de curta duração. Atende a vítima, até o momento em que a mesma consegue reunir condições necessárias para retomar suas trajetórias de vida. (SENADO, 2011, p. 28) É um serviço de suma importância que ainda não está presente no município de Manhuaçu/MG. Colabora de forma efetiva no interrompimento da violência doméstica e se faz essencial no enfrentamento da mesma, visto que que muitas das vezes a vítima não têm para onde ir, e assim, pode por ausência de recursos permanecer em situação de violência. De Acordo com BANDEIRA & MELO (2014) os dados da MUNIC/IBGE – Pesquisa de Informações Básicas Municipais (2009) apontaram no período, a existência de casa abrigo em 262 municípios, 475 Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher espalhadas em 397 cidades, 469 municípios com Núcleos Especializados de Atendimento à Mulher nas Defensorias Públicas e 274 municípios com Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher. (MEDEIROS. 2018, p. 103) 74 Q U E M S à O E L A S ? Cabe à Secretaria de Políticas para as Mulheres e pelos parceiros do Governo Federal no Pacto Nacional pelo Enfrentamento à Violência contra a Mulher, oferecer o mínimo de dignidade para essas mulheres, no ato de fornecer políticas públicas que visam a criação das casas abrigos e o fortalecimento da rede de atendimento à violência doméstica. (LIMA, 2022, p. 17) V.XVI - SAÚDE (SERVIÇOS NÃO ESPECIALIZADOS) No âmbito da saúde, temos serviços não especializados que prestam atendimento às vítimas, sendo eles Hospitais gerais (incluindo o Sistema Unificado de Saúde - SUS), Unidade de Pronto Atendimento e Unidades Básicas de Saúde (UBS), serviços esses que em caso de violência física e/ou sexual, estarão de prontidão para atender as vítimas. Todos esses serviços estão presentes no município de Manhuaçu. V.XVII - SERVIÇOS ESPECIALIZADOS Em relação à saúde especializada para o atendimento à mulher violentada, temos o chamado “Serviço de atenção às pessoas em situação de violência sexual”, que conta com profissionais do SUS para atender as vítimas. É composto por atendimentos de assistência médica, enfermeiros, psicólogos e assistência social às mulheres vítimas de violência doméstica física e/ ou sexual, além de auxiliar na interrupção da gravidez em casos de estupro, como previsto no código penal brasileiro, em seu artigo 213 e 128 O município de Manhuaçu/MG, não conta com tal serviço especializado, cabendo ao governo municipal, incentivar a criação de tal atendimento, visto que é dever do Estado fortalecer a rede de atendimento às vítimas de violência doméstica. A violência doméstica e familiar contra a mulher é um problema sério e alarmante que afeta milhões de mulheres em todo o mundo. É fundamental que a sociedade como um todo se una no enfrentamento dessa forma de violência, promovendo a conscientização, a educação e a implementação de políticas eficazesde prevenção e proteção. Além disso, é necessário que as vítimas sejam encorajadas a denunciar os casos de violência, oferecendo-lhes o suporte necessário para romper o ciclo de abuso. Somente através de um esforço coletivo e contínuo será possível criar um ambiente seguro. Assim, entende-se a necessidade da criação de políticas públicas que colaborem de forma efetiva no funcionamento da rede, como a construção de casa-abrigo no município e defensorias especializadas para a proteção e auxílio das mulheres vítimas de violência doméstica no município de Manhuaçu/MG. Art. 213. Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso: (Redação dada pela Lei nº 12.015, de 2009) Pena - reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos. (Redação dada pela Lei nº 12.015, de 2009) Art. 128 - Não se pune o aborto praticado por médico: (Vide ADPF 54) Aborto no caso de gravidez resultante de estupro II - se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal. 75 Q U E M S à O E L A S ? SAIBA MAIS ONDE REIVINDICAR SEUS DIREITOS NA CIDADE DE MANHUAÇU-MG Procuradoria Especial da Mulher Câmara Municipal de Manhuaçu e-mail:procuradoriadamulher@manhuacu. mg.leg.br Rua Hilda Vargas Leitão de Almeida, 141 - Alfa Sul, Manhuaçu - MG, CEP 36904-153 CHAME A FRIDA - Atendente virtual (chatbot) DELEGACIA ESPECIALIZADA DE ATENDIMENTO À MULHER (DEAM) Avenida Melo Viana, 222, Bom Pastor, Manhuaçu-MG, CEP 36902-290. Telefone: (31) 99410-0807 (Chame a Frida); (33) 3331-1020 (DEAM) CENTRAL DE ATENDIMENTO À MULHER Telefone: 180 5a PROMOTORIA DE JUSTIÇA Avenida Barão do Rio Branco, 94, Baixada, Manhuaçu-MG. Telefone: (33) 3332-1870/(33) 3331-7286 PPVD - 11o BPM PMMG Rua Sentinela do Caparaó, 01, São Jorge, Manhuaçu-MG. DEFENSORIA PÚBLICA MUNICIPAL Rua Ulisses Calheiros Araújo, 193, Bairro Bom Pastor, próximo ao Fórum, Manhuaçu-MG. Telefone: (33) 3331-2681 NÚCLEO DE PRÁTICAS JURÍDICAS - UNIFACIG Av. Getúlio Vargas, 485 - Coqueiro, Manhuaçu - MG Telefone: (33) 3331-7000 CRAS Rua Monsenhor Gonzalez, 498, Prédio do Centro Cultural, Centro, Manhuaçu-MG Telefone: (33) 3332-3800 CREAS Rua Reverendo Antonio Godoy, 38, ao lado da 3a Igreja Presbiteriana, Centro, Manhuaçu-MG. Telefone: (33) 3332-3264. CAPS Rua Melin Abi Ackel, 600, Todos os Santos, Manhuaçu-MG. Telefone: (33) 33331-3655 Como funciona o acionamento do “CHAME A FRIDA”? #ParaTodosVerem O processo de atendimento virtual funciona da seguinte maneira: a vítima aciona a Frida com uma mensagem de texto através do número do aplicativo Whatsapp e recebe a seguinte mensagem: 76 Q U E M S à O E L A S ? Imagem 4: Conversa com a Frida 77 Q U E M S à O E L A S ? Fonte: CASOTECA, FBSP, 2021/2022 78 Q U E M S à O E L A S ? Imagem 6: Conversa com a Frida Fonte: CASOTECA, FBSP, 2021/2022 79 Q U E M S à O E L A S ? Imagem 7: Conversa com a Frida Fonte: CASOTECA, FBSP, 2021/2022 80 Q U E M S à O E L A S ? Imagem 8: Conversa com a frida Fonte: CASOTECA, FBSP, 2021/2022 81 Q U E M S à O E L A S ? Imagem 9: Conversa com a frida Fonte: CASOTECA, FBSP, 2021/2022 82 Q U E M S à O E L A S ? CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante dos pontos apresentados neste trabalho, enaltece-se a importância do conhecimento, não só pela sociedade, mas principalmente pelas mulheres, acerca da violência doméstica e familiar contra meninas e mulheres, a qual ocorre todos dias e em diversos lugares, principalmente dentro do local que deveria ser seguro: o próprio lar. O mapeamento de dados da violência doméstica na cidade de Manhuaçu/ MG contribui não apenas para o conhecimento das vítimas, mas está diretamente relacionado à criação e implementação de políticas públicas que possam colaborar com o enfrentamento da violência doméstica no município. Mostrando o que seria a violência doméstica, suas nuances e as tragédias que traz para o corpo, mente e desenvolvimento das mulheres, além dos efeitos que tal mal gera para a sociedade, o trabalho ressaltou que também é dever de cada um repassar informações e lutar contra a influência patriarcal opressora que subjuga as mulheres. É dever de cada um desmistificar a ideia de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, desmistificando vários jargões populares ultrapassados e de efeitos perversos. Apontou-se também que a principal atuação do poder público precisa estar focada em proteger a vítima, afastando-a do perigo iminente. É preciso transcender os moldes tradicionais a fim de garantir os direitos das mulheres de forma efetiva. Para tanto, é necessária a aplicação e legitimação de leis que busquem a garantia dos direitos da mulher e do uso real dos programas destinados ao acolhimento e ressocialização dos agressores. Um ponto crítico percebido foi a dificuldade no levantamento de dados importantes e sensíveis para entender o fenômeno da violência doméstica, isso porque foi percebida a ausência do registro completo de informações nos boletins de ocorrência, tais como orientação sexual, escolaridade, profissão, dependência financeira e consumo de substâncias potencializadoras como álcool e drogas pelo agressor. Tais dados são de suma importância para fins de pesquisa e a falta deles acarreta um déficit que pode dificultar no fornecimento de estatísticas mais precisas e relevantes para a sociedade, especialmente para que sirvam de base para se avaliar projetos existentes e para a implementação de novas medidas de políticas públicas. O ideal seria que os boletins de ocorrência fossem registrados com o preenchimento de todos os dados necessários e que os agentes responsáveis por tal preenchimento não desconsiderassem aquilo que julgam desnecessário ou irrelevante, já que assim poderia se garantir que estes dados chegassem ao poder público, evitando as chamadas “cifras ocultas”, posto que estes dados podem ser de grande diferença dentro da realidade de uma região, principalmente no que se refere a violência doméstica (fenômeno tão multifacetado, de contornos tão completos). 