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UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DA AMAZÔNIA CURSO DE LETRAS - LÍNGUA PORTUGUESA SANTA CRUZ DO ARARI - MARAJÓ PROGRAMA FORMA PARÁ EDUCAÇÃO DO CAMPO JEFFERSON LUIS DA SILVA CARDOSO PROFESSOR SANTA CRUZ DO ARARI/PA 2025 259 E Educação do Campo Pinto, A. V. Sete lições sobre educação de adultos. 6. ed. São Paulo: Cortez; Campinas: Autores Associados, 1989. (Educação Contemporânea). stEdilE, J. P. A Reforma Agrária e a luta do MST. Petrópolis: Vozes, 1997. vargas, M. c. Uma história em construção: EJA no campo. In: tv Escola, salto Para o Futuro. Educação de Jovens e Adultos: continuar... e aprender por toda a vida. Boletim, 20-29 set. 2004. Disponível em: http://www.cereja.org.br/ arquivos_upload/saltofuturo_eja_set2004_progr4.pdf. Acesso em: 23 ago. 2011. E EduCação do CamPo Roseli Salete Caldart A Educação do Campo nomeia um fenômeno da realidade brasileira atual, prota- gonizado pelos trabalhadores do cam- po e suas organizações, que visa incidir sobre a política de educação desde os interesses sociais das comunidades cam- ponesas. Objetivo e sujeitos a remetem às questões do trabalho, da cultura, do conhecimento e das lutas sociais dos camponeses e ao embate (de classe) en- tre projetos de campo e entre lógicas de agricultura que têm implicações no pro- jeto de país e de sociedade e nas con- cepções de política pública, de educação e de formação humana. Como conceito em construção, a Educação do Campo, sem se descolar do movimento específico da realidade que a produziu, já pode configurar-se como uma categoria de análise da situação ou de práticas e políticas de educação dos trabalhadores do campo, mesmo as que se desenvolvem em outros lu- gares e com outras denominações. E, como análise, é também compreensão da realidade por vir, a partir de possibili- dades ainda não desenvolvidas histori- camente, mas indicadas por seus sujei- tos ou pelas transformações em curso em algumas práticas educativas con- cretas e na forma de construir políticas de educação. Segundo Williams, “sempre é difí- cil datar uma experiência datando um conceito, porém, quando aparece uma palavra – seja uma nova ou um novo sentido de uma palavra já existente –, alcança-se uma etapa específica, a mais próxima possível de uma consciência de mudança” (2003, p. 80). Este texto pretende tratar das principais caracte- rísticas da prática social que vem produ- zindo o conceito de Educação do Cam- po, do tipo de “consciência de mudan- ça” que ele materializa ou projeta, e de que relações fundamentais constituem seu breve percurso histórico.1 O protagonismo dos movimentos sociais camponeses no batismo originá- rio da Educação do Campo nos ajuda a puxar o fio de alguns nexos estrutu- rantes desta “experiência”, e, portanto, nos ajuda na compreensão do que es- sencialmente ela é e na “consciência de mudança” que assinala e projeta para além dela mesma. O surgimento da expressão “Edu- cação do Campo” pode ser datado. Nasceu primeiro como Educação Básica Dicionário da Educação do Campo 260 do Campo no contexto de preparação da I Conferência Nacional por uma Edu- cação Básica do Campo, realizada em Luziânia, Goiás, de 27 a 30 de julho 1998. Passou a ser chamada Educação do Campo a partir das discussões do Se- minário Nacional realizado em Brasília de 26 a 29 de novembro 2002, decisão posteriormente reafirmada nos debates da II Conferência Nacional, realizada em julho de 2004. As discussões de preparação da I Conferência iniciaram-se em agosto de 1997, logo após o I Encontro Nacional dos Educadores e Educadoras da Re- forma Agrária (Enera), realizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em julho daquele ano, evento em que algumas entidades2 desafiaram o MST a levantar uma dis- cussão mais ampla sobre a educação no meio rural brasileiro. No mesmo bojo de desafios, surgiu o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), instituído pelo governo federal em 16 de abril de 1998 e que ainda hoje está em vigência, mesmo que sob fortes tensões.3 Nas discussões de preparação do documento base da I Conferência, concluído em maio de 1998 e debati- do nos encontros estaduais que ante- cederam o evento nacional, estão os argumentos do batismo do que repre- sentaria um contraponto de forma e conteúdo ao que no Brasil se denomina Educação rural: Utilizar-se-á a expressão campo, e não a mais usual, meio rural, com o objetivo de incluir no processo da conferência uma reflexão sobre o sentido atual do trabalho camponês e das lutas sociais e culturais dos grupos que hoje tentam garantir a sobrevivência desse trabalho. Mas, quando se discutir a edu- cação do campo, se estará tra- tando da educação que se volta ao conjunto dos trabalhadores e das trabalhadoras do campo, sejam os camponeses, incluindo os quilombolas, sejam as nações indígenas, sejam os diversos tipos de assalariados vinculados à vida e ao trabalho no meio rural. Em- bora com essa preocupação mais ampla, há uma preocupação es- pecial com o resgate do conceito de camponês. Um conceito histó- rico e político... (Kolling, Nery e Molina, 1999, p. 26) O argumento para mudar o termo Educação Básica do Campo para Edu- cação do Campo aparece nos debates de 2002, realizados no contexto da aprovação do parecer do Conselho Na- cional de Educação (CNE) nº 36/2001, relativo às Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo (Brasil, 2001) e com a marca de ampliação dos movimentos campone- ses e sindicais envolvidos nessa luta: Temos uma preocupação prio- ritária com a escolarização da população do campo. Mas, para nós, a educação compreende todos os processos sociais de formação das pessoas como sujeitos de seu próprio destino. Nesse sentido, educação tem relação com cultura, com valo- res, com jeito de produzir, com formação para o trabalho e para a participação social. (Kolling, Cerioli e Caldart, 2002, p. 19) E, no plano da luta por escolas, afirmou-se ali que o direito à educação 261 E Educação do Campo compreende da educação infantil à uni- versidade (ibid., p. 34). O esforço feito no momento de constituição da Educação do Campo, e que se estende até hoje, foi de partir das lutas pela transformação da realidade educacional específica das áreas de Re- forma Agrária, protagonizadas naquele período especialmente pelo MST, para lutas mais amplas pela educação do conjunto dos trabalhadores do campo. Para isso, era preciso articular experiên- cias históricas de luta e resistência, como as das escolas família agrícola, do Movimento de Educação de Base (MEB), das organizações indígenas e quilombolas, do Movimento dos Atin- gidos por Barragens (MAB), de organi- zações sindicais, de diferentes comuni- dades e escolas rurais, fortalecendo-se a compreensão de que a questão da educação não se resolve por si mesma e nem apenas no âmbito local: não é por acaso que são os mesmos traba- lhadores que estão lutando por terra, trabalho e território os que organizam esta luta por educação. Também não é por acaso que se entra no debate sobre política pública. A realidade que produz a Educação do Campo não é nova, mas ela inau- gura uma forma de fazer seu enfrenta- mento. Ao afirmar a luta por políticas públicas que garantam aos trabalha- dores do campo o direito à educação, especialmente à escola, e a uma educa- ção que seja no e do campo,4 os movi- mentos sociais interrogam a sociedade brasileira: por que em nossa formação social os camponeses não precisam ter acesso à escola e a propalada univer- salização da educação básica não in- clui os trabalhadores do campo?5 Uma interrogação que remete à outra: por que em nosso país foi possível, afinal, constituir diferentes mecanismos para impedir a universalização da educação escolar básica, mesmo pensada dentro dos parâmetros das relações sociais ca- pitalistas (Frigotto, 2010, p. 29)?y las organizaciones de los diversos pueblos del Campo, Desarrollo Sostenible y Participación Ciudadana. Palabras claves: Educación, escuelas en el campo, pueblos del campo. Abstract Brazil’s education for the countryside and the construction of country schools In the process of construction of the Education for the Countryside project in Brazil, country schools have played a key role. From the struggles of peasants and the landless as well as associated social movements, non-governmental organizations and public universities committed to transforming education, several political and legal achievements have advanced the cause of instituting new educational policies that favor the campaign to implant a school system that values rural society. Therefore, it is worthwhile to examine the Political and Pedagogical Projects of country schools in order to evaluate their approach to key subjects such as: land and labor, identity, struggles, rural representative organizations, sustainable development and citizenship. 1 Este texto subsidiou a construção das orientações curriculares da Educação Básica e as orientações curriculares das diversidades educacionais da Secretaria da Educação do Estado de Mato Grosso. REVISTA NERA – ANO 14, Nº. 18 – JANEIRO/JUNHO DE 2011 – ISSN: 1806-6755 38 Keywords: Education, country schools, rural populaltions. A identidade da escola do campo é definida pela sua vinculação às questões inerentes à sua realidade, ancorando-se na temporalidade e saberes próprios dos estudantes, na memória coletiva que sinaliza futuros, na rede de ciência e tecnologia disponível na sociedade e nos movimentos sociais em defesa de projetos que associem as soluções exigidas por essas questões à qualidade social da vida coletiva no país. (Diretrizes, Art. 2o., Parágrafo único) Introdução Este texto tem como objetivo apresentar, resumidamente, alguns aspectos históricos na construção da educação do campo no Brasil, bem como apontar alguns temas importantes na construção das escolas do Campo. Para essa construção parte-se da compreensão que há uma profunda relação entre escola, agricultura e vida camponesa. Pois, as Escolas do Campo deverão contribuir para a melhoria constante da vida e da realidade dos povos do campo. Para isso é preciso pensar e construir todas as Escolas a partir desta realidade camponesa. Ou seja, trata-se de construir Escolas vivas, ligadas à vida, mergulhadas na realidade dos povos do campo, aprofundando esta realidade e contribuindo para transformar esta realidade e a vida dos povos do campo. Na verdade, é a construção de Escolas que fazem diferença, que estão ligadas, que estão comprometidas, que influenciam e se deixam influenciar pela realidade onde estão inseridas e da qual fazem parte. Assim compreendidas e construídas as Escolas do Campo não se restringirão apenas a um espaço físico, onde se teoriza, onde se “ensina”, lugar do “ócio”. Mas as Escolas se tornarão centros dinâmicos, de irradiação, de reflexão e instrumentos de transformação das pessoas e da realidade. A construção da educação do campo2 no Brasil No Brasil as décadas de 1960 e 1970 foram momentos marcantes. Houve maior penetração do capital internacional na economia, resultando num crescimento das contradições do capital nacional-desenvolvimentista. Em conseqüência disso houve o crescimento do movimento operário e camponês, o surgimento de partidos de esquerda e de grupos e entidades que almejavam a transformação da estrutura da sociedade, bem como o comprometimento de alguns setores das Igrejas com as lutas sociais. Houve também o crescimento e a difusão de experiências que viam na educação um dos instrumentos que proporcionaria uma maior conscientização política e social e uma participação transformadora das estruturas capitalistas presente na sociedade brasileira. Neste período, as lutas pelas reformas de base - reformas eleitorais, tributárias, agrárias, urbana, bancária e universitária – foram fortalecidas. Por parte da ditadura militar houve uma forte repressão a todos estes movimentos sociais, tanto no campo, quanto na cidade. Ocorreram muitas prisões arbitrárias, torturas, processos forjados, assassinatos de operários, camponeses, líderes sindicais, de membros de igreja e de partidos de esquerda. Juntamente com isso, a ditadura impôs projetos e medidas com o objetivo de integrar o 2 “Utilizar-se-á a expressão campo, e não a mais usual, meio rural, com o objetivo de incluir no processo da conferência uma reflexão sobre o sentido atual do trabalho camponês e das lutas sociais e culturais dos grupos que hoje tentam garantir a sobrevivência desse trabalho. Mas quando se discutir a educação do campo se estará tratando da educação que se volta ao conjunto dos trabalhadores e das trabalhadoras do campo, sejam as nações indígenas, sejam os diversos tipos de assalariados vinculados à vida e ao trabalho no meio rural... Quer- se ajudar a construir escola do campo, ou seja, escola com um projeto político-pedagógico vinculado às causas, aos desafios, aos sonhos, à história e à cultura do povo trabalhador do campo”. (KOLLING, et al, 1999. 26.29). REVISTA NERA – ANO 14, Nº. 18 – JANEIRO/JUNHO DE 2011 – ISSN: 1806-6755 39 Brasil na corrente de desenvolvimento e expansão do capitalismo mundial (QUEIROZ 1997:55). Houve uma forte intervenção do Estado, tanto na política, quanto na economia e na agricultura. A intervenção do Estado teve como objetivo baratear os preços dos alimentos e das matérias primas da agroindústria, aumentando a produção agrícola, tendo com isso aumento na exportação. Do ponto de vista da educação houve “uma política educacional preocupada, sobretudo com a rentabilidade dos investimentos educacionais” que resultou na “Reforma Universitária de 1968 e na Lei de Profissionalização do Ensino Médio de 1971” (SOBRAL, 2000:4). E o objetivo era de profissionalização dos jovens, de maneira antecipada, com isso formando maior número de trabalhadores para o mercado, ao mesmo tempo barrando a entrada no ensino superior. Com isso procurava-se tanto manter fortemente o controle político e social, impedindo as organizações e movimentos de lutarem para as mudanças estruturais da sociedade, quanto intensificar a produção e o desenvolvimento capitalista. Se por um lado a história da educação rural no Brasil foi de negação deste direito aos agricultores, por parte das ações e das políticas governamentais, constata-se, sobretudo nas três últimas décadas do século XX, toda uma movimentação e organização por parte das organizações e entidades dos agricultores, não apenas por uma educação rural, mas por uma educação do campo. Estas lutas fazem parte do conjunto de iniciativas e ações contra a concentração da terra, do poder e do saber. A década de 1970 no Brasil foi marcada pelas “lutas e resistências coletivas, em busca do resgate de direitos da cidadania cassada e contra o autoritarismo vigente” (GOHN, 2001:53-54). É um período de organização dos movimentos sociais, bem como da luta pela democracia. No campo educacional, sobressaem as iniciativas de educação popular através da educação política, da alfabetização de jovens e adultos, da formação de lideranças sindicais, comunitárias e populares. Por parte de alguns setores de algumas igrejas, houve um comprometimento com os movimentos sociais e com as lutas e organizações dos trabalhadores tanto no meio urbano, quanto rural. É nessa década, por exemplo, que surge a Comissão Pastoral da Terra (CPT), organização da Igreja Católica, mas com participação de outras igrejas, em defesa dos posseiros, na luta pela reforma agrária e pela permanência na terra. Neste período surgiram as Escolas Famílias Agrícolas (EFAs) no Estado do Espírito Santo, trabalhando com a Pedagogia da Alternância, no Ensino Fundamental. Apesar deterem surgido no final dos anos 60, na década de 1970 vão se expandindo e, mais especificamente, em 1976, inicia-se a primeira experiência de Escola Família Agrícola de Ensino Médio (EFAs de EM). Nos anos 80, quando houve perdas e ganhos, (ver Gohn, 2001:57-58), vale ressaltar a organização e fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983, e do Movimento Sem Terra (MST), em 1984. A CUT, representando o movimento sindical brasileiro que se opunha á prática sindical conservadora, contou desde a sua fundação com participação dos trabalhadores rurais. O MST se consolidou no Brasil como um movimento combativo e expressivo na luta pela reforma agrária e tem contribuído para uma reflexão e uma prática de educação do campo. No campo educacional podemos dizer com Gohn (2001) que os debates e as iniciativas sobre a educação para a cidadania e a escola cidadã, marcaram a década de 1980 e contribuíram decisivamente para que se inscrevesse algumas conquistas dos trabalhadores na nova Constituição promulgada em 1988, entre as quais vale ressaltar a compreensão e proclamação da educação como direito. Os anos 90 foram marcados pelas concepções e práticas neoliberais que tentaram inculcar a idéia de que “só a educação pode salvar o Brasil”, escondendo a raiz dos grandes problemas da sociedade que exige mudanças estruturais. Junte-se a isso que as propostas e definições seguiram as recomendações “de agências financeiras internacionais no campo educacional, em especial o Banco Internacional de Reconstrução e Fomento, ou Banco Mundial – BIRD, e o Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID”. (CUNHA, 2000:2). REVISTA NERA – ANO 14, Nº. 18 – JANEIRO/JUNHO DE 2011 – ISSN: 1806-6755 40 Em meio a isso, houve uma certa crise dos movimentos sociais existentes e o surgimento de outros novos, como mostra Gohn (2001). Mas, com relação à educação do campo, houve alguns avanços. Apesar da nova LDB ter reformulado o ensino técnico no Brasil a partir das exigências do Banco Mundial, desmantelando a educação unitária, e desvinculando o ensino profissional da formação geral, pela primeira vez na legislação houve uma referência explícita à especificidade e diferenciação quanto à oferta de educação básica para a população rural. O Artigo 28, da LDB, diz que Na oferta de educação básica para a população rural, os sistemas de ensino promoverão as adaptações necessárias à sua adequação às peculiaridades da vida rural e de cada região, especialmente: I - conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos alunos da zona rural; II - organização escolar própria, incluindo adequação do calendário escolar às fases do ciclo agrícola e às condições climáticas; III - adequação à natureza do trabalho na zona rural. Entende-se que este avanço na legislação quanto à questão específica da oferta de educação para a população rural foi o resultado da articulação dos movimentos sociais e do acúmulo das várias experiências já existentes, tais como, os Centros Familiares de Formação por Alternância, as escolas do MST, a escola ativa, as reivindicações e experiências educativas do movimento sindical, entre outras. No final dos anos 90, os movimentos sociais do campo conseguem articular o movimento “Por uma Educação Básica do Campo” que teve na I Conferência, em julho de 1998, em Luziânia-Go, seu ponto alto e desencadeou todo um processo que vem crescendo, possibilitando o aprofundamento e a construção de um projeto de educação do campo. Todo esse movimento pela educação do campo e toda a articulação das entidades, movimentos e das experiências contribuíram para a aprovação, em 2002, pela Câmara de Educação Básica, do Conselho Nacional de Educação, das Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo3. Nestas Diretrizes a identidade da Escola do Campo é definida pela sua vinculação às questões inerentes à sua realidade, ancorando-se na temporalidade e saberes próprios dos estudantes, na memória coletiva que sinaliza futuros, na rede de ciência e tecnologia disponível na sociedade e nos movimentos sociais em defesa de projetos que associem as soluções exigidas por essas questões à qualidade social da vida coletiva no país.(DIRETRIZES, Art. 2º, Parágrafo único). Dando continuidade à I Conferência foi realizada, em agosto de 2004, a II Conferência Nacional Por Uma Educação do Campo, com a presença de 1.100 participantes representando: Movimentos Sociais, Movimento Sindical e Organizações Sociais de Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo e da Educação; Universidades, ONGs e Centros Familiares de Formação por Alternância; secretarias estaduais e municipais de educação e outros órgãos de gestão pública com atuação vinculada à educação e ao campo; trabalhadores e trabalhadoras do campo, educadoras e educadores, educandas e educandos de comunidades camponesas, ribeirinhas, pesqueiras e extrativistas, de assalariados, quilombolas e povos indígenas. (Documento Final da II Conferência). 3 Estas Diretrizes foram oficializadas através da Resolução CNE/CEB no. 1, de 3 de abril de 2002. REVISTA NERA – ANO 14, Nº. 18 – JANEIRO/JUNHO DE 2011 – ISSN: 1806-6755 41 Esta II Conferência deu continuidade e ampliou o debate sobre a Educação do Campo e a participação de movimentos e organizações sociais comprometidos com esta construção. Então, esta rápida trajetória da educação do campo no Brasil, nos mostra que historicamente a política educacional brasileira não priorizou e nem contemplou as necessidades e a realidade dos povos do campo, como afirma o próprio MEC: Constata-se, portanto, que não houve, historicamente empenho do Poder Público para implantar um sistema educacional adequado às necessidades das populações do campo. O Estado brasileiro omitiu-se: (1) na formulação de diretrizes políticas e pedagógicas específicas para as escolas do campo; (2) na dotação financeira que possibilitasse a institucionalização e manutenção de uma escola com qualidade; (3) na implementação de uma política efetiva de formação inicial e continuada e de valorização da carreira docente no campo. (MEC, SECAD, 2005). Mas, em meio a isso, os “movimentos sociais, sindicais e algumas pastorais passaram a desempenhar papel determinante na formação política de lideranças do campo e na luta pela reivindicação de direitos no acesso à terra, água, crédito diferenciado, saúde, educação, moradia, entre outras”. A partir da luta por estes direitos foi se construindo “novas práticas pedagógicas através da educação popular que motivou o surgimento de diferentes movimentos de educação no campo, nos diversos estados do país. Mas foi na década de 1980 que estes movimentos ganharam mais força e visibilidade”. (II CNEC, 2004). Construindo as escolas do campo no Brasil A partir da retomada do processo de construção da Educação do Campo no Brasil, é preciso apontar alguns aspectos fundamentais para a construção das Escolas do Campo. Partindo da compreensão de Educação como “processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais” e do entendimento que “a educação básica tem por finalidade desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores”, os “currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela”. (Art. 1o, 22 e 26, LDB 9.3494/96). (Grifo nosso). A essa compreensão da Educação, da Educação Básica e do Currículosoma-se a compreensão de que A identidade da escola do campo é definida pela sua vinculação às questões inerentes à sua realidade, ancorando-se na temporalidade e saberes próprios dos estudantes, na memória coletiva que sinaliza futuros, na rede de ciência e tecnologia disponível na sociedade e nos movimentos sociais em defesa de projetos que associem as soluções exigidas por essas questões à qualidade social da vida coletiva no país. (DIRETRIZES OPERACIONAIS, Art. 2o, parágrafo único). Portanto, na construção dos Projetos Políticos Pedagógicos das Escolas do Campo4, tanto no Ensino Fundamental, quanto no Ensino Médio, é preciso que haja uma verdadeira 4 “Entende-se por escola do campo aquela que trabalha desde os interesses, a política, a cultura e a economia dos diversos grupos de trabalhadores e trabalhadoras do campo, nas suas diversas formas de trabalho e de organização, na sua dimensão de permanente processo, produzindo valores, conhecimentos e tecnologias na perspectiva do desenvolvimento social e economicamente igualitário dessa população. A identificação política e REVISTA NERA – ANO 14, Nº. 18 – JANEIRO/JUNHO DE 2011 – ISSN: 1806-6755 42 interação entre a escola e a família, a comunidade, o meio sócio-profissional dos educandos(as). Pois o ensino exige certas condições de aprendizagem intimamente ligadas à realidade da vida no seu conjunto. Por isso é preciso articular os saberes da vida do jovem do campo com os saberes escolares do programa oficial. Para tanto é necessário investir nas Escolas do Campo priorizando alguns aspectos que poderão fazer a diferença na construção da Educação do Campo. Entre estes aspectos, apresentaremos aqui quatro temas/problemas que, a nosso ver, precisam estar presentes e nortear todos os conteúdos escolares, bem como serem contemplados na metodologia de trabalho de cada uma e de todas as escolas do campo. Não sendo camisa de força, os temas/problemas precisam ser retomados, aprofundados, ampliados. Vale a pena lembrar que no processo educativo e, sobretudo na educação escolar, precisamos fazer escolhas. E essas escolhas pressupõem que os sujeitos implicados, direta e indiretamente na escola, façam a partir da suas concepções, opções, projetos de vida, de mundo, de sociedade, de país. E isso precisa estar, permanentemente explicitado nas nossas escolas e nas nossas vidas. Estes temas/problemas não poderão ser trabalhados de maneira isolada, mas interligados, podendo assim contribuir para que os educandos apreendam a concepção e a prática da educação como processo. Assim poderá ser concretizada a concepção de educação como processos formativos que se desenvolvem: na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais, como apresenta a LDB 9.3494/96, no seu artigo 1o. Terra e trabalho A temática da terra nos remete à uma retomada histórica da constituição do povo brasileiro e da realidade da terra no Brasil. Vale lembrar o processo histórico de constituição da ocupação da terra no Brasil. Inicialmente tem-se a tomada da terra pelos colonizadores europeus das mãos e da posse dos indígenas que aqui já habitavam. Posteriormente houve todo um processo de negação da terra aos negros trazidos como escravos da África. E por fim a negação da terra aos posseiros e trabalhadores, através da Lei de Terras (1850), que legitimava a posse da terra através da compra. Ou seja, acentuando, não há dimensão do trabalho e da pertença a terra, mas da compra da terra. Assim a Lei de Terras, de 1850, legitimou uma maneira de apropriação da terra que se ampliou na realidade brasileira. Por isso a Escola do Campo precisa, a partir dos conhecimentos científicos já sistematizados nas várias áreas, disciplinas e conteúdos, ajudar os educandos a entenderem e perceberem: a realidade da terra no Brasil e na sua região; as características agrárias da sua região; a propriedade da terra na sua região; como tem se dado a Reforma Agrária no Brasil e na sua região. Junto com esta temática da terra, é preciso aprofundar a dimensão do trabalho. Entendendo trabalho como atividade humana de transformação da natureza e do próprio ser humano, a escola do campo ajudará os educandos a analisarem as atividades humanas produtivas desenvolvidas pelos povos do campo. Ao mesmo tempo a escola precisará contribuir para que os educandos possam analisar: como se dá o trabalho na sociedade capitalista, tanto no campo, quanto na cidade, e em outros modos de produção; como os jovens, as mulheres, os homens, os vizinhos se organizam para realizarem o trabalho; qual a relação que há entre o trabalho e a terra; quais são as conseqüências e os resultados do trabalho, individual e coletivo, dos trabalhadores(as) do campo e da cidade, em cada região. a inserção geográfica da própria realidade cultural do campo são condições fundamentais de sua implementação”. (Concepções e princípios pedagógicos de uma escola do campo. Texto Base da I Conferência Nacional de Educação do Campo). REVISTA NERA – ANO 14, Nº. 18 – JANEIRO/JUNHO DE 2011 – ISSN: 1806-6755 43 Assim, a partir do tema terra e trabalho as escolas e os educadores tem amplas possibilidades de desenvolverem os trabalhos escolares, procurando articular os conteúdos obrigatórios das disciplinas e a realidade da vida dos educandos. Os povos do campo: suas identidades, suas lutas e suas organizações A partir da compreensão do campo como um modo de vida social e resgatando a formação do povo brasileiro, é possível resgatar e afirmar a identidade dos povos do campo, bem como suas lutas e organizações, podendo, assim, entender e construir as escolas dos povos do campo. É preciso conhecer, reconhecer, resgatar, respeitar e afirmar a diversidade sociocultural dos povos que vivem/habitam no campo e do campo. Mencionamos alguns, para exemplificar, mas cada Escola, a partir das suas realidades, deverá trabalhar este tema, ampliando e aprofundando esta diversidade dos povos do campo. Pode-se falar de: acampados, arrendatários, assalariados rurais, assentados, comunidades camponesas, comunidades negras rurais, indígenas, extrativistas, meeiros, pequenos agricultores, pescadores, posseiros, povos das florestas, quilombolas, reassentados atingidos por barragens, ribeirinhos, entre outros. Na Escola do Campo, nos diversos níveis, vários aspectos podem ser trabalhados, como por exemplo identificar quais os povos do campo existem em cada região e como se constitui a identidade de cada um destes povos. É importante, ainda, identificar: as diferenças de gênero, de etnia, de religião, de geração; os diferentes jeitos de produzir e de viver; os diferentes modos de olhar o mundo; os diferentes modos de conhecer a realidade e de resolver os problemas. Na história do povo brasileiro podem ser identificadas as várias formas de lutas, de organizações e de resistência dos povos do campo. Ao mesmo tempo podem ser identificadas as diversas e varias formas de organização popular que estes povos tem construído ao longo da história. Este segundo tema resgata e se articula com o primeiro tema, bem como, possibilita o estudo crítico da formação do povo brasileiro, sobretudo, retomando a presença dos povos indígenas, negros na formação do povo brasileiro. E ao mesmo tempo está em consonância com aquilo que está proposto nas Diretrizes Operacionais, quando afirma que “as propostas pedagógicas das escolas do campo.... contemplarão a diversidade do campo em todos os seus aspectos: sociais, culturais, políticos, econômicos, de gênero, geração e etnia”. (Art. 5o, Parágrafo único). O desenvolvimento sustentável Umoutro tema fundamental que deve estar presente nas escolas do campo é o Desenvolvimento Sustentável. Apesar das várias contribuições sistematizadas sobre o tema, é preciso ter claro que não é um tema fechado e acabado, mas tanto quanto os outros temas precisa ser aprofundado a partir da história e da complexidade que é a realidade em que se vive, sobretudo a realidade brasileira, onde historicamente vem se construindo um modelo de desenvolvimento no campo e na cidade contrário à sustentabilidade porque tem demonstrado ser insustentável em vários aspectos. E é claro que essa realidade brasileira não está à parte, isolada do mundo e do universo, mas é parte de, com usas particularidades e desafios próprios. Nas Diretrizes Operacionais tem se referências para se pensar neste tema nas Escolas do Campo. Uma destas referências é que a educação escolar é importante e necessária para “... o desenvolvimento de um país cujo paradigma tenha como referências a justiça social, a solidariedade e o diálogo entre todos...” que o desenvolvimento deve ser “economicamente justo e ecologicamente sustentável” e que as parcerias nas escolas deverão observar o “direcionamento das atividades curriculares e pedagógicas para um REVISTA NERA – ANO 14, Nº. 18 – JANEIRO/JUNHO DE 2011 – ISSN: 1806-6755 44 projeto de desenvolvimento sustentável”. Para isso são necessárias a contribuição e participação das crianças, jovens e adultos do campo, como protagonistas “na construção da qualidade social da vida individual e coletiva, da região, do país e do mundo”. (Artigos 3o, 4o, 8o e 13o). Portanto, para o trabalho com este tema nas Escolas do Campo, é imprescindível tratar o Desenvolvimento Sustentável de maneira historicamente situada (na realidade, local, territorial, nacional e mundial), tendo como referências a justiça social, a solidariedade e o diálogo, levando-se em conta um desenvolvimento economicamente justo e ecologicamente sustentável. Assim, nessa perspectiva de Desenvolvimento Sustentável se faz necessária a radical crítica ao processo de desenvolvimento em curso, nos vários aspectos: sustentabilidade econômica, ecológica, sócio-política e cultural. Vale lembrar que estes aspectos não podem ser tratados de maneira fragmentada e isolada, mas no conjunto, mesmo que didaticamente se faz necessário uma abordagem própria. A sustentabilidade econômica está muito ligada ao desenvolvimento de atividades produtivas, seja na produção de alimentos, na geração de renda, nos sistemas de troca ou de comercialização. Em vários lugares os povos do campo são solidários e trabalham de maneira cooperativa na construção das redes de economia solidária. As escolas precisam contribuir para o conhecimento, o aprofundamento, a discussão, a análise critica da dimensão econômica no campo e na cidade. A sustentabilidade ecológica tem sido muito falada e discutida atualmente, sobretudo com a constatação que a maneira capitalista de se apropriar da natureza, organizando a produção, a comercialização, tem se revelado destruidora, desigual, injusta, inviável e por isso mesmo, insustentável. Por isso é preciso fortalecer a apropriação da natureza que possa respeitar, conservar, manter e recuperar os recursos naturais. Isso possibilitará a manutenção e funcionamento dos ecossistemas. A dimensão sócio-política da sustentabilidade está diretamente ligada à solidariedade dos povos do campo, ao fortalecimento dos laços sociais existentes e em construção, bem como ao exercício da democracia e da participação, fortalecendo as lutas, as organizações, dos povos do campo, rompendo com as concepções e práticas autoritárias e centralizadoras no campo e na cidade. O aprofundamento do desenvolvimento sustentável deve contemplar ainda a dimensão cultural. No modelo de desenvolvimento em curso no mundo atual capitalista, com base na globalização, o que se tem é insustentável, também na dimensão cultural, pois não acontece a valorização, o respeito e a afirmação da diversidade cultural, com suas diversas identidades nos vários campos da vida, mas a destruição destes e a imposição de padrões culturais. As origens étnicas, culturais dos povos do campo deverão ser aqui resgatadas levando a um reconhecimento, valorização, socialização e trocas dos diversos e variados tipos de saberes e de conhecimentos que os diversos povos vêm tecendo ao longo da vida e da história. Trabalhar com este tema norteador do Desenvolvimento Sustentável nas Escolas do Campo, nos diversos níveis, modalidades, tempos e espaços, é um exercício permanente de diálogo e interação com todos os outros temas. Por isso a insistência, constante, de tratar os temas de maneira articulada, didaticamente, pedagogicamente e institucionalmente nas Escolas do Campo. A construção da cidadania Para trabalhar o tema cidadania nas Escolas do Campo, é preciso registrar a importância da historicidade e complexidade, pois a cidadania não é algo dado e acabado, pelo contrário está em permanente construção, reconstrução, atualização e por isso exige luta permanente. Isso equivale dizer que os povos do campo, historicamente excluídos necessitam fortalecer suas lutas e organizações no caminho da construção da cidadania. A Escola precisa e deve participar deste processo, pois, a “educação escolar” é importante “para o exercício da cidadania plena e para o desenvolvimento de um país”. Par isso se faz REVISTA NERA – ANO 14, Nº. 18 – JANEIRO/JUNHO DE 2011 – ISSN: 1806-6755 45 necessário “os mecanismos de gestão democrática, tendo como perspectiva o exercício do poder”. (DIRETRIZES Art. 3o, 11). Para Aristóteles o “homem é um animal político”. A palavra “político” designava, na Grécia antiga, o cidadão, homem livre, que podia e tinha condições de participar dos debates, das decisões na praça pública (ou Agorá), da cidade (pólis). Portanto, o político era o cidadão habitante e participante dos destinos na cidade. Assim político e cidadão se equivaliam naquele contexto histórico. Podemos deduzir que toda a ação deste cidadão (político) para o crescimento, desenvolvimento e sustentabilidade da cidade (polis) constituía a cidadania. Sendo assim, naquele contexto, cidadania é o conjunto das ações (debates, decisões, trabalhos, etc...), em favor da cidade. Dentro deste contexto de surgimento da cidadania, um aspecto importante que contribui para o aprofundamento do tema hoje é a constatação, a partir da sociedade escravista grega, que a organização da cidade (polis) ao mesmo tempo em que possibilitava a participação dos homens livres, excluía grande parte da população desta cidadania, pois mulheres, estrangeiros, escravos e crianças, não tinham direito de participar, viver e exercer a cidadania que era restrita a uma pequena parcela. Alguns autores entendem, por exemplo, que dessa cidadania estavam ausentes quase noventa por cento da população. Para o estudo e aprofundamento da cidadania hoje, é oportuno pontuar que essa participação, na Grécia, se restringia à esfera política, ou como se denominou no mundo moderno, o cidadão grego tinha somente direitos políticos. Ou seja, a cidadania surge a partir da sociedade grega antiga que: negava o exercício da mesma para o conjunto da população; restringia-a ao campo político; e isso favorecia, fortalecia e legitimava a sociedade contraditória e dividida. No mundo moderno a compreensão de cidadania apresenta-a a partir de três níveis, ou três direitos: civis, políticos e sociais. Os direitos civis são aqueles necessários á vida, à liberdade, à propriedade e à igualdade. É comum restringir a cidadania à conquista de direitos civis. Como, fundamentalmente, os direitos civis estão ligados a “liberdade individual”, é comum, principalmente na sociedade capitalista, insistir e enfatizar, a conquista destes direitos e, muitas vezes, justificá-la pela prática dos mesmos. Mas é preciso entender que os direitos civis não são suficientes para realizar a cidadaniaplena. Os direitos políticos se referem ao direito de participar no exercício do poder político, no governo da sociedade, da participação e atuação partidária. Trata-se da esfera política e, como se vê, refere-se diretamente à relação dos cidadãos com o governo da sociedade e, nisso o direito ao voto, é fundamental. Mas, não se pode restringir os direitos políticos, porque aqui se trata, também, do direito de associação, de organização, de manifestação coletiva e pública, do acompanhamento crítico e propositivo dos orçamentos governamentais, da fiscalização e cobrança da transparência na gestão pública e etc. Historicamente os trabalhadores tiveram de promover amplos movimentos sociais, como greves gerais, para conquistarem esse direito. Os direitos sociais se referem a participação na riqueza coletiva. Eles incluem o direito à educação, ao trabalho, ao salário justo, à saúde, à aposentadoria. A idéia central em que se baseiam é a da justiça social. Se os dois níveis de direitos anteriores – civis e políticos – se referem mais diretamente ao individuo e, foram inclusive cooptados pela lógica capitalista e burguesa como essenciais, porque se referem às garantias individuais, os direitos sociais trazem em si a possibilidade de ampliar a concepção e práticas dos primeiros, tomando-os no conjunto e fazendo a crítica do reducionismo que a sociedade capitalista e as democracias representativas tentam fazer. Assim a articulação dos direitos civis, políticos e sociais, na perspectiva dos povos do campo são conquistas fundamentais em direção à cidadania plena. Conclusão REVISTA NERA – ANO 14, Nº. 18 – JANEIRO/JUNHO DE 2011 – ISSN: 1806-6755 46 No processo de construção da Educação do Campo no Brasil, as Escolas do Campo tem um papel e uma responsabilidade fundamental. Por isso é urgente uma ampla discussão, um sério debate e permanente aprofundamento nesta construção, sobretudo na perspectiva de elaboração de políticas públicas, com a participação dos povos do campo, para que a Escola não seja tratada de maneira isolada, mas como parte e como instrumento que possibilite um autêntico Projeto de Sociedade, onde a educação seja compreendida e concretizada na dimensão transformadora. Por isso estes temas – terra e trabalho, diversidade dos povos do campo, sustentabilidade, cidadania – são fundamentais para integrarem os conteúdos dos Projetos Pedagógicos das Escolas do Campo. Desta forma se constituirão Escolas verdadeiramente vinculadas à vida e à realidade dos povos do campo, ou seja, Escolas Vivas. Referências bibliográficas ARROYO, Miguel Gonzáles. CALDART, Roseli Salete. MOLINA, Mônica Castagna. (orgs.) Por uma Educação do Campo. Petrópolis: Vozes, 2004. COLEÇÃO. Por uma Educação do Campo – Volumes 1,2,3,4,5,6 e 7. CNE. 