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TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL TEORIA GERAL DO DIREITO CIVILORGANIZADORA RAFAELA DIAS MACIEL DUARTE ORGANIZADORA RAFAELA DIAS MACIEL DUARTE Teoria geral do direito civil GRUPO SER EDUCACIONAL A Teoria geral do direito civil é uma matéria ampla, porém imprescindível para todos os alunos de Direito Civil. Dividido em quatro unidades, este livro dá o embasamento que o aluno necessita em seus estudos. Após ler o conteúdo aqui disposto, o aluno estará apto a, entre outras habi- lidades, entender que o Direito Civil é o ramo do Direito Privado destinado a reger relações familiares, patrimoniais e obrigacionais; reconhecer que a emancipação é o instituto pelo qual o direito declara um menor capaz; assimilar que em casos de abuso da personalidade poderá ser desconsider- ado o princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica; reconhecer que o negócio jurídico é um fato jurídico; constatar que o erro é uma noção inexata, não verdadeira, sobre alguma coisa, que impede que a vontade se forme em consonância com sua verdadeira motivação. gente criando futuro I SBN 9788522129430 9 788522 129430 > C M Y CM MY CY CMY K TEORIA GERAL DO DIREITO CIVIL Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, do Grupo Ser Educacional. Diretor de EAD: Enzo Moreira Gerente de design instrucional: Paulo Kazuo Kato Coordenadora de projetos EAD: Manuela Martins Alves Gomes Gerente editorial: Noelma Brocanelli Coordenadora educacional: Pamela Marques Equipe de apoio educacional: Caroline Guglielmi, Danise Grimm, Jaqueline Morais, Laís Pessoa Designers gráficos: Kamilla Moreira, Mário Gomes, Sérgio Ramos, Tiago da Rocha Ilustradores: Anderson Eloy, Luiz Meneghel, Vinícius Manzi Duarte, Rafaela Dias Maciel Teoria geral do direito civil / Rafaela Dias Maciel Duarte: Cengage – 2020. Bibliografia. ISBN 978-85-221-2943-0 1. Teoria geral do direito civil 2. Direito 3. Direito Civil Grupo Ser Educacional Rua Treze de Maio, 254 - Santo Amaro CEP: 50100-160, Recife - PE PABX: (81) 3413-4611 E-mail: sereducacional@sereducacional.com “É através da educação que a igualdade de oportunidades surge, e, com isso, há um maior desenvolvimento econômico e social para a nação. Há alguns anos, o Brasil vive um período de mudanças, e, assim, a educação também passa por tais transformações. A demanda por mão de obra qualificada, o aumento da competitividade e a produtividade fizeram com que o Ensino Superior ganhasse força e fosse tratado como prioridade para o Brasil. O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego – Pronatec, tem como objetivo atender a essa demanda e ajudar o País a qualificar seus cidadãos em suas formações, contribuindo para o desenvolvimento da economia, da crescente globalização, além de garantir o exercício da democracia com a ampliação da escolaridade. Dessa forma, as instituições do Grupo Ser Educacional buscam ampliar as competências básicas da educação de seus estudantes, além de oferecer- lhes uma sólida formação técnica, sempre pensando nas ações dos alunos no contexto da sociedade.” Janguiê Diniz PALAVRA DO GRUPO SER EDUCACIONAL Autoria Rafaela Dias Maciel Duarte Formada em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais; LLM em Direito Internacional e Europeu pela Universidade Maastricht; Advogada atuante nas áreas contencioso cível e comercial, contratos direito empresarial, direito internacional e europeu, comércio exterior. Prefácio .................................................................................................................................................8 UNIDADE 1 - Do direito civil, direito privado e da pessoa natural ...................................................9 Introdução.............................................................................................................................................10 1. Direito civil e Direito privado ............................................................................................................ 11 2. Da pessoa natural ............................................................................................................................. 