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Como citar este material: ALENCAR, Michael. Gestão de tributos. Rio de Janeiro: FGV, 2024. Todos os direitos reservados. Textos, vídeos, sons, imagens, gráficos e demais componentes deste material são protegidos por direitos autorais e outros direitos de propriedade intelectual, de forma que é proibida a reprodução no todo ou em parte, sem a devida autorização. INTRODUÇÃO A complexidade do Sistema Tributário Nacional, a burocracia associada ao processo e as distorções da função econômica do tributo demandam cada vez mais conhecimentos específicos que impactam, significativamente, os custos e o resultado das organizações. Transportada para a área de gestão financeira, essa realidade exige dos gestores maior compreensão e aplicação dos princípios tributários, dos dispositivos legais e dos aspectos centrais do planejamento tributário, de modo que sejam capazes de avaliar os riscos de ordem financeira e fiscal quando da tomada de decisões. Considerando esse contexto, nesta apostila, abordaremos os principais conceitos relacionados ao Sistema Tributário Nacional, com destaque para o processo tributário e os principais tributos inerentes à dinâmica empresarial. Para tanto, contemplaremos os princípios constitucionais, o conceito de tributos e as suas espécies, o fato gerador do tributo, a obrigação tributária e o crédito tributário, os principais tributos incidentes sobre o faturamento e o resultado das empresas. Além disso, destacaremos o impacto econômico do planejamento tributário no fluxo de caixa das organizações, compreendendo-o como uma ferramenta capaz de oferecer suporte às decisões financeiras dos gestores. Com isso, pretendemos contribuir para a análise e a aplicação do Sistema Tributário Nacional, considerando os seus mecanismos e processos bem como destacando a sua importância para o processo de tomada de decisão dentro das empresas. Além disso, esperamos que você desenvolva as seguintes habilidades ao longo deste conteúdo: analisar e aplicar os conceitos e princípios tributários previstos na Constituição; identificar as hipóteses de obrigação tributária e de crédito tributário; identificar os principais tributos inerentes à dinâmica empresarial bem como o impacto desses tributos no resultado das empresas; estabelecer uma relação entre o planejamento tributário e o valuation das empresas. Sob esse foco, esta apostila foi estruturada em quatro módulos. No módulo I, apresentaremos uma visão geral do funcionamento do Sistema Tributário Nacional; analisaremos os seus principais conceitos e princípios; destacaremos a competência tributária; e abordaremos os limites legais do planejamento tributário como uma ferramenta que pode ser adequada à estratégia de economia tributária. No módulo II, abordaremos o fato gerador da obrigação que constitui o crédito tributário; destacaremos as hipóteses de suspensão, extinção e exclusão do crédito tributário; e analisarmos os conceitos de dívida ativa e responsabilidade tributária. No módulo III, destacaremos as principais características dos tributos inerentes à dinâmica empresarial – ICMS, ISS, IPI, PIS, Cofins, IRPJ e CSLL – e demonstraremos como devem ser mensurados na receita bruta de bens e serviços. No módulo IV, por fim, apresentaremos a metodologia de cálculo dos tributos nas sistemáticas de apuração do Simples Nacional, do lucro presumido e do lucro real; e abordaremos também o impacto do planejamento tributário no resultado das empresas, além das tendências para o futuro, relacionadas com a reforma tributária. É importante observarmos que esta apostila focará os principais tributos incidentes no mercado em geral, sem a pretensão de esgotar o assunto. Ao longo da leitura, portanto, tenha em mente que as atualizações legislativas são constantes e que os diferentes setores de atividade existentes no nosso País demandam conhecimentos próprios. SUMÁRIO MÓDULO I – SISTEMA TRIBUTÁRIO NACIONAL .............................................................................. 7 CONCEITO DE TRIBUTO E AS SUAS ESPÉCIES ................................................................................. 8 Espécies de tributo .................................................................................................................. 10 COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA ............................................................................................................ 10 PRINCÍPIOS DO SISTEMA TRIBUTÁRIO NACIONAL ...................................................................... 13 Princípio da capacidade contributiva .................................................................................... 15 Princípio da legalidade ............................................................................................................ 15 Princípio da isonomia .............................................................................................................. 16 Princípio da irretroatividade ................................................................................................... 16 Princípio da anterioridade ...................................................................................................... 16 Princípio do não confisco ........................................................................................................ 17 Princípio da transparência dos impostos ............................................................................. 17 Princípio da não cumulatividade do IPI e do ICMS .............................................................. 17 LIMITAÇÕES DA GESTÃO E DO PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO ................................................... 18 Evasão fiscal, elisão fiscal e elusão fiscal ......................................................................... 19 CONCLUSÃO ..................................................................................................................................... 21 MÓDULO II – OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA E CRÉDITO TRIBUTÁRIO ................................................. 23 FATO GERADOR E OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA ................................................................................ 23 Obrigação principal e obrigação acessória ................................................................... 25 OPÇÕES DE SUSPENSÃO, EXTINÇÃO E EXCLUSÃO DO CRÉDITO TRIBUTÁRIO ........................ 27 Suspensão do crédito tributário ............................................................................................ 28 Extinção do crédito tributário ................................................................................................ 29 Exclusão do crédito tributário ................................................................................................ 31 PROCESSO DE COBRANÇA ADMINISTRATIVA DO TRIBUTO ....................................................... 31 Lançamento por declaração ............................................................................................. 31 Lançamento por homologação ........................................................................................ 32 Lançamento de ofício ......................................................................................................... 32 DÍVIDA ATIVA E RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA ....................................................................... 33 Responsabilidade tributária ................................................................................................... 34 CONCLUSÃO ..................................................................................................................................... 35 MÓDULO III – TRIBUTOS INERENTES À DINÂMICA EMPRESARIAL ............................................... 37 IMPOSTO SOBRE CIRCULAÇÃO DE MERCADORIAS E SERVIÇOS (ICMS) .......................................... 37 Substituição tributária do ICMS .............................................................................................e CSLL). Em seguida, analisaremos como devem ser mensurados na receita bruta de bens e serviços. Abordaremos também os principais agentes envolvidos no processo de tributação (os contribuintes ou responsáveis por determinação legal) bem como os aspectos relativos à materialidade e à temporalidade. Definiremos ainda conceitos importantes, como o de fato gerador, alíquota e base de cálculo, componentes essenciais ao cálculo desses tributos. As empresas processam inúmeras informações diariamente nas suas operações. Essas informações derivam, essencialmente, do seu processo de industrialização, da prestação de serviços ou da venda de mercadorias. O nosso sistema tributário é complexo, com inúmeras particularidades que oferecem diversas opções para a elaboração de um planejamento tributário. Neste módulo, não visamos esgotar essas possibilidades, mas sim apresentar a estrutura conceitual e prática que é usual para a maioria dos contribuintes e que merece destaque pela sua relevância na proposta de alcançar o principal objetivo de um planejamento tributário: promover economia tributária com segurança jurídica. Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) Para que compreendamos corretamente um tipo tributário, precisamos compreender a consistência material do fato descrito pelo legislador na instituição desse tributo. Essencialmente, devemos atentar ao fato econômico inserido nas hipóteses materiais de incidência, além de ao aspecto temporal em que essa hipótese se concretiza. No caso do ICMS, genericamente, observamos que a sua incidência ocorre na circulação de mercadorias e serviços de comunicação e de transporte intermunicipal e interestadual (sobre o transporte municipal há incidência do Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza – ISS). MÓDULO III – TRIBUTOS INERENTES À DINÂMICA EMPRESARIAL 38 É, contudo, importante observarmos que nem toda circulação – como a expressão genérica parece regular – possui alcance da incidência do ICMS. Deve ocorrer operação jurídica praticada por um industrial ou comerciante, geralmente a venda, que promova a transferência da posse ou de propriedade da mercadoria posta em circulação. Por exemplo, a colocação em circulação de mercadorias a título de brindes, doação ou bonificação é alcançada pelo ICMS, pois, nesse caso, há circulação e transferência de propriedade de determinada mercadoria. Por outro lado, a colocação em circulação de mercadoria para depósito fechado de propriedade do remetente não é alcançada pelo imposto, uma vez que a circulação isolada não é capaz de produzir fato econômico que provoque a obrigatoriedade do imposto; é necessário haver a transferência de propriedade. Além disso, para que ocorra a incidência do ICMS, não é necessário apenas que haja uma operação de compra, venda ou doação de um bem. É necessário que o produto da operação seja móvel e caracterizado como uma mercadoria, submetido essencialmente ao processo de compra e venda. Por esse motivo, alguns estados, como São Paulo, preveem na sua legislação a não incidência do imposto na venda de bens do ativo permanente, de acordo com o princípio doutrinário. Enquanto outros estados, como o Rio de Janeiro, elencam os bens do ativo permanente como passíveis de incidência do imposto. Essa pauta chama a nossa atenção para uma questão importante: a observância das legislações estaduais quando da aplicação dos dispositivos necessários à apuração e ao recolhimento do ICMS. No inciso II do seu art. 55, a CF/88 concedeu poderes aos estados e ao Distrito Federal para que instituam imposto sobre operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação, ainda que as operações e as prestações se iniciem no exterior. Para a importação de mercadorias, há também a previsão de incidência de ICMS. A lei que regulamentou a constituição sobre a matéria de ICMS foi a Lei Complementar n° 87, de 13 de setembro de 1996, em que são estabelecidas as atividades alcançadas pelo imposto. Vejamos algumas dessas atividades: (i) operações relativas à circulação de mercadorias, inclusive o fornecimento de alimentação e bebidas em bares, restaurantes e estabelecimentos similares; (ii) prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal, por qualquer via, de pessoas, bens, mercadorias ou valores; (iii) prestações onerosas de serviços de comunicação, por qualquer meio, inclusive a geração, a emissão, a recepção, a transmissão, a retransmissão, a repetição e a ampliação de comunicação de qualquer natureza e, (iv) sobre a entrada de mercadoria ou bem importados do exterior, por pessoa física ou jurídica, ainda que não seja contribuinte habitual do imposto, qualquer que seja a sua finalidade. Ainda, regula as não incidências como: (i) operações com livros, jornais, periódicos e o papel destinado à sua impressão e (ii) operações e prestações que destinem ao exterior mercadorias, inclusive produtos primários e produtos industrializados semielaborados, ou serviços. 39 Para conhecer todas as hipóteses de incidência e não incidência, confira os arts. 2° e 3° da LC nº 87/1996. Em relação à legislação estadual, cada estado deve regular as particularidades referentes a itens como: a obrigação principal e acessórias; os regimes diferenciados; a substituição tributária. No caso do Rio de Janeiro, por exemplo, isso foi feito por meio do Decreto n° 27.427, de 17 de novembro de 2000. Também é função do estado, dentro dos limites da lei e em observância aos princípios constitucionais, estabelecer as alíquotas incidentes sobre as suas operações internas e externas que são alcançadas pelo ICMS. Por esse motivo, a decisão relativa ao local onde será estabelecida a sede operacional de uma empresa também envolve aspectos fundamentais do planejamento tributário. Há estados com menores alíquotas nominais, como Espírito Santo 7% (sete por cento), e estados com alíquotas maiores, que podem alcançar alíquotas de até 20% (vinte por cento), como o Rio de Janeiro. Vale frisarmos que o ICMS é um tributo cobrado “por dentro” do preço. Isso quer dizer que o seu valor é embutido no preço final repassado ao consumidor. Suponhamos que uma empresa localizada no Rio de Janeiro adquira de um fornecedor localizado em São Paulo um lote de mercadorias no valor de R$ 1.000,00 para revenda no mercado interno. Nesse caso, vamos considerar que a alíquota incidente sobre a compra desse lote seja de 12%. Vamos considerar também que a alíquota praticada no Rio de Janeiro para revenda no mercado interno seja de 18%. Qual deve o preço de venda desse lote, caso a empresa pretenda obter uma margem operacional de 15%? Vejamos: 1. Preço do lote após margem operacional = custo de aquisição do lote × (1 + alíquota de margem operacional. Sendo assim, 1.000,00 × (1 + 0,15) = 1.150,00. Valor da margem operacional = R$ 150,00. 2. Cálculo do crédito de ICMS = custos de aquisição x ICMS na entrada = 1.000,00 x 12% = 120,00. 3. Preço do lote antes do ICMS: preço do lote + margem operacional – crédito ICMS = 1.000,00 + 150,00 – 120,00 = 1.030,00. 4. Preço do lote após incidência do ICMS = Preço do lote antes do ICMS / (1 – alíquota do ICMS praticada na revenda)1. Sendo assim, 1.030,00 / (1 – 0,18) = 1.256,10. Valor do ICMS: R$ 226,10. 1 Cálculo do preço “por dentro”. 40 Ao vender o lote por R$ 1.256,10, a empresa poderá cobrir o custo dos impostos e o custo de aquisição da mercadoria, além de alcançar a margem operacional pretendida. Vejamos: (+) receita 1.256,10 (-) ICMS (226,10) (=) receita líquida 1.130,00 (-) custo de aquisição do lote (1.000,00) (+) crédito de ICMS 120,00 (=) margem operacional 150.00 Saber aplicar o tributo corretamente quando da formação do preço e identificar quando existe permissão para o aproveitamento de crédito do imposto pago em etapas anteriores são fatorescríticos para o alcance de margens de lucro com impacto no fluxo de caixa da empresa. Substituição tributária do ICMS A substituição tributária do ICMS consiste em atribuir a terceiro a responsabilidade pela retenção e pelo recolhimento do imposto devido em operação ou prestação subsequente com a mesma mercadoria até o consumidor final. Conceitualmente, temos de observar o seguinte: O contribuinte substituto é aquele designado para efetuar a retenção ou o recolhimento do ICMS. O contribuinte substituído é aquele que sofre a retenção do imposto na origem da mercadoria e, portanto, deve observar essa antecipação nas operações ou prestações subsequentes. A adoção do regime de substituição tributária em operações interestaduais dependerá de convênios específicos celebrados pelos estados participantes. O contribuinte substituto para cálculo e recolhimento do ICMS da substituição tributária observará as normas e os dispositivos legais da unidade da Federação de destino da mercadoria. A base de cálculo do ICMS por substituição tributária será obtida pela soma do valor da operação acrescida dos custos adicionais, como fretes, seguros e outros encargos, e da margem de valor agregado, que é definida pela legislação de cada estado. A responsabilidade pelo recolhimento do ICMS é atribuída a um contribuinte que não é, necessariamente, o gerador da ação da venda ao consumidor final. Geralmente essa responsabilidade é atribuída aos estabelecimentos industriais de grande porte ou aos importadores. Um fabricante de bebidas, por exemplo, é responsável pelo recolhimento integral do ICMS. Sendo assim, a rede atacadista e os estabelecimentos (bares, restaurantes, pequenos mercados, etc.) que compram desse fabricante não devem realizar o cálculo e o recolhimento do ICMS quando da venda daquele produto ao consumidor final. 41 O ICMS por substituição tributária foi criado com o objetivo de otimizar a fiscalização nos maiores contribuintes e promover uma maior igualdade de tributação, reduzindo o risco de concorrência desigual com aquelas empresas que não cumprem as suas obrigações tributárias junto ao Fisco. A base de cálculo do ICMS por substituição tributária é encontrada pela seguinte fórmula: base de cálculo do ICMS/ST = (valor da mercadoria + valor do IPI + frete + seguro + outras despesas – descontos concedidos) × (1 + margem de valor agregado/100) Já o ICMS/ST é apurado da seguinte forma: ICMS/ST = base de cálculo da ST × (alíquota do ICMS/100) – valor do ICMS Como exemplo, consideremos uma mercadoria produzida por uma indústria sediada no Rio de Janeiro cujo valor de venda seja de R$ 100,00, já incluídos todos os custos da operação. Consideremos também que a legislação do Rio de Janeiro defina a alíquota desse produto em 20% e a margem de valor agregado em 30%. Em uma operação comercial, a indústria venderá a uma rede de supermercado 10 unidades dessa mercadoria. Por ser a responsável pelo recolhimento do ICMS de toda a cadeia operacional, a indústria deverá recolher o ICMS por substituição tributária, conforme ilustrado a seguir: Valor do ICMS da operação: (10 unidades × R$ 100,00) = R$ 1.000,00 × 20% (alíquota do ICMS) = R$ 200,00. Base de cálculo do ICMS/ST = (valor da mercadoria + valor do IPI + frete + seguro + outras despesas – descontos concedidos) × (1 + margem de valor agregado/100). Base de cálculo do ICMS/ST = 1.000,00 × (1 + 0,30) = 1.300,00 ICMS/ST = (base de cálculo da ST × (alíquota do ICMS/100) – valor do ICMS da operação. ICMS/ST = (1.300,00 × 0,20) – 200,00 = R$ 60,00. Ao vender essas unidades ao consumidor final, a rede de supermercados deverá considerar o valor de R$ 60,00 de ICMS recolhido antecipadamente e não oferecer esse valor, novamente, à tributação. Se, por descuido, a empresa deixar de considerar essa retenção, sofrerá a bitributação de ICMS, o que comprometerá a sua margem de lucro e a sua competitividade. 42 Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS) De acordo com o inciso III do art. 156 da CF/88, o ISS é um imposto municipal que deu competência aos municípios para instituir imposto sobre serviços de qualquer natureza. O ISS será considerado devido quando ocorrer a prestação de serviço não vinculada à relação de emprego. Nesse caso, é necessário ocorrer a entrega da obrigação de fazer por pessoa física ou jurídica autônoma, desde que tal obrigação esteja prevista na lista de serviços anexa à Lei Complementar nº 116, de 31 de julho de 2003. Além disso, o serviço sobre o qual incide o ISS deve ser submetido a uma relação comercial de conotação econômica, não alcançando, por exemplo, serviços voluntários. Como bem observa Ávila (2003), “esses pressupostos contidos no aspecto material da hipótese de incidência são imprescindíveis, como também prestar serviços não significa fornecer mercadoria e nem ceder o uso de algum bem, que neste caso, seria obrigação de dar e não de fazer”. Por esse motivo, não há incidência de ISS sobre a locação pura de bens como equipamentos e imóveis, por exemplo. No entanto, a não incidência observada não alcança o fornecimento de bens quando há emprego de serviços agregados no contrato. Por exemplo, quando o fornecimento de um bem é acompanhado de mão de obra para manutenção, e ambas as obrigações, de dar e de fazer, estão previstas no mesmo contrato, considera-se devido o ISS sobre toda a operação. Uma das formas de elidir a incidência do ISS sobre a obrigação de dar algum bem, quando essa obrigação coexiste com a obrigação de fazer sobre esse mesmo bem, é a segregação dos instrumentos contratuais, desvinculando as duas obrigações. Esse instrumento deve ser, contudo, usado com cautela redobrada, pois é prática comum observada pelo Fisco o abuso da segregação de contratos que não são distintos quanto à sua natureza econômica, para elusão de ISS. É matéria pacificada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a não há incidência de ISS sobre a obrigação de dar algum bem em relação contratual. De acordo com § 1 do art. 1° da Lei Complementar n° 116/2003, o ISS incide inclusive sobre o serviço proveniente do exterior do País ou cuja prestação se tenha iniciado no exterior do País. No entanto, não incide sobre a prestação de serviços para outro país. A exportação de serviços é, portanto, isenta de ISS. Outras hipóteses de não incidência são (inciso III do art. 2, da LC nº 116/2003): o valor intermediado no mercado de títulos e valores mobiliários; o valor dos depósitos bancários; o principal, os juros e os acréscimos moratórios relativos a operações de crédito realizadas por instituições financeiras. 