Logo Passei Direto
Buscar
Material

Prévia do material em texto

BARALHO DA REGULAÇÃO E PROFICIÊNCIA BARALHO DA REGULAÇÃO 0 Baralho da Regulação e Proficiência Emocional, desenvolvido pelos autores EMOCIONAL do Programa TRI Clínico e Preventivo, apresenta um modelo amplo e exclusivo de regulação emocional formatado em quinze passos baseados na biologia das emoções. Embora a regulação emocional ainda seja uma temática nova nas terapias cognitivas, 0 modelo aqui apresentado tem mostrado sua eficácia tanto nos processos clínicos quanto preventivos em saúde mental na infância. Atualmente podemos considerar que uma boa capacidade de regulação emocional permite 0 desenvolvimento de funções fundamentais à saúde individual e social, como a empatia e suas funções correlatas. ISBN 978-85-64468-97-9 SINOPSYS Renato M. Caminha TRI editora CLÍNICO SINOPSYS Marina G. Caminha editora Terapia de Reciclagem Clinico22 Apresentação abrangente como o que será aqui apresentado. Esperamos que este e trabalho possa encontrar o mesmo êxito que o Baralho das emoções encontrou. Muito obrigado a todos que têm participado direta e in- diretamente do crescimento deste nosso filho e que haja ainda muito a crescer e florescer. Boa leitura e bom trabalho clínico a todos! Introdução Apesar do grande desenvolvimento clínico das psicotera- pias cognitivas, a prática clínica com crianças ainda é marcada pelo baixo número de instrumentos padronizados que facilitem o acesso à criança por parte de seu terapeuta. Poucos são ins- trumentos que favorecem a entrada da criança na terapia, ou o início do processo terapêutico de um modo objetivo e com es- tratégias e metas de modo protocolar. Aaron Beck produziu um artigo que fora publicado no ano de 2005 sob o título de "The current state of cognitive the- rapy: a 40-year Nele encontramos poucas refe- rências à produção científica com crianças, se comparadas com os inúmeros artigos publicados com pacientes adultos. Na apresentação do livro de Reinecke, Dattilio e Freeman, no ano de 1999, Beck chamava a atenção dos leitores para a es- cassez de fontes sobre terapia cognitiva com crianças e da im- portância de tê-las, já que crianças e adolescentes são bastante sensíveis a intervenções psicoterápicas, respondendo, inclusive, mais rapidamente que os adultos em geral. próprio panorama das psicoterapias cognitivas aplica- das à infância ainda difere sobremodo do avanço que as mesmas práticas possuem no tratamento de pacientes adultos, embora24 Introdução Baralho da regulação e proficiência emocional 25 tal cenário esteja mudando significativamente, principalmente nos últimos cinco anos. instrumento possui ainda a flexibilidade de se moldar a A principal vantagem da prática clínica com crianças é que várias modalidades de intervenções. Ele pode ser utilizado como intervenções precoces podem evitar situações de sofrimento psico- parte do modelo TRI, tanto clínico quanto preventivo, pode ser lógico que poderiam se arrastar por um longo período e, quiçá, utilizado individualmente para trabalhar emoções por terapeu- comprometer a funcionalidade cognitivo-comportamental tas de outras correntes de psicoterapia, por pediatras, por peda- Atualmente parece haver uma conscientização maior de gogos, psicopedagogos, terapeutas de família, enfim, qualquer que intervenções tanto preventivas quanto clínicas, nesta sensível profissional que julgue adequada a sua utilização e que de algu- ma maneira trabalhe com as emoções de sua clientela. fase da vida, favorecem em demasia a aquisição de maior capaci- dade de resiliência. Afinal, a maioria dos problemas de saúde mental da idade adulta já indicavam significativos pródromos na UMA BREVE REVISÃO SOBRE AS EMOÇÕES fase infantil e adolescente, e sabemos hoje que esses pródromos são derivados essencialmente de desregulação das emoções. conhecimento que possuímos atualmente acerca das A fundamental diferença entre psicoterapia cognitiva de emoções deriva de um apanhado histórico que envolve formu- adultos e de crianças é a capacidade criativa do terapeuta para lações envolvendo aspectos fisiológicos, psicológicos, sociocul- criar linguagens que sejam capazes de acessar a criança e promo- turais e cognitivos. ver 0 ambiente terapêutico propício ao desfecho do tratamento. Vários importantes pesquisadores já formularam modelos Desse