Prévia do material em texto
Locomoção e Preensão P6 - “Parece que todos meus órgãos estão doentes!” 1. Estudar e debater sobre Lúpus Eritematoso Sistêmico, discorrendo sobre epidemiologia, etiopatogenia, diagnóstico clinico, laboratorial e tratamento. 🔵 Conceito Geral – LES Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) - Doença autoimune sistêmica crônica, com: o Produção de autoanticorpos contra componentes nucleares e citoplasmáticos. o Formação de imunocomplexos, que se depositam em vários órgãos. • Curso típico: exacerbações (flares) + períodos de remissão parcial ou completa. • Pode acometer: o Pele, articulações, sangue, rins, pulmão, coração, SNC, etc. • Extremamente polimórfico – pode parecer “várias doenças diferentes” na prática. 📊 Epidemiologia • + comum em mulheres (idade fértil): o Relação mulher para homem de 10:1. • Idade de início: principalmente entre os 20 a 30 anos. • Distribuição étnica universal, mas: o + gravidade e frequência em afrodescendentes. • No Brasil, incidência estimada: 4,8 a 8,7 / 100.000 hab/ano. 🧬 Etiopatogenia – visão geral Multifatorial: genética + hormônios + ambiente + imunidade. 1⃣ Fatores genéticos • Risco aumentado em: o Parentes de 1º grau → risco 17x maior. o Gêmeos monozigóticos → risco 29x maior. • Defeitos da via clássica do complemento: o Deficiência de C1q → + risco de todos. o Deficiência de C4 também importante. • Associação com: o HLA-DR2, HLA-DR3 o Polimorfismos em genes como PTPN22, TREX1, STAT4, IRF5, TLR7, etc. 2⃣ Fatores hormonais • Estrógeno: o Diminui apoptose de linfócitos B e acelera sua maturação. o Estimula macrófagos e linfócitos T. • Explica: o Pico em mulheres em idade reprodutiva. o Piora de doença em fases de aumento hormonal (gravidez). 3⃣ Fatores ambientais • Luz ultravioleta (UV) + importante: o Induz apoptose de queratinócitos. o Libera autoantígenos → ativa macrófagos → amplifica resposta imune. • Outros: o Tabagismo (modificável). o Pó de sílica. o Drogas associadas a lúpus induzido: § Hidralazina, procainamida (clássicas), isoniazida, quinidina, metildopa, anti-TNF etc. o Infecções virais: § EBV, parvovírus, CMV – contribuem como gatilho imunológico. 4⃣ Anormalidades Imunológicas (mecanismo- chave) • Perda de autotolerância: o O organismo deixa de tolerar seus próprios antígenos nucleares. • Linfócitos B: o Ficam cronicamente ativados. o Produzem múltiplos autoanticorpos. o Falta controle adequado por linfócitos T reguladores. • Imunocomplexos (IC): o Autoanticorpo + antígeno → formam IC. o IC ativam TLR 7 e 9 em células dendríticas. o Produção de IL-1, TNF-α, IFN-α → inflamação mantida. • Complemento: o Ativado de forma crônica → C3 e C4 consumidos. o Menor depuração de IC e restos apoptóticos → mais inflamação. 🩺 Manifestações Clínicas – principais eixos 1⃣ Sintomas gerais • Febre • Perda de peso. • Inapetência. • Fadiga marcante. • Linfadenopatia ⚠ Febre em paciente lúpico: sempre diferenciar atividade x infecção. 2⃣ Manifestações mucocutâneas Inespecíficas e específicas (agudas, subagudas, crônicas). 🔹 Lesões agudas • Eritema malar (“asa de borboleta”): • Fotossensibilidade isolada. 🔹 Lúpus cutâneo subagudo • Associado a anti-Ro (SSA) em até 90%. • Duas formas: Papuloescamosa (psoriasiforme) e Anular. • Lesões em dorso e membros, muito fotossensíveis. • Não deixam cicatriz nem atrofia. 