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Instalando- se na região, tornaram-se aglomerados, povoados, vilas e, mais tarde cidades, em suas diferentes escalas – pequenas, médias ou grandes centros urbanos como Belém e Manaus, evoluídas ao longo de três séculos de exploração das terras da Amazônia. Na ideia de Oliveira (2006) é necessário compreender a Amazônia em suas peculiaridades, uma vez que nesse território, os modos de vida se diferem efetivamente do padrão urbano visto em outras regiões do Brasil. De início, as indicações de Trindade Júnior, Silva e Amaral (2008), sobre as espacialidades da região, propõe três padrões de cidades observadas na Amazônia: 1) ribeirinho – organizado por influência direta ou indireta dos rios; 2) espontâneo – sem padrões referenciais, é aleatória e que tem como fins a ocupação do espaço por diretriz de diferentes agentes; e, 3) pré-definido – são porções do espaço criadas por loteamentos públicos ou privados e que diferem com relação à evolução histórica regional. Fato que percorre diferentes espaços locais, como as margens dos rios que foram/são vias importantes para descolamento e comércio; as várzeas que próximas aos rios, fornecem condições para manutenção da vida; e, a terra firme, que foram/são ocupadas de maneira intensa entre, final do século XIX e ao longo do XX, com a abertura das estradas e as novas fronteiras econômicas na Amazônia. A floresta é a realidade/paisagem central nas discussões envolvendo a vida regional na Amazônia e além dos padrões mencionados, existem também, duas concepções socioespaciais para classificar as cidades e que norteiam as discussões desta seção: 1) cidades da floresta – ocupações tradicionais e que são tidas como herança do passado, ou seja, dos povos já existentes na região antes do processo colonizador; e, 2) cidades na floresta – espaços que foram difundidos pela processo de modernização da Amazônia, excepcionalmente pela abertura das estradas, da construção das hidrelétricas e dos grandes projetos de mineração, implantados na região para sua integração ao restante do país. (TRINDADE JÚNIOR, 2010, 2021). Cabe o destaque para os intensos movimentos migratórios, internos e externos, que perdura até os dias atuais, fruto dos “dos grandes objetos” que foram implantados/instalados na região com vistas ao progresso nacional (SANTOS, 1993). Dessemodo, a Amazonia viu o processo de ocupação territorial acontecer, primeiro por interesses particulares como as companhias colonizadoras atreladas ao controle estatal oficial da região; o reconhecimento das cidades ribeirinhas como realidade tradicional própria e até mesmo, pré-existentes à colonização Portuguesa; por conta da instalação dos grandes projetos já mencionadas, o aparecimento das cidades médias; e, por último, as urbanidades próprias do tempo atual característico das metrópoles brasileiras (BECKER, 1990; BROWDER, GODFREY, 2006; GENTIL, 1988; VICENTINI, 2004; TRINDADE JÚNIOR, 2008, 2010, 2021; SCHOR, COSTA, OLIVEIRA, 2009). Para compreender esse processo de organização socioespacial, Tavares (2011) convida a uma leitura da formação do espaço amazônico ocorrida principalmente no século XVIII (imagem 4), quando há um aumento expressivo de demarcação das terras em virtude das primeiras políticas territoriais de Marquês de Pombal – primeiro ministro de Portugal, com denominações de Vilas, Fortalezas e Lugar, outras com nomes de santos e/ou indicações do que representavam àquela época, como freguesia, porto e pesqueiro. A ilustração selecionada, mostrar que o rio Amazonas com seus afluentes, era/é quem determina(va) o processo de ocupação do território amazônico e o percurso dos espaços povoados. A ocupação do território amazônico, foi no início, uma estratégia expansionista visando unicamente o mercado europeu, já que a criação do que viriam a ser depois das primeiras cidades desta parte da Amazônia não ocorreu de forma autônoma e dissociada, tampouco diferente do restante da região. O que ocorreu neste parta da Amazônia de certo modo ocorreu em toda a região e representou as determinações de Portugal enquanto estratégia de ampliação dos novos mercados para os países europeus (OLIVEIRA, 2000, p. 192). Os pontos assinalados no território amazônico são marcos importantes para os diferentes ciclos econômicos vividos na região e usou seus rios para atendimento do mercado europeu. O deslocamento fluvial vivenciado em temporalidades sazonais, exercem forte influência nas relações de organização do espaço na Amazônia (BARTOLI, 2017). Ainda segundo o autor, o aumento das atividades extrativistas ou os cultivos agrícolas, no período assinalado pela imagem, demanda por pessoas dispostas a navegar e, consequentemente, participarem ativamente dos processos produtivos, intensificando dessa forma, as relações território-cidades/lugares- mercado por meio das atividades fluviais. Imagem 1. Núcleos Coloniais na Amazônia do século XVIII Fonte: adaptado de Tavares (2011) O aparecimento das cidades amazônicas na análise da imagem em tela, permitem uma certeza: o padrão espacial dendrítico que os lugares, muitos deles elevados a categoria de cidades pelo aumento populacional e infraestrutura, possuem, uma vez que são pelos rios que ocorrem as conexões entre esses espaços e deles, com o mundo externo (LIMA, 2008). Situação que fica perceptível por conta da ligação rio Amazonas e seus afluentes com o Oceano Atlântico. Assim, confirma-se que a vida nas e das cidades Amazônicas está ligada intimamente ao rio e à floresta, no entanto, é necessário levar em conta outros elementos que considerem a relações dessas cidades e seus entornos, para efetivação da integração nacional (COSTA, et al, 2012; OLIVEIRA, 2000; TRINDADE JÚNIOR, 2010). Ainda, sobre a importância dos rios para vida região, aponta-se que eles são a fonte perene do progresso, pois sem ele o vale se estiolaria no vazio inexpressivo dos desertos. Esses oásis fabulosos tornaram possível a conquista da terra e asseguraram a presença humana, embelezaram a paisagem, fazem girar a civilização – comandam a vida no anfiteatro amazônico. (TOCANTINS, 2000, p. 278). Na mesma direção, o cotidiano da vida na Amazônia, ao relacionar os modos de ser e viver de homens e mulheres que dependem do rio para ir e vir, trabalhar e consumir, firmar-se e existir, deve compreender que A lei do rio não cessa nunca de impor-se sobre a vida dos homens. É o império da água. [...] Água negra do Andirá e do Negro. Água barrenta do Solimões, do Madeira, do Purus. As águas claras e verdes do Tapajós, do Xingu. [...] É o Amazonas e o seu ciclo das águas. Tempo das “primeiras águas”, quando o rio dá sinal de que tem vontade de crescer. Tempo de enchente, de vazante, tempo de seca. E o regime das águas condicionando e transformando a vida do homem amazônico ao longo das etapas do ano. (MELLO, 1990, p. 35) É sobre os rios tratados pelos autores que o sujeito ribeirinho, com suas práticas cotidianas com forte influência dos povos indígenas, portugueses e africanos, além dos nordestinos como imigrantes celebres da época da borracha, mantém seus saberes atrelados às águas e à floresta, na constituição das cidades ribeirinhas consideradas das florestas (GONÇALVES, 2012). Nas comunidades ribeirinhas a reciprocidade homem-natureza é um fato que permite o manuseio dos recursos ambientais sem que haja sua degradação, o que permite por outro lado, o manejo sustentável a partir do etnoconhecimento, já que “essas práticas objetivam e fortificam a organização social, política e cultural das populações tradicionais” (LIRA, CHAVES, 2016, p. 75). Essas cidades são compostas, essencialmente, por habitações próprias de suas comunidades, erguidas às margens dos rios ou mesmo sobre eles – já que rios e ribeirinhos participam da “humanização da natureza - naturalização do homem” (CRUZ, 1999, p. 109), como demonstra Gregório (2019) nas imagens que seguem. Imagem 2. Casa ribeirinha estilo palafitas Fonte: adaptado de Gregório (2019) Imagem 3. Casa ribeirinha sobre as águas Fonte: adaptado de Gregório (2019) Apesar da visão artística de Tocantins (2000), sobre a importância dos rios para os habitantes da Amazônia, é possível captar a influência que eles têm para o processo de organização do território, pois grande parte das cidades da região são margeadas pelos rios e/ou necessitam dele, à exemplo das habitações ilustradas que respeitam seus tempos de cheia e vazão, para manter suas relações vivas, na perspectiva do urbano-rural. Constata-se assim, temporalidades diferentes e modos de vida que se adequam ao movimento das mares, imprimindo sobre os sujeitos amazônicos, sua capacidade de decidir sobre os momentos produtivos e improdutivos, em virtude da seca e das enchentes dos rios, excepcionalmente, nas cidades ribeirinhas (MELLO, 1990). Porém, esses sujeitos possuem “conhecimentos aprofundados da natureza e de seus ciclos, que se reflete nas estratégias de uso e manejo dos recursos naturais, este conhecimento é transferido de geração a geração por via oral” (FRAXE, 2000, p.182). Saberes que mantém vivas, várias cidades deste Casa Banheiro Rio Casa Banheiro Rio Anexo território, por meio das práticas geracionais e do êxito de suas estratégias de subsistência. Nesse sentido, à vida nas cidades da floresta como as ribeirinhas aqui apresentadas, são marcadas por um tempo lento, com circulação mais lenta – que não significa falta de movimento, ligadas a lógica da natureza e, mantém como atividades principais o extrativismo, a agricultura de subsistência, reprodução e migração da fauna, sistema de manejo dos recursos naturais, pecuária de pequena escala e a pesca (LIRA, CHAVES, 2016; SILVA, 2019; GREGÓRIO, 2019; SANTOS, 1996; TRINDAE JÚNIOR, 2021). A pesca se mantém ativa o ano inteiro, já a agriculta e a pecuária sofrem alterações com a cheia dos rios, fazendo com que muitos ribeirinhos migrem para terra firme em busca de alimentos com a caça, por exemplo (SAMPAIO, 2013). Estudos com diferentes perspectivas socioespaciais, econômicas e ambientais, nos diferentes Estados que compõe a Amazônia brasileira, dirigem seus focos para realidade ribeirinhae confirmam as observações dos autores anteriormente citados. Exaltam o modo de vida atrelado aos rios, as atividades que executam, a relação homem-natureza, os desafios de ser ribeirinho na Amazônia, bem como a ligação necessária com as cidades urbanizadas erguidas na floresta - em sua maioria, para o desenvolvimento regional via políticas de expansão e ocupação do território a partir de 1960/70. Buscam nelas, as políticas sociais, principalmente saúde e educação, além da dependência de recursos materiais comercializados nos grandes centros urbanos, como roupas, equipamentos eletrônicos e domésticos (ARRUDA, et al, 2014; BRITO, 2018; LIMA; ANDRADE, 2009; LOMBA; FONSECA, 2017; MAGALHÃES 2012; ROCHA; COVER, 2018; ROCHA; MORAES, 2021; SANTOS; ALMEIDA, 2008; SANTOS; COSTA, 2020). São estudos que proporcionam aos pesquisadores e seus leitores, um panorama sobre a situação atual dos ribeirinhos. Lima e Andrade (2009) investigaram as representações sociais dos ribeirinhos de Mâncio Lima, município do Acre, que fica próximo as margens do rio Môa. Lá, homens, mulheres e crianças moram em casas como as demonstradas neste texto e, somam forças para sobreviver com recursos tirados do rio e das matas, possuem atividades diárias distintas e permanecem num tempo outro de vida. Possuem forte relação com a cidade urbanizada, pois “a velocidade com que se propagam as informações ainda é tênue, mas vão chegando aos poucos nas canoas, botes, nos materiais gráficos coletados na cidade e pelas ondas do rádio.” (LIMA; ANDRADE, 2009, p. 104). Lomba e Fonseca (2017) investigaram os ribeirinhos que habitam a foz do rio Mazagão no Amapá. A comunidade é do tempo da colonização portuguesa e percebeu os diferentes ciclos vividos na Amazônia, desde a extração de madeiras à exploração do látex na era da borracha. Ainda cabia atividades de agricultura, pesca, coleta de sementes e frutos. No tempo atual, a discussão sobre modo de vida ribeirinho, é fato compreender as distâncias geográficas que ainda acometem esse povo, fato que dificultam melhores condições ao acesso à educação, à saúde, ao saneamento básico, à energia elétrica entre outros elementos necessários à vida humana. (LOMBA; FONSECA, 2017, p. 275) Magalhães (2012) buscou analisar os relatos orais de ribeirinhos de três comunidades do baixo Rio Branco em Roraima, no sentido de captar modos de ser e viver dessas populações com o uso de entrevistas no sentido de levantar informações para projeto de pesquisa que vinculava Sociedade, Economia e Natureza. O estudo aponta para moradias típicas em madeiras, muitas cobertas por palha e elevadas para conviver com a enchente do rio. As atividades são o extrativismo, o trabalho na armação de barcos e a pesca como principal; a região é datada da colonização, tendo o aviamento como prática muito utilizada em comunidades ribeirinhas da Amazônia, caracterizando-se pelo adiantado de mercadoria à crédito (ARAMBURU, 1994). A comercialização é feita no município de Caracaraí, com quem as comunidades pesquisadas têm estreita relação pelo desenvolvimento urbano da cidade. No avançar da pesquisa, foi possível constatar nas comunidades ribeirinhas analisadas que “suas atividades são apoiadas no extrativismo vegetal, (seringa, castanha, açaí, etc.) e na pesca artesanal. Só comercializam o que excede, porque toda a sua atividade é voltada para manutenção familiar” (MAGALHÃES, 2012, p. 9). A pesquisa de Santos e Costa (2020) conversa sobre o processo de adaptação das comunidades ribeirinhas Bracinho e Braço Grande que vivem às margens do lago Jenipapo em Manicoré no Amazonas, quanto aos períodos de cheia e vazão do rio Madeira. Foi percebido pelos autores, que as cheias influenciam no quotidiano das comunidades, fazendo com que avancem para terra firme ou adaptem suas casas na construção de um segundo andar. Também foi possível perceber na pesquisa, a mudança no hábito alimentar que sai do pescado na cheia e passa a ser da cultura de pequenos animais (aves) criados pelas famílias somada a agricultura de subsistência. No horizonte da pesquisa, os autores apontam que os conhecimentos das comunidades ribeirinhas são moldados pelos eventos naturais da região, fazendo com que “as habilidades que vão sendo desenvolvidas somente são possíveis a partir de uma vivência integrada com a natureza, proporcionando o conhecimento e criatividade necessárias para sua permanência.” (SANTOS; COSTA, 2020, p. 108). No estado de Rondônia, Santos e Almeida (2008) estudaram as comunidades ribeirinhas do Vale do Guaporé, no sentido de compreender suas espacialidades que têm sido “apagadas/silenciadas” pela vida próspera das urbanidades. O rio em análise é o Guaporé, que fez parte do processo de colonização portuguesa na região de Rondônia e Mato Grosso, território povoado por ribeirinhos, negros quilombolas, indígenas, nordestinos e remanescentes amazônidas da época da borracha, além de uma porção de bolivianos. As casas são de palafitas e fazem o recuo na época das enchentes; as atividades práticas seguem a lógica da pesca, agricultura de pequena escala e as transações mercantis com a cidade urbana marcam as espacialidades ribeirinhas da região. Segundo os autores, os ribeirinhos são seres viventes entre mundos. Vivem entre mundos: o mundo das águas e mundo da terra firme; ordenam o cotidiano entre tempos: o tempo das chuvas e tempo da estiagem; recriam o poético por meio dos mundos imaginários: seres das águas e seres da floresta; dinamizam as práticas sociais entre mundos de pertencimento: lugar e não-lugar. (SANTOS; ALMEIDA, 2008, p. 13). Arruda et al, (2014), buscaram mapear o perfil socioeconômico de ribeirinhos do Rio Paraguai nas terras do Mato Grosso, ligados ao município de Cárceres. Os autores revelam que a atividade da pesca artesanal, realizada nos barrancos típica do Rio Paraguai, tem sido prejudicada pela pesca esportiva/profissional explorada amplamente pelo turismo da região. A primeira, é feita a partir de materiais produzidos pelos moradores da comunidade como canoas e redes de pesca, enquanto que a segunda, conta com equipamentos e infraestrutura pesqueira, que ao superar às dos ribeirinhos, os coloca em situação de vunerabilidade social. Assim, é necessário existir uma forma de turismo mais sustentável, gerenciada pelo poder público, que deveria fiscalizá-la, cuidando para não prejudicar a economia local ou a proteção ambiental. [...] a pesca é, para a grande maioria dos ribeirinhos, um modo de vida, que precisa ser preservado. (ARRUDA, et al, 2014, p. 173) Brito (2018) contribui nesta discussão, analisando a história de resistência de ribeirinhos que vivem nos Rios Araguaia e Tocantins, no Estado do Tocantins. O autor retrata a situação limite vivida pelos ribeirinhos que foram diretamente atingidos pelas grandes obras na região, como as rodovias para abrigar a construção da Hidrelétrica de Estreito e Pedra de Amolar. Não obstante, outro fator que tem dificultado os modos de ser e viver dos ribeirinhos é o agronegócio que avançou pelo cerrado tocantinense. As comunidades com isso, vivem relação intensa com a cidade urbana, na compra de utensílios e mercadorias para sua manutenção e sobrevivência, já que atualmente marcam presença às margens dos lagos formados pelas represas em forma de resistência. Vale a ressalva de que o território ribeirinho é formado por identificação dos sujeitos com o rio, antes uma posse do mesmo. São lugares da pesca diária ou semanal, do ócio da família nos finais de semana ou nos intervalos do trabalho, dos cemitérios, dos naufrágios. Estes lugares são permeados por itinerários construídos no rio pelos sujeitos ribeirinhos. (BRITO, 2018, p. 45). O estudo de Rocha e Cover (2018) focaram também a situação dos ribeirinhos no Estado do Maranhão, no município de Estreito e Carolina, que sofreram com a construçãoda barragem de Estreito, assim como no Tocantins visto anteriormente. A ação dos grandes empreendimentos fez com que as comunidades atingidas se organizassem no Movimento dos Atingidos por Barragem – MAB, que luta pelo direito dos povos tradicionais que foram removidos das margens dos rios, em virtude da produção do lago que mantém as turbinas das hidrelétricas em franco funcionamento. O estudo demonstra que, as principais atividades dos ribeirinhos foram prejudicadas, como a pesca, agricultura familiar, coleta de frutas, plantas medicinais, olaria, além das rotinas que envolvem a água do rio para os afazeres domésticos. Apesar da situação, os ribeirinhos resistem na formação de acampamentos, permanência em parte das áreas atingidas fazendo plantações e, com isso gerando conflitos na região. Para os autores, as situações descritas “reivindicam uma leitura dos costumes, do direito tradicional e das formas cotidianas de resistência, como aspectos relevantes para a compreensão da luta dos atingidos por barragens.” (ROCHA; COVER, 2018, p. 733). No sentido histórico sobre a construção dos ribeirinhos nos Estados que compõe a Amazônia, Rocha e Moraes (2021) analisaram as ilhas da cidade de Belém no Estado do Pará. No levantamento, são 39 ilhas catalogadas pelos órgãos competentes. Em 3 delas, já se percebem os traços da urbanidade – Mosqueiro, Outeiro e Cotijuba, sendo as demais de mata densa e habitadas por diversas comunidades ribeirinhas que mantém viva suas tradições e os traços que a distinguem de outros grupos sociais. A vida é dirigida ligada ao rio, exercem atividades extrativistas na coleta de sementes e plantio de espécies nativas, pesca artesanal e criação de pequenos animais. Não obstante, mantém intensa circulação, comércio e sociabilidade com a cidade de Belém, por meio do vai e vem de canoas e barcos de pequeno porte. As autoras, relatam a importância e ao mesmo tempo, certa necessidade dos ribeirinhos acerca das políticas sociais quase inexistentes nas ilhas, uma vez que “a população ribeirinha com os costumes tradicional tenta vencer o descaso do poder público, do sistema capitalista e inúmeros problemas, de quem mora nas ilhas relatam.” (ROCHA; MORAES, 2021, p. 10). Diante das realidades percebidas nos Estados do Acre, Amazonas, Amapá, Roraima, Rondônia, Mato Grosso, Pará e parte ocidental do Maranhão, Costa et al (2012, p. 61), indicam que “a cidade ribeirinha tem seus traçados de ruas ligados ao rio, pois vão ao encontro ou terminam nele, como também toda a dinâmica da cidade está ligada ao movimento das marés, ao tempo da natureza. Seu padrão de ocupação foi rio/várzea/floresta”. Os autores confirmam a tese de Becker (1990), de que as cidades da floresta têm formação histórica e com base na cultura regional, que se desenvolvem e perpetuam seus saberes e fazeres por gerações. Nas considerações de Oliveira (2006), ao relatar a visão das cidades ribeirinhas, questiona e ao mesmo tempo critica as autoridades regionais pela falta de infraestrutura básica nestas localidades. O autor, ao retomar alguns pontos indicados anteriormente, como o tempo lento, ligação com a natureza, de formação histórico cultural, avança para as carências evidentes. À primeira vista o porto, como porta de entrada e saída da cidade, é transitório por essência, demonstra improviso, estrutura não acabada e precocemente deteriorado, no entanto primordial para sobrevivência e ligação com a cidade urbana mais próxima. E vai além, o rio, a floresta e a cidade têm no porto a fronteira entre a realidade e a ficção, possibilitando-nos leituras múltiplas de espaços-tempos diversos. É quase sempre assim que se chega à maioria das cidades ribeirinhas e delas se tem a primeira impressão, que nem sempre fica, pois a concretude de um arruamento caótico, de equipamentos urbanos inexistentes ou inadequados, dá outra impressão dessas pequenas cidades mergulhadas na inércia. (OLIVEIRA, 2006, p. 27) Na avalição de Trindade Júnior, Silva e Amaral (2008) essas cidades da floresta possuem de fato, pouca modernização territorial e econômica, tímida ou baixa presença do meio técnico-cientifico informacional, comparadas as demais cidades da região e de outras do país. Há carência de todos os sentidos para populações ribeirinhas da Amazônia, de modo que “se observa uma ausência do poder público e uma incapacidade na geração de recursos resultante de uma prática política centenária, que exclui a população da possibilidade de mudar seu destino.” (COSTA, et al, 2012, p. 71). E, para ter acesso aos direitos sociais instituídos na democracia brasileira, como saúde, educação, qualidade de vida e acesso à materiais e utensílios modernos, os barcos e canoas ribeirinhas ancoram nos vários portos que a cidade planejada, desenvolvida e urbanizada na floresta, lhes proporciona ao longo de rios e seus afluentes na Amazônia (TRINDADE JÚNIOR, 2010). O estudo de Silva (2019), ao realizar o levantamento das cidades na Amazônia em relação ao processo de modernização vivenciada, encontrou quatro configurações diferentes quanto ao perfil de urbanização presente na região. A imagem abaixo concentra nomenclaturas e uma síntese da descrição. Imagem 4. Descrição das cidades urbanizadas presentes na Amazônia a partir do século XX Fonte: adaptado de Silva (2019) É possível constatar, com base na imagem em tela, que o processo de organização urbana ocorrido na Amazônia, tem sua aceleração a partir da década de 1960 com os projetos que visavam a modernização para seu desenvolvimento e integração da região ao restante do Brasil. O estudo de Lima (2008), de igual forma, faz uma análise panorâmica dos processos de urbanização da Amazônia, Tradicionais •Lugares caracterizados pela urbanização anterior à década de 1960, constituída de populações tradicionais, com aspecto de construções coloniais, tem o rio ou ferrovias como meio de transporte, vivem do extrativismo, agricultura e estão localizadas as margens dos rios, a várzea e a floresta. Notáveis •Remonta a década de 1960, permanece a circulação fluvial e ferroviária, estão ligadas a lógica dos mercados globais na exploração da mineração, a soja e o agronegócio, são consideradas de porte médio que foram núcleos econômicos importantes na região. criadas para atender o processo de integração nacional. Rodoviária •cidades que proliferaram a partir da década de 70 com o processo de abertura das rodovias para atender ao processo de ocupação do território Amazônico, recebe intenso fluxo migratório e são de 3 tipos: da colonização oficial, as da colonização particular e as cidades mais espontâneas. Empresa •Feitas com frequência maior na década de 1980, especificamente para receber a mão de obra dos grandes projetos ligados à mineração e produção elétrica, tem dinâmica ágil, retira os aspectos do extrativismo e de forte ligação dos rios, típico das cidades da região. possuem 3 tipos básicos: cidades fechadas, as cidades semiabertas e as cidades abertas. excepcionalmente no que se refere a díade cidade-urbano. Para o autor, a cidade está para o aspecto visível de seus estrutura física, enquanto que o urbano é o produto de uma realidade nova, que relaciona o espaço à mercadoria gerado pelo conflito no desenvolvimento da produção e reprodução da cidade. Ideia que também é sustentada por Lefebvre (1991), em que a cidade seria a realidade presente e imediata, o visual e o arquitetônico, já o urbano faz parte das relações concebidas pela realidade social, ou seja, das práticas cotidianas. Práticas que são, resultado dos processos macros de industrialização e micros de apreensão a cidade a partir do cotidiano. Nas considerações de Pais (2001, p. 78), [...] o quotidiano não é apenas o espaço de realização de atividades repetitivas: é tambémum lugar de inovação. A vida quotidiana não é apenas feita de rebotalho. A própria recusa do quotidiano (a festa, as viagens, as férias...) é a sua reorganização e transformação. A observação do autor sobre o cotidiano, especificamente quando ressalta a questão da “inovação, reorganização e transformação” dos espaços da cidade, por meio das atividades diárias, coaduna com Ferraço (2007), quando assume que são os sujeitos do cotidiano que buscam, nessa inovação, organização e transformação, o sentido da vida, nas relações que estabelecem com as questões e os temas que são pertinentes às redes cotidianas. Redes essas, que dão vida na Amazônia as pequenas e médias cidades, tanto no meio urbano quanto no rural, que “possui uma dispersão francamente linear obediente à dependência dos cursos d’água enquanto única via de circulação regional. (IBGE, 2017, p. 18). Nessa discussão, a relação urbano-rural tem sido percebida com mais frequência por estudiosos e pesquisadores da área da geografia, antropologia, sociologia, economia e outras, a partir da segunda metade do século XX, quando a expansão do capitalismo toma dimensões mais globalizadas e articuladas em várias partes do mundo, já que interfere de maneira profunda na relação cidade-campo (KAYSER, 1972). Relação que é vital para compreender a organização dos espaços geográficos e suas interfaces: contribuições sociais, políticas, econômicas e culturais, dos diferentes lugares que compõe uma sociedade. Para Santos (2007) a urbanização vivenciada no mundo globalizado possui estreita relação com o capital, já que o desenvolvimento e progresso da sociedade moderna é precedido pelas relações estabelecidas nas trocas do próprio capital. No Brasil, a instituição responsável pela identificação do território, definição de categorias geográficas bem como, o levantamento de dados relevantes para analisar o perfil socioeconômico, trabalho e modos de vida da sociedade, é o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. As discussões sobre as características do urbano- rural não possuem uma única definição, dada mutação constante do espaço geográfico. Segundo IBGE (2017), as dificuldades de separar por meio de características práticas rural e urbano, advém de longa data, contudo é a partir do século XX que se propõe uma investigação mais profunda para tentar definir, o que é urbano e rural em termos mais contemporâneos. Nesse esforço, o IBGE (2017) chegou as seguintes relações para o estabelecimento das categorias em análise: 1) delimitação político-administrativa; 2) o corte populacional; 3) a densidade demográfica; 4) a ocupação econômica da população, 5) a morfologia e, 6) o modo de vida (ABRAMOVAY, 2003; ANGULO, DOMINGUEZ, 1991; BERNARDELLI, 2010; ENDLICH, 2010), descritos em sequência na imagem 8. Imagem 5. Relações que diferenciam o Urbano do Rural Fonte: autoria própria (2023) No cenário amazônico, as cidades têm apresentado quase sempre o mesmo perfil, à exceção das capitais dos Estados: economia frágil e fraca; dependências dos programas do governo federal; os empregos em sua maioria são da esfera pública; baixa suficiência dos serviços básicos como infraestrutura, saúde, segurança pública e educação; e, intensa atividade rural que funciona no sistema econômico informal (COSTA; BRONDIZIO, 2009; GUEDES et al., 2009; OLIVEIRA, 2006; SILVA, 2019). Assim como em todo território nacional, na Amazônia as categorias para definir rural 1.Utilização dos limites oficiais para diferenciação dos objetivos territoriais do urbano rural. 2.Urbano tido pela concentração populacional, enquanto rural pela disperção em áreas mais extensas. 3.Número de habitantes por quilômetro quadrado, porém pouca homogeneidade no urbano e alguma diferença no rural. 4.As atividades primárias como agropecuária, são tipicamente rurais, enquanto o urbano represantado pelo segundo e terceiro setor. 