modo, a prática clínica com crianças requer sempre uma tanto sobre a origem quanto sobre o processo de funcionamen- grande capacidade inovadora por parte de quem a prática to dinâmico das emoções (Formiga, Camino, & Ismael, 2002). Ao longo do trabalho com o Baralho das emoções, resul- Darwin (1876) postulou acerca das emoções em seu tra- balho intitulado A expressão das emoções nos homens e nos ani- tados clínicos indicavam sensíveis melhoras dos pacientes nas sessões de trabalho emocional. Baseado neste histórico e funda- mais. As ideias de Darwin, todavia, ficaram no ostracismo por mentado pela biologia das emoções, acabamos por desenvolver um período relativamente longo até serem resgatadas e incorpo- radas definitivamente às ciências por Wilson (1975). e acrescentar mais elementos terapêuticos no que acabou se tor- Das propostas clássicas às contemporâneas, temos formu- nando um modelo exclusivo e específico de regulação e profici- lações de Willian James (1842-1910), Carl Lange (1834-1900), ência emocional, que acabou por originar este instrumento. que ficou conhecida como teoria James-Lang. Embora ambos modelo aqui apresentado está configurado em quinze pas- tenham chegado a conclusões semelhantes, eles nunca trabalha- aplicados através de exercícios específicos e originais do proto- ram juntos (Carlson, 2002). Outra teoria clássica surgiu em colo clínico e preventivo denominado TRI-C, terapia de recicla- 1920 postulada pelos fisiologistas Walter Cannon e Philip Bard, gem infantil modelo clínico, e TRI-P, trabalho de reciclagem infan- denominada teoria Cannon-Bard, dando ênfase às bases neurais til modelo preventivo, desenvolvido principalmente nas escolas.26 Introdução Baralho da regulação e proficiência emocional 27 das emoções. Nesta linha, Papez desenvolveu os fundamentos anatômicos para o estudo das emoções (Lent, 2005). Em 1949, cultural, contribuindo então, com o avanço no conhecimento MacLean aponta a importância do Sistema Límbico como o re- científico acerca das emoções (Carvalho, 2010). gulador das emoções. Na década de 1960, surgem postulados teóricos sobre as QUE SÃO EMOÇÕES emoções pelos psicólogos Stanley Schachter e Jerome Singer, sugerindo que o córtex constrói as emoções, similar ao que Há uma enormidade de conceitos sobre emoções. Eles dife- acontece no córtex visual. Assim, o córtex criaria respostas cog- rem entre si, de um modo geral, na ênfase em cada conceito expla- nitivas de acordo com a expectativa individual e o contexto so- nado. Alguns dos conceitos se centram mais nos processos cogniti- cial, sendo, portanto, a primeira teoria a envolver aspectos cog- vos enquanto outros enfatizam mais o social ou fisiológico. nitivo-sociais na abordagem das emoções (Carvalho, 2010). Se- Conforme Carvalho (2010), nos dias de hoje há certa guem outros importantes autores como Magda Arnold, que en- tendência de uma abordagem conceitual mais sistêmica: fatiza que a emoção deriva da avaliação inconsciente do estímu- lo ambiental, perigoso ou benéfico, enquanto o sentimento é a As emoções são fenômenos expressivos e de propósitos, filogeneti- reflexão consciente do sentir. Richard Lazarus seguiu a mesma camente transmitidas com propósitos adaptativos, de curta dura- linha enfatizando a importância das interpretações no disparo ção, que envolvem estados de sentimentos e ativação, e nos auxi- das emoções (Caminha, Soares, & Kreitchmann, liam na adaptação às oportunidades e aos desafios que enfrenta- mos durante eventos importantes de vida. É, também, um cons- Nos anos 1970, Izard propôs a Teoria Diferencial das tructo psicológico que une e coordena esses quatro aspectos da ex- Emoções, na qual enfatiza que as emoções básicas resultam de periência em um padrão sincronizado. (Reeve, 2006, p. 191) motivações e envolvem propósitos específicos de cada sujeito envolvido na ativação emocional (LeDoux, 2001). De acordo com essa visão, Reeve (2006) descreve os qua- A década de 1970 foi dominada pela visão cognitiva das tro componentes da emoção: componente sentimento, o emoções até o trabalho do psicólogo Robert Zajonc surgir nos componente da excitação corporal, o componente social-ex- anos 1980. Zajonc demonstra experimentalmente que há ativa- pressivo e o componente sentido de propósito. ção de emoções independente do registro consciente das mes- A emoção