83 Q U E M S à O E L A S ? Ante o exposto, ressalta-se a necessidade de estudos como este, que trabalhem com um olhar mais apurado sobre a violência doméstica, vez que alimentam as estatísticas para o poder público, tanto em esfera federal, como estadual e municipal. Ainda mais, trabalhos como estes ajudam a conhecer e a entender as demandas sociais, o que possibilita a promoção de políticas públicas de enfrentamento a violência doméstica. O estudo pontuou as características das práticas criminosas, os perfis das vítimas e seus comportamentos, informações sobre os agressores, possibilitando um novo olhar sobre a violência doméstica em Manhuaçu e o que pode ser modificado, como por exemplo a criação de uma casa abrigo no município. Existe em Manhuaçu a Procuradoria Especial da Mulher e espera-se que o presente trabalho sirva como guia para a articulação de novas políticas públicas ou revisão/aprimoramento dos programas já existentes, traçando novos caminhos para que todos os responsáveis atuem de maneira coordenada e em rede. 84 Q U E M S à O E L A S ? REFERÊNCIAS ACOSTA, D. F.; GOMES, V. L. DE O.; BARLEM, E. L. D. Perfil das ocorrências policiais de violência contra a mulher. Acta Paulista de Enfermagem: São Paulo. v. 26, n. 6, p. 547–553, nov. 2013. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0103-21002013000600007. Acesso em: 21 jun. 2023. ALMEIDA, Dulcielly de Nóbrega; PERLIN, Giovana Dal Bianco; VOGEL, Luiz Henrique; WATANABE, Alessandra Nardoni. Violência contra a mulher. Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara. Série lei fácil - nº .1. 2020. ANGÉLICO, Rocio; DIKENSTEIN, Violeta; FISCHBERG, Sabrina e MAFFEO, Florencia. 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Graduando em Direito pelo Centro Universitário UNIFACIG, vinculado ao grupo de Pesquisa Direitos Fundamentais, vitoroliveirarubio@gmail.com, http://lattes.cnpq.br/0507129925538189. 1 2 3 Diante desse contexto de violência, a Lei 11.340/06, conhecida como “Lei Maria da Penha” simboliza o fruto de uma exitosa articulação do movimento de mulheres brasileiras ao identificar um caso emblemático de violência contra a mulher e ao extrair as potencialidades do caso, pleiteando reformas legais e transformações de políticas públicas (PIOVESAN, 2014, p. 383). Dessarte, a Polícia Civil e a Delegacia da Mulher nas questões relacionadas à violência contra a mulher, possuem papéis relevantes, oferecendo serviços de escuta qualificada, acolhimento da vítima e, a partir da identificação da situação problema, trabalho social com a família da vítima e acompanhamento sistemático da situação. Por ser uma profissão operadora de direitos, um dos papéis desses profissionais é a orientação e informação sobre os direitos das mulheres, formando grupos para que as mulheres possam socializar suas experiências, melhorar a autoestima e seu papel na sociedade, além de atuar de maneira pontual na prevenção e repressão da violência doméstica. Logo, é importante atentar-se à formulação de políticas públicas que tragam presente o recorte de gênero. 9 Q U E M S à O E L A S ? A presente pesquisa tem como objetivo mapear a violência doméstica da cidade de Manhuaçu, Minas Gerais, identificando os fatores que levam a violência na cidade e o perfil da vítima e do agressor. Para tanto, será utilizada a abordagem quanti-qualitativa do banco de dados selecionado, na qual serão analisados os boletins de ocorrência da Delegacia da Mulher da cidade de Manhuaçu/MG, do período de janeiro de 2021 a dezembro de 2022, por meio da plataforma do Sistema Integrado de Defesa Social (SIDS) para acesso ao Registro de Eventos de Defesa Social (REDS). Não obstante, constata-se que no ano de 2021 a delegacia da Mulher registrou 529 Boletins, enquanto no ano de 2022 registrou 485. O presente projeto utilizou uma análise por amostragem, na qual foram analisados 10% dos boletins de cada ano. METODOLOGIA 10 Q U E M S à O E L A S ? CAPÍTULO 1 SÃO MÃES, FILHAS, DONAS DE CASA, GUERREIRAS Ana Rosa Campos Bárbara Rocha Moratti Vítor Oliveira Rubio Rodrigues Anderson Soares Ribeiro Filho 1 2 3 4 A formação da família vem de uma visão patriarcal, na qual o homem possui responsabilidades financeiras e sociais para com a casa, assim, necessitando passar a imagem desse “ser principal”, logo, requerendo os seus direitos, como status, o homem, o “macho provedor”, engloba como o seu patrimônio o lar e todos que dependem de sua subsistência (RUZYK, 2005, p. 118-119). A influência patriarcal na sociedade, introduziu uma imagem social e política de alguém que provia e administrava o patrimônio familiar e, sendo assim, exercia a figura de líder autoproclamado, a razão e decisão sobre a casa, sobre os filhos, sobre a mulher, ou seja, centralizava a autoridade familiar e patrimonial no homem da casa (PESSOA, 1997, p. 23). Não obstante, esta lógica atribuiu à mulher o papel de submissa e dona de casa, vez que nas estruturas familiares, desde a mais tenra idade, ensinavam à mulher quais comportamentos deveriam ser adotados, até mesmo por meio de brincadeiras e lazer, reafirmando que ela deveria se casar e ficar com os cuidados da casa. Assim, o desenvolvimento da mulher foi voltado para suprir esse papel, cultivando virtudes para quando encontrassem um bom homem, baseados em suas aptidões e desenvolvimento econômico, se casar e formar uma família (RUZYK, 2005, p. 118-119). Com efeito, ao decorrer do tempo, essa visão alimentada pela sociedade da objetificação e submissão da mulher trouxe um resultado à cultura ocidental, e, tal visão, colocava em xeque a utilidade da mulher nos papéis sociais, questionando o seu valor ético e moral, sociedade esta que, buscava a mulher “bela, recatada e do lar”. Contudo, essa visão romantizada de “família feliz” só ficava em aparências, visto que “a mulher sempre foi discriminada, desprezada, humilhada, coisificada, objetificada, monetarizada” (DIAS, 2018, p. 35). Graduando em Direito pelo Centro Universitário UNIFACIG, vinculado ao grupo de Pesquisa Democracia,Cidadania e Estado de Direito,asrfilho@gmail.com, https://lattes.cnpq.br/9161119224445900. 4 11 Q U E M S à O E L A S ? GRÁFICO 1: AFAZERES DOMÉSTICOS E CUIDADO DE PESSOAS EM 2018 - Fonte (IBGE,2018) Almeida (2020, p. 22-23) explana que o sistema educacional reforçava a ideia de que o principal lugar da mulher no mundo era o lar, ao lado de seu marido, cuidando dos filhos e da casa, vez que a sociedade aceitava que a mulher exercesse apenas algumas profissões, sendo estas profissões consideradas como “menos prestigiadas”, como a enfermagem e o magistério (ALMEIDA, 2020, p. 22-23). A fim de garantir a submissão das mulheres em relação aos homens, eram usadas formas de violência mais sutis, que limitavam as mulheres aos cuidados da casa e dos filhos e para a procriação. Para tanto, Almeida (2020, p. 22-23) explana que “ainda que a emancipação feminina tenha ocorrido em várias esferas da sociedade, dados estatísticos comprovam que as mulheres ainda são as principais responsáveis pelos cuidados com a casa e com os filhos”. As afirmações de Almeida podem ser comprovadas pelo último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE em 2018: os dados refletem o esperado na sociedade patriarcal, ou seja, que a mulher negligencie suas próprias necessidades em prol das necessidades da família, conforme lhe ensinado desde a tenra idade. Vejamos o gráfico a seguir: 12 Q U E M S à O E L A S ? Percebe-se que o quantitativo de horas semanais dedicadas pelas mulheres é praticamente superior ao dobro das horas de contribuição doméstica dos homens, outro dado importante é que quase todas as mulheres realizam trabalhos domésticos (93%) e esse número é ainda mais explícito quando elas estão em posição de cônjuge, chegando próximo aos 98% (IBGE, 2018, online). Outro dado importante de se ressaltar do gráfico do IBGE é que, mulheres ocupadas, ou seja, que trabalham fora de casa, realizam ainda mais trabalhos domésticos, isto devido a necessidade de manter a casa em ordem e por se tratar culturalmente de um dever feminino (IBGE, 2018, online). Neste sentido, a ausência de qualificação profissional, a dinâmica familiar e os baixos rendimentos femininos contribuíram para que o homem tivesse o sentimento de posse em relação à mulher, gerando um sentimento que legitima a prática da violência (BIANCHINI, 2022, p.20). As mulheres visavam assegurar igualdade de acesso aos recursos econômicos, incluindo a terra, o crédito, a ciência, a tecnologia, a capacitação profissional, a informação, a comunicação e os mercados, como meio de promover o avanço e o fortalecimento das mulheres e meninas, inclusive através da promoção de sua capacidade de exercer os benefícios do acesso igualitário a estes recursos, para o que se recorre, dentre outras coisas, à cooperação internacional (TROMBKA, 2015, p. 95). A mulher historicamente foi doutrinada a ser “boa filha”, “recatada”, uma esposa “resguardada” e “ótima mãe”, buscavaAcesso em 01 set. 2023. COLOMBARA, M; PELIZZARI, V. Violência doméstica: Rovinski, S. L. R. dano psíquico em mulheres vítimas de violência. Rio de Janeiro: Lumen, 2004. CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA (BRASIL). Resolução Conjunta nº 5, de 3 de março de 2020. Diário do Conselho Nacional da Justiça: Brasília - DF. 2020. 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Brasília: Secretaria de Editoração e Publicações, 2015. 