17 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................26 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................27 UNIDADE 2 - Da pessoa jurídica e dos fatos jurídicos em geral .......................................................29 Introdução.............................................................................................................................................30 1. Da Pessoa Jurídica ............................................................................................................................. 31 2. Do objeto do Direito ......................................................................................................................... 39 3. Fatos Jurídicos em Geral ................................................................................................................... 42 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................48 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................49 UNIDADE 3 - Do negócio jurídico ...................................................................................................51 Introdução.............................................................................................................................................52 1. Do negócio jurídico: elementos e requisitos ..................................................................................... 53 2. Da inexistência, invalidade e ineficácia do negócio jurídico .............................................................61 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................65 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................66 SUMÁRIO UNIDADE 4 - Dos defeitos dos negócios jurídicos e da prescrição e decadência ..............................67 Introdução.............................................................................................................................................68 1. Dos defeitos do negócio jurídico ....................................................................................................... 69 2. Da prescrição e decadência .............................................................................................................. 77 PARA RESUMIR ..............................................................................................................................82 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................................83 O estudo da Teoria geral do Direito Civil é fundamental para todo estudante da área de Direito Civil. Neste livro, já na primeira unidade, Direito Civil, Direito Privado e da Pessoa Natural, o aluno vai conhecer a evolução histórica e o contexto que acarretaram a elaboração do Código Civil de 2002. Além disso, serão conceituados a pessoa natural, a emancipação, o domicílio, a residência, a ausência e a morte. A segunda unidade, Da pessoa jurídica e dos fatos jurídicos em geral, tem como objetivo introduzir os principais conceitos essenciais para a compreensão do Direito Civil como um todo. O aluno vai conhecer, alémem ato jurídico em sentido estrito, negócio jurídico e ato-fato jurídico. Figura 1 - Fatos jurídicos importam ao Direito Fonte: Elaborada pela autora, 2019. #PraCegoVer: na imagem, destacam-se os fatos jurídicos que importam ao Direito. Primeiramente, tem-se o conceito de que é fato (qualquer ocorrência) se divide em dois: fato não jurídico e fato jurídiculo “lato sensu” (Direito). Este último, por sua vez, ramifica-se em humano (vontade): fato jurígeno e natural, que é o fato jurídico “stricto sensu” (como exemplo, podemos citar a chuva e o tempo. O fato humano mencionado tem dois tipos: ilícito (responsabilidade civil) e lícito: ato jurídico “lato senso”, que trata da busca da finalidade específica: negócio jurídico e tem como efeitos legais o ato jurídico “strito sensu”. Na imagem, é importante destacar que o ato-fato jurídico é uma conduta humana e que ocorre sem a vontade da pessoa, mas que no final gera um fato natural - portanto, é um “conceito metamorfo”. 44 3.2 Fatos jurídicos em sentido estrito Os fatos naturais, também denominados fatos jurídicos em sentido estrito, por sua vez, dividem-se em ordinários e extraordinários. Os ordinários são aqueles, que como o nascimento e a morte, constituem, respectivamente, o termo inicial e final da personalidade, bem como a maioridade, decurso do tempo. Já os extraordinários se enquadram, em geral, na categoria do fortuito e da força maior (ex. terremoto, tempestade, raio). 