🔹 Lúpus cutâneo crônico • Principal forma: lúpus discoide: o Lesões esféricas, eritematosas, elevadas, com descamação. Evoluem com cicatriz + atrofia. + comuns em couro cabeludo, face, pescoço. • Outras: o Paniculite lúpica: nódulos firmes e profundos (couro cabeludo, coxas, face, braços, nádegas). • Úlceras orais/nasais: geralmente indolores. 💡 Um paciente pode ter só doença cutânea sem LES sistêmico. 💊 Lúpus induzido por drogas (LID) • Semelhante a LES, surgindo após uso de certas drogas e melhorando com a suspensão. • 100 fármacos relacionados; principais: o Procainamida, hidralazina (clássicos). Minociclina, quinidina, isoniazida, metildopa, clorpromazina, anti-TNF. • Laboratório: o FAN +; Anti-histona fortemente associado. 🔬 Laboratório – ponto central 1⃣ FAN • Fator antinuclear, por imunofluorescência em células Hep-2. • Positivo em 99% dos casos de LES. • Não é específico (positivo em outras doenças e até em saudáveis). 2⃣ Autoanticorpos principais • Anti-dsDNA: o Frequência em 70%. Associado a nefrite lúpica e atividade de doença. • Anti-Sm: o 10–30%. O mais específico de LES (mas pouco sensível). • Anti-P: o 15%. Associado à psicose lúpica e atividade. • Anti-histona: o 70%. Fortemente associado a lúpus induzido por drogas. • Anti-Ro (SSA) e Anti-La (SSB): o 20–60%. Associados a lúpus cutâneo subagudo, Síndrome de Sjögren, lúpus neonatal. • Antifosfolípides: o Anticardiolipina, anticoagulante lúpico, anti-β2GP1. Associados à Síndrome Antifosfolípide (SAF): trombose arterial/ venosa, perdas gestacionais, RCIU, etc. 3⃣ Complemento • C3, C4, CH50 baixos → consumo pela ativação da via clássica. • Muito úteis no acompanhamento de atividade de LES, especialmente nefrite. 4⃣ Outros exames • PCR: o Em LES, muitas vezes não eleva muito com atividade. Elevação importante sugere infecção associada. • Hemograma: o Anemia, leucopenia, trombocitopenia. • Urina I + relação proteína/creatinina, proteinúria 24h: o Rastreamento de nefrite (frequentemente assintomática). 🤰 LES e gestação = alto risco. • Maior incidência de: o Prematuridade; RCIU; HAS; Pré-eclâmpsia; DM gestacional. • Importante pesquisar: o Antifosfolípides → risco de SAF obstétrica. o Anti-Ro e anti-La → risco de lúpus neonatal (bloqueio cardíaco, lesão cutânea). • Imunossupressores permitidos: o Azatioprina, ciclosporina, tacrolimus. o Hidroxicloroquina deve ser mantida durante a gestação. 🧴Tratamento 1⃣ Medidas Não Medicamentosas • Evitar exposição solar (boné, roupas, protetor solar reaplicado). • Saúde óssea: o Cálcio (1000 mg/dia) + vit. D (800–1000 UI/dia) em uso crônico de corticoide. • MEV • Planejamento familiar: • ACO com estrógeno contraindicados em antifosfolípide + • Vacinas: o Inativadas (influenza, pneumococo) → liberadas. o Vírus vivo (febre amarela, sarampo) → avaliar individualmente com reumato. 2⃣ Tratamento medicamentoso = tratar de acordo com órgão acometido e gravidade. 🔹 Corticoides • Únicos que controlam atividade rapidamente. Usar sempre a menor dose pelo menor tempo. • Doses: o Leve: 5–20 mg de prednisona. o Moderado: 0,5 mg/kg/dia. o Grave: pulsoterapia com metilprednisolona 1 g/dia × 3 dias + prednisona 1 mg/kg/dia. 