90 Q U E M S à O E L A S ?por um lugar de independência, de assegurar de seus valores, questionando o que lhe era imposto, principalmente porque a sociedade já vinha sinalizando que seu trabalho não mudaria a divisão no âmbito familiar e muito menos diminuiria a opressão e violência que sempre sofreu em seu lar. Desse modo, criou-se um desequilíbrio no poder desempenhado pelo homem e pela mulher, haja vista que foi imposta uma hierarquia autoritária à mulher desde o seu nascimento, primeiramente por seus pais e, posteriormente, pelo homem escolhido para o casamento. Assim, o homem teve e sentiu a autoridade legitimada, validada para realizar as violências, que começam com simples xingamentos e desmoralização e, por vezes, passavam de forma rápida e discriminada para as agressões físicas e psicológicas (BIANCHINI, 2022, p.20). 13 Q U E M S à O E L A S ? Tais abusos sobrevêm à mulher com o pressuposto de obrigação: caso ela não corresponda a essa expectativa, então, que seja punida - o que normalmente ocorre de todas as formas no âmbito familiar, por menor que seja o vínculo para com a mulher, não sendo necessariamente uma agressão direcionada pelo marido, mas também de outros familiares e até mesmo pelos filhos. O uso da violência social chegou ao ponto em que o homem já não detém mais o controle de suas práticas, levando à inércia da mulher, subjugada em tais situações “rotineiras” (BIANCHINI, 2022, p.20). Violências essas vezes, se abster diante desta situação, marcadas pelas agressões, que geralmente começavam com simples palavras de desafetos, utilizadas com o intuito de desmoralizar, diminuir, de fragilizar, de “mostrar o seu devido lugar” (BIANCHINI, 2022, p.20). A luta pelos direitos das mulheres é uma busca pelos direitos humanos, resguardados inclusive pela constituição. Essa busca pela harmonia vem da vontade em viver com os mesmos direitos e responsabilidades no ambiente familiar, igualdade de alternativas e recursos, fundamentais para seu próprio bem-estar e de suas famílias, como também para a consolidação da democracia (TROMBKA, 2015, p. 91). Assim, a busca por um lugar que valorizasse a força e os desejos das mulheres levou a uma reestruturação que segundo DIAS (2013, p.102): Ainda que lenta, a emancipação jurídica da mulher forçou o declínio da sociedade conjugal patriarcal. (...) Hoje a mulher, na plenitude de sua condição feminina, é parte fundante da estrutura social e passou a exercer funções relevantes para sua emancipação pessoal e profissional, para a sociedade e para a família. 14 Q U E M S à O E L A S ? Por conseguinte, toda estrutura familiar, antes patriarcal, autoritária e machista, verte-se numa luta por direitos igualitários, com a mulher tomando suas decisões: se quer ser dona de casa ou trabalhar fora, dado a sua emancipação profissional, com o direito de fazer suas escolhas dentro e fora de casa, sendo independente (DIAS, 2013, p.102). A busca pela igualdade possui diversas barreiras, e uma delas é entender as diferenças entre homem e mulher: a mulher não quer tratamento privilegiado, mas sim que suas diferenças físicas, hormonais e históricas, sejam levadas em consideração, para que continuem abrindo espaço na sociedade, essas diferenciações precisam ser tratadas dentro do princípio de igualdade, e que essa igualdade não esteja apenas na formalidade, mas também, na aplicabilidade da lei (DIAS, 2013, p.103). A Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher – Convenção de Belém do Pará –, ratificada pelo Brasil em 27 de novembro 1995, promulgada pelo Decreto nº 1.973/1996, caracteriza violência de gênero como ofensa à dignidade humana e manifestação das relações de poder historicamente desiguais entre mulheres e homens”, características essas debatidas e apresentadas por diversos doutrinadores, em que a violência, em todos os seus aspectos atacam diretamente princípios importantes como o da dignidade da pessoa humana e o da liberdade (BRASIL, 1996, online). Deste modo, a violação dos princípios de igualdade dado pela descriminação de gênero sobre a mulher também fere outro princípio, que é o da dignidade da pessoa humana, uma vez que, a mulher que é objetificada, perde seu poder de opinião, de expressar seus valores e ideais e de produzir, dificultando sua produção, seja no lar ou perante a sociedade, precisando competir de maneira desigual com os homens, que as oprimem por julgá-las serem mais fracas, pelas características de submissão previamente estabelecidas, obstruindo assim o seu bem-estar não só com a sociedade mas também em seu ambiente familiar. (TROMBKA, 2015, p. 134). Neste sentido, visando coibir as práticas de violência contra a Mulher, criou-se em 2022 o Decreto n° 4.377, que promulgava a Convenção para Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, a CEDAW, adotada pela Assembleia Geral da ONU em 18 de dezembro de 1979, e ratificada pelo Brasil em 01 de fevereiro de 1984 aborda essa violência com um nome diferente, buscando por um novo entendimento, conhecido como violência de gênero. No ano de 2017 o Comitê CEDAW elaborou a Recomendação Geral 35 (e que, por sua vez, atualiza a Recomendação Geral 19, de 1992), este que por sua vez, já possuía o foco voltado a violência de gêneros, buscando apresentar a diferença que necessitava de existir no tratamento de certas violências, na qual o foco era a vítima mulher. Nela, a expressão “violência de gênero contra as mulheres" é usada como um termo mais preciso, que torna explícitas as causas que se baseiam no gênero, como o abuso que o homem tem para com a mulher, desrespeitando suas características naturais diversas, e como e os impactos da violência tem repercussão na vida das vidas, trazendo marcas, traumas e inseguranças (BRASIL, 2002, online). Essa realidade é refletida nos números por trás das violências contra a mulher, que segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (2020, online): A violência doméstica e familiar é a principal causa de feminicídio no Brasil e no mundo. Trata-se da violência que mata, agride ou lesa a mulher. Esse tipo de violência pode ser cometido por qualquer pessoa, inclusive por outra mulher, que tenha uma relação familiar ou afetiva com a vítima. Com isso, os agressores geralmente moram na mesma casa que a mulher em situação de violência. Pode ser o marido, o companheiro, pai, mãe, tia, filho… 15 Q U E M S à O E L A S ? instrumento social de imposição à mulher de um papel social de submissão e obediência; marcada pela sedimentação de relações de poder; manifestação da distribuição historicamente desigual de poder nas relações sociais entre homem e mulher; instrumento de opressão. Logo, vê-se que a violência doméstica é algo que acontece em todos os planos da relação familiar, sejam verticais (ascendentes e descendentes), quanto horizontais (como irmãos, primos), que deturpa a imagem de lar, de local seguro e afeto, sendo este apenas o estopim para a tragédia, o feminicídio, o ápice do descontrole familiar, gerado pela tentativa do domínio sobre alguém que é objetificado e controlado como parte da casa, como pertence de alguém. Segundo a Lei n° 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, em seu art 7º, a violência doméstica é subdivida em cinco tipos: “violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral’’. Sendo assim, percebe-se que as violências contra a mulher são praticadas de diversas formas, até mesmo através de “brincadeiras”, que para a sociedade soam como algo inofensivas, mas para as mulheres geram impactos e marcas em sua moral e em seu psicológico. Além disso, criam sentimentos de incapacidade, inutilidade e objetificação. Então, frases de cunho aparentemente inofensivos como ‘’lugar de mulher é na cozinha’’, ou ‘’mulher no volante perigo constante’’, “mulher não faz nada direito”, precisam ser entendidas como violência, que trazem malefícios paraa mulher em seu lar e para a sociedade (BRASIL, 2006, online). Segundo Bianchini (2022, p.23), em sua análise em processos penais, constatou que os agressores tinham alguns pensamentos acerca do crime que haviam cometido, eles os entendiam como: 16 Q U E M S à O E L A S ? Deste modo, percebe-se que todo aquele contexto que dominação e submissão na relação tem um efeito forte e determinado que cria uma sensação de legitimação dos atos, baseado na segurança que o agente tem em relação à sociedade, acreditando que ela o apoiará, uma vez que a mulher é, por ele, considerada de sua posse e que ninguém "deve meter a colher". Bianchini (2016, p.218) destaca que “não é mais suficiente um direito penal supostamente neutro em termos de gênero, assim substituído pela criminalização gênero-específica”. Declarando a necessidade da elaboração de leis penais contra um gênero específico, no caso, o feminino, devido ao grande número de acontecimentos, que se repetem contra a mulher, dando assertividade à importância de se legislar em prol da defesa de um lado que está fragilizado perante a lei, em que as vigências atuais não cerceiam o agressor, de modo a evitar o cometimento de crimes contra alguém que julgam ser “mais frágeis”. Violência de gênero contra as mulheres é um termo usado com mais precisão, que torna explícitas as causas que se baseiam em gênero, suas diferenças e seus impactos. Essa expressão fortalece a compreensão