43 Neste ponto, é importante destacarmos que são isentos ou imunes de impostos como IPI, ICMS, ISS, PIS e Cofins as exportações de bens ou serviços, incidindo apenas os tributos sobre o resultado, CSLL e IRPJ, sobre esse tipo de operação. Como observamos, a LC nº 116/2003 e as suas alterações são as legislações federais que versam sobre a matéria de ISS. No entanto, assim como ocorre com o ICMS, cada município possui o seu próprio regulamento, subordinado aos princípios e às determinações da CF/88 e da LC nº 116/2003, mas com autonomia para regular em favor dos seus interesses. É comum, por exemplo, que os municípios façam uso da diversificação de alíquotas, de modo a atrair determinados setores de atividades e desincentivar outros. Na região da Bacia de Campos, no estado do Rio de Janeiro, empresas ligadas ao setor de óleo e gás têm incentivos fiscais para se estabelecerem em municípios da região, como Macaé ou Campos dos Goytacazes. No entanto, como forma de evitar uma guerra tributária pela arrecadação do ISS, a Lei Complementar n° 157, de 29 de dezembro de 2016, estabeleceu uma alíquota mínima de 2%, com exceção das atividades de construção civil e de transporte municipal de passageiros. Dessa forma, nenhum município poderá oferecer incentivofiscal, de qualquer natureza, que resulte em uma alíquota inferior a 2% (art. 2 da LC nº 157/2016). A alíquota máxima permitida para o ISS é de 5%. O contribuinte do ISS é o prestador do serviço, e o local da incidência do ISS é o local da sede do estabelecimento que prestar o serviço (art. 3, da LC nº 116/2003). A legislação do ISS prevê, contudo, a atribuição de responsabilidade tributária ao tomador do serviço em situações específicas, conforme o art. 3° da LC nº 116/2003. Como regra geral, tais situações determinam que o ISS seja devido no local da prestação do serviço, quando este diferir do local do estabelecimento do prestador. Esse é o caso das atividades de obras em geral; independentemente de onde esteja localizada a sede da construtora, o ISS será devido no local onde ocorrer a obra, sendo a obrigação de recolhimento atribuída ao tomador do serviço. Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) A Constituição Federal outorgou à União a competência para instituir o IPI. Em cumprimento dessa determinação, a União, por meio de leis e decretos, instituiu e regulou o IPI. Neste ponto, cumpre destacarmos que não há obrigatoriedade para que todos os aspectos relevantes à instituição de um tributo sejam previstos em um único dispositivo legal. É comum encontrarmos as disposições sobre determinado tributo esparsas no nosso emaranhado legislativo tributário. Em matéria de IPI, os principais dispositivos legais sobre a sua instituição são encontrados na Lei n° 4.502, de 30 de novembro de 1964, e na Lei n° 5.172, de 25 de outubro de 1966 (CTN). Já os detalhamentos sobre a cobrança, a fiscalização, a arrecadação e a administração do IPI são encontrados no Decreto n° 7.212, de 15 de junho de 2010. Outros instrumentos, como decretos, instrução normativas e portarias, podem regular questões específicas, como isenções, presunções e outras particularidades. 44 Fato gerador Em relação ao critério de materialidade e ao efeito temporal, o art. 46 do CTN disciplina que o fato gerador do IPI é: o desembaraço aduaneiro de produtos de procedência estrangeira; a saída de produtos industrializados de estabelecimento do fabricante; a arrematação de produtos industrializados, quando apreendidos ou abandonados e levados a leilão. Base de cálculo O art. 47 do CTN disciplina que: no caso de desembaraço aduaneiro de produtos de procedência estrangeiras, a base de cálculo do IPI é o preço normal do produto, acrescido do imposto de importação, das taxas exigidas para a entrada do produto no País e dos encargos cambiais efetivamente pagos pelo importador ou deles elegíveis no caso de saída de produtos industrializados de estabelecimento do fabricante, a base de cálculo do IPI é o valor da operação que decorrer da saída da mercadoria, ou na falta deste, o preço corrente da mercadoria ou similar, no mercado atacadista da praça do remetente; no caso da arrematação de produtos industrializados, quando apreendidos ou abandonados e levados a leilão, a base de cálculo do IPI é o preço da arrematação. Seletividade O art. 48 do CTN versa sobre o princípio da seletividade do IPI em função da essencialidade dos produtos. Em síntese, esse princípio permite que a tributação seja gradualmente relacionada com a necessidade da população. Dois exemplos de destaque desse mecanismo foram o Decreto n° 10.285, de 20 de março de 2020, que reduziu a zero a alíquota do IPI para produtos médico-hospitalares, e o Decreto n° 10.503, de 2 de outubro de 2020, que prorrogou até 31 de dezembro de 2020 a redução da alíquota como medida de enfrentamento à pandemia de Covid-19 (ambos os decretos já foram revogados). Da mesma forma, produtos considerados nocivos ou supérfluos, como cigarros e bebidas alcoólicas, podem ter a alíquota de IPI majorada, como forma de desincentivar o seu consumo. Não cumulatividade A não cumulatividade é uma característica fundamental do IPI. De acordo com o art. 49 do CTN, o montante devido do IPI deve resultar “da diferença a maior, em determinado período, entre o imposto referente aos produtos saídos do estabelecimento e o pago relativamente aos produtos nele entrados”. 45 O princípio da não cumulatividade serve de premissa para fundamentar o planejamento tributário. Conforme previsto no art. 226 do Decreto n° 7.212, de 15 de junho de 2010, os estabelecimentos industriais e os que lhe são equiparados poderão creditar-se: Do imposto relativo à matéria-prima, produto intermediário e material de embalagem, adquiridos para emprego na industrialização de produtos tributados, incluindo-se, entre as matérias-primas e os produtos intermediários, aqueles que, embora não se integrando ao novo produto, forem consumidos no processo de industrialização, salvo se compreendidos entre os bens do ativo permanente. Agentes ativo e passivo Quanto aos aspectos pessoais, por se tratar de tributo de competência federal, o sujeito ativo do IPI é a União. Sobre a sujeição passiva, o CTN estabelece a autonomia dos estabelecimentos, o que significa que cada unidade ou estabelecimento da empresa (filiais, por exemplo) recolhe o IPI como se fosse pessoa jurídica diversa. O contribuinte do imposto é (incisos de I a IV do art. 51 do CTN): o importador ou a quem a lei a ele equiparar; o industrial ou a quem a lei a ele equiparar; o comerciante de produtos sujeitos ao imposto que os forneça aos contribuintes definidos como estabelecimentos industriais; o arrematante de produtos apreendidos ou abandonados levados a leilão. Alíquotas Desde 1° de agosto de 2022, o Decreto nº 11.158, de 29 de julho de 2022, produz os efeitos que aprovam a Tabela de Incidência de Produtos Industrializados (Tipi), cuja base é a Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM). É importante reafirmarmos que o IPI é um tributo seletivo, ou seja, as suas alíquotas podem, atendidas as condições e os limites estabelecidos em lei, variar de 0% a 30%, de acordo com a necessidade da população ou os objetivos da autoridade tributária. A Tipi é constantemente atualizada via decreto. 46 Exceções aplicadas ao IPI O IPI é um tributo que se enquadra como exceção a alguns princípios observados nesta apostila. Como o § 1 do art. 153 da CF/88 faculta ao Poder Executivo, atendidas as condições e os limites definidos em lei, alterar as alíquotas do IPI, esse tributo é uma exceção ao princípio da legalidade, previsto no art. 150 da CF/88. Além disso, uma eventual majoração do IPI não está submetida à anterioridade de exercício prevista na alínea “b”, mas apenas à noventena prevista na alínea “c”, ambas do inciso III do art. 150. Ainda em relação ao aspecto material do IPI, a incidência deste está condicionada à industrialização do produto que será posto em posterior circulação. De acordo com o parágrafo único do art. 46 do CTN, para efeito do IPI, considera-se industrializado o produto que tenha sido submetido a qualquer operação que lhe modifique a natureza ou a finalidade, ou o aperfeiçoe para o consumo. Em relação às operações que se caracterizam como industrialização, os incisos de I a V do art. 4 do Decreto n° 7.212, de 15 de junho de 2010, apresenta as seguintes: transformação – aquela que, exercida sobre matérias-primas ou produtos intermediários, importe na obtenção de espécie nova; beneficiamento – aquela que importe em modificar, aperfeiçoar ou, de qualquer forma, alterar o funcionamento, a utilização, o acabamento ou a aparência do produto; montagem – aquela que consista na reunião de produtos, peças ou partes e de que resulte um novo produto ou unidade autônoma, ainda que sob a mesma classificação fiscal; acondicionamento ou reacondicionamento – aquela que importe em alterar a apresentação do produto, pela colocação da embalagem, ainda que em substituição da original, salvo quando a embalagem colocada se destine apenas ao transporte da mercadoria; renovaçãoou recondicionamento – aquela que, exercida sobre produto usado ou parte remanescente de produto deteriorado ou inutilizado, renove ou restaure o produto para utilização. Para compreender o efeito do princípio da não cumulatividade na metodologia de cálculo do IPI e o seu impacto na formação de preços, considere o exemplo a seguir: informações valores em R$ custo de aquisição de mercadorias industrializadas 80.000,00 IPI na aquisição 10% 8.000,00 custo de aquisição total 88.000,00 47 A empresa pretende cobrar sobre o custo de aquisição das mercadorias, uma margem operacional de 20%. Considere uma alíquota de IPI de 10% e calcule o preço de venda das mercadorias. metodologia de cálculo valores em R$ ( + ) custo de aquisição das mercadorias 88.000,00 ( + ) resultado pretendido (20% sobre o custo de aquisição) 17.600,00 ( - ) crédito do IPI ( 10% sobre o custo de aquisição) (8.000,00) ( = ) base de cálculo do IPI 97.600,00 ( + ) IPI na venda ( 10% sobre a base de cálculo do IPI) 9.760,00 (=) preço de venda 107.360,00 apuração de resultado valores em R$ ( + ) receita 107.360,00 ( - ) IPI (9.760,00) ( = ) receita líquida 97.600,00 ( - ) custo de aquisição (88.000,00) ( + ) crédito de IPI 8.000,00 resultado esperado 17.600,00 Destaca-se que o IPI, como exceção, é um tributo cobrado “por fora”. Em outras palavras, o seu valor não é embutido no preço. 48 Contribuições sociais sobre o faturamento: PIS e Cofins O Programa de Integração Social (PIS) e a Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins) são tributos indiretos cuja finalidade da arrecadação é a aplicação no custeio de atividades sociais. Trata-se de uma contribuição de competência da União que teve a sua instituição promovida pelo impacto provocado pela Constituição Federal de 1988 no CTN. Com impacto na cadeia produtiva, o PIS e a Cofins podem ser cumulativos ou não cumulativos, e o seu ônus tributário é suportado pelo consumidor final da mercadoria ou do serviço. Os tributos cumulativos são aqueles cobrados em “cascata”, ou seja, a sua incidência ocorre em todas as fases de fabricação e comercialização de um produto ao longo da cadeia produtiva. Embora possuam, na maioria dos casos, alíquotas reduzidas em comparação às dos tributos não cumulativos, os tributos cumulativos podem provocar um aumento significativo no custo do produto final ao longo da cadeia produtiva. Originalmente, o PIS e a Cofins foram concebidos no regime cumulativo. No entanto, com a mudança promovida pela Emenda Constitucional n° 42/2003, esses tributos passaram a ser regidos também pela não cumulatividade, que se caracteriza pela possibilidade de compensar o que for cobrado em cada operação ou prestação com o montante pago em etapas anteriores da cadeia produtiva. Conforme definido no § 12° do art. 195 da CF/88, “a lei definirá os setores de atividade econômica para os quais as contribuições serão não cumulativas”. Isso quer dizer que algumas atividades e alguns setores da economia ainda ficaram sujeitos ao sistema cumulativo. O Programa de Integração Social (PIS) foi instituído pela Lei Complementar n° 7, de 7 de setembro de 1970. A Lei n° 9.715, de 25 de novembro de 1998, dispões sobre a contribuição para o PIS e deu outras providências. A Cofins, por sua vez, foi instituída pela Lei Complementar n° 70, de 30 de dezembro de 1991. Atualmente, o regime cumulativo é regido pela Lei n° 9.718, de 27 de novembro de 1998. No regime não cumulativo, o PIS é regido pela Lei n° 10.637, de 30 de dezembro de 2002, e a Cofins é regida pela Lei n° 10.833, de 29 de dezembro de 2003. As empresas tributadas com base no lucro presumido, para fins de IRPJ e CSLL, assim como as empresas elencadas no art. 10º da Lei n° 10.833/2003, devem, em relação às contribuições para o PIS e a Cofins, tributar no regime cumulativo. Já as empresas tributadas com base no lucro real, para fins de IRPJ e CSLL, devem, em relação às contribuições para o PIS e a Cofins, tributar no regime não cumulativo. Devido à complexidade e à dinâmica da legislação do PIS e da Cofins, iremos destacar, em linhas gerais, os regimes de incidência do PIS e da Cofins compreendendo a base de cálculo e as alíquotas. Consideramos esses destaques como o ferramental base para fomentar a tomada de decisão em relação ao planejamento tributário. 49 É importante destacarmos que são isentas da contribuição para o PIS e para a Cofins, entre outras, as receitas decorrentes da venda para o exterior de mercadorias e da prestação de serviços para residentes e domiciliados no exterior. Além disso, em relação exclusivamente ao PIS, há previsão de contribuição de 1% sobre a folha de salários das entidades sem fins lucrativos. Regime cumulativo Para fins de apuração do valor devido do PIS e da Cofins, os contribuintes deverão considerar como base de cálculo o faturamento, que compreende a receita bruta e inclui (art. 12 do Decreto- Lei n° 1.598, de 26 de dezembro de 1977): o produto da venda de bens nas operações de conta própria; o preço da prestação de serviços em geral; o resultado auferido nas operações de conta alheia; as receitas da atividade ou do objeto principal da pessoa jurídica não compreendidas nos incisos de I a III. Não há, contudo, deduções em relação aos custos, às despesas e aos encargos. Também estão excluídos os descontos incondicionais concedidos, as vendas canceladas, as reversões de provisão de créditos baixados como perda, as receitas decorrentes de vendas do ativo não circulante classificados como investimento, imobilizado ou intangível, etc. Para conhecer todas as exclusões, confira os incisos de I a VI do § 2° do art. 3º da Lei n° 9.718/1998. Enquanto estavam em vigor apenas as disposições das leis que versavam sobre o regime cumulativo, o PIS e a Cofins incidentes sobre o faturamento não demandavam, para fins de apuração, um planejamento tão criterioso. No regime cumulativo, há uma extensão menor do alcance da base de cálculo, pois não há previsão, como ocorre no regime não cumulativo, de incidência sobre todas as demais receitas auferidas pela pessoa jurídica, com os seus respectivos valores decorrentes do ajuste a valor presente. Veremos a abrangência da norma no tópico sobre o regime não cumulativo, conforme o inciso VIII do caput do art. 183 da Lei no 6.404, de 15 de dezembro de 1976. Alíquota no regime cumulativo No regime cumulativo, as alíquotas da contribuição para o PIS são de 0,65% e as da contribuição para a Cofins são de 3% para a maioria das atividades. Existem alíquotas diferenciadas para o setor de combustíveis, petróleo e gás. Essas alíquotas são aplicadas sobre o faturamento, para apuração do valor devido do PIS e da Cofins, não sendo permitidas deduções referentes aos custos e às despesas nem referentes aos créditos tributários de períodos anteriores. 50 Para conhecer todas as alíquotas, confira o art. 5º da Lei n° 9.718/1998. Regime não cumulativo A Lei n° 10.637/2002 e a Lei n° 10.833/2003, que regulam, respectivamente, a cobrança não cumulativa do PIS e da Cofins (com as alterações trazidas pela Lei n° 12.973/2014), dão maior abrangência à incidência das contribuições. De acordo com as normas (art. 1° da Lei n° 10.637/2002 e art. 1° da Lei n° 10.833/2003): “as contribuições incidem sobre o total das receitas auferidas no mês pela pessoa jurídica, independentemente de sua denominação ou classificação contábil”. Como podemos observar, o art. 1° de ambas as leis trata da mesma base observada para o regime cumulativo. No entanto, acrescenta (art. 1° da Lei n° 10.637/2002 e art. 1° da Lei n° 10.833/2003): “todas as demais receitas auferidas pela pessoa jurídica com os seus respectivos valores decorrentes do ajuste a valor presente de que trata o inciso VIII do caput do art. 183 da Lei no 6.404, de 15 de dezembro de 1976”, que trata doselementos do ativo decorrentes de operações de longo prazo. Alíquota no regime não cumulativo As alíquotas de contribuição do PIS e da Cofins no regime não cumulativo são as seguintes: PIS – 1,65% (um inteiro e sessenta e cinco centésimos por cento); Cofins – 7,6% (sete inteiros e seis décimos por cento). No entanto, esse regime permite o desconto de créditos em operações anteriores da cadeia produtiva. Isso quer dizer que, embora possua alíquotas superiores às do que o regime cumulativo, o valor devido de pagamento será encontrado por meio do confronte entre as alíquotas aplicadas sobre a base de cálculo, diminuída das alíquotas aplicadas sobre os gastos que, por determinação legal, geram créditos das referidas contribuições. Exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da Cofins O STF decidiu pela exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da Cofins, ou seja, a empresa pode ter o valor reduzido para pagamento ao retirar o ICMS da base de cálculo desses tributos, bem como recuperar os valores pagos a mais desde 2017, referentes a essa diferença. Antes da decisão do STF, o Fisco entendia que o valor final da venda com o valor do ICMS incluso era a base de cálculo para o pagamento do PIS e da Cofins. 51 Em 15 de março de 2017, após quase nove anos de tramitação, ao julgar o Recurso Extraordinário nº 574.706, o STF decidiu pela primeira vez que o ICMS não compõe a base de cálculo desses tributos. O entendimento foi de que o valor do ICMS que participa do valor do produto é uma receita das empresas destinadas ao estado, não fazendo parte do faturamento da empresa, portanto não há o que se falar sobre a incidência de PIS e Cofins sobre a receita. Com o recurso impetrado pela Fazenda Nacional, a decisão final só veio em 13 de maio de 2021, de novo a favor da exclusão do ICMS do PIS e da Cofins e com efeitos retroativos desde 2017, data da primeira decisão. Nesse sentido, contribuintes que já estavam discutindo judicialmente essa cobrança antes de 2017, data da primeira decisão do STF, passaram a ter o direito de reaver o que foi pago a mais, pelo menos, por um período de cinco anos antes do ajuizamento do pedido realizado. Contribuintes que não ajuizaram a ação passaram a ter o direito de reaver o valor pago a mais a partir de 2017. Com a exclusão do ICMS do faturamento para o cálculo do PIS e da Cofins, o Fisco requereu à Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN) para retirá-lo também do crédito a que têm direito os contribuintes que seguem o regime de não cumulatividade desses tributos, com base no mesmo entendimento do RE nº 574.706 julgado pelo STF. Dessa forma, o ICMS seria abatido também das operações de entrada, e as empresas teriam, por consequência, o valor do crédito reduzido. No entanto, a PGFN concluiu que são situações diferentes e que não seria possível retirar o ICMS no cálculo dos créditos do PIS e da Cofins por analogia ao recurso julgado. Essa decisão também consta na Instrução Normativa RFB 2.121/22, art. 174, inciso II, da Receita Federal, publicada no Diário Oficial da União (DOU). Apesar disso, em 12 de janeiro de 2023, em uma medida para diminuir o déficit fiscal, o governo publicou a Medida Provisória nº 1.159 (MP nº 1.159/23) para alterar a Lei nº 10.637/2002 e a Lei nº 10.833/2003 que regulamentam a não cumulatividade do PIS e da Cofins para excluir o ICMS da base de cálculo dos créditos, embora mantenha a decisão do STF no âmbito do RE nº 574.706 referente à exclusão do ICMS do PIS e da Cofins nas operações de saída. Tal medida provisória foi convertida na Lei nº 14.592/2023, com efeitos a partir de maio de 2023. Nesse sentido, as empresas no regime não cumulativos, além de excluir o ICMS da base de cálculo do PIS e da Cofins sobre o faturamento, também devem excluir o ICMS das entradas que geraram direito ao crédito dos referidos tributos. Como aplicação dos dispositivos legais referentes à metodologia de cálculo do PIS e da Cofins nos regimes cumulativo e não cumulativos, inclusive com referência a essa mudança na legislação, considere o exemplo a seguir. Uma loja de equipamentos de informática adquiriu um lote de monitores por R$ 800,00 cada. Esses equipamentos serão vendidos ao consumidor final, e a loja precisa estabelecer o preço de venda que alcance, após os impostos, uma margem operacional mínima de 20%. Quais seriam os tributos incidentes e o preço de venda nos regimes cumulativos e não cumulativos, considerando que a empresa está sujeita a uma alíquota de ICMS na entrada e na saída de mercadorias de 18%,? 52 Regime cumulativo: alíquota dos impostos % PIS e Cofins 3,65% ICMS 18,00% alíquota total dos impostos 21,65% mensuração do custo antes dos impostos valores em R$ ( + ) custo de aquisição por unidade 800,00 ( + ) margem pretendida 20% 160,00 ( - ) crédito de ICMS na entrada 18% (144,00) ( = ) custo antes dos impostos 816,00 mensuração da base de cálculo dos impostos (preço de venda) valores em R$ custo antes dos impostos / (1 – alíquota total impostos) = 816,00 / (1 – 0,2165) 1.041,48 mensuração do valor do ICMS na venda valores em R$ valor do ICMS = base de cálculo dos impostos x alíquota ICMS = 1.041,48 x 18% 187,47 mensuração da base de cálculo do PIS e da Cofins na venda valores em R$ base de cálculo dos impostos ( - ) valor do ICMS = 1.041,48 – 187,47 854,01 mensuração do PIS e da Cofins na venda valores em R$ base de cálculo do PIS e da Cofins x alíquotas = 854,01 x 3,65% 31,17 53 apuração do resultado valores em R$ ( + ) preço de venda 1.041,48 ( - ) ICMS na venda (187,47) ( - ) PIS/Cofins na venda (31,17) ( = ) receita líquida 822,84 ( - ) custo de aquisição por unidade (800,00) ( + ) crédito de ICMS na entrada 144,00 resultado 166,84 Destaca-se que o PIS e a Cofins possuem a mesma base de cálculo do ICMS. Nesse sentido, quando ocorre a exclusão do ICMS da base de cálculo, para efeitos de apuração do PIS e da Cofins, a empresa terá um desconto de R$ 6,84. Veja: PIS e Cofins antes da exclusão do ICMS 1.041,48 x 3,65% = 38,01 PIS e Cofins após a exclusão do ICMS 854,01 x 3,65% = 31,17 Desconto 38,01 – 31,17 = 6,84 Esse desconto no valor do PIS e da Cofins afeta positivamente o resultado da empresa, conforme observado a seguir: resultado realizado 166,84 resultado esperado 160,00 impacto do desconto 6,84 54 Regime não cumulativo: alíquota dos impostos % PIS e Cofins 9,25% ICMS 18,00% alíquota total dos impostos 27,25% Apuração da exclusão do ICMS da base de cálculo do crédito de PIS e Cofins: custo de aquisição do lote 800,00 crédito de ICMS “por dentro” do custo de aquisição do lote: 18% 144,00 base de cálculo do crédito de PIS e Cofins 800,00 – 144,00 = 656,00 crédito de PIS e Cofins 656,00 x 9,25% = 60,68 mensuração do custo antes dos impostos valores em R$ ( + ) custo de aquisição por unidade 800,00 ( + ) margem pretendida 20% 160,00 ( - ) crédito de ICMS 18% (144,00) ( - ) crédito de PIS e Cofins (60,68) ( = ) custo antes dos impostos 755,32 mensuração da base de cálculo dos impostos (preço de venda) valores em R$ custo antes dos impostos / (1 – alíquota total impostos) = 755,32 / ( 1 – 0,2725) 1.038,24 mensuração do valor do ICMS na venda valores em R$ valor do ICMS = base de cálculo dos impostos x alíquota de ICMS = 1.038,24 x 18% 186,88 mensuração da base de cálculo do PIS e da Cofins na venda valores em R$ base dos impostos ( - ) valor do ICMS na venda = 1.038,24 – 186,88 851,36 mensuração do PIS e da Cofins na venda valores em R$ base de cálculo do PIS e da Cofins x alíquotas = 851,36 x 9,25% 78,75 55 apuração do resultado valores em R$ ( + ) preço de venda 1.038,24 ( - ) ICMS na venda (186,88) ( - ) PIS/Cofins na venda (78,75) ( = ) receita líquida 772,91 ( - ) custo de aquisição por unidade (800,00)( + ) crédito de ICMS na entrada 144,00 ( + ) crédito de PIS e Cofins 60,68 resultado 177,29 Destaca-se, novamente, que o PIS e a Cofins possuem a mesma base de cálculo do ICMS. Dessa forma, quando ocorre a exclusão do ICMS da base de cálculo, para efeitos de apuração do PIS e da Cofins, a empresa terá um desconto de R$ 17,29. Veja: PIS e Cofins antes da exclusão do ICMS 1.038,24 x 9,25% = 96,04 PIS e Cofins após a exclusão do ICMS 851,36 x 9,25% = 78,75 desconto 96,04 – 78,75 = 17,29 Esse desconto no valor do PIS e da Cofins afeta positivamente o resultado da empresa conforme observado a seguir: resultado realizado 177,29 resultado esperado 160,00 impacto do desconto 17,29 A correta aplicação da metodologia de cálculo na formação de preços é fundamental para que a empresa não comprometa a lucratividade, minorando o custo real do tributo; ou a competitividade, majorando o custo real do tributo. 