é uma descarga biológica envolvendo o sistema mas, ou seja, alheio ao processamento cognitivo, numa modali- endócrino, o estriado e a modulação desta descarga pelo sistema dade de funcionamento procedural (LeDoux, 2001). límbico (Damásio, 1996). A emoção é puramente fisiológica, Outros teóricos merecem citação quando falamos de sentida no corpo, necessitando de um cérebro que a decodifi- emoções: Solomon (1980), Pankseep (1982), Averill (1982), que para lhe garantir uma semântica (processos cognitivos), Shaver et al. (1993), Frijda (1993). Estes autores enquadram uma interpretação que lhe dê significado. resultado desta aspectos diversos como fisiologia, cognição e contexto socio- atribuição semântica é o que chamamos de sentimentos.28 Introdução Baralho da regulação e proficiência emocional 29 lógica, as emoções são descargas fisiológicas en- A revitalização das ideias de Darwin surge em 1975 quanto Nesta sentimentos são a interpretação do cérebro semântico quando Edward Osborne Wilson escreve um trabalho divisor ao que está acontecendo no corpo. de águas denominado Sociobiologia: a nova sintese. Após esta Assim, em nosso modelo TRI de regulação emocional esta- publicação, tornou-se impensável fazer ciência psicológica, mais centrados numa lógica conceitual baseada primordial- neurociências ou biologia do comportamento sem a lógica da- mos mente em Darwin (1876), Damásio (1996) e Edelman (1992). rwiniana de base. avanço da ciência com a descoberta do gene como via de transmissão de caracteres, bem como os avançados modelos 0 ASPECTO EVOLUCIONISTA DAS EMOÇÕES: de genética molecular, só favoreceu o aceite das ideias darwinia- A BASE DO MODELO TRI nas e o desmonte do preconceito e da vinculação política de seu trabalho (Desmond & Moore, 1995). Charles Darwin (1876), conforme referido anteiormente, Nesta lógica evolucionista, as emoções possuem duas fun- foi primeiro cientista a propor uma base inata das emoções a ções básicas: estratégias reativas à ativação das emoções e comu- partir da observação comparativa da expressão emocional em nicação, essencial as espécies sociais. humanos e todo tipo de animais, inclusive insetos. Assim, comportamentos seriam desencadeados por emo- A hipótese de uma filogênese das emoções surge para Da- ções favorecendo a adaptação e as transformações sociais e pessoais. rwin através de uma simples observação. Darwin tinh filhos, Tomemos a emoção medo como exemplo: diante de uma ameaça tinha também, como todo inglês vitoriano, de Ele a emoção medo se ativa e com ela surge o comportamento de luta, observava que os apresentavam medo, raiva, e tris- fuga ou freezing. Esta resposta, por exemplo, ativa a função adapta- teza, nada diferente das emoções que seus filhos express tiva de proteção e preservação da vida (Reeve, 2006). Em seu clássico trabalho A expressão da emoção no homens comportamento exemplificado, irradia socialmente e nos animais", Darwin acaba por traçar um verdadeiro e atual uma forma de transmissão do sentimento do indivíduo em tratado de psicologia evolucionista. Após a leitura do texto, questão e acaba por influenciar no feed back social, ou seja, no conseguimos vislumbrar as bases de toda a psicologia moderna modo como as pessoas passam a nos ver, nos tratar e conosco neste trabalho de 1876. interagir. A informação emocional é transmitida através de sé- grande problema é que a obra de Darwin ficou no os- ries de manifestações faciais, vocais e corporais que comunicam tracismo por um período demasiado longo. Darwinismo foi aos membros da mesma espécie o que organismo ativado pela correlacionado injustamente com ideias eugenistas e como for- emoção está especificamente sentindo e quais implicações isso ma de justificar diferenças sociais. Um grande equívoco causado poderá ter no grupo social. por Robert Spencer, criador do darwinismo social, que prova- Os códigos expressos nas expressões faciais, na vocalização velmente buscava alguma projeção às custas de Darwin. e nas expressões corporais, possuem sumária importância para aBaralho da regulação e proficiência emocional 31 30 Introdução não apenas entre os humanos, mas também do entre Novos achados em neurociências são altamente indicati- comunicação primatas em geral, sendo o que os biólogos com- vos desta condição (Jadri et al., 2012) demonstram, através de portamento