dessa violência como um problema social e não apenas individual, que mostra que um grupo está sendo lesado em relação a outro, quando apenas a igualdade não é o suficiente para equilibrar os dois lados, requerendo respostas abrangentes, para além de eventos específicos, buscando o tratamento para os agressores individuais e também para as vítimas/sobreviventes, buscando evitar novas reincidências e tão pouco a aceitação destes atos como algo “normal” (BIANCHINI, 2022, p.29-30). Acerca da Lei Maria da Penha, Sanches (2008) pondera que: “foi um marco legal importante para a proteção das mulheres vítimas de violência doméstica". No entanto, Sanches também adverte que ainda há desafios a serem enfrentados, ainda há aquelas lacunas socioculturais a serem transpassadas, como também a falta de estrutura adequada para a implementação da lei e a necessidade de conscientização da sociedade sobre a gravidade da violência doméstica (SANCHES, 2008, p.21) A Lei Maria da Penha representa um grande marco, um avanço na proteção dos direitos das mulheres, principalmente contra a violência doméstica, mas a sua efetividade depende não apenas da sua aplicação e implementação, mas também de uma mudança sociocultural que enfrente as raízes desse problema patriarcalista, para que nunca se normalize novamente a taxação, objetificação e o menosprezo com a mulher, para que elas tenham voz para serem acreditadas em suas denúncias e principalmente amparadas em seu momento de dificuldades (SANCHES, 2008, p.21). 17 Q U E M S à O E L A S ? A Lei Maria da Penha representa um grande marco, um avanço na proteção dos direitos das mulheres, principalmente contra a violência doméstica, mas a sua efetividade depende não apenas da sua aplicação e implementação, mas também de uma mudança sociocultural que enfrente as raízes desse problema patriarcalista, para que nunca se normalize novamente a taxação, objetificação e o menosprezo com a mulher, para que elas tenham voz para serem acreditadas em suas denúncias e principalmente amparadas em seus momentos de dificuldades (SANCHES, 2008, p.21). O feminicídio era até há pouco tempo considerado, não só pela sociedade, mas também por boa parte da doutrina e da jurisprudência, equivocadamente como um “crime passional”, ou seja, praticado em contexto de sentimentos de amor e paixão, por um furor do momento levado pela emoção, o feminicídio passou a fazer parte da legislação penal brasileira somente no ano de 2015, mesmo sendo evidente o fato de que se trata da maior causa de mortes violentas femininas em todo o mundo, conforme confirmam há anos coletas de dados e produção de estatísticas pela OMS e pelos Ministério dos Direitos Humanos (BIANCHINI, 2022, p.329). Desde que se começou a falar da necessidade de uma “Lei do Feminicídio” no Brasil, fez-se constante a seguinte indagação: “por que a lei penal deveria diferenciar homicídios quando se trata de vítima homem ou mulher?” Essa é uma questão que ainda inquieta integrantes da comunidade em geral e doutrinadores na área jurídica, quando chocados contra o princípio de igualdade, mas como abordado anteriormente, vê-se a necessidade de compreender as limitações da diferença de gênero e também a frequência em que ocorre o feminicídio no país, precisando este uma atenção maior voltada para seu cerceamento (BIANCHINI. 2022, p.331). O legislador optou pela criação do feminicídio, ao qualificar o homicídio, ou seja, agravando o crime de matar alguém, quando a vítima é uma mulher, enumerando as três situações em que o crime cometido contra a mulher por razões de condição de ser do sexo feminino, sendo segundo o Código Penal (art. 121, § 2º-A, incluído pela Lei nº 13.104/2015): “(i) violência doméstica e familiar, (ii) menosprezo ou (iii) discriminação à condição de mulher”. Bianchini disserta que o crime de homicídio contra a mulher nestes casos citados, sempre foi considerado como uma espécie de homicídio qualificado, porém levado de maneira simbólica, caracterizada como “motivo torpe”, mais uma vez ignorando o princípio da dignidade da pessoa humana (BIANCHINI. 2022, p.331-332). Por fim, as orientações relacionadas à estudos, aos assuntos citados, que serão usados para o favorecimento de penalidades em relação ao crime contra mulheres, devem levar em conta históricos de minimização de gênero por conta do direito penal, para que o legislador possa elaborar leis considerando todo o processo que as mulheres precisaram passar para conseguir sua liberdade do sistema patriarcal e das amarras impostas pela sociedade como empregadas de suas próprias casas, principalmente de suas vielas emocionais marcadas por constantes agressões físicas e emocionais por “insubordinação”, buscando elaborar leis que tragam a devida proteção às mulheres (BIANCHINI, 2022, p.20). Infere-se, portanto, que para combater a violência doméstica é necessário um conjunto de ações que envolvam a educação, a conscientização, o apoio psicológico e social às vítimas, além da reeducação dos agressores, para que estes possam perceber que suas ações não são legitimadas pelo Estado nem pela sociedade. É necessária a atuação forte do Estado, com a criação de políticas públicas efetivas, a ampliação do acesso à justiça e o fortalecimento do sistema de proteção à mulher, desenvolvendo casas de apoio, onde mulheres podem se restabelecer e continuar de um novo ponto de partida (SANCHES, 2008, p.22). 18 Q U E M S à O E L A S ? Graduanda em Direito pelo Centro Universitário UNIFACIG, vinculado ao grupo de Pesquisa Democracia, Cidadania e Estado de Direito, mariajuliamaximiano32@gmail.com, http://lattes.cnpq.br/7237841299984821. CAPÍTULO II - FATORES QUE CONTRIBUEM PARA A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA EM MANHUAÇU - MG Ana Rosa Campos Bárbara Rocha Moratti Vítor Oliveira Rubio Rodrigues Maria Julia Maximiano de Souza CAPÍTULO 2 Situada na Zona da Mata mineira, a cidade de Manhuaçu passa a ser objeto do presente estudo. A esse respeito, cabe ressaltar que a cidade em análise tem por principal atividade econômica a cafeicultura, é polo da microrregião de Manhuaçu, oferecendo uma série de serviços e atividades, podendo ser considerada uma média cidade, essa última característica não impede a ocorrência de diversos problemas sociais, uma vez que as mazelas, antes pertencentes apenas às grandes capitais, agora tomaram municípios de médio e pequeno porte (SAFFIOTI, 2015, p.11). A priori, ressalta-se que o perfil da violência traçado no presentecapítulo tem por objetivo apontar os fatores que contribuem para a perpetuação da violência doméstica no município. Ademais, é importante ressaltar que os fatores contribuintes não são as únicas causas das ocorrências, mas sim pontos que devem ser observados pelo poder público a fim de mitigar as consequências da violência doméstica. Sob primeira análise, a presente pesquisa tem por base os casos de violência doméstica contra a mulher registrados pela Polícia Civil na cidade de Manhuaçu/MG, observando-se diversos fatores. Assim, o gráfico a seguir apresenta uma comparação entre os quantitativos do tipo de violência que ocorreram nos dois anos em análise. O primeiro dado que salta aos olhos é a discrepância entre o número de casos de ameaças e as demais modalidades de violência registradas no município de Manhuaçu, sendo no primeiro ano em análise (2021) representavam 77,8% das ocorrências e 77,6% de 2022. Ostentar um quantitativo maior do que a soma de todos os outros tipos de violência indica a errônea banalização de certas atitudes criminosas contra mulheres, como demonstra o gráfico abaixo. 5 1 2 3 5 5 19 Q U E M S à O E L A S ? A esse respeito, Saffioti explana sobre o fenômeno de punibilidade seletiva, uma vez que enquanto não há graves lesões ou sequelas aparentes e irreversíveis, tais ações não são repudiadas de maneira veemente tanto pela sociedade quanto pelo estado. Tal modalidade de violência carece de uma atenção maior, visto que além de se mostrar uma agressão a um bem jurídico, também se apresenta como antecessor a diversos outros crimes como lesão corporal e homicídio (SAFFIOTI, 2010. p.18 - 19). No que tange aos demais casos registrados, observa-se que a injúria apresentou um número mais elevado em comparação às outras formas em que a violência se deu, correspondendo a aproximadamente 9,4 % do total dos casos analisados no ano de 2021. Tal ponto, evidencia um aspecto que passa pelo mesmo fenômeno de punibilidade seletiva, vez que a injúria não afeta o plano físico da vítima e, portanto, pode ser banalizado pela sociedade. Tomando como base a diferenciação disposta no art. 7º da Lei Maria da Penha acerca dos tipos de violência, que traz a definição de violência física como sendo “qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal” (BRASIL, 2006), observa-se que, do quantitativo das ações praticadas: Configura-se violência física os casos de lesão corporal e agressão, sendo por tanto essa forma de violência correspondente por 1,9% do total de casos analisados do ano de 2021 e 4,1 % do total de casos analisados no ano de 2022 (BRASIL, 2006); 20 Q U E M S à O E L A S ? Tal percepção faz com que o agressor se sinta no direito de punir, física