3.3 Atos jurídicos: elementos, requisitos e fatores Os fatos humanos ou atos jurídicos em sentido amplo podem ser divididos em lícitos e ilícitos. Lícitos são aqueles que a lei defere efeito almejado pelo agente, já os ilícitos são aqueles praticados em desconformidade com o ordenamento jurídico. Os atos lícitos, dividem-se em ato jurídico em sentido estrito, negócio jurídico e ato-fato jurídico. O negócio jurídico é um fato jurídico com elemento volitivo e conteúdo lícito; há uma composição de interesses ou interesses com finalidade específica. O negócio jurídico pode ser conceituado como todo fato jurídico consistente em declaração de vontade a que todo o ordenamento jurídico atribui os efeitos designados como queridos pelas partes, desde preenchidos os seus elementos de existência, validade e eficácia. Como exemplos de negócios jurídicos é possível citar o casamento, contratos e testamentos. Os negócios jurídicos podem ser classificados de diversas formas: Unilaterais ou plurilaterais Nesse caso, analisam-se as partes envolvidas em sua formação - pode ser formado apenas por uma parte, no caso dos unilaterais (ex. testamento) ou por mais de uma parte, no caso dos plurilaterais (ex: casamento). Entre vivos ou mortis causa Quando se analisa o tempo de produção dos efeitos, se ocorrerá em vida ou após a morte (ex: seguro de vida). Solenes ou consensuais Os consensuais requerem somente o consentimento das partes, já os solenes fogem à regra e exigem mais do que somente o consentimento. 45 Gratuitos ou onerosos Os onerosos são aqueles em que se tem correspondência à prestação, enquanto nos gratuitos não há (ex: doação). Cumulativos ou aleatórios A divisão aqui é quanto a certeza dos feitos, nos negócios jurídicos cumulativos se tem a certeza do resultado, já nos aleatórios trabalha-se com negócios jurídicos de risco (ex: loteria). Instantâneo e de trato continuado Nos negócios jurídicos de efeito instantâneo, tem-se a produção dos efeitos em uma única oportunidade, enquanto no de trato continuado os efeitos irão se apresentar com decorrer do tempo. Receptícios e não receptícios São receptícios os negócios jurídicos nos quais se é necessária a ciência da outra parte (ex: revogação e renúncia de mandatos). Principais ou acessórios Os negócios jurídicos principais são independentes, enquanto os acessórios vinculam sua existência ao negócio jurídico principal. Consensuais e reais Nos negócios jurídicos consensuais, o mero consentimento entre as partes é suficiente para a formação, diferente dos reais, no qual é necessário um ato material. Típicos ou atípicos Típicos são aqueles previstos em lei, e atípicos os não previstos. O ato jurídico em sentido estrito trata-se de atos jurídicos em que os efeitos são meramente legais; não há a busca de uma finalidade específica como acontece com o negócio jurídico. A ação humana baseia-se não numa vontade qualificada, mas em simples intenção, como ocorre quando alguém fisga um peixe, dele se torna proprietário. Como exemplos, se tem ainda o reconhecimento de um filho, ocupação de um imóvel e o pagamento direito de uma obrigação. 46 Já o ato-fato jurídico é um fato jurídico qualificado por uma vontade não relevante juridicamente em um primeiro momento, mas que se revela relevante por seus efeitos, como ocorre no caso de uma criança de 10 anos que compra o lanche na escola, conforme Enunciado 138, da III Jornada de Direito Civil. Ressalta-se no ato-fato a consequência do ato, o fato resultante, sem levar em consideração a vontade de praticá-lo. Muitas vezes o efeito do ato não é buscado nem imaginado pelo agente, mas decorre de uma conduta que é sancionada pela lei, como no caso de uma pessoa que acha casualmente um tesouro. A conduta do agente não tinha por fim imediato adquiri-lhe a metade, mas tal acaba ocorrendo por foca do disposto no artigo 1264, CC. 3.4 Atos ilícitos Conforme já exposto, os atos ilícitos são uma classificação dos fatos ou atos jurídicos humanos em sentido amplo. São os atos praticados em desconformidade com o ordenamento jurídico, que violam a ordem jurídica e produzem efeitos contrários ao Direito. Segundo