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Formação da Literatura Portuguesa LUCIA THEREZINHA RIBEIRO DE ARAUJO 1ª Edição Brasília/DF - 2018 Autores Lucia Therezinha Ribeiro de Araujo Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa ..................................................................................................... 4 Introdução ............................................................................................................................................................................. 6 Aula 1 A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA ............................................................................................................. 7 Aula 2 A LITERATURA PORTUGUESA DO INÍCIO DO SÉCULO XX ............................................................................23 Aula 3 O UNIVERSO LITERÁRIO DE FERNANDO PESSOA , O SIMBOLISMO E O REALISMO .........................37 Aula 4 O REALISMO E O ROMANTISMO EM PORTUGAL ............................................................................................50 Aula 5 O BARROCO PORTUGUÊS E O FECUNDO SÉCULO XVI COM SUAS IDEIAS RENASCENTISTAS .......59 Aula 6 OS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA PORTUGUESA ............................................................................................72 Referências ..........................................................................................................................................................................82 4 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. Cuidado Importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado. Importante Indicado para ressaltar trechos importantes do texto. Observe a Lei Conjunto de normas que dispõem sobre determinada matéria, ou seja, ela é origem, a fonte primária sobre um determinado assunto. 5 ORGANIzAçãO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESqUISA Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Posicionamento do autor Importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado. 6 Introdução Este será um curso bastante ambicioso, pois estudaremos a Literatura Portuguesa ao longo de oito séculos. Por isso, tive que fazer escolhas (e muitas!) a fim de apresentar para vocês um panorama coerente, que aborde os pilares dessa literatura. Não pretendo apresentar-lhes história da literatura, embora, em alguns momentos seja preciso explicitar alguns acontecimentos contextuais para melhor compreensão dos textos. Temos que ter consciência de que autores excelentes ficaram de fora da minha seleção. A Literatura Portuguesa é riquíssima e eu espero que, com as chaves que lhes oferecerei, vocês tenham interesse e curiosidade de conhecer mais, desbravando posteriormente esse universo, onde estão plantadas as nossas raízes brasileiras. Preferi apresentar o curso numa ordem cronológica inversa, começando pelos autores modernos, que tem linguagem mais acessível para os brasileiros. Quero que os textos falem por si, portanto viajaremos retrospectivamente, por trechos de livros, contos e poemas de autores portugueses dos mais importantes. Vamos a eles! Objetivos » Apresentar um panorama da Literatura Portuguesa ao longo de oito séculos a partir dos pilares que a sustentam. » Conhecer os principais autores portugueses de cada época histórica. » Compreender como o movimento surrealista francês influenciou autores portugueses e conhecer algumas de suas obras. » Conhecer o neorrealismo português e a sua forte repercussão por seu caráter social e político. » Conhecer o realismo, o romantismo e o barroco em Portugal. » Conhecer os primórdios da Literatura Portuguesa 7 Introdução Começaremos o nosso curso com um panorama da Literatura Portuguesa da modernidade. Conheceremos os princípios que nortearam esse período e alguns autores que contribuíram, com suas obras, na consolidação e explicitação das ideias e conceitos que formaram o que chamamos de contemporaneidade portuguesa. Objetivos » Conhecer os principais autores portugueses da modernidade. » Compreender o que foi o movimento chamado “Poesia 61” e a sua importância para a renovação do discurso poético português. » Compreender como o movimento surrealista francês influenciou autores portugueses e conhecer algumas de suas obras. 1 AULA A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA 8 AULA 1 • A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA Contemporaneidade portuguesa José Saramago (1922 – 2010) Único Prêmio Nobel de Literatura de Língua Portuguesa (1998). De origem camponesa, Saramago, depois de passar por diversos empregos, acaba por se dedicar exclusivamente à literatura e nos apresenta uma vasta obra que acompanha o processo histórico dos últimos 50 anos. Sempre ligado à política, filiado ao Partido Comunista, o autor possuía uma larga visão social, espírito crítico e ideais muito claros e contundentes. Sua obra foi traduzida em diversas línguas e é conhecida, praticamente, em todo o mundo. Em sua obra, percebemos a presença do sobrenatural e do fantástico, no entanto, ele não se afasta jamais do chamado mundo real. Outro elemento também privilegiado em seu trabalho literário é o interior do homem, a sua imaginação, como elemento gerador da utopia, através de alusões alegóricas, críticas e éticas. Sua escrita é torrencial, ou seja, ininterrupta, lugar onde os planos expressivos se sobrepõem, não distinguindo discurso direto de discurso indireto, narrador de personagem, além da quase ausência de paragrafação. Sua leitura exige atenção especial dos leitores e disponibilidade de tempo, pois seu texto não apresenta divisão em partes ou em capítulos, tratando-se de um jorro que se assemelha à oralidade. Suas principais obras: Levantado do chão (1980), O ano da morte de Ricardo Reis (1984), Jangada de pedra (1986), O evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio sobre a cegueira (1995), As intermitências da morte (2005) entre outros. Quero apresentar a vocês um trecho do Discurso de Estocolmo, pronunciado por Saramago ao receber o Prêmio Nobel, em 1998, na Academia Sueca. [...] À minha árvore genealógica (perdoe-se-me a presunção de a designar assim, sendo tão minguada a substância da sua seiva) não faltavam apenas alguns daqueles ramos que o tempo e os sucessivosum papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal de minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título ‘O Guardador de Rebanhos’ E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, a ‘Chuva Oblíqua’, de Fernando Pessoa. Imediata e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou melhor, foi a reação de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro. Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta a de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jato, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a ‘Ode Triunfal’ de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome, e o homem com o nome que tem. Criei, então, uma ‘coterie’ inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isso me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. 36 AULA 2 • A LITERATURA PORTUGUESA DO INÍCIO DO SÉCULO XX E parece que ainda assim se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.” (apud KUJAWSKI:1979) Notem a complexidade da personalidade de Fernando Pessoa! Na verdade, para estudarmos esse autor, temos que estudar, ao mesmo tempo, seus três heterônimos – Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Vamos a eles na próxima aula! Sintetizando Vimos até agora: » O neorrealismo português e a sua forte repercussão por seu caráter social e político. » A importância da “Revista Presença” na renovação da Literatura Portuguesa bem como núcleo agregador de escritores de grande excelência. » A radicalidade da proposta da “Revista Orpheu” que, com apenas dois números publicados, revolucionara tanto a literatura. 37 Introdução Nesta aula você conhecerá um pouco a excepcionalidade de Fernando Pessoa e lerá alguns poemas dele mesmo e de seus heterônimos. Além disso, caminhando retrospectivamente em nosso curso, você conhecerá o movimento chamado Simbolismo, seus princípios estéticos e alguns de seus principais autores. Ao final, será introduzido o Realismo, com Antero de Quental e Cesário Verde, dois grandes escritores portugueses. Objetivos » Ter uma ideia do universo literário de Fernando Pessoa. » Conhecer a estética simbolista e como ela foi vivenciada pelos autores portugueses. » Compreender o que foi o movimento Realista, suas propostas e suas realizações em Portugal. 3 AULA O UNIVERSO LITERÁRIO DE FERNANDO PESSOA , O SIMBOLISMO E O REALISMO 38 AULA 3 • O UNIVERSO LITERÁRIO DE FERNANDO PESSOA , O SIMBOLISMO E O REALISMO Alberto Caeiro A poesia de Alberto Caeiro gira em torno do olhar. Ele olha a natureza e a desfruta em sua originalidade. Esse eu lírico goza cada impressão, principalmente as visuais. Como é um pastor, ele deambula no seu andar constante e sem destino. Ele vive no presente e seus pensamentos não passam de sensações. Vive feliz como os rios e as plantas e se integra perfeitamente às leis do universo. Para ele, não há passado ou futuro, pois o tempo é abolido em cada momento presente e o eu lírico se limita apenas a existir. Caeiro não busca a ‘alma’ das coisas, nem o seu sentido íntimo; ele apenas olha, constata e sente. Vejam estes versos do poeta: “O único sentido íntimo das coisas / É elas não terem sentido íntimo nenhum” (Pessoa: 1969). Como vocês podem perceber, Caeiro é um homem da civilização, que procura libertar-se da carga, tornada insuportável, de uma razão milenar. O poeta acredita que o homem complicou demais as coisas, com a metafísica, com suas teorias filosóficas e científicas e com suas religiões. Caeiro prega a simplicidade. Nesse sentido, ele nos representa em nossa ânsia de paz e descomplicação da vida. Leiamos, então, alguns poemas de Caeiro, que sempre nos acalmam com sua poética ‘zen’. (Os poemas de “O Guardador de Rebanhos” não possuem títulos, são apenas numerados.) XXVI “Às vezes, em dias de luz perfeita e exata, Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter, Pergunto a mim próprio devagar Por que sequer atribuo eu Beleza às cousas. Uma flor acaso tem beleza? Tem beleza acaso um fruto? Não: tem cor e forma E existência apenas. A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão. Não significa nada. Então por que digo eu das cousas: são belas? Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver, Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens Perante as cousas, Perante as cousas que simplesmente existem. Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!” 39 O UNIVERSO LITERÁRIO DE FERNANDO PESSOA , O SIMBOLISMO E O REALISMO • AULA 3 II “Meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do Mundo...” [...] PESSOA:1969 Ricardo Reis Como seu mestre Caeiro, Ricardo Reis aconselha a aceitar calmamente a ordem natural das coisas, elogia o viver campestre e se diz avesso ao social. Mas, diferentemente de Caeiro, Reis crê no Fatum (destino) e sabe de suas limitações enquanto homem, por isso experimenta a dor da miséria básica de todo o ser humano e sofre com as ameaças inelutáveis da velhice e da morte. Também é comum encontrarmos nos poemas de Reis o problema da passagem inexorável do tempo e a ideia de que a vida consiste numa sucessão de mortes a caminho de seu fim. Por essa razão, Reis procura a sabedoria dos antigos como remédio para os seus males. Também os gregos sofreram a dor do envelhecimento e o peso da Moira cruel. Moira era a entidade encarregada de ceifar a vida dos homens, quando a hora de cada um chegasse. Diante dessa efemeridade da vida, a sabedoria grega optou por aceitar o destino da maneira como lhe era imposto, entendendo que a vida era o único bem que os homens possuíam e por isso souberam construir uma felicidade relativa, compensando a radical imperfeição da vida pela criação estética, fazendo da própria vida arte. Reis adota essa filosofia, afirmando sempre que prefere a vida presente, embora precária, ao futuro desconhecido e temido. “Não tenhas nada nas mãos Nem uma memória na alma, Que quando te puserem Nas mãos o óbolo último, Ao abrirem-te as mãos 40 AULA 3 • O UNIVERSO LITERÁRIO DE FERNANDO PESSOA , O SIMBOLISMO E O REALISMO Nada te cairá. Que trono te querem dar Que Átropos to não tire? Que louros que não fanem Nos arbítrios de Minos? Que horas que te não tornem Da estatura da sombra Que serás quando fores Na noite e ao fim da estrada. Colhe as flores mas larga-as, Das mãos mal as olhaste. Senta-te ao sol. Abdica E sê rei de ti próprio.” PESSOA: 1969 Álvaro de Campos Álvaro de Campos é o heterônimo que mais ‘conviveu’ com Pessoa e teve em sua poesia uma construção evolutiva. Se vocês lerem toda a obra desse poeta, perceberão, com facilidade, os três momentos distintos por que passou a sua obra. No início,Campos se mostrou como um decadentista, bem à moda dos escritores do fim do século e muito próximo à poética de Sá-Carneiro. Leiam na íntegra o poema ‘Opiário’ para entenderem bem essa fase do poeta. Em seguida, numa segunda fase, Álvaro de Campos passa a escrever poemas que representam o mais legítimo futurismo português. Influenciado pelos princípios básicos do futurismo escritos por Marinetti, em 1909, que teve como precursor Walt Whitman, Campos se lança à sofreguidão das máquinas e do progresso. Seus versos denotam a velocidade e a dinâmica das grandes indústrias que começam a tomar conta do mundo com seus mecanismos barulhentos e frenéticos. Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina! Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modêlo! Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento 41 O UNIVERSO LITERÁRIO DE FERNANDO PESSOA , O SIMBOLISMO E O REALISMO • AULA 3 A todos os perfumes de óleos e calores e carvões Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável! Ode Triunfal in. PESSOA:1969 Por fim, depois dessa fase exaltada, Campos deixa a excêntrica euforia e passa a escrever versos melancólicos, um tanto depressivos que representam seu descontentamento generalizado e sua aridez interior. Foi como se a fase futurista tivesse exaurido o poeta e o deixado no marasmo de um constante adiamento. Seus poemas dessa época se assemelham aos poemas escritos por Pessoa ele mesmo, que veremos a seguir. Álvaro de Campos permanece nessa fase até 1935, ano da morte de Fernando Pessoa. Esta velha angústia, Esta angústia que trago há séculos em mim, Transbordou da vasilha, Em lágrimas, em grandes imaginações, Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror, Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum. Transbordou. Mal sei como conduzir-me na vida Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! Se ao menos endoidecesse deveras! Mas não: é este estar entre, Êste quase, Êste pode ser que... Isto. [...] PESSOA:1969 Leiam os poemas ‘Tabacaria’ e ‘Adiamento’ para mergulharem mais profundamente nessa terceira fase de Álvaro de Campos. FERNANDO PESSOA ele mesmo Fernando Pessoa é aquele que sofre a vida sendo incapaz de a viver; é aquele que vislumbra uma vaga música, agradece e sorri com tristeza, sabendo que ela vem do outro lado de um muro intransponível; é aquele que percebe o inefável, mas é incapaz de realizá-lo. É frequentemente seduzido pelo mundo fantástico da infância, incorporando a seus poemas reminiscências de contos de fadas, cantigas de ninar e toadas populares. É um poeta metafisicamente inquieto que vive essencialmente pela inteligência intuitiva, pela sensibilidade e pela imaginação. O processo de criação poética de Pessoa normalmente passa primeiro pela imagem-símbolo para, depois, extrair-lhe a significação. A parte lírica de sua obra encontra-se no ‘Cancioneiro’, onde são explorados temas como saudade, solidão, infância e arte. Ele se apresenta como um poeta muito consciente de si e de 42 AULA 3 • O UNIVERSO LITERÁRIO DE FERNANDO PESSOA , O SIMBOLISMO E O REALISMO sua poesia, a qual se insere na tradição da poesia lírica de seus predecessores como Almeida Garrett (romântico) e Antônio Nobre (simbolista). Ela canta, pobre ceifeira, Julgando-se feliz talvez; Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia De alegre e anônima viuvez, Ondula como um canto de ave No ar limpo como um limiar, E há curvas no enrêdo suave Do som que ela tem a cantar. Ouvi-la alegra e entristece, Na sua voz há o campo e a lida, E canta como se tivesse Mais razões p’ra cantar que a vida. Ah, canta, canta sem razão! O que em mim sente ’sta pensando. Derrama no meu coração A tua incerta voz ondeando! Ah, poder ser tu, sendo eu! Ter a tua alegre inconsciência, E a consciência disso! Ó Céu! Ó campo! Ó canção! A ciência Pesa tanto e a vida é tão breve! Entrai por mim dentro! Tornai Minha alma a vossa sombra leve! Depois, levando-me, passai! PESSOA:1969 Entre 1913 e 1934, quando foi publicada, Fernando Pessoa escreve Mensagem, obra que se pretendia épica – a moderna epopeia portuguesa – mas que resultou numa mistura entre o épico e o lírico. Mensagem é uma belíssima obra que revisita os heróis e mitos portugueses, retomando o passado grandioso das navegações e das descobertas, o que lembra Os Lusíadas, de Luís de Camões. Entretanto, Pessoa não canta o Portugal do presente, fechado e estagnado, “mas o Portugal sonhado por seus heróis loucos e alucinados” – o Portugal das conquistas! Cereja:1997. Sugestão de estudo Ouçam o áudiolivro ‘Mensagem’ no seguinte site: https://www.youtube.com/watch?v=6VNbJbVWxig 43 O UNIVERSO LITERÁRIO DE FERNANDO PESSOA , O SIMBOLISMO E O REALISMO • AULA 3 E na parte de Mensagem em que fala do Rei D. Sebastião, que sumiu no mar, e nunca apareceu, num poema intitulado “Quinta / D. Sebastião, Rei de Portugal”, Pessoa escreve um de seus mais belos poemas: Louco, sim, louco, porque quis grandeza Qual a Sorte a não dá. Não coube em mim minha certeza: Porisso onde o areal está Ficou meu ser que houve, não o que ha. Minha loucura, outros que me a tomem Com o que nella ia. Sem a loucura, que é o homem Mais que a besta sadia, Cadaver addiado que procria? PESSOA:1969 O simbolismo A segunda metade do século XIX presenciou na Europa mudanças radicais não só em relação à política, mas também em relação à sociedade. O advento da eletricidade como iluminação coletiva e a industrialização dos produtos transformou a Europa de rural e artesã em industrial. Mudam-se as relações de trabalho bem como as relações sociais. Em termos de literatura, novas tendências surgiam para renovar a velha retórica realista. O simbolismo surge como resposta à incerteza e ao mundo como se apresentava então. Os poetas simbolistas, influenciados por Verlaine, Rimbaud e Mallarmé, repudiavam o mundo objetivo e apegavam-se a um mundo intuitivo e transcendental. Os símbolos lhes serviam de fuga como se erigissem para si uma ‘torre de marfim’, símbolo maior desse movimento. Em Portugal, dois poetas se destacaram: Eugênio de Castro, com a obra Oaristo (1890) e Antônio Nobre, com a obra Só (1892). No entanto, quem mais se destacou como poeta simbolista português foi Camilo Pessanha (1867 – 1926), que não participou do processo, pois havia se mudado para Macau, colônia portuguesa na China, em 1894. Pessanha, apesar de ter vivido num tempo de grandes mudanças e de ter experimentado as comodidades da modernidade, não apresenta em seus poemas nenhum indício dessa vivência. Sua obra é intimista e o poeta é um crítico profundo de seus próprios sentimentos. O que importa na poesia de Pessanha é a mensagem, muitas vezes velada e entrecortada, vivida e transmitida em seus versos. A musicalidade é uma constante em sua poesia e seus temas se relacionam à sua visão de mundo pessimista, desistente e cética, expressando frequentemente a mágoa, a dor de viver e a morte. 