os grandes nomearam de "Teoria da Mente" (Wilson, 1975). uma técnica chamada fMRI, que fetos na semana de gesta- A Teoria da Mente é conceitualizada por Premack & ção apresentam uma forma básica de categorização mental. Ex- Woodruff (1978) como uma capacidade, uma habilidade que postos a duas formas de estímulos, um aversivo e outro favorá- permite a percepção do mundo interno do outro, uma conexão vel, áreas diferentes do cérebro se ativam. com aspectos subjetivos do outro, envolvendo inferências acer- Após o quarto mês de gestação, os fetos já possuem a ha- ca do que o outro está sentindo até o que ele está pensando. bilidade de identificar a VOZ da mãe, intraútero e até identificar Teoria da Mente é a capacidade de dar um sentido aos canções ou melodias que a mãe cante para o bebê. Após nas- próprios estados mentais e ao estado mental dos outros. Dessa cimento, quando escutarem novamente tais melodias, podem se conexão proporcionada pela capacidade de algumas espécies sentir seguros e tranquilos, baixando a ansiedade decorrente de que executam a Teoria da Mente, surgem atributos extrema- novas situações ambientais estressantes (Caminha & Caminha, mente importantes para as espécies com alto grau de comporta- 2011). Na segunda metade da gestação, os fetos já são capazes mentos sociais: a empatia e suas funções correlatas, altruísmo, de responder diferenciadamente a estímulos auditivos, bem compaixão e colaboração. Conceitos que serão explicados com como categorizar os estímulos agradáveis e os desagradáveis maior acurácia a seguir. (Caminha, Soares, & Kreitchmann, 2011). Se pensarmos no modelo mental, descrito por Edelman (1992), concluímos que vias neurais estão sendo estimuladas A PRIMAZIA DAS EMOÇÕES neste precoce processo de categorização de estímulos. Neste momento do desenvolvimento humano, estamos longe de As neurociências acabam por contribuir em com possuirmos uma consciência habilitada, mediadora e interpre- o conhecimento mais amplo do papel das emoções em nossas tativa dos fatos à nossa volta, todavia, já registramos nossas vidas. Damásio (1996) ao escrever erro de Descartes, total- ativações emocionais. mente baseado em achados científicos de seu laboratório, causa A grande questão que tem servido de base epistemológica uma verdadeira reviravolta na importância contextual das emo- da TRI é que essas vias estimuladas precocemente apontam ten- ções ao longo do curso do desenvolvimento humano. dências futuras no processo atencional quando houver maior o erro de Descartes consiste na primazia da razão sobre a integração entre as funções executivas, ou seja, consciência. emoção: "penso, logo existo". Nesta afirmativa, Descartes suge- o que esperar de um organismo que possui vias neurais mais re que a essência humana está calcada na capacidade cognitiva, estimuladas para processar estímulos aversivos do que estímulos na condição de ser pensante. A neurociência acaba por indicar positivos? Que esse organismo seja mais atento, mais sensível a estí- que nossa condição está mais calcada no ser emocional. mulos aversivos do que estímulos positivos obviamente.32 Introdução Baralho da regulação e proficiência emocional 33 Assim sendo, com bases de memórias emocionais com maiores registros de ativações aversivas, ainda, levando-se Atualmente programa TRI é uma área de investigação conta que o desenvolvimento da consciência só irá surgir científica em algumas universidades, dentre elas PUC-RS, Au- a em partir dos três anos de idade quando o hipocampo começa tônoma de Barcelona, Universidade do Algarve e USP-Ribeirão Preto com resultados preliminares bastante animadores. armazenamento de memórias autobiográficas, o que pode- Há, portanto, fortes indícios que a saúde mental na in- mos inferir? fância, e posteriormente adolescência e vida adulta, está subor- Que possivelmente as cognições estarão condicionadas dinada a capacidade de regulação emocional. aos fortes esquemas emocionais previamente delineados. Em suma, conforme Damásio (1996), eu não apenas sinto antes de pensar como o que eu penso será derivado e subordinado às ati- QUE É REGULAÇÃO EMOCIONAL? vações emocionais. Nesta lógica, a epistemologia proposta sugere que, pelo Sendo as emoções filogeneticamente transmitidas e ser- menos na infância, quando ensinamos as crianças a proficiência vindo ao fim