Gonçalves (2012), os atos ilícitos, por serem praticados em desacordo com o prescrito no ordenamento jurídico, embora repercutam na esfera do direito, produzem efeitos jurídicos involuntários, mas impostos por esse ordenamento. Em vez de direito, criam deveres e obrigações. Hoje se admite que os atos ilícitos integram a categoria dos atos jurídicos pelos efeitos que se produzem (são definidos no art. 185, CC e geram obrigação de reparar o dano, como dispõe o artigo 927, CC). FIQUE DE OLHO Sobre a situação jurídica dos animais, a visão tradicional sustenta que os animas são coisas e podem ser bens. Todavia, tem-se visto no Brasil uma tendência em tratar os animas como outro gênero”. Nesse sentido, há um Projeto de Lei (351/2015) o qual pretende incluir novo artigo no Código Civil, prevendo que animas não são coisas). 47 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 48 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • aprender que pessoas jurídicas são entidades que a lei confere personalidade, capacitando-as como sujeito de direitos e obrigações que tem personalidade diversa dos individuas que as compõem; • compreender que as pessoas jurídicas são classificadas como de direito público - interno ou externo - ou de direito privado. As pessoas jurídicas de direito privado são as associações, as sociedades, as fundações, as organizações religiosas, os partidos políticos, as empresas individuais de responsabilidade limitada; • assimilar que nos casos em que houver abuso da personalidade, caracterizado pelo desvio de finalidade ou pela confusão patrimonial, poderá o princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica ser desconsiderado, tendo-se a desconsideração da personalidade jurídica; • estudar que tanto os elementos ativos quanto os passivos fazem parte do patrimônio, isto é, os direitos de ordem privada, economicamente apreciáveis e as dívidas; • entender que os fatos jurídicos podem ser naturais ou humanos. Os fatos jurídicos humanos podem ser divididos em lícitos e ilícitos. Dentre os lícitos, se encontram o ato jurídico em sentido estrito, o negócio jurídico e o ato-fato jurídico. PARA RESUMIR AMARAL, F. Direito civil: Introdução. 9. ed. rev., mod e ampl. São Paulo: Saraiva, 2017. BEVILÁQUA, C. Teoria Geral do Direito Civil. 2 ed. São Paulo: Servanda, 2015. BRASIL, Enunciado 138, III Jornada de DireitoCivil: a vontade dos absolutamente in- capazes, na hipótese do inc. I do art. 3º é juridicamente relevante na concretização de situações existenciais a eles concernentes, desde que demonstrem discernimento bastante para tanto. Disponível em: https://www.cjf.jus.br/cjf/CEJ-Coedi/jornadas-cej/ III%20JORNADA%20DE%20DIREITO%20CIVIL%202013%20ENUNCIADOS%20APRO- VADOS%20DE%20NS.%20138%20A%20271.pdf/at_download/file. Acesso em 2 nov. 2019. BRASIL. Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm. Acesso em: 3 nov. 2019. BRASIL. Lei 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. Dispões sobre as sanções penais e ad- ministrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e de outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9605.htm. Acesso em: 5 nov. 2019. BRASIL. Lei 8.078, de 11 de setembro de 1990. Dispõe sobre a proteção do consumi- dor e dá outra providencias. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/ l8078.htm. Acesso em 1 nov. 2019. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp 1.098.712-RS, 4ª Turma., rel. Min. Aldir Passarinho Júnior. Recorrente: Lars Knorr e outro. Recorrido: Galvância Barreta LTDA. 2008. COELHO, F. U. Curso de Direito Civil. v. 2. 3 ed. São Paulo: Saraiva, 2009. GONÇALVES, C. A. Direito Civil Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2012. PEREIRA, C. M. S. Instituições de direito civil. São Paulo: Forense, 2018. p. 291. SCUTO, C. Istituzioni di diritto privato: parte generale. Napoli: Casa Editrice Raffaele Pironti e Figli, 1921, p. 291. WALD, A. Curso de Direito Civil Brasileiro. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1992. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 3 Do negócio jurídico Introdução Você está na unidade Do negócio jurídico. Conheça aqui um pouco sobre os elementos e requisitos do negócio jurídico, com enfoque nos elementos naturais, acidentais e essenciais. Além disso, também serão apresentados os institutos da inexistência, invalidade e ineficácia do negócio jurídico, bem como uma análise das nulidades, absolutas e relativas. Bons estudos! 