44 AULA 3 • O UNIVERSO LITERÁRIO DE FERNANDO PESSOA , O SIMBOLISMO E O REALISMO Pessanha, por seu jeito de viver, nunca se preocupou em reunir seus poemas, que só foram publicados em 1920, numa única obra a que ele deu o nome de Clepsidra. A geração de Orpheu muito admirou Camilo Pessanha. Vejam um poema exemplar desse poeta: Poema Final Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas, - Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise, Represados clarões, cromáticos vesânias -, No limbo onde esperais a luz que vos baptize, As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis. Abortos que pendeis as frontes cor de cidra, Tão graves de cismar, nos bocais dos museus, E escutando o correr da água na clépsidra, Vagamente sorris, resignados e ateus, Cessai de cogitar, o abismo não sondeis, Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados, Que toda noite errais, doces almas penando, E as asas lacerais na aresta dos telhados, E no vento expirais em um queixume brando, Adormecei. Não suspireis.Não respireis. PESSANHA, s.d O realismo A publicação, na França, do romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert, abriu caminho para a nova tendência que se anunciava em Portugal. Desgastado, o romantismo, em seus estertores, num exagerado sentimentalismo, cede lugar aos novos temas que vão inaugurar a retórica realista. Uma nova geração, intelectualizada, europeizante e atualizada assume a voz dos novos tempos, fazendo uma literatura que retrata a sociedade e põe na ‘vitrine’ seus vícios, seus costumes e a forma de relação entre seus membros. Antero de Quental foi um dos líderes dessa geração e, provocado por Castilho, representante do velho romantismo, responde-lhe numa carta aberta, intitulada “Bom senso e bom gosto”. Dessa querela, surge o que se chamou “Questão Coimbrã”, a qual se resumia na imposição dos novos valores realistas em detrimento do velho romantismo. Essa questão durou todo o segundo semestre de 1865, com ataques e publicações de ambos os lados. É bom chamar a atenção de vocês para o fato de que Coimbra, na época era um importante centro universitário e cultural e tinha ligação direta com o resto da Europa, pois em 1864, a 45 O UNIVERSO LITERÁRIO DE FERNANDO PESSOA , O SIMBOLISMO E O REALISMO • AULA 3 estrada de ferro passou a ligar essa cidade à comunidade europeia. Isso facilitava muito o acesso dos intelectuais aos grandes centros culturais europeus e, consequentemente, a entrada da nova estética em Portugal. Esses fatores contribuíram para a formação de uma geração que teve o nome de “geração de 70”. Era um grupo de amigos, já formados em Coimbra, que se reuniam em Lisboa para debater as novas ideias e fazer conferências. No entanto, o grupo foi censurado pelo Estado que alegou que as doutrinas que estudavam e as ideias que divulgavam atacavam as instituições e as religiões. O grupo passou a se intitular “Os vencidos da vida”. Fizeram parte desse grupo, além de Antero de Quental, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Gomes Leal, Teófilo Braga, Fialho de Almeida, entre outros. A literatura realista em prosa caracterizou-se pelo olhar atento, agudo e, mesmo, ácido para a sociedade. Com linguagem objetiva, os realistas retrataram seus heróis quase como anti-heróis, personalidades complexas, com valores de um mundo em transição. O amor, por exemplo, era visto como um jogo de interesses, o que ensejava temas como o adultério e o casamento como um arranjo de conveniências. O realismo primou pelas descrições minuciosas da realidade, com grande requinte de detalhes. A poesia se caracterizou pela crítica social e pelo engajamento político. Também havia a poesia do cotidiano, muito bem representada por Cesário Verde, poeta que estudaremos mais adiante. Antero de quental (1843 – 1892) Antero apresentava uma poesia combativa como instrumento de ação social. Era totalmente contra os temas soturnos e macabros dos ultrarromânticos. Mas sua vida de poeta sofreu uma reviravolta: quando teve suas iniciativas e as de seus companheiros censuradas. Ele renuncia à ação por não ver mais qualquer sentido em insistir. Volta-se, então, para a realização individual do Absoluto, com poemas de cunho espiritualista e religioso. Contudo, ele nunca conseguiu uma separação total entre o individual e social, uma vez que os problemas íntimos se entrelaçavam com os da vida pública. Antero chega a resumir em alguns ensaios em prosa uma teoria filosófica, especialmente nas Tendências gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX. Vou agora apresentar a vocês dois sonetos de Antero de Quental, que, acredito, elucidam bem a trajetória desse poeta. TRANSCENDENTALISMO (A P. J. Oliveira Martins) Já sossega, depois de tanta luta, Já me descansa em paz o coração. Caí na conta, enfim, de quanto é vão O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa. 46 AULA 3 • O UNIVERSO LITERÁRIO DE FERNANDO PESSOA , O SIMBOLISMO E O REALISMO Penetrando, com fronte não enxuta, No sacrário do templo da Ilusão, Só encontrei, com dor e confusão, Trevas e pó, uma matéria bruta... Não é no vasto mundo – por imenso Que êle pareça à nossa mocidade – Que a alma sacia o seu desejo intenso... Na esfera do invisível, do intangívell, Sôbre desertos, vácuo, soledade, Voa e paira o espírito impassível! Antero: 1967 O INCONSCIENTE O espectro familiar que anda comigo, Sem que pudesse ainda ver-lhe o rosto, Que umas vezes encaro com desgosto E outras muitas ansioso espreito e sigo, É um espectro mudo, grave, antigo, Que parece a consversas mal disposto... Ante êste vulto, ascético e composto. Mil vezes abro a boca... e nada digo. Só uma vez ousei interrogá-lo: “Quem és (lhe perguntei com grande abalo) Fantasma a quem odeio ou a quem amo? - “Teus irmãos (repondeu) os vãos humanos, Chamam-me Deus, há mais de dez mil anos... Mas eu por mim não sei como me chamo...” Antero: 1967 Como vocês leram, o poema Transcendentalismo representa a desilusão do poeta com a ação social a que pretendia. Com o coração em paz, ele se dá conta que tudo foi em vão, pois ele apenas encontrara “trevas e pó”. Claramente ele nos diz que tudo foram arroubos da mocidade e que ele concluíra que não é no mundo que se encontra a felicidade, mas naquilo que é intangível. Vemos aí, a radical mudança operada no poeta ao longo de sua vida. Já no segundo poema – O Inconsciente – temos um eu lírico em busca do Absoluto, daquela força que pode ser chamada de Deus, mas que Ele mesmo não sabe como se chama. Seria interessante que vocês voltassem à aula 2 e confrontassem esse poema de Antero – O inconsciente – com o poema de José Régio – O Papão. Levem em consideração as diferentes formas de fazer poesia e a proposta de cada um dos autores. 47 O UNIVERSO LITERÁRIO DE FERNANDO PESSOA , O SIMBOLISMO E O REALISMO • AULA 3 Cesário Verde (1855 – 1886) Cesário Verde é o poeta do cotidiano e por isso se diferenciou e se destacou dos demais poetas realistas. Ele introduziu na poesia portuguesa tudo aquilo que não tinha, até então, ‘valor poético’. Ele fez poesia com o que não era considerada matéria de poesia. Introduz o prosaico das ruas, do trabalho, o comércio, os mendigos, as prostitutas, a iluminação em seus poemas. Cesário era um transeunte observador que registrava poeticamente o que via em seu caminho. Nesse sentido, ele se assemelhava ao que Baudelaire fazia em França e os dois podem ser considerados precursores da poesia moderna. Seus poemas apresentavam uma linguagem exata, concisa, corrente e comum, o que o possibilitou a dar expressão poética à realidade objetiva e cotidiana. Possuía um gosto pela realidade sensorial, um amor pela atividade e pela prática que passavam por um trabalho técnico que protestava contra uma sociedade que desprezava o trabalhador e dava todas as regalias à ociosidade. O único livro de Cesário Verde foi publicado postumamente (1901) e foi intitulado O livro de Cesário Verde. Helder Macedo, em seu livro Nós – uma leitura de Cesário Verde, – abre o seu estudo com um poema de Alberto Caeiro, que transcrevo aqui por considerá-lo oportuno e bastante elucidativo. Ao entardecer, debruçado pela janela, E sabendo de soslaio que há campos em frente, Leio até me arderem os olhos O livro de Cesário Verde. Que pena que tenho dele! Ele era um camponês Que andava preso em liberdade pela cidade. Mas o modo como olhava para as casas, E o modo como reparava nas ruas, E a maneira como dava pelas coisas, É o de quem olha para as árvores, E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando E anda a reparar nas flores que há pelos campos... Por isso ele tinha aquela grande tristeza Que ele nunca disse bem que tinha, Mas andava na cidade como quem anda no campo E triste como esmagar flores em livros E pôr plantas em jarros... Apud MACEDO: 1975 Caeiro define bem esse poeta que tem como finalidade registrar a realidade sob a forma de passeios aparentemente casuais em que o observador vai ‘fotografando’ o ambiente segundo 48 AULA 3 • O UNIVERSO LITERÁRIO DE FERNANDO PESSOA , O SIMBOLISMOE O REALISMO suas próprias percepções. Campo e cidade são os polos de um processo intelectual dinâmico, de uma viagem ideológica em que Cesário procura conciliar essas coordenadas antitéticas para tentar definir a sua própria identidade. Num nível pessoal, a cidade representa para o poeta a ausência, a impossibilidade e a perversão do amor, enquanto o campo é uma expressão idílica. Num nível social, a cidade simboliza a opressão e o campo, a recusa da opressão e a possibilidade do exercício da liberdade. Cesário identifica-se com o campo, mas nega qualquer associação romântica com esse ambiente, por uma afirmação particularizada do trabalho rural. Identifica-se com o povo comum, embora seja uma identificação inevitavelmente conflituosa, devido a sua situação econômica e social. Como, em sua maioria, os poemas de Cesário Verde são muito grandes, vamos ler apenas a primeira parte do poema O Sentimento de um ocidental. Seria bom se vocês pudessem conhecer esse poema na íntegra para se aproximarem mais da obra desse autor extraordinário. O Sentimento dum Ocidental I Ave Maria Nas nossas ruas, ao anoitecer, Há tal soturnidade, há tal melancolia, Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia Despertam-me um desejo absurdo de sofrer. O céu parece baixo e de neblina, O gás extravasado enjoa-me, perturba; E os edifícios, com as chaminés, e a turba Toldam-se duma cor monótona e londrina. Batem os carros de aluguer, ao fundo, Levando à via férrea os que vão. Felizes! Ocorrem-me em revista, exposições, países: Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo! Semelham-se a gaiolas, com viveiros, As edificações somente emadeiradas: Como morcegos, ao cair das badaladas, Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros. Voltam os calafates, aos magotes, De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos; Embrenho-me a cismar, por boqueirões, por becos, 49 O UNIVERSO LITERÁRIO DE FERNANDO PESSOA , O SIMBOLISMO E O REALISMO • AULA 3 Ou erro pelos cais a que se atracam botes. E evoco, então, as crónicas navais: Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado! Luta Camões no sul, salvando um livro a nado! Singram soberbas naus que eu não verei jamais! E o fim da tarde inspira-me; e incomoda! De um couraçado inglês vogam os escaleres; E em terra num tinir de louças e talheres Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda. Num trem de praça arengam dois dentistas; Um trôpego arlequim braceja numas andas; Os querubins do lar flutuam nas varandas; Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas! Vazam-se os arsenais e as oficinas; Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras; E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras, Correndo com firmeza, assomam as varinas. Vêm sacudindo as ancas opulentas! Seus troncos varonis recordam-me pilastras; E algumas, à cabeça, embalam nas canastras Os filhos que depois naufragam nas tormentas. Descalças! Nas descargas de carvão, Desde manhã à noite, a bordo das fragatas; E apinham-se num bairro aonde miam gatas, E o peixe podre gera os focos de infecção! VERDE: 1970 Sintetizando Vimos até agora: » A excepcionalidade de Fernando Pessoa e alguns poemas dele mesmo e de seus heterônimos demonstrando um pouco de seu rico universo literário. » A estética simbolista e como ela foi vivenciada pelos autores portugueses. » Um pouco do que foi o movimento Realista, suas propostas e suas realizações em Portugal, com destaque para Antero de Quental e Cesário Verde, dois grandes escritores portugueses. 50 Introdução Nesta quarta aula de nosso curso, vamos conhecer o grande escritor português, Eça de Queirós, que foi o grande representante do Realismo português. Em seguida, você será apresentado ao ideário do Romantismo, com seus três diferentes representantes: Garrett, Herculano e Camilo Castelo Branco. Objetivos » Conhecer as principais características de Eça de Queirós e de sua produção literária. » Compreender a importância do Romantismo, seus conceitos principais e o que esse movimento trouxe de novidade à Literatura Portuguesa. » Entender o Romantismo em suas três vertentes, ou seja, em seu desenvolvimento ao longo do tempo, através dos três autores românticos mais representativos. 4 AULA O REALISMO E O ROMANTISMO EM PORTUGAL 51 O REALISMO E O ROMANTISMO EM PORTUGAL • AULA 4 EçA DE qUEIRÓS (1845 – 1900) Homem culto, muito viajado, foi diplomata em Cuba, Newcastle e Paris. Conheceu o Oriente Médio e a América do Norte. Iniciou-se nas letras escrevendo uma série de folhetins na Gazeta de Portugal (1866 – 1867), depois compilados no volume Prosas Bárbaras. Esses folhetins causaram estranheza a seus contemporâneos, acostumados que estavam às fórmulas dos românticos franceses. Mas a prosa de Eça evoluiu após o conhecimento do realismo de Flaubert, os debates com o grupo liderado por Antero de Quental e a leitura atenta de Proudhon. Eça passou a ter um estilo definido, consciente de sua função de escritor que é a de retratar objetivamente a sociedade no intuito de contribuir para o melhoramento da realidade. Sob essa ótica, a sua frase “Abaixo os heróis” sintetiza o princípio básico do realismo que era: “O homem é um resultado, uma conclusão e um produto das circunstâncias que o envolvem.” (SARAIVA:1965) Na visão de Eça, o artista deveria narrar não o caso único e individual, mas o caso típico de uma instituição ou de um meio. Em cada um de seus romances, Eça focaliza um aspecto da sociedade. Em O Crime do Padre Amaro (1875), ele retrata a vida provinciana e a influência do clero; em O Primo Basílio (1878), o foco fica na família pequeno-burguesa, o casamento por conveniência, o adultério, a má influência do romantismo sobre as mulheres de precária formação; em Os Maias (1880), é abordada a aristocracia, a sua ignorância e a sua inépcia para a administração. Nesse contexto de Os Maias Eça só salva um pequeno grupo de homens de cultura que se reuniam com frequência na casa de Afonso Maia. Assim como Antero, Eça também se cansa da luta por uma sociedade melhor e escreve romances diferentes como A Ilustre Casa de Ramires, por exemplo, toda ambientada num contexto medieval; A Cidade e as Serras, um verdadeiro idílio, um mundo de sonhos. Vamos ler um trecho do conto Civilização de Eça de Queirós para, posteriormente, percebermos o seu estilo, a sua linguagem e os seus recursos de expressão. Transcrevo apenas a parte II desse conto, mas aconselho vocês a o lerem na íntegra, pois vale a pena por ser muito interessante e surpreendente. Civilização II “Nas tardes em que havia “banquete de Platão” (que assim denominávamos essas festas de trufas e ideias gerais), eu, vizinho e íntimo, aparecia ao declinar do sol, e subia familiarmente aos quartos do nosso Jacinto – onde o encontrava sempre incerto entre as suas casacas, porque as usava alternadamente de seda, de pano, de flanelas Jaegher, e de ‘foulard’ das Índias. O quarto respirava o frescor e aroma do jardim por duas vastas janelas, providas magnìficamente (além das cortinas de seda mole Luís XV) de uma vidraça exterior de cristal inteiro, de uma vidraça interior de cristais miúdos, de um toldo rolando na cimalha, de um estore de sedinha 52 AULA 4 • O REALISMO E O ROMANTISMO EM PORTUGAL frouxa, de gazes que franziam e se enrolavam como nuvens, e de uma gelosia móvel de gradaria mourisca. Todos estes resguardos (sábia invenção de Holland & Cª, de Londres) serviam a graduar a luz e o ar – segundo os avisos de termômetros , barômetros e higrômetros, montados em ébano, e a que um meteorologista (Cunha Guedes) vinha, tôdas as semanas, verificar a precisão. Entre estas duas varandas rebrilhava a mesa de toilette, uma mesa enorme de vidro, toda de vidro, para a tornar impenetrável aos micróbios, e coberta de todos esses utensílios de asseio e alinho que o homem do século XIX necessita numa capital, para não desfear o conjunto suntuário da civilização. Quando o nosso Jacinto, arrastando as suas engenhosas chinelas de pelica e seda, se acercava desta ara – eu, bem aconchegadonum divã, abria com indolência uma revista, ordinàriamente a Revista Electropática, ou a das Indagações Psíquicas. E Jacinto começava... Cada um desses utensílios de aço, de marfim, de prata, impunham ao meu amigo, pela influência onipoderosa que as cousas exercem sobre o dono (...) o dever de o utilizar com aptidão e deferência. E assim as operações do alindamento de Jacinto apresentavam a prolixidade, reverente e insuprimível, dos ritos de um sacrifício. Começava pelos cabelos... Com uma escova chata, redonda e dura, acamava o cabelo, corredio e louro, no alto, aos lados da risca; com uma escova estreita e recurva, à maneira de uma alfange de um persa, ondeava o cabelo sobre a orelha; com uma escova côncava, em forma de telha, empastava o cabelo, por trás, sobre a nuca... Respirava e sorria. Depois, com uma escova de longas cerdas, fixava o bigode; com uma escova leve e flácida acurvava as sombrancelhas; com uma escova feita de penugem regularizava as pestanas. E deste modo Jacinto ficava diante do espelho, passando pelos sobre o seu pelo, durante quatorze minutos. Penteado e cansado, ia purificar as mãos. Dous criados, ao fundo, manobravam com perícia e vigor os aparelhos do lavatório – que era apenas um resumo dos maquinismos monumentais da sala de banho. Ali, sobre o mármore verde e róseo do lavatório, havia apenas duas duchas (quente e fria) para a cabeça; quatro jactos, graduados desde zero até cem graus; o vaporizador de perfumes; a fonte de água esterilizada (para os dentes); o repuxo para a barba; e ainda torneiras que rebrilhavam e botões de ébano que, de leves roçados, desencadeavam o marulho e o estridor de torrentes dos Alpes... [...] Quando Jacinto acabava de se enxugar laboriosamente a toalhas de felpo, de linho, de corda entrançada (para restabelecer a circulação), de seda frouxa (para lustrar a pele) bocejava, com um bocejo cavo e lento. E era este bocejo, perpétuo e vago, que nos inquietava a nós, seus amigos e filósofos. Que faltava a este homem excelente? [...] 53 O REALISMO E O ROMANTISMO EM PORTUGAL • AULA 4 (...) Aos trinta anos Jacinto corcovava, como sob um fardo injusto!(...) QUEIRÓS:2003 Enquanto autor realista, Eça de Queirós se esmera nas descrições do ambiente e das ações dos personagens. Chega ao requinte de dar informações sobre o fabricante das sofisticadas janelas de Jacinto e também o nome do meteorologista que fazia a revisão periódica de seus mecanismos. Os detalhes descritivos das ações do personagem são surpreendentes e quase caricaturais. Jacinto, um homem rico, cercado da tecnologia mais avançada da época é retratado pelo narrador de uma forma sutilmente crítica e até debochada. Com a aparência de estar simplesmente narrando o que vê, ele faz um retrato quase cruel das superficialidades com que vive o homem civilizado em sua sociedade, do poder que os objetos exercem sobre o sujeito (“Cada um desses utensílios de aço, de marfim, de prata, impunham ao meu amigo, pela influência onipoderosa que as cousas exercem sobre o dono (...) o dever de o utilizar com aptidão e deferência.”) e ainda compara as ações de Jacinto – “as operações de alindamento” – a “ritos de um sacrifício”. Segundo o narrador, o personagem precisa agir assim para não destoar do “conjunto suntuário da civilização”. É como se fosse uma obrigação, um fardo ou uma contingência do status social do personagem. Curioso é o modo blasé e ocioso como o narrador se instala na narrativa. Ele é como um espectador descomprometido que olha para Jacinto assim como folheia revistas pelas quais não tem o menor interesse. E num recurso narrativo simples, mas excepcional, ele coloca o leitor ao seu lado, participando desse ato de ver com ele. Isso acontece quando ele diz, por duas vezes, “o nosso Jacinto” – é como se o leitor também privasse com ele da intimidade e familiaridade do vizinho. No final desse trecho, o narrador já anuncia que algo estava errado com o personagem: como um homem de tanta excelência possuía aquele bocejo “perpétuo e vago” dos entediados? E a última frase do texto insinua que aquela vida suntuosa de Jacinto era um fardo pesado e injusto. Nessa passagem percebemos até onde vai o olhar crítico do narrador. Ao contrário do que se espera, com tudo o que possuía, Jacinto parecia ‘doente’ e triste. Vai aí a pitada crítica do homem Eça aos aparatos civilizatórios. A continuidade do conto vai dar uma reviravolta nesse personagem. Leiam o conto inteiro e percebam a tese de Eça de Queirós – a mesma que aparece em seu livro A cidade e as serras. O romantismo O Romantismo em Portugal iniciou-se com a publicação do poema Camões, de Almeida Garrett, em 1825. Durou mais ou menos uns 40 anos e houve duas gerações de escritores que mostraram muito bem a evolução desse movimento. A primeira geração, ainda presa ao estilo neoclássico, já apresenta preocupações com as novas tendências como o nacionalismo, o historicismo e o subjetivismo. Começa a se notar certa idealização da mulher, bem como do amor e da natureza. 