5.Pode ser percebido pelas infraestruturas, edificações, loteamento, arruamentos e uso do solo. 6.Observado pela divisão das atividades relacionadas ao trabalho e à heterogeneidade social. e urbano têm sido utilizadas como regra, no entanto, de acordo com Trindade Júnior (2021) é preciso pensar em cidades para floresta, no sentido de valorizar as vivências e práticas cidadãs, se traduzidas em formas espaciais urbanas que reforcem esses conteúdos de sociabilidades e de qualidade de vida já existentes, garantirão cidades mais articuladas à região que a espaço extra locais, mais voltadas à garantia de direitos aos que nela vivem ou dela dependem que a mercados econômicos globalizados. (TRINDADE JÚNIOR, 2021, p. 322). Nessa direção, as análises sobre a classificação urbano-rural das cidades amazônicas, excepcionalmente as de pequeno porte que são mais numerosas neste território, precisam levar em consideração o modo de vida simples dos homens e mulheres conectada à natureza, de forma que os espaços citadinos tomam forma pela cultura dos diversos povos que habitam as margens dos rios, das várzeas e das florestas (OLIVEIRA, 2006). As cidades amazônicas são parte de um processo econômico global, que se iniciou na colonização e demonstra, no tempo atual da globalizado, a capacidade de criar um novo conceito do que seja urbano, observando espaços em que a vida corre mais rápido – como nas capitais dos Estados que possuem urbanização consolidada, e tempos mais lentos – como as cidades históricas e principalmente ribeirinhas cujo aspecto remonta às ruralidades, em franco desenvolvimento nesta parte do país (LIMA, 2008). Assim, a vida nas cidades amazônicas, especialmente nas pequenas e médias em que o tempo caminha mais lento, driblam as dificuldades apresentadas até aqui, expandindo suas relações sociais para compensar as adversidades locais, típicas das áreas rurais da região, tentam movimentar a economia na comercialização de poucas mercadorias e produção não agrícola para as áreas urbanas. (COSTA, et al, 2012; PADOCH, et al, 2008). Confirma-se com isso: 1) a baixa densidade nas relações socioeconômicas entre as cidades e seus arredores rurais; 2) o espaço rural comercializa o excedente de sua produção, que é raro, além de alguns artefatos artesanais; 3) as estruturas rurais e urbanas são compelidas à seguir as regiões centrais mais desenvolvidas e que repassam a produção para os mercados nacional e até internacional; 4) com base econômica instável, tanto cidades urbanas pequenas e médias, quanto do campo, sofrem com uma urbanização acelerada, que sem recursos dos órgãos gestores (Estados e Municípios) dispõe de precários serviços à seus moradores, bem como reflete no empobrecimento da população local (NEUBURGER; GEIPEL, 2004). Talvez, o motivo do não desenvolvimento ou do baixo dinamismo das cidades rurais amazônicas, resida na ausência de novas divisões do trabalho que possam movimentar o crescimento econômico da localidade, tonando-se dependente das regiões centrais e urbanas (BECKER, 2013). Diante disso, Trindade Júnior (2021) que articula as ideias de cidades da floresta – tradicionais e ribeirinhas, e na floresta – construídas para os grandes projetos, acredita que seria mais pertinente desenvolver a região amazônica as cidades para floresta – espaços urbanos que sejam capazes de resguardar as singularidades da região, atendendo aos habitantes locais e regionais - tradicionais, os que nela vivem e, que dependem direta e imediatamente para sua existência. Nesse horizonte, a vida nas cidades urbanas e rurais da Amazônia, segue em busca de um desenvolvimento local que respeite as temporalidades aqui apresentadas que próprias desta parte do país. É constituída de homens e mulheres oriundos de vários arranjos populacionais, quer sejam das comunidades tradicionais ou imigrantes, buscam na conexão com os rios, à várzea e a floresta, sua essência enquanto atores sociais capazes de contribuirativamente para o crescimento e progresso do país. No entanto, seguem em constante luta pela falta dos serviços básicos destinados à população, como saúde, moradia digna, assistência social, trabalho e educação. De forma especial, a luta atual pelo direito à educação no espaço rural do Brasil, busca impedir o fechamento das escolas do campo, resultado da política desenvolvimentista atrelada ao projeto de ocupação das extensas áreas rurais na Amazônia, promovida intensivamente pelo agronegócio (CARVALHO, 2021), tornando-se pauta da próxima seção. Referências ABRAMOVAY, R. (Org.). O futuro das regiões rurais. Porto Alegre: UFRGS Ed., 2003. ANGULO, J. V.; DOMINGUEZ, M. J. V. Los Procesos de Urbanización. Editorial Síntesis, Madrid. Ascher, FMetapolis. Celta Editora. Oeiras, 1991. ARAMBURU, M. Aviamento, Modernidade e Pós - Modernidade no Interior Amazônico. Revista Brasileira de Ciências Sociais, nº 25, 1994. ARRUDA, S. B. S. et al. 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Revista IEB, n 50, 2010.O que no período inicial destes debates não estava tão evidente como hoje é que o quadro em que esta nova/ velha luta se inseria era o de transição de modelos econômicos que implicava um rearranjo do papel da agricultura na economia brasileira. Durante a I Conferência Nacional, houve um de- bate acalorado pela reentrada do cam- po na agenda nacional, o que acabou acontecendo na década seguinte, mas não pelo polo do trabalho, e sim, pelo polo do capital, materializado no que se passou a denominar agronEgócio, promovendo uma marginalização ainda maior da agricultura camponesa e da Reforma Agrária, ou seja, das questões e dos sujeitos originários do movimen- to por uma Educação do Campo. A II Conferência Nacional por uma Educação do Campo, realizada em julho de 2004, com mais de mil participantes representando diferentes organizações sociais e também escolas de comunida- des camponesas, demarcou a amplia- ção dos sujeitos dessa luta. Foram 39 entidades, incluindo representantes de órgãos de governo, organizações não governamentais, organizações sindi- cais de trabalhadores rurais e de pro- fessores, além dos movimentos sociais camponeses, que assinaram a declara- ção final da conferência. Foi também nesse momento que aconteceu uma explicitação mais forte do contrapon- to de projetos de campo, distinguindo posições entre as entidades de apoio e entre as próprias organizações de tra- balhadores que passaram a integrar a Articulação Nacional por uma Educa- ção do Campo. Dicionário da Educação do Campo 262 O lema formulado na II Conferência Nacional, “Educação do Campo: direito nosso, dever do Estado!”, expressou o entendimento comum possível naquele momento: a luta pelo acesso dos traba- lhadores do campo à educação é espe- cífica, necessária e justa, deve se dar no âmbito do espaço público, e o Estado deve ser pressionado para formular políticas que a garantam massivamen- te, levando à universalização real e não apenas princípio abstrato. Em meio aos debates, às vezes acirrados, ficou rea- firmada a posição originária de vínculo da Educação do Campo com o polo do trabalho, o que significa assumir o con- fronto de projetos, e desde os interesses da agricultura camponesa. De 2004 até hoje, as práticas de edu- cação do campo têm se movido pelas contradições do quadro atual, às vezes mais, às vezes menos conflituoso, das relações imbricadas entre campo, edu- cação e políticas públicas. Houve avan- ços e recuos na disputa do espaço pú- blico e da direção político-pedagógica de práticas e programas, assim como na atuação das diferentes organizações de trabalhadores, conforme o cenário das lutas mais amplas e da correlação de forças de cada momento. O enfren- tamento das políticas neoliberais para a educação e para a agricultura continua como desafio de sobrevivência. Em 2010, foi criado o Fórum Na- cional de Educação do Campo (Fonec), no esforço de retomar a atuação articu- lada de diferentes movimentos sociais, organizações sindicais e outras insti- tuições, com destaque agora para uma participação mais ampliada de univer- sidades e institutos federais de educa- ção. Em seu documento de criação, o Fonec toma posição contra o fechamen- to e pela construção de novas escolas no campo, assumindo o compromisso coletivo de contraponto ao agronegó- cio e de combate à criminalização dos movimentos sociais (Fórum Nacional de Educação do Campo, 2010, p. 3). Integra esse momento político a con- quista de um decreto da Presidência da República que dispôs sobre a política de educação do campo e o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Brasil, 2010), entendido pe- las organizações do fórum como mais uma ferramenta na pressão para que a situação educacional dos trabalhadores do campo efetivamente se altere. As tensões sobre configurar a Edu- cação do Campo na agenda da ordem ou da contraordem aumentam na pro- porção em que as contradições sociais envolvidas na sua origem e no seu des- tino se explicitam com maior força na realidade brasileira. Lutar por políticas públicas parece ser agenda da “or- dem”, mas, em uma sociedade de clas- ses como a nossa, quando são políticas pressionadas pelo polo do trabalho, acabam confrontando a lógica de mer- cado, que precisa ser hegemonizada em todas as esferas da vida social para garantir o livre desenvolvimento do ca- pital. O Estado não pode negar o prin- cípio (republicano) da universalização do direito à educação, mas, na prática, não consegue operar a sua realização sem que se disputem, por exemplo, os fundos públicos canalizados para a re- produção do capital, o que, no caso do campo, significa, hoje especialmente, fundos para o avanço do agronegócio, inclusive em suas práticas de Educa- ção CorPorativa. Pela lógica do modelo dominante, é a educação rural e não a Educação do Campo, que deve retornar à agenda do Estado, reciclada pelas novas de- 263 E Educação do Campo mandas de preparação de mão de obra para os processos de modernização e expansão das relações capitalistas na agricultura, demandas que não necessi- tam de um sistema público de educação no campo. Porém, isso é confrontado pela pressão articulada que movimen- tos de trabalhadores camponeses conti- nuam a fazer a partir de outras deman- das e na direção de outro projeto. Entretanto, como defender a edu- cação dos camponeses sem confrontar a lógica da agricultura capitalista que prevê sua eliminação social e mesmo física? Como pensar em políticas de educação no campo ao mesmo tem- po em que se projeta um campo com cada vez menos gente? E ainda, como admitir como sujeitos propositores de políticas públicas movimentos sociais criminalizados pelo mesmo Estado que deve instituir essas políticas? Ainda que a Educação do Campo se mantenha no estrito espaço da luta por políticas públicas, suas relações consti- tutivas a vinculam estruturalmente ao movimento das contradições do âmbi- to da quEstão Agrária, de projetos de agricultura ou de produção no campo, de matriz tecnológica, de organização do trabalho no campo e na cidade... E as disputas se acirram ou se expõem ain- da mais quando se adentra o debate de conteúdo da política, chegando ao ter- reno dos objetivos e da concepção de educação, de campo, de sociedade, de humanidade. A explicitação do confronto principal em que se move a educação do campo fortalece aos poucos a compreensão de que, embora sejam muitos e diversos os seus sujeitos, é o camponês o sujeito coletivo que hoje identifica, na sua es- pecificidade, o polo da contradição as- sumida. Vivendo sob o capitalismo, os camponeses confrontam sua lógica fun- damental com a da exploração do traba- lho pelo capital, resistindo em um modo distinto de produzir, de organizar a vida social e de se relacionar com a natureza (ver agricultura CaMPonEsa). A Educação do Campo, como prá- tica social ainda em processo de cons- tituição histórica, tem algumas caracte- rísticas que podem ser destacadas para identificar, em síntese, sua novidade ou a “consciência de mudança” que seu nome expressa: Constitui-se como luta social pelo • acesso dos trabalhadores do campo à educação (e não a qualquer edu- cação) feita por eles mesmos e não apenas em seu nome. A Educação do Campo não é para nem apenas com, mas sim, dos camponeses, ex- pressão legítima de uma pedagogia do oprimido. Assume a dimensão de pressão co-• letiva por políticas públicas mais abrangentes ou mesmo de embate entre diferentes lógicas de formu- lação e de implementação da polí- tica educacional brasileira. Faz isso sem deixar de ser luta pelo acesso à educação em cada local ou situ- ação particular dos grupos sociais que a compõem, materialidade que permite a consciência coletiva do direito e a compreensão das razões sociais que o impedem. Combina luta pela educação com • luta pela terra, pela Reforma Agrá- ria, pelo direito ao trabalho, à cultura, à soberania alimentar, ao território.TRINDADE JÚNIOR, S. C. C. Cidade e Floresta: Paisagens, Interações e Horizontes de Vida Urbana na Amazônia. Ciência Geográfica - Bauru - XXV - Vol. XXV - (1), 2021. TRINDADE JÚNIOR, S. C. C.; SILVA, M. A. P.; AMARAL, M. D. B. Das “janelas” as “portas” para os rios: compreendendo as cidades ribeirinhas da Amazônia. In: TRINDADE JÚNIOR, S. C.; TAVARES, M. G. C. (orgs). Cidades Ribeirinhas da Amazônia: mudanças e permanências. Belém: EDUFPA, 2008. VICENTINI, Y. Cidade e História na Amazônia. Curitiba: UFPR, 2004. http://www.observatoriogeograficoamericalatina.org.mx/ 51 Educação do Campo no cenário das políticas públicas na primeira década do século 21* Antonio Munarim Resumo Analisa o processo de engendramento das políticas públicas na área específica da Educação do Campo, demonstrando as marchas e contramarchas na relação Estado e sociedade civil organizada do campo nesse período. Toma como referência inicial a vigência do Plano Nacional de Educação (Lei nº 10.172/2001), que ora se finda, e como ponto de chegada a publicação do Decreto Presidencial nº 7.352, de 4 de novembro de 2010, que dispõe sobre as políticas de Educação do Campo e a Educação na Reforma Agrária. Sinaliza a perspectiva de avanço dos movimentos e organizações sociais do campo em suas lutas por educação e por democracia no Brasil. Palavras-chave: educação rural; Educação do Campo; políticas públicas; Decreto nº 7.352/2010. * Texto produzido no âmbito da pesquisa “Educação do Campo em Santa Catarina: políticas e práticas”, com apoio do Programa Observatório da Educação, parceria entre a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad/MEC). Em Aberto, Brasília, v. 24, n. 85, p. 51-63, abr. 2011 52 Abstract Countryside Education in the setting of public policies in the first decade of the XXI Century The text proposes a review of major events concerning Countryside Education during the first decade of this century. It examines the process of engendering public policies in this area of Brazilian education, demonstrating the advances and setbacks in the relationship between the State and the organized civil society in the rural area in that period. It takes as an initial reference the National Education Plan (Law n. 10172/2001), which has now ended, and as a point of arrival, the publication of Presidential Decree n. 7352, on November 4, 2010, that regulates the policies for Countryside Education and Education in Land Reform. It indicates the prospect of progresses in rural social movements and organizations as regards their struggles for education and democracy in Brazil. Keywords: rural education; countryside education; public policy; Decree 7.352/2010. A primeira década do século 21 é intensa de fatos e acontecimentos concer- nentes à questão da Educação do Campo. Embora a militância efetiva de alguns movimentos e organizações sociais tenha se iniciado um pouco antes, na segunda metade da década anterior, é nesta que os sujeitos coletivos do campo definem um projeto de educação escolar pública para o meio rural brasileiro. As organizações e movimentos sociais do campo, com apoio em significativos setores universitários, protagonizaram uma campanha pela construção de uma concepção de Educação do Campo, que se contrapôs ao conceito, às definições e às políticas de educação rural presentes ou ausentes na história da educação brasileira. Veremos que as disputas em torno desses diferentes projetos se revelam, principalmente, na dimensão da estrutura do Estado, no qual podemos, de um lado, sinalizar a forte presença, ainda como que por efeito do movimento inercial da perspectiva neoliberal que permeou as políticas de educação do período anterior; mas, de outro lado, contrariamente a isso, podemos sinalizar também a influência, agora, dos acordos internacionais em torno da questão da educação como direito humano e em defesa da diversidade étnico-cultural que facilitam os argumentos dos protagonistas de um projeto ino- vador de educação rural, fazendo-se, assim, Educação do Campo. A disputa no interior da estrutura do Estado Essa disputa de concepção no âmago do Estado brasileiro torna-se evidente a partir da vigência, em janeiro de 2001, do Plano Nacional de Educação (PNE) – Em Aberto, Brasília, v. 24, n. 85, p. 51-63, abr. 2011 53 Lei nº 10.172/2001 –, que se esgota em 31 de dezembro de 2010. De maneira explícita ou implícita, é contra esse PNE que se dirigiram por todo o período as lutas das organizações e movimentos sociais pela instituição de políticas de Edu- cação do Campo. De fato, a se tomar por referência esse PNE, por seu conteúdo e conceitos subjacentes às diretrizes que o compõem e pelos resultados concretos que produziu, pode-se dizer que o Estado brasileiro naquele período ensejava uma espécie de anti- política de Educação do Campo. Tal entendimento, embora já em forma de denúncia e ainda que possa conter uma dose de retórica, é expresso, inclusive, em discurso oficial do Ministério da Educação (MEC), em meados da década, ao afirmar que: [...] embora [o PNE] estabeleça entre suas diretrizes o “tratamento diferenciado para a escola rural”, recomenda, numa clara alusão ao modelo urbano, a organização do ensino em séries, a extinção progressiva das escolas unidocentes e a universalização do transporte escolar. Observe-se que o legislador não levou em consideração o fato de que a unidocência em si não é o problema, mas sim a inadequação da infra-estrutura física e a necessidade de formação docente especializada exigida por essa estratégia de ensino. (Henriques et al., 2007, p. 17 – grifo meu). O resultado mais expressivo e, do ponto de vista dos protagonistas da Educação do Campo, mais nefasto dessa “antipolítica” que, de certa forma, resumiria todos os demais, está no fechamento indiscriminado de escolas em comunidades rurais por ação dos governos estaduais e municipais. Mais nefasto porque, conforme esse entendimento, o fechamento da escola na comunidade coaduna-se ou seria parte de uma estratégia de imposição de um processo de desterritorialização das populações rurais tradicionais para dar lugar físico-geográfico e político a outro modelo de desenvolvimento econômico do campo com base na agricultura industrial e de mercado. De fato, por toda a década que passou e hoje ainda, é prática muito comum o fechamento de escolas no campo. Entendem esses governantes estaduais e mu- nicipais que fechar uma escola no campo e transportar os alunos remanescentes é menos oneroso ao erário público e, de quebra, mais civilizatório ou modernizante, afinal, ainda nessa visão, a escola urbana seria o ideal almejado por todos. Enfim, trata-se do império da racionalidade econômico-financeira e da ideologia do desen- volvimento capitalista urbanocentrado. Por essa perspectiva, não se levam em conta os prejuízos sociais causados com esses procedimentos administrativos de desterritorialização de pessoas e comunidades inteiras. Esse PNE é um dos últimos atos de um período de muitas reformas educacionais – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Parâmetros Curriculares Na- cionais (PCN) etc. – baseadas em consenso imposto pelos organismos internacionais, mormente o Banco Mundial, aos países de capitalismo dependente como o Brasil. E as prescrições desses organismos orientavam-se, antes de tudo, pela racionalidade econômica que embasa o projeto dominante de desenvolvimento capitalista. De outro lado, mesmo sob os efeitos dessas reformas, instituem-se, no âmbito do Conselho Nacional de Educação (CNE), normas que apontam a perspectiva conceptual da Educação do Campo. Assim, pois, no que se refere ao aparelho de Estado, diretamente encarregado das questões da Educação tambémpara o meio Em Aberto, Brasília, v. 24, n. 85, p. 51-63, abr. 2011 54 rural, teve-se uma década de contradições ou de oposição entre o instituído na Lei do PNE e as práticas de gestão local desterritorializantes daí decorrentes e o instituído nas resoluções do CNE. Ora, nessa disputa, no plano imediato, não é difícil perceber que o chão da escola do campo aparece como o grande perdedor. Mas também fica evidente que o não cumprimento das Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo (Resolução CNE/CEB nº 1/2002), no âmbito dos municípios e dos Estados, não decorre apenas de seus jeitos locais de governar. Em vez disso, todo o quadro institucional, que abrange os três sistemas de ensino, é condicionado por essas determinações mais poderosas do contexto ampliado acima referido. Nas marchas e contramarchas das disputas no interior do Estado, para ilustrar, convém evidenciar um fato ocorrido no âmbito do MEC. Em 2005, o governo federal deixou passar a oportunidade de revisão do PNE, previsto na própria lei que o institui. Diga-se ainda que, no âmbito de sua Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), mais especificamente de sua Coordenação-Geral de Educação do Campo, chegou a ser elaborada uma proposta de capítulo específico para ser incluído no PNE revisado. Essa proposta, construída com a participação das organizações e mo- vimentos sociais do campo, continha em sua estrutura conceitos, diretrizes e metas resultantes das experiências e dos debates desses movimentos e organizações sociais, que ensejavam nitidamente uma luta contra-hegemônica no campo da educação. Em vez da revisão do PNE, em 2005, é lançado o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), um conjunto de programas e ações governamentais importantes, mas que não acena para uma mudança radical na estrutura da educação brasileira no que concerne a seu compromisso com o desenvolvimento do capital – antes, trata-se de um conjunto de proposições que compõem a essência do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), de cunho desenvolvimentista – e também não possui políticas diferenciadas de Educação do Campo capazes de implicar mudanças nas estruturas dos sistemas esta- duais e municipais de educação. Alguns programas importantes são instituídos nesse sentido, mas ficam longe de exercer um poder de induzir a mudanças compulsórias nas instâncias infra do Estado. Ademais, se não bastasse a ação negativa do PNE, vicejando diretamente dentro do Ministério da Educação contrariamente à Educação do Campo, juntam-se a isso forças existentes em outros espaços do Estado e que são igualmente contrárias à emergência e à consolidação desse arcabouço de projeto de desenvolvimento educacional alternativo aos povos do campo. Refiro-me, por exemplo, à ação dos órgãos de controle de Estado, que inibem o desenvolvimento de programas complementares como o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera). As conquistas na estrutura do Estado Em que pese a histórica e hegemônica vertente anticampo do Estado brasileiro e seu PNE, percebemos dois conjuntos de ações que se relacionam e são determi- nantes de uma nova prática iniciada na última década, ensejando, enfim, políticas públicas de Educação do Campo que apontam para um projeto anti-hegemônico. Significa dizer que, embora muito lentamente e contrariado de forma explícita pelos Em Aberto, Brasília, v. 24, n. 85, p. 51-63, abr. 2011 55 efeitos do PNE, o próprio Estado vem passando por mudanças estruturais que sinalizam uma inflexão. Um primeiro conjunto de ações que denotam essa inflexão identifica-se justamente na forma de um marco legal já bastante significativo, no qual constam a Resolução CNE/CEB nº 1, de 3 de abril de 2002 e a Resolução CNE/CEB nº 2, de 28 de abril de 2008, que instituem as Diretrizes Operacionais da Educação Básica nas Escolas do Campo – e o Decreto nº 7.352, de 4 de novembro de 2010, que dis- põe sobre a política de educação do campo e o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera). Como não é possível analisar o novo PNE em confrontação ao que se encerra, por não estar ainda elaborado, proponho uma incursão sobre as Diretrizes Operacionais e, principalmente, sobre o Decreto nº 7.352/2010, no sentido de se evidenciar as conquistas políticas da Educação do Campo no âmbito da estrutura do Estado. Ademais, a aposta é que essas normativas serão absorvidas no espírito e no conteúdo do PNE que está por vir. Resolução CNE/CEB nº 1, de 3 de abril de 2002 No referente à educação escolar no meio rural, o conteúdo da Resolução CNE/ CEB nº 1/2002 representa um início, admitido pelo Estado, de tempos de construção de um novo paradigma para a educação do meio rural. Focando nossa atenção ao que é específico para as escolas do campo, veremos que se trata de eixos norteado- res, ou princípios a serem seguidos, que, conforme sinalizamos antes, se contrapõem ao arcabouço daquilo que se tem entendido tradicionalmente por educação rural. Vejamos algumas categorias que pautam a Resolução: a) Universalização – consta no art. 3º “garantir a universalização do acesso da população do campo à Educação Básica e à Educação Profissional de Nível Técnico”. Note-se que esta Resolução nº 1 pontua apenas a universalização do acesso, mas a Resolução CNE/CEB nº 2, de 2008, no art. 1º, § 1º, amplia essa conquista, propondo como objetivo da Educação do Campo a “universalização do acesso, da permanência e do sucesso escolar com qualidade em todo o nível da Educação Básica”. b) Diversidade – categoria central da Educação do Campo, a diversidade está posta no art. 5º, assim como no art. 13: Art. 5º – As propostas pedagógicas das escolas do campo, respeitadas as diferenças e o direito à igualdade [...], contemplarão a diversidade do campo em todos os seus aspectos: sociais, culturais, políticos, econômicos, de gênero, geração e etnia. c) Formação dos professores e organização curricular – merece destaque a indicação inequívoca da Resolução nº 1/2002 sobre a necessidade de uma nova postura, por parte da escola, diante da diversidade dos educandos e dos demais sujeitos que vivem no campo, que não são bancos depositários nem sujeitos passivos. Traz ainda a indicação de como se devem empreender os novos processos de formação dos docentes. Em Aberto, Brasília, v. 24, n. 85, p. 51-63, abr. 2011 56 d) Sustentabilidade ou desenvolvimento sustentável – o art. 8º, inciso II, determina o “direcionamento das atividades curriculares e pedagógicas para um projeto de desenvolvimento sustentável”. e) Gestão democrática e controle social – a participação efetiva da comunidade, na forma de organizações de sujeitos coletivos do campo, constitui forte eixo norteador na Educação do Campo. Essa participação é preconizada desde as definições das políticas junto aos órgãos gestores até o cotidiano da escola do campo. Resolução CNE/CEB nº 2, de 28 abril de 2008 Destaco desta Resolução dois aspectos que julgo essenciais. O primeiro situa-se no campo simbólico, isto é, pela primeira vez num documento normativo aparece a denominação “Educação do Campo”. Em seu art. 1º, justamente ao afirmar um conceito, determina que: Art. 1º – A Educação do Campo compreende a Educação Básica em suas etapas de Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio e Educação Profissional Técnica de nível médio integrada com o Ensino Médio e destina-se ao atendimento às populações rurais em suas mais variadas formas de produção da vida. O outro aspecto diz respeito às condições materiais de frequência à escola. Trata de coibir o uso abusivo do transporte escolar, mormente do campo para a cidade, e o correspondente fechamento de escolas no campo. Essa Resolução impõe disciplina ao transporte de crianças e jovens e, principalmente, impõe limites às distâncias a serem ou não percorridas, coerentementecom a idade do estudante usuário. Ao mesmo tempo, estimula a (re)criação de escolas locais. Decreto nº 7.352, de 4 de novembro de 2010 O Decreto dispõe sobre a política de educação do campo e o Pronera. Ou seja, de um lado, enfim, é possível dizer que se tem no Brasil uma política pública, no seu sentido de política permanente, porque é materializada no escopo do Estado brasileiro. Com efeito, bem mais que as resoluções do CNE que é “apenas” um órgão de acon- selhamento de um ministério (MEC), o Decreto, baixado pelo Presidente da República, tem muito mais forte o sentido de concretização dos resultados – nesse caso positivos – das lutas sociais por Educação do Campo empreendidas até o presente. Significa um momento alto do processo de materialização dessas lutas (Poulantzas, 1985), que acabam por compor o próprio desenho da instituição Estado nesse contexto de disputas. Importante ponto de chegada, o Decreto é, simulta neamente, um suporte para sustentar os ideais dessas mesmas lutas, que continuarão nos espaços próprios das organizações e movimentos sociais e no interior das esferas estatais. Ao mesmo tempo, e comprovando a primeira observação, ao dispor sobre o Pronera como parte de seu conteúdo essencial, o Decreto eleva esse programa Em Aberto, Brasília, v. 24, n. 85, p. 51-63, abr. 2011 57 governamental à categoria de política pública e valoriza, em vez de criminalizar, a ação das organizações e movimentos sociais do campo concernentes à educação escolar no âmbito da reforma agrária. Nesse sentido, para além da referência à reforma agrária, o Decreto significa também um reforço oficial ao projeto de agricultura camponesa. Duas observações de ordem geral dizem respeito, uma, ao espírito estruturante do Decreto e, a outra, à sua efetivação em práticas educativas. Conforme previsto em seu art. 1º, as ações decorrentes de sua determinação serão desenvolvidas de acordo com as disposições do próprio Decreto e com as diretrizes e metas estabelecidas no PNE. Já o art. 9º, inciso I, do Decreto nº 7.352/2010, prevê que o ente federado local, para demandar apoios técnico e financeiro suplementares junto à União, entre outras condições, “[...] no âmbito de suas responsabilidades, deverá prever no respectivo plano de educação, diretrizes e metas para o desenvolvimento e a manutenção da educação do campo” (grifo meu). Por esse conteúdo, pode-se dizer que o Decreto possui um viés indutivo de políticas e estruturante, ou seja, se os recursos técnicos e financeiros disponíveis forem significativos, qualquer gestor local deverá sentir-se estimulado a elaborar o “respectivo plano” e/ou incrementá-lo com diretrizes e metas específicas de Educação do Campo. Quanto à sua efetivação, o Decreto é publicado exatamente num momento de transição entre um PNE que se extingue, e cujas diretrizes e metas representam a política de educação referida no início deste texto como a “antipolítica” de Educação do Campo, e um Plano novo,1 cujas diretrizes e metas são traçadas no âmbito da esfera superior do Estado brasileiro para, desde aí, serem traduzidas em diretrizes e metas consignadas nas estruturas infra deste Estado. O caput do art. 9º diz, ainda, que o MEC “disciplinará os quesitos e os procedimentos para apresentação, por parte dos Estados, Municípios e Distrito Federal, de demandas de apoio técnico e financeiro suplementares.” Desse modo, constata-se, pois, que o tempo de transição se traduz em uma situação de relativa indefinição ou de movimentos de adaptações, para a qual espe- cialmente as autoridades do MEC devem prestar atenção sobre, pelo menos, dois aspectos. O primeiro é que o Decreto passará a produzir seu maior efeito somente com a vigência do novo PNE; e é a partir daí que essas diretrizes e metas deverão ser incorporadas, com as devidas adaptações, nos respectivos planos estaduais e municipais. Entretanto, para que essas incorporações possam ser efetivadas nos planos estaduais e municipais, os respectivos governos precisarão de um prazo, pois terão de elaborar ou reelaborar seus planos de educação à luz do Plano Nacional. Ainda, mais que prazo, esses governos locais deverão ser exortados, por meio de campanhas de informação e de convencimento, acerca das determinações do refe- rido Decreto sobre a Educação do Campo. Precisam ser alertados, por exemplo, sobre os “quesitos e procedimentos para apresentação (...) de demandas de apoio técnico e financeiro suplementares”. 1 No momento em que este texto foi escrito, ainda não era de conhecimento público a proposta de Plano Nacional de Educação para o decênio 2011-2021 e, portanto, não eram conhecidas as referências e metas específicas para a Educação do Campo. Para elaborar este artigo, a suposição foi que o novo Plano incorporaria as definições dadas no Decreto nº 7.352/ 2010. Em Aberto, Brasília, v. 24, n. 85, p. 51-63, abr. 2011 58 Enquanto não se cumprir o início da vigência do novo PNE e dos respectivos planos locais de educação, por consequência, os quesitos e procedimentos não estarão dados para que os entes locais façam jus a apoio técnico e financeiro suplementares. Eis aí o outro aspecto que necessita de atenção do MEC: alguns programas do go- verno federal já funcionam dessa forma em relação às escolas classificadas como rurais por localização – um exemplo é o Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), que designa um adicional de 50% à escola rural comparativamente à escola urbana. Ora, entendo que deva ser, por óbvio, condição absoluta que uma escola situada no perímetro urbano, ainda que seja possível declarar-se do campo, cumpra, antes de tudo, todos os quesitos; do mesmo modo, é preciso que se defina um prazo para além do início da vigência do novo PNE para que todas as escolas situadas no meio rural cumpram tais quesitos. Entretanto, não seria plausível que os benefícios já conquistados por essas escolas fossem sustados durante o tempo de passagem de uma situação a outra. Por fim, além da consolidação daquilo que já dispunham as resoluções do CNE acima referidas, destaco como novidade, entre outras presentes no Decreto nº 7.352/2010, a que se refere à ampliação do direito à educação superior e, principal- mente, ao conceito de escola do campo: a) Educação superior – consta do caput do art. 1º que “a política de educação do campo se destina à ampliação e qualificação da oferta de educação básica e superior às populações do campo” (grifo meu). Certamente, essa referência à educação superior significa avanço substantivo, na medida em que possibilita suporte legal à instituição de eventuais ações governamentais diferenciadas. Entretanto, há que se supor que a ampliação da oferta não diminuirá o compromisso do Estado já firmado na Resolução CNE/CEB nº 1/2002, que garante a “universalização do acesso, da permanência e do sucesso escolar com qualidade em todo o nível da Educação Básica”. b) Conceito de escola do campo – está definido no art. 1º, § 1º, inciso II: [é] aquela situada em área rural, conforme definida pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, ou aquela situada em área urbana, desde que atenda predominantemente a populações do campo” (grifo meu). Não tenho dúvida de que a maior novidade e efetiva conquista da Educação do Campo nesse Decreto está na definição da escola do campo a partir dos sujeitos a que se destina, e não mais a partir de uma definição dicotômica, arbitrária e esdrúxula, para a maioria dos municípios brasileiros, sobre o que é perímetro urbano e o que é perímetro rural. Essa definição é capaz de gerar consequências muito significativas, especialmente porque se vincula de maneira direta a um quesito estruturante, talvez o mais de todos, que é o financiamento público da educação escolar. Com efeito, na medida em que uma escola situada no perímetro urbano for declarada escola do campo, fará jus aosrecursos financeiros suplementares refe- rentes a cada aluno matriculado. Dentre esses recursos, destaca-se o decorrente do fator de ponderação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Em Aberto, Brasília, v. 24, n. 85, p. 51-63, abr. 2011 59 Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), que, para o ano de 2010, por exemplo, se traduz em um adicional médio per capita de 15% em comparação a cada aluno matriculado em escola urbana. Convém aqui a ressalva de que, para que esse benefício não acabe por gerar distorções indesejadas no âmbito das administrações das escolas e dos entes estatais locais, o Decreto prevê condições e critérios a serem obrigatoriamente seguidos. Dessa forma, ao segui-los, os gestores justificam com folga a necessidade real de mais recursos financeiros por aluno/ano matriculado também naquela escola situada no perímetro urbano e declarada do campo e, de quebra, respondem afirmati vamente ao espírito indutivo do Decreto a ações em favor da Educação do Campo. Avanços no ventre da sociedade civil A perspectiva gramsciana de Estado ampliado, aqui adotada, supõe a presença da sociedade civil como lócus ou momento definidor nesse processo de disputa. Nessa perspectiva, convém evidenciar que um conjunto de ações na área específica se con- forma no ventre da sociedade civil, para formar uma espécie de “questão da Educação do Campo”. Estou falando de um espaço próprio das organizações e movimentos sociais do campo e seus parceiros diversos, onde realizam experiências e procedem a elaborações temáticas sobre questões da educação dos povos que vivem no e do campo. Evidencio a seguir, resumidamente, três ações estratégicas e articuladas entre si, que considero das mais marcantes nesse caminho contra-hegemônico das organizações e movimentos sociais do campo. Experiências pedagógicas e político-pedagógicas Nesta década, não cessou o exercício de práticas educativas genuínas e independentes dos sistemas oficiais por parte de diversos movimentos e organizações sociais do campo que capilarizam todas as regiões do Brasil. Essas ações, ainda