56 Essencialmente, os gastos que geram créditos, com algumas vedações, são os gastos relacionados com a atividade principal do contribuinte, contabilizados como custos de produção, de venda ou de serviços prestados. São exemplos: a compra para revenda; os aluguéis de base operacional (máquinas e equipamentos) pagos a pessoas jurídicas; a energia elétrica da base operacional. A possibilidade de creditar as contribuições pagas sobre determinados gastos é um importante instrumento para tomada de decisão em um planejamento tributário. Como vimos, mesmo que as alíquotas nominais sejam maiores no regime não cumulativo, a depender da estrutura da cadeia produtiva da empresa, pode ocorrer a viabilidade de economia tributária por meio da sua adoção, observada também a exigência de tributação pelo lucro real. Em uma empresa, a definição da incidência dos regimes cumulativo e não cumulativo ocorre em conjunto com a definição da sistemática de tributação. Sendo assim, a seguir, veremos como se dá a aplicação desses tributos em cada sistema de tributação. Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) Neste tópico, vamos abordar os aspectos fundamentais do Imposto de Renda de Pessoa Jurídica e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) O Imposto de Renda é um imposto de competência da União incidente, de acordo com a Constituição Federal, sobre a renda e os proventos de qualquer natureza. Renda e proventos são termos vagos que derivam da Economia e cuja definição não é pacífica. Nesse sentido, renda e proventos são eventos econômicos que foram incorporados às normas jurídicas. A alíquota do IRPJ é de 15%. Além disso, a parcela do lucro presumido ou do lucro real que “exceder o valor resultante da multiplicação de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) pelo número de meses do respectivo período de apuração, sujeita-se à incidência de adicional do imposto sobre a renda à alíquota de 10% (dez por cento)” (§ 1° do art. 29 da IN RFB nº 1.700/2017). 57 O CTN, em um esforço de dar maior objetividade à incidência do imposto de renda, definiu, em seu art. 43, o seguinte: Art. 43 O imposto, de competência da União, sobre a renda e proventos de qualquer natureza, tem como fato gerador a aquisição da disponibilidade econômica ou jurídica: I - de renda, assim entendido o produto do capital, do trabalho ou da combinação de ambos; II - de proventos de qualquer natureza, assim entendidos os acréscimos patrimoniais não compreendidos no inciso anterior. Conforme a definição apresentada, podemos concluir que nem todo tipo de renda pode ser base para a incidência de imposto de renda, mas apenas a renda prevista em lei. Para se constituir como renda e ser objeto de alcance da tributação, um valor deve reunir, simultaneamente, os seguintes elementos necessários: ter origem na atividade laboral do seu titular; ter origem em uma fonte de patrimônio que já seja de propriedade do titular da renda; proporcionar acréscimo de valor patrimonial. A existência dessa restrição garante, por exemplo, a isenção de tributação do Imposto de Renda ao dinheiro recebido por meio de doação ou herança, pois esse não tem origem em uma fonte patrimonial preexistente do indivíduo que a recebe. Em contrapartida, os juros sobre a renda, por serem resultantes da remuneração de uma importância preexistente, de propriedade do titular, são alcançados pelo Imposto de renda. O adiantamento de clientes, por exemplo, não é uma renda, mas somente uma expectativa futura que será considerada renda apenas quando ocorrer a transferência de propriedade ou a entrega da obrigação que formaliza o contrato, estando então sujeita à tributação. Quando se trata de pessoa jurídica, não é necessário que o valor seja recebido para que seja alcançado pelo Imposto de Renda, mas apenas que seja formalizado e mensurado o direito do crédito, o que, pela norma contábil, é o princípio de competência. Neste ponto, é importante que foquemos a definição de pessoa jurídica, pois esta não deve ser confundida com a pessoa ou as pessoas naturais que a constituem. 58 Castro et al. (2010) afirmam que “pessoa jurídica é uma entidade – um patrimônio – com personalidade própria, uma ficção, criada pelo Direito, capaz de exercer direitos e contratar obrigações”. Sendo assim, para efeitos de legislação tributária, são consideradas pessoas jurídicas contribuintes do Imposto de Renda as pessoas jurídicas de direito privado, domiciliadas no País, que exerçam qualquer atividade lícita, com fins lucrativos, originadas de qualquer nacionalidade, independentemente da composição do seu quadro societário. A Petrobras, por exemplo, é uma pessoa jurídica domiciliada no Brasil que possui no seu quadro societário, além de outros acionistas, o governo federal, e que exerce atividade petrolífera. A Petrobras é, portanto, contribuinte do IRPJ. Já as pessoas jurídicas sem fins lucrativos, como associações desportivas, associações de classe e instituições religiosas, no que se refere aos recursos recebidos exclusivamente para manutenção das suas atividades, não são contribuintes do IRPJ. Com isso, concluímos que a pessoa jurídica sujeita ao IRPJ precisa ter fins lucrativos. Essa conclusão está de acordo com o disposto no CTN, pois este deixa claro que a renda percebida precisa ter origem em atividade laboral ou no patrimônio do titular da renda, excetuando-se as doações, as atividades que não visam ao lucro e a manutenção de atividades de interesse social. O Decreto n° 9.580, de 22 de novembro de 2018, regulamenta a tributação, a fiscalização, a arrecadação e a administração do imposto sobre a renda e os proventos de qualquer natureza. A Lei n° 12.973, de 13 de maio de 2014, e a Instrução Normativa da RFB n° 1.700, de 14 de março de 2017, também trazem contribuições importantes para a apuração do IRPJ. Novamente, destacamos que é comum, no ordenado jurídico tributário brasileiro, as disposições de que tratam de determinado tributo encontrarem-se espalhadas em diversas normas. Concluímos este tópico com uma síntese que reforça os conceitos estudados, conforme o quadro a seguir. Quadro 5 – Quadro-síntese: IRPJ Imposto de Renda de Pessoa Jurídica competência União. alíquota 15% acrescida de adicional de 10% sobre a parcela do lucro presumido ou do lucro real, que exceder o valor resultante da multiplicação de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) pelo número de meses do respectivo período de apuração regulamentação Principalmente regulado por: Constituição Federal; Código Tributário Nacional; Decreto nº 9.580/2018; Lei n° 12.973/2014; Instrução Normativa n° 1.700/2017. 59 Imposto de Renda de Pessoa Jurídica contribuintes Pessoas jurídicas de direito privado domiciliadas no País, que exerçam qualquer atividade lícitas com fins lucrativos, originadas de qualquer nacionalidade, independentementeda composição do seu quadro societário. incidência Sobre renda ou provento de qualquer natureza que tenha origem na atividade laboral ou no patrimônio do titular e promova acréscimo ao patrimônio deste. Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) Antes de tratarmos dos aspectos específicos da CSLL, uma reflexão é necessária. O nosso CTN é datado de 1966. Após esse período, a República Federativa do Brasil passou por uma profunda transformação no seu ordenamento jurídico, quando se instituiu a Constituição Federal de 1988. A CF/88 introduziu no Sistema Tributário Brasileiro as espécies de tributos afetados a finalidades específicas (art. 149 e 195, caput e incisos I, II, III e IV da CF/88). Especificamente nas alíneas “b” e “c” do inciso I do art. 195 da CF/88, está a previsão da contribuição social, que será objeto de estudo neste tópico. O referido artigo versa sobre a imposição a toda a sociedade, de forma direta ou indireta, nos termos da lei, do financiamento da seguridade social, por meio de contribuição auferida com base na sua receita, no seu faturamento ou no seu lucro. Essa abertura na legislação tributária, provocada pela Constituição Federal, é alvo de constantes controvérsias em matérias do Direito Tributário, sendo considerada por muitos especialistas como a principal causadora do desequilíbrio da nossa carga tributária (Rezende et al., 2014). Fato é que, até haja uma reforma tributária que, como se pretende, unifique e simplifique o Sistema Tributário Nacional, as contribuições sociais continuarão representando um importante tributo, com impacto significativo no fluxo de caixa das empresas. A CSLL, de competência também da União, é um tributo parafiscal, ou seja, tem por objetivo arrecadar recursos para o custeio de atividades que, em princípio, não integram funções próprias do Estado, mas são por ele desenvolvidas por meio de entidades específicas. No cenário de tributação das pessoas jurídicas, existe uma importante controvérsia no nosso ordenamento jurídico sobre a matéria. A Receita Federal do Brasil considera que as entidades sem fins lucrativos, como templos de qualquer culto, devem ser consideradas contribuintes da CSLL. Conforme disposto no art. 4 da Lei n° 7.689, de 15 de dezembro de 1988, que institui a Contribuição Social sobre o Lucro das Pessoas Jurídicas: “é previsto como contribuintes, as pessoas jurídicas domiciliadas no País e as que lhes são equiparadas pela legislação tributária”. A chamada Lei dos Precatórios (Lei n° 14.057, de 11 de setembro de 2020), no seu art. 8º, objetivava 60 originalmente alcançar a isenção da CSLL para os templos de qualquer culto. No entanto, o referido artigo foi objeto de veto presidencial, por não serem atendidas as regras orçamentárias para a concessão de benefício tributário. Dessa forma, há o entendimento de que a tributação da CSLL possui um alcance mais amplo no nosso ordenamento jurídico que a tributação do IRPJ. Alíquota e base de cálculo da CSLL A alíquota da CSLL, resguardadas as previsões legais, pode variar de acordo com a necessidade e o interesse da legislação tributária. No entanto, para os fins previstos nesta apostila, iremos considerar a alíquota de 9%, prevista para a maioria das empresas. Para conhecer as demais alíquotas, confira o art. 30 da IN RFB n° 1.700/2017. A base de cálculo da CSLL é, originalmente, o valor do resultado do exercício antes da provisão para o imposto de renda (art. 2 da Lei n° 7.689, de 15 de dezembro de 1988). O faturamento também poderá ser objeto de alcance da referida contribuição. Além disso, a legislação (art. 6 da n° Lei 7.689, de 15 de dezembro de 1988) prevê que “se aplicam à contribuição social, no que couber, as disposições da legislação do imposto de renda referente à administração, ao lançamento, à consulta, à cobrança, às penalidades, às garantias e ao processo administrativo”. Há um debate em andamento no que se refere à consideração da espécie de tributo em que se enquadram as contribuições sociais. O § 6° do art. 150 da CF/88 faz referência ao binômio “tributo ou contribuição”, deixando transparecer uma espécie de incomunicabilidade quanto à distinção entre os termos. Sabbag (2018) observa um dissenso em relação à identificação da espécie de tributo a que pertencem as contribuições. Segundo o autor, há os que considerem as contribuições parafiscais uma espécie de tributo que oscila entre as taxas e os impostos, não sendo uma espécie propriamente autônoma. Já Machado (2020) afirma que “as contribuições possuíam especificidade e características próprias, de tal ordem que, na verdade, constituíam-se uma espécie distinta e autônoma de tributo”. Esse debate é significativo, pois dele deriva uma série de teses sobre imunidade, isenção e alcance das contribuições sociais. Concluímos este tópico, como destacado no quadro a seguir, com um resumo para melhor compreensão do instituto da CSLL. 61 Quadro 6 – Quadro-síntese: CSLL Contribuição Social sobre o Lucro Líquido competência União. alíquota 9% para a maioria dos contribuintes. objetivo Arrecadar recursos para o custeio de atividades específicas (tributo parafiscal). regulamentação Principalmente regulado por: Constituição Federal; Lei, n° 7.689/88; Decreto nº 9.580/2018; Lei n° 12.973/2014; Instrução Normativa n° 1.700/2017. contribuintes Pessoas jurídicas domiciliadas no País e as que lhes são equiparadas pela legislação tributária. incidência Sobre receita, faturamento ou lucro. Neste módulo, analisaremos o impacto das apurações de cada um dos tributos inerentes à dinâmica empresarial sobre o faturamento ou sobre o resultado das empresas, considerando as sistemáticas de tributação do Simples Nacional, do lucro presumido e do lucro real. Dessa forma, poderemos mensurar o impacto do planejamento tributário no resultado das empresas. Abordaremos, inicialmente, as tratativas do sistema de tributação do Simples Nacional, dispensado às micro e pequenas empresas – com faturamento anual de, no máximo, R$ 360.000,00 (trezentos e sessenta mil reais) e R$ 4.800.000,00 (quatro milhões e oitocentos mil reais) respectivamente. O marco legal desse sistema tributário diferenciado é a Lei Complementar nº 123, de 14 de dezembro de 2006, que institui o Estatuto Nacional da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte. Essa lei, em conjunto com inúmeras resoluções do Comitê Gestor do Simples nacional (CGSN), regula os principais aspectos referentes à tributação das micro e pequenas empresas, como vedações, limites de faturamento e alíquotas. Para empresas com faturamento anual de até R$ 78.000.000,00 (setenta e oito milhões de reais), com restrições às empresas do sistema financeiro (bancos e sociedades de crédito e financiamento, por exemplo), há a opção de tributação pelo lucro presumido. Nessa sistemática de tributação, o lucro da empresa é presumido a partir de uma alíquota que considera uma margem de lucro setorial. Algumas empresas, devido às suas atividades ou ao seu faturamento anual, devem ser tributadas pelo lucro real, ou seja, considerando o seu resultado líquido contábil ajustado pelas adições e exclusões no Livro de Apuração do Lucro Real (Lalur). Em certas ocasiões, o lucro real é usado como uma forma eficaz de planejamento tributário. Sendo assim, mesmo quando não é obrigada a utilizar essa sistemática por determinação legal, a empresa pode optar pelo lucro real para alcançar economia tributária. MÓDULO IV – SISTEMÁTICA DE TRIBUTAÇÃO E PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO 64 As pessoas jurídicas podem ser tributadas, basicamente, de duas formas: por determinação legal da autoridade tributária ou por opção. Neste ponto, é importante observarmos que, além do Simples Nacional, do lucro presumido e do lucro real, existe ainda a sistemática de tributação do lucro arbitrado, que, geralmente, é adotada por iniciativado Fisco quando não é possível identificar e determinar o desempenho financeiro da empresa, por motivos que podem ter origem em alguma fatalidade ou fraude. Simples Nacional Para optar pelo Simples Nacional, o contribuinte deve realizar o enquadramento como microempresa ou como empresa de pequeno porte, nos termos da Lei Complementar n° 123/2006. Segundo o art. 3 dessa Lei Complementar, consideram-se microempresas ou empresas de pequeno porte a sociedade empresária, a sociedade simples, a empresa individual de responsabilidade limitada e o empresário que exerce, profissionalmente, atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços, com faturamento anual não superior a R$ 360.000,00 (trezentos e sessenta mil reais), para os casos de enquadramento como microempresa, ou com faturamento anual não superior a R$ 4.800.000,00 (quatro milhões e oitocentos mil reais), para os casos de enquadramento como empresa de pequeno porte. O faturamento não é, contudo, o único limitador de adesão ao regime do Simples Nacional. Não pode optar por essa forma de tributação a empresa (§ 4° do art. 3 da Lei Complementar n° 123/2006): I. que possua em seu quadro societário, ou seja sócia de outra pessoa jurídica; II. que seja filial, sucursal, agência ou representação, no País, de pessoa jurídica com sede no exterior; III. constituída sob a forma de cooperativas, salvo as de consumo; IV. de cujo capital participe pessoa física que seja inscrita como empresário ou seja sócia de outra empresa que receba tratamento jurídico diferenciado nos termos da Lei Complementar n° 123/2006; V. cujo titular ou sócio participe com mais de 10% (dez por cento) do capital de outra empresa não beneficiada pela Lei Complementar n° 123/2006; VI. cujo sócio ou titular seja administrador ou equiparado de outra pessoa jurídica com fins lucrativos. Para os itens IV, V, e VI, a vedação é aplicada somente se a receita bruta global das empresas ultrapassar R$ 4.800.000,00 (quatro milhões e oitocentos mil reais) por ano. 65 Também não pode optar por essa forma de tributação a empresa (art. 17 da Lei Complementar n° 123/2006): que tenha sócio domiciliado no exterior; de cujo capital participe entidade da administração pública, direta ou indireta, Federal, estadual ou municipal; que possua débitos tributários; cujas atividades sejam expressamente vedadas pela Lei Complementar n° 123/2006. A Lei Complementar n° 123/2006 entrou em vigência em julho de 2007. No entanto, inúmeras normativas posteriores foram necessárias para regular as particularidades e as demandas desse sistema tributário diferenciado. Por meio de decretos, portarias, recomendações e, principalmente, resoluções do Comitê Gestor do Simples Nacional (CGSN), a matéria foi e continua sendo regulada. O objetivo desse sistema tributário foi o de simplificar e ampliar o alcance do tratamento diferenciado dado às micro e pequenas empresas. Tal ampliação, contudo, ao contrário do que se pretendia, provocou uma complexidade que continua a desafiar os reguladores e os operadores tributários. Uma questão crítica foi a centralização da arrecadação dos tributos de competência estadual e municipal na sistemática de apuração do Simples Nacional. Tributos como o ICMS e o ISS, que são de competência de estados e municípios respectivamente, passaram a ser arrecadados e administrados pela Receita Federal do Brasil. A partir de então, houve uma resistência, especialmente dos estados, de submeter-se ao novo regime. Por exemplo, o estado do Rio de Janeiro, usando de uma lacuna na Lei Complementar n° 123/2006, que não submeteu o ICMS por substituição tributária ao sistema diferenciado de arrecadação centralizada, passou a incluir, sistematicamente, setores e atividades de comércio que haviam sido incluídas no sistema tributário do Simples Nacional à obrigatoriedade de apuração do ICMS por substituição tributária. Na prática, os estabelecimentos comerciais que eram enquadrados como empresas de micro e pequeno porte passaram a ter o ICMS apurado e recolhido pelo estabelecimento fornecedor da mercadoria, nos termos e com as alíquotas previstos no sistema normal de apuração do ICMS. Dessa forma, não só a complexidade mas também os altos custos provocados pela majoração da alíquota desafiaram e, por vezes, inviabilizaram a manutenção de diversos setores de comércio local, como papelarias e lojas de artefatos de madeira. Outros aspectos, como a concessão de parcelamentos, a fiscalização e a dispensa de obrigações acessórias, levaram tempo para terem as suas tratativas devidamente reguladas, o que provocou diversos conflitos referentes à interpretação e à aplicação dos dispositivos previstos na referida lei complementar. 66 Tratamento diferenciado aplicado às micro e pequenas empresas Inúmeros são os aspectos de tratamento diferenciado aplicados às micro e pequenas empresas, todos previstos na Lei Complementar n° 123/2006 e nas suas alterações posteriores. Entre esses tratamentos diferenciados, destacamos os seguintes: simplificação dos processos de abertura e baixa de empresas; participação prioritária em licitações; acesso facilitado ao crédito. Neste tópico, contudo, focaremos os aspectos relacionados à tributação. O art. 12 da Lei Complementar n° 123/2006 institui o Regime Especial Unificado de Arrecadação de Tributos e Contribuições devidos pelas Microempresas e Empresas de Pequeno Porte – Simples Nacional, que implica o recolhimento mensal, mediante documento único de arrecadação, dos seguintes impostos e contribuições (art. 13): Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ); Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI); Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL); Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins); Contribuição para o Programa de Integração Social (PIS); Contribuição Patronal Previdenciária (CPP) para a Seguridade Social, a cargo da pessoa jurídica; Imposto sobre Operações Relativas à Circulação de Mercadorias e Sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS); Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS). Alíquotas Em relação à alíquota, o valor devido mensalmente pela microempresa ou empresa de pequeno porte optante pelo Simples Nacional será determinado mediante aplicação das alíquotas efetivas, calculadas a partir das alíquotas nominais, constantes nos anexos da Lei Complementar n° 123/2006, considerando a receita bruta dos 12 (doze) meses anteriores ao período de apuração e segregando as receitas de acordo com as atividades exercidas, nos anexos (art. 18 da Lei Complementar n° 123/2006). Detalharemos a seguir os anexos, distribuídos conforme o setor de atividades: Para as receitas decorrentes de revenda de mercadorias, o contribuinte deverá considerar o Anexo I, reproduzido a seguir. 