54 AULA 4 • O REALISMO E O ROMANTISMO EM PORTUGAL O maior representante desse período foi o escritor Almeida Garrett, que alcançou sua maturidade no final de sua carreira. Garrett tem uma obra lírica (Folhas Caídas, 1853), dramática (Frei Luís de Sousa,1844 – considerada a obra prima do teatro português) e em prosa (Viagens na minha terra, 1846). Almeida Garrett (1799 – 1854) Vou mostrar a vocês um poema desse escritor português para que vocês possam identificar nele algumas das características do Romantismo. ESTE INFERNO DE AMAR Este inferno de amar – como eu amo” – Quem mo pôs aqui n’alma... quem foi? Esta chama que alenta e consome, Que é a vida – e que a vida destrói – Como é que se veio a atear, Quando – ai quando se há de apagar? Eu não sei, não me lembra: o passado, A outra vida que dantes vivi Era um sonho talvez... – foi um sonho – Em que paz tão serena a dormi! Oh! que doce era aquele sonhar... Quem me veio, ai de mim! despertar? Só me lembra que um dia formoso Eu passei... dava o Sol tanta luz! E os meus olhos, que vagos giravam, Em seus olhos ardentes os pus, Que fez ela? eu que fiz? – Não no sei; Mas nessa hora a viver comecei... Apud MOISÉS: s.d Vemos o eu lírico expressando os sentimentos contraditórios do amor: ao mesmo tempo que o faz sofrer e que o consome, consola-o e lhe dá prazer. A mulher aqui aparece como a musa inspiradora e responsável pela vida do eu lírico enfim ter começado. O amor vem pelos olhos – o olhar amoroso sempre é uma constante nos textos românticos. Alexandre Herculano (1819 – 1877) Herculano representa uma vertente da segunda geração do Romantismo português. Ele, essencialmente, se dedicou ao romance e sua ambiência predileta sempre foi o passado, mormente o medieval. Seu principal romance foi Eurico, o Presbítero, que se passa durante a 55 O REALISMO E O ROMANTISMO EM PORTUGAL • AULA 4 invasão dos árabes na Península Ibérica, no século VIII e retrata a história do amor impossível entre Eurico e Hermengarda. Eurico se refugia na vida religiosa para tentar esquecer Hermengarda, cuja mão lhe fora negada pelo pai que alegava a baixa posição social de Eurico. Nesse romance há a mistura de dados históricos com a trama de um amor impossível regados a fantasia e imaginação. Quando ocorre a invasão árabe, Eurico – corajoso cavaleiro no passado – torna-se o temido “cavaleiro negro”, que atemoriza os árabes com sua teimosia e ousadia. Contudo, os árabes vencem a guerra e invadem cidades, casas, conventos e igrejas. Eurico alia-se a um grupo de resistência que se esconde na floresta e tem como líder Pelágio, irmão de Hermengarda. Em meio às lutas, o cavaleiro e a moça se reencontram (...). Entretanto, a união entre os dois é agora impossível, porque ele se tornara um padre. Depois de ter participado de uma bem sucedida emboscada contra os árabes, Eurico se deixa matar pelos inimigos, pondo fim aos sentimentos amorosos e ao conflito religioso. Hermengarda,ao saber de sua morte, enlouquece. CEREJA e COCHAR: 1997 Esse romance tem ingredientes até hoje encontrados em nossa cultura. O misterioso cavaleiro negro nos faz lembrar certos heróis presentes em nossas mídias como o Zorro e o Batman. A questão da identidade oculta, do amor impossível e da missão a ser cumprida é o que configura o herói romântico. São marcas que chegaram até nós e que garantem público a qualquer exibição do gênero. Filmes como Coração Valente, O Gladiador ou A Letra Escarlate têm esse cenário como pano de fundo. Vamos passar agora para outro autor romântico, muito mais popular que Herculano, que é Camilo Castelo Branco. Camilo Castelo Branco (1825 – 1890) Camilo teve uma vida difícil. Órfão de pai e mãe desde criança, foi criado por uma tia e depois pela irmã mais velha. Envolve-se com uma mulher casada - Ana Plácido - e os dois são presos. Após a absolvição, tendo o marido de Ana morrido, eles se casam e constituem família. Baseando-se nessa sua desventura, ele escreve e publica Amor de Perdição e alcança grande popularidade. Passa, então, a escrever esse tipo de obra – a novela passional – e, com isso consegue sobreviver. O que motiva seus livros são as tramas do amor contrariado pelas convenções sociais. Não faltam neles raptos, emboscadas e ódios implacáveis. Camilo foi um escritor muito especial, pois conseguia mesclar o lirismo e o sarcasmo, bem como intervir na narrativa fazendo comentários contra ou a favor de seus personagens. O leitor acompanha sua narrativa envolvido pela trama ou como testemunha do próprio narrador que o traz para dentro da narrativa. 56 AULA 4 • O REALISMO E O ROMANTISMO EM PORTUGAL O ambiente mais comum em seus livros é a vila ou aldeia da província, ou ainda a cidade do Porto ou os conventos onde os pais enclausuravam suas filhas rebeldes. Também aparece a taberna aldeã, as serras onde há florestas em que lobos perseguem o gado. Para Camilo o amor era o bem maior e quem se interpusesse no caminho dos amantes, merecia dele o título de ridículo ou de odioso. Muitas vezes, em vez de retrato, Camilo fazia caricatura. Transcrevo para vocês parte do capítulo XXI do livro A queda de um anjo. Esse livro tem como herói Calisto Elói, um ingênuo e puro provinciano que se sente chamado a Lisboa para regenerar os hábitos e os costumes das gentes da Capital. Obviamente, Lisboa conquista-o e perverte-o e Camilo nos conta exatamente a sua derrocada. Vamos, então, ao texto. O MORDOMO DAS TRÊS VIRTUDES CARDEAIS [...] Àquela hora, e por aquela noite capeadora de assassinos e bestas-feras, Calisto Elói, embrulhado num capote de três cabeções e mangas, que trouxera de Caçarelhos, passava rente com o muramento da quinta de Adelaide. Depois, como saísse da vereda escura a um ressio que defrontava com a frontaria da casa, aqui parou, e, cruzando os braços, se esteve largo espaço quedo, e fito nas janelas. Nem lua nem cintila de estrelas no céu! As confidentes daquele amador torvo como o cerrado da noite, negro como o coração que lhe arfa a lapela esquerda do colete, são as trevas. Quis acender um charuto. Nem os fósforos vingavam lampejar na escuridão. E o vento assobiava no vigamento da casa, e nas orelhas de Calisto, o qual, levado do instinto de conservação, levantou a gola do capote à altura das bossas parietais, e disse, como Carlos VI: - Tenho frio! E passou-lhe então pelo espírito um painel da sua situação tirado pelo natural. Viu-se no espelho que a razão lhe ofereceu, e cobrou horror da sua figura. Bem que tal acto não implicasse delito, nem afrontasse os bons costumes, Calisto, apertado no trânsito difícil das índoles que se passam do comportamento austero e cativo às liberdades e solturas do vício, olhava com saudade o seu passado, as suas alegrias puras; e, mais que tudo, àquela hora, como o frio lhe cortava as orelhas, lembrou-se da quentura e aconchego do leito nupcial. 57 O REALISMO E O ROMANTISMO EM PORTUGAL • AULA 4 E como esta visão honesta, para mais o pungir, havia de ser encarecida com uma imagem de mulher leal e imaculada. Calisto viu D. Teodora de touca, naquele dormir plácido de quem adormeceu com a alma quieta e intemerata. Não bastava a touca, tão pudica quanto higiénica, a penitenciá-lo com remordentes saudades; viu-lhe também o lenço de três pontas de algodão azul com que ela costumava resguardar os ombros, antes de subir as quatro escadinhas que conduziam ao alteroso leito de pau-santo. Se visões análogas, alguma vez, puseram guerra ao demônio tentador dos maridos infiéis e o venceram, desta feita não se logra a sã virtude do triunfo. É que as toucas e lencinhos pudibundos, sobre não serem enfeites muito sedutores, algumas vezes tornam a virtude rançosa e tão somente boa para adubar palestra de avós com as netas casadoiras. Este mal deve-se às artes da estatuária, artes em que a imaginativa não põe nada seu, porque tudo é copiado da natureza nua, ou quase nua. Nem sequer as Níobes, as Lucrécias e Penélopes o buril respeita. Nos casos mais lacrimáveis e trágicos, querem fados maus que os olhos achem sempre pasto à cobiça, quando a impressão devera ser toda para levantamentos de espírito, e “visões altas”, como diz o bom Sá de Miranda. Quando a arte desonesta não despe as figuras, veste-as de feitio que pelo ondeado das roupas transparentes esteja o pecado a fazer negaças a conjecturas tais que, certo estou, Calisto Elói, antes de se empestar em Lisboa, se tais impudicícias visse, romperia no Parlamento os vesúvios da sua eloquente indignação. E a posteridade, ajuizando da moral desta nossa idade de limos e alforrecas, viria a este lameiral esgaravatar a pérola da idade áurea, caída dos lábios do marido de D. Teodora , a qual, segundo fica dito, dormia de touca e lencinho de algodão de três pontas. Esta peregrina imagem não bastou a desandar Calisto pelo caminho de Lisboa, e do seu gabinete, onde os pergaminhos dos seus livros pareciam rever lágrimas de amigos descaroavelmente desprezados. O infeliz não desfitava olhos de certa janela, desde que vira perpassar uma luz pelos resquícios das portadas. Podia a traída Teodora antepor-se aos olhos extasiados do esposo, com a pudenta touca, ou com as madeixas estreladas de brilhantes, que ele não a via nem queria ver.” CASTELO BRANCO:s. d O que vocês podem notar neste trecho de A queda de um anjo? Vamos percorrendo o texto juntos. O que logo salta aos olhos é o rico vocabulário do autor, o que talvez dificulte a leitura dos menos acostumados à ‘dicção’ lusitana e ainda do século XIX. Mas percebemos que todo o texto se passa praticamente na mente do personagens Calisto. Ele se encontra parado nos muros da quinta de Adelaide. Ele a deseja, sonha com ela, mas é comprometido com D. Teodora. O narrador nos mostra a sua índole com certa ironia e humor. A imagem da mulher de touca e lencinho azul chega a ser patética e a reação de Calisto é cínica: as suas lembranças não o fazem recuar, nem o frio o demove de suas intenções. Mesmo sabendo que o trabalho o espera em casa, ele não arreda o pé, esperando uma brecha para ver Adelaide. 58 AULA 4 • O REALISMO E O ROMANTISMO EM PORTUGAL Podemos perceber aí a arte narrativa de Camilo Castelo Branco, a sutileza com que desenha o perfil de seu personagem, a construção de seu caráter duvidoso e de sua índole frívola. Nada disso é dito explicitamente, mas mostrado por meio de subterfúgios e sugestões. Essa é uma das grandes qualidades artísticas de Camilo. A ironia também é um recurso usado pelo narrador. Vejam a seguinte passagem: “É que as toucas e lencinhos pudibundos, sobre não serem enfeites muito sedutores, algumas vezes tornam a virtude rançosa e tão somente boa para adubar palestra de avós com as netas casadoiras.” De certa forma, narrador e personagem se confundem, pois não ficamos sabendo (apenas com esse trecho) se isso é uma crítica do narrador ou se é uma conjetura do personagem. Conhecendo a obra do autor, podemos afirmar que aí está a vozde um narrador crítico que defende o amor e ridiculariza o que o obstaculiza. Sintetizando Vimos até agora: » Eça de Queirós, que foi o grande representante do Realismo português. » A importância do Romantismo, seus conceitos principais e o que esse movimento trouxe de novidade à Literatura Portuguesa a partir de suas três vertentes, ou seja, em seu desenvolvimento ao longo do tempo, através dos três autores românticos mais representativos. 59 Introdução Nesta aula conheceremos o que foi o Barroco português, com seu representante Pe. Antônio Vieira, e mergulharemos no fecundo século XVI, em que as ideias renascentistas fizeram nascer o grande escritor português, Luís de Camões. Passearemos um pouco por sua monumental e tão variada obra. Objetivos » Conhecer os conceitos de cultismo e conceptismo, característicos do estilo literário barroco. » Perceber as estratégias argumentativas de Vieira e os seus sermões. » Compreender os ideais renascentistas presentes na obra de Camões e conhecer a diversidade de sua produção literária. 5 AULA O BARROCO PORTUGUÊS E O FECUNDO SÉCULO XVI COM SUAS IDEIAS RENASCENTISTAS 60 AULA 5 • O BARROCO PORTUGUÊS E O FECUNDO SÉCULO XVI COM SUAS IDEIAS RENASCENTISTAS O barroco Estamos no século XVII, período em que Portugal sofre o domínio espanhol (1580 - 1640), passa pela Reforma e instaura a Contrarreforma com a tão famigerada Inquisição. Na Europa, o barroco foi fecundo e a Espanha produziu escritores de enorme importância como Cervantes, Gôngora, Quevedo, Lope de Veja, Calderón de La Barca, entre outros. Os portugueses, no entanto, se esforçam para preservar independentes a língua e a literatura, como forma de resistência. Por isso, cultivam uma atitude passadista, exaltando os heróis do passado como Camões, Vasco da Gama ou D. Sebastião. A literatura portuguesa não foi fecunda em relação à produção barroca. Foi um tempo de grandes contradições, uma vez que a mentalidade ficava dividida entre a religiosidade de influência medieval e as novas tendências do Renascimento que preconizava a valorização da vida e do homem. Durante a sua vigência, cultivaram-se a oratória, a prosa doutrinária, a poesia, a historiografia, a epistolografia e o teatro. A maior figura dessa época foi o padre Antônio Vieira, não só por sua ação pessoal ou pelos méritos de sua oratória, como também por sua obra epistolográfica. Em relação ao estilo, duas características marcam a linguagem barroca: o cultismo e o conceptismo. O cultismo é o rebuscamento formal da linguagem e aparece mais na poesia. Também chamado de gongorismo (por influência de Gôngora, escritor espanhol), o cultismo explora excessivamente as figuras de linguagem e os recursos sensoriais. O conceptismo é o jogo de ideias ou de conceitos construídos pelo pensamento lógico em que aparece o uso de analogias, exemplificações e algumas metáforas. Padre Antônio Vieira (1608 – 1697) Vieira é mais conhecido por seus sermões polêmicos nos quais criticava o despotismo dos colonos portugueses no Brasil, a escravização dos índios, a Inquisição, a influência negativa do protestantismo na colônia e também os pregadores que não faziam direito o seu trabalho de evangelizar. Ele escreveu mais de duzentos sermões em estilo conceptista que privilegiava a retórica e o encadeamento lógico das ideias e conceitos. Seus sermões mais conhecidos são: Sermão da Sexagésima (1655), Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda (1640) e o Sermão de Santo Antônio (1654), também conhecido como o Sermão dos peixes. Vieira era um homem de ação, destemido e, por isso, odiado por muitos. Valendo-se do púlpito, ele falava às massas constituídas de brancos, índios e negros, a brasileiros, africanos e portugueses, a dominados e dominadores, pondo em prática as suas ideias. Seus sermões eram-lhe uma arma política. Vou mostrar a vocês uma parte do Sermão da Sexagésima por ser um texto de interessante valor. Nele, Vieira explicita os passos de um bom sermão e o faz com excelente técnica argumentativa. 61 O BARROCO PORTUGUÊS E O FECUNDO SÉCULO XVI COM SUAS IDEIAS RENASCENTISTAS • AULA 5 Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há de haver três concursos: há de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há de concorrer Deus com a graça alumiando. Para um homem ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro de si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho que é a doutrina; Deus concorre com a luz que é graça; o homem concorre com os olhos que é conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles havemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus? Primeiramente, por parte de Deus, não falta nem pode faltar. Esta proposição é de fé, definida no Concílio Tridentino, e no nosso Evangelho a temos. Do trigo que deitou à terra um semeador uma parte se logrou e três se perderam. E por que se perderam estas três? A primeira perdeu-se, porque a afogaram os espinhos; a segunda, porque a secaram as pedras; a terceira porque a pisaram os homens, e a comeram as aves. Isto é o que diz Cristo; mas notai o que não diz. Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por causa do sol ou da chuva. A causa por que ordinariamente se perdem as sementeiras, é pela desigualdade e pela intemperança dos tempos, ou porque falta ou sobeja a chuva ou porque falta ou sobeja o sol. Pois porque não introduz Cristo na parábola do evangelho algum trigo que se perdesse por causa do sol ou da chuva? Porque o sol e a chuva são influências da parte do céu, e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus, nunca é por falta do céu, sempre é por culpa nossa. Deixará de frutificar a sementeira, ou pelo embaraço dos espinhos, ou pela dureza das pedras, ou pelos descaminhos dos caminhos; mas por falta das influências do céu, isso nunca é, nem pode ser. Sempre Deus está pronto de sua parte, com o sol para aquentar e com a chuva para regar; com o sol para alumiar, e com a chuva para amolecer, se os nossos corações quiserem. [...] Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus; aos maus se quiserem fazer bons, como a negará? Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais provas. Sendo pois certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus, segue-se, que ou é por falta do pregador, ou por falta dos ouvintes. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes, mas não é assim. Se fora por parte dos ouvintes, não fizera a palavra de Deus muito grande fruto, mas não fazer nenhum fruto, e nenhum efeito, não é por parte dos ouvintes. Provo. Os ouvintes ou são maus ou são bons: se são bons, faz neles grande fruto a palavra de Deus; se são maus, ainda que não faça neles fruto, faz efeito. No Evangelho o temos. O trigo que caiu nos espinhos, nasceu, mas afogaram-no. [...] O trigo que caiu nas 62 AULA 5 • O BARROCO PORTUGUÊS E O FECUNDO SÉCULO XVI COM SUAS IDEIAS RENASCENTISTAS pedras, nasceu também; mas secou-se. [...] O trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou com grande multiplicação. [...] De maneira que o trigo que caiu na boa terra, nasceu e frutificou; o trigo que caiu na má terra, não frutificou, mas nasceu; porque a palavra de Deus é tão fecunda que nos bons faz muito fruto, e étão eficaz que nos maus, ainda que não faça fruto, faz efeito; lançada nos espinhos, não frutificou, mas nasceu até nos espinhos; lançada nas pedras, não frutificou, mas nasceu até nas pedras. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus, são as pedras e os espinhos. E por quê? Os espinhos por agudos, as pedras por duras. Ouvintes de entendimento agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os piores que há. Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes, porque vêm só a ouvir sutilezas, a esperar galanterias, a avaliar pensamentos, e ás vezes também a picar a quem não os pica. [...] O trigo não picou os espinhos, antes os espinhos o picaram a ele: e o mesmo sucede cá. Cuidas que o sermão vos picou a vós, e não é assim; vós sois quem picais o sermão. Por isto são maus ouvintes os de entendimentos agudos. Mas os de vontades endurecidas ainda são piores, porque um entendimento agudo pode-se ferir pelos mesmos fios, e vencer-se uma agudeza com outra maior; mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza, antes dana mais, porque quanto as setas são mais agudas, tanto mais facilmente se despontam na pedra. Oh! Deus nos livre de vontades endurecidas, que ainda são piores que as pedras. A vara de Moisés abrandou as pedras, e não pôde abrandar uma vontade endurecida. [...] E com os ouvintes de entendimentos agudos, e os ouvintes de vontades endurecidas serem os mais rebeldes, é tanta a força da divina palavra, que apesar da agudeza nasce nos espinhos, e apesar da dureza nasce nas pedras. Pudéramos arguir ao lavrador do Evangelho, de não cortar os espinhos, e de não arrancar as pedras antes de semear, mas de indústria deixou no campo as pedras e os espinhos, para que se visse a força do que semeava. É tanta a força da divina palavra que sem cortar nem despontar espinhos, nasce entre espinhos. É tanta a força da divina palavra, que sem arrancar nem abrandar pedras, nasce nas pedras. Corações embaraçados como espinhos, corações duros e secos como pedras, ouvi a palavra de Deus e tende confiança; tomai exemplo nessas mesmas pedras, e nesses espinhos. Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do céu, mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem, e esses mesmos espinhos o coroem. Quando o semeador do céu deixou o campo, saindo deste mundo, as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações, e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa. E se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa; se a palavra de Deus até nas pedras, e nos espinhos nasce; não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus, nem nascer nos corações, não é por culpa, nem por indisposição dos ouvintes. Supostas estas duas demonstrações; suposto que o fruto e efeitos da palavra de Deus, não fica, nem por parte de Deus, nem por parte dos ouvintes, segue-se por consequência clara que fica por parte do pregador. E assim é. Sabeis, cristãos, por que não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa dos pregadores. Sabeis, pregadores, por que não faz fruto a palavra de Deus? Por culpa nossa. Apud MOISÉS:s.d 63 O BARROCO PORTUGUÊS E O FECUNDO SÉCULO XVI COM SUAS IDEIAS RENASCENTISTAS • AULA 5 Vejam vocês o poder argumentativo de Vieira. Ele atinge seus ouvintes de modo direto e insinuante; não teme os de sua classe e aponta a sua crítica aguda aos próprios padres que falham no trabalho de evangelização. O pregador convoca a assistência por meio de interrogações que a levam ao mais profundo do tema que está desenvolvendo. Vieira faz uso do processo associativo, trazendo exemplos do evangelho como argumento de autoridade, ilustração e convencimento. Sua astúcia argumentativa apanha desprevenido o ouvinte que não tem como escapar e acaba assimilando a sua mensagem. As palavras abaixo são do próprio Vieira, que, sinteticamente, define a arte retórica dos sermões: “O estilo há de ser muito fácil e muito natural.” “O sermão há de ter um só assunto e uma só matéria.” “As razões não hão de ser enxertadas, hão de ser nascidas. O pregar não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento, as alheias vão pegadas à memória, e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento.” Renascimento Vamos agora dar mais um passo para trás no tempo. Estamos agora no século XVI, quando aconteceram as grandes navegações marítimas e Portugal passou a ser a nação mais importante da Europa. Vocês sabem que Vasco da Gama, navegante português, foi o primeiro a, oficialmente, chegar às Índias, em 1490. Essa viagem veio comprovar algumas teorias científicas da época e derrubar alguns mitos em que muitos ainda acreditavam. A viagem mostrou que a Terra era redonda e que não havia abismos nem monstros a engolirem as embarcações na virada do Cabo da Boa Esperança. Com a expansão marítima, não só Portugal, mas também toda a Europa vivem uma verdadeira revolução, uma vez que o acesso ao Oriente estava aberto e um franco intercâmbio se inaugurava entre Ocidente e Oriente. O comércio se ampliava, novos produtos passaram a ser conhecidos como as especiarias da Índias, as culturas dialogavam e um mundo clássico foi redescoberto com o ir e vir dos homens em busca de riquezas. A Itália passa a ser o grande centro cultural da Europa, as artes abandonam a velha estética medieval e teocêntrica e passam a retratar o homem como centro do universo. Com isso, uma gama de possibilidades se abriu para o ser humano, que passou a ser visto, não só em relação à sua corporidade, como também em relação ao seu espírito, aos seus problemas, às suas contradições e contradições em relação ao viver. O Renascimento ou Classicismo conheceu uma nova forma de comércio que foi o mercantilismo, teve suas monarquias fortalecidas e viveu um arejamento religioso com as ideias de Lutero que trouxe a Reforma como uma nova possibilidade religiosa. A Igreja Católica, pressionada, vigia e pune seus opositores por meio do aparato vigilante e severo da Inquisição. Certamente o período mais negro da Igreja. 64 AULA 5 • O BARROCO PORTUGUÊS E O FECUNDO SÉCULO XVI COM SUAS IDEIAS RENASCENTISTAS Com liberdade maior de deslocamento, muito conhecimento novo é adquirido, as cidades se desenvolvem com o comércio e se transformam em grandes centros mercantis, o que originou uma nova classe social – a burguesia. Os artistas entraram em contato direto com o mundo grego e com o Oriente (China, Índia e Japão) e de lá trouxeram inspirações filosóficas, artísticas e literárias. Tudo isso somado aos novos conhecimentos relacionados às navegações (cartografia, astrologia e cosmologia) provocou uma grande revolução social, política e cultural na Europa. O mundo e os homens se abriram para o universalismo e para o racionalismo - não mais a religião e a fé explicando os mistérios da vida, mas a razão. Portugal estava mergulhado no espírito aventureiro das grandes navegações, mas, em termos de literatura, somente com Camões é que o novo estilo se mostrou mais claramente. Camões, em sua obra, conseguiu harmonizar a tradição medieval, as novas ideias humanistas e o espírito aventureiro e desbravador de sua época e das gentes de seu país. Luís de Camões (cerca de 1525 – 1580) Camões foi um homem culto, frequentou a universidade e conheceu o Oriente, pois lá ficou exilado cerca de 15 anos. Era um homem das letras, que optou pelas armas, se tornando cavaleiro e tendo participado de batalhas no Oriente. No entanto, escreveu, nas horas vagas, toda a sua obra que se desdobra em duas partes: a parte lírica (redondilhas, sonetos, odes, éclogas e elegias) e a parte épica (Os Lusíadas) Só para vocês lembrarem: Redondilhas: é o nome dado, a partir do século XVI, aos versos de cinco ou sete sílabas — a chamada medida velha. Aos de cinco sílabas dá-se o nome de redondilha menor e aos de sete sílabas, de redondilha maior. Soneto: composição poética formada por dois quartetos (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de três versos). Ode: poema de exaltação a determinada pessoa.Éclogas: poema pastoril dialogado. Elegia: poema de fundo melancólico. Os Lusíadas é um poema épico, composto em dez cantos, 1102 estrofes e se divide em três partes, seguindo o modelo das epopeias greco-latinas (Ilíada e Odisseia, de Homero e Eneida de Virgílio): 1) Introdução que se divide em proposição, invocação e dedicatória; 2) Narração em que a viagem propriamente dita é narrada; e 3) Epílogo. Um poema épico é uma composição que exalta feitos de um herói que representa as façanhas coletivas de uma nação. Em Os Lusíadas, o herói é Vasco da Gama, mas, na verdade, nele está encarnado todo o povo português. Camões narra toda a viagem às Índias e sua narrativa é 65 O BARROCO PORTUGUÊS E O FECUNDO SÉCULO XVI COM SUAS IDEIAS RENASCENTISTAS • AULA 5 entremeada por diferentes níveis: o nível dos fatos históricos narrados diretamente pelo poeta; o nível mítico, em que os deuses do Olimpo interferem na narrativa com suas tramas, ora protegendo os portugueses (Vênus e Marte), ora os prejudicando (Netuno e Baco); o nível dos fatos históricos, mas contidos na narrativa de Vasco da Gama; e o nível das profecias. Alguns episódios de Os Lusíadas ficaram famosos pela história que contam e também pela densidade de sua narrativa: no canto III, há a história de Inês de Castro, amante do príncipe D. Pedro, assassinada a mando do rei; no canto IV, há o discurso contundente e crítico do velho do Restelo no momento em que Vasco da Gama parte com sua tripulação rumo às Índias; no canto V, quando as naus estão cruzando o Cabo da Boa Esperança (ou Cabo das Tormentas), no sul da África, há o episódio do Gigante Adamastor, que surge como uma ameaça aos navegadores temerosos e inseguros de passarem naquele local; no canto IX, já de regresso à pátria, Vênus oferece aos navegadores vitoriosos um prêmio idílico – a Ilha dos Amores. Desses, eu destaco para vocês lerem o do Gigante Adamastor. Por ser um episódio grande, transcreverei apenas uma parte para que vocês possam sentir a grandeza e perfeição desse épico português. Porém já cinco Sóis eram passados Que dali nos partíramos, cortando Os mares nunca de outrem navegados, Prosperamente os ventos assoprando, Quando uma noite, estando descuidados Na cortadora proa vigiando, Uma nuvem, que os ares escurece, Sobre nossas cabeças aparece. Tão temerosa vinha e carregada, Que pôs nos corações um grande medo; Bramindo, o negro mar de longe brada, Como se desse em vão nalgum rochedo. “Ó Potestade (disse) sublimada: Que ameaço divino ou que segredo Este clima e este mar nos apresenta, Que mor cousa parece que tormenta?” Não acabava, quando uma figura Se nos mostra no ar, robusta e válida, De disforme e grandíssima estatura; O rosto carregado, a barba esquálida, Os olhos encovados, e a postura Medonha e má e a cor terrena e pálida; Cheios de terra e crespos os cabelos, A boca negra, os dentes amarelos. 66 AULA 5 • O BARROCO PORTUGUÊS E O FECUNDO SÉCULO XVI COM SUAS IDEIAS RENASCENTISTAS Tão grande era de membros, que bem posso Certificar-te que este era o segundo De Rodes estranhíssimo Colosso, Que um sete milagres foi do mundo. Cum tom de voz nos fala,horrendo e grosso, Que pareceu sair do mar profundo. Arrepiam-se as carnes e o cabelo, A mim e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo. E disse: “Ó gente ousada, mais que quantas No mundo cometeram grandes cousas, Tu, que por guerras cruas, tais e tantas, E por trabalhos vãos nunca repousas, Pois os vedados términos quebrantas E navegar meus longos mares ousas, Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho, Nunca arados de estranho ou próprio lenho: Pois vens ver os segredos escondidos Da natureza e do úmido elemento, A nenhum grande humano concedidos De nobre ou de imortal merecimento, Ouve os danos de mim apercebidos Estão a teu sobejo atrevimento, Por todo o largo mar e pola terra Que inda hás de subjugar com dura guerra. Sabe que quantas naus esta viagem Que tu fazes, fizerem, de atrevidas, Inimiga terão esta paragem, Com ventos e tormentas desmedidas! E da primeira armada, que passagem Fizer por estas ondas insofridas, Eu farei de improviso tal castigo, Que seja mor o dano que o perigo! Aqui espero tomar, se não me engano, De quem me descobriu suma vingança, E não se acabará só nisto o dano De vossa pertinace confiança: Antes, em vossas naus vereis, cada ano, Se é verdade o que meu juízo alcança, Naufrágios, perdições de toda sorte, Que o menor mal de todos seja a morte! 67 O BARROCO PORTUGUÊS E O FECUNDO SÉCULO XVI COM SUAS IDEIAS RENASCENTISTAS • AULA 5 E do primeiro Ilustre, que a ventura Com fama alta fizer tocar os Céus, Serei eterna e nova sepultura, Por juízos incógnitos de Deus. Aqui porá da Turca armada dura Os soberbos e prósperos troféus; Comigo de seus danos o ameaça A destruída Quíloa com Mombaça. [...] Verão morrer com fome os filhos caros, Em tanto amor gerados e nascidos; Verão os Cafres, ásperos e avaros, Tirar à linda dama seus vestidos; Os cristalinos membros e preclaros À calma, ao frio, ao ar, verão despidos, Depois de ter pisada, longamente, Cos delicados pés a areia ardente. E verão mais os olhos que escaparem De tanto mal, de tanta desventura, Os dois amantes míseros ficarem Na férvida e implacável espessura. Ali, depois que as pedras abrandarem Com lágrimas de dor, de mágoa pura, Abraçados, as almas soltarão Da fermosa e misérrima prisão.” Mas ia por diante o monstro horrendo, Dizendo nossos Fados, quando, alçado, Lhe disse eu: “Quem és tu? Que esse estupendo Corpo, certo, me tem maravilhado!” A boca e os olhos negros retorcendo E, dando um espantoso e grande brado, Me respondeu, com voz pesada e amara, Como quem da pergunta lhe pesara: CAMÕES: s.d. Esse episódio do Gigante Adamastor é de fundamental importância na estrutura de Os Lusíadas, pois foi uma forma que Camões encontrou de exaltar ainda mais a viagem de Vasco da Gama. O Gigante era um promontório envolto em nevoeiro que, com a arte camoniana, se transforma num monstrengo bem à semelhança de outros, presentes na literatura e mitologia gregas. Camões introduz esse episódio bem no meio da viagem e no meio da narrativa. Vasco da Gama estava prestes a fazer a ‘curva’ africana, no local onde os supersticiosos diziam que o mundo acabava e 68 AULA 5 • O BARROCO PORTUGUÊS E O FECUNDO SÉCULO XVI COM SUAS IDEIAS RENASCENTISTAS que havia um grande abismo no qual eram lançadas as naus que por ali passassem. O episódio mostra de forma hiperbólica a iminente passagem dos portugueses por esse ponto. As profecias de Adamastor, ao invés de depreciarem os feitos portugueses, exaltavam-nos ainda mais, uma vez que o próprio gigante se desfaz aos olhos dos navegadores no final do episódio. Esse é um ponto crucial tanto da viagem quanto da narrativa. Segundo Massaud Moisés, o episódio representa “o estágio mais elevado atingido por Camões em matéria de grandioso e de maravilhoso: a solenidade trágica e espetaculosa da fala de Adamastor casa-se coerentemente com a mistura de ficção e realidade que compõe a personalidade do gigante...” (MOISÉS: s.d.) Adamastor congrega em si os dois polos do temperamento português: de um lado, a bravura, a coragem e a ousadia; de outro, a amorosidade. O fato de os portugueses conseguirem passar pelo cabo africano, depois de enfrentar o gigante e de ouvir dele terríveis profecias e de anularem as suas ameaças, faz deles ainda mais valorosos e de seus feitos, mais extraordinários. Mas há o outro lado do Camões épico, que é o lírico. O Camões das redondilhas e dos sonetos, conhecidos e declamados até hoje. A sua obra lírica é também de uma perfeição formal incrível cujo conteúdo é denso e muito profundo. Camões consegue nos mostrar em essência as contradições humanas, o mal-estar de viver no mundo, a angústia da passagem do tempo, da incessante mudança das coisas. É famoso em Camões o tema do desconcerto do mundo, da inadaptação do homem e de seu sofrimento causado pelo desengano e pela perplexidade diante da vida. Também é explorada por Camões a lírica amorosa, na qualse vê dois tipos de poemas: os do amor sensual e os do amor platônico. Vou tentar mostrar a vocês um exemplo de cada um desses enfoques camonianos. A dor do amor: MOTE Pois dano me faz olhar-vos, Não quero, por não perder-vos, Que ninguém me veja ver-vos. VOLTAS De ver-vos a não vos ver Há dous extremos mortais, E são eles em si tais Que um por um me faz morrer; Mas antes quero escolher Que possa viver sem ver-vos, Minha alma, por não perder-vos. Deste tamanho perigo Que remédio posso ter? 69 O BARROCO PORTUGUÊS E O FECUNDO SÉCULO XVI COM SUAS IDEIAS RENASCENTISTAS • AULA 5 Se vivo só com vos ver, Se vos não vejo, perigo. Quero acabar comigo: Que ninguém me veja ver-vos, Senhora, por não perder-vos. CAMÕES: 1969 Essa redondilha nos mostra as contradições do amor: se o eu lírico vê sua amada, perde-a, mas se não a vê, sofre. Ele, no entanto, prefere sofrer a perdê-la. O desconcerto do mundo: AO DESCONCERTO DO MUNDO Os bons vi sempre passar No mundo graves tormentos; E para mais me espantar, Os maus vi sempre nadar Em mar de contentamentos. Cuidando alcançar assim O bem tão mal ordenado, Fui mal, mas fui castigado. Assim que só para mim Anda o mundo concertado. CAMÕES: 1969 Nesse poema, Camões se mostra extremamente sensível à contradição entre o mérito pessoal e a situação real do indivíduo na sociedade. O amor idealizado: Transforma-se o amador na cousa amada Por virtude do muito imaginar; Não tenho logo mais que desejar, Pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, Que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, Pois consigo tal alma está liada. Mas que linda e pura semideia, Que, como o acidente em seu sujeito, Assim com a alma minha se conforma, Está no pensamento como ideia; 70 AULA 5 • O BARROCO PORTUGUÊS E O FECUNDO SÉCULO XVI COM SUAS IDEIAS RENASCENTISTAS [E] o vivo e puro amor de que sou feito, Como a matéria simples busca a forma. CAMÕES: 1969 Nesse soneto, Camões desenvolve sucintamente a teoria platônica do amor. Vocês podem notar que o eu lírico assume a presença da mulher amada, se projeta no objeto (amada) que não é real, pois é uma imagem abstraída criada por ele. As mudanças: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, Diferentes em tudo da esperança; Do mal ficam as mágoas na lembrança, E do bem, se algum houve, as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto, Que já coberto foi de neve fria, E em mim converte em choro o doce canto. E, afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz do mor espanto, Que não se muda já como soia. CAMÕES: 1969 Este soneto representa o pensar de Camões sobre as mudanças. Mudanças das estações, mudanças dos homens, mudanças dos tempos e dos sentimentos. Percebemos que é a ansiedade do eu lírico o ponto gerador do poema e que ele mostra grande perplexidade diante de cada mudança. Para terminarmos nossa leitura desse grande poeta que foi Luís de Camões, apresento a vocês o talvez mais famoso e mais conhecido soneto de Camões, que tem como tema o paradoxo do amor. Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer; É um não querer mais que bem querer; É solitário andar por entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É cuidar que se ganha em se perder; 71 O BARROCO PORTUGUÊS E O FECUNDO SÉCULO XVI COM SUAS IDEIAS RENASCENTISTAS • AULA 5 É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence, o vencedor; É ter com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos amizade, Se tão contrário a si é o mesmo amor? CAMÕES: 1969 O que dizer sobre esse soneto tão explícito? É um poema que retrata profundamente o sentimento do amor, que contraria as leis da lógica e da razão. Camões consegue, por meio de um jogo de antíteses, mostrar com grande clareza esse sentimento tão contraditório e tão conhecido dos seres humanos. Não há razão que possa descrever esse sentimento, uma vez que ele em si é contrário a si mesmo, como o poeta afirma no último verso. Sintetizando Vimos até agora: » Os conceitos de cultismo e conceptismo, característicos do estilo literário barroco. » As estratégias argumentativas de Pe. Antonio Vieira e os seus sermões. » O fecundo século XVI, em que as ideias renascentistas fizeram nascer o grande escritor português, Luís de Camões e a diversidade de sua produção literária. 72 Introdução Chegamos, então, aos primórdios da Literatura Portuguesa. Conheceremos o Humanismo de Garcia de Resende, no seu Cancioneiro Geral, e ainda o grande teatrólogo das cortes palacianas, Gil Vicente. Veremos a historiografia de Fernão Lopes e, finalmente, visitaremos o Trovadorismo e as primeiras produções literárias em Portugal - as cantigas. Objetivos » Conhecer as raízes de onde brotaram as produções literárias portuguesas. » Conhecer o Cancioneiro Geral como a grande coleção de poemas palacianos compilados por Garcia de Resende, que também foi autor de belos poemas. » Compreender a importância de Fernão Lopes na construção da identidade nacional portuguesa. » Reconhecer as Cantigas como produções literárias que se encontram nos primórdios da Língua Portuguesa, quando ainda não havia diferenciação entre o galego e o português. 6 AULA OS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA PORTUGUESA 73 OS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA PORTUGUESA • AULA 6 O humanismo Os trovadores desaparecem e Portugal vive quase um século de estagnação cultural. No século XV, porém, as cortes portuguesas começam a receber as novidades vindas da Itália e se interessam por incrementar a cultura. Nos palácios surge uma poesia mais elaborada, bastante diferente dos antigos trovadores, com novos recursos estilísticos e novas formas de fazer poesia. Surgem, nessa época, a trova, a esparsa e o vilancete. A trova é um poema formado por uma única estrofe (poesia monostrófica), com sete sílabas métricas ou poéticas (redondilha maior) em cada um dos seus quatro versos, que devem oferecer ao leitor o significado completo da mensagem a ser transmitida. A rima é obrigatória. A esparsa é um tipo de poema que foi difundido na Península Ibérica a partir do século XV. É formado por uma única estrofe, que pode ter de oito a dezesseis versos em redondilha maior (sete sílabas poéticas). É um poema lírico com rima também obrigatória. O vilancete é um tipo especial de glosa (composição poética que desenvolve um mote), a qual consiste num desdobramento de um mote em tantas estrofes (voltas) quantos são os versos do mote. No vilancete o mote é um terceto, em que rimam o segundo e o terceiro versos; as voltas são duas e repetem esses versos. Garcia de Resende (cerca de 1470 – 1536) Garcia de Resende foi um poeta, protegido de reis, que, além de produzir poemas já na medida nova, foi o encarregado de compilar os textos de poetas palacianos da época. Então, em 1516, é publicado o Cancioneiro Geral. A preocupação de Resende era que tais poesias não se perdessem, por isso, ele coleta todas, sem fazer uma seleção, o que torna o Cancioneiro uma coletânea um tanto desigual em termos de qualidade de textos. Vou mostrar para vocês uma das obras mais conhecidas de Garcia de Resende, que são as suas Trovas à morte de D. Inês de Castro. Obviamente, vou lhes dar apenas um fragmento da obra que é bastante extensa. Trovas à morte de D. Inês de Castro Fala D. Inês: Qual será o coração Tão cru, e sem piedade, Que lhe não cause paixão Uma tam grã crueldade E morte tão sem razão? Triste de mim, inocente, Que por ter muito fervente Lealdade, fé, amor, Ao príncipe meu senhor, Me mataram cruelmente! [...] 