que, em geral, de educação não formal, que visam formar a própria base social e/ou seus próprios quadros dirigentes, sustentam um importante processo de práxis, cujos re- sultados servem de referências concretas ao conjunto dessas organizações. Do mesmo modo, embora de forma limitada, não cessou a influência direta de parte dessas or- ganizações e movimentos sociais do campo sobre os sistemas públicos de ensino. Nesse sentido, podemos afirmar que a maior presença do Estado, mormente do governo federal, nessa área e nesse período não inibiu – ao invés, estimulou, inclusive com financiamento direto –, a ação em especial na Educação de Jovens e Adultos e na formação de professores das escolas do campo. Dentre tantas, merecem destaque especial experiências como as do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), das entidades que gravitam a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) e dela própria, da Rede de Educação do Semi-Árido Brasileiro (Resab) e do conjunto de Centros de Formação por Alternância (Cefas). Em Aberto, Brasília, v. 24, n. 85, p. 51-63, abr. 2011 60 Cada uma dessas experiências traz marcas próprias, forjadas em contextos e com suportes teóricos próprios. É exatamente o conjunto de ações dessas organizações e movimentos sociais que se relacionam que vem constituindo o que podemos chamar, com a ajuda de Thompson (1987), de experiência de classe no ou a partir do campo específico da educação. Em outros termos, a relação que se estabelece, contraditória, mas sob mediações teóricas e políticas, entre essas diferentes expe- riências pedagógicas e político-pedagógicas faz por conservar vivo um processo nuclear de construção de um projeto histórico de Educação do Campo com toda a marca de classe social que essas organizações e movimentos sociais lhe querem imprimir diante das constantes ameaças de desnaturação ou de desvirtuação que esse projeto sofre. Da Articulação Nacional ao Fórum Nacional de Educação do Campo Na mesma perspectiva de experiência de constituição de classe aludida acima, destaca-se a articulação política dessas entidades ao longo da década em foco, a começar por um marcante último momento dessa trajetória, a criação do Fórum Nacional de Educação do Campo (Fonec), no dia 16 de agosto de 2010, em Brasília. Por autoconvocação, um grupo inicial de 26 representações institucionais, de todas as regiões do País, do movimento social camponês, do movimento sindical, de or- ganizações não governamentais e de universidades públicas, que de alguma forma trabalham com educação do campo, constitui o Fórum, assinando sua “Carta de Criação”. É firmado, nessa carta, como objetivo principal o exercício da análise crítica constante, severa e independente acerca de políticas públicas de Educação do Campo, bem como a correspondente ação política com vistas à implantação, à consolidação e, mesmo, à elaboração de proposições de políticas públicas de Educação do Campo. (Fonec, 2010). Três particularidades desse “momento” da ação coletiva articulada em torno dessa temática devem ser evidenciadas: a) seu caráter eminentemente político, e deliberadamente assim definido; b) seu âmbito de abrangência nacional, também assim deliberadamente construído; e c) o momento histórico de sua ocorrência concernente à política nacional – final do governo Lula e momentos antes da definição de quem viria a sucedê-lo. Há que se observar que, de alguma maneira, o medo da perda do já conquistado durante um período de condições favoráveis no que se refere ao governo da União motiva a mobilização daquelas entidades com vistas a assegurar o futuro que se apresentava incerto. De outro lado, marca o início dessa experiência histórica a chamada Articulação Nacional por uma Educação do Campo, que existiu desde a organização e realização da Primeira Conferência Nacional de Educação do Campo, em 1998, até a realização da Segunda Conferência, em 2004. Com raízes inici almente na mobilização por educação na reforma agrária, algumas poucas organizações capitaneadas basicamente pelo MST, com apoio de instituições como Universidade Em Aberto, Brasília, v. 24, n. 85, p. 51-63, abr. 2011 61 de Brasília (UnB), Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), constituíram uma rede que desempenhou importante papel principalmente na elaboração das bases conceptuais daquilo que viria a ser chamado de Educação do Campo. Na segunda metade desse “momento inicial”, a Contag desempenhou função relevante, especialmente imprimindo ao Movimento por uma Educação do Campo o caráter de luta por políticas públicas. Muito ativa durante o segundo mandato do governo Fernando Henrique Cardoso e o início do governo Lula, de alguma maneira, na medida em que o MEC, já no go- verno Lula, abre espaço e responde a demandas do Movimento por uma Educação do Campo, essa Articulação Nacional se desfaz. Importa aqui observar que o interregno transcorrido entre o fim da Articulação Nacional e a criação do Fonec foi profícuo no desenvolvimento de experiências aparentemente particulares de educação do campo. Eis que ações ocorreram a partir tanto do fomento a projetos pelo Pronera quanto do fomento a projetos por parte da Secad no âmbito dos sistemas educacionais estaduais, envolvendo, em ambos os casos, importantes setores de universidades públicas distribuídas ao longo de todo o País. Ouso aventar como hipótese que essas experiências particulares são especialmente ricas, antes de tudo, por se desenvolverem, cada uma delas, numa perspectiva de práxis. De outro lado, isso se torna possível justamente em razão da aproximaçãoentre esses três sujeitos históricos: o Estado, representado pelos órgãos do governo federal que organizam as demandas e as financiam em forma de projetos; as universidades públicas, que executam os projetos em parceria com os governos estaduais e fazem deles ações reflexivas; e os movimentos e organizações sociais do campo, que exercem protagonismo efetivo nessa relação institucional, tanto no âmbito da política, exercendo o controle social, quanto no âmbito da prática peda- gógica propriamente dita, demonstrando a plausibilidade de sua pedagogia. Por fim, é certo que a criação, agora, do Fórum Nacional de Educação do Campo não significa uma simples retomada da Articulação Nacional extinta. Mas não tenho dúvidas da existência de um nexo histórico entre esses dois momentos da organização da sociedade civil, no que concerne à Educação do Campo, consti- tuindo, desse modo, uma experiência única. Nesse sentido, também, as experiências particulares ocorridas no interregno desempenharam um papel de ligação entre um momento e outro desse Movimento Nacional de Educação do Campo. Essas experi- ências, na verdade, perdem o caráter particularista na medida em que passam a comungar dos mesmos princípios políticos e pedagógicos, que, aliás, elas mesmas ajudam a criar a partir dos diversos encontros temáticos ou de gestão que se reali- zam no âmbito nacional. Apesar de todas as contradições que acompanham esses encontros – de formação, de avaliação, de planejamento e de pesquisa, inclusive a última Conferência Nacional de Educação (Conae) que ocorreu em maio de 2009 –, foi a partir daí que se instalaram vasos comunicantes entre uma e outra experiência situadas em contextos próprios para dar corpo a isso que estou chamando experi- ência histórica em Educação do Campo. Em Aberto, Brasília, v. 24, n. 85, p. 51-63, abr. 2011 62 Conclusão Para finalizar esta reflexão, a ser compreendida como um ponto de partida para outras reflexões, importa reafirmar que o movimento social por políticas públicas de Educação do Campo que ocorre no Brasil, com maior visibilidade nessa última década, e que estou a chamar de Movimento Nacional de Educação do Campo, nasce e se sustenta fundamentalmente na ação protagonista das organizações e movimentos sociais do campo, que lutam por soberania educacional e por territorialização ou defesa de território material (terra) e imaterial (conhecimento). Ademais, a importância dessa luta setorial por Educação do Campo, da parte desses sujeitos protagonistas, está justamente no fato de que eles extrapolam a setorialização ou compartimentação das políticas. Exigem que as políticas para essa educação se façam inerentes a um projeto de campo e de País conforme almejam. Embora não tenham força para impor a efetivação desse projeto – nem de País e nem sequer de campo – de toda forma, demonstram firmemente que eles existem como sujeitos propositores e ativos no cenário nacional. Isso é muito importante no processo de construção democrática de uma nação como o Brasil, em que muita gente vive no campo e do campo. Referências bibliográficas BRASIL. Conselho Nacional de Educação (CNE). Câmara de Educação Básica (CEB). Resolução CNE/CEB nº 1, de 3 de abril de 2002. Institui Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo. Diário Oficial da União, Brasília, v. 67, Sessão 1, p. 32, 9 abr. 2002. Disponível em: . BRASIL. Conselho Nacional de Educação (CNE). Câmara de Educação Básica (CEB). Resolução CNE/CEB nº 2, de 28 de abril de 2008. Estabelece diretrizes complementares, normas e princípios para o desenvolvimento de políticas públicas de atendimento da Educação Básica do Campo. Diário Oficial da União, Brasília, v. 81, Sessão 1, p. 25, 29 abr. 2008. BRASIL. Decreto nº 7.352, de 4 de novembro de 2010. Dispõe sobre a política de educação do campo e o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária –PRONERA. Diário Oficial da União, Brasília, Sessão1, 5 nov. 2010. Disponível em: . FERNANDES, Bernardo Mançano. Os campos de pesquisa em educação do campo: espaço e território como categorias essenciais. In: ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO DO CAMPO, 2005, Brasília. Anais do I Encontro... Brasília, 2005. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/secad/arquivos/pdf/ educacaodocampo/artigo_bernardo.pdf> Acesso em: 3 jul. 2009. _______. Educação do campo e território camponês no Brasil. In: SANTOS, C. A. (Org). Campo, políticas públicas, educação Brasília: Incra, MDA, 2008. p. 29-66. (Coleção Por uma Educação do Campo, 7). Em Aberto, Brasília, v. 24, n. 85, p. 51-63, abr. 2011 63 FÓRUM NACIONAL DE EDUCAÇÃO DO CAMPO (Fonec). Carta de criação do Fórum [...] na sede da Contag, durante os dias 16 e 17 de agosto de 2010. Brasília, 2010. Disponível em: http://www.frecsupa.net.br/p/documentos_29. html>. GRAMSCI, Antonio. Concepção dialética da história. 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984a. _______. Maquiavel, a Política e o Estado Moderno. 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984b. HENRIQUES, Ricardo et al. (Orgs.). Educação do Campo: diferenças mudando paradigmas. Brasília: Ministério da Educação, Secad, 2007. Disponível em: . MUNARIM, Antonio. O cenário da construção de uma política pública de Educação do Campo. Marco Social, Instituto Souza Cruz, Rio de Janeiro, v. 12, n. 1, p. 8-11, jul. 2010. POULANTZAS, Nicos. O Estado, o poder, o socialismo. Rio de Janeiro: Graal, 1985. THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1987. Antonio Munarim, pós-doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geo- grafia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Presidente Prudente, doutor em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), é professor e pesquisador associado da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde coordena o Instituto de Educação do Campo. munarim@ced.ufsc.br Em Aberto, Brasília, v. 24, n. 85, p. 51-63, abr. 2011 EDUCAÇÃO DO CAMPO E A ESCOLA MULTISSERIADA NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA Geraldo Augusto Locks 1 Maria de Lourdes Pinto de Almeida 2 Simone Rafaeli Pacheco 3 Resumo Este texto reflete aspectos históricos da educação no Brasil com foco nas escolas multisseriadas inseridas no meio rural. Utiliza-se uma abordagem metodológica bibliográfica e documental por meio da qual busca-se informações acerca da legislação e do desenvolvimento do sistema educacional. A educação brasileira se desenvolve no bojo do empreendimento colonial português. Inicia-se com a chegada da Companhia de Jesus, cuja missão era catequizar os povos indígenas de acordo com a fé cristã, a fim de propagar, difundir valores e princípios cristãos. O acesso à educação era restrito às elites e as camadas populares permaneciam sem acesso à “instrução”, pois manter a nova ordem estabelecida era o principal interesse do Brasil colônia e imperial. Nesse período nem se discutia a escola multisseriada, o destaque era para o ensino propedêutico, clássico, humanista e de cunho literário e formativo oferecido principalmente à aristocracia rural até 1759, quando a os Jesuítas foram expulsos do Brasil. Após a expulsão dos jesuítas, o Estado criou as Aulas Régias e nomeou os professores. As Aulas Régias eram sinônimo de escola, aulas avulsas e isoladas. Assim, os alunos podiam frequentar umas ou outras indiferentemente, pois não havia articulação entre elas. Entrevê-se nesse processo o início da escolarização por meio do sistema multisseriado, considerando que não havia um programa específico para cada estágio de desenvolvimento dos alunos. Após a vinda da Família Real em 1808, a educação escolar destinada à população geral ficourestrita basicamente às aulas régias avulsas de primeiras letras e algumas escolas de ensino secundário no Rio de Janeiro. Esse cenário mostra que a educação sem um padrão de atendimento aos alunos de acordo com o desenvolvimento de cada idade, com séries ou classes distintas, concentra a gênese da escola multisseriada para as classes populares, e também marca o início da desvalorização da educação para os menos favorecidos e do descaso em relação às condições psicológicas, sociais, físicas, materiais e econômicas dos professores nomeados para “educar” os mais pobres. A Constituição Federal de 1824 preconizou a instrução primária e gratuita para todos os cidadãos. É na pretensa disposição do governo em “instruir” no sentido de amenizar a ignorância, que se institui de fato o sistema multisseriado e adota-se o princípio do ensino mútuo, ou seja, as classes eram heterogêneas e os mais adiantados ajudavam os que encontravam dificuldades na aprendizagem. Quanto às escolas multisseriadas, pode-se dizer que as reformas 1 Graduado em Ciências Sociais pela UNIPLAC, Mestre e Doutor em Antropologia pela UFSC, pós doc em Educação pela UFSC. Coordenador Adjunto e Professor do Programa de Pós-Graduação Mestrado em Educação da Universidade do Planalto Catarinense (UNIPLAC). E–mail: geraldolocks@gmail.com. 2 Pedagoga e Historiadora, Mestre e Doutora em Educação pela UNICAMP, pós doc em Politicas Educacionais pela USP e em Ciência Tecnologia e Sociedade pela UNICAMP. Coordenadora e Professora do PPGE da Universidade do Planalto Catarinense. E-mail: malu04@gmail.com 3 Graduada em Pedagogia pela UNIPLAC, Pós-graduada em Supervisão Escolar pela UNIPLAC e Metodologia do Ensino pela Faculdade Plínio Augusto do Amaral e Mestranda do Programa de Pós- Graduação Mestrado em Educação da Universidade do Planalto Catarinense (UNIPLAC). E-mail: simonerafaeli@hotmail. implantadas na última fase do Império contribuíram para a substituição do ensino ministrado por um único professor para um grupo de alunos em diferentes níveis de aprendizado, pelo sistema de seriação e agrupamento de alunos. Isso se deu através da criação dos grupos escolares em boa parte do território nacional. Hoje a escola multisseriada vem sendo objeto de disputa no campo das políticas educacionais. Quando milhares delas nas últimas duas décadas tem sido fechadas, o Movimento Nacional da Educação do Campo reivindica sua permanência, particularmente, na sua avaliação, por se constituir em uma modalidade de educação adequada às peculiaridades, complexidade e diversidade dos povos do campo. EDUCAÇÃO DO CAMPO E A ESCOLA MULTISSERIADA NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA Na história se realiza o homem e somente o homem. Portanto, não é a história que é trágica, mas o trágico está na história; não é absurda, mas é o absurdo que nasce da história; não é cruel, mas as crueldades são cometidas na história; não é ridícula. Mas as comédias se encenam na história. [...] Nenhuma época histórica é, em absoluto apenas uma passagem para outro estágio, assim como nenhuma época se eleva acima da história. A tridimensionalidade do tempo se desenvolve em todas as épocas: se agarra ao passado com os seus pressupostos, tende para o futuro com suas consequências e está radicada no presente pela estrutura. (KOSIK, 1995) Este texto reflete alguns aspectos da história da educação no Brasil com foco nas escolas multisseriadas inseridas no campo brasileiro, que do ponto de vista formal se inicia com a chegada dos portugueses e jesuítas. O território brasileiro era habitado por povos indígenas que possuíam formas particulares de organização social, política, econômica e cultural (FERNANDES apud SAVIANI, 2008, p 33). Com o processo de colonização do Brasil e exploração das terras, a figura dos padres jesuítas surge com a missão de evangelizar e catequizar os indígenas de acordo com a fé cristã, a fim de propagar valores e princípios cristãos, ou seja, “viram-se, então, diante da árdua tarefa de civilizar seres exóticos, cuja essência humana admitia com certa desconfiança e pouca convicção, através de formas alternativas de ação pedagógica” (XAVIER, 1994, p. 40). Nesse período nem se discutia o escola multisseriada, o destaque era para a educação destinada às elites e que estava a cargo dos jesuítas, dedicados ao ensino propedêutico, clássico, humanista e de cunho literário e formativo oferecido principalmente à aristocracia rural, aos nobres e aos “burgueses abonados”, compatível com os “interesses da Igreja e da sua Ordem”, possibilitando ao alunado optar pela formação sacerdotal, ou prosseguir seus estudos na Europa (PONCE, 1998, p. 119). Os jesuítas montaram, na Colônia, um sistema de ensino nos moldes europeus, denominado de Ratio Studiorum. Este plano de estudos, segundo Saviani (2008), tratava-se de um plano universalista e elitista. Universalista porque deveria ser adotado por todos os jesuítas, e elitista porque se destinava aos filhos dos colonos, excluindo os indígenas e negros, contribuindo assim para a conversão dos colégios jesuítas em colégios para a elite colonial. O predomínio da educação jesuítica permaneceu no Brasil até 1759, quando os padres da Companhia de Jesus foram expulsos do Brasil pelo Marquês de Pombal - Sebastião José de Carvalho e Melo -, que pretendia desmantelar o sistema colonial de ensino com novas experiências educacionais e implantação das “reformas pombalinas”. Essas reformas tinham como base os ideais do Iluminismo, que visavam transformações de origem econômica, política e cultural, com o intuito de colocar Portugal e suas colônias no mesmo patamar que as demais nações europeias rumo à modernidade. Para Saviani (2008, p. 80), defendiam o desenvolvimento cultural do Império português pela difusão das novas ideias de base empirista e utilitarista, ou seja, da experiência e da razão. A educação precisaria se contrapor ao modelo jesuítico com a instituição das reformas pombalinas da instrução pública, introduzindo as “Aulas Régias”. Segundo Pantel (2011, p. 24), esse processo trouxe a dinâmica do ensino multisseriado, que certamente se transformou ao longo dos tantos anos e de diferentes processos sociais, permanecendo, porém, ampla, diversa e fortemente presente na escola brasileira. Após a expulsão dos jesuítas, o Estado criou as Aulas Régias e nomeou os professores. Essas aulas limitavam-se às primeiras letras (latim, grego, filosofia, geografia, gramática, retórica, matemática) e eram organizadas em espaços físicos oportunizados pelos professores em uma sala de sua casa ou numa sacristia, que após efetivarem a matrícula e o funcionamento da “escola”, recebiam o pagamento mensal oriundo de um imposto chamado “Subsídio Literário”, criado com esta finalidade (XAVIER, 1994, p. 57). Para Saviani (2008, p.108), as aulas régias eram sinônimo de escola, porque avulsas e isoladas. Assim, os alunos podiam frequentar umas ou outras indiferentemente, pois não havia articulação entre elas. O desenvolvimento das aulas régias aconteceu em ritmo lento, sazonal e enfrentou condições precárias de funcionamento, salários reduzidos e frequentes atrasos no pagamento. Entrevê-se nesse processo o início da escolarização por meio do sistema multisseriado, considerando que não havia um programa específico para cada estágio de desenvolvimento dos alunos. Com o retorno, em 1821, da corte para Portugal, desencadearam-se rupturas na estrutura governamental, pressionadas pelo sistema vigente que oportunizou a proclamação da independência e a organização jurídico-administrativa para o novo país. De acordo com Saviani (2008, p. 119), em 3 de junho de 1823, Dom Pedro I convocou a Assembleia Constituinte e Legislativa, onde destacou a necessidade de uma legislação especial para a instrução pública, criandoa Comissão de Instrução Pública. Durante esse processo, foi outorgada, em 1824, a primeira Constituição brasileira, que continha, no Art. 179, um item específico destinado à educação, no qual afirmou-se que a "instrução primária é gratuita para todos os cidadãos”. Havia, portanto, a necessidade de criação de um sistema nacional que previsse a implantação no Império de escolas primárias, ginásios e universidades. No entanto, ocorreu um descompasso entre os objetivos propostos e o encaminhamento dos projetos, assim como entre as medidas legais e as condições concretas de realização. Para amenizar de certa forma esse descompasso, foi instituída a Lei de 15 de outubro de 1827, que determinava a criação das “Escolas de Primeiras Letras” (SAVIANI, 2008, p. 127). Nesta abordagem, cabe destacar os artigos, Art. 1º Em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos, haverão as classes de primeiras letras que forem necessárias; Art. 4º As escolas serão de ensino mútuo nas capitais das províncias; e também nas cidades, vilas e lugares populosos, em que for possível estabelecerem-se. Essa Lei garantia, em todos os povoados, o acesso aos rudimentos do saber considerados na época indispensáveis para afastar a ignorância, bem como a organização escolar e os conteúdos que os professores deveriam ensinar: ler, escrever, as quatro operações de aritmética, prática de quadrados, decimais e proporções, as noções mais gerais de geometria prática, a gramática da língua nacional, os princípios da moral cristã (SAVIANI, 2008, p. 126). De acordo com o mesmo autor, o método Lancaster consistia em um sistema de ensino Proposto e difundido pelos ingleses Andrew Bell, pastor da igreja Anglicana e Joseph Lancaster, da seita dos Quakers, o método mutuo, também chamado de monitorial ou lancasteriano, se baseava no aproveitamento dos alunos mais adiantados como auxiliares do professor no ensino de classes numerosas. Embora esses alunos tivessem papel central na efetivação desse método pedagógico, o foco não era posto na atividade do aluno. Na verdade, os alunos guindados à posição de monitores eram investidos de função docente. O método supunha regras pré-determinadas, rigorosa disciplina e a distribuição hierarquizada dos alunos sentados em bancos dispostos num salão bem amplo. De uma das extremidades do salão, o mestre, sentado numa cadeira alta, supervisionava toda a escola, em especial os monitores. Avaliando continuamente o aproveitamento e o comportamento dos alunos, esse método erigia a competição em princípio ativo do funcionamento da escola. Os procedimentos didáticos tradicionais permanecem intocados (SAVIANI, 2008, p. 128). A adoção dessa forma de ensino oportunizou avaliações contraditórias nos documentos da época, o que resultou em discussões divergentes em relação ao método. Os relatórios dos ministros do império e dos presidentes das províncias evidenciavam as carências do ensino, e o “abandono total da instrução pública elementar pelo Estado” (XAVIER, 1994, p. 62), mas enalteciam a possibilidade de instruir um número relativamente grande de pessoas a um custo muito baixo. Observa-se nesse caminho seguido pela educação nacional a preocupação em “instruir” no sentido de amenizar a ignorância, instituindo-se de fato o sistema multisseriado e adotando o princípio do ensino mútuo, ou seja, as classes eram heterogêneas e os mais adiantados ajudavam os que encontravam dificuldades em aprender os rudimentos da língua e da matemática, por exemplo. Evidenciamos que, apesar de não ter encontrado essa referência nos autores pesquisados, as escolas multisseriadas (classes multisseriadas) surgiram nesse período em que o ensino das primeiras letras, financiado ou não pelo Estado, era difundido de fazenda em fazenda por professores itinerantes ou por alguém que a comunidade considerasse capaz de instruir a outros. Isso também se deu em pequenas vilas e povoados, por meio da reunião de crianças de vários níveis, independentemente da faixa etária, num mesmo ambiente escolar e com um único professor. Para Monlevade (1997, p. 29), “[...] a descentralização dos serviços públicos é uma tendência histórica saudável”, desde que os recursos financeiros, humanos e materiais sejam suficientes para garantir a efetiva estruturação do ensino. O panorama da época demonstrava um número insuficiente de escolas, isoladas e regulares, que geralmente funcionavam em espaços inadequados, faltavam materiais pedagógicos e professores, e as instalações físicas eram inadequadas à prática de ensino. Esta situação clamava por uma ampla reforma, que ocorreu por meio do Gabinete da Conciliação, sob o comando do Marquês do Paraná (Honório Hermeto Carneiro Leão). Trabalhava nesse gabinete o então ministro do Império, Luiz Pedreira Couto Ferraz, responsável pelo Decreto n. 1.331-A, de 17 de fevereiro de 1854, que regulou a “reforma do ensino primário e secundário do Município da Corte” (SAVIANI, 2008, p. 131). Esse regulamento, composto por cinco títulos, apresenta, no segundo, as instruções para a escola pública primária, “regulação das escolas particulares e no regime disciplinar dos professores e diretores de escolas”, bem como “a questão dos professores adjuntos” (SAVIANI, 2008, p. 131). Chama a atenção nesse Regulamento a referência à “obrigatoriedade do ensino”, com multas para os pais que tivessem filhos com mais de sete anos de idade e não os matriculassem na escola. Para Saviani (2008, p. 131), esses fatores podem ser considerados os primeiros passos para delinear um sistema nacional de ensino. A concepção de ensino que fundamentou essa Reforma adotou um caráter conservador, em razão “do amplo papel atribuído ao inspetor geral ao qual se encontram hierarquicamente subordinado os delegados de distrito” (SAVIANI, 2008, p. 132). O paradigma iluminista vigente na Europa àquela época também inspirou esse documento, com o ideal de derramar luzes sobre todos os habitantes do país, colocando a obrigatoriedade da sociedade brasileira de escolarizar, pelo menos no primeiro grau, todos os meninos maiores de sete anos. Esse todos, no entanto, restringia-se aos meninos livres, excluindo da escola os escravos, conforme destacado no Parágrafo 3º, do Artigo 69, desse Regulamento. Dois fatores importantes sobressaem nesse documento, o primeiro, que trata da divisão do ensino em primeiro grau, ministrado nas escolas de instrução elementar, as escolas de segundo grau, responsáveis pela “instrução primária superior” e a instrução secundária, específica do Colégio Pedro II. O outro fator diz respeito ao início da seriação, com o agrupamento dos alunos em turmas e o “ensino simultâneo” (SAVIANI, 2008, p. 132). Há que se observar também que, embora a extensão e a proposta desse documento, muitas coisas não se consolidaram, a exemplo dos professores adjuntos, que seriam formados na prática cotidiana em substituição às Escolas Normais até então responsáveis pela formação de professores. Esses profissionais, selecionados por concurso público, poderiam, após três anos de trabalho como auxiliar, ocupar vagas que porventura existissem, tornando-se profissionais da educação à época. Também a reforma tão esperada na questão da educação nacional não se consolidou com esse documento, e os projetos apresentados no parlamento desde 1854 não foram aprovados. Destaca-se com relação a esse Regulamento a obrigatoriedade do ensino e seu afastamento do processo de ensino mútuo vigente (SAVIANI, 2008, p. 134). O caráter elitista da educação nesse contexto mostra que o ensino, embora sob a prerrogativa para todos, acabava por excluir a maioria e, principalmente, aqueles que mais necessitavam de um sistema educacional de qualidade que pudesse colocá-los em uma posição mais próxima da cultura dominante. Ressalta-se, também, que o início da seriação do ensino classificava os alunospelo nível de conhecimento, o que permitia selecionar os mais aptos para cada etapa e deixar para trás os que não possuíssem as condições necessárias para a continuidade do ensino. Um dos fatores importantes que esse histórico traz diz respeito à questão do afastamento do ensino do sistema multisseriado, substituído pelo seriado, o que não colocou fim a esse procedimento, porque essa modalidade de ensino permanece como possibilidade de educação formal à população do campo. Os anos 1860 reforçaram os desejos de reforma na educação brasileira com a ascensão à chefia de Gabinete de Francisco José Furtado, de orientação liberal e o primeiro dessa linha a assumir essa função. Juntamente com ele, estava nesse processo o ministro do Império José Liberato Barroso, que adotou a instrução pública como a principal meta de seu mandato. Suas ideias estão presentes na obra “A instrução pública no Brasil”, publicada em 1857, e, de acordo com Saviani (2008, p. 135), inauguram a última fase do Império, período em que proliferam as propostas e projetos voltados para a reforma unificada da educação nacional, apesar de a maioria ter ficado no papel. Das principais colocações de Liberato Barroso destacam-se a obrigatoriedade da escolarização, a educação como possibilidade de manutenção do “status quo e fator de integridade nacional” e a valorização do ensino livre a ser ministrado pela iniciativa privada. Este último também vai fundamentar a proposta de Reforma de Leôncio de Carvalho, ressaltada no Decreto nº 7.247, de 19 de abril de 1879, o qual retoma, de certo modo, as principais ideias propostas por Liberato Barroso, em especial a valorização do ensino privado. Leôncio de Carvalho propõe a livre iniciativa no que trata do ensino primário e secundário, oportunizando a abertura de escolas privadas para oferecer essas modalidades de ensino, fator já contemplado nas ideias de Liberato Barroso, e também se preocupa com as questões de higiene, situação decorrente da valorização da medicina como “um campo disciplinar autônomo” e do discurso liberal iluminista. A obrigatoriedade do ensino primário dos sete aos quatorze anos também é reiterada nessa Reforma, bem como veicula-se a ideia de “assistência do Estado aos alunos pobres”, a escola primária dividida em dois graus e currículo semelhante, além do serviço de inspeção (SAVIANI, 2008, p. 137). Retoma-se, ainda, nessa Reforma as Escolas Normais como espaços de formação de professores, contrariando o proposto por Liberato Barroso, que considerava essas escolas ineficientes quanto à sua proposta. Idealiza-se ainda sob o pensamento de Leôncio de Carvalho a Educação Infantil, com a abertura de jardins de infância para atender [...] crianças dos 3 aos 7 anos de idade (artigo 5º); caixa escolar (artigo 6º); bibliotecas e museus escolares (artigo 7º); subvenção ao ensino particular, equiparação de Escolas Normais particulares às oficiais e de escolas secundárias privadas ao Colégio Pedro II, criação de escolas profissionais, de bibliotecas populares e de bibliotecas e museus pedagógicos onde houver Escola Normal (artigo 8º); regulamentação do ensino superior abrangendo a associação de particulares para a fundação de cursos livres (artigo 21); permissão a particulares para abrir cursos livres em salas dos edifícios das Escolas ou faculdades do Estado (artigo 22); faculdades de direito (artigo 23); e faculdades de medicina (artigo 24) (SAVIANI, 2008, p. 137-138). Um dos fatores que sobressai na Reforma Leôncio de Carvalho é a valorização do ensino intuitivo, como possibilidade de suprir a ineficiência do ensino até então veiculado nas escolas brasileiras e que, portanto, não atendia às exigências da revolução industrial, sendo que esta também foi responsável pela produção de materiais didáticos a serem utilizados nas escolas como meio de auxiliar o trabalho pedagógico do professor, tornando-se, os manuais, o principal elemento utilizado na prática cotidiana (SAVIANI, 2008, p. 139). O método intuitivo e, portanto tradicional de ensino, se manteve nas escolas brasileiras até 1930, quando os ideais da Escola Nova começam a se manifestar em terras nacionais, influenciando as reformas que foram instituídas a partir de então. Nesse contexto, embora tenham sido propostos outros dispositivos de autoria de Rui Barbosa, Almeida Oliveira e Barão de Mamoré, o projeto de Leôncio de Carvalho foi o que se manteve como regulamento oficial da educação nacional até a Revolução de 1930, quando mais efetivamente começaram a ser implantadas reformas do ensino nacional. Quanto às escolas multisseriadas, pode-se dizer que as reformas implantadas na última fase do Império contribuíram para a substituição do ensino ministrado por um único professor para um grupo de alunos em diferentes níveis de aprendizado, pelo sistema de seriação e agrupamento de alunos. Isso se deu através da criação dos grupos escolares em boa parte do território nacional, no caso de Santa Catarina, a criação do primeiro grupo escolar do Estado deu-se em Lages, em 1911, pelo então governador Vidal Ramos, mesmo nome desse grupo escolar, fundado nesta cidade. Para Saviani (2008, p. 174), esse processo contribuiu para a sistematização da formação de elites, na medida em que selecionava e setorizava os alunos por graus de aprendizagem, privilegiando o sucesso dos mais capacitados e a marginalização daqueles que obtivessem resultados inferiores, o que mostra a desvalorização das propostas de uma educação popular, situação que começa a mudar com a Reforma paulista proposta por Sampaio Dória, em 1927. A proposta de Dória consistiu em instituir uma escola primária gratuita e obrigatória para todos, com duração de dois anos e que atendesse principalmente aos princípios de alfabetização, garantindo, desse modo, a universalização das primeiras letras. Tratava-se de uma escola de primeiras letras mais simples e aligeirada, criada especialmente para atender às classes populares quanto aos rudimentos da língua portuguesa e conhecimentos básicos necessários a uma pessoa alfabetizada. Essa proposta foi bastante criticada e, por isso, não foi amplamente divulgada e executa em todo o território nacional. De acordo com Saviani (2008, p. 177), atrelada às concepções tradicionais de ensino, as novas propostas pedagógicas que ganham destaque no final do século XIX se refletem nas políticas públicas direcionadas para a educação brasileira, no entanto, nenhuma delas se sobrepõe ao tradicionalismo até a implantação da Escola Nova, que se dá na década de 1930, impulsionada pelos movimentos revolucionários da época. Fazendo um balanço desse período, Saviani (2008, p. 178-179) coloca a questão do Estado e Igreja como ponto importante nesse processo, haja vista que os ideais iluministas e laicistas se chocam com os ideais conservadores da Igreja Católica e sua intensa afinidade com o império, com privilégios financeiros e o ensino religioso ministrado em todas as escolas. Com a separação entre Clero e Estado, o primeiro perde regalias, mas ganha no que diz respeito à autonomia, embora a exclusão do ensino religioso nas escolas brasileiras tenha sido um choque bastante considerável para o clero nesse processo. Como resultado, a igreja católica, por meio da Confederação Católica Brasileira de Educação e das Associações de Professores Católicos (APCs), criada por volta de 1928, tornou-se “o principal núcleo de ideias pedagógicas a resistir ao avanço das ideias novas, disputando, palmo a palmo com os