e psicologicamente a vítima se ela não estiver de acordo com o que ele deseja e de atentar contra sua moral e patrimônio. Em sequência, observou-se também o aspecto espacial das ocorrências, revelando características de importância para entender o fenômeno em análise na cidade de Manhuaçu. Ao observar o local em que a violência aconteceu, é possível constatar um número alarmante de casos que ocorreram na casa da própria vítima. No ano de 2021, os casos em que a vítima teve seu próprio lar como local do crime correspondem a 69,8% do total de boletins analisados, em 2022, por sua vez, os casos com essa mesma realidade correspondem a 69,3% do total analisado - como é possível verificar no gráfico em sequência. Os quantitativos dos dois anos revelam que essa é uma característica recorrente no município. Quanto à violência psicológica, que em resumo é toda ação que cause prejuízos emocionais e psicológicos, tem-se os casos de ameaça e perseguição, que correspondem no ano de 2021 à expressivos 77,8% dos casos e em 2022 à 81,7% do total dos casos analisados; Já quanto à violência sexual, tem-se os casos de estupro de vulnerável, registrado apenas no ao de 2022 e representando 2% dos casos em análise; A respeito da violência patrimonial se encaixam os casos em que houve dano, furto e roubo. No ano de 2021 a porcentagem de casos que se encaixavam nessa forma de violência foi de 3,8%, já no ano de 2022, essa modalidade apresentou o quantitativo de 6,1% dos casos; No que tange a violência moral, se configurou nos casos em que ocorreu injúria e difamação, o que representa 11,2 % do total de casos do ano de 2021 e 4 % do ano de 2022. Tem-se ainda a qualificação do feminicídio, acrescentada como sexta forma de violência posteriormente à publicação da Lei Maria da Penha, no qual, o homicídio se dá em razão da vítima ser do sexo feminino (CUNHA, 2022, p. 91-92). Analisando, portanto, a incidência da referida modalidade no município de Manhuaçu, observa-se que no ano de 2021 o crime de feminicídio corresponde a 1,9 % (modalidade tentada) e, no ano de 2022, neste caso representa 2% (modalidade consumada). Há que se reiterar que um dos fenômenos por trás do grande número de mulheres que sofrem violência doméstica é a percepção de posse e superioridade do homem sobre a mulher, como mencionado no capítulo anterior. 21 Q U E M S à O E L A S ? A esse respeito, é pertinente ressaltar que essa realidade já vinha sendo denunciada em outras pesquisas em território brasileiro e, mesmo a violência se revelando de maneira heterogênea em variadas regiões, há de se observar determinados aspectos dos quais a grande maioria partilha (BEZERRA; RODRIGUES, 2021, online). É preciso questionar, portanto, quais as implicações dessa realidade, vez que o ambiente "casa" possui certa privacidade, fazendo com que a agressão não seja percebida pela sociedade imediatamente, o que diminui a possibilidade de punição e controle social. Outros pontos a serem abordados no presente capítulo também se alinham à realidade apresentada no gráfico acima como, por exemplo, a dependência financeira ou a relação familiar mantida com o agressor, fazendo com que muitas vítimas se sintam coagidas e não denunciem a agressão sofrida. Visto que, o objeto da pesquisa é uma cidade de médio porte, também deve se levar em conta a cultura patriarcal presente na sociedade, que entrega ao homem o poder sobre a mulher, que, muitas vezes, julga o homem como apto a corrigi-la com violência. Não obstante, há que se dar atenção aos números menores da pesquisa, que indicam as novas formas com as quais a violência se revela. Dá-se destaque principalmente aos casos oriundos do ambiente virtual. No ano de 2021 os casos que ocorreram neste ambiente representam 15,1% e no ano de 2022 representam 20,4% do total, aumentou a quantidade de crimes praticados no ambiente virtual relacionados à violência contra a mulher no último ano em Manhuaçu. Esse cenário merece atenção do poder público, uma vez que o sistema jurídico brasileiro ainda carece de legislação eficaz que trate especificamente de crimes ocorridos em meios digitais e a sociedade, por sua vez, passa a criar novos padrões de comportamento e consumo como consequência do desenvolvimento tecnológico e da globalização (PRIORE, 2013, p 155). 22 Q U E M S à O E L A S ? Nesse sentido, há que se considerar características próprias dos crimes virtuais que podem ser ou vir a ser posteriormente, fatores potencializadores da violência como por exemplo, a percepção de impunidade na internet e a carência de legislação que tipifique amplamente acerca das condutas criminosas praticadas no ambiente virtual, razão pela qual há de se dar atenção aos motivos ainda desconhecidos do porquê este tem sido um ambiente de recorrência dos crimes contra a mulher (MONTEIRO NETO, 2008, p. 10). Prosseguindo com a análise dos dados, observa- se que no ano de 2021 um quantitativo de 11,3% dos casos aconteceu em lugar público e, no ano de 2022, representou 6,1 % dos casos analisados. Há que se considerar que o fato da ação dos agressores não ser mitigada por se tratar de um lugar público leva a percepçãoque ainda reside no senso comum de parte da sociedade do município a ideia de que o homem possui autoridade sobre a mulher e que está certo em "corrigi-la" quando esta não se mantém nos padrões de submissão. (BEZERRA, LIMA, 2022, p. 97) O gráfico a seguir apresenta a informação se a vítima morava ou não com o autor do crime. Observamos que no ano de 2021 foram aproximadamente 45,3% das ocorrências e, no ano de 2022, foram 38,8% das ocorrências. Levando em consideração o dado já levantado nesse estudo, de que grande parte das agressões foram na casa da vítima, percebe-se que o ambiente casa, residindo os dois juntos ou não, continua sendo um lugar de grande recorrência para a prática da violência. No primeiro caso (reside com a vítima) fica bastante evidente a noção de domínio territorial no ambiente “familiar” controlado pelo homem; no segundo caso (não morava com o agressor) demonstra que a lógica patriarcal, controladora do homem ultrapassa o local de sua moradia, perpetuando-se em outros espaços como o local de moradia da vítima. A cultura conhecida como “roupa suja se lava em casa” apresenta-se também como possível fator que fomenta a violência de gênero na realidade vivida por mulheres que moram com seus agressores. Muito comum nos casos de violência doméstica, alguns conflitos são tratados como privados e familiares, vez que ambos residem sob o mesmo teto, e levam a formação de outro fator que se coloca como impeditivo ao rompimento do ciclo da violência (PAIXÃO; BEATO FILHO, 1997, p.241) 23 Q U E M S à O E L A S ? Não havia por que mobiliar a cabeça da mulher com informações ou conhecimentos, já que seu destino primordial – como esposa e mãe – exigiria, acima de tudo, uma moral sólida e bons princípios. Ela precisaria ser, em primeiro lugar, a mãe virtuosa, o pilar de sustentação do lar, a educadora das gerações futuras. A educação da mulher seria feita, portanto, para além dela, já que sua justificativa não se encontrava em seus próprios anseios ou necessidades, mas em sua função social de educadora dos filhos ou, na linguagem republicana, na função de formadora dos futuros cidadãos A respeito da localidade em que as vítimas residem, observa-se a maior recorrência da zona urbana, não sendo esta uma informação que pode ser usada para concluir que na zona rural as mulheres se encontram em segurança, visto que mesmo em menor quantidade, não são nulos os casos nessas localidades e podem existir menos denúncias neste contexto. No ano de 2021, a percentagem de vítimas que residiam na zona urbana representava aproximadamente 84,9%, enquanto 15% residia na zona rural. Em 2022, observou-se que 91,8% das vítimas residia na zona urbana, enquanto 8,1% na zona rural. Nesse viés, é importante levar em consideração que 18,52% da população do município reside na zona rural, sendo uma porcentagem acima da média nacional de 15,28% e da região sudeste de 7 % (IAS, 2015, online), o que pode indicar, inclusive, proporcionalidade da violência contra a mulher e das denúncias no ambiente rural e ambiente urbano. Contudo, como o domínio patriarcal, masculinizado ainda é mais intenso no ambiente rural, sobretudo pela seguinte problemática: a possibilidade das vítimas que vivem na zona rural denunciarem menos por estarem mais distantes das delegacias, do aparato de conscientização e de controle social. Historicamente, a falta de conhecimento, ou de uma educação pautada na sociedade machista mostrou- se aliada à perpetuação da violência de gênero. Tal característica pode estar diretamente associada aos fatores que fazem com que muitas mulheres não entendam a gravidade da situação em que estão vivendo neste sentido, Louro expõe que: 24 Q U E M S à O E L A S ? Ao observar o mapa do ano de 2022, é possível verificar que o bairro com o maior número de casos registrados foi o Sagrada Família, correspondendo a aproximadamente 12,2% do total de casos registrados. Há que se ressaltar, no entanto, que neste ano também foi registrado um percentual alto de casos no distrito Vila Nova, correspondendo