74 AULA 6 • OS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA PORTUGUESA Eu era moça, menina, Por nome D. Inês De Castro, e de tal doutrina E virtudes, que era dina De meu mal ser ao revés. Vivia sem me lembrar Que paixão podia dar Nem dá-la ninguém a mim: Foi-me o príncipeencontros da vida vão fazendo romper do tronco central, também lhe faltava quem ajudasse as suas raízes a penetrar até às camadas subterrâneas mais fundas, quem apurasse a consistência e o sabor de seus frutos, quem ampliasse e robustecesse a sua copa para fazer dela abrigo de aves migrantes e amparo de ninhos. Ao pintar os meus pais e os meus avós com tintas de literatura, transformando-os, de simples pessoas de carne e osso que haviam sido, em personagens novamente e de outro modo construtoras da minha vida, estava, sem o perceber, a traçar o caminho por onde as personagens que viesse a inventar, as outras, as efetivamente literárias, iriam fabricar e trazer-me os materiais e as ferramentas que, finalmente, no bom ou no menos bom, no bastante e no insuficiente, no ganho e no perdido, naquilo que é defeito mas também naquilo que é excesso, acabariam por fazer de mim a pessoa em que hoje me reconheço: criador dessas personagens, mas, ao mesmo tempo, criatura delas. Em certo sentido, poder-se-á mesmo dizer que, letra a letra, 9 A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA • AULA 1 palavra a palavra, página a página, livro a livro, tenho vindo sucessivamente, a implantar no homem que fui as personagens que criei. Creio que sem elas, não seria a pessoa que hoje sou, sem elas talvez a minha vida não tivesse logrado ser mais do que um esboço impreciso, uma promessa como tantas outras que de promessa não conseguiram passar, a existência de alguém que talvez pudesse ter sido e afinal não tinha chegado a ser. Agora sou capaz de ver com clareza quem foram os meus mestres de vida, os que mais intensamente me ensinaram o duro ofício de viver, essas dezenas de personagens de romance e de teatro que neste momento vejo desfilar diante dos meus olhos, esses homens e essas mulheres feitos de papel e tinta, essa gente que eu acreditava ir guiando de acordo com as minhas conveniências de narrador e obedecendo a minha vontade de autor, como títeres articulados cujas ações não pudessem ter mais efeito em mim que o peso suportado e a tensão dos fios com que os movia. [...] Como vocês devem ter observado, esse belíssimo trecho nos mostra a densidade das personagens criadas por José Saramago. Sua relação com elas é quase vital, uma vez que ele chega a chamá-las de “mestres de vida”. Então, vamos pensar juntos: seus primeiros personagens foram seus pais e seus avós e, ao olhá-los à distância no tempo, ele percebe qual era o seu lugar no mundo, ou seja, diante da falta que o anonimato campesino sofria, “faltava quem ajudasse as suas raízes a penetrar até às camadas subterrâneas mais fundas, quem apurasse a consistência e o sabor de seus frutos, quem ampliasse e robustecesse a sua copa para fazer dela abrigo de aves migrantes e amparo de ninhos”. O autor, então, alimentado pela seiva desses personagens, faz deles matéria e ferramenta para a sua criação e para a sua vida. Ele se torna criatura de suas criações! Dessa forma, vemos o quanto sua produção escrita é visceral, ou seja, o próprio escritor vai se construindo, não só como autor, mas também como pessoa humana, ao criar suas personagens. Talvez esse seja um dos motivos por que sua obra é densa e intensa. Nela se misturam palavra e vida, narrador e personagens, possibilitando ao autor cada vez mais alargar seus horizontes de visão para o mundo mais amplo de pessoas sofridas e encerradas no anonimato de seus cotidianos, mas sobre as quais, em seus contextos narrados, o autor projeta um horizonte de esperança e utopia, sem poupar os algozes dessa situação. Para que vocês possam conhecer e saborear mais de perto a prosa de Saramago, transcrevo a seguir um trecho de seu livro O evangelho segundo Jesus Cristo. Observem a superposição dos planos da narrativa, os diálogos, o uso das maiúsculas, a pontuação característica de Saramago, a ausência de parágrafos e o fluxo contínuo de sua narrativa: [...] E no último dia já Jesus foi ao mar, na barca de dois irmãos que se chamavam Simão e André, mais velhos do que ele, nenhum dos dois tinha menos de trinta anos. No meio das águas, Jesus, sem experiência do ofício, ele próprio rindo da sua falta de habilidade, atreveu-se, incitado pelos novos amigos, a lançar a 10 AULA 1 • A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA rede, naquele largo gesto que, olhando de longe, se parece com uma bênção ou um desafio, sem outro resultado que quase ter caído à água de uma das vezes em que o tentou. Simão e André riram muito, já sabiam que Jesus só percebia de cabras e ovelhas, e Simão disse, Melhor vida seria a nossa se este outro gado se deixasse levar e trazer, e Jesus respondeu, Pelo menos não se perdem, não se tresmalham, estão aqui todos na concha do mar, todos os dias a fugir da rede, todos os dias a cair nela. A pesca não tinha sido frutuosa, o fundo do barco estava pouco menos que vazio, e André disse, Mano, vamos para casa, que este dia já deu o que tinha a dar. Simão assentiu, Tens razão, mano, vamos lá. Enfiou os remos nos toletes e ia dar a primeira das remadas que os levariam às margens, quando Jesus, não creiamos que por inspiração ou pressentimento de marca maior, foi um modo, apenas, ainda que inexplicável, de demonstrar a sua gratidão, propôs que se fizessem três últimas tentativas, Quem sabe se o rebanho dos peixes, conduzido pelo seu pastor, terá vindo cá para o nosso lado. Simão riu, Essa é outra vantagem que têm as ovelhas, poderem ser vistas, e para André, Lança lá a rede, se não se ganha, também não se perde, e André lançou a rede e a rede veio cheia. Arregalaram-se de espanto os olhos dos dois pescadores, mas o assombro transformou-se em portento e maravilha quando a rede, lançada mais uma vez e outra ainda, voltou cheia duas vezes. De um mar que tão deserto de pescado antes parecera, como a água duma infusa posta à boca da fonte límpida, saíam, com nunca vista profusão, torrentes luzidias de guelras, dorsos e barbatanas em que a vista se confundia. Perguntaram Simão e André como soubera ele que o peixe ali chegara de um momento para o outro, que olhar de lince se apercebera do movimento profundo das águas, e Jesus respondeu que não, que não sabia, fora apenas uma ideia, experimentar a sorte uma última vez antes de regressarem. Não tinham os dois irmãos motivos para duvidar, o acaso faz destes e outros milagres, mas Jesus, dentro de si, estremeceu, e no silêncio da sua alma perguntou, Quem fez isso. (p.273-275) Como vocês perceberam, nesse trecho, diversas vozes se sobrepõem: a voz do narrador narrando a história, vozes das personagens dialogando entre si e ainda a voz do narrador comentando com o leitor (...não creiamos que por inspiração ou pressentimento de marca maior, foi um modo, apenas, ainda que inexplicável, de demonstrar a sua gratidão...). Agora deixo para vocês pensarem e depreenderem do texto: a que a pesca é comparada? Qual o sentido dessa comparação? Poderíamos dedicar todo esse caderno à obra de José Saramago, entretanto, temos que dar espaço para outros grandes autores portugueses desses tempos modernos. A vanguarda dos anos 60: ‘Poesia 61’ O movimento ‘Poesia 61’ reuniu grandes nomes da moderna literatura portuguesa: Casimiro de Brito, Sophia de Melo Breyner Andresen, Fiamma Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Luiza Neto 11 A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA • AULA 1 Jorge, Maria Teresa Horta e outros. ‘Poesia 61’ nunca pretendeu ser um movimento e seus autores caminharam no sentido de uma obra própria e de estilos diferentes. O que há em comum nos autores dessa época é que eles inauguraram uma espécie poesia não datada, passível à constante releitura de suas metáforas sempre atuais. Trata-se de uma poesia a reinventar o mundo por meio de imagens que emergem do jogo das palavras. É sugestão, provocação e movimento constante. É o retrato de um mundo provisório, de caráter hipotético que transparece numa linguagem que reinventa o uso de suas próprias regras e confere corporeidade à palavra, a qual se torna mais ‘coisa’ do queolhar Por seu nojo e minha fim! [...] Estava mui acatada, Como princesa servida, Em meus paços mui honrada, De tudo mui abastada, De meu senhor mui querida. Estando mui de vagar, Bem fora de tal cuidar, Em Coimbra d’assossego, Pelos campos de Mondego Cavaleiros vi somar. [...] E quando vi que descia, Saí à porta da sala; Devinhando o que queria, Com grã choro, e cortesia Lhe fiz ua triste fala. Meus filhos pus derredor De mim, com grã humildade; Mui cortada de temor, Lhe disse: “havei, Senhor, Desta triste piedade! Não possa mais a paixão Que o que deveis fazer; Meteis nisso bem a mão, Que é de fraco coração Sem porquê matar mulher. Quanto mais a mim, que dão Culpa não sendo razão, Por ser mãe dos inocentes Que ante vós estão presentes, Os quais vossos netos são. E têm tão pouca idade 75 OS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA PORTUGUESA • AULA 6 Que, se não forem criados De mim, só com saudade E sua grã orfandade, Morrerão desamparados. Olhe bem quanta crueza Fará nisto Vossa Alteza, E também, Senhor, olhai Pois do príncipe sois pai, Não lhe deis tanta tristeza...” Apud. Moisés: s.d. Esse belíssimo poema de Garcia de Resende é de uma dramaticidade singular. Conseguimos visualizar a cena de uma mãe, diante de seus carrascos e do Rei, pai do príncipe D. Pedro, seu amante, com seus filhos em volta, pedindo para lhe pouparem da morte. O tema da morte de Inês de Castro percorre toda a literatura portuguesa e foi assunto para a composição de belíssimos e variados textos. Contexto histórico: Em 1340, D. Pedro I casa-se com a princesa castelhana D. Constança Manuel. Uma das aias que acompanhava D. Constança era Inês de Castro, por quem D. Pedro se apaixonou. Em 1348-1349, D. Constança morre e então D. Pedro assume mais abertamente o relacionamento com Inês de Castro em terras de Coimbra. O rei D. Afonso IV (pai de D. Pedro), temia o poderio da família de Inês de Castro e da sua influência na sucessão do infante D. Fernando, filho primogênito e herdeiro de D. Pedro. No dia 7 de Janeiro de 1355, Inês de Castro, encontrando-se nos Paços de Santa Clara em Coimbra (embora a lenda diga que ela estava à beira da Fonte dos Amores, na Quinta das Lágrimas), foi assassinada por Pêro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco, sendo sepultada em Coimbra. D. Pedro sobe ao trono em 1357 e uma das suas primeiras medidas foi mandar construir um túmulo majestoso para Inês de Castro. Em 1360, acabado o túmulo, D. Pedro ordenou que o colocassem no braço sul do transepto do Mosteiro de Alcobaça e em seguida que trasladassem para lá o corpo de D. Inês. D. Pedro I mandou construir um túmulo semelhante para si próprio, sendo colocado lado a lado (do lado esquerdo) do de D. Inês. O rei morre em 1367 indo repousar ao lado da sua amada. Gil Vicente (1465 ou 1466 – entre 1536 e 1540) Gil Vicente iniciou seu teatro em 1502, quando na corte de D. Maria de Castela, declama em espanhol o Monólogo do Vaqueiro ou Auto da Visitação. Escreveu quarenta e seis peças entre satíricas, místicas, medievais, modernas, comédias e farsas. Seu teatro era absolutamente popular e seu êxito nas cortes, era patente. Homem de biografia controvertida, alguns dizem ter sido o http://pt.wikipedia.org/wiki/1340 http://pt.wikipedia.org/wiki/D._Pedro_I http://pt.wikipedia.org/wiki/D._Constan%C3%A7a_Manuel http://pt.wikipedia.org/wiki/In%C3%AAs_de_Castro http://pt.wikipedia.org/wiki/Coimbra http://pt.wikipedia.org/wiki/D._Afonso_IV http://pt.wikipedia.org/wiki/In%C3%AAs_de_Castro http://pt.wikipedia.org/wiki/D._Fernando http://pt.wikipedia.org/wiki/D._Pedro http://pt.wikipedia.org/wiki/7_de_Janeiro http://pt.wikipedia.org/wiki/1355 http://pt.wikipedia.org/wiki/In%C3%AAs_de_Castro http://pt.wikipedia.org/wiki/Mosteiro_de_Santa_Clara-a-Velha http://pt.wikipedia.org/wiki/Coimbra http://pt.wikipedia.org/wiki/Quinta_das_L%C3%A1grimas http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%AAro_Coelho http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%AAro_Coelho http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81lvaro_Gon%C3%A7alves http://pt.wikipedia.org/wiki/Diogo_Lopes_Pacheco http://pt.wikipedia.org/wiki/1360 http://pt.wikipedia.org/wiki/Mosteiro_de_Alcoba%C3%A7a http://pt.wikipedia.org/wiki/Mosteiro_de_Alcoba%C3%A7a http://pt.wikipedia.org/wiki/1367 76 AULA 6 • OS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA PORTUGUESA ourives da célebre custódia de Belém, no entanto, o que se sabe ao certo era que Gil Vicente tinha a função de organizador das festas palacianas e foi para elas que escreveu a sua obra. Esse dramaturgo introduziu em Portugal o teatro leigo, ou seja, o teatro fora da Igreja. Suas influências vêm ainda do espírito medieval, porquanto não tivesse conhecimento do teatro grego e latino. Suas obras são rústicas e primárias, o que agradava e divertia sobremaneira os cortesãos e a nobreza. Sua obra era, muitas vezes, crítica, e ele não poupava nobres, aristocratas ou as próprias figuras do da realeza. Ele retrata o homem na sociedade, denunciando seus maus costumes, com o intuito de transformá-los. Ele não pretendia atingir instituições, mas os homens sem escrúpulos que a elas pertencem. Assim, no seu famoso Auto da Barca do Inferno, ele põe satiriza mordazmente figuras como o fidalgo, o padre, a alcoviteira, o sapateiro, o agiota, a mulher adúltera entre outros e os condena a todos. Apenas os cavaleiros que iam para as cruzadas são salvos de embarcarem para o inferno, pois eles serviam a uma causa sagrada. Quero que vocês apreciem um trecho do Auto da Lusitânia em que há um diálogo entre o personagem ‘Todo-o-Mundo’ e o personagem ‘Ninguém’, mediado por dois diabos – Berzabu e Dinato – que vão anotando tudo o que é dito. Observem o jogo semântico que Gil Vicente faz e o efeito consegue em termos de significação. Ninguém: Que andas tu i buscando? Todo-o-Mundo: Mil cousas ando a buscar: delas não posso achar, porém ando perfiando, por quão bom é perfiar. Ninguém: Como hás nome, cavaleiro? Todo-o-Mundo: Eu hei nome Todo-o-Mundo, e meu tempo todo enteiro sempre é buscar dinheiro, e sempre nisto me fundo. Ninguém: Eu hei nome Ninguém, e busco a consciência. Berzabu: Esta é boa experiência: Dinato, escreve isto bem. Dinato: Que escreverei companheiro? Berzabu: Que Ninguém busca consciência, e Todo-o-Mundo dinheiro. 77 OS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA PORTUGUESA • AULA 6 Ninguém: E agora que buscas lá? Todo-o-Mundo: Busco honra muito grande. Ninguém: Eu, virtude, que Deus mande que tope co’ela já. Berzabu: Outra adição nos acude: escreve logo i a fundo, que busca honra Todo-o-Mundo, e Ninguém busca virtude. Ninguém: Buscas outro mor bem qu’este? Todo-o-Mundo: Busco mais quem me louvasse tudo quanto eu fezesse. Ninguém: E eu quem me repreendesse em cada cousa que errasse. Berzabu: Escreve mais. Dinato: Que tens sabido? Berzabu: Que quer em estremo grado Todo-o-Mundo ser louvado E Ninguém reprendido. Ninguém: Buscas mais, amigo meu? Todo-o-Mundo: Busco a vida e quem ma dê. Ninguém: A vida não sei que é, a morte conheço eu. Berzabu: Escreve lá outra sorte. Dinato: Que sorte? Berzabu: Muito garrida: Todo-o-Mundo busca a vida e Ninguém conhece a morte. [...] Apud. CEREJA: 1997 78 AULA 6 • OS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA PORTUGUESA Fernão Lopes Foi nomeado pelo Rei D. Duarte, em 1418, como guardador da Torre do Tombo, arquivo oficial que guardava preciosos documentos históricos. D. Duarte rei, também escritor (Leal Conselheiro e o Livro da Ensinança de Bem Cavalgar toda Sela), pediu a Fernão Lopes, em 1434, que escrevesse a história da vida e dos feitos dos reis da primeira dinastia portuguesa: D. Pedro, D. Fernando e D. João I. Pouco se conhece da biografia desse historiador e de seus escritos, somente temos acesso a essas três crônicas escritas por ele. Fernão Lopes, com sua maneira de escrever, muito contribuiu para a consolidação da Língua Portuguesa. Soube como ninguém da época caracterizar com clareza seus personagens e dar muita dramaticidade à narração dos seus fatos e feitos. Além disso,o sentimento de coletividade e o nacionalismo que encontramos em suas crônicas preparam o terreno para o surgimento da grande epopeia portuguesa – Os Lusíadas. Talvez por conta da maior proximidade temporal, sua última crônica, a de D. João I, seja a mais recheada de fatos e de narrações tão vivas que, muitas vezes, mais parece um romance de cavalaria do que uma crônica histórica. Essa terceira crônica foi publicada em dois volumes dado a sua extensão. Não vou transcrever aqui trechos dessas crônicas por achar que, para lê-las com compreensão, seria necessário muito conhecimento histórico do reinado desses três reis. Além disso, a leitura das crônicas, mesmo transcritas em linguagem modernizada, precisaria de uma mediação em presença, pois suas estruturas sintáticas e sua organização narrativa, ainda obedecem muito à concepção medieval. (Vou poupá-los dessa!) Trovadorismo O trovadorismo expressa as primeiras manifestações da literatura em Língua Portuguesa. O que você vai encontrar são composições ainda insipiente, mas que já apresentam o lirismo tão característico da alma lusitana. Estamos em plena Idade Média e como vocês sabem esta é uma época de cavaleiros, de senhores feudais, de camponeses e também de reis e rainhas. Os povos nessa época lutavam por terras e as batalhas muitas vezes aconteciam para a ampliação do território e divisão do espaço para a consolidação das nações. Mas isso só acontece um pouco depois, embora as guerras já estejam acontecendo ora para dominar, ora para expulsar invasores, ora para batalhar contra outro reino por questões de poder e soberania. A literatura portuguesa, em suas origens, recebeu grande influência da cultura provençal, localidade ao sul da França que conheceu intensa vida cultural na época. Na Provença surgiram trovadores que andavam pela Europa levando seus cantares e seus modelos de cantigas. Os primeiros textos portugueses datam do século XII. 79 OS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA PORTUGUESA • AULA 6 O repertório que os trovadores levavam em suas deambulações era memorizado e nada melhor para memorizar do que cantar. Por isso, a poesia dessa época teve o nome de cantiga. Era uma forma simples, com motivos bem populares, sempre acompanhadas por instrumentos musicais e por dança. Era uma poesia cantada nas ruas e nas praças e servia para alegrar e divertir. Por esse motivo, a literatura foi inaugurada antes pela poesia e depois pela prosa. Esse tipo de literatura se estendeu em Portugal desde o século XII até o século XIV. As cantigas chegaram até nós por meio dos Cancioneiros que são coleções de variados tipos de poemas cantados à época. Sabemos que este tipo de literatura foi abundante, pois temos mais de duas mil composições compiladas. Um pouco mais tarde, apesar das cantigas sempre predominarem, surgiram algumas obras em prosa como novelas cavalaria e vidas de santos. No teatro também houve alguma produção, apesar de só sobressair o teatro de Gil Vicente um pouco mais tarde, como vimos. Em termos de contexto, podemos dizer que, por ser a instituição mais organizada, a Igreja imperou nessa época, não só no âmbito religioso, mas também nos âmbitos político, econômico e cultural. O regime social e político da época girava em torno dos feudos em que havia o senhor e os trabalhadores que cultivavam a terras. Ao lado deles havia o clero e os guerreiros. As cantigas tinham cunho profano e popular, já as novelas de cavalaria conciliavam os ideais cristãos e o mundo terreno das aventuras e das guerras. Nas questões bélicas, os cavaleiros que se destacavam ganhavam o mérito de heróis e, muito comumente, acabavam sendo ‘sacralizados’, tornando-se lendas contadas aos quatro cantos do mundo. Vemos na atualidade vestígios dessas novelas de cavalaria. Basta nos lembrarmos de filmes como Excalibur, de John Boorman, ou de Robin Hood, de Kevin Reynolds, ou de O feitiço de Áquila, de Richard Donner, ou ainda de Indiana Jones e a última cruzada, de Steven Spielberg. Quanto às cantigas, elas eram de três tipos: as cantigas de amor, as de amigo e as de escárnio e maldizer. As cantigas de amor seguiam o jogo do amor cortês, aquele em que o homem ama á distância e tem que ser fiel ao seu amor; ele era como um vassalo e a sua dama, o suserano, o senhor. Esse foi também um princípio da cavalaria que, por ganhar muito prestígio social, acabou por influenciar as camadas populares. As cantigas de amigo têm como eu lírico a voz da mulher se lamentando de que seu namorado (amigo) partiu e por isso ela sofre ou, jocosamente, se arranja de outra maneira; a ambientação dessa cantigas é rural ou urbana e o amor é espontâneo e natural. Vou mostrar para vocês duas cantigas: uma de amor e outra de amigo, para que vocês possam notar a diferença entre uma e outra. Cantiga de amigo (de Aires Nunes, sec. XIII) Bailemos nós já todas três, ai amigas, so aquestas avelaneiras frolidas, e quem for velida, como nós, velidas, 80 AULA 6 • OS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA PORTUGUESA se amig’amar, so aquestas avelaneiras frolidas verrá bailar. Bailemos nós já todas três, ai irmanas, So aqueste ramo destas avelanas, e quem bem parecer, como nós parecemos, se amig’amar, so aqueste ramo destas avelanas verrá bailar. Por Deus, ai amigas, mentr’al non fazemos, so aqueste ramo frolido bailemos e quen bem parecer, como nós parecemos, so aqueste ramo so lo que bailemos se amig’amar, verrá bailar. Cantiga de amor (Paio Soares de Taveirós – sec. XII – XIII) Como morreu quen nunca ben Ouve da ren que mais amou, E quen viu quanto receou d’ela, e foi morto por én: Ay, mia senhor, assi moir’eu! Como morreu quen foi amar quen lhe nunca quis bem fazer, e de que(n) lhe fez Deus veer de que foi morto com pesar: Ay, mia senhor, assi moir’eu! Com’ome que ensandeceu, senhor, com gran pesar que viu, e non foi ledo nen dormiu depois, mia senhor, e morreu: Ay, mia senhor, assi moir’eu! Como morreu quen amou tal dona que lhe nunca fez bem, e quen a viu levar a quen a non valia, nen a val: Ay, mia senhor, assi moir’eu! As cantigas de escárnio são composições cuja crítica é mais velada, enquanto as cantigas de maldizer apresentam a crítica mais escancarada e direta. 