53 1. DO NEGÓCIO JURÍDICO: ELEMENTOS E REQUISITOS A teoria do negócio jurídico nasceu no século XVIII, sendo desenvolvida pelos pandectistas alemães. A adoção do termo “negócio jurídico” é atribuída a Nettelbladt, em 1749, tendo sido a explicitação do termo apresentada por Savigny como “espécie de fatos jurídicos que não são apenas ações livres, mas em que a vontade dos sujeitos se dirige imediatamente à constituição ou extinção de uma relação jurídica” (SAVIGNY, 2004, p. 202). O negócio jurídico é um fato jurídico que é um tipo de ato jurídico lícito em sentido amplo, bem como o ato-fato jurídico e o ato jurídico em sentido estrito. Ele funda-se na autonomia privada, ou seja, no poder de autorregulação dos interesses que contém a enunciação de um preceito, independente do querer interno. Maria Helena Diniz (2012, p. 476) aponta que o negócio jurídico é uma “norma concreta estabelecida entre as partes. Sendo assim, não basta a mera manifestação da vontade para a aquisição de um direito como, por exemplo, na compra de uma casa”. Nesse sentido, esta unidade apresentará os elementos e requisitos para a formação de um negócio jurídico. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 1.1 Conceito Embora os elementos do negócio jurídico sejam as partes que compõem a sua estrutura e os requisitos, as qualidades destes elementos, a doutrina, na maioria das vezes, não distingue elementos de requisitos, empregando frequentemente os termos como sinônimos (GONÇALVES, 2012, p. 332). Para que um negócio jurídico exista, não se questiona a sua validade ou eficácia. Sendo assim, considera-se que um negócio jurídico existe quando presentes todos os seus elementos estruturais. Faltando um destes elementos, o fato não ingressa no mundo jurídico, é inexistente. 54 FIQUE DE OLHO O casamento celebrado por uma autoridade incompetente, digamos um delegado e polícia, por exemplo, é considerado inexistente. Sendo assim, não se indaga se é nulo ou ineficaz, por se tratar apenas de um fato, que não faz parte do plano jurídico. Sendo assim, tem-se que o ato deve passar por uma triagem quanto à sua regularidade, para ingressar no plano da validade, quando então se verificará se está perfeito ou se apresenta algum vício ou defeito inviabilizante. O plano da validade é um dos requisitos do negócio jurídico, porque estes são condição necessária para o alcance de certo fim. Assim, chega-se ao plano da eficácia, onde os fatos jurídicos produzem efeitos, podendo um negócio jurídico existir, ser válido, mas não ter eficácia, por não ter ocorrido ainda, por exemplo, o implemento de uma condição. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 1.2 Elementos essenciais Os elementos essenciais são os estruturais, indispensáveis à existência do ato e que formam a substância, a declaração de vontade nos negócios em geral. No plano da existência estão os pressupostos para um negócio jurídico, ou seja, os seus elementos mínimos, enquadrados por alguns autores dentro dos elementos essenciais do negócio jurídico. Os elementos essenciais podem ser gerais, se comuns à generalidade dos negócios jurídicos, e particulares, peculiaridades a determinadas espécies por serem concernentes à sua forma. 55 Veja a seguir os elementos gerais de um negócio jurídico. As partes (ou agentes). A declaração de vontade. O objeto. A forma. Não havendo algum desses elementos, o negócio jurídico é inexistente (“um nada para o direito”), conforme defendem aqueles que seguem à risca a teoria de Pontes de Miranda (ROSENVALD; CHAVES, 2015, p. 159-160). A Teoria da Inexistência foi criada na Alemanha, em 1808, com a finalidade de explicar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. No Brasil, essa teoria não foi adotada pelo Código de 1916, nem se encontra disposta de forma expressa no Código Civil de 2002, os quais procuraram apresentar, de forma expressa, somente os problemas do negócio jurídico envolvendo o plano na validade. A declaração de vontade é um pressuposto básico do negócio jurídico, imprescindível para que este se exteriorize. Pelo princípio da autonomia da vontade, as pessoas têm liberdade, para, em conformidade