adaptativo de estratégias de sobrevivência e comu- emocional, possibilitamos a elas a capacidade de regulação emo- nicação nas espécies sociais, concluímos que todos os seres hu- cional plena e consequentemente maior capacidade de flexibili- manos nascem com um conjunto básico de emoções: alegria, zação cognitiva. Sistemas capazes de autorregular emocional- tristeza, medo, nojo, raiva e surpresa, conforme Ekman (2011). mente acabam por gerar mais autorregulação cognitiva, com- Devemos incluir amor como uma emoção básica, conforme portamental e fisiológica. sustentam Damásio (2010) e De Waal (2010). Do ponto de vista da abordagem clínica neste instrumen- to (Baralho das emoções), não utilizamos a emoção surpresa de- A TRI NO MEIO CIENTÍFICO vido a mesma ser decodificadora e indicativa de outra emoção principal. Ao ativar surpresa podemos ter a presença de um pre- Resultados de trabalhos científicos começam a emergir dador que ativaria medo e raiva, provavelmente, ou ainda ter a do modelo TRI. Viana (2015) concluiu sua tese de doutora- chegada de um grupo de entes queridos que ativaria, provavel- mento utilizando os instrumentos TRI numa intervenção clí- mente, alegria e quiçá amor. nica com crianças portadoras de transtornos de ansiedade e Assim, faz parte da natureza que todos os seres humanos se- encontrou uma eficácia superior a 70% na redução dos qua- jam capazes de ativar e reconhecer qualquer uma destas emoções dros de ansiedade. básicas. Em vários momentos de nossa vida, teremos tsunamis de Além disso, Caminha e Caminha (2016) vêm realizando emoções ou pequenas marolas de emoções, conforme as situações intervenções clínicas em larga escala com modelo TRI com desencadeantes; todavia, as emoções por mais altas ou baixas que resultados apontando na mesma direção. sejam devem voltar ao estado de tranquilidade ou bem-estar, tecni-34 Introdução Baralho da regulação e proficiência emocional 35 camente considerado uma pré-emoção, ou seja, não há nenhuma emoção disparada quando estamos no estado de bem-estar. Raiva: significa que eu me sinto ofendido, violado, injus- Regulação emocional se resume ao fato de as emoções se tiçado, desrespeitado, agredido e/ou indignado. ativarem e se desativarem plenamente, ou ainda, da capacidade Tristeza: significa que eu me sinto perdendo algo, deixa- de entender as emoções e reagir emocionalmente de modo ade- do de lado, desprestigiado, desvalorizado, desprezado e/ou não aceito pelas pessoas. quado a cada situação, não incorporando ao self identidade da emoção. Ninguém é raiva, tristeza ou alegria, somos a capacidade Nojo: significa que eu me sinto repugnado, enjoado e/ou de sentirmos cada uma dessas emoções. As emoções não nos re- recusando algo (antipatia, repulsa). presentam como identidade; caso contrário, estaremos distantes Alegria: significa que eu me sinto satisfeito, prestigiado, da regulação emocional. valorizado, acolhido, aceito, adequado e/ou adaptado. Amor: significa que eu me sinto protegido, amparado, acolhido, aceito, querido e/ou gostado. SEMÂNTICA DAS EMOÇÕES Conforme o Baralho dos pensamentos, Caminha e Cami- nha (2012) já haviam criado um repertório de pensamentos As emoções possuem uma semântica bastante restritiva, con- possíveis e mais prováveis para cada uma das emoções básicas. forme Caminha e Caminha (2012) demonstram no Baralho dos pen- No Baralho dos pensamentos temos um conjunto de nove pensa- samentos. Neste trabalho, os autores fizeram um mapeamento amplo mentos prontos e balões de pensamentos em branco para que a de pensamentos possíveis e relacionados a cada um das emoções bá- criança preencha com um pensamento não contemplado no ba- sicas. De fato, acabaram por configurar uma ampla variação de sinô- ralho, mas que pela lógica não fugirá da semântica devidamente nimos e denominações expressivas proposicionais capazes de comu- especificada no exemplo citado. nicar o sentimento relacionado à ativação emocional. Quando a criança é capaz de compreender o que significa Assim sendo Caminha e Caminha (2012) partiram uma aquela emoção ela já antecipa quais pensamentos e qual semân- circunscrição semântica de cada uma das emoções básicas a partir do tica terão esses pensamentos derivados da emoção ativada, sen- cerceamento semântico de cada emoção e num linguajar compreen- do essa compreensão parte importante