81 OS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA PORTUGUESA • AULA 6 Vejam o exemplo de uma cantiga de maldizer. Nessa cantiga, um homem cobra a seu senhor o pagamento para fazer um trabalho. Pague-me a mim meu senhor e dê-me um bom fiador como soldada; e irei eu, se ele for, na cavalgada. Dê-me ele o que não cobrei e um penhor que aceitarei como soldada; e se ele for, lá irei, na cavalgada. Descrê de mim e eu, incréu; mas entregue-me um judeu como soldada; e se ele for, irei eu, na cavalgada. Se não melhor fico eu Cá na pousada. In. Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses: 1978, p. 107 Quanto às novelas de cavalaria, podemos dizer que são textos em prosa, que surgiram em Portugal entre os séculos XIV e XV e se constituem pelas aventuras de cavaleiros lendários e destemidos que derrotavam monstros e inimigos em batalhas sangrentas. Essas novelas, fruto da imaginação de seus escritores (e também do povo), retratam com muitos detalhes a vida e os costumes da cavalaria feudal. Para ampliar o repertório de vocês, leiam a obra D. Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes. Há à disposição nas livrarias uma belíssima edição (mais enxuta), traduzida por Ferreira Gullar e com ilustrações de Gustave Doré, reeditada pela Revan, em 2011. Vale a pena não só para vocês conhecerem a crítica e o humor de Cervantes, como também para entenderem melhor o que era o código da cavalaria medieval. Sintetizando Vimos até aqui: » As raízes de onde brotaram as produções literárias portuguesas. » O Cancioneiro Geral como a grande coleção de poemas palacianos compilados por Garcia de Resende, que também foi autor de belos poemas. » O grande teatrólogo das cortes palacianas, Gil Vicente. » A importância de Fernão Lopes na construção da identidade nacional portuguesa. » As Cantigas como produções literáriasque se encontram nos primórdios da Língua Portuguesa, quando ainda não havia diferenciação entre o galego e o português. 82 Referências ANGELINI, Paulo Ricardo Kralik. A criação da memória: rastros autobiográficos na literatura portuguesa. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2013. CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. 1ª ed. brasileira. Edição organizada por Emanuel Paulo Ramos. BH: Ed. Tapir, s.d. ______________. Redondilhas e sonetos. Seleção e notas Massaud Moisés. Introdução Geir Campos. RJ: Edições de Ouro, 1969. CASTELO BRANCO, Camilo. A queda de um anjo. Lisboa: Unibolso, s.d CEREJA, W. Roberto e COCHAR, Thereza. Panorama da Literatura Portuguesa. 2ª edição revista e ampliada. SP: Atual, 1997 CANTARES DOS TROVADORES GALEGO-PORTUGUESES. Seleção, introdução, notas e adaptação de Natália Correia. Lisboa: Editorial Estampa, 1978 COELHO, Jacinto do Prado. Diversidade e unidade em Fernando Pessoa. 1ª edição brasileira. SP: Verbo, Ed. Da universidade de São Paulo,1977 D’ONOFRIO, Salvatore. Forma e sentido do texto literário. São Paulo: Ática, 2007. FABRINO, Ana Maria Junqueira. História da literatura universal. Curitiba: InterSaberes, 2014. FERREIRA, Vergílio. Aparição. 3ª edição. Lisboa: Portugália, 1960 HELDER, Herberto. Os passos em volta. (8ªed). Lisboa: Editora. Assírio e Alvim, 2001. (texto publicado inicialmente em 1962, com alterações em edições posteriores) KIRCHOF, Edgar Roberto. et al. Fundamentos do texto literário. Curitiba: InterSaberes, 2017. (Série Por Dentro da Literatura) KUJAWSKI, Gilberto de M. Fernando Pessoa, o outro. Petrópolis: Vozes, 1979 LAPA, Rodrigues. Lições de Literatura Portuguesa. Época medieval. 9ª edição revista e ampliada. Coimbra: Coimbra Editora Limitada, 1977. MACEDO, Helder. Nós, uma leitura de Cesário Verde. Lisboa: Plátano Editora, 1975 MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através de textos. SP: Cultrix, [s/d] MONTEIRO, Adolfo Casais. A poesia da “Presença”. Círculo de Poesia. Lisboa: Moraes Editores, 1972. ORPHEU 1. 2ª reedição do volume 1. Introdução crítica de Maria Aliete Galhoz. Lisboa: Edições Ática, 1971 ORPHEU 2. Preparação do texto e introdução de Maria Aliete Galhoz. Lisboa: Edições Ática, 1976 PAULA, Laura da Silveira. Teoria da literatura. Curitiba: IBPEX, 2011. PESSANHA, Camilo. Clepsidra e outros poemas. Porto: Publicações Anagrama, s.d. ________________. Camilo Pessanha. Poesia e prosa. Introdução de Bernardo Vidigal. RJ: Ed. Agir, 1965 PESSOA, Fernando. Obra poética. RJ: Aguilar, 1969 _______________. Obras em prosa. 3ª Ed. RJ: Aguilar, 1982 PROENÇA FILHO, Domício. A linguagem literária. 8. ed. São Paulo: Ática, 2007. QUEIRÓS, Eça de. Melhores Contos. Sel. Herberto Sales.5ª Ed. SP: Global, 2003 Quental, Antero de. Antero de Quental. Poesia e prosa. RJ: Agir, 1967 83 REFERÊNCIAS Revista Anagrama: Revista Científica Interdisciplinar da Graduação USP. Ano 6 -Edição 3 – Março-Maio de 2013 SANCHES, Marcia de Mattos. (org.). Literatura portuguesa I. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2015. SARAIVA, Antônio José e LOPES, Óscar. História da Literatura Portuguesa. RJ: Cia. Brasileira de Publicações, 1969 SARAMAGO, José. O evangelho segundo Jesus Cristo. Col. Mestres da Literatura Contemporânea. RJ: Record, s.d ____________. O conto da ilha desconhecida. Aquarela de Arthur Luiz Piza. SP: Companhia das Letras, s.d. ____________. Discurso de Estocolmo. Fundação José Saramago. SCOTT, Ana Silva. Os portugueses. SP: Contexto, 2010. VASCONCELOS, Mário Cesariny de. “[SEM TÍTULO]”. In: GOMES, Álvaro Cardoso. A Estética Surrealista. São Paulo: Editora Atlas S.A, 1995. VERDE, Cesário. Obra Completa de Cesário Verde. Lisboa: Portugália Editora, 1970 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Introdução Aula A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA Aula A LITERATURA PORTUGUESA DO INÍCIO DO SÉCULO XX Aula O UNIVERSO LITERÁRIO DE FERNANDO PESSOA , O SIMBOLISMO E O REALISMO Aula O REALISMO E O ROMANTISMO EM PORTUGAL Aula O BARROCO PORTUGUÊS E O FECUNDO SÉCULO XVI COM SUAS IDEIAS RENASCENTISTAS Aula OS PRIMÓRDIOS DA LITERATURA PORTUGUESA Referênciassentido. ‘Poesia 61’ inventa uma lógica que contraria frontalmente a poesia engajada do neorrealismo, realidade poética anterior ( anos 40 e 50). Penso ser melhor apresentar-lhes alguns poemas desse grupo de poetas, para que vocês possam perceber melhor o que disse acima. Sophia de Melo Breyner Andresen (1919 – 2004) Poema a Helena Lanari Gosto de ouvir o português do Brasil Onde as palavras recuperam sua substância total Concretas como frutos nítidas como pássaros Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas Sem perder sequer um quinto de vogal Quando Helena Lanari dizia o “coqueiro” O coqueiro ficava muito mais vegetal http://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/portugal/sophia_mello. html#topo 25 de abril Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo http://lusofonia.com.sapo.pt/literatura_portuguesa/sophia.pdf Luiza Neto Jorge (1939 – 1989) A porta aporta a porta roda ao invés da lua a porta roda bússula enterrada ao invés dos olhos a porta geme é um cão nocturno a porta geme extinta na trela da noite http://lusofonia.com.sapo.pt/literatura_portuguesa/sophia.pdf 12 AULA 1 • A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA a porta areia a porta caruncho pária de mar a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha a porta com máscara de morte a porta sem sorte a porta joelho na alma das portas a porta mulher da casa de passe a porta manchou a manhã com o grito de porta a porta enforcada no mastro da casa a porta por asa a porta roda a porta sexo a vida toda a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas a porta pregada a porta leilão a porta batente a porta aranha por coração a porta tu a porta eu a porta ninguém na terra pequena a porta roda a porta geme a porta facho a porta leme http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/luiza_neto_jorge/poetas_luizanetojorge_aporta01.htm Gastão Cruz (1941 - ) Com um coração de homem Com um coração de homem aqui lavra de certeza outro sangue e outro amor com um corpo de carne e outra maneira de lançar a carne com o vigor sobreposto dos dias em que abrimos os braços e lá fora as arma se desfecham sobre a paz Conheço o mapa amor conheço a história as salas sitiadas os teus ombros conheço o corpo amor conheço o rio onde se lava a carne que combate as ciladas os lagos os jornais as árvores o fogo a luz total conheço amor conheço a tua carne e o coração armado da cidade http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/luiza_neto_jorge/poetas_luizanetojorge_aporta01.htm http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/portugal/gastao_cruz.html 13 A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA • AULA 1 O primeiro poema, de Sophia de Melo Breyner, nos aponta para o lugar do outro, que é ouvido e considerado como aquele que, por seu modo de falar, é capaz de suscitar admiração e reconhecimento. A Língua Portuguesa falada no Brasil, segundo o eu lírico, confere às palavras “sua substância total”, o que pode ser lido como uma forma de falar que leva a palavra além de sua corporeidade, chegando a sua substância mesmo. Ora, esse poema de Sophia, antes de ser um elogio ao português falado no Brasil, revela-se como uma preocupação atenta de uma poeta que tem na palavra o seu instrumento mais prezado. O segundo poema – ‘25 de abril’ – precisa ser lido para além da metáfora que ele encerra. A Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, libertou Portugal de quarenta anos de um regime ditatorial, que isolou o país do resto da Europa. Foi um período de grandes mudanças na nação portuguesa com a entrada em vigor da nova Constituição de 25 de abril de 1976, de forte orientação socialista na sua origem. O poema de Sophia, sem dúvida, faz alusão a esse fato, no entanto, ele vai mais longe quando diz sobre “o dia inicial inteiro e limpo”, ou seja, o dia que lança o eu lírico na “substância do tempo”, expressão que pode ser lida não como um dia marcado ou como uma data comemorativa, mas como as ações de cada um na invenção de uma nova liberdade. Esse poema se presta mais a ser interpretado num viés metonímico do que metafórico. O terceiro poema, de Luiza Neto Jorge, apresenta uma dinâmica de movimento e de imagens, num ritmo acelerado que faz lembrar exatamente uma porta que abre e fecha, que faz barulho e que deixa entrever cenas imaginárias evocadas quase de um automatismo da escrita (influência do surrealismo). Notem que a repetição da palavra ‘porta’ evoca exatamente a imagem de uma porta fixada em algum lugar, mal fechada, que, como um leque, se abre para os mais variados sintagmas que a acompanham. O último poema, de Gastão Cruz, apresenta, assim como os anteriores, as características da moderna poesia portuguesa tais como: a liberdade sintática, a expressão livre, a destruição dos nexos lógicos, a convivência entre sonho e realidade e o uso da imaginação com forte presença do elemento onírico e intuitivo. Esse poema de Gastão Cruz, como vocês podem notar, faz uma alusão indireta à situação política do país, esmagado e sufocado ainda pelo regime fascista de Salazar. Vemos no poema a temática do corpo que se erotiza numa dimensão social. Há uma sobreposição do campo semântico do corpo, do amor e do erótico ao campo semântico do homem que lavra, que luta e que sobrevive em meio ao “coração armado da cidade”. Há nesse poema nítida influência de tendências anteriores como o surrealismo e neorrealismo. Concluindo essa parte de nossa aula, vimos que a poesia dos anos 60 e 70 em Portugal caracterizou-se pelo trabalho sobre a palavra, pela busca da autonomia do poema e pelo rigor na sua construção. Para ampliar nosso panorama da literatura moderna portuguesa, apresentarei a vocês um pouco da poesia de Fiamma Hasse Pais Brandão, uma poeta que contribuiu para a renovação da poética Sugestão de estudo https://www.youtube.com/watch?v=omcBJzWNehE&noredirect=1 https://www.youtube.com/watch?v=omcBJzWNehE&noredirect=1 14 AULA 1 • A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA portuguesa, rompendo os cânones do passado que privilegiavam ou a sentimentalidade ou o engajamento social e político pela libertação. Fiamma traz a necessidade de se colocar a palavra em evidência, de se depurar a forma, o que provoca em seus poemas grande densidade semântica. Sua poesia, como vocês notarão, abdica da subjetividade e busca a escritura impessoal em que a primeira pessoa do singular (eu) passa a ser um eu apenas pronominal, sem marcas autobiográficas. Embora tenha apresentado sempre uma poesia sem o tom confessional, propositadamente distanciada, vemos em seus textos que não há a anulação da vida que visivelmente impregna seus poemas com imagens extraídas da natureza e com toda a sua dinâmica. Os poemas de Fiamma emergem de uma profunda experiência intensamente contemplada e vivida e fazem da poesia uma forma de acesso ao real. Vejam esse poema de Fiamma o qual podemos associar ao poema de João Cabral de Melo Neto ‘Tecendo a manhã’. O nome lírico Esta manhã hoje é um nome Nem mesmo amanheceu nem o sol a evoca Uma palavra palavra só a ergue Com um nome amanhece clareia Não do sol mas de quem a nomeia Notem que o próprio nome do poema já confere o poder que a palavra tem e, por isso, suscita o ato criador. É pela palavra, pelo ato de nomear que a realidade se cria no poema. Quem cria o sol é quem o nomeia. O nome tem força, evoca e faz existir o que é nomeado. O poeta só existe no poema, pois ele também é palavra, é o ‘eu’ que nomeia, é o criador que tem a palavra como ferramenta quase ‘mágica’ que faz existir a realidade. Como diz o poema: não é o sol que clareia a manhã, mas quem a nomeia. http://docecomoachuva.blogspot.com.br/2011/01/o-nome-lirico-fiama-hassa-p-brandao.html 15 A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA • AULA 1 Agorasão vocês. Tentem identificar, no poema abaixo, também de Fiamma, os elementos acima descritos não só a respeito da poesia de Fiamma Hasse Pais Brandão (1938 – 2007), mas de tudo o que comentei sobre a poesia portuguesa contemporânea. O que mais vocês descobrem que não foi dito acima? Grafia I Água significa ave se a sílaba é uma pedra álgida sobre o equilíbrio dos olhos se as palavras são densas de sangue e despem objetos se o tamanho deste vento é um triângulo na água o tamanho da ave é um rio demorado onde as mãos derrubam arestas a palavra principia O texto moderno é marcado por um quadro autônomo, suficiente em si próprio graças a sua linguagem e ao seu jogo ilimitado. O ato de escritura é um trabalho do espírito operante e, ao mesmo tempo, observador de si mesmo, o que deixa transparecer uma grande preocupação com o fazer do texto. O mundo objetivo funciona, então, como ponto de partida, como ativador da transformação. Mais e mais a escritura moderna se faz discurso na e pela linguagem. Entre outros fatores, isso se deve talvez ao espaço cada vez maior ocupado pelo inconsciente. O texto flui em liberdade e se mostra estranho e inquieto, rompendo, assim, um paradigma passado, no qual o texto poético se mostrava aprisionado por regras e padrões fixos. A palavra assim construída passa a sugerir mais do que a dizer e desencadeia forças anímicas, quase mágicas, às quais o leitor não consegue escapar, mesmo não entendendo racionalmente. A até então tranquila relação sígnica sofre um forte abalo: procura-se inquietantemente um significado para este ou aquele significante. O leitor não consegue ficar em silêncio diante do texto moderno. Prolonga-se na palavra, reinventando-a ao falar ou ao escrever. http://autoreselivros.wordpress.com/2013/06/08/grafia-1-de-fiama-hasse-pais-brandao/ 16 AULA 1 • A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA O surrealismo Surrealismo foi um movimento artístico e literário de origem francesa, caracterizado pela expressão do pensamento de maneira espontânea e automática, regrada apenas pelos impulsos do subconsciente, desprezando a lógica e renegando os padrões estabelecidos de ordem moral e social. O surrealismo procurou superar os limites impostos à imaginação pela tradição lógica do pensamento burguês e pelas concepções artísticas vigentes desde o Renascimento. O surrealismo teve uma importância decisiva na nossa época, pois criou uma nova concepção do mundo e do homem, e também uma revolucionária teoria do processo artístico. Alguns estudiosos afirmam que o surrealismo esteve em processo de gestação até 1924, quando surgiu o ‘Manifesto Surrealista, de autoria de André Breton. Buscar o segredo, desvendá-lo, trazê-lo à luz são propósitos surrealistas que tentam incessantemente alargar o dizível, o pensável e o imaginável. A palavra de ordem desse movimento era “soltar as feras”, deixar falar o desconhecido, essa força inconsciente que foi tomando consistência à medida que se foram derrubando as barreiras repressoras. Surge então um texto que é sonho, que sonha a contradição, que anula os contrários e conduz a um termo no interior do qual se apaga. A linguagem passa a se deixar falar sem a interferência controladora do homem consciente e racional e dela emergem textos que rompem os muros da censura e caminham no sentido da anulação das oposições racionais e morais como bem x mal, positivo x negativo ou normal x anormal. Inaugura-se então um novo espaço – o espaço da fusão, da dupla presença, da ambiguidade. Vamos, então, ver, através de textos, como se manifestou o surrealismo em alguns poemas de autores portugueses. Mario Cesariny (1923 – 2006) Pastelaria Afinal o que importa não é a literatura nem a crítica de arte nem a câmara escura Afinal o que importa não é bem o negócio nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio Afinal o que importa não é ser novo e galante - ele há tanta maneira de compor uma estante! Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício 17 A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA • AULA 1 Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola antes de haver cinema madame blanche e parola Que afinal o que importa não é haver gente com fome Porque assim como assim ainda há muita gente que come Que afinal o que importa é não ter medo de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente: Gerente! Este leite está azedo! Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo No riso admirável de quem sabe e gosta Ter lavados e muitos dentes à mostra Mario Cesariny é originário de Lisboa e atuava como pintor e escritor. Em Paris, em 1947, conheceu André Breton e, rapidamente, foi atraído pelo ideário surrealista francês, o qual levou para Portugal, tornando-se um dos mais importantes defensores desse movimento em seu país. Deixou para trás as influências neorrealistas e adotou uma atitude estética de constante experimentação. A partir de princípios anárquicos que usava em sua pintura, Cesariny elaborou sua obra poética. Aparentemente desregrada, sua poesia procura uma grau extremo de espontaneidade. No poema acima você pode notar algumas das características do surrealismo: a associação de ideias, o recurso ao non-sense e ao absurdo, além de uma dose de humor e uma forte ironia. Para melhor compreensão do poema, releia-o com atenção, tentando identificar versos ou estrofes que correspondam às características citada acima. Alexandre O’Neill (1924 – 1986), Alexandre O’Neill também de Lisboa, foi um poeta que, junto a Cesariny, se lançou na aventura surrealista. No entanto, em 1950, abandona o movimento surrealista, embora sua obra tenha sempre conservado traços surrealistas. A pátria era seu tema mais constante e, com versos críticos, ‘pintou’ paisagens, gestos e costumes cotidianos. Os domingos de Lisboa Os domingos de Lisboa são domingos Terríveis de passar — e eu que o diga! De manhã vais à missa a S. Domingos E à tarde apanhamos alguns pingos De chuva ou coçamos a barriga. 18 AULA 1 • A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA As palavras cruzadas, o cinema ou a apa, E o dia fecha-se com um último arroto. Mais uma hora ou duas e a noite está Passada, e agarrada a mim como uma lapa, Tu levas-me pra cama, onde chego já morto. E então começam as tuas exigências, as piores! Quer′s por força que eu siga os teus caprichos! Que diabo! Nem de nós mesmos seremos já senhores? Estaremos como o ouro nas casas de penhores Ou no Jardim Zoológico, irracionais, os bichos? Mas serás tu a minha «querida esposa», Aquela que se me ofereceu menina? Oh! Guarda os teus beijos de aranha venenosa! Fecha-me esse olho branco que me goza E deixa-me sonhar como um prédio em ruína!... Vamos apreciar um pouco da prosa moderna portuguesa através de um conto que Herberto Helder publicou em seu livro ‘Os passos em volta’ (1963). Esse conto tem como tema principal as incertezas acerca da identidade própria de cada ser humano, mas também pode ser lido metalinguisticamente em relação aos princípios em que se pauta a arte moderna – seja pictórica, seja poética. O conto aborda a questão da verossimilhança, da fidelidade ao real e da criação artística. Herberto Helder (1930 - 2015) Teoria das cores Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe. O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia o que fazer da cor preta que ele agora lheensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor - sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro, através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor. Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, http://www.avozdapoesia.com.br/obras_ler.php?obra_id=10440&poeta_id=323 19 A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA • AULA 1 mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose. Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo. Esse conto de Herberto Helder sintetiza as preocupações e propostas que nortearam a arte contemporânea e que a colocam em contraste com o que era feito até o século XIX, ou seja, a busca incessante de uma verossimilhança que sabemos ser impossível. Para vocês mergulharem mais a fundo nesse universo da arte contemporânea, transcrevo um trecho de um magnífico ensaio feito por Caio Cesar Esteves de Souza, publicado na Revista Anagrama da USP,2013 (http://www.revistas.usp.br/anagrama/article/view/52406). A Teoria das Cores de Herberto Helder A leitura do conto “Teoria das Cores”, de Herberto Helder, nos permite refletir acerca do objeto sobre o qual recai a fidelidade do artista moderno e, também, contemporâneo. Seria tal artista fiel ao mundo das coisas, buscando a Verdade; ou ao mundo da imaginação tão somente? Essa questão norteará a análise que realizaremos neste breve ensaio. [...] A primeira expressão do texto já é muito significativa, por criar uma expectativa no leitor: “Era uma vez”. A expressão retoma imediatamente toda a tradição dos contos infantis que se passam num tempo e espaço indefiníveis, principiando por um momento de harmonia que, imediatamente, é quebrado por um “De repente...”, ou “Um dia...”. O tempo de conflito é geralmente solucionado, nessa tradição, a partir ou de um aprendizado do herói, que supera o problema, ou da ausência de tal aprendizado, gerando a sua ruína que serve de lição ao leitor/ouvinte. Criada tal expectativa, o conto apresenta um curto momento harmônico, que é interrompido pela expressão “até que”, ainda no primeiro parágrafo, confirmando a expectativa do leitor. O fato que essa expressão traz ao texto – a mudança de cor do peixe – confirma a expectativa inicial, por ser corriqueiro na tradição dos contos infantis, veicular algo comumente visto como inverossímil de maneira natural, como se verossímil fosse. Porém, o leitor não é o único espectador dessa cena inusitada: o pintor também olha assustado para a mudança, o que quebra a primeira expectativa – nos contos infantis as personagens tratam o fantástico/maravilhoso com naturalidade – e cria uma identificação quase imediata com a personagem. Ambos, nesse momento, tentam entender sem sucesso o que está se passando no aquário, pois ambos encontram-se com o mesmo ponto de vista que estranha a mudança. Engenhosamente, Herberto Helder cria o momento em que a teoria das cores se faz necessária para compreender tal metamorfose e gerar o percurso de aprendizagem tanto do pintor quanto do leitor. http://pousio.blogspot.com.br/2009/02/teoria-das-cores-herberto-helder.html http://www.revistas.usp.br/anagrama/article/view/52406 20 AULA 1 • A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA Antes, porém, de continuar analisando o desenvolvimento da teoria, é necessário observarmos alguns detalhes. À cor vermelha, vemos associado o adjetivo “encarnada”, que traz a ideia de que essa cor é a representação da substância, da materialidade do peixe e, num grau superior de abstração, da realidade física do mundo. Nessa cor, surge um “nó” negro que traz instabilidade à harmonia preexistente. O termo “nó” pode ser visto aqui em toda a sua polissemia: pode representar a dificuldade que precisa ser desatada para chegarmos a uma conclusão; mas, também, pode ser tomado em sua acepção biológica, como local de origem de novos ramos e, por abstração, de novas formas de pensar o mundo. Há, por fim, um último significado deste termo que é relevante para a compreensão do texto: “nó” é uma das formas de chamar as articulações do corpo humano, em especial dos dedos, que possibilitam o movimento e, com ele, a fuga à inércia, ao que é estático e perene. Assim, esse nó que surge de dentro da materialidade do mundo precisa ser desvendado para que se possa compreender a metamorfose que se passa diante dos olhos de todos, e os novos ramos de pensamento que ela traz consigo. Partindo desse ponto, o pintor começa a refletir sobre a metamorfose do peixe, buscando compreendê-la objetivamente. Seu problema não é a metamorfose em si, mas a forma como deve representá-la. Deve ser fiel à cor original do peixe, ou à cor atual? O que importa é a origem ou o produto de um processo? Em outras palavras, o questionamento do pintor é sobre a possibilidade de ser verossímil na presença de uma realidade absurda. Ele não consegue encontrar um ponto de contato da sua formação primitiva com a realidade metamórfica moderna que se apresenta para ele. Para tentar encontrar algum vínculo entre ambas, parte para o desenvolvimento da teoria, valendo-se de etapas precisas, científicas: a observação do material, seguida pelo levantamento dos elementos que constituem o problema que, por sua vez, será sucedido por uma tese posta à “prova”. Porém, como era de se esperar, essas etapas são insuficientes para compreender o que ali se passa. Não há como provar uma ideia artística, o que já antecipa o fracasso de sua tentativa. Mas, mais que isso, é impossível abordar objetivamente um objeto inteiramente absurdo como é esse peixe. Essa impossibilidade é notada pela mudança no tom das palavras empregadas para descrever a atitude do pintor: inicialmente, temos “meditar”, “razões”, “exactamente” e “fidelidade” como palavras nucleares; mas, com o desenvolver do pensamento, o núcleo se torna o “número de mágica”, que o peixe realizou diante de seus olhos. Tal expressão mostra com clareza o fracasso da objetividade diante de tal objeto, uma vez que a tese à qual ela conduz o pintor é inteiramente não objetiva e irrealista. Não devemos, no entanto, entender que o texto conclui que é impossível chegar a uma “teoria das cores” que explique tal fenômeno. O que ele nos mostra, nesse ponto, é que a objetividade cientificista tradicional, tão observada na arte de parte do século XIX, não é suficiente para explicá-lo. A tradição que busca a Verdade 21 A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA • AULA 1 pela imitação da Natureza é insuficiente para lidar com o mundo moderno. Na busca da teoria, o pintor se vê obrigado a deixar de lado a sua formação primitiva para aprender com a metamorfose. Esse processo de aprendizagem é explicitado no segundo parágrafo, no trecho “não sabia o que fazer da cor preta que ele (o peixe) agora lhe ensinava (grifo nosso)”. O inverossímil se faz real, e com ele o artista deve aprender. O leitor é conduzido rapidamente por esse processo de observação da quebra da noção de realidade, da insuficiência da objetividade, e é jogado diretamente na conclusão do pintor, o que causa grande estranhamento e possibilita que o conto atinja o grau de pungência que tem. Da observação, o pintor compreende que tanto a materialidade, a substância, quanto a imaginação são regidas por uma lei superior: a da metamorfose. Assim, as coisas não são pura e simplesmente. Elas são objetos que se subordinam à mudança constante. Não há mais espaço, nesse pensamento, para as verdades absolutas, para os pactos tradicionais. É necessário que a arte e o pensamento mudem junto com o mundo, se quiserem acompanhá-lo. A única forma de ser fiel ao representado, portanto, é mostrá-lo em sua metamorfose constante.Partindo dessa teoria, o pintor apresenta seu novo pacto de fidelidade, representando o peixe originalmente vermelho, atualmente preto, na cor amarela. Seu processo de aprendizagem se conclui após o abandono do pensamento primitivo. Sua relação com o leitor, porém, não continua pacífica como era antes. Ou o leitor se identifica com ele, por compreender a sua conclusão e julgá-la apropriada; ou julga que ele enlouqueceu e, assim, quebra a identificação inicial. Essas atitudes servem para demonstrar qual é a filiação interpretativa do leitor: ele busca o verossímil tradicional, ou o novo metamórfico? É fiel às coisas, ou à lei que rege tais coisas na modernidade? [...] Esse conto, por meio de uma forma simples, nos permite pensar de maneira profunda as atitudes do artista diante do mundo que o cerca e, também, a atitude do leitor diante não apenas da arte, mas desse mesmo mundo. A proposta de leitura do mundo que o conto traz é, como apresentado, a fidelidade à metamorfose, e não à materialidade ou à Verdade. Cabe ao leitor, a partir disso, considerar se com ela concorda ou não. O grande mérito de “Teoria das Cores” é colocar o leitor numa posição em que é impossível aceitar de forma passiva a ideia transmitida. Faz-se necessário se posicionar nesta questão, o que faz com que muitas pessoas não consigam sequer compreender o conto em seu questionamento, achando-o simplesmente absurdo e despropositado. Assim, se mostra particularmente interessante trazer à luz esse conto, por concentrar em seus quatro parágrafos a discussão que norteou todo o século XX: como se posicionar como artista diante de uma realidade absurda? E como reagir enquanto leitor a esse posicionamento? 22 AULA 1 • A CONTEMPORANEIDADE PORTUGUESA Sintetizando Vimos até agora: » Os principais autores portugueses da modernidade, com destaque para José Saramago (1922 – 2010) » O movimento chamado “Poesia 61” e a sua importância para a renovação do discurso poético português. » O movimento surrealista francês e sua influência em alguns autores portugueses. 23 Introdução Esta aula apresentará a vocês um panorama da Literatura Portuguesa do início do século XX. Por um lado, a literatura de cunho social e político e, por outro, a literatura preocupada com a originalidade e autoria. Esta última concentrada na ‘Revista Presença”, que marcou profundamente a produção literária moderna. Por fim, a aula apresentará o movimento chamado ‘orfismo’, originado em torno dos dois números da “Revista Orpheu” da qual fez parte o grande poeta português Fernando Pessoa. Objetivos » Conhecer o neorrealismo português e a sua forte repercussão por seu caráter social e político. » Compreender a importância da “Revista Presença” na renovação da Literatura Portuguesa bem como núcleo agregador de escritores de grande excelência. » Perceber a radicalidade da proposta da “Revista Orpheu” que, com apenas dois números publicados, revolucionara tanto a literatura. 2 AULA A LITERATURA PORTUGUESA DO INÍCIO DO SÉCULO XX 24 AULA 2 • A LITERATURA PORTUGUESA DO INÍCIO DO SÉCULO XX O neorrealismo O neorrealismo foi uma tendência literária de cunho social e político que visava a exercer influência na sociedade e na História. As obras desse período se caracterizavam pela denúncia, pela crítica e pelo combate ao fascismo e à injustiça social. O movimento situa-se entre 1936 e 1950, mas é com a publicação do romance Gaibéus, de Alves Redol (1911 – 1969), que ele é oficializado em Portugal. São vários os autores desse período, mas, entre eles destacam-se, além de Redol, Carlos de Oliveira e Fernando Namora. Com o tempo, os romances desses autores ganham uma linguagem mais elaborada e alcançam uma dimensão psicológica maior de seus personagens. O neorrealismo tem suas raízes no Realismo, mormente na figura do grande Eça de Queirós, que influenciou toda uma geração de escritores portugueses. Através dos romances neorrealistas tem- se um retrato da sociedade portuguesa, não só da burguesia, mas também, e principalmente, do homem do campo, do trabalhador e de sua luta pela sobrevivência. Mostrarei para vocês um trecho do romance Gaibéus, de Alves Redol. Gaibéus são modestos camponeses (ceifeiros) que se veem presos à terra e ao patrão, só tendo direito à liberdade, pela imaginação e pelo sonho, quando descansam à noite. Pareciam cercados no trabalho pelo braseiro de um fogo que alastrasse na Leziria Grande. Como se da Ponta da Erva a Vau a leiva se consumisse nas labaredas de um incêndio que irrompesse ao mesmo tempo por toda a parte. O ar escaldava, lambia-lhes de febre os rostos corridos pelo suor e vincados pelos esgares que o esforço da ceifa provocava. O sol desaparecera há muito, envolvido pela massa cinzenta das nuvens cerradas. Os ceifeiros não o sentiam penetrar-lhes a carne abalada pela fadiga. Lento, mas persistente, parecia ter-se dissolvido no ar que respiravam, pastoso e espesso. Trabalhava à porta de uma fornalha que lhes alimentava os pulmões com metal em fusão. Quase exaustos, os peitos arfavam num ritmo de máquinas velhas saturadas de movimento. A ceifa, porém, não parava, e ainda bem – a ceifa levava o seu tempo marcado. Se chovesse, o patrão apanharia um boléu de aleijar, diziam os rabezanos na sua linguagem taurina. Eles próprios não a desejavam; se as foices não cortassem arroz, as jornas acabariam também. E se ao sábado o apontador não enchesse a folha, as fateiras não trariam o pão e conduto da vila. Então os dias tornar-se-iam ainda mais penosos e o degredo por terras estranhas mais insuportável. 25 A LITERATURA PORTUGUESA DO INÍCIO DO SÉCULO XX • AULA 2 Vencidos pelo torpor, os braços não param. Lançam as foices no eito, juntando os pés de arroz na mão esquerda, e o hábito arrasta-os em gestos quase automáticos, mais um passo e outro, a caminho da maracha que fecha o extremo de cada canteiro. Caminham sempre no mesmo balouçar de ombros; as pegadas do seu esforço ficam marcadas na resteva lodosa. Talvez muitos deles pensem que o arroz deitado nas gavelas repousa primeiro do que os seus corpos. Se pudessem deter-se também, por instantes, e descansarem depois a cabeça nos montes de espigas que deixam atrás de si, a ceifa poderia animar. Mas o bafo que vem da seara queima mais em cada minuto e as cabeças dos alugados pesam já tanto como o cabo das foices nos braços esgotados. Estão atafulhadas de amarelo, de pensamentos e de grãos de fogo que a canícula doente lhes insuflou no sangue. Ninguém entoa cantigas para animar, embora os capatazes tenham incitado as raparigas cantaroleiras para o fazer. Nos ranchos não há agora quem saiba cantar. Apud. CEREJA, W. Roberto e COCHAR, Thereza, 1997 Notem a força que tem esse texto, a maneira como os ceifeiros (gaibéus) são descritos – ora como autômatos, ora como ferramentas comparados à foice que manejam. Vejam como são escravos do trabalho e do patrão a ponto de não desejarem chuva para não ficarem sem os salários. O esforço contínuo, a exploração do homem pelo homem, as desumanas condições de trabalho acabam calando os homens e as mulheres, que nem força para se animarem têm mais. Fim de dia de trabalho: o cansaço e o silêncio daqueles que não podem escolher porque não são donos de suas vidas, não são livres. Aí está um pequeno exemplo da retórica neorrealista que denuncia e sonha com uma sociedade mais justa. Sugestão de estudo Assista ao filme Germinal, baseado no romance naturalista do escritor francês Émile Zola. O presencismo O nome ‘presencismo’ se deve à grande importância que teve a Revista Presença para a consolidação e divulgação do modernismo português, bem como para a valorização dos escritores mais originais da época. Presença teve seu primeiro número publicado em Coimbra, a 10 de março de 1927 e, ao contrário de outras revistas de vanguarda – como a Orpheu, que veremos a seguir, - ela durou até 1940, com 56 números publicados. 26 AULA 2 • A LITERATURA PORTUGUESA DO INÍCIODO SÉCULO XX O que a revista Presença pretendia? Pretendia uma visão crítica apartidária que priorizava as criações literárias que revelassem originalidade, sinceridade e personalidade. É o que o grupo chamava de “literatura viva”. Assim, o grupo de Presença trouxe para a revista escritores que, ainda desconhecidos do público leitor, apresentavam em suas obras uma visão nova do homem e novas formas de expressão. Presença acabou se tornando o ponto de convergência de todas as tendências modernistas que, até então, só tinham expressão em fugazes publicações, como foi o caso dos dois únicos números da Revista Orpheu. Assim, Presença teve a função de dar o devido lugar a valores como Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, verdadeiros grandes espíritos e grandes escritores que conferiram uma renovação da literatura portuguesa, levando-a ao nível dos movimentos europeus de vanguarda. Mais do que uma revista de longa duração, Presença se destacou como uma geração revolucionária que defendeu a arte pura e a liberdade do artista. Essa revista foi, sobretudo, um órgão de abertura ao mundo, assumindo-se como veículo de divulgação, em Portugal, de escritores e de tendências proeminentes das literaturas estrangeiras. Transcrevo para vocês um pequeno trecho do artigo de apresentação da revista Presença, intitulado “Literatura viva”, de autoria do escritor José Régio: ”Literatura viva é aquela em que o artista insuflou a sua própria vida, e que por isso mesmo passa a viver de vida própria. Sendo esse artista um homem superior pela sensibilidade, pela inteligência e pela imaginação, a literatura viva que ele produza será superior...” Apud. MONTEIRO:1972 O poeta que mais se destacou nessa geração de Presença foi, sem dúvida, José Régio (1901 - 1969). Sua obra revela grande profundidade, riqueza de perspectivas, além de uma ampla significação. Esse poeta contava com grande admiração do público e seus temas giravam em torno do homem repartido entre Deus e o Diabo, da pequenez da vida cotidiana em contraste com a grandeza do ideal, e do orgulho em contrapartida à humildade. Régio apresenta elegância e rigor em suas poesias, além de uma expressão disciplinada e um equilíbrio no jogo dos sentimentos quase sempre contraditórios. Vamos ler um belo poema de José Régio para conhecê-lo um pouco mais de perto, mais de dentro de sua poesia. A grafia das palavras está tal como foi publicado na época. E essa observação vale para todos os textos desta aula. O Papão “Atrás da porta, erecto e rígido, presente, Ele espera-me. E por isso eu me atrapalho E vou pisar, exactamente, A sombra d’Ele no soalho! 