à aproximadamente 14,2% dos casos. Tal distrito se localiza em uma área afastada do centro urbano da cidade, logo, distante da delegacia e dos órgãos que atuam na proteção da mulher. Em vista disso, a dificuldade encontrada por essas vítimas em acionar a polícia pode ser também um fator que contribui para o alto número de casos nessa localidade, visto que, como já apresentado neste capítulo, a maior parte das mulheres sofrem violência dentro da própria casa, assim, deslocar- se uma longa distância para realizar a denúncia se torna um obstáculo para a vítima, e também pode se apresentar como uma segurança para o agressor de que o ocorrido não chegará ao conhecimento das autoridades. Logo, há que se dar importância aos meios de proteção à mulher e também aos meios pelos quais a mulheres que se encontram em contextos em que a violência é normalizada possam compreender que elas possuem direitos que lhes garantem a dignidade e, com o mesmo grau de importância, como os órgãos capacitados podem oferecer a ajuda que precisam. No que tange a localidade em que a vítima sofreu a violência, foi possível apontar os bairros de Manhuaçu que mais tiveram registro de ocorrências. O mapa a seguir apresenta a distribuição dos casos no perímetro urbano do município. No ano de 2021, o bairro do Bom Pastor foi o local com maior número de denúncias registradas, correspondendo a aproximadamente 11,3% do total de casos. Cabe salientar que em tal bairro está situada a 3ª Delegacia Regional de Segurança Pública, o que leva ao questionamento se o Bom Pastor tem sido realmente o bairro com maior número de mulheres sofrendo violência ou se esse número de denúncias se deve ao fato de lá as mulheres possuírem mais contato, conhecimento da estrutura e facilidade de acesso aos meios legais de proteção. 25 Q U E M S à O E L A S ? 26 Q U E M S à O E L A S ? Acerca da dependência financeira, cujos dados estão representados no gráfico abaixo, ressalta-se que no ano de 2021 tal informação não estava presente na maior parte dos boletins analisados. No ano de 2022, por sua vez, o número de boletins que não apresentam o referido dado é menor. Todavia, ainda não é nulo como demonstra o gráfico abaixo. É importante ressaltar, que apenas os boletins de 2022 possuem o formulário de risco, no qual possui o questionário para ser respondido pela vítima, com essa e várias informações importantes como por exemplo se o autor estava sob o efeito de álcool ou entorpecentes, grau de escolaridade da vítima e agressor etc. Aproximadamente 16,7 % dos boletins em estudo não apresentam essas informações, faz-se necessário, portanto, atenção e aumento da produção de dados pelos órgãos de controle oficial, pelos Poderes e pelas instituições de pesquisa. Pontua-se ainda a necessidade da coleta de tais dados, uma vez que as políticas públicas são formuladas a partir do entendimento das necessidades sociais locais: No que tange aos boletins em que essa informação foi preenchida, no ano de 2021 os números são bem próximos, sendo aproximadamente 5,6 % não dependentes financeiramente de seus companheiros e 7,4 % dependente financeiramente de seus companheiros, evidenciando que no ano em questão o número de mulheres que eram dependentes financeiramente de seus agressores foi maior. Constata-se, ainda, que no ano de 2022, aproximadamente 67,3% das vítimas que denunciaram as agressões declararam que não possuem dependência financeira de seus companheiros. Nesse viés, não é possível associar o aspecto financeiro como sendo um motivador da ação violenta, mas pode ensejar a hipótese que as mulheres que não dependem da renda do agressor possuem um impeditivo a menos para realizar a denúncia, justificando a maior parte das vítimas que chegam ao conhecimento da polícia não estarem encaixadas nessa situação. Sob tal aspecto, não se pode desprezar a relação depoder que o dinheiro estabelece em conjunção ao patriarcado, uma vez que o "provedor do lar" possui por natureza, inquestionável, o direito de estabelecer as regras da casa (VERAS; SILVA, 2018, p.60). Alinhado à perspectiva analisada nos mapas da distribuição espacial dos casos, observa-se que os bairros em que houve maior número de denúncias não estão localizados em si em áreas carentes do município. Tendo em vista que no ano de 2022, no qual um número maior de boletins apresentou a informação acerca da dependência financeira, é necessário refletir se os bairros que apresentaram maior número de denúncias são mesmo as localidades onde ocorre maior violência doméstica ou se as vítimas desses locais denunciam em maior quantidade por não existir impeditivos relacionados à dependência financeira. 27 Q U E M S à O E L A S ? Após a análise territorial dos casos estudados, a pesquisa buscou apontar também as recorrências de violência por dias da semana e horário em Manhuaçu. Analisando primeiramente os dados de 2021, nota-se que os três dias com o maior quantitativo de casos foram, respectivamente, o sábado com aproximadamente 26,4% do total de casos analisados; logo após encontra-se a quarta-feira com aproximadamente 18.9 % dos casos; e a terça-feira com 15,1%. Já no ano de 2022, observa-se que primeiramente o domingo com 20,4% dos casos, seguido da sexta-feira com 18,4% dos casos e da terça-feira que apresentou 16,3% do total de casos em análise. Não se pode, portanto, negligenciar o fato de que nos dois anos os finais de semana se encontram na lista de dias em que mais casos foram registrados. Os dados demonstram a concentração das agressões aos finais de semana. Alinhado à dados aqui já apresentados como, por exemplo, o grande número de vítimas que sofreram a violência em seus lares e moram com os seus agressores, é necessário questionar se isso se dá por motivos específicos como por exemplo o fato de no final de semana o homem estar mais presente em casa e, por isso, tem-se um período maior para que a postura agressiva se revele. Outro fator considerável pode ser o costume de ingerir bebida alcoólica/ fazer uso de entorpecentes nesses dias. 28 Q U E M S à O E L A S ? A respeito do horário, dividiu-se: manhã (06:00:01 às 11:59:59), tarde (12:00:01 às 17:59:59), noite (18:00:01 às 23:59:59) e madrugada (00:00:01 às 05:59:59). Diante disso, observa-se uma divisão heterogênea, como mostra o gráfico abaixo. No ano de 2021, o horário da manhã representou aproximadamente 25,9% dos casos e, no ano de 2022, foi de 41,7%. Já no horário da tarde, observa-se que no ano de 2021 o percentual chegou próximo de 24,1% e no ano de 2022 em torno de 16,7%. Já no horário da noite, observou-se que no ano de 2021 representou cerca de 38,9% e no ano de 2022 aproximadamente 37,5%. O horário da madrugada representou nos anos de 2021 e 2022 respectivamente 11,1% e 4,2%. 29 Q U E M S à O E L A S ? Seguindo a mesma linha de raciocínio, observa-se que um número bem alarmante de casos foi registrado no horário da noite (tanto em 2021, quanto 2022), sendo este o momento em que, geralmente, o homem está em casa (local cujas agressões mais ocorrem), logo, a vítima corre um risco maior de ser agredida. Alinhado a isso, há também a cultura de ingerir bebidas alcoólicas, que não levam o homem a agredir a mulher em si, mas potencializa a postura agressiva (BEZERRA; LIMA, 2018, p.95). Deve-se atentar também aos meios de proteção à mulher, que precisam ser capazes de atender as vítimas que sofreram a violência fora do conhecido horário comercial, e resguardando a proteção da vítima. No que tange a relação entre autor da agressão e vítima, tem-se a confirmação da máxima que a violência contra a mulher se revela predominantemente no contexto familiar, uma vez que exacerbado número de autores da violência são ou já foram companheiros ou maridos das vítimas (MDH, 2020, online) . Com base no gráfico 11 conclui-se que todas as vítimas possuíam ou possuíram em certo momento um laço sentimental ou familiar com o autor. Tal característica aponta para uma das justificativas dos crimes que não chegam ao conhecimento do poder público visto que este vínculo faz com que, muitas das vezes, a vítima, mesmo desejando a cessação da violência, não queira processar o autor (BRASIL, 2018 p. 74). A percepção de poder do homem sobre a mulher dentro do seio familiar como herança de uma sociedade patriarcal, por hora em processo de desconstrução, mas que ainda é responsável por várias sequelas sociais quanto a violência de gênero (SAFFIOTI, p.48). 