do processo que batiza- sível para as crianças. Testado o modelo em ambulatório infantil, o mos de proficiência emocional. resultado foi a capacidade plena de entendimento das crianças, con- forme as palavras usadas. Temos, assim, a seguinte descrição. PARA QUE SERVEM AS EMOÇÕES? Qual a semântica de cada emoção? As emoções básicas Medo: significa que me sinto desprotegido, frágil, em pe- Adotando-se a ideia de que há um grupo de emoções rigo, ameaçado, sem saída, inseguro e/ou exposto. básicas transmitidas filogeneticamente, surge a importância36 Introdução Baralho da regulação e proficiência emocional 37 trabalhos de Ekman (1968) e Ekman et al. (1969). Im- abusando de nós ou prestes a se tornar inconveniente ou invasi- dos grifarmos que todas elas possuem uma capacidade vo, empostamos o nosso self e o preservamos. Ajuda a autono- adaptativa portante no sentido darwiniano, na dose certa são altamente mia e a autoeficácia do sujeito, em suma, objetiva colocar o li- saudáveis, na dose excessiva ou na ausência de expressão (ale- mite no outro. xitimia), juntamente com a baixa ou ausente capacidade de Patologias da raiva: transtorno explosivo intermitente voltar ao bem-estar, estão altamente correlacionadas com psi- no excesso; na ausência, um self dependente sem capacidade de limitar o outro, comprometendo autonomia e auto-ficácia. copatologias. Medo: a função básica é a de preservação da vida. Obje- Tristeza: a emoção tristeza é uma das manifestações da tiva antecipar o dano físico ou psicológico. Gera o ato reflexo necessidade de cuidado e de atenção lançada ao meio ambiente de luta-fuga ou freezing. Ambas respostas devem trazer vanta- em direção às pessoas que nos cercam. A tristeza, na medida gens adaptativas, inclusive o freezing que possui o propósito saudável, permite a reflexão e ativa o processamento metacogni- biológico de tornar-se desinteressante ao predador. Há preda- tivo. Ela nos permite refletir e modificar nossas condutas, obje- dores que não comem presas mortas, por exemplo. medo tivos e direcionamentos às metas. gera os 5Fs do medo: Freezing (congelar); Flight (fugir); Fight Patologias da tristeza: depressão, podendo, em doses (lutar); Fright (assustar-se) e por último o Faint (desmaiar), ele-vadas, estagnar o sujeito ao nível social e a dependência de este último especificamente para humanos e em casos de vio- outrem. Em estados agudos, promove alterações drásticas da realidade e pode levar o indivíduo a um enorme paradoxo lência intragrupal. Na mesma lógica darwiniana, as respostas fisiológicas gera- gerado pela desregulação emocional intensa: o suicídio. To- dos os organismos vivos nascem com a prerrogativa biológica das pelo medo como: sudorese, taquicardia, visão turva, pos- de autopreservação; no caso do suicídio, a tristeza patológi- suem iguais funções adaptativas predispondo o organismo a ca levaria o sujeito a subverter um princípio biológico bási- adaptar-se conforme o estímulo desencadeante (Caminha. 2005). dos organismos vivos. A ausência de tristeza, por sua vez, Patologias do medo: medo em excesso, fobias e preocu- pode estar associada ao estado de mania ou de baixa ativação pações ao nível da ansiedade generalizada; ausência de medo, metacognitiva. impulsividade e risco. Alegria: expressa acontecimentos desejáveis para o sujeito Raiva: a função básica é a proteção ao ninho, filhote e tanto ao nível pessoal quanto coletivo. Serve como uma forma território. Despertada a partir de situações as quais o organismo de equilíbrio contra as emoções desagradáveis. Reforça forte- se sente "atacado". Socialmente adquire a função de preservar o mente vínculos sociais, fomentando desse modo, a socialização. self. As espécies sociais evitam sobremodo o embate em função principal ganho da expressão da alegria é a promoção e o re- do risco promovido. Numa situação social quando nos posicio- forçamento bilateral de interações sociais positivas. namos de modo a colocar limite no outro, em alguém que está38 Introdução Baralho da regulação e proficiência emocional 39 Patologias da alegria: em doses excessivas está relaciona- não vulnerabilizarmos nossa saúde. nojo ativado implica em da aos casos de mania e, na ausência, em casos de humor distí- reações fisiológicas de rejeição, podendo gerar vômitos como for- mico e depressivo maior. ma de expulsão