67 Tabela 1 – Anexo I: Alíquotas e partilha do Simples Nacional – comércio (vigência 01/01/2018) faixas receita bruta em 12 meses alíquota valor a deduzir (em R$) 1ª faixa até 180.000,00 4,00% - 2ª faixa de 180.000,01 a 360.000,00 7,30% 5.940,00 3ª faixa de 360.000,01 a 720.000,00 9,50% 13.860,00 4ª faixa de 720.000,01 a 1.800.000,00 10,70% 22.500,00 5ª faixa de 1.800.000,01 a 3.600.000,00 14,30% 87.300,00 6ª faixa de 3.600.000,01 a 4.800.000,00 19,00% 378.000,00 Fonte: Lei Complementar n° 123/2006. As alíquotas são distribuídas entre os tributos da seguinte forma: Tabela 2 – Distribuição das alíquotas: Anexo I faixas IRPJ CSLL Cofins PIS CPP ICMS 1ª faixa 5,50% 3,50% 12,74% 2,76% 41,50% 34,00% 2ª faixa 5,50% 3,50% 12,74% 2,76% 41,50% 34,00% 3ª faixa 5,50% 3,50% 12,74% 2,76% 42,00% 33,50% 4ª faixa 5,50% 3,50% 12,74% 2,76% 42,00% 33,50% 5ª faixa 5,50% 3,50% 12,74% 2,76% 42,00% 33,50% 6ª faixa 13,50% 10,00% 28,27% 6,13% 42,10% - Fonte: LeiComplementar n° 123/2006. Podemos observar que o contribuinte enquadrado na 6ª faixa, com faturamento entre R$ 3.600.000,01 e R$ 4.800.000,00, deve recolher o ICMS fora da sistemática do Simples Nacional. Em outras palavras, deve-se submeter, concomitantemente, ao sistema diferenciado e às regras de apuração e recolhimento impostas pelos estados onde esteja localizada a sua sede. As vendas de mercadorias industrializadas pelo contribuinte devem ser tributadas conforme o Anexo II, reproduzido a seguir. 68 Tabela 3 – Anexo II: Alíquotas e partilha do Simples Nacional – comércio (vigência 01/01/2018) faixas receita bruta em 12 meses alíquota valor a deduzir (em r$) 1ª faixa até 180.000,00 4,50% - 2ª faixa de 180.000,01 a 360.000,00 7,80% 5.940,00 3ª faixa de 360.000,01 a 720.000,00 10,00% 13.860,00 4ª faixa de 720.000,01 a 1.800.000,00 11,20% 22.500,00 5ª faixa de 1.800.000,01 a 3.600.000,00 14,70% 85.500,00 6ª faixa de 3.600.000,01 a 4.800.000,00 30,00% 720.000,00 Fonte: Lei Complementar n° 123/2006. Nesse caso, as alíquotas são distribuídas entre os tributos da seguinte forma: Tabela 4 – Distribuição das alíquotas: Anexo II faixas IRPJ CSLL Cofins PIS CPP IPI ICMS 1ª faixa 5,50% 3,50% 11,51% 2,49% 37,50% 7,50% 32,00% 2ª faixa 5,50% 3,50% 11,51% 2,49% 37,50% 7,50% 32,00% 3ª faixa 5,50% 3,50% 11,51% 2,49% 37,50% 7,50% 32,00% 4ª faixa 5,50% 3,50% 11,51% 2,49% 37,50% 7,50% 32,00% 5ª faixa 5,50% 3,50% 11,51% 2,49% 37,50% 7,50% 32,00% 6ª faixa 8,50% 7,50% 20,96% 4,54% 23,50% 35,00% - Fonte: Lei Complementar n° 123/2006. De forma semelhante ao ocorrido no Anexo I, os contribuintes que atingirem a 6ª faixa de faturamento devem apurar o ICMS fora da sistemática do Simples Nacional. Para as receitas de prestação de serviços, há os anexos III, IV e V, que serão considerados de acordo com as determinações específicas do art. 18 da Lei Complementar nº 123/2006, os seus incisos e parágrafos. 69 O Anexo III, reproduzido a seguir, é usado para tributação de determinadas categorias de serviços, como: serviços de ensino fundamental, médio e de idiomas; agências terceirizadas de correios; casa lotéricas; manutenção em geral; escritórios de contabilidade; transporte municipal de passageiros; locação de bens móveis. Para conhecer todas as atividades, confira o § 5°-B, incisos de I a XXI, o § 5°-D, o § 5°-E e o § 5°-F do art. 18 da Lei Complementar nº 123/2006. Tabela 5 – Anexo III: Alíquotas e partilha do Simples Nacional – Receitas de locação de bens móveis e de prestação de serviços não relacionados no § 5°-C do art. 18 da Lei Complementar nº 123/2006 (Vigência 01/01/2018) faixas receita bruta em 12 meses alíquota valor a deduzir (em R$) 1ª faixa até 180.000,00 6,00% - 2ª faixa de 180.000,01 a 360.000,00 11,20% 9.360,00 3ª faixa de 360.000,01 a 720.000,00 13,50% 17.640,00 4ª faixa de 720.000,01 a 1.800.000,00 16,00% 35.640,00 5ª faixa de 1.800.000,01 a 3.600.000,00 21,00% 125.640,00 6ª faixa de 3.600.000,01 a 4.800.000,00 33,00% 648.000,00 Fonte: Lei Complementar n° 123/2006. Nesse caso, as alíquotas são distribuídas entre os tributos da seguinte forma: 70 Tabela 6 – Distribuição das alíquotas: Anexo III faixas IRPJ CSLL Cofins PIS CPP ISS 1ª faixa 4,00% 3,50% 12,82% 2,78% 43,40% 33,50% 2ª faixa 4,00% 3,50% 14,05% 3,05% 43,40% 32,00% 3ª faixa 4,00% 3,50% 13,64% 2,96% 43,40% 32,50% 4ª faixa 4,00% 3,50% 13,64% 2,96% 43,40% 32,50% 5ª faixa 4,00% 3,50% 12,82% 2,78% 43,40% 33,50% (*) 6ª faixa 35,00% 15,00% 16,03% 3,47% 30,50% - Fonte: Lei Complementar n° 123/2006. (*) O percentual efetivo máximo devido ao ISS será de 5%, transferindo-se a diferença, de forma proporcional, aos tributos federais da mesma faixa de receita bruta anual. Sendo assim, na 5a faixa, quando a alíquota efetiva for superior a 14,92537%, a repartição será a seguinte (Anexo III da Lei Complementar n° 123/2006): Tabela 7 – Repartição na 5ª faixa quando a alíquota efetiva for superior a 14,92537% IRPJ (alíquota efetiva – 5%) x 6,02% CSLL (alíquota efetiva – 5%) x5,26% Cofins (alíquota efetiva – 5%) x 19,28% PIS (alíquota efetiva – 5%) x 4,18% CPP (alíquota efetiva – 5%) x 65,26% ISS percentual de ISS fixo em 5% Fonte: Lei Complementar n° 123/2006. Algumas atividades de serviços que, pela sua natureza, possuem a previsão de cessão de mão de obra (construção civil, paisagismo, decoração de interiores, vigilância patrimonial e limpeza e conservação, além das empresas de serviços advocatícios) terão as suas receitas tributadas na forma do Anexo IV, ocasião em que não estará contemplada a Contribuição Previdenciária patronal (CPP), conforme a tabela a seguir. 71 Tabela 8 – Anexo IV: Alíquotas e partilha do Simples Nacional – Receitas decorrentes da prestação de serviços relacionados no § 5°-C do art. 18 desta Lei Complementar (Vigência: 01/01/2018) faixas receita bruta em 12 meses alíquota valor a deduzir (em R$) 1ª faixa até 180.000,00 4,50% - 2ª faixa de 180.000,01 a 360.000,00 9,00% 8.100,00 3ª faixa de 360.000,01 a 720.000,00 10,20% 12.420,00 4ª faixa de 720.000,01 a 1.800.000,00 14,00% 39.780,00 5ª faixa de 1.800.000,01 a 3.600.000,00 22,00% 183.780,00 6ª faixa de 3.600.000,01 a 4.800.000,00 33,00% 828.000,00 Fonte: Lei Complementar n° 123/2006. Nesse caso, as alíquotas são distribuídas entre os tributos da seguinte forma: Tabela 9 – Distribuição das alíquotas: Anexo IV faixas IRPJ CSLL Cofins PIS ISS 1ª faixa 18,80% 15,20% 17,67% 3,83% 44,50% 2ª faixa 19,80% 15,20% 20,55% 4,45% 40,00% 3ª faixa 20,80% 15,20% 19,73% 4,27% 40,00% 4ª faixa 17,80% 19,20% 18,90% 4,10% 40,00% 5ª faixa 18,80% 19,20% 18,08% 3,92% 40,00% (*) 6ª faixa 53,50% 21,50% 20,55% 4,45% - Fonte: Lei Complementar n° 123/2006. (*) O percentual efetivo máximo devido ao ISS será de 5%, transferindo-se a diferença, de forma proporcional, aos tributos federais da mesma faixa de receita bruta anual. Sendo assim, na 5ª faixa, quando a alíquota efetiva for superior a 12,5%, a repartição será realizada da seguinte forma: 72 Tabela 10 – Repartição na 5ª faixa quando a alíquota efetiva for superior a 12,50% IRPJ (alíquota efetiva – 5%) x 31,33% CSLL (alíquota efetiva – 5%) x 32,00% Cofins (alíquota efetiva – 5%) x 30,13% PIS (alíquota efetiva – 5%) x 6,54% ISS percentual de ISS fixo em 5% Fonte: Lei Complementar n° 123/2006. Por fim, algumas atividades especializadas, como medicina veterinária, serviços de engenharia, jornalismos e perícia, “serão tributadas na forma do anexo V, caso a razão entre a folha de salários e a receita bruta da pessoa jurídica seja inferior a 28% (vinte e oito por cento)”. Serão considerados, respectivamente, os montantes pagos e auferidos nos 12 meses anteriores ao período de apuração para enquadramento na apuração do Simples Nacional. Apresentamos o Anexo V a seguir. Tabela 11 – Anexo V: Alíquotas e partilha do Simples Nacional – Receitas decorrentes da prestação de serviços relacionados no § 5°-I do art. 18 desta Lei Complementar (Vigência: 01/01/2018) faixas receita bruta em 12 meses alíquota valor a deduzir (em R$) 1ª faixa até 180.000,00 15,50% - 2ª faixa de 180.000,01 a 360.000,00 18,00% 4.500,00 3ª faixa de 360.000,01 a 720.000,00 19,50% 9.900,00 4ª faixa de 720.000,01 a 1.800.000,00 20,50% 17.100,00 5ª faixa de 1.800.000,01 a 3.600.000,00 23,00% 62.100,00 6ª faixa de 3.600.000,01 a 4.800.000,00 30,50% 540.000,00 Fonte: Lei Complementar n° 123/2006. 73 Nesse caso, as alíquotas são distribuídas entre os tributos da seguinte forma: Tabela 12 – Distribuição das alíquotas: Anexo V faixas IRPJ CSLL Cofins PIS CPP ISS 1ª faixa 25,00% 15,00% 14,10% 3,05% 28,85% 14,00% 2ª faixa 23,00% 15,00% 14,10% 3,05% 27,85% 17,00% 3ª faixa 24,00% 15,00% 14,92% 3,23% 23,85% 19,00% 4ª faixa 21,00% 15,00%15,74% 3,41% 23,85% 21,00% 5ª faixa 23,00% 12,50% 14,10% 3,05% 23,85% 23,50% 6ª faixa 35,00% 15,50% 16,44% 3,56% 29,50% - Fonte: Lei Complementar n° 123/2006. Base de cálculo A base de cálculo para a apuração do valor devido pelo Simples nacional será a receita bruta auferida das empresas, excluindo os descontos incondicionais ou cancelamentos, que, por opção do contribuinte, poderão ser apurados pelo regime de competência ou pelo regime de caixa. Para a determinação da alíquota nominal, o contribuinte utilizará a receita bruta acumulada nos 12 meses anteriores ao período de apuração (§ 1º do art. 18 da Lei Complementar n° 123/2006). De acordo com o § 1º-A do art. 18 da Lei Complementar n° 123/2006, a alíquota é obtida por meio do seguinte cálculo: 𝑅𝑅𝑅𝑅𝑅𝑅12 × 𝐴𝐴𝐴𝐴𝐴𝐴𝐴𝐴.−𝑃𝑃𝑃𝑃 𝑅𝑅𝑅𝑅𝑅𝑅12 Em que: RBT12 = receita bruta acumulada nos doze meses anteriores ao período de apuração. Aliq. = alíquota nominal constante dos Anexos de I a V da Lei Complementar n° 123/2006. PD = parcela a deduzir constante dos Anexos de I a V da Lei Complementar n° 123/2006. 74 Apuração do valor devido: Simples Nacional Para a melhor compreensão dos conceitos apresentados, concluiremos este tópico com um exemplo de apuração do valor devido pelo Simples Nacional, demonstrando a forma de mensuração dos tributos no fluxo de caixa de uma empresa. Suponhamos que você trabalhe no departamento financeiro da Comercial Norte Ltda., empresa que atua no comércio varejista revendendo mercadorias. Em janeiro de 20xx, você recebeu a tarefa de projetar o fluxo de caixa da empresa, considerando o efetivo impacto dos tributos pelo regime de apuração do Simples Nacional. As informações disponíveis são descritas a seguir: receita bruta dos 12 meses anteriores ao período de análise: R$ 2.550.000,00; previsão de faturamento em janeiro/20xx: R$ 250.000,00; previsão de custos operacionais em janeiro/20xx: R$ 90.000,00; previsão de despesas operacionais janeiro/20xx: R$ 65.000,00; previsão de despesas financeiras janeiro/20xx: R$ 5.000,00. Com base nas informações disponíveis a respeito do período de janeiro/20xx, os nossos objetivos são: a) Identificar a alíquota efetiva dos tributos. b) Calcular o valor efetivamente devido pela empresa no Simples Nacional. c) Mensurar o fluxo de caixa da empresa. Como vimos, a fórmula para o cálculo da alíquota efetiva é seguinte: 𝑅𝑅𝑅𝑅𝑅𝑅12 × 𝐴𝐴𝐴𝐴𝐴𝐴𝐴𝐴.−𝑃𝑃𝑃𝑃 𝑅𝑅𝑅𝑅𝑅𝑅12 Com base na receita bruta dos últimos 12 meses, podemos consultar o Anexo I da Lei complementar n° 123/2006 (empresas que praticam a revenda de mercadorias são tributadas de acordo com o Anexo I) e verificar a faixa de enquadramento da alíquota nominal e da parcela a deduzir. Neste caso, o valor foi de R$ 2.550.000,00. Sendo assim, a alíquota nominal e a parcela a deduzir são as seguintes: faixa receita bruta últimos 12 meses alíquota nominal parcela a deduzir 5ª faixa de 1.800.000,01 a 3.600.000,00 14,30% 87.300,00 75 Para o cálculo da alíquota efetiva, aplicamos os valores encontrados à fórmula, conforme demonstrado a seguir: (2.550.000,00 × 0,1430)(−)87.300,00 2.550.000,00 = 10,88% (𝑎𝑎𝐴𝐴í𝐴𝐴𝑞𝑞𝑞𝑞𝑞𝑞𝑎𝑎 𝑒𝑒𝑒𝑒𝑒𝑒𝑞𝑞𝐴𝐴𝑒𝑒𝑎𝑎) Por fim, aplicamos a alíquota efetiva sobre o faturamento previsto para o período de análise, de modo a calcular o valor que será devido ao Simples Nacional. Vejamos: 𝑒𝑒𝑎𝑎𝐴𝐴𝑞𝑞𝑣𝑣 𝑑𝑑𝑒𝑒𝑒𝑒𝐴𝐴𝑑𝑑𝑞𝑞 𝑑𝑑𝑞𝑞 𝑠𝑠𝐴𝐴𝑠𝑠𝑠𝑠𝐴𝐴𝑒𝑒𝑠𝑠 𝑛𝑛𝑎𝑎𝑛𝑛𝐴𝐴𝑞𝑞𝑛𝑛𝑎𝑎𝐴𝐴: 𝑒𝑒𝑎𝑎𝑞𝑞𝑞𝑞𝑣𝑣𝑎𝑎𝑠𝑠𝑒𝑒𝑛𝑛𝑞𝑞𝑞𝑞 × 𝑎𝑎𝐴𝐴í𝐴𝐴𝑞𝑞𝑞𝑞𝑞𝑞𝑎𝑎 𝑒𝑒𝑒𝑒𝑒𝑒𝑞𝑞𝐴𝐴𝑒𝑒𝑎𝑎 𝑒𝑒𝑎𝑎𝐴𝐴𝑞𝑞𝑣𝑣 𝑑𝑑𝑒𝑒𝑒𝑒𝐴𝐴𝑑𝑑𝑞𝑞 𝑑𝑑𝑞𝑞 𝑠𝑠𝐴𝐴𝑠𝑠𝑠𝑠𝐴𝐴𝑒𝑒𝑠𝑠 𝑛𝑛𝑎𝑎𝑛𝑛𝐴𝐴𝑞𝑞𝑛𝑛𝑎𝑎𝐴𝐴: 250.000,00 × 10,88% = 27.200,00 É importante que os gestores financeiros identifiquem a relação entre a alíquota nominal e a alíquota efetiva do tributo nessa sistemática de tributação, além de identificarem o correto impacto na receita dos bens e serviços. As alíquotas nominais e efetivas para a atividade da empresa em análise estão descritas a seguir. atividade alíquota nominal alíquota efetiva revenda de mercadorias 14,30% 10,88% Destacamos que o Simples Nacional é um regime diferenciado, que consolida os principais tributos inerentes à dinâmica empresarial, unificando os tributos incidentes sobre o faturamento e sobre os resultados da empresa em um mesmo documento de arrecadação. Por incidir em uma alíquota efetiva sobre o faturamento da empresa, deve ser mensurado no fluxo de caixa conforme demonstrado a seguir. Tabela 13 – Mensuração do fluxo de caixa pelo valor efetivo do tributo receita/faturamento 250.000,00 tributos devido no Simples Nacional (27.200,00) receita líquida 222.800,00 custos operacionais (90.000,00) resultado bruto 132.800,00 despesas operacionais (65.000,00) despesas financeiras (5.000,00) fluxo de caixa líquido 62.800,00 76 Lucro presumido Neste tópico, vamos conhecer a sistemática de apuração do lucro presumido, mediante o exposto na Instrução Normativa da RFB n° 1.700, de 14 de março de 2014, que dispõe sobre a determinação e o pagamento do imposto sobre a renda e da contribuição social sobre o lucro líquido das pessoas jurídicas e dá outras providências. Utilizaremos também outras legislações que oferecem suporte para uma melhor compreensão da matéria. Para tanto, é necessário que observemos os conceitos de receita bruta e de receita líquida. Vejamos: a) Receita bruta: De acordo com os incisos de I a IV do art. 26 da IN RFB n° 1.700/ 2017, a receita bruta compreende: I. o produto da venda de bens nas operações de conta própria; II. o preço da prestação de serviços em geral; III. o resultado auferido nas operações de conta alheia; IV. as receitas da atividade ou objeto principal da pessoa jurídica, não compreendidas nos incisos de I a III. b) Receita líquida: A receita líquida, segundo o § 1° do art. 26 da IN RFB n° 1.700/2017, será a receita bruta diminuída de: I. devoluções ou vendas canceladas; II. descontos concedidos incondicionalmente; III. tributos sobre ela incidentes; IV. valores decorrentes do ajuste a valor presente, das operações vinculadas à receita bruta. Neste ponto, é importante destacarmos o texto disposto no § 4° do art. 26 da IN RFB n° 1.700/2017: “a receita bruta será reconhecida no período de apuração em que for configurada a aquisição de sua disponibilidade econômica ou jurídica, independentemente da avaliação quanto à probabilidade de não recebimento do valor pactuado ou contratado”. Igualmente importante é o que se afirma no art. 39 da referida instrução normativa: “serão acrescidos às bases de cálculo do IRPJ e da CSLL, no mês em que forem auferidos, os ganhos de capital, as demais receitas e os resultados positivos decorrentes de receitas não compreendidas na receita bruta definida anteriormente”. 77 Impedimentos à adoção do lucro presumido A opção pelo lucro presumido, embora vantajosa em algumas ocasiões, seja pela menor complexidade de apuração, seja pela eventual desoneração tributária, não está disponível para todas as empresas. Uma das restrições existentes pode ser verificada no art. 14 da Lei n° 9.718/1998, que estabelece a obrigatoriedade de adoção do lucro real para as empresas que atuem nas seguintes áreas: bancos ou sociedades de crédito, financiamento, investimento e crédito imobiliário; sociedades corretoras de títulos, valores mobiliários e câmbio; distribuidoras de títulos e valores mobiliários; empresas de arrendamento mercantil; cooperativas de crédito; empresas de seguros privados e de capitalização; entidades de previdência privada aberta. Segundo os incisos III, IV, VI e VII do art. 14 da Lei n° 9.718/1998, também estão impedidas de adotar esse regime as empresas que: obtenham lucros40 IMPOSTO SOBRE SERVIÇOS DE QUALQUER NATUREZA (ISS) .................................................... 42 IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS (IPI) .............................................................. 43 Fato gerador ............................................................................................................................. 44 Base de cálculo ......................................................................................................................... 44 Seletividade ............................................................................................................................... 44 Não cumulatividade ................................................................................................................. 44 Agentes ativo e passivo ........................................................................................................... 45 Alíquotas ................................................................................................................................... 45 Exceções aplicadas ao IPI ........................................................................................................ 46 CONTRIBUIÇÕES SOCIAIS SOBRE O FATURAMENTO: PIS E COFINS .......................................... 48 Regime cumulativo .................................................................................................................. 49 Alíquota no regime cumulativo ........................................................................................ 49 Regime não cumulativo........................................................................................................... 50 Alíquota no regime não cumulativo ................................................................................. 50 Exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da Cofins ................................................... 50 IMPOSTO DE RENDA DE PESSOA JURÍDICA (IRPJ) E CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO (CSLL) ................................................................................................................................. 56 Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) ......................................................................... 56 CONTRIBUIÇÃO SOCIAL SOBRE O LUCRO LÍQUIDO (CSLL) ........................................................ 59 Alíquota e base de cálculo da CSLL ....................................................................................... 60 MÓDULO IV – SISTEMÁTICA DE TRIBUTAÇÃO E PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO ........................... 63 SIMPLES NACIONAL ......................................................................................................................... 64 Tratamento diferenciado aplicado às micro e pequenas empresas ................................ 66 Alíquotas .............................................................................................................................. 66 Base de cálculo ................................................................................................................... 73 Apuração do valor devido: Simples Nacional ....................................................................... 74 LUCRO PRESUMIDO ......................................................................................................................... 76 Impedimentos à adoção do lucro presumido...................................................................... 77 Períodos de apuração ............................................................................................................. 77 Sistemática de cálculo do lucro presumido ......................................................................... 78 Apuração do valor devido: lucro presumido ........................................................................ 79 LUCRO REAL ...................................................................................................................................... 83 Apuração do lucro real ............................................................................................................ 84 Importância da escrituração contábil e fiscal ...................................................................... 85 Apuração do valor devido: lucro real .................................................................................... 87 PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO E FLUXO DE CAIXA ........................................................................ 89 ASPECTOS GERAIS DA REFORMA TRIBUTÁRIA ............................................................................. 89 CONCLUSÃO ..................................................................................................................................... 94 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................................ 97 BIBLIOGRAFIA ................................................................................................................................ 