27 A LITERATURA PORTUGUESA DO INÍCIO DO SÉCULO XX • AULA 2 - “Senhor Papão! (Gaguejo eu) Deixe-me ir dar a minha lição! Sou professor no liceu...” Mas o seu hálito Marcou-me, frio como o fio de uma espada. E eu saio pálido, com a garganta fechada. Perguntam-me, lá fora: “Estás doente?” - Não! (grito-lhes)... porquê?! E falo e rio, divertindo-me. Ora o pior é que há palavras em que eu paro, de repente, E que me doem, doem, prolongando-se e ferindo-me... Então, no ar, Levitando-se, enorme, e subvertendo tudo, Ele faz frio e luz como um luar... E eu ouço-lhe o riso mudo! - “Senhor Papão! (Gaguejo eu) por quem é, Deixe-me estar aqui, nesta reunião, Sentadinho, a tomar o meu café!...” Mas os mínimos gestos e palavras do meu dia Ficaram cheios de sentido, Ter demais que dizer – ah! Que maçada e que agonia! É natural que eu seja repelido. Fujo. E na minha mansarda, Eu torno: “Senhor Papão! Se é o meu Anjo da Guarda, Guarde-me, mas de si! da vida, não! O seu olhar, então, fuzila como um facho. Suas asas sem fim vibram no ar como um açoite... E até no leito em que eu me deito o acho, E nós lutamos toda a noite. Até que vencido, imbele Ante o esplendor da sua face, Eu, de repente, beijo a mão diante d’Ele, Reconhecendo o seu disfarce. 28 AULA 2 • A LITERATURA PORTUGUESA DO INÍCIO DO SÉCULO XX E rezo-Lhe: “Meu Deus! perdão: Senhor Papão! Eu não sou digno desta guerra! Poupe-me à sua Revelação! Deixe-me ser cá da terra!” Quando uma súbita miragem Me faz ver (truque já velho!...) Que estou em frente do espelho, Ante a minha própria imagem.” Apud. MONTEIRO: 1972 Como vocês podem notar, fica clara, nesse poema, a temática da divisão do homem: eu e o outro que convive em cada um de nós. O poema de Régio apresenta grande dramaticidade ao representar o ‘outro’ como o Papão, aquele mesmo que é ameaça e susto para as crianças de todos os tempos. Ele é o invasor, o indesejado, aquele que nos põe diante do espelho e nos obriga a olhar o que nem sempre é confortável de ver. O Papão é o ‘outro’ que não nos deixa dormir, que invade nossos sonhos e contra o qual lutamos sem parar. O eu lírico, no decorrer do poema, ‘sacraliza’ esse outro, reza para ele, embora pedindo para se ver livre dele. O Papão representa tudo aquilo que não queremos ver em nós e, muitas vezes, nem temos consciência de sua presença. No entanto, ele está ali, sempre conosco e tantas horas nos dizendo o que fazer. Ele é esplendor e terror ao mesmo tempo e, por isso nos desperta sentimentos ambíguos de desejo e medo. Observem agora a composição do poema que abriga recursos até então inusitados em poesia: o tom dialógico de algumas estrofes (recurso muito mais da prosa do que da poesia), com o uso de aspas e travessões; a pontuação expressiva como as exclamações, as reticências e as interrogações – todas expressando espanto, medo, dúvida, suspeita, revelação e todo o mistério de um eu que se vê diante de um espelho. Trata-se de uma expressão que rompe com o fazer poético tradicional em que os versos, em sua maioria, tinham que ser rimados e metrificados. Só a modernidade trouxe os conflitos psíquicos do homem para a poesia. E isso se deve, em Portugal, à porta que a geração de Orpheu deixou aberta como herança das mais preciosas. Estudaremos isso mais adiante. Reuniram-se em torno da Revista Presença, além de Régio, vários poetas portugueses de renome. Eis alguns deles: Branquinho da Fonseca, Edmundo de Bettencourt, Antônio de Navarro, Carlos Queirós, Francisco Bugalho, Fausto José, Saul Dias, Alberto de Serpa e Adolfo Casais Monteiro. Um autor também da maior importância e que comungou com os ideais da Presença foi Miguel Torga. No entanto, esse escritor sempre marcou a sua diferença e se recusava a ser incluído na chamada ‘geração Presença’. Ele não queria rótulos para si. Sugestão de estudo Vejam o poema’ Cântico Negro’ de José Régio, declamado por Maria Bethânia: https://www.youtube.com/ watch?v=XV_iXZFPBCk https://www.youtube.com/watch?v=XV_iXZFPBCk https://www.youtube.com/watch?v=XV_iXZFPBCk 29 A LITERATURA PORTUGUESA DO INÍCIO DO SÉCULO XX • AULA 2 Não podemos, porém, num curso de Literatura Portuguesa, deixar no silêncio um autor como Miguel Torga (1907 – 1995).que, com uma extensa obra, escreveu não só poemas, mas também prosas de ficção. Vou transcrever para vocês um conto desse autor, publicado em seu livro “Bichos”, em Portugal, em 1940. Jesus “Comiam todos o caldo, recolhidos e calados, quando o menino disse: - Sei um ninho! A Mãe levantou para ele os olhos negros, a interrogar. O Pai, esse, perdido no alheamento costumado, nem ouviu. Mas o pequeno, ou para responder à Mãe, ou para acordar o Pai, repetiu: - Sei um ninho! O velho ergueu finalmente as pálpebras pesadas, e ficou atento, também. A criança, então, um tudo-nada excitada, contou. Contou que à tarde, na altura em que regressava a casa com a ovelha, vira sair um pintassilgo de dentro dum grande cedro. E tanto olhara, tanto afiara os olhos para a espessura da rama, que descobrira o manhuço negro, lá no alto, numa galha. A Mãe bebia as palavras do filho, a beijá-lo todo com a luz da alma. O Pai regressou ao caldo. Mas o menino continuou. Disse que então prendera a cordeira a uma giesta e trepara pela árvore acima. De novo o Pai levantou as pálpebras cansadas, e ficou tal e qual a Mãe: inquieto, com a respiraçãosuspensa, a ouvir. E o pequeno ia subindo. O cedro era enorme, muito grosso e muito alto. E o corpito, colado a ele, trepava devagar, metade de cada vez. Firmava primeiro os braços; e só então as pernas avançavam até onde podiam. Aí paravam, fincadas na casca rija. A subida levou tempo. Foi até preciso descansar três vezes pelo caminho, nos tocos duros dos ramos. Por fim, o resto teve que ser a pulso, porque eram já só vergônteas as pernadas da ponta. Transidos, nem o Pai nem a Mãe diziam nada. Deixavam apavorados, mudos, que o pequeno chegasse ao cimo, à crista, e pusesse os olhos inocentes no ovo pintado. O ninho tinha só um ovo. 30 AULA 2 • A LITERATURA PORTUGUESA DO INÍCIO DO SÉCULO XX Aqui, o menino fez parar o coração dos pais. Inteiramente esquecido da altura a que estava, procedera como se viver ali, perto do céu, fosse viver na terra, sem precisão dos braços cautelosos agarrados a nada. E ambos viram num relance o pequeno rolar, cair do alto, da ponta do cedro, no chão duro e mortal de Nazaré. Mas a criança, apesar de mostrar, sem querer, que do todo se alheara do abismo sobre que pairava, não caiu. Acontecera outra coisa. Depois de pegar no ovo, de contente, dera-lhe um beijo. E, ao simples calor da sua boca, a casca estalara ao meio e nascera lá de dentro um pintassilgo depenadinho. E o menino contava esta maravilha com sua inocência costumada, como quando repetia a história de José do Egipto, que ouvira ler a um vizinho. Por fim, pôs amorosamente o passarinho entre a penugem da cama, e desceu. E agora, um nada comprometido, mas cheio da sua felicidade, sabia um ninho. A ceia acabou num silêncio carregado. Só depois, à volta do lume quente do cepo de oliveira em brasido, é que os pais disseram um ao outro algumas palavras enigmáticas, que o menino não entendeu. Mas para quê entender palavras assim? Queria era guardar dentro de si a imagem daquele passarinho depenado e pequenino. Isso e, ao mesmo tempo olhar cheio de deslumbramento os dedos da Mãe que, alvos de neve, fiavam linho. E tanto se encheu da imagem do pintassilgo, tanto olhou a roca, o fuso, e aqueles dedos destros e maravilhosos, que daí a pouco deixou cair a cabeça tonta de sono no regaço virgem da Mãe.” Apud CEREJA: 1997 Uma das características da obra de Miguel Torga é apresentar em suas produções questionamentos existenciais de fundo cristão. Como vocês podem perceber, esse conto gira em torno da família de Jesus menino. Apesar de os nomes ‘Maria’ e ‘José’ não aparecerem no texto, o fato de as palavras ‘Pai’ e ‘Mãe’ estarem grafadas em maiúsculas já denota a especialidade dessa família. No entanto, o que é peculiar a Torga, essa família poderia ser qualquer grupo familiar de camponeses à mesa do jantar, ouvindo as peripécias do filho pequeno. Mas há algo que marca a diferença do menino: o beijo que dá ao ovo e que faz o pintassilgo nascer. De resto, o que vemos é um episódio dos mais corriqueiros no campo. É certo que os pais do menino percebem algo de especial no filho e trocam, entre si, palavras enigmáticas para o menino. Esse fato denota a espontaneidade e naturalidade da criança que nem se importa com o que é falado pelos pais. Ainda vocês podem perceber que o conto se constrói em dois planos narrativos: o plano da narração do menino (passado) e o plano presente da apreensão dos pais como se estivessem vivendo o fato narrado naquele momento. O clímax da narrativa acontece, quando, em sua narração, o menino, lá no cimo do cedro, solta os braços para pegar o ovo e beijá-lo. O desenvolvimento desse clímax se dá de forma inesperada e extraordinária com o menino, perfeitamente equilibrado, que faz, com o calor de sua boca, o ovo se rachar. 31 A LITERATURA PORTUGUESA DO INÍCIO DO SÉCULO XX • AULA 2 O final do conto é de uma simplicidade singular, o que mostra com clareza o lirismo característico da obra de Miguel Torga. Além disso, vocês podem notar que o contexto narrativo do conto retrata elementos da vida rural misturados à mitologia bíblica. São também traços característicos da obra de Torga. O que vimos até aqui sobre a revista Presença e seus colaborados constitui o que se chama didaticamente ‘o segundo modernismo português’. Passaremos, então, ao que foi o chamado ‘primeiro modernismo’, que tem a revista Orpheu como o grande detonador. O orfismo Orfismo é derivação da palavra Orpheu, nome da revista que abriu as portas para o modernismo português. Como vocês devem saber, Orfeu foi poeta e músico grego, apaixonado por Eurídice, que foi morta por uma mordida de cobra. Orfeu, inconformado, desafia as leis do Hades, moradia dos mortos, e, com sua música encanta Perséfone que convence Hades, seu marido, a dar a Orfeu uma chance. No entanto, uma condição é imposta a ele: Eurídice sairia do Hades atrás de Orfeu e este, em hipótese alguma poderia olhar para trás. A ansiedade, porém, fez Orfeu descumprir a condição e ele acaba perdendo Eurídice para sempre. Em 1915, um grupo de jovens artistas revolucionários resolve publicar uma revista com o nome de Orpheu, a qual tinha a clara intenção de apresentar à sociedade portuguesa suas novas produções a fim de chocar a burguesia e romper com a literatura que era feita até então. Mas apenas dois números da revista conseguiram ser publicados. O terceiro parece que já estava pronto, mas nunca saiu. Em torno dessa revista estavam artistas de vanguarda tentando atualizar a literatura portuguesa e colocá-la par a par com o que de mais moderno havia na Europa. Obviamente, Orpheu não foi bem recebida e pouco foi conhecida. Como já vimos, foi a Revista Presença que se encarregou de divulgar e publicar os trabalhos dos poetas de Orpheu. Muitos problemas surgiram para o grupo órfico: financeiros, políticos, da crítica que não se cansou de arrasar o trabalho desses jovens, chamando-os de ‘loucos’ e ‘inconsequentes’. Grande parte do financiamento da revista vinha da família do escritor Mário de Sá-Carneiro, mas as despesas chegaram a tal monta, que o pai do poeta cortou qualquer possibilidade de continuar com a empreitada. Para piorar a situação de Orpheu, Mário de Sá-Carneiro suicida-se logo em 1916, com apenas 25 anos, num quarto de hotel, em Paris. Deixou uma obra relativamente pequena, mas que abrangia poesia, prosa e teatro. Obra consistente, que o fez conhecido e respeitado como um dos maiores nomes do primeiro modernismo, ao lado de Fernando Pessoa. A poética de Mário de Sá-Carneiro revela a dispersão de um ser em busca de si mesmo, de um duplo ‘eu’ que completasse a angústia, o negativismo e o vazio existencial. Em suas produções abundam as sinestesias, a singularidade de sua imagética e sua poesia de sensações e fulgores. 32 AULA 2 • A LITERATURA PORTUGUESA DO INÍCIO DO SÉCULO XX Algumas de suas obras se aproximam dos futuristas e dadaístas europeus, contudo, em Portugal, foram seriamente censuradas. Maria Aliete Gallhoz, grande estudiosa do movimento de Orpheu, assim fala de Mário de Sá-Carneiro, num ensaio de 1958, que serviu de introdução à publicação da 2ª edição do volume 1 da Revista Orpheu, em 1971. Adolescente e indefinida sofreguidão de amor verga-o a uma febre de hipersensibilidade sensual em si, onde a cor e o tacto, sobretudo, desencadeiam uma complicada arborescência de sensações sinestésicas, deleitosas e doídas. Gasta-o uma impotente consumição de si descarregada na confissão translata dum metaforismo poético. ORPHEU 1: 1971 Para vocês conhecerem esses meandros e anseios de Mário de Sá-Carneiro, apresento-lhes um de seus poemas publicados no número 1 da Revista Orpheu. Taciturno Há Ouro marchetado em mim, a pedras raras, Ouro sinistro em sons de bronzes medievais – Joia profunda a minha Alma a luzes caras, Cibório triangular de ritos infernais. No meu mundo interior cerraram-se armaduras, Capacetes de ferro esmagaram Princesas. Toda uma estirpe rial de heróis d’Outras bravuras Em mim se despojou dos seus brasões e presas. Heraldicas-luar sobre ímpetos derubro, Humilhações a Liz, desforços de brocados; Bazilicas de tédio, arnezes de crispado, Insignias de Ilusão, troféus de jaspe e Outubro... A ponte levadiça e baça de Eu-ter-sido Enferrujou – embalde a tentarão descer... Sobre fossos de Vago, ameias de inda-querer – Manhãs de armas ainda em arraias de olvido... Percorro-me em salões sem janelas nem portas, Longas salas de trono a espessas densidades, Onde os pânos de Arrás são esgarçadas saudades, E os divans, em redor ânsias lassas, absortas... Há rôxos fins de Imperio em meu renunciar – Caprichos de setim do meu desdém Astral... 33 A LITERATURA PORTUGUESA DO INÍCIO DO SÉCULO XX • AULA 2 Há exéquias de heróis na minha dor feudal – E os meus remorsos são terraços sobre o Mar... Paris, agosto de 1914 ORPHEU 1: 1971 Como vocês podem observar, não foi à toa que foram tão criticados. Esse poema, por exemplo, contraria toda a lógica de pensamento precedente. Há uma interseção de contextos espaciais que deixam o leitor impactado diante de imagens aparentemente tão díspares. Todavia essa era a intenção de Orpheu – uma originalidade espetacular com a finalidade explicitamente dita de “escandalizar o lepidóptero burguês”, segundo palavras do próprio grupo. Voltemos, então, ao poema Taciturno. Como disse anteriormente, vemos no texto uma interseção de contextos, ou seja, há o espaço do mistério e do segredo que equivale ao interior do eu lírico. Esse espaço é opaco e se representa pelo termo “em mim”, logo no primeiro verso. Concomitante a ele há toda uma ambiência medieval que notamos pelos termos ‘bronzes medievais’, ‘cibório’, ‘armaduras’, capacetes de ferro’, ‘Princesas’, ‘brazões’, ‘heraldicas’ e ‘ponte levadiça’, entre outros facilmente percebidos ao longo do poema. O eu lírico recorre a esse contexto para evocar um tempo de batalhas e guerras pela conquista de território, assim como ele luta para desbravar e conquistar a si mesmo. Mas o passado ficou para ele inacessível (‘a ponte levadiça e baça ... enferrujou’) e o que ele vive no presente é a possibilidade de uma fenda ou de um intervalo representado pelo termo ‘inda-querer’. Nesse ponto vemos o eu lírico encurralado, sem saída (‘Percorro-me em salões sem janelas nem portas’), entre esquecimentos e saudades, o que gera enorme ânsia uma ‘dôr feudal’ em que seus remorsos abissais são representados por ‘terraços sobre o Mar...’. Ora, sabe-se que a tradição portuguesa até o início do século XX se construiu na memória das grandes navegações e descobertas de novas terras, sendo, por isso o Mar a grande metáfora literária dessa tradição. Mas Sá-Carneiro, contrariando a tradição, não evoca o Mar como conquista e bravura, mas como desistência e renúncia. Não há pelo que lutar, ele, definitivamente, não se encontra, ou melhor, se perde na dor e na frustração. Vocês podem perceber o quanto o poema é plástico, misturando o concreto com o abstrato, deixando em seus versos aparecer uma invasão de sensações e de impressões nas quais os vários ‘eus’ emergem em total dissonância. E não é por acaso que o eu lírico evoca a imagem concreta do cibório, que é o cálice onde se operam transformações. Além de Mário de Sá-Carneiro, participaram do primeiro Orpheu, Ronald de Carvalho (brasileiro), Fernando Pessoa, Alfredo Pedro Guisado, Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) e o pintor José de Almada Negreiros. O segundo número de Orpheu contou com a participação de : Ângelo de Lima, Mário de Sá-Carneiro, Eduardo Guimarães, Raul Leal, Violante de Cysneiros, Álvaro de Campos, Luís de Montalvôr e Fernando Pessoa. 34 AULA 2 • A LITERATURA PORTUGUESA DO INÍCIO DO SÉCULO XX Ao contrário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa (1888-1935), criativamente, canaliza os desdobramentos de sua personalidade numa obra rica e diversificada, em que várias vozes internas se manifestaram sob a forma de poetas independentes (heterônimos). Vamos, então, mergulhar na obra desse grande poeta e pensador. Fernando Pessoa não era um homem simples, pelo contrário, parecia um ser que transbordava, que não cabia em si. Sofria de crises nervosas, era muito fechado, solitário e, de vez em quando, não suportava nem a companhia dos amigos mais íntimos. Trancava-se em seu pequeno quarto emprestado em Lisboa e não atendia a ninguém. Por ocasião do lançamento de Orpheu, ele permaneceu oculto por dois meses seguidos. Era uma personalidade inadaptada e sentia forte aversão à sociedade. Numa carta datada de 19 de janeiro de 1915, Pessoa se abre ao amigo Côrtes-Rodrigues: ... Não é crise para eu me lamentar. É a de se encontrar só quem se adiantou de mais aos companheiros de viagem – desta viagem que os outros fazem para se distrair e acho tão grave, tão cheia de termos de pensar no seu fim, de reflectir no que diremos ao Desconhecido para cuja casa a nossa inconsciência guia os nossos passos... (apud KUJAWSKI:1979) A crise de depressão e isolamento às vésperas do lançamento de Orpheu parece ter sido a contraparte de um exultante período anterior em que o poeta sofrera a crise heteronímica, na qual experimentou sua misteriosa divisão interna nos diferentes personagens (heterônimos) que lhe trariam a fama de maior poeta da Língua Portuguesa. Ninguém melhor para falar desse enigma dos heterônimos do que o próprio poeta em carta endereçada a Adolfo Casais Monteiro em 13 de janeiro de 1935. Desde criança tive a tendência de criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo). Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos. Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente em figura, movimentos, caráter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um eu, tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar. Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu primeiro heterônimo, ou, antes, o meu primeiro conhecido inexistente – um certo ‘Chevalier de Pas’ dos meus seis anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo, e cuja figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade. 35 A LITERATURA PORTUGUESA DO INÍCIO DO SÉCULO XX • AULA 2 ... Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. Teve várias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. Ocorria-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu sou, ou a quem suponho que sou. Dizia-o, imediatamente, espontaneamente, como sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja história acrescentava, e cuja figura – cara, estatura, traje e gesto – imediatamente eu via diante de mim. E assim arranjei, e propaguei vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas que ainda hoje, a perto de trinta anos de distância, oiço, sinto, vejo. Repito: oiço, sinto, vejo... E tenho saudades deles. ... Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato de pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis). Ano e meio ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já não me lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de março de 1914 – acerquei-me de uma cômoda alta, e, tomando