de elementos contaminados. As contaminações Amor: emoção fortemente ligada ao apego (attachment) podem ser interpessoais, corporais ou morais. nojo pode gerar com funções importantes adaptativas, como, por exemplo, man- o comportamento de rejeição, de repulsa. Uma das emoções mais ter vínculos entre filhotes e cuidadores numa espécie muito de- influenciadas por questões culturais, frequentemente sentimos nojo, repulsa de algumas pessoas por suas condutas. pendente de cuidados ambientais como é o bebê humano. Pos- Patologias do nojo: em excesso, pode estar associado ao teriormente, o apego transforma-se em vínculo. É o momento transtorno obsessivo-compulsivo de contaminação; socialmen- da difusão da emoção amor no qual passamos a ter várias possi- te, se houver excesso de repulsa pelos outros, há graves proble- bilidades de expressão amorosa com diferentes valências e com mas de interação social. Na ausência, está associado à impulsivi- a possibilidade ainda de termos amor sexual e não sexual. dade e à falta de discriminação do que deve ser repelido. amor serve para reproduzirmos e cuidarmos adequadamente de filhotes frágeis e dependentes e serve ainda para a manutenção de reação correspondente à percepção de novos estí- vínculos afetivos, laços de amizade e familiaridade, o que nos per- mulos que podem estar associados a fatores positivos ou negativos. Possui uma função de filtro decodificador entre a alegria, a tristeza, mite a expressão da plasticidade social. É também um importante o amor, a raiva, o nojo e o medo. Instiga o sujeito a classificar a ex- redutor de estresse. Falhas no apego inicial remontam a impor- periência nova, o fator surpresa, e alocar recursos, estratégias de co- tantes transtornos da personalidade do Cluster B, principalmente ping para enfrentar o estímulo. Surpresa pode ser causada pela che- o Transtorno Borderline de Personalidade e o Transtorno de Per- gada de novos membros num agrupamento social, podendo os sonalidade Antissocial, na idade adulta. É importante as mesmos ser amigos ou inimigos, donde deriva o encaminhamento crianças entendam que da emoção amor derivam para a emoção alegria ou medo e raiva. as formas de gostar. Tudo aquilo que gostamos envolve Embora não considerada por Ekman (2011) como uma tipo de apego afetivo em maior ou menor valência. emoção básica, o amor deve ser incluído nas emoções básicas a par- Patologias do em doses elevadas, pode ser invali- tir do argumento de Damásio (2010) e De Waal (2010). o amor é dante por não promover o treino de tolerância à frustração e a emoção essencial que leva à reprodução e à proteção ao filhote, por não instigar a autonomia e autoeficácia. Na ausência ou apego (attachment). Sem proteção ao filhote ou reprodução nada em doses muito baixas, não promove o desenvolvimento da faria sentido do ponto de vista conceitual da espécie. empatia e da socialização em razão da falta do senso de prote- ção e acolhimento. Carta não inclusa no Baralho devido não ter se mostrado de grande utilidade e de baixo nível de compreensão pelas crianças, além de sofrer forte influência cultural. Nojo ou repugnância: deriva da necessidade de evitarmos As crianças usam rotineiramente a palavra surpresa como algo muito agradável, ou nos contaminar com coisas deterioradas ou estragadas a fim de seja, como uma forma de ganhar um presente ou ser surpreendido com algo gostoso.Baralho da regulação e proficiência emocional 41 40 Introdução Ainda, o amor é responsável pelo surgimento da empatia. no ção. Viver em grupo nos protege. Embora nossa condição social Conforme De Waal (2010), a empatia surge na natureza de mo- fi- seja inata, a natureza nos equipou com ferramentas fomentado- mento uma fêmea se importou com o bem-estar seu desen- ras desta socialização a empatia e suas funções correlatas: co- lhote. Derivado que desta capacidade empática, há o enorme humanos. laboração, altruísmo e compaixão. volvimento das configurações sociais, sobretudo nos A empatia permite que nossa socialização seja harmôni- Num aspecto global, as emoções servem à comunicação. A ca, evitando o individualismo excessivo na sobrevivência huma- espécie humana evolui do gesto à palavra, possuindo o gestual uma na. A empatia depende, conforme De Waal (2010), da capaci- ampla gama de comunicação muito superior à palavra. dade que um