🔹 Hidroxicloroquina (HCQ) • Praticamente todos os pacientes com LES. • Benefícios: o Reduz flares; Poupa corticoide; Diminui risco de trombose; Melhora perfil lipídico. • Dose: até 5 mg/kg/dia. • Risco principal: maculopatia → acompanhamento oftalmológico. 🔹 DMARDs / IMUNOSSUPRESSORES = Usados como poupadores de corticoide e para controle de órgãos-alvo: • Ciclofosfamida • Micofenolato de mofetil • Azatioprina • Metotrexato • Biológicos: 🔹 Outros • Cálcio + vitamina D se uso crônico de corticoide. • Estatina se LDL ≥ 100 mg/dL. • AAS (100 mg/dia) se antifosfolípide positivo sem trombose. • IECA/BRA 2. Discutir sobre anticorpo anti celular e autoanticorpos específicos O que são autoanticorpos? Anticorpos produzidos pelo próprio sistema imune contra antígenos do organismo (autoantígenos). Surgem por perda da autotolerância e participam da fisiopatologia de doenças autoimunes. O que são anticorpos anti-celulares? Reconhecem estruturascelulares específicas, como: • Núcleo → FAN, anti-DNA, anti-histona • Citoplasma → anti-Jo1, anti- mitocôndria • Componentes da superfície celular → anticardiolipina, anti-β2GP1 • Componentes de organelas → anti- mitocôndria (AMA) 🔵 2. Anti-corpos anti-celulares Antígenos intracelulares são os + comuns em doenças autoimunes sistêmicas. Principais alvos: 🔹 Antígenos nucleares → Detectados principalmente pelo FAN • DNA de dupla hélice → anti-dsDNA • DNA de fita simples → anti-ssDNA • Histonas → anti-histona • Ribonucleoproteínas → anti-Sm, anti- RNP • Antígenos nucleares extraíveis → anti-Ro, anti-La, anti-Scl-70, anti- Jo1, etc. 🔹 Antígenos citoplasmáticos • Anti-mitocôndria • Anti-Jo1 • Anti-ARS 🔹 Antígenos de membrana celular • Anti-fosfolípides • Anti-receptor TSH • Anti-AChR 🔵 3. Autoanticorpos específicos Autoanticorpos “específicos” são aqueles altamente associados a uma doença particular. Eles têm alto valor diagnóstico e, muitas vezes, prognóstico. 🟥 1. Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) Autoanticorpo Função / Alvo Importância Clínica ANA/FAN Antinuclear Sensível (97–99%), não específico Anti-dsDNA DNA dupla hélice Específico para LES; correlaciona com atividade, nefrite Anti-Sm RNP do spliceossomo Mais específico de LES (30%) Anti-P Fosfoproteína ribossomal Psicose lúpica, atividade Anti-histona Histonas Lúpus induzido por drogas Anti-Ro/SSA e Anti-La/SSB RNPs Lupus cutâneo subagudo, lúpus neonatal, Sjögren 🟦 2. Artrite Reumatóide (AR) Anticorpo Importância Fator Reumatoide (FR) Sensível (70%), não específico Anti-CCP (ACPA) Altamente específico (~95%), indica forma erosiva grave 🟧 3. Síndrome Antifosfolípide (SAF) Autoanticorpo Relação Clínica Anticardiolipina Trombose, abortos recorrentes Anticoagulante lúpico Trombose; prolonga TTPa Anti-β2GPI Alta especificidade para SAF 🟨 4. Doença mista do tecido conjuntivo Anticorpo Valor Anti-U1 RNP Específico de DMTC; títulos altos obrigatórios 🟩 5. Síndrome de SJÖGREN Anticorpo Importância Anti-Ro/SSA Sicca, fotossensibilidade, lúpus neonatal Anti-La/SSB Maior especificidade para Sjögren 🟦 6. Esclerose sistêmica (Esclerodermia) Anticorpo Subtipo / Importância Anti-Scl-70 (anti- topoisomerase) Forma difusa; risco de fibrose pulmonar Anti-centromero Forma limitada; associado à CREST