30 Q U E M S à O E L A S ? Observou-se ainda a correspondência entre o consumo de bebidas alcoólicas ou drogas e a violência. No gráfico a seguir, apresenta- se os dados coletados sobre essa questão, podendo constar que no ano de 2021 em aproximadamente 20,8 % dos casos o autor estava sob o efeito de bebidas alcoólicas. Em 1,9% dos casos o autor faz uso com frequência, mas não se encontrava sob efeito do álcool no momento da ação. Em 60,4% dos casos essa informação não foi acrescentada ao boletim. No ano de 2022, observou-se que 16,3% dos casos o autor estava sob o efeito de bebidas alcoólicas. Em 12,2% dos casos o autor faz uso com frequência, mas não se encontrava sob efeito do álcool no momento da ação. Em 34,7 % essa informação não está no boletim. Nesse viés, é imprescindível observar que há um número significativo de casos em que o autor estava sob efeito do álcool, sobretudo quando consideramos os dias e os horários da recorrência de violências em Manhuaçu. Tendo em vista a necessidade de uma análise cuidadosa com os fatores em estudo, há que se esclarecer em primeiro plano que o motivo da agressão não deve ser associado exclusivamente ao efeito da bebida em si, uma vez que tal colocação diminui a culpa do agressor (RAMOS, 2010, p. 151). A questão não é apenas farmacológica (dos efeitos biológicos do álcool, até porque inúmeras pessoas o consomem nem por isso praticam agressões e violências). Contudo, quando o consumo de álcool opera em um contexto singularizado pelo patriarcalismo, ainda que inconsciente, potencializando ou fazendo aparecer uma relação conflitual entre os envolvidos, pode ser um elemento envolvido no contexto de violência. O consumo desregrado de bebidas alcoólicas atua como inibidores da razão e com isso podem potencializar conflitos existentes (VERAS, SILVA, 2018, p. 56) É necessário também considerar que por se tratar de violência de gênero, o fator determinante da agressão é a relação de superioridade que o homem estabelece contra a mulher. O álcool atua, portanto, como acelerador ou potencializador da atitude violenta do agressor como pontuado por Corrêa: Destarte, quando um homem está bêbado e agride uma mulher, não podemos afirmar que ele fez isso simplesmente por estar fora de si. Porque, se quem apanha é mulher, e não o vizinho, o amigo, o dono do bar, isso significa que ele está, mais uma vez, impondo seu poder sobre ela, e não quer dizer que ele não faria isso sóbrio. (CORRÊA, 2012, p. 40) 31 Q U E M S à O E L A S ? Três situações parecem hipoteticamente possíveis: 1) o homem bebe porque tem vontade de agredir a esposa [...] 2) o homem bebe e bate na esposa aproveitando-se do álibi que a embriaguez proporciona [...]; 3) o homem bebe e- por qualquer pretexto – bate na esposa [...] Em todos os casos, a disposição para bater na mulher já estaria no homem, sob a forma de uma vontade explícita ou como possibilidade latente, à espera de uma oportunidade e de um pretexto para manifestar e atuar. Ela pré- existiria e coexistiria com a ação do álcool no organismo, mas dela se beneficiaria devido aos efeitos psicológicos que a bebida provoca. No tocante à questão do uso de drogas, é pertinente ressaltar os mesmos pontos observados nos dados sobre o consumo de bebidas alcoólicas. O fato de o autor estar sob o efeito de entorpecentes não deve serlevado como única motivação do crime, mas sim como potencializador de uma concepção de mundo constituída pré-uso. Nesse viés, observa-se: É preciso dar importância à percepção que fica para a vítima após sofrer uma agressão no contexto em que o autor está sob efeito de álcool ou outras drogas. Além de se apresentar como fator potencializador, essa característica ainda pode se tornar motivo pelo qual a vítima entenda que tal situação se deu apenas pelo consumo de tais substâncias e releve a agressão sofrida. Nesse sentido, Maria Amélia de Azevedo (1985, p. 147) expõe três situações que podem decorrer do pensamento de que o álcool é o culpado pela agressão: 32 Q U E M S à O E L A S ? Cifras ocultas ou criminalidade oculta são os fatos criminosos que não chegam ao conhecimento das autoridades estatais competentes. (BRASIL. Violência contra a mulher: um olhar do Ministério Público brasileiro, p.13) 6 A percepção que minimiza a ocorrência de agressão em razão do consumo de álcool precisa ser combatida, já que esta pode ser tanto um fator para aumentar o número de casos de violência no município e servir de uma espécie de álibi para que o agressor não seja denunciado. Tal estudo mostra sua importância para a compreensão deste fenômeno social complexo que é a violência e os detalhes que se apresentam quando se fala em violência de gênero. Assim, nesse sentido, a principal atuação do poder público precisa estar focada em proteger a vítima, afastando-a do perigo iminente, e transcender os moldes tradicionais a fim de garantir a efetividade de seu objetivo (SCARANCE, 2015, p.120). Destaca-se a necessidade de estudos que trabalhem um olhar mais apurado da violência contra a mulher, vez que estes servem de base para o poder público, em esfera federal, estadual e municipal. O presente capítulo trabalhou as características da violência contra a mulher no município de Manhuaçu e observou que determinados fatores aparecem repetidamente nos casos de violência contra a mulher como por exemplo o vínculo familiar e emocional entre vítima e agressor, a distribuição espacial dos casos e a relação entre o consumo de álcool, entorpecentes e a potencialização da violência, evidenciando pontos que carecem de mais atenção do poder público a fim de mitigar o problema social. Diante disso, em resumo observou-se um extrato ligado às seguintes estruturações da violência na cidade de Manhuaçu: nos últimos anos, a violação penal predominante nos casos de violência contra a mulher é a ameaça. Sobre o local do crime, a maior parte das violações ocorreu no ambiente doméstico, tanto no ano de 2021 quanto no ano de 2022, sendo lar do agressor ou não, seguido pelo ambiente virtual, que no ano de 2022 ultrapassou os logradouros públicos. Sobre os dias e horários, percebeu-se concentração das ocorrências nos dias de finais de semana (sexta-feira, sábado e domingo no caso de 2022) e horários noturnos. Sobre o agressor, percebeu-se intensa concentração na figura do companheiro e do ex-companheiro, em detrimento de todas as outras mencionadas. Ressalta-se que uma das dificuldades deste tipo de levantamento é a pequena disponibilidade de dados, além dos inúmeros casos que não chegam ao poder público, as chamadas cifras ocultas. Dentre os dados coletados, é possível observar que além de existirem fatores que fomentam a violência doméstica, há ainda a necessidade de se estudar os inibidores que fazem com que a mulher não denuncie a agressão sofrida, como a questão da renda. Há que se dar importância à criação de mecanismos capazes de levar informação de forma clara e objetiva às mulheres e também meios que permitam o acesso aos órgãos de proteção aos finais de semana e fora do horário comercial, visto que a presente pesquisa apontou números alarmantes de casos nessas circunstâncias, além de programas de atendimento às vítimas após a denúncia a fim de que o medo de retaliação não seja um impeditivo para que as vítimas levem ao conhecimento das autoridades as agressões sofridas. 6 33 Q U E M S à O E L A S ? O PERFIL DAS VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA EM MANHUAÇU/ MG Ana Rosa Campos Bárbara Rocha Moratti Vítor Oliveira Rubio Rodrigues Lucas Eduardo de Sousa Azine CAPÍTULO 3 1 2 3 7 A alta incidência da violência doméstica contra a mulher, impele a urgência de ações preventivas, corretivas e informativas, para tanto é notória a necessidade da existência de familiarizar-se com o perfil da mulher vitimizada. Relativo a isso, a fim de auxiliar na criação de políticas públicas que evitem os danos e as intercorrências físicas e psicológicas na mulher agredida, esse capítulo traz a bordo o estudo do perfil da vítima de violência doméstica, tabuladas na cidade de Manhuaçu, apontaremos dados como local, idade, profissão, dentre outros pontos, que nos levaram à luz de um simples questionamento: afinal, existe um perfil entre as vítimas de violência doméstica? A antropologia traz em seus estudos o conceito de alteridade como precursor das pesquisas de outras sociedades e comportamentos, ao apontar a necessidade de realizar uma conexão entre o contexto social observado e a situação apontada, para um resultado satisfatório e que compreenda as nuances culturais que provocaram algum fato. (MALINOWSKI, 1978, p.18). De forma análoga, nota-se a importância de delinear o perfil das vítimas de violência doméstica para identificar os cenários enfrentados e as questões econômicas, políticas, raciais e demográficas que determinam a suscetibilidade feminina e, consequentemente, a exposição à violência, agravadas pela desigualdade social. (CARNEIRO, 2003, p.11-17). Graduando em Direito pelo Centro Universitário UNIFACIG, lucasazineeduardo26@ gmail.com, http://lattes.cnpq.br/0583931942123930cnpq.br/9161119224445900. 