renovadores, herdeiros das ideias liberais laicas, a hegemonia do campo educacional no Brasil a partir dos anos de 1930” (SAVIANI, 2008, p. 181). No contexto sobre o qual estamos falando, além das ideias pedagógicas opostas, tradicional e nova, também se destacavam no Brasil da década de 30 do século passado outras adotadas por grupos não dominantes, mas quesobressaíram no cenário nacional, a exemplo do “desenvolvimento do movimento operário”, “sob a égide das ideias socialistas, na década de 1890, anarquistas (libertárias) nas duas primeiras décadas do século XX, e comunistas, na década de 1920” (SAVIANI, 2008, p. 182). Os estudos sobre essa fase da educação brasileira não apontam para a existência de classes multisseriadas, mas revelam que o ensino em questão deveria atender a propósitos bastante definidos, que eram o de preparar pessoas para o mercado de trabalho, tornando a educação uma mercadoria de diferentes qualidades a ser consumida conforme as condições econômicas de cada família. A década de 1930 marcou o início da implantação dos ideais escolanovistas, com a reforma da educação pública de Minas Gerais em 1927 e 1928 e os decretos baixados pelo Ministro da Educação e Saúde Pública, sob a denominação de Reforma Francisco de Campos, em 1931. Por meio desses decretos, criou-se o Conselho Nacional de Educação (Decreto nº 19.850, de 11 de abril de 1931); instituiu-se a organização do ensino superior e adotou-se o regime universitário; organizou-se a Universidade do Rio de janeiro e o Ensino Secundário no país; houve o restabelecimento do ensino religioso nas escolas públicas; a organização do ensino comercial e a regulamentação da profissão de contador, bem como outras providências. Consolidaram-se, assim, as disposições sobre a organização do ensino secundário. Veiculou-se a preocupação do governo brasileiro com a educação nacional, culminando, em 1932, com a ruptura entre a Igreja e o Estado, quando o “Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova” reprime os interesses da Igreja e esta sai da Associação Brasileira de Educação, fundando a Confederação Católica Brasileira de Educação. Quanto ao Estado, este prossegue com suas políticas de reformas centradas nos ideais da Escola Nova e da reestruturação da educação nacional contemplada na Constituição de 1937, promulgada pelo Estado Novo. A promoção mais efetiva da reforma da instrução pública no Brasil se deu, no entanto, a partir do trabalho de Fernando Azevedo, quando ocupou o cargo de diretor-geral da Instrução Pública do Distrito Federal. Essa reforma, segundo seu idealizador, envolvia três aspectos, a escola única, a escola do trabalho e a escola-comunidade, em acordo com os princípios da Escola Nova. Para executar a proposta da escola única, previa-se uma “educação inicial uniforme, uma formação comum, obrigatória e gratuita, com a duração de cinco anos, iniciando-se aos sete anos de idade” (SAVIANI, 2008, p. 211). A duração desse primeiro estágio educacional de cinco anos havia sido prevista para sete anos, mas, o escasso financiamento da educação por parte do Estado resultou na diminuição para cinco anos o tempo da educação inicial. Juntamente com Azevedo, destaca-se a figura de Anísio Teixeira como idealizador e contribuinte dos ideais da Escola Nova no Brasil, em especial quando assume o cargo de diretor geral de Instrução Pública do Distrito Federal, que centrou-se na renovação da formação docente, criou o Instituto de Educação e transformou a Escola Normal em Escola de Professores, integrando com o Instituto o Jardim de Infância, a Escola Primária e a Secundária. Desenvolveu a pesquisa por meio do Instituto de Pesquisas Educacionais e enfatizou a importância da educação pública como princípio para a democracia, baseado nos ideias de Dewey e Lippmann (SAVIANI, 2008, p. 219). Discordante da política repressiva adotada pelo Estado Novo, Anísio Teixeira deixa a vida pública, e a ela retorna com a destituição desse regime governamental. Assumiu a Secretaria Geral da Capes e, simultaneamente, a direção do INEP (SAVIANI, 2008, p. 220- 221). Nesse contexto as escolas multisseriadas não deixaram de existir por conta de todo esse processo, no entanto se constituíram em guetos nos quais professores se empenhavam em promover o ensino básico para os que frequentavam essas unidades de ensino, situação que não se modificou muito no que diz respeito às escolas públicas dos centros urbanos, que tendiam, e ainda tendem, a instruir os filhos de famílias das camadas populares, enquanto um ensino com uma pretensa qualidade era e é vendido em escolas particulares. Pode-se dizer que Anísio Teixeira foi um dos defensores da educação como direito e não como privilégio. Embora adotasse em boa parte o pensamento de Dewey, adaptou esse modelo às especificidades brasileiras, especialmente no Distrito Federal, sendo uma delas a organização de serviços centralizados de apoio ao ensino, estabelecendo o atendimento do maior número possível de alunos nos bairros; o sistema de avaliação do desempenho por provas elaboradas e aplicadas em sala de aula de modo centralizado, cuja revisão também se dava externamente à escola. Juntamente a isso, o serviço centralizado controlava matrículas, frequência e obrigatoriedade de escolarização. A visão de Anísio Teixeira permitiu-lhe também antever a necessidade de um Conselho Nacional de Educação autônomo e independente, contrário ao seu atrelamento ao Ministro da Educação, conforme previu a Constituição de 1934, situação reiterada na LDB de 1961, que entendia o Conselho como órgão deliberativo, mas dependente do poder Executivo, o que se manteve também na LDB de 1996 (SAVIANI, 2008, p. 227- 228). O ano de 1946 marcou outra fase para a educação nacional, quando se intensificaram os ideais democráticos ascendidos com a queda do Estado Novo e seu autoritarismo, mas assumiram o poder figuras emblemáticas do governo anterior, sob o comando do general Eurico Gaspar Dutra. O contexto internacional após o final da Segunda Guerra Mundial também entrou em estado de tensão com o início da Guerra Fria, situações que interferiram em todo o cenário nacional brasileiro (SAVIANI, 2008, p. 280). Na área educacional, essa década foi marcada pela promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a partir do que preconizava a Constituição de 1946, que restabeleceu os ideários dos escolanovistas superando os interesses dos tradicionalistas comandados pela igreja católica, vertentes pedagógicas até então vigentes no Brasil. Fagundes Martini (2003, p. 103-104), com base na edição da Proposta Curricular de Santa Catarina de 1998, resume esse período entendendo que, Em relação ao período do Estado Novo (período ditatorial compreendido entre 1937 e 1945), considera-se importante ressaltar alguns aspectos: a nacionalização do ensino, que consistiu na destruição das iniciativas educacionais comunitárias dos imigrantes e na instituição da obrigatoriedade do ensino na língua portuguesa; a ampliação da oferta educacional também nas zonas rurais, para fazer frente às escolas dos imigrantes e ao crescente êxodo rural, que era superior ao afluxo populacional que as cidades comportavam com possibilidade de emprego; a introdução de uma dualidade no ensino, com a criação de escolas profissionalizantes para a classe trabalhadora, ao lado das escolas preparatórias para o ensino superior; a introdução dos princípios da Escola Nova, que contribuiu para a expansão da oferta educacional, para a mudança de um ensino baseado na memorização de conhecimentos em um ensino baseado na interrelação pessoal, e para a valorização do aluno enquanto indivíduo (SANTA CATARINA, 1998, apud MARTINI, 2003, p. 103-104). Atenta-se nesse cenário para a descentralização do ensino e para a manutenção de escolas isoladas, juntamente com a criação de novas classes em zonas afastadas dos centros urbanos para atender à população rural e suplantar as escolas dos imigrantes, que se configuravam como um perigo ao sistema educacional do país. Quando se trata de escolas isoladas, podemos entender que nessas classes funcionavam turmas multisseriadas, haja vista a conformação das escolas situadas em locais mais afastados, com aescassez de professores e o baixo número de alunos se comparadas às escolas dos centros urbanos. O interessante nisso é a não menção propriamente dita à escola como sistema multisseriado, embora seja ainda hoje uma das características das unidades de ensino existentes em locais de difícil acesso ou de locomoção dos alunos para centros urbanos. Outro destaque que interessa ressaltar nesse contexto histórico da educação brasileira desde a década de 1940 até os anos 1960, quando surge a primeira LDB (4024/61), diz respeito à necessidade governamental de atender aos requisitos do capitalismo de alfabetização das camadas populares. Com isso, se proliferam no território nacional diferentes programas de educação veiculados sob a visão dominante de instrução pública (SAVIANI, 2008, p. 316). São também os anos 1960 que marcam o esgotamento dos ideais escolanovistas e abrem campo para a ideologia tecnicista que passa a predominar na segunda metade do século XX na educação brasileira. Esse contexto é caracterizado pela mobilização civil, desde os camponeses até os estudantes do ensino superior, o que contribuiu para novas reformas no ensino no Brasil. Considerações finais Em síntese, para suprir as necessidades de alfabetização principalmente das comunidades rurais, manteve-se a política de abertura de escolas multisseriadas que tinham por objetivo educar/alfabetizar/escolarizar a população do campo, procurando manter o mínimo de educação elementar nesta modalidade. Observa-se que a criação de escolas multisseriadas teve objetivos muito claros e as distinguiu consideravelmente das escolas dos centros urbanos. Destinadas à população do campo, portanto uma educação diferenciada daquela ministrada em escolas de centros urbanos. Hoje a escola multisseriada vem sendo objeto de disputa no campo das políticas educacionais. Quando milhares delas têm sido fechadas nas últimas duas décadas, contraditoriamente pelo Estado, o Movimento Nacional da Educação do Campo reivindica sua permanência por se constituir em uma modalidade de educação mais adequada às peculiaridades, complexidade e diversidade dos povos do campo. Convém enfatizar que a Constituição Federal Brasileira de 1988 em seus artigos 205 e 208 consolidaram o compromisso do Estado e da sociedade brasileira em contemplar a educação para todos, garantindo o direito e a promoção do ensino em todas as modalidades e respeitando todas as particularidades e especificidade culturais e regionais. Na mesma direção, a LDBEN - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei N 9394/96), no seu Artigo 28, contempla a oferta da educação básica para a população rural, promovendo a sua adequação às especificidades e peculiaridades de cada local, respeitando as características, a territorialidade e a identidade dos povos do campo. Agrega-se e este conjunto de normatizações as Resoluções de 2002 e 2008, bem como o Decreto Presidencial de 2010. Como se vê, a continuidade do ensino em escolas multisseriadas no campo é contemplada pela combinação de leis, resoluções e decretos federais. Contudo, a existência do Marco Legal nem sempre garante a operacionalização da política pública. REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Promulgada em cinco de outubro de 1988. BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, nº 9.394. de 20 de dezembro de 1996. Disponível em: . Acesso em: 17/02/2013. BRASIL. Resolução CNE nº 02, de 28 de abril de 2008. Estabelece diretrizes complementares, normas e princípios para o desenvolvimento de políticas de atendimento da Educação Básica do Campo. BRASIL. Resolução CNE/CEB nº 01, de 03 de Abril de 2002. Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo. BRASIL. Decreto nº 7.352, de 04 de novembro de 2010. Política de Educação do Campo e o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária – PRONERA. FAGUNDES, José; MARTINI, Adair Cesar. Políticas educacionais: da escola multisseriada à escola nucleada. In: Olhar de professor, Ponta Grossa, 6(1): 99-118, 2003. Disponível em: . 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CAPÍTULO 4: A FORMAÇÃO DE PROFESSORES: da política nacional às aproximações com a escola do campo ribeirinha. 4.2. Os desafios atuais da formação de professores no Brasil: o caso da educação do campo ribeirinha A presente seção busca analisar os desafios atuais da formação de professores no Brasil, em especial, voltada para a educação do campo ribeirinha como expoente singular na Amazônia. Os processos evidenciados na história da educação vinculados à formação de professores no Brasil, como apresentado na seção anterior, pode ser marcado por três movimentos progressivos: 1) ponto de partida nos séculos XVI e XVII – não havia uma preocupação com a profissionalização docente, uma vez que a educação esteve, neste período, sobre a égide dos jesuítas, que dominavam com certa experiência, os processos educacionais no Brasil colonial, tendo os padres mais influentes como professores; 2) avanços necessários dos séculos XVII e XVIII – início da preocupação com a profissionalização da carreira docente, a partir de três situações: a abertura das escolas para as massas; o aparecimento no final do século XVIII das primeiras Escolas Normais, que seriam responsáveis pela formação de professores por um longo tempo e a industrialização mundial em franco desenvolvimento; e, 3) aprofundamento das discussões nos séculos XIX e XX – há uma intensificação sobre questões que são próprias da formação de professores, em especial, sobre o currículo trabalhado nas Escolas Normais e a discussão em torno da separação entre a teoria e a prática, bem como a necessidade de evolução percebida nos cursos de licenciatura que articulam com propriedade a prática docente. Para o século XXI, permanecem grandes desafios para formação de professores no Brasil, que se inicia pela consagração dos cursos de licenciatura como objetivos e apropriados para formar os profissionais da docência, passando pela correção do déficit de professores com formação no antigo magistério, haja vista a LDB 9.394/96 ter definido o prazo de dez anos pós lei, para promover a formação em nível superior na área de atuação, finalizando pela consolidação das políticas educacionais voltadas à formação inicial, continuada e permanente dos profissionais da educação. Além disso, promover formações especificas para os diferentes níveis e modalidades existentes no sistema nacional de educação, como por exemplo, na educação especial, educação de jovens e adultos, educação indígena, educação quilombola, educação do campo, entre outras, que demandam saberes específicos e que tenham vinculação direta com o público alvo. No caso do presente estudo,Por isso, sua relação de origem com os movimentos sociais de trabalhadores. Na lógica de seus sujeitos e suas relações, uma política de Educação do Campo nunca será somente de educação em si mesma Dicionário da Educação do Campo 264 e nem de educação escolar, embora se organize em torno dela. Defende a especificidade dessa luta • e das práticas que ela gera, mas não em caráter particularista, porque as questões que coloca à sociedade a propósito das necessidades parti- culares de seus sujeitos não se re- solvem fora do terreno das contra- dições sociais mais amplas que as produzem, contradições que, por sua vez, a análise e a atuação especí- ficas ajudam a melhor compreender e enfrentar. E isso se refere tanto ao debate da educação quanto ao contraponto de lógicas de produ- ção da vida, de modo de vida. Suas práticas reconhecem e bus-• cam trabalhar com a riqueza social e humana da diversidade de seus sujeitos: formas de trabalho, raí- zes e produções culturais, formas de luta, de resistência, de organi- zação, de compreensão política, de modo de vida. Mas seu percur- so assume a tensão de reafirmar, no diverso que é patrimônio da humanidade que se almeja a uni- dade no confronto principal e na identidade de classe que objetiva superar, no campo e na cidade, as relações sociais capitalistas. A Educação do Campo não nas-• ceu como teoria educacional. Suas primeiras questões foram práticas. Seus desafios atuais continuam sendo práticos, não se resolven- do no plano apenas da disputa teó- rica. Contudo, exatamente porque trata de práticas e de lutas contra- hegemônicas, ela exige teoria, e exi- ge cada vez maior rigor de análise da realidade concreta, perspectiva de práxis. Nos combates que lhe têm constituído, a Educação do Campo reafirma e revigora uma concepção de educação de perspectiva emanci- patória, vinculada a um projeto his- tórico, às lutas e à construção so- cial e humana de longo prazo. Faz isso ao se mover pelas necessidades formativas de uma classe portadora de futuro. Seus sujeitos têm exercitado o direi-• to de pensar a pedagogia desde a sua realidade específica, mas não visan- do somente a si mesmos: a totalidade lhes importa, e é mais ampla do que a pedagogia. A escola tem sido objeto central • das lutas e reflexões pedagógicas da Educação do Campo pelo que representa no desafio de formação dos trabalhadores, como mediação fundamental, hoje, na apropriação e produção do conhecimento que lhes é necessário, mas também pe- las relações sociais perversas que sua ausência no campo reflete e sua conquista confronta. A Educação do Campo, principal-• mente como prática dos movimen- tos sociais camponeses, busca con- jugar a luta pelo acesso à educação pública com a luta contra a tutela política e pedagógica do Estado (reafirma em nosso tempo que não deve ser o Estado o educador do povo). Os educadores são considerados • sujeitos fundamentais da formu- lação pedagógica e das transfor- mações da escola. Lutas e práticas da Educação do Campo têm de- fendido a valorização do seu tra- balho e uma formação específica nessa perspectiva. Estas características definem o que é/pode ser a Educação do Campo, uma prática social que não se compreende 265 E Educação do Campo em si mesma e nem apenas a partir das questões da educação, expondo e con- frontando as contradições sociais que a produzem. E são estas mesmas ca- racterísticas que também podem con- figurá-la como categoria de análise das práticas por ela inspiradas ou de outras práticas que não atendem por esse nome nem dialogam com essa experiência concreta. A tríade campo–educação– política pública pode orientar pergun- tas importantes sobre a realidade edu- cacional da população trabalhadora do campo onde quer que ela esteja. Como referência de futuro à educa- ção dos trabalhadores, a Educação do Campo recoloca desde sua luta especí- fica a questão sempre adiada na histó- ria brasileira da efetiva universalização do direito à educação, tensionando na esfera da política formas e conteúdos de ações do Estado nessa direção. E se buscar confrontar a lógica que im- pede os trabalhadores de ter acesso pleno à educação básica não é ainda a “revolução brasileira”, na prática, a superação do capitalismo não se reali- zará sem passar por este confronto e sua solução. No plano da práxis pedagógica, a Educação do Campo projeta futuro quando recupera o vínculo essencial entre formação humana e produção material da existência, quando concebe a intencionalidade educativa na direção de novos padrões de relações sociais, pelos vínculos com novas formas de produção, com o trabalho associado livre, com outros valores e compro- missos políticos, com lutas sociais que enfrentam as contradições envolvidas nesses processos. E sua contribuição original pode vir exatamente de ter de pensar estes vínculos a partir de uma realidade es- pecífica: a relação com a produção na especificidade da agricultura campone- sa, da agroecologia; o trabalho coleti- vo, na forma de cooperação agrícola, em áreas de Reforma Agrária, na luta pela desconcentração das terras e con- tra o valor absoluto da propriedade privada e a desigualdade social que lhe corresponde. Vida humana misturada com terra, com soberana produção de alimentos saudáveis, com relações de respeito à natureza, de não exploração entre gerações, entre homens e mulhe- res, entre etnias. Ciência, tecnologia, cultura, arte potencializadas como fer- ramentas de superação da alienação do trabalho e na perspectiva de um desen- volvimento humano omnilateral. Algo disso já vem sendo experimentado em determinados espaços de resistência e relativa autonomia de movimentos so- ciais ou de comunidades camponesas, mas talvez possa vir a ser “universaliza- do” em uma “república do trabalho”. E o modo de fazer a luta pela escola tem desafiado os camponeses a ocupá- la também nessa perspectiva, como sujeitos, humanos, sociais, coletivos, com a vida real e por inteiro, trazendo as contradições sociais, as potencia- lidades e os conflitos humanos para dentro do processo pedagógico, re- querendo uma concepção de conheci- mento e de estudo que trabalhe com essa vida concreta. Isso tem exigido e permitido transformações na forma da escola, cuja função social originária prevê apartar os educandos da vida, muito mais do que fazer da vida seu princípio educativo. Acontecem hoje no âmbito da Educação do Campo ex- perimentos pedagógicos importantes na direção de uma escola mais próxi- ma dos desafios de construção da so- ciedade dos trabalhadores. Dicionário da Educação do Campo 266 notas 1 Note-se que este texto integra um dicionário que leva o mesmo nome, ou tem o mesmo objeto deste verbete, e cuja forma de organização procura nos mostrar a quantidade e a complexidade dos nexos que permitem compreender a Educação do Campo como um fenômeno concreto (síntese de muitas determinações). 2 As entidades que apoiaram o I Enera foram também depois, junto com o MST, as pro- motoras da I Conferência Nacional por uma Educação Básica do Campo: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e Univer- sidade de Brasília (UnB), por meio do Grupo de Trabalho em Apoio à Reforma Agrária. 3 O Pronera começou a ser gestado no I Enera, mediante o desafio colocado pelo MST aos docentes de universidades públicas convidados ao encontro para pensar um desenho de articulação nacional que pudesse ajudar a acelerar o acesso dos trabalhadores das áreas de Reforma Agrária à educação escolar. A ideia foi levada pela Universidade de Brasília ao III Fórum das Instituições de Ensino Superior em Apoio à Reforma Agrária, em novembro de 1997, e o desenho do programa foi formatado entre janeiro e fevereiro de 1998 (ver PrograMa nacional dE Educação na rEForMa agrária). 4 No campo: “o povo temelegeu- se a educação do campo ribeirinha como modalidade presente majoritariamente na região Amazônica e que necessita do olhar cuidadoso dos gestores públicos, para promoção de uma educação que respeite os modos de ser e viver dos povos do campo, causas que demandam sobre a formação professores para este fim. Organizar, sistematizar e promover uma formação docente que seja de fato, transformadora para professores e alunos, deve-se levar em conta, sem dúvidas, o contexto social em que a escola esteja inserida, uma vez que, se realizada distante disso, além de comprometer a formação social do aluno pela pouca relação teórico- prática, negam-se a sua cultura, a identidade, os saberes e as práticas vividas pelas diversas comunidades existentes no país. No caso da educação do campo ribeirinha, presente no contexto amazônico, é importante que os agentes públicos locais, regionais e quiçá, nacionais, formulem políticas educacionais que contribuam com a elevação dos conhecimentos e saberes dos sujeitos que compõem as vastas margens dos rios, furos, igarapés e várzeas da região em destaque. Para isto é urgente superar a velha imagem do campo como lugar de atraso, de falta de perspectivas de vida e trabalho, de espaço sem necessidade de formação e instrução humana, na medida em que para os trabalhos manuais do campo, bastam-se boa disposição e vontade. É preciso assim, permanecer na constante vigilância dos espaços debate que busquem articular as necessidades dos povos do campo em todos os setores sociais, inclusive a educação, que lhes possibilite ascender para o nível superior, qualificar-se e profissionalizar-se sem sair de sua terra. Fala-se apenas do direito fundamental da educação básica instituído na Constituição Federal de 88 – da infantil, do ensino fundamental de 9 anos e do ensino médio articulado à educação profissional e técnica na modalidade integrada –, como direito humano e justiça social de homens e mulheres vivem e desenvolvem suas práticas socioculturais nas áreas rurícolas do país. Uma educação que atenda as Diretrizes para Educação do Campo firmado na Resolução nº 2/2008 do CNE/CEB que estabelece as ações complementares, normas e princípios para o desenvolvimento de políticas públicas de atendimento da Educação Básica do Campo, ao solicitar que sejam observados excepcionalmente, as variadas formas de produção da vida dos grupos sociais do campo - destaque os ribeirinhos –, acesso, permanência, transporte escolar, planejamento educacional adequado as sazonalidades rurais, entre outros (BRASIL, 2008). Convém destacar, duas passagens marcantes da resolução, sobre as estruturas mínimas necessárias para que a qualidade do ensino seja assegurada na educação do campo, bem como da formação de professores. Art. 7º A Educação do Campo deverá oferecer sempre o indispensável apoio pedagógico aos alunos, incluindo condições infra-estruturais adequadas, bem como materiais e livros didáticos, equipamentos, laboratórios, biblioteca e áreas de lazer e desporto, em conformidade com a realidade local e as diversidades dos povos do campo [...] Art. 10 [...] § 2º As escolas multisseriadas, para atingirem o padrão de qualidade definido em nível nacional, necessitam de professores com formação pedagógica, inicial e continuada, instalações físicas e equipamentos adequados, materiais didáticos apropriados e supervisão pedagógica permanente. (BRASIL, 2008, s/p). Os artigos selecionados, demonstram aderência aos aspectos centrais da vida no campo representada pelo tempo de plantar, colher, criar, pescar, das enchentes e vazantes dos rios, compreendidos e manejados para obtenção dos recursos naturais necessários para manutenção da vida em família. Pontuam-se a descrição das condições mínimas para o trabalho adequado dos professores no que se refere a estrutura, materiais e equipamentos utilizados no processo de ensino e aprendizagem dos alunos. Além disso, a resolução aponta para observância e oferta, por meio dos órgãos públicos competentes, da formação inicial, continuada e/ou complementação pedagógica dos professores que atuam na modalidade. Tais dispositivos alinham-se ao artigo 28 da LDB 9.394/96, confirmando os direitos dos povos do campo a uma educação diferenciada, verificada no seguinte trecho. Art. 28. Na oferta de educação básica para a população rural, os sistemas de ensino promoverão as adaptações necessárias à sua adequação às peculiaridades da vida rural e de cada região, especialmente: I - Conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos alunos da zona rural; II - Organização escolar própria, incluindo adequação do calendário escolar às fases do ciclo agrícola e às condições climáticas; III - Adequação à natureza do trabalho na zona rural. (BRASIL, 1996, s/p) Com isto, pode-se dizer que a legislação em vigor assegura o direito a educação, a fixação da escola no campo com estrutura mínima necessária a qualidade do ensino, na diferenciação do planejamento educacional resguardando conteúdos curriculares e metodologias diversa, do calendário vinculado aos ciclos agrícolas e na promoção do estreito vínculo com a natureza do trabalho nas áreas rurícolas do país. Diante dessas questões, a formação e professores, seja ela inicial, continuada, seja de complementação pedagógica, têm sido objeto questionamentos, investigação, debates e construção a imagem do professor que possua conhecimentos e saberes para o manejo correto das habilidades e competências cognitivas e socioculturais dos alunos no processo de instrução realizado pelas escolas presente no campo. Escola que é diversa por essência, caracterizada e impregnada pelas marcas sócio-históricas e culturais da comunidade local, que devem ser articulados aos conteúdos de ensino prescritos para educação básica nacional presentes na BNCC, para o uso adequado do conhecimento na sociedade, seja no campo ou na cidade (FREIRE, 2005; TEIXEIRA, 1956). Nesse caminho, as formações para o atendimento da diversidade não podem estar desvinculadas da realidade social em que a escola se insere, deve acima de tudo, ser permeada por uma intencionalidade política, ideológica, filosófica, teórica e com pesquisas aprofundadas sobre os saberes pedagógicos necessários para fundamentar uma educação transformadora (FRANCO, 2002; FREIRE, 2005). Focada na realidade do campo, deve-se promover a conexão entre as adversidades vividas, os conhecimentos da educação formal e informal, a valorização os saberes populares, bem como as articulações entre educação, instrução e trabalho, para referendar a cidadania do trabalhador do campo. Cenário que possibilite a homens e mulheres do meio rural, vislumbrar suas aspirações de liberdade política, social, do trabalho, do direito a terra, saúde e educação, demarcando sua construção histórica na cronologia do Brasil (ARROYO, 1982; LACKI; DEL VALLE, 1994). A partir da perspectiva de acolhimento da diversidade na formação de professores para o atendimento das especificidades da educação do campo, aponta- se para uma educação que valoriza as aprendizagens ao longo da vida, haja vista capacidade dos homens de aprender uns com os outros e interagir para compreensão de seu lugar no mundo. Dessa maneira, é válida reflexão de o homem vive em constante mudança ao participar de diferentes momentos educativos, pois conhece, reconhece, aprende e também ensina no contexto social em que vive e modifica por sua ação. Assim, a educação do campo atual precisa de alinhamentos que oportunize aos professores criar situações didáticas que vinculem a categoria trabalho às inovações da sociedade moderna e tecnológica, possibilitando o surgimento de um espaço dialógico e coletivo de aperfeiçoamento dos quadros, mecanismos e estratégias de uso desse conhecimento, para o sucesso dos processos produtivos próprios do movimentosocial do campo (ALHEIT; DAUSIEN 2006; BRANDÃO, 1995; FREIRE, 2005; LOPES; FERREIRA, 2004). A formação geral de professores no Brasil, como descrita na seção anterior, que apesar dos esforços em abarcar da formação inicial à continuada, ainda demonstra o caráter generalista com que as políticas públicas voltadas a profissionalização docente têm se forjado no Brasil. Pensa-se majoritariamente no professor que vai atuar na escola urbana, com os sujeitos urbanos, comportamentos sociais citadinos, os trabalhos executados nas urbanidades e vida histórico-social construída sob a perspectiva dos grandes centros urbanos, haja vista o processo mercantil com que se trata o conhecimento e sua utilidade sob o comando do sistema capitalista mundial das sociedades modernas. Uma formação que seja capaz de habilitar os sujeitos das novas gerações, direcionando a ação do ser, pensar e agir na execução de tarefas que visem a sobrevivência do capitalismo, o que imprime sobre a formação docente o exercício da dimensão ontológica do trabalho e da produção, com vistas a transformação social, por meio da ação intelectual e da práxis necessária ao trabalho docente (AGUIAR, 2012; ARROYO, 2007). Porém, é urgente articular uma educação justa, emancipatória e transformadora no campo e isso exigirá, inevitavelmente, investimentos de todas as ordens, financeiros, humanos e materiais indispensáveis ao processo de formação de professores, no sentido de avançar nas formulações pedagógicas e propor práticas educativas escolares e não-escolares que estejam em sintonia com uma formação humana de caráter verdadeiramente emancipatório exige a apropriação e desenvolvimento de um quadro teórico consistente e radical que se coloque para além das simplificadoras interpretações da realidade formuladas pelas filosofias e pedagogias relativistas (SANTOS, 2013, p. 155) Discutida ao longo da presente tese, a educação do campo, excepcionalmente pós anos 2000, vive intensamente na desconstrução da imagem do campo como espaço secundário, de modernização tardia e de atraso na entrada das políticas sociais como é o caso da educação. Apesar desse quadro, há mudanças significativas no que se refere a reorganização do sistema educacional para atendimento das demandas seculares do meio rural, como o caso do reconhecimento da Pedagogia da Alternância vinculadas as CEFFAs, no sentido de utilizar metodologia apropriada e de grande impacto na formação e instrução de homens e mulheres das áreas rurícolas do país desde a educação básica ao ensino superior (BRASIL, 2006, 2020; ARROYO, 2007). É importante registrar o percurso das principais políticas associadas a visibilidade da educação do campo como um processo histórico que carrega silenciamentos, apagamentos e exclusões por séculos no Brasil, mas também como resultado das intensas movimentações a partir de 1930 por uma escola pública, democrática e gratuita a todos os cidadãos sem exceção, o que inclui os sujeitos do meio rural (ANTUNES-ROCHA, 2010). O esquema da sequência, apresenta o panorama que tornou possível reaver o lugar da educação destinada aos povos tradicionais das ruralidades do país, trazendo- a para o centro das discussões em torno da educação pública. Esquema x. principais políticas educacionais dirigidas à educação do campo* *A relação dos documentos citados, podem ser acessados em sua integralidade no site oficial do MEC: http://portal.mec.gov.br/publicacoes-para-professores/30000-uncategorised/90931-educacao-do-campo Fonte: elaborado pelo autor (2023) Não se pode negar que cada documento apresentado no esquema contribuiu para um avanço nas discussões, pesquisas e formulação de novas políticas educacionais com foco na subjetividade dos povos tradicionais, na medida em que revitalizam o significado único que desde sempre, deveria ser atribuído a educação do campo no Brasil. Os horizontes para formação de professores na perspectiva emancipadora, primordial a escola do meio rural, que são amplamente discutidos Resolução CNE/CP nº 1/2022, Dispõe sobre as Diretrizes Curriculares da Pedagogia da Alternância na Educação Básica e na Educação Superior. Parecer CNE/CEB nº 7/2022, Revisão e atualização das normas, tendo em vista a aprovação do novo Ensino Médio. Parecer CNE/CP nº 22/2020, Diretrizes Curriculares da Pedagogia da Alternância na Educação Básica e na Educação Superior. Resolução CNE/CEB nº 2/2008, Estabelece diretrizes complementares, normas e princípios para o desenvolvimento de políticas públicas de atendimento da Educação Básica do Campo. Parecer CNE/CEB nº 3/2008, Reexame do Parecer CNE/CEB nº 23/2007, que trata da consulta referente às orientações para o atendimento da Educação do Campo. Parecer CNE/CEB nº 1/2006, Dias letivos para a aplicação da Pedagogia de Alternância nos Centros Familiares de Formação por Alternância (CEFFA). Resolução CNE/CEB nº 1/2002, Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo. Parecer CNE/CEB nº 36/2001, Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo. http://portal.mec.gov.br/publicacoes-para-professores/30000-uncategorised/90931-educacao-do-campo apontam para: uma prática educativa omnilateral; foco na docência e no trabalho pedagógico; atividade pedagógica com foco formativo; sólida formação teórica articulada as práticas curriculares e sobre os conteúdos prescritos e ocultos à serem ensinados; consolidação da visão multicultural da educação; experiências curriculares extensionistas para reconhecimento da realidade escolar; valorizar a pesquisa no processo formativo; promoção da visão sobre a gestão democrática; compromisso sociopolítico e cultural refletido na docência a partir de debate, discussão e reflexão sobre a formação docente e, por fim, a melhoria contínua das condições de trabalho, carreira e identidade docente. São questões que confluem para confirmar que a formação desse educador seja estabelecida a partir do reconhecimento do projeto de sociedade, de campo e de escola que se pretende defender para os povos tradicionais. É a partir dessas concepções que será possível desvelar os princípios e valores das comunidades tradicionais para construção do programa de formação de professores que seja própria da população rural (D’AGOSTINI; TITTON, 2013; MOLINA; ANTUNES-ROCHA, 2014). É de fundamental relevância que as políticas de formação de professores para campo, supere definitivamente a visão de campo como símbolo de vida em extinção, deve-se investir em ações que busquem construir um corpo docente estável e qualificado, com imagem positiva e articuladas a garantia dos direitos sociais como a firmação na terra, da cultura, da identidade e da educação. Soma-se a isto, a questão da socialização e sociabilidade do saber-fazer e das artes de ensinar e aprender, que exaltem a cultura camponesa como ingrediente de destaque para o desenvolvimento da sociedade brasileira. Sem esta percepção, não terão como formar educadores e educadoras do e para o campo. Conquanto, políticas de formação continuada e em serviço com vistas a recuperação do déficit professoral, bem como das titulações sugeridas na LDB 9.394/96, além de assegurar projetos e programas inovadores de educação do campo com ampla defesa da diversidade dos povos tradicionais, concorrem para evitar a expansão desenfreada do agronegócio que contribuem para o desaparecimento da agricultura familiar. Os movimentos sociais, também tratados neste estudo, permanecem em posição de vigilância, combate e resistência contra o latifúndio, na medida em que solicitam reforma agrária, assim como o direito de ser e permanecer no campo, resguardando territórios, culturas e identidades locais, com ajuda, inclusive, da educação por meio da escola, com seus processos de instrução, de ensino e aprendizagem, da formação humana e do corpo de professores devidamente qualificados (ARROYO,2007; MOLINA; SÁ, 2010). Destacam-se como políticas de maior impacto na formação inicial, continuada e em serviço para educação do campo, as que são apresentadas no esquema a seguir, que atribuíram um valor inquestionável ao processo educativo para as populações do meio rural no Brasil e que contribuíram de certa forma, para o processo de firmação teórico-metodológica dos professores do campo. Esquema x. políticas efetivas de formação inicial e continuada para educação do campo Fonte: adaptado de Hage, Silva e Brito (2016) Diante do histórico de luta e resistências dos movimentos sociais do campo, os programas evidenciados demonstram um avanço para a qualidade da educação básica das escolas rurais, por meio da valorização da formação de professores. Os cursos, focados na realidade camponesa, assentam-se na perspectiva crítico- transformadora, humanista, emancipatória e altera, reservando a vez e voz dos povos tradicionais do campo na promoção de uma educação que possa elevar o nível de conhecimentos e saberes, tanto dos professores que participam dos cursos, quanto • Tem como intituito enfrentar o analfabetismo de jovens e adultos do campo, elevando os níveis de escolarização de projetos de assentamentos pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA, com abrangência nacional na oferta dos cursos Pedagogia da Terra, das Águas e do Campo e licenciaturas em várias as áreas de conhecimento. Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária - PRONERA • Até o ano de 2012, participou da formação em serviço dos professores do campo das classes multisseriadas, sendo substituído em 2013 pelo Programa Escola da Terra na promoção do curso de Pedagogia da Alternância para as escolas multisseriadas e quilombolas. Programa Escola Ativa - PEA • Específico para jovens entre 18 e 29 anos que não tenham concluído o ensino fundamental, atuante na pós-graduação de educadores e educadoras que fazem parte do programa. Programa Projovem Campo Saberes da Terra • Atua na oferta de cursos superiores à professores e professoras que lecionam nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio das escolas rurais. Programa de Apoio à Formação Superior em Licenciatura em Educação no Campo - PROCAMPO • Integrado ao PIBID, concede bolsas aos alunos devidamente matriculados nos cursos de Licenciatura em Educação do Campo com vistas ao seu aprimoramento no âmbito da formação inicial. Programa de Iniciação à Docência para a Diversidade - PIBID Diversidade CAPES dos alunos que tem a possibilidade de estudar com docentes devidamente qualificados para o atendimento de suas subjetividades. E, acima de tudo, buscam romper com a hegemonia da escola urbanocêntrica e ao mesmo tempo, contrapor-se aos ideais de dominação capitalista. Há um avanço significativo no processo formativo do educador e educadora do campo a partir da articulação dos diferentes programas apresentados, haja vista que, antes deles, uma quantidade considerável de docentes do campo, não tinham preparo adequado para o trabalho nas escolas rurais, como resguardam os princípios forjados pelo movimento camponês no Brasil (ALENCAR, 2010; MOLINA; HAGE, 2015). Registra-se ainda, que o conjunto dessas ações agem positivamente para direção defendida pelo movimento camponês, que busca uma escola com identidade, cultura e práticas de ensino adequadas aos seus tempos de estudar, aprender e também, participar do trabalho na agricultura familiar. Escola que não depende apenas na mudança do currículo para o atendimento de suas necessidades, mas de projetos que estejam assentados na verdadeira transformação social, o que incluiu mudar a forma com a escola se apresenta aos alunos, sua estrutura e organização, com funcionamento e práticas genuínas, tornando-a ativa e com novos objetivos para formação cidadã camponesa. São elementos que confluem para participação proativa na mudança social que se espera do país. Para isto, a figura do professor formado as bases curriculares, teórico-metodológicas e epistemológicas do campo é primordial, pois asseguram aos alunos a proteção da identidade, cultura e envolvimento social, a partir dos princípios agroecológicos e de sustentabilidade típico das áreas rurícolas do país. Assim, é imprescindível assegurar a presença dos professores do campo nos cursos superiores voltados para este fim (ARROYO, 2012; BICALHO, 2018; BRITO, 2013; CALDART, 2011; PISTRAK, 2011). O PRONERA, talvez seja a ação pensada, organizada e desenvolvida para os povos do campo, de maior ressonância para o melhoramento das comunidades rurícolas do Brasil em pelo menos, duas vertentes: 1) busca incansável pela reforma agrária historicamente solicitada pelos movimentos sociais do campo, tendo a terra e o território como bandeiras de luta e, 2) promoção educacional na formação dos educadores e educadoras do campo em nível superior conforme solicita a LDB 9.394/96. Enfatiza-se a atuação dos personagens centrais na elaboração e execução do programa que organizados, constituem “um coletivo que politiza sua prática, que sabe que ela não é neutra, pois está clivada pela sociedade de classes, pela oposição de interesses entre a agricultura patronal e a agricultura familiar camponesa” (ROCHA, 2015, p. 204). As principais questões sobre o programa durante todo este tempo são: 1) permanente luta dos movimentos para que o projeto seja levado para diferentes contextos do campo; 2) os cursos criados pelo programa apontam para sucessos, contradições e limites; 3) há grupos de servidos públicos progressistas que contribuem ativamente para democratização do acesso e permanência da educação pública – do nível básico ao superior –, mas também, na manutenção e funcionamento das escolas autônomas organizadas pelo movimento do campo; e, 4) a incerteza que se percebe desde o golpe político de 2016 que retirou o governo do PT, sobre o futuro do PRONERA (NOVAES, 2020). São situações que marcam a constante resistência de sua manutenção e a necessidade de expansão para alcançar ainda mais as comunidades das áreas rurícolas do país, apesar de Em abril de 2023, o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) completa 25 anos de existência. Ao longo do tempo, 191.234 estudantes ingressaram em 531 cursos, em todos os estados brasileiros. A transformação de trajetórias de vida e a possibilidade de oferecer oportunidades a quem, dificilmente, teria outra alternativa de estudos, é um aspecto marcante da atuação do Pronera frente às mais diversas realidades encontradas nas áreas de reforma agrária. (BRASIL, 2023, s/p) Em outra frente, o programa Escola Ativa, busca melhorar a qualidade do ensino nas escolas multisseriadas baseado em duas frentes: 1) implantação de recursos pedagógicos para que a escola estimule as aprendizagens dos alunos; e, 2) fomentar a qualificação dos educadores e educadoras do campo. Frentes que dialogam com a formação continuada de professores e que abrange a melhoria estrutural das escolas do campo, implementando mudanças significativas no trabalho docente a partir do fornecimento de materiais didático-pedagógico para serem utilizados por professores e alunos. Desse modo, por ter um certo caráter impositor e de regulação do Estado junto à comunidade escolar, via fornecimento do material didático-pedagógico, tem deixado à margem do processo de ensino e aprendizagem dos alunos, as produções autônomas e crítico-reflexivas próprias do coletivo do campo, resultando em uma ação verticalizada, da formulação à sua universalização, carecendo de reformulações que apontem para reconhecida autenticidade do povo do campo (APPLE, 2002; FREIRE; OLIVEIRA; LEITÃO, 2010; GONÇALVES, 2009). No entanto, o programa Escola Ativa visa corrigir certo abandono vivido pelas escolas multisseries do campo que ainda existem no Brasil, situação que [...] advém do descaso das instâncias governamentaispara com as escolas multisseriadas. Por parte do pessoal que atua nas secretarias de educação as justificativas em relação à falta de acompanhamento pedagógico baseiam- se em na falta de estrutura e pessoal suficiente, nas dificuldades de transporte, na ausência de recursos financeiro, na má condição das estradas como também nas longas distâncias entre a sede do município e a escola (HAGE, 2011, p. 127). Em outra linha de atuação, o Projovem Campo Saberes da Terra, busca ampliar e melhorar a qualidade da educação disponibilizada as classes que foram historicamente excluídas do processo educacional no Brasil, com destaque aos povos do campo que além disso, tem sido marginalizados por agente políticos que indicam o MST como organização de subversivos, vândalos e invasores de terras particulares. Faz parte do Projovem que já atendia aos trabalhadores, adolescentes e jovens do meio urbano, com vistas ao aumento da escolaridade em nível nacional. Articula-se a diversas instâncias do governo federal: Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD); Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (SETEC); Secretaria da Agricultura Familiar (SAF); Secretaria de Desenvolvimento Territorial (SDT); Secretaria de Políticas Públicas de Emprego (SPPE); Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES); Secretaria de Biodiversidade e Floresta (SBF); Ministério do Desenvolvimento e Combate à Fome e por fim, a Secretaria Nacional de Juventude (SNJ). Um verdadeiro esforço conjunto para rever partes das injustiças sociais impetradas aos povos do campo no curso da história brasileira. A preocupação do programa abarcou as principais instâncias governistas de seguridade social, que parte dos assuntos educacionais, da proteção de direitos civis do trabalho e emprego, do resguardo da agricultura familiar, das políticas de desenvolvimento do meio rural assegurando sua biodiversidade, dentre outras. São articulações que foram refletidas nos objetivos específicos do programa: Elevar a escolaridade e proporcionar a qualificação profissional inicial de agricultores(as) familiares; Estimular o desenvolvimento sustentável, com recorte agroecológico e enfoque territorial, como possibilidade de vida, trabalho e constituição de sujeitos cidadãos no campo; Fortalecer o desenvolvimento de propostas pedagógicas e metodologias adequadas à modalidade de EJA no campo; Realizar formação continuada em metodologias e princípios políticopedagógicos voltados às especificidades do campo para educadores(as) atuantes no Programa; Fornecer e publicar materiais pedagógicos que sejam apropriados ao desenvolvimento da proposta pedagógica; Conceder auxílio financeiro aos educandos, minorando carências materiais que poderiam impedir sua frequência ou manutenção no curso. (BRASIL, 2009, p. 20). Diante da articulação de diferentes instâncias governamentais e dos objetivos alinhados do programa, pode-se dizer que o ProJovem Campo – Saberes da Terra, tanto contribuiu para a oferta da educação escolarizada integrada e qualificação social e profissional, gerando expectativas de trabalho e renda e, consequentemente, contribuindo para o desenvolvimento de suas respectivas comunidades; quando contribuiu, para a permanência dos jovens camponeses em localidades rurais. (FERNANDES, 2015, p. 181) Ressalta-se que os programas, em diferentes frentes atenderam demandas reprimidas dos movimentos coletivos do campo, que abarcou não só a questão da reforma agrária como também, a dignidade das populações rurais por meio da educação, do emprego e da geração de renda via produção familiar. De maneira bastante pontual, permitiram um novo olhar sobre a formação de professores para o meio rural, com melhoras na estrutura física das escolas, fomentando cursos de capacitação para agricultores e permitiu o avançar do nível de conhecimento para melhores condições de vida no campo (ARROYO, 2007; CALDART, 2002). Nessa escalada, o PROCAMPO é a via mais adequada de formação para os professores que atuam nas escolas do campo, haja vista ter sido criado exclusivamente para levar a Licenciatura em Educação do Campo como proposta apropriada, justa e oportuna, já que congrega a historicidade educacional do campo, observada sua gênese e a exigência da LDB 9.394/96 que adverte sobre a formação de professores em nível superior em cursos de licenciatura. Em 2012, pela abrangência e sucesso do programa, trocou-se a nomenclatura para PRONACAMPO, reservando o caráter de política em nível nacional, caracterizando uma valorização da ação, assegurando mais recursos financeiros e outras articulações para necessárias para seu pleno funcionamento e expansão (BRASIL, 2013). Nessas circunstâncias, um novo olhar é direcionado para as populações do campo, por isso defendemos com tanta insistência a necessidade de política e projetos de formação das educadoras e dos educadores do campo. Também porque sabemos que boa parte deste ideário que estamos construindo é algo novo em nossa própria cultura. E que há uma nova identidade de educador que pode ser cultivada desde este movimento por uma educação do campo. (CALDART, 2002, p. 36). A partir disso, e após esta atualização, o programa além de levar a licenciatura para diversos municípios do Brasil, congregou outros quatro eixos de atuação demonstrados no esquema que segue. Esta alteração é favorável aos projetos que fomentam políticas públicas com capacidade de transformação social das comunidades tradicionais, não esquecendo que a Constituição Federal de 88 preconiza os direitos assegurados de todos os cidadãos brasileiros, sem distinção de raça, cor, gênero, religião, vertente política e outros atributos individuais. Todos devem ser vistos como iguais perante o estado de direito consagrado na sociedade democrática brasileira. Esquema x. eixos operantes do PRONACAMPO1 1 As informações completas sobre os eixos pode ser consultado no documento disponível no link: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=13214-documento- orientador-do-pronacampo- pdf&Itemid=30192#:~:text=da%20Medida%20Provis%C3%B3ria%20n%C2%BA%20562,e%20adultos %20por%20meio%20da, acesso em: 28 ago. 2023. http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=13214-documento-orientador-do-pronacampo-pdf&Itemid=30192#:~:text=da%20Medida%20Provis%C3%B3ria%20n%C2%BA%20562,e%20adultos%20por%20meio%20da http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=13214-documento-orientador-do-pronacampo-pdf&Itemid=30192#:~:text=da%20Medida%20Provis%C3%B3ria%20n%C2%BA%20562,e%20adultos%20por%20meio%20da http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=13214-documento-orientador-do-pronacampo-pdf&Itemid=30192#:~:text=da%20Medida%20Provis%C3%B3ria%20n%C2%BA%20562,e%20adultos%20por%20meio%20da http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=13214-documento-orientador-do-pronacampo-pdf&Itemid=30192#:~:text=da%20Medida%20Provis%C3%B3ria%20n%C2%BA%20562,e%20adultos%20por%20meio%20da *Educação de Jovens e Adultos **Educação Profissional e Tecnológica Fonte: elaborado pelo autor (2023) É possível avaliar, de acordo com as ações mencionadas no esquema, que o programa abrange as principais necessidades da escola pública brasileira como, firmação da universalização da educação básica no campo, infraestrutura e equipamentos, recursos didático-pedagógicos e de acesso a ambientes formadores como bibliotecas e laboratórios de informática, formação humana básica e técnica, conectada com as demandas da sociedade atual no que diz respeito a tecnologia e inclusão digital, além da incontestável formação inicial e continuada dos educadores e educadoras que atuam no campo. Ao tempo que é inegável o reconhecimento das PRONACAMPO Eixo 1 Gestão de Práticas pedagógicas Programa Nacionaldo Livro Didático - PNLD Campo Programa Nacional da Biblioteca na Escola - PNBE Mais Educação Campo Escola da Terra Eixo 2 Formação de Professores Formação Inicial de Professores Formação Continuada de Professores Eixo3 EJA* e EPT** EJA Saberes da Terra Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego - PRONATEC Campo Eixo 4 Estrutura Física e Tecnológica Construção das Escolas Inclusão Digital Programa Dinheiro Direto na Escola PDDE PDDE Água e Esgoto Sanitário Luz para Todos na Escola Transporte Escolar urgências que o campo foi submetido a conviver na formação de professores para atuar nas escolas rurais, é importante observar como as universidades tem implantado os cursos de Licenciatura em Educação do Campo. Cenário que aponta para as novas exigências profissionais que são postuladas sobre os professores, resultado dos cenários contemporâneos da produção capitalista, conduzindo ao aligeiramento da formação e precarização das políticas educacionais de formação docente. São fatos que solicitam permanente resistência da educação do campo e sua ação contra- hegemônica de repúdio a manutenção do status quo, efetivamente operado pelo sistema capitalista global (MOLINA, 2016; NEVES, 2013; VIEIRA, 2011). Todas essas ações encaminham-se para retirar a imagem de atraso no que se refere a educação dispensada historicamente ao povo do campo, pois a escola rural requer um tratamento diferenciado, pois a oferta de ensino fundamental precisa chegar a todos os recantos do País e a ampliação da oferta de quatro séries regulares em substituição às classes isoladas unidocentes é meta a ser perseguida, consideradas as peculiaridades regionais e a sazonalidade (VALENTE, 2001, p. 72) Foi no sentido de reconhecer as peculiaridades dos coletivos do campo em sua regionalidade que o PIBID Diversidade, organizado pela CAPES, tem atuado. O programa estendeu suas ações às escolas quilombolas e do campo – assentamentos, acampamentos, indígenas, extrativistas e ribeirinhos –, permitindo acesso dos estudantes das Licenciaturas do Campo as salas de aula da escola básica no sentido de aproximação da universidade com o futuro campo de trabalho. Desse modo, convergem para incentivar a formação docente em nível superior; valorizar o magistério das escolas do campo e indígenas; integrar a educação básica do campo ao ensino superior; desenvolver metodologias e estratégias para atendimento da diversidade na perspectiva do diálogo intercultural; e, valorizar as diferenças culturais, sob os preceitos da interculturalidade do país e sua ressonância para o trabalho pedagógico do professor (BRASIL, 2013). Objetivos que confluem para uma formação de professores adequada a educação do campo, já que exalta a questão cultural como centro das ações em um conjunto de esforços das instituições envolvidas, no sentido de atribuir qualidade à formação, valor profissional e humano dos licenciados, em especial, para com as escolas públicas do meio rural no Brasil (PENIN, 2001). Afirma-se com o isso, que o compromisso do PIBID Diversidade é singular em na parceria com as Licenciaturas do Campo, já que organiza suas bases de ação na direção do olhar multicultural, que por sua vez, [...] trabalha com a valorização da diversidade cultural e o desafio a preconceitos, preconizando, em perspectivas mais recentes, sua articulação ao currículo escolar e de formação docente, de modo a não ser entendido apenas de forma apartada dos conteúdos ministrados em ambos os níveis educacionais e de formação. Outrossim, desenvolve, também, em suas visões mais críticas e pós-coloniais, a sensibilidade para o caráter híbrido da construção identitária, de modo a desafiar visões congeladoras e essencializadas das mesmas, que podem terminar por criar outros estereótipos na contramão do que se espera de uma perspectiva multicultural educacional (BATISTA; SILVA JUNIOR; CANEN, 2013, p. 265) Nesse horizonte das políticas e ações positivas em torno da realidade rural, percebe-se uma importante atuação do Estado, via entes federados, na articulação, elaboração, desenvolvimento e promoção de melhorias no que diz respeito a educação do campo e, de forma pontual, à formação de professores. A conexão entre a realidade local e a formação de qualidade em nível superior que é exigida pelas leis vigentes no país, são visíveis nas políticas educacionais mencionadas na presente seção. Foram solicitadas e organizadas em colaboração com as entidades e coletivos mais importantes do campo, em especial a Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura - CONTAG, o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra – MST, a Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar – FETRAF, o Fórum Nacional de Educação do Campo – FONEC e os Centros Familiares de Formação por Alternância – CEFFAs, que lutam por diuturnamente por visibilidade das demandas sociais e pelo direito de homens e mulheres do campo como cidadãos, expresso na Constituição Federal de 88. A caminhada dessas instituições é longa, histórica e resiliente na busca pela preservação da identidade, cultura, valores, práticas sociais e os modos de ser e viver dos povos tradicionais do campo. São populações que foram melhor assistidas a partir dos anos 2000 quando o Partido dos Trabalhadores – PT, assumiu a governança da nação e reavivou o compromisso de lutar por uma sociedade democrática, justa e igualitária, sem distinções entre os diferentes modos de vida, seja no campo ou seja na cidade, com a execução de políticas sociais voltadas à dignidade humana como moradia, saúde e educação. Sobre a formação de professores requerida pela educação do campo, referendou-se ao longo do tempo, o legado do curso superior de Licenciatura em Pedagogia, haja vista atender a escola rural caracterizada pelo nível básico de ensino. Porém, será ele o mais adequado para trabalhar as riquezas socioculturais no processo de ensino e aprendizagem dos povos do campo que invadem as salas de aula cotidianamente? É o que será tratado na seção seguinte, as licenciaturas e seus atalhos para educação do campo ribeirinha. Referências AGUIAR, L. C. 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O texto em tela tem como temática central a influência dos movimentos sociais na configuração da educação pública no contexto das escolas do campo no Brasil. O problema de pesquisa consiste em compreender como os movimentos sociais influenciaram e fortaleceram as discussões acerca da educação pública brasileira, em especial, da educação do campo. O objetivo é analisar, na literatura especializada disponível no Brasil, as interfaces entre os movimentos sociais e educação do campo. A metodologia adotada conta com abordagem qualitativa, pesquisa bibliográfica e análise interpretativa dos autores que compõem o aporte teórico. Estudos de Gohn (2010; 2011; 2026), Arroyo (2003; 2004; 2009), Brandão (2011), Caldart (2001; 2003; 2004), entre outros, fundamentam a discussão central desta análise. A leitura dos materiais coletados na pesquisa demonstra que o Brasil possui uma trajetória de representatividade dos movimentos sociais de diversas ordens, destacando-se aqueles que lutaram por uma educação pública, democrática e de qualidade, tanto na cidade quanto no campo, como o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Palavras-Chave: Movimentos Sociais; Educação do Campo; História do Brasil. Abstract The present study is part of the theoretical corpus of a doctoral thesis that investigated teacher education and rural riverside schools in the city of Belém, in the state of Pará, Brazil. The text focuses on the influence of social movements in shaping public education within the context of rural schools in Brazil. The research problem consists of understanding how social movements influenced and strengthened discussions surrounding Brazilian public education, particularly rural education. the objective is to 1 Doutor em Comunicação, Linguagens e Cultura pelo PPGCLC/UNAMA e professor da Universidade Federal Rural da Amazônia – UFRA, e-mail: jefferson.cardoso@ufra.edu.br 2 Doutora em Psicologia: Teoria e Pesquisa do Comportamento pelo PPGTPC/UFPA e professora da Universidade da Amazônia – UNAMA, e-mail: rosangeladarwich@yahoo.com.br mailto:jefferson.cardoso@ufra.edu.br mailto:rosangeladarwich@yahoo.com.br 2 analyze, through specialized literature available in Brazil, the interfaces between social movements and rural education. The methodology adopted follows a qualitative approach, bibliographic research, and interpretative analysis of the authors who comprise the theoretical framework. studies by Gohn (2010; 2011; 2026), Arroyo (2003; 2004; 2009), Brandão (2011), Caldart (2001; 2003; 2004), among others, support the central discussion of this analysis. the review of materials collected in the research demonstrates that Brazil has a long history of social movements representing various causes, with particular emphasis on those who fought for public, democratic, and high-quality education, both in urban and rural areas, such as the Manifesto of the Pioneers of the New School and the Landless Workers’ Movement (MST). Keywords: Social Movements; Rural Education; History of Brazil. Introdução A educação brasileira é reconhecida como um direito de todos os cidadãos, de forma destacada na Constituição de 1988, que estabelece a educação como pública, gratuita e obrigatória nos níveis básicos de ensino. No entanto, a mesma Carta Magna, ao não explicitar as modalidades de ensino — como a abordada neste estudo —, deu origem a lutas em diferentes períodos históricos e protagonizadas por diversos atores sociais. Nesse contexto, destaca-se a atuação dos movimentos sociais, tanto em áreas urbanas quanto rurais, que se organizaram para afirmar e consolidar as discussões sobre os aspectos sociais da população brasileira, bem como sobre a especificidade da realidade vivida pelo ensino voltado às populações do meio rural. Para Giddens e Sutton (2016, p. 326), os movimentos sociais são “formas poderosas de ação coletiva, e campanhas bem organizadas e contínuas que podem alcançar resultados significativos”. Nessa perspectiva, pode-se afirmar que o país possui uma sólida experiência em relação à ação dos movimentos sociais, abrangendo suas pautas de luta, origens, formas de organização, objetivos, necessidades e o tipo de sociedade que buscam construir para seus semelhantes. A constituição histórica dos Movimentos Sociais3, a partir da classe trabalhadora e dos civis mais pobres no país, aponta para seu protagonismo na gestão das principais crises estruturais, econômicas e sociais do tempo moderno. Na reivindicação por mudanças, eles implantaram importantes transformações nas configurações político-administrativas (Brandão, 2011). 3 Assume-se o conceito de movimentos sociais proposto por Gohn (2011), que os define como ações sociais coletivas de vertente sociopolítica e cultural, capazes de viabilizar a organização popular e expressar suas necessidades. Nesse conceito, identificam-se três componentes principais: primeiro, os movimentos sociais são forças sociais organizadas que aglutinam e associam pessoas em torno de causas, interesses e objetivos comuns; segundo, são ações coletivas diretas e indiretas de pressão, denúncia e resistência, realizadas em processos sequenciais com certa continuidade, ainda que os movimentos nem sempre sejam formalizados ou institucionalizados; e terceiro, a incidência dos movimentos é, sobretudo, política, situando-se no campo das relações de poder na sociedade (SILVA, 2020, s/p). 3 Assim, pela diversidade que os movimentos sociais apresentam no Brasil, destacam-se aqueles de grande ressonância, seja de forma direta ou indireta, na conquista da Educação do Campo como direito dos povos do meio rural. Entre eles, merecem destaque: 1) o Movimento dos Pioneiros da Escola Nova, de 1932; 2) o Movimento das Ligas Camponesas, na década de 1940; 3) o Movimento dos Educadores, de 1959; e, por fim, aquele que efetivamente trouxe o entendimento da Educação do Campo para as fronteiras das discussões políticas, sociais e culturais em nível nacional: o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), a partir da Constituição Federal de 1988. A partir disso, é importante questionar como os movimentos sociais influenciaram e fortaleceram as discussões sobre a educação brasileira, especialmente a educação do campo. O objetivo deste estudo é analisar, na literatura em circulação no Brasil, as interfaces entre os movimentos sociais e a educação do campo. O artigo apresenta uma abordagem dos principais conceitos e do desenvolvimento dos movimentos sociais no Brasil, além de destacarsua relevante atuação junto à sociedade brasileira na luta pela educação pública, democrática e de qualidade, com especial ênfase à educação destinada às populações do campo. Metodologia O presente trabalho adotou a abordagem qualitativa, pois considera as impressões pessoais, relações e experiências sociais que possibilitam o reconhecimento das especificidades dos fenômenos observados. Realizou-se, ainda, uma pesquisa bibliográfica com o objetivo de levantar as publicações científicas sobre estudos anteriores, a fim de compreender o que já foi produzido sobre o tema em análise (Gil, 2008; Severino, 2013). A base de dados concentrou-se nas publicações científicas que abrangem as discussões desde o período do Brasil Colônia até a República, com destaque para a Constituição Cidadã de 1988, que emergiu após o contexto ditatorial no Brasil. Por fim, foi realizada uma análise interpretativa das informações coletadas, visando entender as realidades de cada documento avaliado, bem como os horizontes do direito social fundamental à educação pública no país (Flick, 2009). Movimentos Sociais e suas Ressonâncias na Sociedade Contemporânea É importante fazer um panorama sobre a constituição dos Movimentos Sociais, que se inicia 4 com o processo de organização coletiva dos sujeitos, em que a união é tida como o único caminho para a busca por direitos básicos na sociedade moderna. Essa sociedade é marcada pela luta intensa entre as diferentes classes sociais, muitas vezes individualista por natureza. A partir disso, observam-se os Movimentos Sociais que se forjam a partir de meados do século XIX, durante a Revolução Industrial, os quais oferecem fortes elementos para a compreensão de diferentes realidades (Grinberg, 2018; Jezine, 2016; Marx; Engels, 1998; Souza; Pereira, 2022). Esses movimentos apontam para a aquisição e o fortalecimento de uma crítica política, que incorpora concepções econômicas, culturais, ambientais e sociais, com o objetivo de garantir protagonismos na formulação de políticas públicas governamentais que impactem a vida da comunidade em geral. As demandas desses movimentos são sistematizadas de maneira firme, com fundamentação teórica e com base nos direitos humanos, comuns a todos, configurando-se, portanto, como verdadeiras resistências contra-hegemônicas no tempo contemporâneo. As questões contemporâneas que envolvem os direitos sociais conquistados pelos cidadãos no contexto de países democráticos, como o Brasil, tornam-se marcos importantes na construção de uma sociedade mais justa, igualitária e libertária, no sentido amplo de seus conceitos. De acordo com Gohn (2016), os Movimentos Sociais têm historicamente marcado presença nos arranjos políticos e sociais no Brasil, especialmente no que se refere à temática da educação, sendo resultados das aprendizagens e projetos socioeducativos promovidos por esses grupos. Na concepção de Gohn (2010), os Movimentos Sociais possuem um caráter inovador e produtor de saberes ao longo de sua trajetória histórica. Eles apostam em práticas cotidianas que geram aprendizagens e ações na cultura política dos envolvidos. Nesse sentido, para Baalbaki e Nascimento (2021), a organização popular na forma de Movimentos Sociais é resultado da articulação entre intelectuais, políticos, estudantes e religiosos, que buscavam a participação dos sujeitos – especialmente da população mais pobre e vulnerável – no debate político, atentos aos problemas sociais do país, na redução da dependência internacional e na promoção do nacionalismo, visando a construção de uma sociedade mais igualitária. A educação é elemento central neste debate, pois busca a emancipação crítico-reflexiva dos sujeitos, permitindo-lhes compreender e desenvolver a capacidade de transformar a realidade vivida, por meio de estratégias e ações articuladas com os gestores públicos, na promoção e efetivação das políticas públicas voltadas para a resolução dos problemas apresentados pela sociedade brasileira. 