98 PROFESSOR-AUTOR ......................................................................................................................100 Neste módulo, apresentaremos uma visão geral do funcionamento do Sistema Tributário Nacional, analisaremos os seus principais conceitos e princípios, destacaremos a competência tributária e abordaremos os limites legais do planejamento tributário como uma ferramenta que pode ser adequada à estratégia de economia tributária. É lugar-comum considerar o tributo como responsável por grande parte dos problemas enfrentados pelas empresas brasileiras. É corrente a referência ao amontoado de normas e regras tributárias que gera uma arrecadação crescente e desproporcional e que desafia o setor produtivo, comprometendo os recursos necessários à sobrevivência e à valorização das empresas. Uma inevitável questão deriva desse cenário: para que servem os tributos? Dentro desse contexto, outros questionamentos encontram lugar, como: Qual é o impacto econômico do tributo? Qual é a justificativa atual para a grande diversidade de tributos? Há limites para a tributação? Questionamentos como esses são comuns entre os gestores, que enfrentam, cotidianamente, o desafio de analisar o status jurídico e o impacto econômico do nosso Sistema Tributário Nacional. Antes considerada uma atribuição exclusiva de advogados e contadores, a análise tributária é, atualmente, também papel dos gestores, que devem estar preparados para os desafios provocados pelo impacto da tributação dentro das empresas. Sendo assim, neste módulo, apresentaremos a você o pano de fundo do nosso emaranhado tributário, com o objetivo de sintetizar e elucidar os princípios e os conceitos que norteiam e justificam a existência e a aplicação do fato jurídico tributário. MÓDULO I – SISTEMA TRIBUTÁRIO NACIONAL 8 Conceito de tributo e as suas espécies A tributação pode ser estudada a partir de diversas abordagens e por profissionais de diferentes áreas. O economista realizará uma análise funcional, com o objetivo de retratar a eficiência econômica do tributo. Já o advogado tributário buscará descrever e sistematizar o ordenamento jurídico tributário bem como recomendar formas lícitas para uma tributação menos onerosa. O contador, por sua vez, procurará conhecer e deverá cumprir as muitas exigências fiscais e tributárias impostas pelos órgãos reguladores, de forma a garantir a legalidade e a conformidade dos registros contábeis que resultarão na arrecadação dos tributos. Finalmente, o gestor financeiro buscará analisar o impacto dos tributos no resultado das organizações. “Dificilmente se encontrará quem sustente com seriedade o desaparecimento do Estado como forma de organização política. A existência de um Estado implica a busca de recursos financeiros para a sua manutenção” (Schoueri, 2019, p. 17). A partir dessaoriundos do exterior; autorizadas pela legislação tributária, usufruam de benefícios fiscais relativos à isenção ou redução do imposto; desenvolvam atividades de prestação cumulativa e contínua de serviços de assessoria creditícia, mercadológica, gestão de crédito, seleção e riscos, administração de contas a pagar e a receber, compras de direitos creditórios resultantes de vendas mercantis a prazo ou de prestação de serviços (factoring); explorem as atividades de securitização de crédito. Períodos de apuração As empresas que não estiverem impedidas nas formas já destacadas e cujo faturamento anual não seja superior a R$ 78.000.000,00 (setenta e oito milhões de reais) – ou R$ 6.500.000,00 (seis milhões e quinhentos mil reais) multiplicados pelo número de meses de atividade no ano-calendário anterior, quando esse for inferior a 12 meses – poderão optar, de forma irretratável para todo o ano-calendário corrente, pelo regime de tributação com base no lucro presumido. A opção se dará por meio do pagamento da 1ª (primeira) ou única quota do IRPJ devido correspondente ao 1° (primeiro) período de apuração de cada ano-calendário ou, para os casos de empresas em início de atividade, a opção se dará por meio do pagamento da 1ª (primeira) ou única quota do IRPJ devido, relativo ao primeiro trimestre do início de atividade (§ 3° e § 4° do art. 214 da IN RFB n° 1.700/2017). 78 De acordo com as regras previstas na IN RFB, n° 1.700/2017 (art. 31) e na legislação de regência, as bases de cálculo do IRPJ e da CSLL são determinadas em períodos de apuração trimestrais, encerrados em 31 de março, 30 de junho, 30 de setembro e 31 de dezembro de cada ano-calendário. Agora que definimos, os conceitos de receita bruta e receita líquida, os impedimentos próprios de adoção deste regime e os períodos de apuração, iremos tratar da sistemática de cálculo, e apresentar algumas das principais particularidades do regime de tributação do lucro presumido. Sistemática de cálculo do lucro presumido Conforme o § 1° do art. 215 da IN RFB n° 1.700/2017, o lucro presumido será determinado mediante a aplicação dos percentuais relacionados na tabela a seguir sobre a receita bruta relativa a cada atividade, auferida em cada período de apuração trimestral e deduzidos os descontos incondicionais concedidos e as vendas canceladas. Tabela 14 – Percentuais para determinação do lucro presumido atividades percentuais IRPJ percentuais CSLL atividades em geral (indústria e comércio) 8% 12% revenda de combustíveis 1,6% 12% serviços de transporte (exceto de carga) 16% 12% serviços de transporte de cargas 8% 12% serviços em geral (exceto hospitalares) 32% 32% serviços hospitalares e de auxílio diagnóstico e terapia, patologia clínica, imagenologia, anatomia patológica e citopatológica, medicina nuclear e análises e patologias clínicas 8% 12% intermediação de negócios 32% 32% administração, locação ou cessão de bens e direitos de qualquer natureza (inclusive imóveis) 32% 32% Fonte: Receita Federal do Brasil. 79 A base de cálculo trimestral das pessoas jurídicas prestadoras de serviços em geral, exceto de serviços hospitalares, de transporte e as sociedades prestadoras de serviços de profissões legalmente regulamentadas, cuja receita bruta anual seja de até R$ 120.000,00 (cento e vinte mil reais) será determinada por meio da aplicação do percentual de 16% (dezesseis por cento) sobre a receita bruta auferida no período de apuração (§ 3° e § 4° do art. 592 do Decreto n° 9.580 de 2018). Serão acrescentadas à receita bruta, para fins de incidência do IRPJ e da CSLL, as receitas não operacionais, como as resultantes da locação de imóveis, o ganho de capitais, inclusive das alienações de bens e da participação societária e os rendimentos de aplicações financeiras, inclusive de operações de mútuos. Para conhecer todas as hipóteses, confira as alíneas de “a” a “g” do inciso I do § 3° do art. 215 da IN nº 1.700/2017. Com relação as obrigações acessórias, segundo os incisos de I a III do art. 225 da IN nº 1.700/2017, a pessoa jurídica optante pelo lucro presumido deverá manter: I. escrituração contábil nos termos da legislação comercial; II. livro Registro de Inventário, no qual deverão constar registrados os estoques existentes no término do ano-calendário; III. em boa guarda e ordem, enquanto não decorrido o prazo decadencial e não prescritas eventuais ações que lhes sejam pertinentes, todos os livros de escrituração obrigatórios por legislação fiscal específica e os documentos e demais papéis que serviram de base para escrituração comercial e fiscal. Apuração do valor devido: lucro presumido Agora, vamos apresentar um exemplo para demonstrar de que forma se dá a apuração dos tributos inerentes à dinâmica empresarial na sistemática de apuração do lucro presumido e a mensuração desses tributos no fluxo de caixa da empresa. A Invest Ltda. é uma empresa que oferece o serviço de consultoria financeira. Optante pelo lucro presumido, a Invest precisa mensurar o fluxo de caixa de um projeto de consultoria com duração de três meses, considerando o impacto tributário dessa sistemática de apuração. As seguintes informações foram projetadas para o período de análise: 80 Tabela 15 – Informações: Invest Ltda. receitas custos operacionais despesas operacionais despesas financeiras janeiro/20xx 120.000,00 28.000,00 15.000,00 4.500,00 fevereiro/20xx 130.000,00 32.000,00 18.000,00 4.500,00 março/20xx 140.000,00 46.000,00 20.000,00 4.500,00 total R$ 390.000,00 R$ 106.000,00 53.000,00 13.500,00 Com base nas informações disponíveis, vamos: a) Identificar os tributos incidentes na operação de serviços de consultoria e as alíquotas praticáveis para cada tributo incidente; b) Apurar o valor devido de cada tributo; c) Mensurar o fluxo de caixa do projeto. Dos tributos inerentes à dinâmica empresarial estudados neste material, incidem sobre a atividade de consultoria financeira, nessa sistemática de apuração, os seguintes tributos com as suas respectivas alíquotas e bases de cálculo (o ICMS e o IPI não incidem sobre prestação de serviços de consultoria): Tributos sobre o faturamento: ISS: 5%2 × o faturamento; PIS: 0,65% × o faturamento; Cofins: 3,00% × o faturamento. Tributos sobre o resultado: IRPJ: 15% × o lucro presumido, conforme o Quadro-síntese: IRPJ; Adicional do IRPJ: 10% × o lucro excedente, conforme o Quadro-síntese: IRPJ; CSLL: 9% × o lucro presumido, conforme o Quadro-síntese: CSLL. Destacamos ainda que, conforme o quadro Percentuais para determinação do lucro presumido, para apuração do IRPJ e da CSLL de empresas prestadoras de serviços em geral, o percentual de presunção do lucro é de 32% sobre o faturamento. Além disso, no lucro presumido, o regime de apuração do PIS e da Cofins é o cumulativo, ou seja, sem apropriação de créditos de impostos incidentes sobre os custos operacionais. 2 Alíquota definida conforme Código tributário Municipal do local da tributação. Neste exemplo, usamos 5%. 81 Com todas as informações pertinentes em mãos, podemos aplicar a metodologia de apuração dos tributos e mensurar o fluxo de caixa da empresa. Apuração do ISS: faturamento × alíquota de ISS. Sendo assim, temos: apuração do ISS impostos (em R$) janeiro/20xx 120.000,00 x 0,05 6.000,00 fevereiro/20xx 130.000,00 x 0,05 6.500,00 março/20xx 140.000,00 x 0,05 7.000,00 Apuração do PIS e da Cofins: faturamento × (alíquota de PIS + alíquota da Cofins). Desse modo, temos: apuração do PIS e da Cofins impostos R$ janeiro/20xx 120.000,00 x (0,0065 + 0,03) 4.380,00 fevereiro/20xx 130.000,00 x (0,0065 + 0,03) 4.745,00 março/20xx 140.000,00 x (0,0065 + 0,03) 5.110,00 Apuração do IRPJ: lucro presumido3 × alíquota do IRPJ. Sendo assim, temos: apuração LP apuração do IRPJ impostosR$ janeiro/20xx 120.000,00 x 32% 38.400,00 x 15% 5.760,00 fevereiro/20xx 130.000,00 x 32% 41.600,00 x 15% 6.240,00 março/20xx 140.000,00 x 32% 44.800,00 x 15% 6.720,00 3 Faturamento × alíquota de presunção. Neste exemplo, 32%. 82 Apuração do adicional IRPJ: lucro excedente4 × alíquota do adicional de IRPJ. Dessa forma, temos: lucro excedente apuração do adicional IRPJ impostos R$ janeiro/20xx 38.400,00 – 20.000,00 18.400,00 x 10% 1.840,00 fevereiro/20xx 41.600,00 – 20.000,00 21.600,00 x 10% 2.160,00 março/20xx 44.800,00 – 20.000,00 24.800,00 x 10% 2.480,00 Apuração da CSLL: lucro presumido5 × alíquota da CSLL. Dessa forma, temos: apuração LP apuração da CSLL impostos R$ janeiro/20xx 120.000,00 x 32% 38.400,00 x 9% 3.456,00 fevereiro/20xx 130.000,00 x 32% 41.600,00 x 9% 3.744,00 março/20xx 140.000,00 x 32% 44.800,00 x 9% 4.032,00 A partir dos cálculos realizados, podemos determinar o fluxo de caixa do projeto. Vejamos: Tabela 16 – Fluxo de caixa do projeto janeiro/20xx fevereiro/20xx março/20xx receitas/faturamento 120.000,00 130.000,00 140.000,00 impostos sobre faturamento (10.380,00) (11.245,00) (12.110,00) ISS (6.000,00) (6.500,00) (7.000,00) PIS e Cofins (4.380,00) (4.745,00) (5.110,00) receita líquida 109.620,00 118.755,00 127.890,00 custos operacionais (28.000,00) (32.000,00) (46.000,00) 4 Lucro presumido (-) 20.000,00 pelo número de meses do período de apuração. 5 Faturamento × alíquota de presunção. Neste exemplo, 32%. 83 janeiro/20xx fevereiro/20xx março/20xx resultado bruto 81.620,00 86.755,00 81.890,00 despesas operacionais (15.000,00) (18.000,00) (20.000,00) despesas financeiras (4.500,00) (4.500,00) (4.500,00) resultado antes do IRPJ/CSLL 62.120,00 64.255,00 57.390,00 impostos sobre o resultado6 (11.056,00) (12.144,00) (13.232,00) IRPJ (5.760,00) (6.240,00) (6.720,00) adicional do IRPJ (1.840,00) (2.160,00) (2.480,00) CSLL (3.456,00) (3.744,00) (4.032,00) fluxo de caixa líquido 51.064,00 52.111,00 44.158,00 É importante observarmos que, como a margem de lucro para apuração do IRPJ e da CSLL é presumida, a tributação ocorrerá independentemente de a empresa realizar, efetivamente, lucro na operação. Lucro real Como vimos no tópico anterior, empresas com faturamento anual superior a R$ 78.000.000,00 (setenta e oito milhões) ou que pratiquem atividades em que seja vedada a opção pelo lucro presumido, devem, obrigatoriamente, ser tributadas pelo lucro real. Há também incentivos fiscais que podem motivar a adoção desse regime. Além disso, a opção pode originar-se do planejamento tributário. O lucro real é o lucro líquido do período-base ajustado pelas adições, exclusões e compensações previstas no Decreto nº 9.580/18 – o regulamento do imposto de renda. 6 Resultado presumido pela alíquota de 32%. 84 O Livro de Apuração do Lucro Real (Lalur) é o instrumento utilizado para ajustar o lucro contábil ao lucro fiscal (real). Dessa forma, a escrituração do Lalur é obrigatória para todas as pessoas jurídicas optantes pelo lucro real. Esse livro é dividido em duas partes: na parte A, são discriminados os ajustes, por data, ao lucro real, como despesas indedutíveis, valores excluídos e a respectiva demonstração do lucro real; na parte B, são incluídos os valores que afetarão o lucro real de períodos-base futuros, como os prejuízos a serem compensados e a depreciação acelerada incentivada. Apuração do lucro real No regime de apuração do lucro real, a base de cálculo da CSLL não é exatamente a mesma do IRPJ. No entanto, a legislação da CSLL acompanha, em grande parte, as regras de apuração e recolhimento do IRPJ. Um exemplo de diferenças na apuração das bases de cálculo são ágios e deságios decorrentes de participação societária. O regramento tributário impede que certos custos e despesas sejam considerados como dedutíveis na apuração do lucro real. Dessa forma, quando esses custos ou essas despesas são escriturados na contabilidade, reduzem o lucro contábil da empresa, mas não poderão ser objeto de redução do lucro para fins fiscais. Essa é, na prática, uma das funções do Lalur: ajustar o lucro real por meio da adição dos custos e das despesas não admitidos pela legislação tributária como dedutíveis do resultado para fins de imposto de renda. A determinação do lucro real será precedida da apuração do lucro líquido de cada período de apuração, em observância às disposições das leis comerciais. Na determinação do lucro real, devem ser adicionados ao lucro: [...] os custos, as despesas, os encargos, as perdas, as provisões, as participações e quaisquer outros valores deduzidos na apuração do lucro líquido, que sejam vedados pelo Regulamento do Imposto de Renda, como por exemplo: os pagamentos efetuados à sociedade simples quando esta for controlada direta ou indiretamente por pessoas físicas que sejam diretores, gerentes, controladores da pessoa jurídica que pagar ou creditar os rendimentos, ou por cônjuge ou parente de primeiro grau de diretores, gerentes, controladores da pessoa jurídica que pagar ou creditar os rendimentos. Para conhecer todas as adições, confira os incisos de I a XIII do art. 260 do Decreto n° 9.580/2018. 85 Essencialmente, as adições buscam evitar que despesas pessoais dos controladores da empresa produzam redução tributária indevida. É o caso das adições definitivas, como brindes, aluguéis residenciais e gastos com veículos para diretores, ou de qualquer outra despesa que não seja essencial para a manutenção do negócio. Todos esses valores devem ser adicionados ao lucro líquido para fins de apuração do IRPJ e da CSLL. Sobre as exclusões e compensações, o Regulamento do Imposto de Renda permite que os valores cuja dedução seja autorizada e que não tenham sido computados na apuração do lucro líquido do período de apuração, sejam excluídos do lucro real. Também é permitida a exclusão de prejuízo fiscal que tenha sido apurado em períodos anteriores, limitada essa compensação a 30% do lucro líquido ajustado pelas adições e exclusões previstas no referido Regulamento. A exclusão do prejuízo fiscal em exercício anterior é condicionada à manutenção dos livros e dos documentos exigidos pela legislação fiscal, comprobatórios do prejuízo fiscal utilizado para compensação. Para conhecer todas as exclusões e compensações, confira os incisos de I a XI do parágrafo único do art. 261 do Decreto n° 9.580/2018. Importância da escrituração contábil e fiscal As empresas optantes pelo lucro real devem manter uma escrituração contábil e fiscal rigorosa, em observância a todas as normas para escrituração comercial. Quando necessário, devem manter registros auxiliares, como o Lalur, para a observância das disposições tributárias relativas à determinação da base de cálculo do IRPJ, quando não devam, pela sua natureza fiscal, constar da escrituração comercial ou forem diferentes dos lançamentos dessa escrituração. Segundo os arts. de 272 a 275 do Decreto nº 9.580/2018, os livros comerciais são: livro diário; livro razão. Já os livros fiscais são: de registro de inventário; de registros de entrada (compras); de apuração do lucro real (Lalur); de registro permanente de estoque, para as pessoas jurídicas que exercerem atividades de compra, venda, incorporação e construção de imóveis, loteamento ou desmembramento de terrenos para venda; de movimentação de combustíveis, a ser escriturado diariamente pelo posto revendedor. 86 A Receita Federal do Brasil instituiu, por meio do Sistema Público de Escrituração Digital (Sped), a obrigação de as empresas escriturarem, transmitirem e manterem em formato eletrônico os livros contábeis e fiscais exigidos pelo Regulamento do Imposto de Renda. As obrigações acessórias, que contemplam os livros comerciais e fiscais citados são: Escrituração ContábilFiscal (ECF), regulada pela Instrução Normativa RFB n° 2004, de 18 de janeiro de 2021; Escrituração Contábil Digital (ECD) regulada pela Instrução Normativa RFB n° 2003, de 18 de janeiro de 2021. Diferentemente do que ocorre no Simples Nacional – em que se admite a utilização do regime de caixa quando da apuração das receitas para fins tributários – no lucro real, admite-se apenas a estrita observância do regime de competência. Conforme determina o Regulamento do Imposto de Renda (incisos I e II do art. 285 do Decreto nº 9.580/2018): “A inexatidão quanto ao período de apuração de escrituração de receita, rendimento, custo ou dedução, ou de reconhecimento de lucro, somente constitui fundamento para lançamento de imposto, diferença de imposto ou multa, se dela resultar a redução ou postergação de imposto devido”. Isso quer dizer que qualquer inobservância do regime de competência e das regras de escrituração das receitas, dos custos e das despesas, na forma regulamentada, constitui-se fundamento para o lançamento do imposto a pagar. Para fins de divulgação do lucro líquido a todos os usuários da informação contábil e também para controle das autoridades tributárias, o contribuinte deverá, ao fim de cada ano, apurar o lucro líquido por meio da elaboração, em observância às disposições da lei comercial: do balanço patrimonial; da demonstração do resultado do período de apuração; da demonstração de lucros ou prejuízos acumulados. Além disso, deverá elaborar a demonstração do lucro real, que discriminará (incisos I, II e III do art. 287 do Decreto nº 9.580/2018): o lucro líquido do período; os registros de ajuste do lucro líquido, com identificação das contas analíticas do plano de contas e indicação discriminada por lançamento correspondente na escrituração comercial, quando presentes; o lucro real. 87 Como pudemos notar, todas as tratativas e especificações do Regime de Tributação do lucro real são extensas e complexas. Não esperamos esgotar o assunto nesta apostila, mas sim dar ao leitor uma visão geral dos aspectos essenciais à elaboração de um planejamento tributário. Como vimos, o planejamento tributário de uma empresa deve ser elaborado com o intuito de – garantida a segurança jurídica – alcançar a economia tributária, o que dependerá da escolha da forma de tributação mais adequada. Conhecer os limites, as particularidades e as formas de adesão de cada um dos regimes tributários constituem, portanto, o principal ferramental de tomada de decisão nesse contexto. Apuração do valor devido: lucro real Agora, vamos apresentar um exemplo aplicado às finanças de uma empresa fictícia, considerando os principais aspectos da apuração do IRPJ e da CSLL. O nosso objetivo é elaborar o fluxo de caixa dessa empresa pelo lucro real. A Cia. JMRS, empresa de serviços optante pelo lucro real, apresenta orçamento para o próximo ano fiscal conforme a seguir: receita/faturamento R$ 10.000.000,00 custos operacionais R$ 5.500.000,00 despesas operacionais R$ 2.200.000,00 despesas financeiras R$ 350.000,00 Com base nesses dados, vamos elaborar o fluxo de caixa, evidenciando os valores dos tributos devidos na sistemática de apuração do lucro real, conforme alíquotas a seguir. Tabela 17 – Tributos e respectivas alíquotas tributos base de cálculo alíquotas % ISS receitas/faturamento 5,00 PIS e Cofins receitas/faturamento 9,25 CSLL lucro Antes do IRPJ/CSLL 9,00 IRPJ lucro antes do IRPJ/CSLL 15,00 adicional do IRPJ lucro excedente7 10,00 7 Parcela do lucro antes do IRPJ/CSLL que exceder o resultado de R$ (20.000,00 × 12 meses) 88 Neste ponto, é importante observarmos que, no lucro real, o PIS e a Cofins são apurados no regime não cumulativo, ou seja, com aproveitamento de créditos sobre os custos operacionais, nos termos da lei. A seguir, apresentamos o fluxo de caixa projetado para o período em análise. Tabela 18 – Fluxo de caixa do período fluxo de caixa valores em R$ (+) receita/faturamento 10.000.000,00 (-) tributos sobre faturamento (1.425.000,00) ISS8 (500.000,00) PIS e Cofins9 (925.000,00) (=) receita líquida 8.575.000,00 (-) custos operacionais (5.500.000,00) (+) crédito de PIS e Cofins10 508.750,00 (=) resultado bruto 3.583.750,00 (-) despesas operacionais (2.200.000,00) (-) despesas financeiras (350.000,00) (=) resultado antes do IRPJ e CSLL 1.033.750,00 (-) tributos sobre o resultado (327.475,00) IRPJ11 (155.062,50) adicional do IRPJ12 (79.375,00) CSLL13 (93.037,50) = fluxo de caixa líquido 706.275,00 Sendo assim, o fluxo de caixa líquido do projeto é de R$ 706.275,00. 8 ISS = 5% × receitas. 9 PIS e Cofins = 9,25% × receitas. 10 Crédito de PIS e Cofins = 9,25% x custos operacionais. 11 IRPJ = 15% × lucro antes do IRPJ/CSLL. 12 Adicional do IRPJ = 10% × lucro excedente, logo: (1.1.033.750,00 – (20.000,00 × 12 meses)). 13 CSLL = 9% × lucro antes do IRPJ/CSLL. 89 É importante destacarmos que, quando projetamos um fluxo de caixa futuro, podemos apenas prever as receitas e os gastos conforme o orçamento. A tributação sobre os resultados ocorrerá, na prática, somente e na proporção dos resultados apurados pelo Lalur, que são ajustados com as adições e exclusões previstas em lei. Caso, no final do exercício orçado, a empresa evidencie prejuízo contábil, deverá creditar os valores referentes a esse prejuízo no exercício seguinte, no montante dos percentuais destes tributos sobre o resultado. Planejamento tributário e fluxo de caixa A complexidade e a onerosidade do Sistema Tributário Nacional demandam, cada vez mais, um planejamento tributário cuidadoso por parte das empresas. Bem executado, o planejamento tributário pode significar uma relevante economia para a empresa, com impacto positivo nos seus resultados e no valuation dos seus projetos. Destacamos, nesta apostila, que o planejamento tributário deve atentar para a prática da elisão fiscal, entendida como a economia lícita de tributos que ocorre antes do acontecimento efetivo do fato gerador do tributo. Como vimos, o primeiro passo a ser dado pelas empresas para o desenvolvimento de um planejamento tributário adequado é a definição do sistema de tributação mais adequado às suas atividades. Neste tópico, vamos apresentar um exemplo em que utilizaremos o método do fluxo de caixa como suporte a esse processo decisório. Consideremos uma empresa prestadora de serviços de contabilidade e finanças, com as seguintes projeções para o próximo ano: 20xx. Tabela 19 – Orçamento para o ano de 20xx orçamento para o ano 20xx valores em R$ receitas/faturamento 3.600.000,00 custos operacionais 1.260.000,00 despesas operacionais 720.000,00 despesas financeiras 120.000,00 Dos sistemas de tributação estudados nesta apostila – (a) Simples nacional, (b) lucro presumido e (c) lucro real –, qual seria o menos oneroso nesse cenário? Para responder a essa pergunta, precisamos apurar os tributos devidos e analisar o impacto desses tributos no fluxo de caixa da empresa. 