organismo vivo tenha de ter consciência de si As demais emoções expressas neste trabalho através das mesmo, ou seja, se você não for capaz de vivenciar emoções em cartas com carinhas são consideradas emoções secundárias ou si mesmo jamais será capaz de perceber as emoções na perspec- ainda terciárias e são fortemente influenciadas por aspectos cog- tiva de outrem. Empatia é, portanto, uma característica inata do ser hu- nitivos e sociais. Conforme Carvalho (2010), cada emoção tem seu res- mano, assim como de muitos outros animais, que depende de pectivo padrão de manifestação fisiológica e comportamental. estimulação ambiental. Assim sendo, a empatia é sensível às in- As manifestações fisiológicas variam de acordo com cada emo- tervenções ambientais tanto para aumento como redução da ex- ção evocada, envolvendo diversos sistemas orgânicos em seu pressão dessa capacidade. processamento. As manifestações comportamentais resultam A ausência da empatia acaba por corroer a socialização e em respostas motoras podendo ser de natureza voluntária ou acaba por destruir e corromper uma das carac- involuntária. mais adaptativas dos seres humanos o comporta- mento social. Empatia: a base da socialização saudável Da empatia derivam outras funções correlatas que possuem e do da resiliência exatamente o mesmo propósito: incrementar e estabilizar os laços sociais. São elas as já citadas, cooperação, altruísmo e compaixão. Empatia é uma característica muito importante para as Cooperação é a ajuda promovida a alguém, algum orga- espécies sociais. O conceito significa, sinteticamente, a capaci- dade de nos colocarmos no lugar do outro, sendo capazes, en- nismo, que necessita. que requer que o organismo que coo- tão, de sentir o que o outro está sentindo e até de inferir o pera seja capaz de perceber a necessidade do outro e se dirigir a que o outro está pensando. Capacidade essa derivada da con- ação de ajudar, cooperar. dição inata da habilidade de operarmos a Teoria da Mente Altruísmo é a capacidade que as espécies sociais possuem (De Waal, 2010). de se colocar em risco no intuito de ajudar o próximo. A reci- Seres humanos são a mais social das espécies sociais, sen- procidade deste comportamento ajuda a estabilizar e a manter a do que viver em sociedade organizada traz o benefício da prote- harmonia e o senso de proteção em grupos sociais.42 Introdução Baralho da regulação e proficiência emocional 43 Por fim, a compaixão é a capacidade de amenizar o sofri- mento físico e ou psicológico de outrem. As emoções denominadas básicas possuem uma expres- Todas essas funções são encontradas na natureza em diversas são facial e um de vocalização padronizados. espécies, além dos humanos. Em grandes primatas suas expressões As emoções provocam um padrão de respostas fisiológi- são incrivelmente similares aos humanos (De Waal, 2010). cas e uma postura corporal distintos para cada indiví- duo. São interpretadas, ou seja, é dada uma semântica a cada QUESTÕES IMPORTANTES SOBRE ativação emocional (processo cognitivo), o que também AS EMOÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA acaba gerando emoções secundárias ou denominações diferenciadas com graduações igualmente diferenciadas Todas as psicopatologias apresentam algum nível de al- que aprimoram a comunicação da emoção em questão. teração no funcionamento emocional, patologia pode Geram comportamentos. ser considerada, inclusive, um sinônimo de desregula- ção emocional. Identificar e abordar disfunções na ex- pressão ou supressão das emoções (alexitimia) é parte de um importante processo terapêutico. As experiências precoces formam fortes esquemas emo- cionais mesmo que os processos cognitivos não estejam presentificados. As cognições são derivadas e influenciadas, portanto, pelas emoções. Em crianças, o aparato cognitivo ainda não goza de sua plenitude de desenvolvimento; portanto, proces- samento emocional, os esquemas emocionais são do- minantes e são os elementos mais importantes a serem trabalhados. Mesmo indivíduos sem patologias configuradas podem ter tendenciosidades em seus funcionamentos (esque- mas) emocionais, causando problemas individuais ou coletivos/sociais. Psicoeducá-los, deixando-os proficien- tes, tanto ao nível clínico quanto preventivo é uma for- ma de promover saúde mental.

Mais conteúdos dessa disciplina