5 O processo de reconhecimento dos Movimentos Sociais enquanto categoria emerge da necessidade coletiva de grupos e/ou segmentos historicamente minorizados e subjugados pelo mundo. Um exemplo notável dessa dinâmica é a ressonância do movimento operário europeu, que se fortaleceu a partir da década de 1840, impulsionado pelas demandas dos trabalhadores. Esses movimentos reuniam sindicatos e partidos políticos socialistas ou comunistas, sob forte influência marxista (Grinberg; Oliveira, 2018). No Brasil, os Movimentos Sociais ganharam força a partir da década de 1960, como resposta às opressões vividas durante a ditadura civil- militar. Naquele período, lutavam por cidadania, pois a busca por direitos fundamentais era uma das principais pautas do movimento. Segundo Doimo (1995, p. 39), os sindicatos e os partidos políticos de orientação socialista e comunista representariam, nessa perspectiva, a forma mais acabada desse tipo de organização, e tudo o que fugisse desse raio de ação sequer podia ser incluído sob a rubrica do verdadeiro movimento social; quando muito, seriam movimentos arcaicos e pré- políticos ou, então, meros assuntos da classe trabalhadora. Diante disso, Thompson (1987) alerta sobre a consciência de classe, que avalia como as experiências culturais, anteriormente descritas, são tratadas, sejam elas tradições, ideais, sistemas de valores ou formas institucionais. Essas experiências também incluem as vivências de grupos profissionais distintos, que expressam suas demandas de maneiras que nunca são exatamente iguais em forma ou proporção. No campo das lutas, a educação ocupa um dos pontos fundamentais dos Movimentos Sociais, pois, por meio dela, o coletivo de sujeitos organizados tem acesso a conhecimentos, saberes e práticas sistematizadas nas escolas, com o objetivo de aumentar o capital intelectual de seus membros. A busca por educação, como destaca Gohn (2011), “tem caráter histórico, é processual e ocorre, portanto, tanto dentro quanto fora das escolas e em outros espaços institucionais” (p. 398). Na história do Brasil, diversos movimentos de caráter social marcaram os cenários Colonial, Imperial e Republicano. No período Colonial, os confrontos estavam centrados em duas frentes: a) os nativistas, originários dos povos locais das terras brasileiras, que demonstravam insatisfação com o governo central. Entre os principais exemplos desse movimento, destacam- se a Revolta de Beckman (1684), a Guerra dos Emboabas (1708), a Guerra dos Mascates (1710) e a Revolta de Felipe dos Santos (1720); e b) os emancipacionistas, que almejavam a independência total do Brasil ou de algumas de suas regiões em relação à Colônia. Exemplos desse movimento incluem a Conjuração Mineira (1789), a Conjuração Carioca (1794) e a 6 Conjuração Baiana (1798). Todos esses episódios foram amplamente reprimidos com severidade pelas autoridades portuguesas, que eliminaram qualquer ato contra as elites burguesas, eclesiásticas e oligárquicas agrárias no território nacional (Fernandes, 2012). No período Imperial não foi diferente. As insatisfações populares no que diz respeitos aos aspectos econômicos, políticos e sociais só aumentavam e tornavam-se mais frequentes (Silva, 2016). Citam-se como movimentos sociais de destaque: Guerra dos Farrapos (1835), Cabanagem (1835), Revolta dos Malês (1835), Sabinada (1837), e Balaiada (1838). Na perspectiva de Fausto (2004, p. 164) esses eventos “não se enquadram em uma moldura única. Elas tinham a ver com as dificuldades da vida cotidiana e as incertezas da organização política, mas cada uma delas resultou de realidades específicas, provinciais ou locais.” Para Carvalho (1990; 2010), esses movimentos foram o único caminho para “solucionar” a dominação do sistema nacional baseado na monarquia, contando com ações, tanto nas áreas urbanas quanto rurais, estas últimassendo reprimidas de forma mais violenta pelo governo geral. Já o período Republicano está divido em República Velha de 1889 – 1930, Era Vargas de 1930 – 1945, República Populista de 1945 – 1964, Ditadura Militar de 1964 - 1985 e República Nova de 1985 ao tempo atual, que registrou com mais veemência a ação de Movimentos Sociais que lutam por qualidade de vida, trabalho, habitação digna e educação indistinta na cidade e no campo, sendo oportuna uma breve análise sobre eles (Domingues, 2015). Na concepção de Monteiro (1994), a instalação da República apresentou-se com alta concentração de poder dos fazendeiros do oeste paulista e descentralizada por conta dos interesses regionais. O autor acrescenta que permaneceu o elitismo, o autoritarismo, a dependência econômica do país ante o capitalismo internacional e a superexploração dos trabalhadores que necessitaram renovar suas pautas de lutas. Assim, a República Velha terminaria tomada por movimentações de caráter civil e militar, questionando as bases governistas e buscando enfraquecer o elitismo e o autoritarismo, somando-se ao cenário mundial da crise de 1929 com a quebra da Bolsa de Nova York4, culminaria com a instalação da chamada Revolução de 30 – Movimento Nacional que transformou a política do país. 4 A Grande Depressão teve origem nos Estados Unidos em 1929, com uma desaceleração econômica resultante da diminuição dos gastos. Fabricantes e comerciantes, ao notarem um aumento indesejável nos estoques, reduziram a quantidade produzida. A causa do declínio na demanda agregada foi, entre outras razões, o aperto da política monetária por meio da elevação das taxas de juros, realizada pelo FED para controlar a elevação dos preços das ações. [...] Em meados de 1929 e início de 1930, países como Brasil, Argentina, Canadá e Austrália modificaram suas taxas de câmbio, permitindo que suas moedas se desvalorizassem (Brito, 2010, p. 20). 7 É chagada a Era Vargas (1930 – 1945). A “renovação” política do Brasil neste período ficou a cargo de verdadeiros arranjos entre as elites agrárias do país sob a liderança de Getúlio Vargas (Fausto, 1979). Um governo controverso, que teve ao menos três diferentes facetas: 1ª) baseada na conquista da classe trabalhadora com a implementação das Leis Trabalhistas; 2ª) focado na classe média alta e na burguesia brasileira pelo desenvolvimento econômico e industrial vivido no período; e 3ª) seu caráter nacionalista pela defesa dos interesses econômicos do país e por sua cultura política (Silva, 2015). O principal Movimento Social na Era Vargas, foi o Movimento Trabalhista, Operário e Sindical Brasileiro na cidade e o Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas e Pecuários de Campos, nas vastas áreas rurais país. A herança da Primeira República reservou a Getúlio Vargas uma amarga trajetória negativa sobre os direitos trabalhistas, não houve àquela época, uma legislação que assegurasse os direitos da classe operária frente as exigências do capital. Ainda para o autor, o cenário apresentava de 12 a 15 horas de trabalho, sem descanso remunerado de qualquer espécie, seja durante a semana, domingos e feriados, seja no próprio contexto de férias, fora que não haviam contratos de trabalho escritos, nem muito menos quem fiscalizasse a ação arbitrária dos patrões contra os empregados. E, ainda, a baixa qualidade de vida expressa nas moradias precárias, baixos salários e vidas miseráveis (Batistella, 2015; Ribeiro, 2018). As medidas legislativas apresentadas no governo Vargas deram legitimidade, em partes, as demandas dos trabalhadores brasileiros até o fim de seu mandato. As articulações eram centradas diretamente como o presidente e obtinham respostas a médio prazo, o que impedia qualquer luta de classe, além da confederação nacional criada para agregar diferentes trabalhadores em uma estrutura vertical composta pelos setores do comércio, da agricultura, da indústria ou do serviço, limitando a atuação sindical de base (Antunes, 2003; D’Araújo, 2003). A chamada República Populista de 1945 – 1964 que compreende quatro presidentes diferentes: Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), o segundo governo Vargas (1951-54), Café Filho (1954-55), Juscelino Kubitschek (1956-60), Jânio Quadros (1961) e João Goulart (1961-1964), vai testemunhar um processo de nacionalismo cultural de várias frentes a cargo dos Movimentos Sociais como no cinema, no teatro, em oficinas, de opiniões públicas e na música. A consolidação da União Nacional dos Estudantes enquanto movimento de luta, as Ligas Camponesas e o Comando Geral dos Trabalhadores, implantam novos debates políticos acerca dos problemas sociais que se arrastam ao longo dos séculos pelo país (Lovatto, 2011). 8 O recorte histórico da Ditadura Militar de 1964 – 1985 coloca o Brasil sob uma verdadeira recessão social, em que a experiência de longa data dos Movimentos Sociais será crucial para no retorno da democracia e o avanço em termos conceituais, políticos e sociais da ação do coletivo organizado civil. Apesar do cerceamento e cassação dos direitos políticos e civis, e da paralisação de certas negociações dos Movimentos Sociais, os trabalhadores rurais tiveram seus direitos assegurados pelo Estatuto do Trabalhador Rural (Grinberg, 2018). O fim da ditadura militar acontece pela organização do Movimento Social “Diretas Já” que é considerado a maior ação cívico-popular do republicanismo no país. Ação coletiva de caráter civil e político que marcou o fim dos tempos ditatoriais, baseado na cassação dos direitos sociais e políticos de personalidades influentes que foram perseguidos no Brasil e, recondução do país à democracia por meio das urnas, um clamor que ressoa até os dias atuais (Delgado, 2007; Rodrigues, 2003; Santos, 2014). Com a emblemática ação do movimento anterior, a redemocratização do Brasil tornou-se um fato. As elites políticas tomaram novamente o comando da nação, enquanto o povo permaneceu sem a atenção devida. Inaugura-se um novo tempo de luta, agora chamada República Nova a partir de 1985, na explosão dos Movimentos Sociais das mais diversas frentes. Na perspectiva de Gohn (2010), os Movimentos Sociais na contemporaneidade do Brasil, revelam seus aspectos de maneira muito ampla e diversa no que se refere ao associativismo. Estão baseados em pelo menos cinco características básicas: 1) Multi e pluriclassistas – para abordar as questões do novo milênio no campo identitário e comunitário; 2) Sustentabilidade – organizações mais articuladas em rede e com consciência dos problemas ambientais; 3) Novos Arranjos contra-hegemônicos – organizações não governamentais, terceiro setor e associações; 4) Questões cotidianas – o neoliberalismo acentuou as diferenças das classes no mundo; e, 5) Estado Reformista – apesar das ações de abertura e negociação com os movimentos, o Estado ainda não consegue um controle social real; são novas questões do tempo atual que direcionam a inteligibilidade das lutas coletivas (Gohn, 2010). Educação do Campo e Movimentos Sociais: Conexões e Desafios A relação entre educação e Movimentos Sociais, a partir da discussão anterior, torna-se uma realidade inegável, dado o caráter produtor e reprodutor do conhecimento sociopolítico e cultural que os coletivos possuem em suas pautas de luta. Eles refletem a construção de saberes 9 únicos, que convergem para a consolidação de um aporte teórico-metodológico capaz de criar possibilidades de ação do Estado frente às lutas desses movimentos na sociedade capitalista atual. Para Brandão (2011, p. 125), na sociedade capitalista, essa ação coletiva estaria “[...] condicionada pela exploração presente no processo produtivo e, portanto, as classes sociais seriam não só os agentes das ações coletivas, mas também os sujeitos históricos das transformações revolucionárias”. Em seguida, o esquema aponta para a evolução e o desenvolvimentodos Novos Movimentos Sociais na contemporaneidade. Esquema 1. Constituição dos Novos Movimentos Sociais Fonte: adaptado de Gohn (2010) A legitimação desses Movimentos Sociais contemporâneos, permanecem a cargo de sua práxis transformadora da realidade imediata, com vistas a um projeto unitário e socio-coletivo, partindo de ideologias comuns definidas, bem como de sua capacidade de organização e direção, frente as novas demandas do mundo neoliberal e capitalista (Scherer-Warren, 1987). Nas análises de Leher (2001), os movimentos tem sido lugar de diálogo público constante, abertura de espaços para debate sobre questões locais e globais, assim como orientam-se por conceitos e categorias capazes de romper com o modelo de produção capitalista. Desse modo, os sujeitos dos coletivos, vítimas da opressão, emancipam-se por meio da luta cotidiana, forjadas nas transformações do presente, e não, na utopia futurista (Santos, 1999). É na busca pela emancipação, por exemplo, que os povos do campo têm lutado, diuturnamente, por uma educação pública e adequada às suas especificidades, em que “os movimentos sociais colocam a luta pela escola no campo dos direitos. Na fronteira de uma pluralidade de direitos: a saúde, a moradia, a terra, o teto, a segurança, a proteção da infância, a cidade” (Arroyo, 2003, p. 30). Nesse debate, vale o destaque a quatro movimentos que deram voz a educação do campo Movimentos Sociais Urbanos Movimentos Sociais Populares Movimentos Sociais da Saúde Movimentos Sociais do Direito Movimento Social Sindical Movimento Social Religioso Movimento Social dos Sem-Terra Movimentos Contra o Neoliberalismo Movimentos Contra Reforma Estatais Movimentos Sociais de Fórum Civil Movimentos Sociais de Cooperativa Movimento Social de Atingidos por Barragens Movimentos Sociais de Comunicação 10 no Brasil, de forma direta ou indireta: Movimento dos Pioneiros da Escola Nova de 1932, Movimento das Ligas Camponesas de 1940, Movimento dos Educadores de 1959 e o Movimento dos Sem Terra pós Constituição Federal de 1988, apresentados nesta sequência. O Movimento dos Pioneiros da Escola Nova em 1932, inaugura um novo pensamento educacional no país. O episódio é resultado da insatisfação de um grupo de intelectuais liderados por Anísio Teixeira5 que se opôs ao sistema educacional e propôs mudanças significativas em âmbito nacional. As principais reivindicações giravam em torno de quatro pilares: ensino elementar obrigatória para todos, gratuidade da instrução pública, laicidade do currículo e educação conjunta para ambos os sexos (Palma Filho, 2005). Eram resquícios da educação da primeira república já apresentados neste estudo, que seriam o ponto divergência entre os defensores da educação elitista, excludente e segregadora, e o movimento que buscava um novo sistema educacional, capaz de tratar todos como iguais, tendo como princípios básicos ser pública, gratuita e de qualidade a todos, sem distinção. Com a necessidade de mudanças sociais instaladas na conjuntura da Revolução de 30 – já tratada anteriormente –, tem-se a busca por um modelo educacional que proporcionasse igualdade de condições ao ensino, situação que ficou evidente quando acontece a IV Conferência Nacional de Educação em 1931. Para Gadotti (1996), essa Escola Nova pretendida pelo manifesto, estaria mais voltada ação educativa de formação humana, do que a própria instrução, uma vez que deveria levar em conta a ação produtiva, ativa e concreta de seus participantes. Era necessário nesse contexto, educar o povo, quer na cidade ou no meio rural, para acompanhar o crescimento e desenvolvimento da economia do país atrelada fortemente aos moldes do capitalismo industrial (Santos et al., 2006). A pretensão do Manifesto era alterar a cultura do país por meio de uma ampla modificação do sistema educacional, capaz de modelar a mentalidade das novas gerações, em especial das classes média e alta. Um modelo de educação que fosse capaz de promover uma consciência nacional para as elites, mas que levasse em conta a educação das camadas populares com vistas sua ascensão moral, econômica e intelectual, capaz de promover a mobilidade social que tanto o povo deseja (Celeste-Filho, 2013). 5 “Anísio Teixeira fez parte de uma geração de intelectuais cuja preocupação maior, na primeira metade do século XX, foi organizar a nação e forjar o povo através de uma cultura que procurava assegurar a sua unidade pela instrução pública, pela reforma do ensino e pela construção de um campo cultural a partir da universidade. [...] O que torna a trajetória de Anísio Teixeira admirável é a persistência na defesa da democracia e da educação para a democracia, que constituiu o motivo central de devotamento da sua vida. Também teve participação ativa na Associação Brasileira de Educação (ABE), tendo publicado Educação progressiva – Uma introdução à filosofia da educação (1932) e, Em marcha para a democracia (1934). Já estava afastado da vida pública quando editou Educação para a democracia: Introdução à administração escolar (1936)” (NUNES, 2000, p. 11-13). 11 Assim, o documento bem organizado e escrito, apontou para um sistema completo de estrutura orgânica com base nas condições efetivas e econômicas dos períodos vividos pela nação. Seus princípios teriam três pilares: 1) educação é dever do Estado, 2) financiamento educacional dar- se-á em regime de cooperação entre a União, os Estados e Municípios, e 3) educação integral que atenda a todos sem distinção. Além disso, sistematizar o ensino primário e secundário voltados para realidade do povo brasileiro, observar a capacidade de produção do país para firmar uma escola básica, técnica e de nível superior que atenda as demandas do mundo do trabalho, além de buscar uma universidade baseada no tripé ensino, pesquisa e extensão, financiada por fundos específicos para tal. Ao ensino privado caberia seguir as diretrizes da educação pública, inclusive com fiscalização, também criar uma rede de apoio à saúde física e psíquica dos alunos, excepcionalmente na primeira infância. Por fim, reorganizar a administração escolar a partir dos serviços de ensino e, alinhado ao pensamento do pleno desenvolvimento humano, buscar uma educação unificada do jardim à universidade com total atenção a todos, inclusive com a promoção de escolas para os alunos especiais (Ribeiro, 1993). No avançar das relações do povo brasileiro com os Movimentos Sociais, as Ligas Camponesas foram, na década de 1940, uma organização não governamental que congregou os trabalhadores do campo em torno da reforma agrária do país que se arrastava desde a primeira república. Desse modo, a organização camponesa foi inevitável, haja vista que antes do aparecimento das Ligas, os povos do campo não tinham consciência de seus direitos, bem como estavam expostos a exploração do latifúndio (Targino; Moreira E Meniezes, 2011). No entanto, na avaliação de Moreira (2003) o tempo era de relações estáveis no contexto urbano e rural, mesmo que a modernização da agricultura, via expansão das fronteiras agrícolas sob o comando a elite oligárquica do Brasil, busca-se a industrialização nacional. Nessa conjuntura, a questão agrária e a luta dos camponeses traz contribuições relevantes para história do país, já que os movimentos do campo em diferentes temporalidades, buscam um sistema produtivo capaz de fornecer autonomia as organizações dos povos tradicionais, bem como preservam seus conhecimentos, saberes e práticas, com base na agricultura familiar que tenta acompanhar ao longo dos anos, a modernização implementada no campo, afim de atender as necessidades de produção e comercialização de seus produtos (Mattos, 1988). Ao analisar a constituição das Ligas Camponesas enquanto movimento e, sua contribuição no terreno das ações sociais que buscavam direitos básicos como moradia,direito a ser educado no lugar onde vive” (Kolling, Cerioli e Caldart, 2002, p. 26), e do campo: “o povo tem direito a uma educação pensada desde o seu lugar e com sua participação, vinculada à sua cultura e às suas necessidades humanas e sociais” (ibid.), assumida na perspectiva de continuação da “luta histórica pela constituição da educação como um direito universal” (ibid.), que não deve ser tratada nem como serviço nem como política compensatória e muito menos como mercadoria. 5 Segundo o censo agropecuário de 2006 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2009), no Brasil, 30% dos trabalhadores rurais são analfabetos e 80% não chegaram a con- cluir o ensino fundamental. Para saber mais arroyo, M. g.; caldart, r. s.; Molina, M. c. (org.). Por uma educação do campo. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2009. Brasil. PrEsidência da rEPúBlica. Decreto nº 7.352, de 4 de novembro de 2010: dispõe sobre a política de educação do campo e o Programa Nacional de Educa- ção na Reforma Agrária – Pronera. Diário Oficial da União, Brasília, 5 nov. 2010. ______. Conselho Nacional de Educação (CNE). Câmara de Educação Básica (CEB). Parecer CNB/CEB nº 36/2001: Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo. Brasília: CNE, 4 de dezembro de 2001. caldart, r. s. Sobre educação do campo. In: santos, c. a. (org.). Educação do cam- po: campo – políticas públicas – educação. Brasília: Incra/MDA, 2008. p. 67-86. ______. Educação do campo: notas para uma análise de percurso. Trabalho, Educação e Saúde, Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, v. 7, n. 1, p. 35-64, mar.-jun. 2009. FóruM nacional dE Educação do caMPo (Fonec). Carta de criação do Fórum Nacional de Educação do Campo. Brasília: Fonec, agosto de 2010. 267 E Educação Omnilateral Frigotto, g. Projeto societário contra-hegemônico e educação do campo: desa- fios de conteúdo, método e forma. In: MunariM, A. et al. (org.). Educação do campo: reflexões e perspectivas. Florianópolis: Insular, 2010. p. 19-46. instituto BrasilEiro dE gEograFia E Estatística (iBgE). Censo agropecuário 2006. Rio de Janeiro: IBGE, 2009. kolling, E. J.; nEry, i.; Molina, M. c. Por uma educação básica do campo (memória). Brasília: Articulação Nacional por uma Educação do Campo, 1999. ______; cErioli, P. r.; caldart, r. s. (org.). Educação do campo: identidade e políti- cas públicas. Brasília: Articulação Nacional por uma Educação do Campo, 2002. Molina, M. c. (org.). Educação do campo e pesquisa: questões para reflexão. Brasília: MDA, 2006. MunariM, a. et al. (org.). Educação do campo: reflexões e perspectivas. Florianópolis: Insular, 2010. williaMs, r. La larga revolución. Buenos Aires: Nueva Visión, 2003. E EduCação omnilatEral Gaudêncio Frigotto Omnilateral é um termo que vem do latim e cuja tradução literal signi- fica “todos os lados ou dimensões”. Educação omnilateral significa, assim, a concepção de educação ou de forma- ção humana que busca levar em conta todas as dimensões que constituem a especificidade do ser humano e as con- dições objetivas e subjetivas reais para seu pleno desenvolvimento histórico. Essas dimensões envolvem sua vida corpórea material e seu desenvolvi- mento intelectual, cultural, educacio- nal, psicossocial, afetivo, estético e lú- dico. Em síntese, educação omnilateral abrange a educação e a emancipação de todos os sentidos humanos, pois os mesmos não são simplesmente dados pela natureza. O que é especificamente humano, neles, é a criação deles pelo próprio homem (Mészáros, 1981, p. 181). O desenvolvimento que se expres- sa em cada ser humano não advém de uma essência humana abstrata, mas é um processo no qual o ser se consti- tui socialmente, por meio do trabalho; é uma individualidade – e, consequen- temente, uma subjetividade – que se constrói, portanto, dentro de determi- nadas condições histórico-sociais. Por isso, Marx define a essência humana, na sexta tese sobre Feuerbach, como sendo o conjunto das relações sociais (Marx, 1988). E, com base nesta compreensão, Gramsci (1978) sublinha que a humani- dade que se reflete em cada individua- lidade é expressão das múltiplas rela- ções do indivíduo com os outros seres humanos e com a natureza. Assim, a língua que falamos, os valores, os sen- timentos, os hábitos, o gosto, a religião ou as crenças e os conhecimentos que 205 Mary Rangel; Rosângela Branca do Carmo Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 DA EDUCAÇÃO RURAL À EDUCAÇÃO DO CAMPO: REVISÃO CRÍTICA Mary Rangel * Rosângela Branca do Carmo ** RESUMO O propósito deste estudo é recuperar alguns dos eventos históricos da educação rural que esclarecem o percurso da evolução de seu significado para a concepção, social e politicamente mais ampla, da educação do campo, observando e problematizando, nesse percurso, fatores que fundamentam reivindicações por maior atenção à escola e às práticas pedagógicas. A metodologia inclui revisão de estudos, cujos aportes críticos sustentam a problematização, construída no estilo ensaístico. A revisão aponta um longo tempo de pouca atenção política ao contexto rural e suas escolas, cujo currículo e práticas têm sido submetidos ao modelo da escola urbana. Destaca-se, então, a relevância histórica de movimentos sociopolíticos em prol da valorização dos sujeitos do meio rural, incluindo indígenas e remanescentes dos quilombos, reconhecendo-se sua importância para a vida e a história do país. Assim, no percurso histórico e nos aportes críticos revistos neste artigo, observa-se a crescente ênfase em recursos e condições que propiciem a oferta de um processo educativo contextualizado, assegurando-se também os princípios de qualidade educacional. Desse modo, este estudo demonstra o quanto o campo inspira reflexões e requer a continuidade e aprofundamento de estudos que visibilizem suas questões e apelos. Palavras-chave: Educação Rural. Revisão Crítica. Problematização. Educação do Campo. ABSTRACT FROM RURAL EDUCATION, TO COUNTRySIDE EDUCATION: A CRITICAL REvIEW The purpose of this study is to recover some of the historic events of the rural education that clarify the route of the evolution of its significance to the conception, social and politically wider, from the field education, observing and questioning, in this route, factors that base claims for greater attention to school and its pedagogical * Doutorado em educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pós-Doutorado em Psicologia Social pela Pon- tíifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Professora Titular de Didática da Universidade Federal Fluminense(UFF). Professora Titular da área de Ensino-Aprendizagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Assessora Pedagógica: Institutos Superiores La Salle (RJ) e Colégio La Salle Abel (RJ). Endereço para contato: Universidade Federal Fluminense, Faculdade de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação, Campus do Gragoatá, CEP: 24.210-201 Niterói, RJ. mran- gel@lasalle.org.br. ** Mestrado em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professora do Departamento de Ciências da Educação da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Endereço para contato: Universidade Federal de São João del-Rei. Praça Frei Orlando, 170, Centro, CEP: 36.307-352 São João del-Rei - Minas Gerais. branca@ufsj.edu.br 206 Da educação rural à educação do campo: revisão crítica Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 practices. The methodology has included review of studies, whose critical contribution have sustained the questioning, constructed in the essay style. The review points to a long time of few political attention to the rural context and their schools, whose curriculum and practices have been submitted to the model of urban schools. It has been highlighted, though, the historic relevance of social political movementssaúde e educação, é 12 possível perceber três fatores gerais: 1) o movimento abarcava literalmente todos os personagens trabalhadores do campo, assalariados, pequenos agricultores, parceiros e até os posseiros faziam sua adesão; 2) a organização político-social baseava-se nos preceitos comunistas e fortaleciam as alianças operário-camponês; e, 3) havia forte dependência na relação trabalhadores operários da cidade e os trabalhadores rurais, haja vista a larga experiência de luta por direitos sociais do primeiro grupo (Morais, 1997). A educação, mesmo que em sua vertente não-formal, é percebida pelo movimento como necessária a difusão das ideias sobre a própria organização, seus direitos e a defesa de suas pautas de luta. Pela carência educacional que os povos do campo eram fadados a conviver, a questão era vista em segundo plano, haja vista prioridade pela luta ao direito da terra para depois avançar aos demais garantias sociais. Porém, para demonstrar a realidade de sofrimento, abandono e exploração da classe camponesa, havia no interior do movimento produções de boletins como "Guia do Camponês" o "ABC do Camponês" a "Cartilha do Camponês" a "Carta de Alforria do Camponês" que firmavam seus conhecimentos e saberes para os cuidados com a terra e denunciavam acima de tudo, o cenário de injustiça, opressão e os abusos cometidos pelos latifundiários (Julião, 1961). Em consequência, as Ligas deixam forte influência na luta pela terra e a permanência dos povos tradicionais no tempo atual, pois compartilham de esperança junto a sujeitos reais e singulares, que organizados transformam o fazer político-pedagógico do cotidiano na busca pelos direitos da coletividade (Silva; Torres, 2015). Experiência primordial para que novos movimentos no campesinato brasileiro surgissem, por importante lições deixadas pela Liga Camponesa como: 1) organização política visando a liberdade dos povos do campo, 2) fortalecimento das relações camponês-operário, 3) organização das massas para lutar pela melhoria na qualidade de vida do povo, 4) reinventar os movimentos reprimidos por força militar, atentando ao momento vivido, 5) trabalhar a estrutura racional de ordem marxista com protagonismo ao proletariado, mantendo-se vigilantes contra ação repressora, e 6) transformar diuturnamente a relação operário-camponês em força revolucionária (Morais, 1997). De volta ao cenário urbano, em 1959 surge o “Manifesto dos Educadores: mais uma vez convocados”, pode-se dizer que seria a reafirmação, a consolidação e o alargamento das propostas da Escola Nova tensionado no início da era Vargas pelo Manifesto dos Pioneiros já apresentado. Foi tido como uma renovação pedagógica, semelhante a Escola Nova, porém com 13 sua própria essência social (Barrera, 2016). A educação percebida nesse período, canaliza a preocupação social em torno dos elementos centrais como legislação, financiamento, distinção entre o público e o privado, bem como seus papeis para o progresso do país e, acima de tudo, sua legitimação para consolidação como sistema de ensino nacional (Sepulveda, 2013). Mais ainda, o Manifesto de 1959 não quisera o monopólio do ensino ofertado e gerido pelo Estado, à revelia da opinião pública e da rede privada de ensino, buscava-se sim, a coexistência do ensino público e privado, desde que o financiamento estatal fosse direcionado à esfera pública, tornando a rede privada sujeita a fiscalização do governo (Ghiraldelli JR, 2003). Desse modo, o movimento permaneceu na linha de luta por uma educação justa ao povo brasileiro, que sendo gratuita a todos e indistinta de classe social, vislumbraria um futuro melhor para o país. Conquanto, repararia o passado de injustiças e desigualdades, levando o Brasil a patamares superiores de cidadania na busca por um sistema nacional de ensino que seja real, articulado, acessível e inclusivo em seus níveis e modalidade de ensino. No retorno aos movimentos de luta do meio rural, a ação coletiva mais importante, talvez do século XX, em favor de uma educação adequada aos povos do campo é personificada no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Há uma vasta produção acadêmico- científica em circulação no Brasil sobre as articulações do MST nos diversos setores sociais, inclusive no campo educacional. A intenção do presente texto, no entanto, é de ratificar sua força no cenário nacional como coletivo influente na geração de políticas sociais que busquem qualidade de vida, o reconhecimento e a ocupação de terras pelos povos tradicionais das ruralidades do Brasil. Diante disso, “a ocupação de terra é uma criação histórica. É um acontecimento [...] o interesse e a resistência dos camponeses. É, portanto um fato criado pelas pessoas e suas causas. E a principal causa é a defesa da vida.” (Fernandes, 2000, p. 66). O movimento tem sua gênese ainda na década de 1979 e, durante cinco anos, organizou-se na luta pela terra, a partir de conflitos gerados em torno da reforma agrária tão solicitada neste tempo, culminando com o I Encontro Nacional dos Trabalhadores Sem Terra em 1984, na cidade de Cascavel e I Congresso Nacional de Curitiba, ambas no Paraná, ocasião em que ratificou seus objetivos em sobre da questão agrária do país (Caldart, 2001; Morissawa, 2001; Rodrigues, 2021; Stedile; Fernandes, 2001; Xavier; Pimenta, 2017). Na trajetória dos movimentos dos trabalhadores do campo, o MST demonstra característica ideológica concreta e em constante desenvolvimento a partir da(e): 1) radicalidade da luta e de 14 conquista de mais sujeitos para adesão do movimento; 2) dimensões múltiplas de atuação terra, desenvolvimento agroecológico e educação; 3) diversidade nos formatos organizativos por fatores regionais; e, 4) universalização da luta coletiva e dos interesses sociais imediatos. Pontos que lhes torna reconhecido nos cenários nacional e internacional, empreendendo de forma estritamente organizada, a reinvindicação por uma sociedade mais justa e igualitária, sob as bandeiras da conquista da terra – como fixação e desenvolvimento social dos povos do campo e da educação – como fator chave na disseminação dos ideais do movimento na instrução do povo camponês (Caldart, 2000; Fernandes, 2000; Morissawa, 2001). Em consequência disso, o MST não é resultado de uma proposta política de um partido, não é fruto de uma proposta da Igreja, nem do movimento sindical. Embora tenha conseguido apoio da conjugação dessas forças políticas, o MST é uma realidade que surgiu da lógica desigual do modo capitalista de produção (Fernandes, 2001, p. 60). Por essa ressonância contextual, existe uma alta representatividade da classe trabalhadora rural na geração de políticas nacionais capazes de suprir a necessidade de todos os cidadãos viventes no campo, que é resultado das transformações da sociedade brasileira no último século. A luta empreendida pelo movimento que hoje possui adesão de sujeitos das áreas urbanas, buscam a redefinição de suas práticas sociais, acreditam ser possível uma sociedade mais cidadã, na base da justiça e igualdade material de condições para organizar, desenvolver e manter a vida no meio rural e também na cidade. A educação voltada à cultura dos homens do campo é vista como elemento central, e como garantia da justiça social aos trabalhadores do campo. Não obstante, o que o MST tem buscado ao longo de décadas, é forjar no meio rural do Brasil uma escola que seja do campo, pensada, sonhada, historicizada e com a cultura dos povos do campo (Arroyo, 2009; Bergamasco, 1997; Oliveira, 2007; Passador, 2006; Santos, 1998). Apesar da solicitação da escola pública para os camponeses, o MST possui um encaminhamento de educação a ser desenvolvida nos acampamentos e assentamentos. Ela parte de alguns elementos centrais como: 1) memória – é trabalhada a partir de uma pedagogia constituída no interior doMST denominada pedagogia da história e guarda preceitos pedagógicos baseados na transmissão da memória coletiva, para celebrar, construir e transmitir a própria história da humanidade; 2) mística – constitui-se como elemento básico da ação educativa do MST, materializada em símbolos que permitem manter viva a utopia do movimento; e, 3) valores – valores humanos que permitam aos sujeitos crescer, formar-se e trabalhar a dignidade humana, 15 praticados na vivência coletiva e na ação-reflexão de cada sujeito. Elementos traduzidos nas inúmeras práticas exitosas do movimento e que a ciência da educação deveria dar total atenção aos princípios educativos oriundos da proposta do MST (Caldart, 2003; Martins, 2004). Diante da realidade pensada para educação do campo, como apresentada em tela, há uma necessidade atual de compreender e analisar o MST para além da luta pela reforma agrária do país – seu principal objetivo –, conquanto, ensejam no interior do movimento uma práxis educativa que contempla experiências de sua própria organização, política, social e cultural. Fortalecem os princípios educativos elencados anteriormente, no sentido de confrontar, a partir do camponês educado, a hegemonia do capitalismo observada na industrialização e mecanização do campo. Acreditam que seu diferencial da educação formal está baseado na díade educação-trabalho, que prioriza o envolvimento direto dos alunos com estudos na problematização do contexto rural brasileiro. E, por sua originalidade, merecem destaque junto aos Movimentos Sociais no Brasil, já que permite um aprofundamento das relações teórico- prática de seu ato educativo (Bauer, 2009; D’agostine, 2009; Dal Ri; Vieitez, 2008). No horizonte de uma educação funcional que permita a ação reflexiva e autônoma de seus participes, o MST põe em prática grande parte das pedagogias construídas historicamente, não aderindo a uma vertente pedagógica de forma específica, negando a pedagogia tradicional de transmissão dos conhecimentos. Por conta disso, “o MST desenvolve a filosofia da formação política dos militantes através da participação, na recriação da vida cotidiana, na cooperação em seus diferentes sentidos e no resgate dos valores com novo conteúdo” (Bogo, 2003, p. 161). Filosofia de formação que atua em oito direções simultaneamente, conforme o esquema abaixo. Esquema 2. matrizes pedagógicas implementas pela educação do MST Fonte: adaptado de Caldart (2004) Pedagogia da luta social - educação pelo e para o movimento de luta Pedagogia da organização coletiva - cooperação entre os militantes Pedagogia da terra - trabalhar com a terra e cuidados com a vida Pedagogia do trabalho e da produção - pelo valor exercido pelo trabalho Pedagogia da cultura - preza pelos modos de ser e viver dos sem terra Pedagogia da escolha - movida por opções individuais e coletivas Pedagogia da história - visa o resgate da memória do movimento Pedagogia da alternância - estudos na escola e na comunidade 16 A educação pensada pelo movimento para o camponês e o trabalhador em geral atua a partir das diferentes pedagogias apresentadas, nega a mera transmissão de conteúdos – por vezes sem conexão com a realidade imediata do aprendente –, já que foca no mero acumulo de conhecimentos e saberes que até hoje, não passou de um projeto importado pelos gestores públicos com base em intelectuais e educadores do passado (Arroyo, 2004; Caldart, 2004). Portanto, desde que o movimento se fez presente no debate político nacional, se pensou em uma escola que fosse diferente daquelas em que pais e filhos estudaram antes de seu engajamento na luta pela terra. A crítica acerca de um ensino que não carregasse as marcas da vida no campo foi decisivo para o pensamento da escola nas bases ideológicas do MST. Uma educação que priorize os saberes do povo do campo que se volte para fortalecimento do movimento, mas também que possa contribuir com o desenvolvimento do meio rural no Brasil, é uma das bandeiras mais importantes levantas pelo MST (Batista, 2007; Saveli, 2009). Conclusão Fica claro, após a exposição dos principais Movimentos Sociais aqui apresentados, a vasta experiência que o Brasil possui sobre o tema. É importante reconhecer que, embora nem todos os movimentos tenham caráter educacional, suas ações contribuem para a garantia de direitos sociais e, naturalmente, passam pelo processo de aprendizado dos conhecimentos, saberes e práticas inerentes a cada Movimento Social e sua causa sociopolítica. Seja no meio urbano ou rural, os movimentos têm implementado no Brasil uma onda de coletivos organizados que participam ativamente da elaboração e execução de políticas públicas que beneficiem os mais necessitados, em especial os povos tradicionais do meio rural, que, ao longo de séculos, têm sido excluídos dos projetos de desenvolvimento nacional. Todos eles articulam inspirações individuais – enquanto unicidade de cada movimento – e coletivos – enquanto horizonte de luta e articulação social –, necessárias para cobrar, intervir e promover junto as instâncias estatais competentes, as melhorias de que necessitam para seus iguais. Os quatro últimos movimentos apresentados, Pioneiros da Escola Nova, as Ligas Camponesas, o Manifesto dos Educadores e o MST, juntos, formalizam a frente mais ampla em defesa de uma escola pública entre o final do século XX e início do XXI. Busca-se uma educação que seja gratuita, democrática, acessível a todos sem distinção, com qualidade de ensino e que permita a permanência do jardim à universidade no Brasil, como forma de 17 construir uma formação mais justa e sólida para o povo brasileiro, que é diverso por essência. Esse povo merece atenção especial e, de maneira excepcional, a escola do campo, no sentido de acolher a diversidade cultural própria da sociedade brasileira. Referências ARROYO, M. G. (Org). Por uma educação do campo. 