90 A seguir, apresentamos algumas informações complementares necessárias ao processo decisório: A receita realizada nos últimos 12 meses é a seguinte: R$ 3.000.000,00. As atividades de contabilidade e finanças (conforme o inciso XIV do art. 18 da Lei Complementar nº 123/2006), para fins de tributação do Simples Nacional, são tributadas na forma do Anexo III (para cada atividade distinta, deve ser consultada a Lei Complementar nº 123/2006). As atividades de contabilidade e finanças tributadas no lucro presumido são sujeitas ao regime cumulativo do PIS e da Cofins, com alíquotas de 0,65% e 3,00% respectivamente. Para fins de incidência do IRPJ e da CSLL, são sujeitas à alíquota de presunção de lucro de 32% sobre o faturamento, sendo as alíquotasde IRPJ 15% e CSLL 9% respectivamente. Na sistemática de tributação do lucro real, a empresa estará sujeita ao regime não cumulativo do PIS e da Cofins, com alíquotas de 1,65% e 7,60% respectivamente. Para fins de incidência do IRPJ e da CSLL, são sujeitas à tributação sobre o resultado antes do IRPJ e da CSLL, sendo as alíquotas de IRPJ e CSLL de 15% e de 9% respectivamente. Para o cálculo do adicional de IRPJ, tanto na sistemática de tributação do lucro presumido quanto no lucro real, a alíquota de 10% incidirá sobre o lucro que exceder a parcela de R$ 20.000,00, multiplicada pelo número de meses de análise. Não foram previstas adições ou exclusões do lucro no Lalur. A alíquota de ISS aplicável é a seguinte: 5%. Não há incidência de ICMS e IPI para empresas prestadoras de serviços de contabilidade e finanças. Importante! Esses parâmetros foram definidos com base no conteúdo desta apostila. Recomendamos sempre obter o suporte especializado de um profissional da área de Contabilidade ou de Direito Tributário para definição desses parâmetros. (a) Simples Nacional: No caso do Simples Nacional, o primeiro passo a ser dado é calcular a alíquota efetiva do tributo. Conforme o Anexo III da Lei Complementar nº 123/2006, temos: faixa receita bruta últimos 12 meses alíquota nominal parcela a deduzir 5ª faixa de 1.800.000,01 a 3.600.000,00 21,00% 125.640,00 91 A fórmula para o cálculo da alíquota efetiva é a seguinte: 𝑣𝑣𝑒𝑒𝑛𝑛𝑒𝑒𝐴𝐴𝑞𝑞𝑎𝑎 𝑏𝑏𝑣𝑣𝑞𝑞𝑞𝑞𝑎𝑎 𝑑𝑑𝑒𝑒 12 𝑠𝑠𝑒𝑒𝑠𝑠𝑒𝑒𝑠𝑠 × 𝑎𝑎𝐴𝐴í𝐴𝐴𝑞𝑞𝑞𝑞𝑞𝑞𝑎𝑎 𝑛𝑛𝑞𝑞𝑠𝑠𝐴𝐴𝑛𝑛𝑎𝑎𝐴𝐴 − 𝑒𝑒𝑎𝑎𝐴𝐴𝑞𝑞𝑣𝑣 𝑎𝑎 𝑑𝑑𝑒𝑒𝑑𝑑𝑞𝑞𝑑𝑑𝐴𝐴𝑣𝑣 𝑣𝑣𝑒𝑒𝑛𝑛𝑒𝑒𝐴𝐴𝑞𝑞𝑎𝑎 𝑏𝑏𝑣𝑣𝑞𝑞𝑞𝑞𝑎𝑎 𝑑𝑑𝑒𝑒 12 𝑠𝑠𝑒𝑒𝑠𝑠𝑒𝑒𝑠𝑠 Sendo assim, nesse caso, a alíquota efetiva é a seguinte: (3.000.000,00 × 0,21)− 125.640,00 3.000.000,00 = 16,81% O segundo passo é calcular o valor devido do Simples e elaborar o fluxo de caixa. Vejamos: receita/faturamento 3.600.000,00 tributos devidos no Simples Nacional14 (605.160,00) receita líquida 2.994.840,00 custos operacionais (1.260.000,00) resultado bruto 1.734.840,00 despesas operacionais (720.000,00) despesas financeiras (120.000,00) fluxo de caixa líquido 894.840,00 14 Tributos devidos no Simples Nacional = 16,81% × receita/faturamento. 92 (b) Lucro presumido: Vamos calcular os tributos devidos no lucro presumido e elaborar o fluxo de caixa: fluxo de caixa valores em R$ (+) receita/faturamento 3.600.000,00 (-) tributos sobre faturamento (311.400,00) ISS15 (180.000,00) PIS e Cofins16 (131.400,00) (=) receita líquida 3.288.600,00 (-) custos operacionais (1.260.000,00) (=) resultado bruto 2.028.600,00 (-) despesas operacionais (720.000,00) (-) despesas financeiras (120.000,00) (=) resultado antes do IRPJ e CSLL 1.188.600,00 (-) tributos sobre o resultado (367.680,00) IRPJ17 (172.800,00) adicional do IRPJ18 (91.200,00) CSLL19 (103.680,00) = fluxo de caixa líquido 820.920,00 15 ISS = 5% × receita/faturamento. 16 PIS e Cofins = 3,65% × receita/faturamento. 17 IRPJ = 15% × o lucro presumido, que é: (3.600.000,00 × 32% = 1.152.000,00). 18 Adicional do IRPJ = 10% × o lucro excedente, que é: (1.152.000,00 – (20.000,00 × 12 meses) = 912.000,00). 19 CSLL = 9% × lucro presumido, que é: (3.600.000,00 × 32% = 1.152.000,00). 93 (c) Lucro real: Vamos calcular os tributos devidos no lucro real e elaborar o fluxo de caixa: fluxo de caixa valores em R$ (+) receita/faturamento 3.600.000,00 (-) tributos sobre faturamento (513.000,00) ISS20 (180.000,00) PIS e Cofins21 (333.000,00) (=) receita líquida 3.087.000,00 (-) custos operacionais (1.260.000,00) (+) Crédito de PIS e Cofins22 116.550,00 (=) resultado bruto 1.943.550,00 (-) despesas operacionais (720.000,00) (-) despesas financeiras (120.000,00) (=) resultado antes do IRPJ e CSLL 1.103.550,00 (-) tributos sobre o resultado (351.207,00) IRPJ23 (165.532,50) adicional do IRPJ24 (86.355,00) CSLL25 (99.319,50) = fluxo de caixa líquido 752.343,00 No exemplo apresentado, a opção pelo Simples Nacional é a menos onerosa, pois gerou um fluxo de caixa líquido de R$ 894.840,00, maior que o fluxo de caixa pelo lucro presumido e pelo lucro real. 20 ISS = 5% × receita/faturamento. 21 PIS e Cofins = 9,25% × receita/faturamento. 22 Crédito de PIS e Cofins = 9,25% × custos operacionais. 23 IRPJ = 15% × resultado antes do IRPJ e CSLL. 24 Adicional do IRPJ = 10% × lucro excedente, que é: (resultado antes do IRPJ e CSLL – (20.000,00 × 12 meses) = 863.550,00). 25 CSLL = 9% × resultado antes do IRPJ e da CSLL. 94 Aspectos gerais da reforma tributária Em fase de regulamentação, a reforma tributária pretende trazer substanciais alterações ao Sistema Tributário Nacional. Ainda que em um cenário de incerteza técnica e política, o objetivo é estabelecer um novo modelo de tributação sobre o consumo previsto na Emenda Constitucional nº 132, promulgada pelo Congresso Nacional em dezembro de 2023. Com a primeira reforma ampla do STN, realizada sob a Constituição Federal de 1988, espera-se simplificar a cobrança de impostos sobre o consumo para incentivar o crescimento econômico. Apesar disso, ainda há um longo caminho de transição pela frente, para que seja possível a unificação dos impostos sobre o consumo de estados e municípios, além de acabar com a guerra fiscal entre esses entes federativos. Destaca-se como principal efeito da aprovação a unificação de cinco tributos – ICMS, ISS, IPI, PIS e Cofins – em uma cobrança única que será dividida entre os níveis federal, Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS); e estadual/municipal, Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). A reformar prevê, além da unificação, a extinção de alguns tributos: nível tributos atuais que serão extintos tributos novos federal PIS CBS Cofins estadual ICMS IBS municipal ISS Para a concretização das mudanças, ainda estão previstas, para os próximos anos, leis complementares para regular as alterações trazidas pela emenda e para instituir o IBS e o CBS. Embora ainda não tenha as suas alíquotas definidas, tanto o IBS como o CBS serão tributos do tipo Imposto sobre o Valor Agregado (IVA), que pretende acabar com o “efeito cascata”, que onera com o mesmo tributo várias etapas da cadeia produtiva. Está prevista ainda a criação de um Imposto Seletivo (IS), que incidirá uma única vez sobre a produção, extração, comercialização ou importação de produtos e serviços prejudiciais à saúde e ao meio ambiente. Atualmente, essa função é exercida pelo IPI, que inicialmente estava previsto para ser extinto em 2027. 95 Apesar disso, o IPI ainda vigorará no País, mas com uma nova função de manter a competitividade das produções industriais da Zona Franca de Manaus (ZFM). O Congresso estipulou que, após 2027, o IPI terá as suas alíquotas reduzidas a zero em todo o Brasil, exceto em relação aos produtos que tenham industrialização incentivada na ZFM. A previsão da transição é apresentada na linha do tempo a seguir: Fonte: Agência Senado26 26 https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2023/12/21/reforma-tributaria-promulgada-principais- mudancas-dependem-de-novas-leis 96 A CBS será completamente instituída a partir de 2027, porém, em 2026, haverá um período de teste em que a alíquota da CBS e IBS, somadas, será de 1%: 0,9% para CBS e 0,1% para o IBS. O IBS será definitivamente implementado em 2033, portanto conviverá até esse período concomitantemente com o ICMS e o ISS, que serão substituídos de modo progressivo. Conclusão Neste módulo, apresentamos os principais aspectos relacionados aos sistemas de tributação do Simples Nacional, do lucro presumido e do lucro real. Relacionamos a incidência dos tributos com o fluxo de caixa das empresas, de formaa dar suporte ao processo decisório que envolve a escolha do sistema de tributação mais adequado. É importante destacarmos que a decisão a respeito da sistemática de apuração deve sempre resultar de uma análise anual, pois essa decisão poderá mudar à medida que o orçamento da empresa se altera. Ainda, apresentamos o cenário previsto para a transição do atual Sistema Tributário Nacional, para o que prevê a reforma tributária. Antes de concluirmos, apresentaremos um importante trecho do Decreto-Lei nº 4.657, de 4 de setembro de 1942, que poderá fazer com que você revisite o conteúdo apresentado nesta apostila a partir de uma nova perspectiva: “Ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece” (Art. 3 do Decreto-Lei nº 4.657, de 4 de setembro de 1942). Essa advertência, extraída do art. 3º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, certamente nos leva a refletir com essencial responsabilidade, afinal, ao longo desta apostila, analisamos diversos princípios, normas, procedimentos e observâncias necessários à correta gestão tributária. Reconhecemos a complexidade dos dispositivos legais e dos procedimentos presentes no nosso ordenamento jurídico tributário. No entanto, além de gerar riscos relativos às penalidades impostas pelas autoridades tributárias, o desconhecimento das normas tributárias pode causar prejuízos significativos para as empresas. Cabe aos gestores, portanto, buscarem conhecimento a respeito das melhores práticas tributárias, de modo a garantirem escolhas adequadas ao seu negócio. Nesta apostila, considerando os objetivos inicialmente traçados, esperamos ter oferecido a você o ferramental teórico necessário à obtenção desse conhecimento, por meio de uma visão robusta de aspectos tributários que entendemos serem indispensáveis ao desenvolvimento de estratégias empresariais. CONSIDERAÇÕES FINAIS 98 BIBLIOGRAFIA ABREU, Paula Santos de. A abusividade nos planejamentos fiscais: uma análise da jurisprudência do Carf. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2019. AMARO, Luciano. Direito tributário brasileiro. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2019. ÁVILA, Humberto. O imposto sobre serviços e a Lei Complementar nº 116/03. In: ROCHA, Valdir de Oliveira (org.). O ISS e a LC 116. São Paulo: Dialética, 2003. BRASIL. Decreto-lei nº 4.657, de 4 de setembro de 1942. Brasília, DF: Presidência da República, 1942. 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Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ mercado/2019/10/brasil-e-o-pais-em-que-empresario-gasta-mais-tempo-para-pagar-imposto-diz- banco-mundial.shtml. Acesso em: 18 maio 2023. COÊLHO, Sacha Calmon Navarro. Curso de direito tributário brasileiro. 15. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2016. GIAMBIAGI, Fábio; ALÉM, Ana Cláudia. Finanças públicas: teoria e prática no Brasil. 4. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011. GOMES, Marcus Lívio et al. Planejamento tributário sob a ótica do Carf. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2019. MACHADO, Hugo de Brito. Curso de direito tributário. 41. ed. Bahia: Juspodvim, 2020. MACHADO SEGUNDO, Hugo de Brito. Processo tributário. 11. ed. São Paulo: Atlas, 2019. REZENDE, Fernando; AFONSO, José Roberto. 50 anos da reforma tributária nacional: origens e lições. Rio de Janeiro: FGV IBRE, 2014. RUSSI, Anna. Banco Mundial: empresas gastam até 1.501 horas para pagar impostos no Brasil. CNN Brasil, São Paulo, 15 jun 2021. 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Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/10/brasil-e-o-pais-em-que-empresario-gasta-mais-tempo-para-pagar-imposto-diz-banco-mundial.shtml https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/10/brasil-e-o-pais-em-que-empresario-gasta-mais-tempo-para-pagar-imposto-diz-banco-mundial.shtml https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/10/brasil-e-o-pais-em-que-empresario-gasta-mais-tempo-para-pagar-imposto-diz-banco-mundial.shtml https://www.cnnbrasil.com.br/economia/banco-mundial-empresas-gastam-ate-1501-horas-para-pagar-impostos-no-brasil/ https://www.cnnbrasil.com.br/economia/banco-mundial-empresas-gastam-ate-1501-horas-para-pagar-impostos-no-brasil/ 100 PROFESSOR-AUTOR Michael Alencar Formação Doutor em Contabilidade e Administração pela Universidade Regional de Blumenau (Furb). Mestre em Gestão Empresarial pela FGV EBAPE, com extensão na Warwick Business School em Londres (UK). Especialista com MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pelo FGV IDE. Bacharel em Administração de Empresas pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Experiências profissionais Managing partner em uma proprietary trading com sedes no Brasil e na Europa. Procurador do Estado do Rio de Janeiro. Empresário contábil, sendo responsável técnico pela contabilidade bem como pelo planejamento tributário e financeiro de empresas nacionais e estrangeiras dos setores de óleo e gás e de serviços. Consultor tributário e financeiro, e analista de planos de negócio para novos empreendimentos e investimentos. https://www.instagram.com/fgv.educacaoexecutiva/ https://www.linkedin.com/school/fgv-educacaoexecutiva/ INTRODUÇÃO SUMÁRIO MÓDULO I – SISTEMA TRIBUTÁRIO NACIONAL Conceito de tributo e as suas espécies Espécies de tributo Competência tributária Princípios do Sistema Tributário Nacional Princípio da capacidade contributiva Princípio da legalidade Princípio da isonomia Princípio da irretroatividade Princípio da anterioridade Princípio do não confisco Princípio da transparência dos impostos Princípio da não cumulatividade do IPI e do ICMS Limitações da gestão e do planejamento tributário Evasão fiscal,elisão fiscal e elusão fiscal Conclusão MÓDULO II – OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA E CRÉDITO TRIBUTÁRIO Fato gerador e obrigação tributária Obrigação principal e obrigação acessória Opções de suspensão, extinção e exclusão do crédito tributário Suspensão do crédito tributário Extinção do crédito tributário Exclusão do crédito tributário Processo de cobrança administrativa do tributo Lançamento por declaração Lançamento por homologação Lançamento de ofício Dívida ativa e responsabilidade tributária Responsabilidade tributária Conclusão MÓDULO III – TRIBUTOS INERENTES À DINÂMICA EMPRESARIAL Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) Substituição tributária do ICMS Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS) Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) Fato gerador Base de cálculo Seletividade Não cumulatividade Agentes ativo e passivo Alíquotas Exceções aplicadas ao IPI Contribuições sociais sobre o faturamento: PIS e Cofins Regime cumulativo Alíquota no regime cumulativo Regime não cumulativo Alíquota no regime não cumulativo Exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da Cofins Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) Alíquota e base de cálculo da CSLL MÓDULO IV – SISTEMÁTICA DE TRIBUTAÇÃO E PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO Simples Nacional Tratamento diferenciado aplicado às micro e pequenas empresas Alíquotas Base de cálculo Apuração do valor devido: Simples Nacional Lucro presumido Impedimentos à adoção do lucro presumido Períodos de apuração Sistemática de cálculo do lucro presumido Apuração do valor devido: lucro presumido Lucro real Apuração do lucro real Importância da escrituração contábil e fiscal Apuração do valor devido: lucro real Planejamento tributário e fluxo de caixa Aspectos gerais da reforma tributária Conclusão CONSIDERAÇÕES FINAIS BIBLIOGRAFIA PROFESSOR-AUTOR Michael Alencar Formação Experiências profissionaisafirmação, podemos concluir que um dos principais fatores que justificam a existência da tributação é a presença do Estado. É função precípua deste, no exercício do poder de tributar, respeitar os limites previstos na Constituição Federal, além de promover, por meio das suas decisões e atividades, a estabilidade econômica, o crescimento e o bem-estar social do país, garantindo aos contribuintes, além de outros direitos, o de possuir a capacidade econômica de pagar tributos. Como instrumento de arrecadação, o tributo precisa ter uma finalidade econômica. Essa finalidade pode ser sintetizada como a função distributiva de renda atribuída ao Estado. Gimbiagi e Alem (2011) observam que “a função distributiva, como política fiscal do Estado, está associada a ajustes na distribuição da renda que permitam que a distribuição prevalecente seja aquela considerada mais justa pela sociedade”. O conceito de tributo é ambíguo e varia de acordo com diferentes perspectivas (econômica, jurídica, social, política, histórica), guardando ainda relação com o agente que dele faz uso. A tributação deve ter previsão em lei e necessário conteúdo econômico, tendo a sua natureza jurídica determinada pelo fato gerador da obrigação. O art. 3º da Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 (Código Tributário Nacional – CTN), assim define o tributo: 9 Tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada. Embora o CTN seja datado de 1966, a Constituição Federal de 1988 moldou, significativamente, o Sistema Tributário Nacional (STN). De acordo com Rezende e Afonso (2014), “o sistema atual teve como premissa básica, a criação de um sistema de repartição de receitas da União para os Estados e Municípios e do Estado para os Municípios”. Desse modo, podemos sintetizar o conceito de tributo da seguinte forma: deve ter origem em lei; deve possuir finalidade econômica distributiva de renda; deve limitar-se à capacidade contributiva do agente passivo, ou seja, aquele que arca com o ónus da tributação. A figura a seguir ilustra esse tripé conceitual. Figura 1 – Tributo: tripé conceitual Essa é, contudo, uma visão macroeconômica do tributo. Machado (2020) destaca que, “no mundo moderno, o tributo é amplamente utilizado com o objetivo de intervir na economia privada, estimulando ou desestimulando atividades e setores econômicos ou regiões”. Nesse sentido, o tributo pode assumir as seguintes funções: fiscal – de arrecadação do Estado para o cumprimento da sua finalidade; arrecadação prevista em lei Constituição Federal e CTN – (base) limitações: capacidade contributiva função: econômica distributiva de renda 10 extrafiscal – quando o seu objetivo principal é a interferência no domínio econômico, buscando um efeito diverso da simples arrecadação de recursos financeiros; parafiscal – quando o seu objetivo é a arrecadação de recursos para o custeio de atividades que, em princípio, não integram funções próprias do Estado, mas este as desenvolve por meio de entidades específicas. Espécies de tributo O conceito de tributo extraído do art. 3º do CTN caracteriza o tributo como um gênero que se desdobra, de acordo com o critério estabelecido, em até seis espécies cujo regime jurídico lhes é comum. São espécies de tributos: impostos; taxas; contribuições de melhoria; empréstimo compulsórios; contribuições sociais; contribuições especiais. Considerando os objetivos desta apostila, destacaremos dentro das espécies existentes, os principais tributos inerentes à dinâmica empresarial. São eles: Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços (ICMS); Imposto sobre Serviços (ISS); Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI); Programa de Integração Social (PIS); Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins); Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ); Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Competência tributária Como destaca Coêlho (2016), “o Brasil inundou a Constituição com princípios e regras atinentes ao Direito Tributário. Notadamente, somos o País cuja constituição é a mais extensa e minuciosa em tema de tributação”. Essa afirmação nos direciona a duas importantes conclusões: Os fundamentos do Direito Tributário brasileiro estão enraizados na Constituição, de onde se projetam sobre as ordens jurídicas parciais da União, dos estados e dos municípios; O Direito Tributário posto na Constituição deve, antes de tudo, merecer as primícias dos juristas e dos operadores do Direito, porquanto é o texto fundante da ordem jurídico-tributária. 11 Em conformidade com a estrutura federativa do Brasil, os estados são dotados de Constituições, sendo as leis estaduais e municipais submissas às Constituições desses entes federativos. Na esfera municipal, não existe uma Constituição, mas uma Lei Orgânica que cumpre esse papel. Podemos observar essa estrutura na figura a seguir. Figura 2 – Estrutura legislativa no Brasil A Constituição Federal tem caráter soberano e é a responsável por estabelecer as diretrizes para a elaboração e a interpretação das demais leis. A Constituição Estadual regula uma determinada unidade federativa e organiza o estado com liberdade e autonomia, porém com simetria constitucional. A Lei Orgânica Municipal funciona como uma “Constituição” com dupla vinculação, submetendo-se à Constituição Federal e às Constituições Estaduais. As leis tributárias têm origem, majoritariamente, em leis federais. A Lei Complementar n° 116, de 31 de julho de 2003, e as suas alterações, por exemplo, dispõem sobre o Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN) e servem de fonte para todos os Códigos Tributários Municipais. Podemos definir competência tributária como a capacidade conferida pela Constituição Federal aos entes federativos (União, estados, Distrito Federal e municípios) para que, dentro dos seus territórios e por meio de lei, instituam determinados tributos. A Constituição Federal não institui, portanto, qualquer tributo, mas autoriza que os entes federativos o façam, com base na competência a eles outorgada. Constituição Federal Constituição Estadual Lei Orgânica Municipal 12 Neste ponto, entendemos ser necessário realizar uma síntese da estruturação do ordenamento jurídico constitucional para o Sistema Tributário Nacional. Nos termos dos incisos I, II e II do art. 145 da CF/88, a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios poderão instituir os seguintes tributos: impostos; taxas, em razão do exercício do poder de polícia ou pela utilização, efetiva ou potencial, de serviços públicos específicos e divisíveis, prestados ao contribuinte ou postos à sua disposição; contribuições de melhoria, decorrentes de obras públicas. Para assegurar aos contribuintes garantias necessárias, a CF/88, nos incisos I e II do seu art. 150, veda à União, aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios: exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça; instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente, proibida qualquer distinção em razão de ocupação profissional ou função por eles exercida, independentemente da denominação jurídica dos rendimentos, títulos ou direitos; Conforme os incisos I e II do art. 151 da CF/88, é vedada à União: instituir tributo que não seja uniforme em todo o território nacional ou que implique distinção ou preferência em relação a estado, ao Distrito Federal ou a município, em detrimento de outro, admitida a concessão de incentivos fiscais destinados a promover o equilíbrio do desenvolvimento socioeconômico entre as diferentes regiões do País; instituir isenções de tributos da competência dos estados, do Distrito Federal ou dos municípios. Quanto aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios, conforme o art. 152, é vedado estabelecer diferença tributária entre bens e serviços, de qualquer natureza, em razão da sua procedência ou do seu destino. A partir desses destaques da legislação, notamos uma preocupação legítima dos constituintes com os limites e com a isonomia dos atores que operam o Sistema Tributário Nacional, cuja estrutura nos remete à ideia de ordenação bem como de uma classificação lógica e correlacionada entre unidades de um todo. Essas unidades – como já vimos, classificadas como entes federativos – recebem da CF a atribuição de regular e operar um complexo sistema de tributação que, em síntese, deve arrecadar tributos com base em lei, observando a capacidade contributiva do agente passivo e em condições ordinárias, no uso das suas funções fiscal, extrafiscal ou parafiscal, para, com finalidade social e econômica, promover a distribuição de renda e contribuir para o crescimento e o equilíbrio do País, dos estados e dos municípios. Os conceitos vistos até este ponto são fundamentais para a compreensão do funcionamento do sistema tributário. 