com ela, celebrar negócios, contraindo obrigações e criando direitos. No negócio jurídico, a manifestação de vontade tem finalidade negocial, que abrange a aquisição, conservação, modificação ou extinção de direitos. A manifestação da vontade pode ser expressa, tácita ou presumida: Expressa É a que se realiza pelo meio da palavra, falada ou escrita, e de gestos e sinais, que comunicam de forma clara a intenção do agente. Tácita É a declaração de vontade que se revela pelo comportamento do agente. Presumida É a declaração não realizada expressamente, mas que a lei deduz de certos comportamentos do agente, como ocorre no caso da aceitação de herança, quando o doador fixa um prazo ao donatário para declarar se aceita ou não, e este não o fizer (artigo 539, Código Civil). O artigo 111 do CC estabelece que o “silêncio importa em anuência, quando as circunstâncias ou usos o autorizarem, e não for necessária a declaração de vontade expressa”. Sendo assim, tem- 56 se que o silêncio também pode ser interpretado como uma manifestação de vontade, quando a lei conferir a ele tal efeito, como ocorre no caso de doação pura (artigo 539, do CC), em que o doador fixa prazo ao donatário para declarar se aceita ou não. Neste caso, se o donatário, ciente do prazo, não fizer a sua declaração dentro dele, entende-se que este aceitou. Ainda sobre a declaração de vontade, é importante analisar o instituto da reserva mental. Gonçalves (2012, p. 336) cita Nelson Nery Junior, que define reserva mental como sendo “a emissão de uma declaração não querida em seu conteúdo, tampouco em seu resultado, tendo por único objetivo enganar o declaratário”. Para exemplificar, temos o caso dodeclarante que manifesta a sua vontade no sentido de emprestar dinheiro a um seu amigo (contrato de mútuo), porque este tinha a intenção de suicidar-se por estar em dificuldades financeiras. A intenção do declarante não é a de realizar o contrato de mútuo, mas, tão somente, salvar o amigo do suicídio. Ainda assim, o propósito de engano se encontra presente, sendo hipótese típica de reserva mental. Sobre essa questão, determina o artigo 110, do CC, que “a manifestação de vontade subsiste ainda que o autor haja feito reserva mental de não querer o que manifestou, salvo se dela o destinatário tinha conhecimento”. Ou seja, sem o conhecimento da reserva mental, a manifestação de vontade será válida. Sendo assim, tendo-se uma declaração de vontade válida, conforme já apresentado, as partes, o objeto e a forma, tem-se existente o negócio jurídico. No entanto, para que este seja considerado válido, conforme o previsto no artigo 104, CC, é necessário que se tenha uma declaração de vontade livre, agentes capazes, objeto lícito, possível e determinado e forma prescrita ou não defesa em lei. Primeiramente, para que um agente seja considerado apto para intervir em negócios jurídicos como declarante ou declaratário, este deve ser capaz. Capaz, é o agente que tem a capacidade de exercício de direitos, ou seja, aptidão para exercer direitos e contrair obrigações na ordem civil. O Código Civil traz, em seus artigos 3º e 4º, o rol dos absoluta e relativamente incapazes, que não podem por si só praticar nenhum negócio válido. Absolutamente incapazes Art. 3º São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os menores de 16 anos. Assim, os absolutamente incapazes serão representados em seus interesses por seus pais, tutores ou curadores, conforme estejam sob o poder familiar, tutela ou curatela. Relativamente incapazes Art. 4º São incapazes, relativamente a certos atos ou à maneira de os exercer: I - os maiores de dezesseis e menores de dezoito anos; II - os ébrios habituais e os viciados em tóxico; III - aqueles que, por causa transitória ou permanente, não puderem exprimir sua vontade; IV - os pródigos. 