7 34 Q U E M S à O E L A S ? A obtenção de informações acerca do perfil das vítimas de violência doméstica em Manhuaçu poderá resultar em um conjunto de referências que permitirão a realização de um estudo social que analisa os parâmetros que desencadeiam a situação de vulnerabilidade feminina na sociedade. Em 2021, verifica-se que grande parte das mulheres em situação de violência possuíam entre 26 a 35 anos, como exposto no gráfico abaixo. Em contrapartida, em 2022, 30% das vítimas se encontravam entre 18 a 25 anos. Em ambos os anos, constata-se proeminência do perfil com faixa etária jovem. Constata-se, ademais, uma diferença significativa da quantidade de vítimas entre 36 a 45 anos nos dois anos analisados, uma vez que em 2021, representavam 15,8% e, no segundo ano, 28%: 35 Q U E M S à O E L A S ? Em relação ao estado civil, em 2021, 33,3% das vítimas eram casadas. Em 2022, 40% estavam solteiras. Relacionando estes dados à faixa etária, observa-se que, no primeiro ano, a maioria das mulheres tinham mais de 26 anos, e, no segundo ano, as vítimas se encontravam majoritariamente entre 18 a 25 anos. Segundo o IBGE, a média de idade dos brasileiros que se casaram se elevou aos 30 anos, fator que influencia esta assimetria no estado civil dos dois anos (IBGE, 2021, p.5). Um ponto a ser destacado nesta pesquisa é a omissão de informações que indicam a Orientação Sexual e Identidade de Gênero das vítimas. Em ambos os anos, percebe-se a ausência destes dados, apontados nos boletins como “ignorado”, em relação à Sexualidade, em 98% dos casos, em 2021, e 82% em 2022. A questão de gênero é ainda mais dúbia, com as indicações “não se aplica” e “ignorado” em todos os boletins. Diante disso, é preciso salientar a relevância que a coleta dessas características possui na sociedade e esclarecer os motivos da sua escassez nos registros da Polícia Civil de Minas Gerais. As unidades “Orientação Sexual” e “Identidade de Gênero” são implementações realizadas pelo Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, que consideram os princípios constitucionais acerca dos direitos 36Q U E M S à O E L A S ? 37 Q U E M S à O E L A S ? (...) como é possível que o racismo, a discriminação racial e a violência racial permaneçam como tema periférico no discurso, na militância e em boa parte das políticas sobre a questão da violência contra a mulher? Só podemos atribuir isto à conspiração de silêncio que envolve o tema do racismo em nossa sociedade e à cumplicidade que todos partilhamos em relação ao mito da democracia racial e tudo o que ele esconde. Historicamente, as políticas públicas para mulheres no Brasil, partem de uma visão universalista e generalizante de mulher, incapaz desse simples questionamento, afinal que cara têm as mulheres deste país? (CARNEIRO, 2003, p.15-16). O processo de colonização, escravidão e a miscigenação forçada são elementos que influenciam diretamente a desigualdade social percebida entre as camadas racializadas no Brasil. As mulheres pretas e pardas são as mais expostas no tocante à violência doméstica, consequência instantânea da segregação racial e a redução dos direitos humanos fundamentais. Ainda assim, as questões raciais e o estudo social para este grupo de vítimas é considerado insuficiente. De acordo com Carneiro (2003): O Brasil é um país com histórico conturbado e que carrega raízes escravocratas que alimentam a vulnerabilidade de mulheres não-brancas, sendo assim, esta questão no cenário de violência é um assunto que necessita de recorte étnico e racial que promova uma democratização na abordagem do registro, para confrontar este impasse e garantir políticas especializadas (OLIVEIRA, 2003, p.181-182). Depreende-se que apesar do conturbado contexto histórico do nosso país, todas as mulheres estão vulnerabilizadas a sofrer violência doméstica. Em Manhuaçu, uma cidade com aproximadamente 91.169 (IBGE,2023, ONLINE) em 2021, 45,6 % das mulheres acometidas por violência eram pardas, em 2022 esse dado sobe 4,4% indo para 50%, seguidos de mulheres brancas que em 2021 teve 29,8% e em 2022 30%, posteriormente vem as mulheres negras com 22,8% 2021, porcentagem essa que decai para 10% em 2022. Outrossim, é necessário pontuar a porcentagem crescente de “ignorado”, no contexto já citado, é de suma importância que esses dados não sejam ignorados, haja vista que dificulta o papel dos agentes públicos na promoção de políticas públicas, que resultem na diminuição da violência doméstica face a determinados grupamentos. Os indivíduos da cor parda esteve mais presente como vítima nos boletins analisados nos dois últimos anos. Se levado em conta o grupo de não- brancos (SANTOS, 2005), é possível perceber que as ocorrências se destinaram majoritariamente a este segmento. 38 Q U E M S à O E L A S ? É sabido que a violência atinge mulheres de diferentes classes sociais, entretanto, outros agentes influenciam para que um grupo seja mais atingido que outro. Um desses agentes é a escolaridade, que está diretamente relacionada ao status socioeconômico e o acesso à informação e resultam em uma dependência financeira maior do agressor. (DINIZ et. al., 2007, p. 20). Este estudo demonstra que em 2021 a porcentagem de mulheres que não finalizaram o ensino fundamental chegou a 28%, e as vítimas alfabetizadas em 26,3%. Em 2022, nota-se uma diferença explícita: apesar dos dados de mulheres com Ensino Fundamental Incompleto estarem em 24%, a quantidade de vítimas com Ensino Médio Completo se igualou, abrindo espaço para discussão de que todas as mulheres estão suscetíveis à violência, apesar de algumas serem mais vulneráveis que outras. Acredita-se que as pessoas do sexo feminino com maior acesso à educação possuem menor tolerância com comportamentos violentos e, por conseguinte, maior aproximação às redes de proteção às vítimas, fator esse negligenciado para as mulheres de menor escolaridade. (FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, 2010, online). 39 Q U E M S à O E L A S ? A pesquisa revela ainda pontos interessantes a serem mencionados: no ano de 2021, 38,6% dos agressores eram cônjuges ou companheiros e em 2022 essa porcentagem despenca para 22%. No caso do agressor ex-companheiro, em 2021, foi de 31,6% dos casos para os preocupantes 50% em 2022. Estes resultados despertam um questionamento acerca do fator da agressão partida do ex- cônjuge ter subido: o descontentamento do término pode ser a motivação para os elevados índices de violência doméstica? Este levantamento pode ser respondido com base em dados trazidos pelo Formulário Nacional de Avaliação de Risco, que será exposto ao final deste capítulo. Em atenção aos dados obtidos acerca da relação entre a vítima e o autor, denota-se a predominância das classes “cônjuge/companheiro” e “ex-cônjuge/ex- companheiro”. Neste contexto, segundo Scott (1986, p.1069), o gênero funciona como meio para estabelecer relações de poder. Para determinar esta superioridade moral que é direcionada aos homens, a violência contra mulher, em todas as suas faces, é utilizada como meio de atingir e comprovar esta ideologia. Sofrer violência na infância torna as pessoas inseguras, com baixa auto estima, com ausência de senso crítico sobre a violência e dificuldades de estabelecer relações positivas. Estas consequências repercutem na escolha que a mulher fará de seu futuro marido, bem como na sua reação frente à violência. 40 Q U E M S à O E L A S ? A ocupação/profissão das vítimas nos anos analisados se integra com os estudos anteriores sobre a posição socioeconômica das mulheres na sociedade e o grau de vulnerabilidade que determina o enfrentamento à violência. As posições de gênero influenciam diretamente nos grupos contemporâneos e a forma com que o poder está repartido, causando efeitos no cotidiano na esfera pública. A questão financeira é um dos componentes dessas posições e, assim como a raça, a classe social é uma condição evidente e resolutiva para a desigualdade de gênero (SAFFIOTI, 2013, p.97). De maneira inicial, aponta-se a falta de alguns dados nos boletins de ocorrência da Polícia Civil - fato recorrente na maioria das instituições de controle. Nos dois anos inspecionados, a categoria “não consta” aparece como maioria nos índices, conforme o gráfico abaixo indica. Em 2021, 7% das mulheres eram lavadeiras, 7% aposentadas, seguidamente de lavradoras na mesma quantidade. Em 2022, as profissões de renda mínima continuam com maior porcentagem, sendo 6% das vítimas “do lar”, 4% vendedoras e 4% trabalhando com serviços gerais. Apesar desta rede de mulheres ser preponderantemente composta por pessoas em posições sociais com baixo prestígio e baixos salários, tem-se exposto algumas porcentagens de mulheres com profissões com rendimento lido como alto: em 2022, 2% das vítimas eram dentistas, 2% advogadas e 2% empresárias. Estes resultados demonstram que, apesar das vítimas de menor renda comporem o maior alvo da violência doméstica em Manhuaçu/MG, nenhuma mulher está completamente imune a ela. 41 Q U E M S à O E L A S ? A organização do espaço geográfico no campo, onde as famílias residem distantes umas das outras, a dificuldade de deslocamento, acesso à comunicação, os(as) filhos(as) muitas vezes pequenos e a falta de dinheiro tornam-se empecilhos, dificuldade para buscar outras alternativas (LORENZONI; RODRIGUES; SANTOS, 2021, p. 148) As questões demográficas também são itens indispensáveis para identificar o perfil das vítimas de violência doméstica. Nos boletins estudados, em 2021, o bairro Bom Pastor aparecia como local onde a maioria das vítimas residiam na época do crime, com 10,5%. Não muito distante, Santa Terezinha com 8,7% e Santana e Matinha com 7%. No outro ano, o bairro com maior incidência dos crimes contra à mulher foi Vila Nova, com 14% de vítimas, seguido por Santa Luzia (8%). Os bairros Baixada, Coqueiro, Engenho da Serra, Sagrada Família dividem a mesma porcentagem, 6%. Novamente, dados não descritos aparecem nos gráficos. No primeiro ano, 5,2% apontavam “não