13 No quadro a seguir, demonstramos a distribuição dos tributos que serão objeto de estudo nesta apostila, de acordo com a sua espécie, a sua competência tributária (atribuída pela Constituição Federal), a sua base legal e a sua função principal. Quadro 1 – Distribuição dos tributos nacionais tributo competência base legal função principal ICMS estados 155, II, CF fiscal e extrafiscal ISS municípios 156, III, CF fiscal IPI União 153, IV, CF; 46, CTN fiscal e extrafiscal PIS União 195, I, b, e 239 parafiscal Cofins União 195, I, b, e 239 parafiscal IRPJ União 153, III; 43, CTN fiscal e extrafiscal CSLL União 195, I, b e c parafiscal Princípios do Sistema Tributário Nacional Ferramental de trabalho essencial para a aplicação dos tributos na gestão, os princípios e as normas que instruem a sistemática tributária serão os temas abordados neste tópico. A função essencial dos princípios tributários constitucionais é limitar o poder de tributar, o que corrobora a sua importância na proteção dos direitos dos contribuintes. Princípio nos remete à essência do que o termo representa. O início de tudo. Podemos ainda referenciar o termo como a base de algo, que, neste caso, é a tributação. Como observa, Machado Segundo (2019), “todo Ordenamento Jurídico é composto de um ou alguns princípios fundamentais, que se desdobram em outros princípios decorrentes e, posteriormente, em regras”. Nesse sentido, Castro et al. (2010, p. 31) argumentam o seguinte: O Brasil é um Estado democrático de direito, expressão que revela, a um só tempo, o sistema político ao qual o país se vincula, que é a democracia, como também os ideais que direcionam a atuação do Estado, que se 14 resume no respeito aos direitos de cidadania, ligados à ordem constitucional, na qual os direitos fundamentais do cidadão convertem-se em instrumentos efetivos ao pleno desenvolvimento da pessoa. Como pudemos observar, é questão fundamental no estudo da gestão tributária o conhecimento dos princípios tributários, especialmente porque eles estão ligados, de modo implícito, à Constituição, que, como vimos, tem caráter soberano e é a responsável por estabelecer as diretrizes para a elaboração e a interpretação das demais leis. Os princípios tributários são os fundamentos normativos que direcionam os aplicadores do Direito Tributário. Dessa forma, estabelecem os limites ao poder de tributar do Estado, sendo necessários para oferecer garantias vitais ao contribuinte, que é, diariamente, desafiado pela complexidade e pelos altos custos demandados pelo Sistema Tributário Nacional. Um estudo do Banco Mundial divulgado no relatório Doing Business 2021 estima que, por ano, 62,5 dias (ou 1.501 horas) são necessários para que empresários paguem impostos no Brasil. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o tempo despendido pelos países-membros é, em média, de 158,8 horas, 10,5% do que é gasto no Brasil. Esse cenário coloca o Brasil como um país com pouca atratividade para investimentos, especialmente de empresas estrangeiras, que atribuem ao nosso Sistema Tributário Nacional a interposição de um desafio muitas vezes intransponível, por ser pouco transparente, injusto e inviável economicamente. No quadro a seguir, apresentamos os princípios tributários de maior relevância e que recebem destaque dos principais estudiosos da matéria. Em sequência, apresentamos uma síntese com a descrição e a aplicabilidade desses princípios. 15 Quadro 2 – Princípios tributários princípio base legal princípio da capacidade contributiva art. 145, § 1°, da CF/88 princípio da legalidade art. 150, Inciso I, da CF/88 princípio da isonomia art. 150, inciso II, da CF/88 princípio da irretroatividade art. 150, inciso III, a, da CF/88 princípio da anterioridade art. 150, inciso III, b e c, da CF/88 princípio do não confisco art. 150, inciso IV, da CF/88 princípio da transparência dos impostos art. 150, § 5°, da CF/88 princípio da não cumulatividade do IPI e ICMS art. 153, § 3°, inciso II, da CF/88 – ICMS art. 155, § 2°, inciso I, da CF/88 – IPI Princípio da capacidade contributiva O princípio da capacidade contributiva estabelece que, sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte. Isso quer dizer que o legislador deverá considerar, sempre que possível, a situação singular de cada contribuinte, objetivando uma tributação justa em relação à capacidade econômica deste. Coêlho (2016) afirma que “o princípio da capacidade econômica, do ponto de vista objetivo, obriga o legislador ordinário a autorizar todas as despesas operacionais e financeiras necessárias à produção da renda e à conservação do patrimônio afetado pela exploração”. Dessa afirmação extraímos que a garantia guardada pelo princípio é a de viabilizar a continuidade da empresa contribuinte. Princípio da legalidade O princípio da legalidade veda que a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios instituam ou aumentem impostos sem que a lei o estabeleça. Dessa forma, limita a atuação do poder de tributar dos entes federativos em favor da segurança jurídica dos contribuintes. Não é, de fato, razoável considerar que a Administração Pública tenha liberdade para tributar sem qualquer restrição e a qualquer tempo. Como observa, assertivamente, Machado Segundo (2019): “Por legalidade entende-se a garantia concedida aos cidadãos de que estes somente por lei poderão ser obrigados a fazer ou a deixar de fazer alguma coisa [...] E que toda a atividade processual tributária, desenvolve-se nos termos previstos previamente em lei”. 16 Princípio da isonomia O princípio da isonomia dispõe que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza. Trata-se de um princípio que, sob o aspecto formal, impõe que as prescrições legais sejam aplicáveis a todos, sem qualquer distinção. No entanto, uma questão que deve ser necessariamente colocada é: que critério deve amparar o legislador na aplicação desse princípio? Em observância a essa pauta, Schoueri (2019, p. 353) preconiza o significado da isonomia tributária da seguinte forma: [...] para que se possa concretizar o Princípio da Isonomia, é preciso que se tenha um critério de comparação constitucionalmente justificado. Ou seja: para que se atenda ao Princípio da Isonomia, percorrem-se três etapas: primeiro, encontra-se um critério, em seguida, busca-se fundamentação constitucional para o critério encontrado. Finalmente, comparam-se as situações a partir do critério eleito. Princípio da irretroatividade O princípio da irretroatividadepressupõe que não haverá cobrança de tributos sobre fatos geradores que ocorram antes da vigência de nova lei que tenha regulado a instituição ou o aumento do tributo. É bastante significativo o fato de a Constituição prever, de modo expresso, esse princípio como um dos limitadores da tributação. Como afirma Amaro (2018): “[...] o que a Constituição pretende, obviamente, é vedar a aplicação da lei nova, que criou ou aumentou tributo, a fato pretérito, que, portanto, continua sendo não gerador de tributo, ou permanece como gerador de menor tributo, segundo a lei da época de sua ocorrência”. Princípio da anterioridade O princípio da anterioridade constitui um importante pilar da segurança jurídica, impedindo que nova lei venha instituir imposto de forma imediata. Subdivide-se em dois tipos, de acordo com art. 150, da CF/88: conforme alínea “b”, veda a aplicação do tributo no mesmo exercício financeiro em que foi publicada lei que o instituiu ou aumentou; conforme alínea “c”, veda a aplicação do tributo antes de decorridos 90 dias da data em que foi publicada lei que o instituiu ou aumentou. Como observa Sabbag (2018), “a anterioridade objetiva ratificar o princípio da segurança jurídica, evitando-se que o contribuinte se veja diante de inesperada cobrança tributária”. 17 Princípio do não confisco O princípio do não confisco prevê, expressamente, que os tributos não sejam utilizados com efeito confiscatório, expõe a necessidade de um limite máximo para a pretensão tributária e estende- se a todos os tributos. É importante destacar que tal princípio veda, inclusive, que o Fisco tribute atividade ilícita, sob a pretensão de impedi-la. Dessa forma, o princípio veda o exagero, limitando o tributo à sua estrita finalidade. Como versa, de forma contundente, Schoueri (2019, p. 363): O dispositivo apresenta um conteúdo imediato: não pode o tributo ser proibitivo. Se uma atividade é ilícita, o legislador não pode valer-se de subterfúgio para impedi-la. A uma atividade ilícita, aplica-se uma sanção. Esta sim, constitui seu consequente. Por outro lado, se a atividade é ilícita, o tributo não pode ser exagerado, e impedir seu exercício. Princípio da transparência dos impostos O princípio da transparência dos impostos estabelece que a lei estabelecerá medidas para que os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e serviços. A transparência fiscal é, portanto, uma obrigação imposta pela lei. É importante destacar que esse dispositivo obriga o contribuinte a prestar esclarecimentos ao emitir uma nota fiscal bem como a declarar os encargos e tributos incidentes na operação. Princípio da não cumulatividade do IPI e do ICMS A Constituição Federal de 1988, ao tratar do IPI e do ICMS, determina que ambos os impostos sejam não cumulativos. De acordo com Schoueri (2019, p. 415), “a não cumulatividade é, ainda, opção aberta pelo constituinte derivado para as contribuições sociais. Cabe, assim, conhecer a não cumulatividade, enquanto técnica inserida no âmbito do estudo da tributação sobre o consumo”. Todos os princípios e conceitos apresentados pela literatura jurídica brasileira são sujeitos à interpretação pessoal. Além disso, tais princípios carecem, por vezes, de viabilidade prática, uma vez que a matéria tributária não é uma ciência exata e, portanto, está sujeita à subjetividade. 18 Limitações da gestão e do planejamento tributário Após analisarmos os principais conceitos e princípios tributários, vamos refletir sobre as limitações da gestão e do planejamento tributário. Para tanto, partiremos da meta básica do planejamento tributário, que é proporcionar, nos limites da lei, uma forma menos onerosa de tributação. No entanto, como já evidente, o nosso arcabouço legislativo tributário é complexo, o que, por vezes, promove intermináveis disputas legais acerca de matérias tributárias. Uma considerável preocupação do gestor tributário é contribuir com um embasamento legal sólido, capaz de fomentar decisões que promovam garantias de segurança jurídica ao planejamento tributário. O ofício da gestão tributária compreende a correta organização das atividades empresariais por meio da elaboração de contratos, fundamentos jurídicos, estruturas societárias e sistemas de informações contábeis e fiscais integradas, capazes de afastar, reduzir ou postergar o fato gerador do tributo. Em síntese, a gestão tributária deve promover uma lícita desoneração tributária. Nesse cenário, além do Direito Tributário, a Contabilidade e a Controladoria exercem funções fundamentais para que o planejamento tributário seja bem-sucedido, haja vista os procedimentos a serem observados no tratamento contábil das receitas. As receitas, especificamente, têm papel essencial na tributação, independentemente do regime escolhido. Por esse motivo, a sua correta escrituração é essencial para a organização contábil, com potencial de promover economia tributária, observada a segurança jurídica. O Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), por meio do Pronunciamento Técnico CPC 47, correlacionado com o International Financial Reporting Standards – IFRS 15 (Padrão Internacional de Relato Financeiro), fornece orientações a respeito da contabilização da receita de contratos com o cliente. Os itens de 9 a 45 do CPC 47 estabelecem as cinco etapas para o reconhecimento de receitas. Vejamos: 1. Identificação do contrato. 2. Identificação das obrigações de desempenho. 3. Determinação do preço da transação. 4. Alocação do preço da transação às obrigações de desempenho. 5. Reconhecimento da receita quando, ou à medida que, a entidade satisfizer a obrigação de desempenho. Nesse sentido, uma importante contribuição foi trazida pela Lei n° 12.973/2014, que altera a legislação tributária federal, inclusive os tributos IRPJ, CSLL, PIS e Cofins. O art. 58 da referida lei versa: “A modificação ou a adoção de métodos e critérios contábeis, por meio de atos administrativos emitidos com base em competência atribuída em lei comercial, que sejam posteriores à publicação desta Lei não terá implicação na apuração dos tributos federais até que lei tributária regule a matéria”. 19 Dessa forma, coube à Receita Federal do Brasil (RFB) regular a matéria trazida pelo CPC 47, uma vez que esse pronunciamento promoveu mudanças nos métodos e critérios contábeis e foi publicado após a referida lei. A RFB regulou a matéria por meio da Instrução Normativa n° 1.881/2019, que trouxe importantes alterações para a legislação do IRPJ, da CSLL, do PIS e da Cofins, constantes da Instrução Normativa n° 1.700/2017. Sobre as mudanças promovidas pelo CPC 47 em relação ao reconhecimento de receitas, a IN n° 1.881/2019 desconsiderou o efeito prático dessa norma para fins tributários. Por meio do seu art. 1°, a IN n° 1.881/2019 inclui o § 4° ao art. 26 da IN nº 1.700/2017, que passou a constar da seguinte forma: “Salvo disposição em contrário, a receita bruta será reconhecida no período de apuração em que for configurada a aquisição de sua disponibilidade econômica ou jurídica, independentemente da avaliação quanto à probabilidade de não recebimento do valor pactuado ou contratado”. Sendo assim, a RFB determina que, independentemente da avaliação quanto à possibilidade de receber o valor pactuado no contrato ou da entrega da obrigação de desempenho, a empresa deve reconhecer, no período de apuração em que for configurada a aquisição da sua disponibilidade econômica ou jurídica, a receita para fins tributários, tornando-se, nesse ato, devedora do tributo. Nota- se que uma rubrica apenas, “Receitas de Contrato com Clientes”, precisa ser analisada e configurada à luz dos princípios constitucionais, das leis e Decretos, das Normas Contábeis e das Instruções Normativas, para uma correta interpretação e alocação do fato gerador tributário, que neste caso, ainda é diferente do “fato gerador”contábil. Evasão fiscal, elisão fiscal e elusão fiscal A multiplicidade de entendimentos e de aplicações provocadas pelo emaranhado de leis e normas contábeis e tributárias torna o planejamento tributário um desafio constante. As mudanças na legislação são incessantes, e os gestores precisam conhecê-las e interpretá-las de maneira correta para garantir uma precisa escrituração contábil e fiscal e, por consequência, uma correta apuração tributária. Devem ainda, quando possível, contribuir para a geração de uma carga tributária menos onerosa, capaz de promover o fluxo de caixa necessário à continuidade da empresa. Tantos dispositivos legais também abrem terreno para uma outra face do planejamento tributário. Acerca disso, Abreu (2019, p. 397) traz uma importante reflexão para o debate quando observa que: [...] a validade dos planejamentos tributários, tanto no Brasil como no mundo, passou a ser de extrema importância, não apenas pela crescente necessidade de incrementação da arrecadação tributária, mas também pelo aumento da criatividade dos contribuintes na organização de seus negócios, trazendo ao debate tributário, conflitos entre os princípios da liberdade, legalidade, capacidade contributiva e solidariedade. 20 Nesse contexto, é importante conhecermos os conceitos de elisão fiscal, evasão ou sonegação fiscal e elusão fiscal. Vejamos: a) Evasão ou sonegação fiscal: A evasão, conhecida como sonegação fiscal, é caracterizada pelo uso de meios ilícitos para evitar o pagamento de tributos. Normalmente, dá-se por meio da omissão de informações, de falsas declarações e da elaboração de documentos que contenham informações inverídicas. A prática de evasão fiscal é crime, com previsão de pena de reclusão de dois a cinco anos e multa (art. 1° da Lei n° 8.137, de 27 de dezembro de 1990). b) Elisão fiscal: A elisão fiscal é caracterizada pelo uso de meios lícitos – a partir do prévio planejamento tributário e do respeito ao ordenamento jurídico – para reduzir a carga tributária de um orçamento. De forma específica, a elisão fiscal busca evitar a ocorrência do fato gerador da obrigação tributária. A elisão fiscal pode ocorrer também em decorrência das lacunas na legislação, por meio do uso de instrumentos não proibidos expressamente em lei. c) Elusão fiscal: A elusão fiscal é caracterizada pelo abuso da liberdade quando da formulação do planejamento tributário. Trata-se de uma zona cinzenta entre a elisão fiscal e a sonegação fiscal. Nessa dimensão, não apenas a legalidade do planejamento tributário é considerada, mas também a sua legitimidade. Segundo Torres (2012), a “elusão fiscal seria a economia do tributo obtida pela prática de um ato revestido de forma jurídica que não se inclui na descrição abstrata da lei ou no seu espirito”. Ainda que seja possível estabelecer um conceito claro acerca do que seria um planejamento fiscal lícito ou abusivo, o conceito jurídico de abuso é, de certa maneira, vago e, portanto, sujeito à interpretação. Sabe-se que é direito do contribuinte estabelecer uma organização contábil ou societária no intuito de perceber uma economia de tributo, desde que em estrito atendimento à legislação vigente. No entanto, conforme observamos, as limitações impostas pela complexidade e pela subjetividade do ordenamento jurídico colocam o planejamento tributário em uma zona de risco, levando à possibilidade de a sua legitimidade ser questionada e, consequentemente, o seu efeito ser contrário ao pretendido. De modo a tornar mais claros os conceitos, Torres (2012) nos apresenta a seguinte classificação: evasão ilícita – ocorre quando há sonegação e fraude após a ocorrência do fato gerador tributável; evasão ou elisão lícita – ocorre quando o planejamento fiscal afasta o fato gerador, não produzindo, dessa forma, a obrigação tributária; elisão ilícita – ocorre quando um planejamento fiscal é considerado abusivo. 21 Conclusão Neste módulo, analisamos, de forma geral, o funcionamento do Sistema Tributário Nacional bem como os seus principais conceitos e princípios. Além disso, estabelecemos alguns limites legais a serem observados na elaboração de um planejamento tributário cujo objetivo seja o de promover os benefícios da economia tributária, sempre em observância aos preceitos legais. É importante destacarmos, novamente, que o nosso objetivo não é esgotar o assunto, mas sim apresentar os fundamentos necessários ao desenvolvimento de um planejamento tributário sólido, embasado em princípios e responsável por promover economia tributária com segurança jurídica. Neste módulo, abordaremos o fato gerador da obrigação tributária e as hipóteses de suspensão, extinção e exclusão do crédito tributário. Além disso, discutiremos os conceitos de dívida ativa e responsabilidade tributária. De acordo com o critério adotado pelo CTN, a obrigação tributária nasce de um fato gerador, que constitui um crédito tributário a favor da autoridade tributária. A partir desse conceito, desdobra-se que a obrigação tributária, uma vez exigível, necessita da identificação do sujeito passivo (contribuinte) e do montante devido da obrigação tributária. Os arts. 151 a 182 do CTN versam sobre a suspensão, a extinção e a exclusão do crédito tributário. Devido ao significativo impacto desses elementos no resultado das empresas, diferenciar esses conceitos e aplicá-los corretamente é fundamental ao exercício da gestão. Sendo assim, neste módulo, forneceremos a você a base conceitual e prática das hipóteses de incidência tributária e analisaremos os seus desdobramentos. Fato gerador e obrigação tributária Quando tratamos de obrigação tributária, devemos estabelecer, antes de tudo, que ela não deriva exclusivamente da lei. Para que exista uma obrigação tributária, deve haver um fato gerador do contribuinte que seja previsto na norma como suficiente e necessário para gerar o lançamento e o pagamento do tributo. Observe o esquema a seguir. MÓDULO II – OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA E CRÉDITO TRIBUTÁRIO 24 Figura 3 – Fato gerador e obrigação tributária fato gerador lançamento obrigação tributária crédito tributário Novamente, a Constituição é referência fundamental na matéria de obrigação tributária. Origina-se do seu ordenamento a rigidez necessária para que as suas normas sejam alteradas apenas por instrumentos próprios, por meio de emenda constitucional, e com o atendimento de pressupostos específicos. Tal restrição limita a capacidade de o poder político agir por vontade própria, em detrimento dos interesses econômicos e sociais. Outro instrumento fundamental quando se trata de obrigação tributária é o CTN, que tem o status de lei complementar, pois complementa a norma constitucional. A Constituição Federal não é norma executável, mas sim norma de princípios. Dessa forma, o CTN, em atendimento ao art. 146 da CF/88, pretende “cumprir com o objetivo de prevenir desequilíbrios da concorrência, sem prejuízo da competência de a União, por lei, estabelecer normas de igual objetivo”. Castro et al. (2010, p. 40), argumenta que: A lei é a fonte com primazia do direito. Contudo, não é qualquer lei que basta para satisfazer o princípio da legalidade no campo fiscal. É necessário que a lei descreva o fato gerador da obrigação principal, determine a alíquota e a base de cálculo, os sujeitos ativo e passivo do tributo. As disposições previstas no art. 97 do CTN enumeram as diversas hipóteses a serem reguladas em matéria de tributo, de forma exclusiva, pelas leis ordinárias. São elas: instituir ou extinguir; majorar ou reduzir; definir o fato gerador da obrigação tributária principal; fixar a alíquota e a sua base de cálculo e a cominação de penalidades para as ações ou omissões contrárias aos seusdispositivos. A lei ordinária é, portanto, o principal instrumento regulatório específico da matéria tributária. Além dela, no arcabouço legislativo tributário, identificamos: as medidas provisórias, que têm vocação de lei durante o período de abrangência; os tratados e as convenções internacionais, que têm status de lei quando ingressam no ordenamento jurídico brasileiro. 