Anti-RNA polimerase III Crise renal esclerodérmica 🟪 7. Dermatomiosite / Polimiosite (Miopatias Inflamatórias) Autoanticorpo Associação Anti-Jo1 (anti- sintetase) Miosite + doença pulmonar intersticial Anti-Mi2 Dermatomiosite clássica, bom prognóstico Anti-SRP Miosite grave, rápida progressão 🟫 8. Doenças Hepáticas Autoimunes Autoanticorpo Doença AMA – Anti-mitocôndria Colangite biliar primária ANA e anti-músculo liso Hepatite autoimune tipo 1 Anti-LKM1 Hepatite autoimune tipo 2 🔵 4. Principais diferenças entre: Autoanticorpos antinucleares (ANA/FAN) e Autoanticorpos específicos 🧬 FAN/ANA (anticorpos anti-celulares) • Indicadores de autoimunidade sistêmica. Altamente sensíveis, mas pouco específicos. Servem para triagem e orientação da investigação. 🧪 Autoanticorpos específicos • Direcionam diagnóstico para uma doença específica. Geralmente possuem alta especificidade. Têm valor prognóstico, fenotípico e de monitoramento. 3. Identificar classes histológicas das glomerulonefrites lúpicas As lesões renais do LES são classificadas em 6 classes, com base em biópsia renal por microscopia óptica, imunofluorescência e eletrônica. Essa classificação define gravidade, conduta e prognóstico. ⭐ Classe I – Mesangial mínima 📌 Características: • Microscopia óptica normal. Depósitos imunes mesangiais vistos somente em imunofluorescência ou microscopia eletrônica. Sem proliferação. 🧪 Clínica: • Geralmente assintomática. Achado incidental. 🩺 Conduta: • Em geral não necessita imunossupressão específica. ⭐ Classe II – Mesangial proliferativa 📌 Histologia: • Hiperplasia e expansão mesangial. Depósitos de imunocomplexos restritos ao mesângio. 🧪 Clínica: • Proteinúria leve, hematúria microscópica, função renal geralmente normal. 🩺 Tratamento: • Corticoide em baixas doses ± imunomoduladores leves. Foco em controle de proteinúria (IECA/BRA). ⭐ Classe III – Proliferativa focal 📌 Histologia: • Acometeplasmáticas ligadas a fosfolipídeos, principalmente: • β2-glicoproteína I (β2GPI); Protrombina; Cardiolipina Como geram trombose? 1. Ativação de células endoteliais (aumenta expressão de moléculas de adesão). 2. Ativação de monócitos e plaquetas → estado “pró-coagulante”. 3. Inibição de anticoagulantes naturais (proteína C, proteína S, anexina V). 4. Ativação do complemento → inflamação + trombose microvascular. → O resultado é um estado de hipercoagulabilidade autoimune. 🔵 4. Manifestações clínicas 🟥 4.1 Tromboses Trombose venosa (mais comum) • Trombose venosa profunda; Embolia pulmonar; Trombose de veia cava, renal, hepática (Budd-Chiari) Trombose arterial • AVC isquêmico (em jovens é muito sugestivo!); AIT; IAM; Oclusões periféricas Trombose microvascular • Isquemia digital; Livedo reticular; Ulcerações cutâneas; Microangiopatia trombótica 🟥 4.2 Morbidade gestacional Clássico triângulo: 1. Perdas gestacionais precoces recorrentes (> 3 antes de 10 semanas) 2. Perda fetal ≥ 10 semanas (unidade, inexplicada) 3. Parto prematuro (positivo em outras doenças • Síndrome de Sjögren • AR • Esclerose sistêmica • Hepatite crônica • Neoplasias • Pessoas saudáveis (até 20%) ✔ C3/C4 baixos • Crioglobulinemia • GN pós-infecciosa • Hepatites virais ✔ Anticorpos antifosfolípides falso-positivos • Sífilis • HIV • Hepatite C • Malária