4ºed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009. ARROYO, M. G. Pedagogias em movimento: o que temos a aprender dos Movimentos Sociais? Currículo sem Fronteiras, v. 3, n. 1, 2003. ARROYO, M. O direito do trabalhador à Educação. In: GOMEZ, C. M. et al. (Orgs.) 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Thus, in the historical route and in the critical contributions reviewed in this article we have observed the growing emphasis in resources and conditions that favors the offer of a contextualized educational process, assuring also the principles of educational quality. This way, this study has demonstrated how the field inspires reflections and requires the continuity and deepening of studies that visualizes its questions and appeals. Keywords: Rural Education. Critic Review. Questioning. Field Education. Introdução Na condução metodológica deste artigo, optou- se por uma revisão de estudos sem a pretensão de esgotá-los, mas de reunir aportes significativos à problematização a que se propõe, e cujo estilo ensa- ístico é recorrente a Burke (1987) e Pinto (1998). Inicia-se, então, observando que, historicamen- te, os primeiros indícios de visibilidade da educação no meio rural remontam ao século XIX. No entanto, apenas nos anos 30 do século XX começaram a surgir modelos de educação rural, baseados em projetos de modernização do campo, patrocinados por organismos de cooperação norte-americana e difundidos por meio do sistema de assistência técnica e extensão rural (CALAZANS, 1993). A proposta de modernização do campo foi orientada pelo modo de vida urbano, observando pouco as peculiaridades, saberes e valores do meio rural. Esse problema tem motivado pesquisas, como a de Cavalcante (2003), em cujos dados e análises evidencia-se, nas políticas públicas para a escolari- zação das populações rurais, um fraco desempenho e o pouco interesse do Estado. O analfabetismo no Brasil, que permanece mais acentuado na área rural do que na área urbana, é uma das evidências. Desse modo, assinala-se na trajetória da es- cola rural no Brasil o processo de expropriação/ proletarização das famílias agricultoras. Esse processo teve a contribuição do fato da escola ter sido incluída no processo de “modernização do campo”, com base em uma concepção frágil e des- contextualizada de “modernização”, que também tem afetado a escola urbana e, historicamente, a educação brasileira. A crítica a esse problema tem sido recorrente na literatura, podendo-se exempli- ficar a discussão de Freire (2006) sobre autonomia e saberes relevantes às práticas pedagógicas, e as análises de Saviani (1983) sobre as teorias da educação e o problema da marginalidade. Observa- se, então, que quaisquer formas, circunstâncias ou contingências que provoquem mimetismo cultural fragilizam a escola, seja urbana, seja rural. A reação a fatores que fragilizaram a escola ru- ral encontra apoio político em movimentos sociais, como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), no qual se realça o empenho na concep- ção de que a importância da terra, como espaço e projeto de vida e trabalho, associa-se à importância da escola e do saber do campo (RAPOZO, 1999; LIMA, 1998; QUEIROZ, 1992). Por isso, as ques- tões políticas da terra passam, necessariamente, pela educação do e no campo, cuja revisão de aportes críticos de sua história constitui motivo e proposta deste estudo e sua problematização. A educação e a escola do meio rural A educação no meio rural tem se apresentado como um dilema para famílias de agricultores que, frequentemente, se veem impelidos a trocar suas terras e sua vida no campo por subempregos 207 Mary Rangel; Rosângela Branca do Carmo Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 nas periferias das cidades, movidos, entre outros fatores, pela ilusão de encontrarem uma escola que propicie a seus filhos oportunidades de emprego as- salariado de bom nível. Ribeiro (1985, p.3) analisa essa situação, ressaltando que: [...] mesmo para as famílias que enviam seus filhos para a escola rural, o ensino feito através desta escola não os prepara para permanecerem na terra. Toda a política para a educação rural tem se restringido a oferecer um arremedo da escola urbana, que nem habilita os filhos dos agricultores para dar conti- nuidade às lides dos pais, nem os qualifica para os empregos urbanos. Autores, como Richardson (1983) e Rocha (1998), baseados em relatos obtidos ao longo de 15 anos de pesquisas, ressaltam a precariedade estrutural e pedagógica da maioria das escolas rurais do Brasil. Cavalcante (2003) complementa a análise, assinalando que os problemas estrutu- rais apresentam outros agravantes em aspectos pedagógicos, como cartilhas e livros didáticos to- talmente descontextualizados do meio rural, com atividades que não correspondem à vivência do aluno. “As cartilhas eram escritas para as escolas urbanas, sem considerar o saber do camponês, e mantinham atividades inadequadas ao meio rural, como reconheciam algumas professoras, pois não havia muita preocupação em adaptá-las àquilo que seria de maior interesse” (CAVALCANTE, 2003, p. 25). Outra constatação relacionada às escolas rurais do Brasil é a de que a maioria dessas escolas ainda funciona com classes multisseriadas. No que pese o papel histórico que desempenharam e continuam a desempenhar no interior do Brasil, as classes multisseriadas oferecem a professores e alunos condições precárias de estudo. Tal precariedade agrava-se ainda mais se relacionada à formação do professor. Assim, Cavalcante (2003) analisa a fragilidade da formação e o acúmulo de funções do professor na escola rural, assumindo vários níveis escolares numa mesma turma, além de outras fun- ções, a exemplo da função de merendeiro. Observa-se, então, que a educação rural, em seus aspectos pedagógicos, disciplinares e didá- ticos, tem sido concebida com base na ideia de que todos os alunos são iguais, independente das especificidades do meio em que vivem. Sendo assim, fica evidente que tanto o calendário quanto o currículo da maioria das escolas têm sido orien- tados pelas necessidades urbanas, impondo aos alunos do meio rural uma cultura desvinculada de seu contexto. Contudo, vale ressaltar que a descontextuali- zação de saberes e práticas pedagógicas, que tem afetado a escola rural, também ocorre na escola urbana. Entre os problemas e dilemas comuns encontram-se os que se referem a currículo, a metodologias de ensino, a livros didáticos, à des- motivação de alunos, e à formação de professores, que necessitam atuar com uma heterogeneidade de alunos e com as várias manifestações da diversida- de social e do multiculturalismo. Problemas como a precariedade de recursos e de instalações físicas, bem como complicações decorrentes da distância que dificulta o acesso às escolas, são comuns ao meio urbano e rural. Pesquisas como a de Souza (2006), que focaliza A fábrica de professores e a padronização do conhecimento, trazem subsídios significativos ao estudo da descontextualização da escola, sem distinção de urbana ou rural. Con- tribuem, também, a essa análise os enfoques da literatura crítica sobre currículo, a exemplo de Silva (2001); sobre avaliação, a exemplo de Wer- neck (2000); e livro didático, a exemplo de Passini (2000), além de outros tantos estudos e temas das perspectivas amplas, profundas e complexas da problematização da escola. Voltando a focalizar, mais especificamente, o meio rural, observa-se que as dificuldades de inadequação ao contexto, aliadas à precariedade de material, falta de incentivo dos pais, problemas relacionados ao acesso, locomoção, transporte es- colar e deficiente formação do professor têm acarre- tado aos alunos um baixo rendimento e expressiva evasão escolar, com perspectivas de escolarização inferior ao 4º ano do ensino fundamental. Além disso, como observa Werle (2007, p. 10), “[...] o tema da educação rural é pouco difundido como área de pesquisa e de formação, seja em cursos de graduação, seja na Pós-Graduação”.A necessidade de trabalho dos alunos na roça e a condescendência dos professores, que não registram suas faltas, constituem também fatores que prejudicam o seu aproveitamento escolar. Contudo, vale observar que as representações do 208 Da educação rural à educação do campo: revisão crítica Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 trabalho para a mulher e o homem do campo não se limitam a aspectos profissionais e financeiros, mas assumem um particular significado na sua escala de valorização social, embora o trabalho nem sempre seja remunerado e absorva até mesmo atividades domésticas. A questão do trabalho infantil é compreendida não como forma de exploração, mas de obrigação familiar, que deve ser cumprida. Desde muito pe- quenas, as crianças aprendem os ofícios próprios do campo e estão também envolvidas com os trabalhos domésticos, com os quais dividem seu tempo na escola. Essa dupla jornada de atividades, percebida como normal pelos pais, compromete a aprendiza- gem das crianças pelo cansaço, em razão do esforço dispendioso (CAVALCANTE, 2003). É importante também, nessa sequência de análises, levar em conta as contribuições de estu- dos sobre o “trabalho como princípio educativo”, considerando-se, em Saviani (2003, p. 13), que um de seus significados essenciais se expressa no “[...] ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade, produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos ho- mens”. Nesse sentido, o “trabalho como princípio educativo” é uma atividade mediadora entre o indivíduo e a cultura humana. Com essa mesma perspectiva, Arroyo (2008, p, 76) observa que “[...] a experiência que nos move a todos é a experiência do trabalho, da produção, o ato produtivo que nos produz como pessoas”. É interessante, ainda, a leitura de Frigotto (1985), quando propõe a superação de ambigui- dades na discussão do “trabalho como princípio educativo”, assim como a leitura da ampla dis- cussão política que ele oferece em todos os seus trabalhos, com atenção especial à “produtividade da escola improdutiva”, em que se encontra, com expressiva densidade teórica, a crítica à teoria do capital humano e sua influência em concepções da relação entre educação e trabalho pautadas na “[...] economia neoclássica e na ideologia positivista” (FRIGOTTO, 1990, p. 15-16). É oportuno ainda observar que, a despeito de toda a dificuldade e precariedade das condições de ensino em escolas no meio rural, pode-se perceber que a educação é vista pela maioria dos pais como uma forma dos filhos “escaparem” das privações e dificuldades da vida no campo. Para Griffiths (1980, p. 44), [...] a escola moderna não se originou em qualquer tentativa de comunidades rurais para melhorar sua própria maneira de vida. Foi introduzida por estran- geiros, corpos religiosos ou governos coloniais, e sua primeira consequência econômica foi atrair alguns jovens mais inteligentes para o serviço amanuense e outros empregos de escritório. Persiste essa tradi- ção, sendo improvável que tal situação se modifique enquanto o trabalho agrícola não oferecer melhores resultados financeiros, estabilidade e conforto do que os empregos de escritório. Skliar (2003), entre outros pesquisadores que trazem contribuições às análises numa perspectiva crítico-social, assinala que os sujeitos do campo têm sido tratados, predominantemente, ao longo da história, como indivíduos de menor valor, que ad- quirem representatividade quando são necessários à mão de obra rural, ou como instrumentos políticos em períodos eleitorais. Desse modo, o entendi- mento da construção da identidade desses sujeitos pressupõe a lógica da invisibilidade, ou seja, eles estão presentes nos lugares educativos, mas não possuem suas especificidades reconhecidas. Assim, o homem do campo permanece ausente da história de sua própria cultura, pois tem sua linguagem, sua origem social, seus saberes desqua- lificados em nome de um modelo de valorização social hegemônico. “Na realidade, percebe-se a sutil hostilização da diversidade, porque existem mecanismos oficiais e toleráveis de exclusão, bas- tando analisar o processo de avaliação, o currículo, os decretos e as leis que adotam a perspectiva do sujeito homogêneo na educação”. (SKLIAR, 2003, p. 19). Embora a perspectiva homogeneizadora tenha dominado as diretrizes governamentais e, com base nelas, as políticas públicas no cenário educacional brasileiro, percebe-se um movimento contrário, sobretudo nas três ultimas décadas, a partir da abertura política, a fim de contextualizar não só a educação do campo, como a urbana, e realçar o valor social de seus sujeitos, compreendendo-os como agentes de sua construção histórica (CO- NAE, 2010). Os sujeitos do meio rural, assim como os do meio urbano, interagem em suas comunidades, e o 209 Mary Rangel; Rosângela Branca do Carmo Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 fazem de modo próprio, de acordo com suas experi- ências e expectativas sociais. Essa percepção requer de todos os envolvidos com as questões educacio- nais uma nova compreensão do contexto, interesses e motivações desses sujeitos, reconhecendo-se seu valor e possibilidades de realizações. Essa compreensão mais ampla, mais contex- tualizada, tem contribuído à educação do campo, seus sujeitos, suas realizações, que passam a repre- sentar uma vertente de investigações de especial interesse na educação brasileira, na perspectiva de tornar mais visível o locus rural de conhecimento e cultura, considerando e valorizando suas especifici- dades e suas práticas (ARROYO, 2008; RIBEIRO, 1985; MENEZES, 2010; ARAUJO, 2010; CULTI; SOUZA, 2010). Baseando-se nas considerações anteriores, pode-se verificar que a história da educação escolar no meio rural no Brasil tem sido marcada por duas formas de organização bem distintas, que refle- tem, de maneira significativa, a percepção social da identidade dos sujeitos do campo. A primeira perspectiva histórica, mais facilmente identifica- da, e que tem se mantido ao longo do tempo, é a da implantação do ensino rural de acordo com o modelo de escola dos centros urbanos. A segunda perspectiva, de abordagem mais recente, pauta-se na adoção de práticas e propostas pedagógicas específicas do universo rural, com suas caracterís- ticas, interesses e contribuições sociais, políticas econômicas e culturais, sem esquecer a presença, nesse universo, de grupos indígenas e de remanes- centes dos quilombos. Essa forma contextualizada de percepção tem, no saber de homens e mulheres do campo, um dos seus pilares de sustentação. Entretanto, o resgate da identidade e da im- portância histórica e sociopolítica dos sujeitos do campo, com a colaboração do processo educativo, permanece, ainda, como um ideal que motiva edu- cadores preocupados com a atenção e respeito a essa identidade e sua pouca valorização por várias gerações. Vive-se, portanto, um tempo em que outros caminhos vêm sendo traçados para a educação do meio rural no Brasil, como apontam Souza (2006), Caldart (1996; 1997), Arroyo (2008). O momento, como assinala Arroyo (2008), é de avanços, de modo que a educação do campo passa a receber maior consideração; esse momento, portanto, é es- pecialmente instigante a estudos que reveem o seu percurso histórico e, nele, eventos significativos, substanciais à sua problematização, no interesse de realçar a importância de vencer os desafios que o passado deixou ao presente e fortalecer a confiança na construção de um novo tempo e uma nova história. Desse modo, nas propostas atuais para a edu- cação escolar no meio rural, inclui-se a ampliação do seu entendimento e seu alcance, que se ex- pressam nos significados da educação do campo, com atenção a todos os seus espaços e sujeitos, reconhecendo e qualificando suas inquietaçõese seus questionamentos ao tipo de educação que lhes tem sido oferecida e às dificuldades de exercício pleno de seus direitos, como trabalhadores e cida- dãos. Por isso, a educação do campo constitui-se, também, num “[...] espaço propício para reflexões sobre interdisciplinaridade, uma vez que o próprio campo caracteriza-se por uma diversidade cultural, social e econômica” (SOUZA, 2006, p. 24). Nessa mesma perspectiva de valorização, vale lembrar que a história da escola rural expressa, de modo significativo, a história da organização da sociedade brasileira, e que, desde o período da colonização até o início do século XX, a população do Brasil era predominantemente rural. Assim, a renovação de significados que se ex- pressam na educação do campo associa-se à própria reconstrução de sua história e de circunstâncias de subalternidade, como as do período colonial, em que o modelo formal de escola era destinado aos filhos das elites agrárias que se formavam nos colégios jesuítas, nos quais recebiam os conteúdos clássicos (gramática, humanidades, retórica, filoso- fia, teologia), propícios a que desempenhassem, no futuro, cargos públicos, ou seguissem o sacerdócio ou a advocacia. Nesta revisão histórica, vale também lembrar que, somente no texto da Lei de 15 de outubro de 1827, em seu artigo primeiro, pode-se notar um aceno para o contexto do campo, nos seguintes termos que determinam: “[...] em todas as cidades, vilas e lugarejos mais populosos haverá escolas das primeiras letras que forem necessárias”. Essa lei foi a primeira e única sancionada em todo o período colonial (FARIA FILHO, 2000). Obviamente, ela 210 Da educação rural à educação do campo: revisão crítica Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 fracassou, pois não havia estrutura econômica, social, política e técnica que desse sustentação às vinte escolas criadas em todo o território nacional, e quanto mais longínqua a localidade, mais rara- mente chegavam os recursos necessários ao seu funcionamento. A maior clareza da importância da educação no meio rural foi suscitada pelo intenso deslocamento da população do campo para os centros urbanos, ocorrido a partir dos anos 1910/1920, em virtude do incremento do processo de industrialização. Como exemplos desse incremento, podem-se citar a instalação de importantes polos industriais em São Paulo, bem como a implantação de fábricas têxteis e da companhia Belgo-Mineira em Minas Gerais, para a exploração siderúrgica (LEITE, 2002). Especialmente esses estados atraíam a população rurícola, o que levou ao surgimento do “Ruralismo Pedagógico”, cujo propósito era, a priori, adaptar a escola às condições do homem do campo e, consequentemente, mantê-lo em sua região de origem. Na realidade, a defesa da proposta do “Rura- lismo Pedagógico”, feita pelos agroexportadores, com apoio de setores da elite urbana, do movimento nacionalista e do movimento católico do início do século, justifica-se pelo interesse na permanência do homem no campo, na manutenção da riqueza agrícola e na tentativa de conter a explosão dos problemas sociais nas cidades. Várias medidas foram tomadas nesse período com o objetivo de implementar a política nacionalista do Ministério da Educação por meio de projetos, como: [...] a) a criação do Fundo Nacional do Ensino Primá- rio (FNPE), cujos recursos seriam dedicados apenas à construção de prédios escolares; b) a fundação do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP), peça-chave das políticas educacionais oriundas do Ministério da Educação; c) a implantação da Radio- difusão Rural; d) a criação do Conselho Nacional de Educação Primária (CNEP); e, finalmente, e) a realização da governista Conferência Nacional de Educação [...] com vistas a comprovar [...] as precárias condições do ensino elementar agrícola (MENDONÇA, 2007, p. 47). Não obstante, em 1930, o processo migratório ter se tornado significativo, dois terços da popula- ção continuava no campo, embora permanecesse desprovido das atenções e recursos necessários ao ensino escolar (CALAZANS; CASTRO; SILVA, 1985). Esse cenário manteve-se até a década de 1930, pois, conforme Leite (2002, p. 60), “preva- leceram, até então, a sociedade e o Estado oligár- quico, com todas as suas características e formas tradicionais de exercício de poder, não promovendo rupturas significativas entre os setores agrário e industrial”. No governo de Getúlio Vargas, a escola rural permaneceu com pouca atenção, ressalvando-se apenas a criação, em 1937, da Sociedade Brasi- leira de Educação Rural, cujo propósito era o de incentivar a permanência no campo, preservar a arte e manifestações folclóricas rurais, bem como proporcionar a expansão do ensino. A disciplina, o civismo e a obediência às normas do Estado eram princípios ideológicos que fundamentavam a Associação. Algumas iniciativas pontuais para a educação rural foram tomadas a partir da década de 1940, movidas também pela proposta de “fixar o homem no campo”. Contudo, o êxodo rural continuou cres- cendo. As iniciativas em prol do ensino rural nessa época encontraram emperramentos na implantação de programas e políticas, pois à difícil permanência do professor nas localidades das escolas somava- se a ausência de condições de trabalho, de salários dignos, além de lacunas na formação profissional necessária à prática docente. Os vários programas implementados nas déca- das de 1930 e 1940 foram prejudicados por fatores que, ainda hoje, interferem nas possibilidades de contribuições efetivas à educação do campo, como o precário conhecimento do contexto de origem dos sujeitos, a pouca participação das escolas nas decisões que regulam o seu funcionamento e a inadequação das políticas às reais demandas do meio rural. Em 1947, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) apresentou recomendações ao trabalho pedagógico no campo, priorizando o ensino de técnicas agrí- colas no nível fundamental. Essas recomendações enfatizavam a importância de cuidados com as condições sanitárias e de oferta educacional, in- clusive para a escolarização de adultos (WERLE, 2007, p. 11). 211 Mary Rangel; Rosângela Branca do Carmo Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 As décadas de 1950 e 1960 caracterizaram-se pelo aumento, ainda maior que o dos períodos ante- riores, do processo migratório do homem do campo em busca de melhores condições de vida. Con- forme Souza (2006), nesse período, praticamente 50% da população brasileira vivia no campo e sua fixação não seria resolvida apenas por programas educacionais, mas sim por projetos políticos mais amplos, em favor de assegurar condições e direitos de qualidade de vida, em todos os seus aspectos de infraestrutura, saneamento, saúde e trabalho. Leite (2002, p. 37) acrescenta observações a essa análise, assinalando que “[...] os pequenos grupos rurais – trabalhadores sem terra, arrendatários, boias-frias e outros – não tinham vez e nem voz frente às decisões comunitárias”, pois essas deci- sões eram de aplicação geral e não se destinavam a grupos específicos. As circunstâncias de deterioração da educação rural, incluindo os efeitos da política de municipali- zação, que submeteu as escolas rurais aos precários recursos das prefeituras municipais, foram propí- cias a reações que se consubstanciaram em movi- mentos, como os dos Centros Populares de Cultura (CPC) e o Movimento Educacional de Base (MEB), “ligados a partidos de esquerda e com sustentação ideológica no trabalho desenvolvido pelas ligas camponesas, sindicatos e ação pastoral de bispos da igreja católica” (SOUZA, 2006, p. 54). Outras ações educativas relevantes foram as dos Grupos de Alfabetização de Adultos e Educa- ção Popular, movimento político-educacional que assumiu a luta contra a expropriação da terra de homense mulheres do campo. Esse movimento culminou com a aprovação do Estatuto da Terra, em 1963. Embora o período fosse conturbado, por conta do regime militar implantado no Brasil em 1964, várias propostas de educação popular para o campo começaram a surgir, com especial atenção às ideias freireanas, notando-se então que, a des- peito da perseguição a Paulo Freire, culminando com seu exílio em setembro de 1964, essas ideias superaram as pressões ideológicas e permaneceram com expressivo reconhecimento e contribuições à educação brasileira. Observa-se, ainda, neste contexto dos anos 1960, a presença histórica do Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL), criado pela Lei nº 5.379, de dezembro de 1967, para ações movidas pela especial atenção à alfabetização de adultos, tanto em áreas urbanas quanto rurais. Embora trouxesse esperanças à população, faltou às ações do MOBRAL o atendimento necessário às pecu- liaridades de cada região brasileira, o que inibiu progressos sociais mais amplos. É relevante lembrar que o Brasil presenciou nos anos de 1960 e 1970 a ascensão do regime militar e a abertura do país ao capital e a modelos estrangeiros de desenvolvimento, sobretudo os norte-americanos. No que se refere à educação, destaca-se a ação da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que visava contribuir com recursos no interesse da efetivação de ações no âmbito educacional. Nesse processo, os acordos MEC-USAID interferiram também na escola rural, entre outras formas pela importação do modelo de nucleação norte-ameri- cano, iniciado no Brasil em 1976. Entretanto, com o declínio do regime militar, consequentemente tal interferência sofreu interrupções, uma vez que a injeção de capital estrangeiro não apresentava o mesmo volume observado anteriormente, em decorrência, inclusive, da crise vivenciada pelo próprio modelo de produção capitalista. É inte- ressante, então, observar a análise de Leite (2002, p.35): “[...] o sistema escolar controlado pela ideologia da caserna limitou-se aos ensinamentos mínimos necessários para a garantia do modelo capitalista-dependente e dos elementos básicos de segurança nacional”. Com o movimento crescente pela democratiza- ção na década de 1980, e apoiado no objetivo de erradicar o analfabetismo, que dava mostras de pro- blema “incurável” na sociedade brasileira, foram implantados projetos, como o Programa Nacional de Ações Socioeducativas e Culturais para o Meio Rural (PRONASEC) e o Programa Educação Rural (EDURURAL). Como observa Leite (2002), esse quadro da educação do campo permaneceu até o III Plano Se- torial de Educação, Cultura e Desportos (PSECD), implementado para o período de 1980-1985, que propôs melhorias na condição de vida, de trabalho e de educação da população do campo, enfatizando a expansão do ensino fundamental e a redução da evasão e repetência escolar. Entretanto, algumas 212 Da educação rural à educação do campo: revisão crítica Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 medidas cruciais para a implantação e fortalecimen- to de condições da educação do campo previstas nesse plano foram desconsideradas, como a for- mação dos professores para atuação no meio rural, a adequação do material didático e as necessárias melhorias das instalações físicas das escolas. Já ao final do regime militar, nos anos de 1980 a 1985, implantou-se, no nordeste, o EDURURAL, uma parceria entre o governo federal e a Univer- sidade Federal do Ceará, com financiamento do Banco Internacional para Reconstrução e Desen- volvimento (BIRD). Esse programa pretendia avanços nos conceitos e práticas da educação, considerando as críticas a “[...] currículos urba- nos introduzidos na zona rural” e destacando a proposta de “[...] autonomia pedagógica, de modo a valorizar o trabalho de professores e alunos, enfatizando a realidade campesina” (LEITE, 2002, p. 50). Iniciativas como o EDURURAL fundamenta- ram-se em princípios educativos de movimentos populares e receberam influências de teorias da aprendizagem com enfoque sociocultural. Observa- se, então, que o conceito de educação rural torna-se insuficiente para comportar a complexidade da educação destinada ao homem do campo. Nesse sentido, é importante, também, reconhecer as contribuições do Encontro Nacional de Educado- ras e Educadores da Reforma Agrária, em 1998, realizado em Luziânia, Estado de Goiás. Finalmente, assinala-se que a educação do cam- po incorpora, em sua concepção, seus fundamentos e seu significado, um projeto político-pedagógico de alcance amplo, que inclui, em suas motivações, as do MST, e encontra, hoje, crescente atenção nas discussões acadêmicas, movidas pelo interesse na promoção e reconhecimento do expressivo valor de homens e mulheres do campo, com especial aten- ção à garantia de seus direitos, como: valorização de seu trabalho; condições de vida cidadã; e educa- ção que atenda aos seus interesses, mantendo-se o mesmo princípio de qualidade social e pedagógica proposta à educação do meio urbano. Ressalvadas as limitações do alcance de aná- lises e aportes deste estudo, acredita-se que seja possível distinguir a proposta do “ruralismo peda- gógico” da proposta de ressignificação da educação do campo, mais ampla por conta do reconhecimen- to das tradições, dos costumes, do valor do trabalho da população do campo, compreendendo-se, ainda, que a permanência dos sujeitos no meio rural possa ser ressignificada mediante sua valorização socio- política e a valorização do significado que atribuem à terra, como fonte de conhecimento, produção, vida e convivência. Acredita-se, ainda, que a expressão “educação do campo” possa ter um sentido mais abrangente e inclusivo (também ressignificado em relação à educação rural), contribuindo à maior visibilidade de grupos, como quilombolas e indígenas, e à sua maior consideração social e política. Contudo, não se desconsidera , ao contrário, enfatiza-se, a necessidade de estudos e pesquisas que aprofundem essas questões, que vão além de nomenclaturas e materializam-se na complexidade da relação entre propostas e práticas efetivas. Comentário conclusivo Espera-se que a perspectiva de ampliar o sig- nificado da expressão “educação rural” para o de “educação do campo” possa significar mais do que, simplesmente, uma alteração semântica e contribuir com o desenvolvimento de políticas efetivas em favor de um número significativo de trabalhadores e trabalhadoras que têm sido excluídos do processo de escolarização durante a história socioeducacio- nal brasileira. Essa exclusão constitui, atualmente, um especial foco de atenção dos educadores e sua ênfase na “[...] valorização da educação do campo, quilombola e escolar indígena, a partir de uma visão que as articule ao desenvolvimento sustentável” (CONAE 2010, p. 37). Propõe-se, nesse mesmo sentido de resgate histórico: Criar e manter as escolas do campo de acordo com os padrões básicos de infraestrutura que contemplem: transporte escolar intracampo, equipamentos tecnoló- gicos de informação e comunicação agrícolas, mate- rial didático, acervo bibliográfico, quadra esportiva, laboratórios científicos e de informática com acesso à internet com qualidade, a qualificação e formação continuada para o uso das tecnologias pelos/as educa- dores/as, custeadas pelo poder público, salas de aula adequadas e equipadas. (CONAE 2010, p. 136). Chega-se, portanto, ao ano 2011, com reivindi- cações expressivas de atenção política à educação 213 Mary Rangel; Rosângela Branca do Carmo Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 do campo, incluindo a de que as previsões que constam do documento final da Conferência Na- cional de Educação (CONAE 2010), assim como as perspectivas do Plano Nacional de Educação (PNE), em discussão para a década 2011-2020, traduzam-seem ações efetivas para consolidar avanços de princípios, concepções e propostas, e de exercício de direitos de homens e mulheres do campo, com real inclusão dos indígenas e dos REFERÊNCIAS ARAUJO, S. R. M. de. Educadores do campo: descobrindo os caminhos da formação inicial para os monitores das Escolas Famílias Agrícolas do Estado da Bahia. Revista da Faeeba. Educação e Contemporaneidade. Salvador, v. 19, n. 34, p. 131-144, 2010. ARROYO, M. A educação básica e o movimento social do campo. In: ______; CALDART, R. 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Reivindica-se, sobretudo, que sejam assegu- radas condições de qualidade social, política e pedagógica da educação, da escola, do ensino básico – fundamental e médio – no interesse e dever de resgatar os valores e direitos do campo, reconstruindo e superando uma histó- ria marcada por descasos, desconsideração e subalternidade. 214 Da educação rural à educação do campo: revisão crítica Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 205-214, jul./dez. 2011 LEITE, S. C. Escola rural: urbanização e políticas educacionais. São Paulo: Cortez, 2002. LIMA, M. B. de. Do saber da conquista à conquista do saber: educação e autonomia no campo. 1998. Dissertação (Mestrado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, 1998. MENDONÇA, S. R. Estado e educação rural no Brasil: alguns escritos. Niterói, RJ: Vício de Leitura; FAPERJ, 2007. MENEZES, I. D. 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Por isso, nos Projetos Políticos e Pedagógicos das Escolas do Campo, é preciso estar presente alguns temas/problemas, entre os quais mencionamos: terra e trabalho; identidade, lutas e organizações dos diferentes Povos do Campo; Desenvolvimento Sustentável; e a Cidadania. Palavras-chave: Educação, escolas do campo, povos do campo. Resumen La educación del campo en Brasil y la construcción de las escuelas del campo En el proceso de construcción de la Educación Rural en Brasil, las escuelas de campo tienen un papel clave. Desde las luchas de los pueblos del campo y de otros pueblos, entidades, instituciones y movimientos comprometidos con la transformación de una educación podría tomar varias medidas y se han alcanzado algunos logros, tanto las políticas legales y educativas. Por lo tanto, la política y Proyectos Pedagógicos las escuelas de campo, que deben estar presentes algunas cuestiones y problemas, entre los que destacan: las luchas de la tierra y el trabajo, la identidad,