25 Em patamar inferior ao das leis temos as normas complementares, de onde deriva uma vasta e complexa gama de regramentos inseridos na legislação tributária. As normas complementares têm o objetivo de regular e especificar o alcance da norma legal bem como de promover o controle e a fiscalização pelos órgãos competentes. São exemplos de normas complementares: decretos; convênios; instruções normativas; portarias; atos declaratórios. A complexidade e a diversidade de normas e regramentos são constantemente referenciadas como as principais causas do embaraço do nosso sistema tributário. O excesso de burocracia e de dispositivos legais – e, por vezes, a redundância de normas – fomentam, cada vez mais, o debate sobre a necessidade de uma reforma que vise à simplificação do processo tributário. Em contrapartida, são esses os instrumentos responsáveis por direcionar, de maneira detalhada, os profissionais que atuam como operadores tributários. Obrigação principal e obrigação acessória Na terminologia do CTN, a obrigação tributária se divide em obrigação principal e obrigação acessória. Nesse sentido, o art. 113 do CTN dispõe o seguinte: Art. 113. A obrigação tributária é principal e acessória. § 1º A obrigação principal surge com a ocorrência do fato gerador, tem por objeto o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária e extingue- se juntamente com o crédito dela decorrente. § 2º A obrigação acessória decorre da legislação tributária e tem por objeto as prestações, positivas ou negativas, nela previstas no interesse da arrecadação ou da fiscalização dos tributos. § 3º A obrigação acessória, pelo simples fato da sua inobservância, converte-se em obrigação principal relativamente à penalidade pecuniária. No entanto, Coêlho (2016, p. 297), ao discutir a matéria, afirma: O código adota a terminologia clássica e fala em obrigação, adjetivando- a de tributária, para dividi-la em principal e acessória. Contudo, rigorosamente, inexistem obrigações acessórias, senão que prescrições de 26 fazer e não fazer diretamente estatuídas em lei, como apresentar declaração de rendimento, emitir notas fiscais, não manter estoques desacompanhados de documento fiscal, tudo no interesse da Fazenda Pública. Discorrida tão necessária elucidação, agora descreveremos as obrigações tributárias, de acordo com o CTN, e apresentaremos alguns exemplos. Vejamos: a) Obrigação principal – tributo e multa: A obrigação principal ocorre quando, por força de lei prévia, decorrido um fato gerador necessário e suficiente para a ocorrência, um crédito tributário é considerado devido. Em decorrência, o contribuinte tem por dever o pagamento de tributo ou penalidade pecuniária (multa). Em outras palavras, a obrigação principal surge com o fato gerador e extingue-se imediatamente após a alocação do crédito tributário dela decorrente. Sendo assim, podemos notar que uma obrigação principal só será extinta se houver: crédito em dinheiro que quite exclusivamente a obrigação; compensação do crédito, por meio de instrumento capaz e devidamente homologado pela autoridade tributária que seja responsável por fiscalizar a obrigação. b) Obrigação acessória: A obrigação acessória ocorre quando, por força de lei prévia, no interesse de arrecadação ou fiscalização, o contribuinte tem a obrigação de fazer ou de não fazer alguma coisa, ou ainda de permitir que o Fisco exerça o seu papel fiscalizador. Nesse caso, são utilizados os instrumentos competentes para que o Fisco verifique a existência do fato gerador, a sua correta mensuração e a devida alocação de suficiente crédito tributário. No quadro a seguir, são apresentados exemplos das duas formas de obrigação: principal e acessória. 27 Quadro 3 – Exemplos de obrigação principal e obrigação acessória obrigação principal obrigação acessória Apurar e pagar IRPJ e CSLL após a ocorrência do fato gerador: lucro contábil ajustado pelas adições e exclusões no Lalur. Elaborar e entregar ao Fisco declaração de imposto de renda de pessoa física. Apurar e pagar ICMS após a ocorrência do fato gerador: circulação de mercadorias e serviços. Elaborar e entregar ao Fisco a Escrituração Contábil Digital (ECD). Apurar e pagar PIS e Cofins após a ocorrência do fato gerador: venda de bens ou serviços. Elaborar e entregar ao Fisco a Escrituração Fiscal Digital (EFD – Contribuições). Apurar e pagar IPI após a ocorrência do fato gerador: venda de produtos industrializados. Emitir nota fiscal em cada operação de venda ou prestação de serviços. Apurar e pagar ISS após a ocorrência do fato gerador: prestação de serviços. Fornecer informações solicitadas pela autoridade fiscal. ECD é uma obrigação acessória que informa ao Fisco os seguintes livros: razão e auxiliares; diário e auxiliares; balancetes; balanço patrimonial; demonstração de resultado do exercício; outras demonstrações obrigatórias ou facultativas. EFD – Contribuições é uma obrigação acessória que informa ao Fisco a apuração do PIS, da Cofins e de outras contribuições sociais previstas na legislação tributária. Opções de suspensão, extinção e exclusão do crédito tributário Agora, vamos analisar as formas de suspensão, extinção e exclusão do crédito tributário, todas previstas no CTN. 28 Suspensão do crédito tributário De acordo com o art. 151 do CTN, suspendem a exigibilidade do crédito tributário: I. a moratória; II. o depósito do seu montante integral; III. as reclamações e os recursos, nos termos das leis reguladoras do processo tributário administrativo; IV. a concessão de medida liminar em mandado de segurança; V. a conceção de medida liminar ou de tutela antecipada, em outras espécies de ação judicial; VI. o parcelamento. Vale observar que a suspensão de que trata o art. 151 do CTN trata da suspensão da exigibilidade do crédito tributário, e não da constituição do crédito tributário. Isso quer dizer que a obrigação tributária continua a existir, mas, por força de contestação em ato administrativo ou judicial, ou ainda de negociação por parcelamento concedido pela autoridade tributária, fica essa autoridade impedida de exigir o cumprimento da obrigação tributária. No quadro a seguir, apresentamos cada uma das hipóteses de suspensão do crédito tributário e a sua definição. Quadro 4 – Hipóteses de suspensão do crédito tributário hipótese de suspensão do crédito definição moratória Prorrogação ou concessão de novo prazo para o cumprimento da obrigação tributária. depósito do seu montante integral Depósito exigido no curso de processo administrativo ou judicial do montante da obrigação tributária. reclamações e recursos, nos termos das leis reguladoras do processo tributário administrativo Impugnação em processo administrativo que questione o todo ou parte do lançamento tributário. concessão de medida liminar em mandado de segurança Ordem judicial determinando a suspensão da exigibilidade do crédito em caráter liminar, por pedido de mandado de segurança, quando o juiz entende ser possível, à primeira vista, que o contribuinte tenha razão no pedido de impugnação do crédito. Ou ainda, a fim de evitar danos irreparáveis caso o contribuinte tenha de esperar até o fim do processo. 29 hipótese de suspensão do crédito definição concessão de medida liminar ou de tutela antecipada em outras espécies de ação judicial Ordem judicial em ação cautelar, determinando a suspensãoda exigibilidade do crédito, quando há uma ação principal que discute o mérito da questão tributária. A ação cautelar assegura a suspensão provisoriamente, até que se decida a ação principal. parcelamento O parcelamento nada mais é que uma moratória, com a peculiaridade de que são previstos pagamentos parcelados do débito. Extinção do crédito tributário De acordo com o art. 156 do CTN, extinguem a exigibilidade do crédito tributário: I. o pagamento; II. a compensação; III. a transação; IV. a remissão; V. a prescrição e a decadência; VI. a conversão de depósito em renda; VII. o pagamento antecipado e a homologação do lançamento nos termos do disposto no artigo 150 e seus §§ 1º e 4º; VIII. a consignação em pagamento, nos termos do disposto no § 2º do artigo 164; IX. a decisão administrativa irreformável, assim entendida a definitiva na órbita administrativa, que não mais possa ser objeto de ação anulatória; X. a decisão judicial passada em julgado. XI. a dação em pagamento em bens imóveis, na forma e condições estabelecidas em lei. Neste ponto, é importante discutirmos se as modalidades de extinção do crédito tributário previstas no art. 156 do CTN também extinguem a obrigação tributária. O entendimento jurídico amplo versa que, sendo a obrigação e o correspondente crédito tributário originários de um mesmo fenômeno, que é o fato gerador, a “extinção do crédito tributário” representa a extinção da própria obrigação tributária. 30 A seguir, apresentamos uma síntese das principais hipóteses de extinção do crédito tributário, relacionando-as com os tributos inerentes à dinâmica empresarial. Vejamos: a) Pagamento: Previsto nos art. de 157 a 169 do CTN, o pagamento é a forma mais imediata de extinguir uma obrigação tributária. b) Compensação: Nos seus art. 170 e 170-A, o CTN prevê, nas condições e sob as garantias que estipular, a compensação de créditos tributários com créditos líquidos e certos, vencidos ou vincendos, do sujeito passivo contra a Fazenda Pública. c) Prescrição e decadência: Uma vez ocorrido o fato gerador, tem a autoridade tributária um prazo estabelecido para efetuar o lançamento, que constitui o crédito tributário. Esse é o chamado prazo decadencial e, portanto, não pode ser interrompido. Conforme o art. 173 do CTN, esse prazo se extingue após 5 (cinco) anos contados: I. do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; II. da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. Consideremos, por exemplo, que o contribuinte tenha deixado de recolher determinado valor de tributo por rendimentos auferidos em 2010. Nesse caso, o contribuinte ficaria sujeito a um lançamento de ofício promovido pela autoridade tributária a partir de 2011. O prazo de cinco anos começa a ser contado, portanto, em 1º de janeiro de 2012 e será encerrado em 31 de dezembro de 2016. Conforme o art. 174 do CTN, uma vez constituído o crédito pelo lançamento, surge o prazo prescricional de cinco anos. Esse prazo está sujeito à interrupção em alguns casos. Vejamos: Art. 174. A ação para a cobrança do crédito tributário prescreve em cinco anos, contados da data da sua constituição definitiva. Parágrafo único. A prescrição se interrompe: I – pelo despacho do juiz que ordenar a citação em execução fiscal; II – pelo protesto judicial; II – por qualquer ato judicial que constitua em mora o devedor; IV – por qualquer ato inequívoco ainda que extrajudicial, que importe em reconhecimento do débito pelo devedor. 31 d) Outras hipóteses: A decisão administrativa irreformável e a decisão judicial passada em julgado são resultantes da revisão do lançamento tributário por órgão administrativo ou por decisão judicial, no curso do processo administrativo ou da ação judicial que julgou improcedente o lançamento do crédito e, portanto, declarou-o indevido. Exclusão do crédito tributário O CTN prevê, no seu art. 175, a isenção e a anistia como forma de exclusão do crédito tributário. Vejamos cada uma dessas possibilidades com mais detalhes: a) Isenção: Prevista nos art. de 176 a 179 do CTN, a isenção surge como uma espécie de dispensa de um tributo devido. Nesse caso, do fato gerador surgiria o lançamento do crédito tributário, mas a norma dispensa o pagamento do tributo. b) Anistia: Prevista nos art. 180, 181 e 182 do CTN, a anistia se refere à exclusão do crédito tributário relacionado a infrações cometidas anteriormente à vigência da lei que a concede. Um dos casos mais comuns de anistia é a concessão de descontos sobre multas e juros por atraso no pagamento de determinado tributo. Processo de cobrança administrativa do tributo Neste tópico, abordaremos o processo administrativo de lançamento e cobrança do crédito tributário, previsto nos art. de 142 a 150 do CTN. Como vimos, o lançamento tributário surge de um fato gerador – aquele que gera a obrigação tributária. Sendo assim, o procedimento administrativo de lançamento do tributo possui algumas espécies, cujas especificidades serão analisadas a seguir. Lançamento por declaração Previsto no art. 147 do CTN, o lançamento por declaração ocorre quando as informações indispensáveis sobre o fato gerador do tributo são prestadas à autoridade administrativa pelo sujeito passivo ou por terceiro. Nesse caso, a autoridade tributária pode, ao examinar as informações prestadas, corrigir, de ofício, os erros por ela apurados bem como arbitrar o valor atribuído pelo declarante. 32 Como bem observa Machado Segundo (2019), a modalidade de lançamento por declaração é, atualmente, figura bastante rara no Direito Tributário brasileiro, estando presente em apenas alguns tributos, como é o caso do Imposto sobre Transmissão de Bens Móveis (ITBI) e do Imposto sobre Transmissões Causa Mortis e Doações (ITCD), que não serão objeto de estudo nesta apostila. Lançamento por homologação Intitula-se lançamento por homologação aquele em que o sujeito passivo realiza toda a atividade de apuração dos dados necessários à constituição do crédito tributário, tendo o dever de antecipar o pagamento do valor respectivo antes de qualquer manifestação do Fisco sobre essa apuração. Concordando com a atividade desenvolvida pelo sujeito passivo, o Fisco a homologará, se exata, ou procederá ao lançamento de ofício em caso contrário. Essa modalidade de lançamento é prevista para os tributos que serão estudados nesta apostila: ICMS; ISS, IPI, PIS, Cofins, IRPJ e CSLL. Nessa modalidade, o contribuinte com assessoria contábil profissional auxilia, ostensivamente, o Fisco na atividade de lançamento, recolhendo o tributo antes de qualquer providência da autoridade tributária. Nesse sentido, cabe ao Fisco apenas homologá-lo, atribuindo- lhe a condição de ato administrativo de lançamento. Embora o contribuinte realize todo o preparo técnico para o lançamento por homologação, este mesmo cabe apenas à autoridade tributária. Lançamento de ofício Conforme previsto no art. 149 do CTN, o lançamento de ofício é aquele efetuado pela autoridade tributária sem que se faça necessária qualquer iniciativa ou participação do sujeito passivo. Destacamos que, embora existam poucos tributos originalmente sujeitos a essa modalidade, como é o caso do IPTU, todos os tributos estão sujeitos ao lançamento por ofício. Para o lançamento de ofício, a autoridade tributária possui como procedimento a fiscalização. De acordo com o CTN, o procedimento de fiscalização deverá ser documentado por meio de termos específicos, dos quais o sujeito passivo sempre deverá ficar com cópia autenticada pela autoridade competente (art. 196). Além de tornar clara a natureza formal do procedimento, isso assegura o respeito aos direitos fundamentais do contribuinte e limita os poderes da autoridade fiscalizadora.Dessa forma, sempre que a lei determinar, quando o sujeito passivo deixar de prestar ou apresentar informações equivocadas, deverá a autoridade tributária, por meio de processo de fiscalização formalmente estabelecido, efetuar o lançamento de ofício do crédito tributário bem como o lançamento das penalidades previstas na legislação. 33 Dívida ativa e responsabilidade tributária Como observamos, existem determinados prazos para que a autoridade tributária exerça os direitos de cobrar (decadência) e de executar a cobrança (prescrição). Entre essas duas etapas (o lançamento e a execução da quantia lançada) existe um processo administrativo por meio do qual a autoridade tributária deve atestar a legalidade do lançamento do crédito tributário. Quando concluído um processo administrativo que ateste a legalidade do lançamento do crédito tributário, caso seja mantido esse crédito no todo ou em parte, ele é considerado definitivamente constituído. Caso não haja o pagamento devido após o lançamento do crédito tributário ora constituído, deve ser feita a chamada cobrança amigável. Permanecendo inerte o sujeito passivo quanto ao pagamento ou a contestação do lançamento, a quantia devida deve ser inscrita em dívida ativa e executada judicialmente. O processo de inscrição em dívida ativa deve ser constituído, sob pena de nulidade, em referência ao processo administrativo que originou tal inscrição. Ocorre então a formalização de uma Certidão de Dívida Ativa (CDA), em que constam o número do processo administrativo e os fatos que a geraram, consubstanciados em fundamento legal. O ato de inscrição em dívida ativa não ocorre automaticamente, sendo efetuado por procurador da autoridade tributária. O procurador não é instância julgadora, logo não pode fazer um julgamento de todo o mérito da exigência do crédito tributário. No entanto, como é também responsável pelo controle da legalidade do crédito constituído, pode corrigir erros relacionados ao ato da inscrição, objetivando evitar a nulidade do processo de execução. Uma vez que o órgão público responsável pelo tributo devido lançou o crédito tributário, identificou a inadimplência, efetuou o processo administrativo de controle da legalidade, promoveu a cobrança amigável e formalizou o processo de inscrição em dívida ativa, o débito estará sujeito à execução fiscal. A figura a seguir ilustra esse processo. Figura 4 – Do lançamento do crédito tributário à execução fiscal lançamento do inscrição em crédito tributário processo administrativo dívida ativa inadimplência cobrança amigável execução fiscal Cabe observarmos que, em relação aos tributos da União, administrados pela Receita Federal do Brasil, existe a inscrição no Cadastro Informativo de Créditos Não Quitados do Setor Público Federal (Cadin), disciplinado pela Lei nº 10.522/2002. Esse cadastro permite ao Fisco controlar os contribuintes considerados inadimplentes, de modo a viabilizar a aplicação de restrições relativas à concessão de financiamentos e incentivos, à contratação pelo Poder Público, etc. 34 Responsabilidade tributária A responsabilidade tributária define quem é o responsável legal pelo pagamento de cada tributo. Em geral, esse responsável é o sujeito passivo direto: aquele que possui ligação direta com o tributo. Há, contudo, a possibilidade de ser atribuída a um terceiro a responsabilidade pelo pagamento do tributo: o sujeito passivo indireto. Conforme o art. 128 do CTN, “a lei pode atribuir de modo expresso a responsabilidade pelo crédito tributário a terceira pessoa, vinculada ao fato gerador da respectiva obrigação, excluindo a responsabilidade do contribuinte ou atribuindo-a a este em caráter supletivo do cumprimento total ou parcial da referida obrigação”. Entre os tipos de responsáveis elencados no CTN, destacamos os seguintes: a) Responsabilidade dos sucessores: A lei determina que é responsável tributário o sucessor pelos tributos devidos pelo contribuinte até a data do respectivo ato que importe em sucessão. Conforme os arts. 131, 132 e 133 do CTN: os adquirentes de bens imóveis são responsáveis tributários pelos tributos devidos relativamente ao bem, salvo nos casos de arrematação em hasta pública; o adquirente ou remitente (entendido este como aquele que der quitação à dívida e recuperar o bem) são responsáveis tributários pelos tributos relativos ao bem; o sucessor a qualquer título (aquele que adquirir a propriedade) e o cônjuge meeiro que, por força do evento morte do antigo proprietário, passam a exercer propriedade são responsáveis pelos tributos relativos aos bens adquiridos até o limite dos respectivos bens; o espólio é responsável pelos tributos devidos pelo de cujus até a abertura da sucessão; a pessoa jurídica que resultar de fusão, transformação ou incorporação é responsável pelos tributos devidos até a data do respectivo ato pela pessoa jurídica fusionada, transformada ou incorporada; o sócio ou o seu espólio são responsáveis tributários quando, ocorrendo extinção da pessoa jurídica, continuar a atividade antes exercida; o adquirente de fundo de comércio ou estabelecimento que continuar a atividade exercida responde pelos tributos devidos relativos ao fundo ou estabelecimento adquirido: integralmente, se o alienante cessar a exploração de atividade econômica, e subsidiariamente, se o alienante prosseguir na exploração ou reiniciá-la dentro de seis meses da data da alienação. 35 b) Responsabilidade de terceiros: A responsabilidade tributária de terceiros, diz o CTN, decorre da impossibilidade de exigir o cumprimento da obrigação principal do contribuinte, respondendo, subsidiariamente, o responsável apenas nos casos em que participar do fato gerador ou quanto a ele tenha-se omitido indevidamente. São, nesse caso, responsáveis (art. 134 do CTN): os pais, pelos tributos devidos por seus filhos menores; os tutores e curadores, pelos tributos devidos por seus tutelados ou curatelados; os administradores de bens de terceiros, pelos tributos devidos por estes; o inventariante, pelos tributos devidos pelo espólio; o síndico e o comissário, pelos tributos devidos pela massa falida ou pelo concordatário; os tabeliães, escrivães e demais serventuários de ofício, pelos tributos devidos sobre os atos praticados por eles, ou perante eles, em razão do seu ofício; os sócios, no caso de liquidação de sociedade de pessoas. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos (art. 135 do CTN): as pessoas referidas no artigo anterior; os mandatários, prepostos e empregados; os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado. Conclusão Neste módulo, abordamos as hipóteses de constituição da obrigação tributária e o lançamento do crédito tributário. Destacamos as formas de suspensão, extinção e exclusão do referido crédito, além de abordarmos o processo de formalização do processo de cobrança administrativa e judicial por parte da autoridade tributária. Por fim, apresentamos uma visão geral da atribuição das responsabilidades direta e indireta pela obrigação tributária. Agora você tem em mãos os fundamentos necessários à compreensão do processo tributário referente aos tributos inerentes à dinâmica empresarial. Esse será o foco do nosso próximo módulo. Neste módulo, destacaremos as principais características dos tributos inerentes à dinâmica empresarial: os tributos sobre o faturamento (ICMS, ISS, IPI, PIS e Cofins) e os tributos sobre o lucro (IRPJ