57 Os relativamente incapazes, embora possam participar pessoalmente dos negócios jurídicos, deverão ser assistidos pelas pessoas determinadas pela lei, salvo nas hipóteses em que a norma, expressamente, permitir que ajam sem tal assistência. Conforme estabelece o artigo 5º, do CC, a capacidade é adquirida com a maioridade, aos 18 anos, ou com a emancipação. A incapacidade pode ser de duas espécies, absoluta ou relativa, tendo estas diferentes consequências para o negócio jurídico, como veremos ainda nesta unidade. A validade do negócio jurídico requer também um objeto lícito, possível e determinado ou determinável e forma prescrita ou não defesa em lei. Objeto lícito Não pode ser contrário aos bons costumes, à ordem pública e à moral. Se ilícito o objeto do negócio jurídico, este será nulo, não produzindo qualquer efeito jurídico (exemplo: compra e venda de objeto roubado, corretagem matrimonia, etc). Objeto possível Sem impossibilidade física ou jurídica. Impossibilidade física é a que emana das leis físicas e naturais (ex: volta ao mundo em 2 horas). Para tornar o negócio jurídico inválido, a impossibilidade deve ser absoluta, pois como determina o artigo 106, CC, “a impossibilidade inicial do objeto não invalida o negócio jurídico se for relativa, ou se cessar antes de realizada a condição a que ele estiver subordinado”. Já a impossibilidade jurídica do objeto ocorre quando o ordenamento jurídico proíbe, expressamente, negócios a respeito de determinado bem, como ocorre no caso de herança de pessoa viva (artigo 426, do CC). Objeto determinado ou determinável Se o objeto for determinado, as partes deverão descrevê-lo; se for determinável, basta a indicação de gênero e quantidade. Sendo assim, tem-se que é possível, a venda de coisa incerta, quando indicada pelo gênero e quantidade (artigo 243, do CC), que será determinada pela escolha, bem como a venda alternativa, cuja inderminação cessa com a concentração (artigo 252, do CC) (GONÇALVES, 2012, p. 342). Forma prescrita ou não defesa em lei Por fim, tem-se como último requisito para a validade do negócio jurídico a forma, que é o meio de revelação da vontade, devendo esta ser a prescrita em lei. 58 A forma pode classificada em três tipos: livre ou negocial, pública convencionada e solene ou especial. Na livre ou negocial, o negócio se perfaz por qualquer meio, pelo qual se possa apurar a declaração de vontade (ex: contratos). A forma pública convencionada é forma obrigatória que nasce por eleição das partes, ou seja, as partes instituem a forma pública que desejam. Já a forma solene ou especial, que é a estabelecida por lei como requisito de validade, pode ser dividido entre forma única, que é aquela que por lei não pode ser preterida por outra (ex: casamento) e plural ou múltipla, que ocorre quando a norma permite a formalização do negócio de vários modos (reconhecimento dos filhos fora do casamento, art. 1.609, CC). FIQUE DE OLHO Conforme estabelece o artigo 107, do CC, a “validade da declaração de vontade não dependerá de forma especial, senão quando a lei expressamente a exigir”. Sendo assim, tem-se que, no direito brasileiro, via de regra, a forma é livre, podendo as partes celebrar contrato por escrito, público ou particular, ou verbalmente, salvo os casos em que a lei exigir que seja feito de forma diversa. Intimamente lidada à forma está a questão da prova do negócio jurídico. Para Clóvis de Beviláqua (2015, p. 134), “a prova é o conjunto de meios empregados para demonstrar, legalmente, a existência de negócios jurídicos. 1.3 Elementos acidentais Os elementos acidentais do negócio jurídico, conforme leciona Maria Helena Diniz são aqueles “que as partes podem adicionar em seus negócios para modificar uma ou algumas de suas consequências naturais”. Conforme Farias e Rosenvald (2011, p. 169) “os elementos acidentais do negócio jurídico não estão no plano da sua existência ou da validade, mas no plano de sua eficácia, sendo a sua presença até dispensável”. Entretanto, em alguns casos, que ainda serão estudados, “sua presença pode gerar a nulidade do negócio, situando--se no plano da validade. São elementos acidentais do negócio jurídico a condição, o termo e o encargo” (FARIAS e ROSENVALD, 2011, p. 169). A condição é o elemento acidental do negócio jurídico que subordina a sua eficácia a evento futuro e incerto, conforme determina o artigo 121, do CC. A condição possui três elementos essenciais, a aceitação voluntária, a futuridade do evento e a incerteza do acontecimento. A incerteza do acontecimento pode ser verificada de diversas formas: 59 • quando o evento é incerto e não se sabe quando ele irá acontecer; • quando o evento é incerto, mas especifica-se o lapso temporal que ele irá acontecer; • quando o evento é certo mais não se sabe quando ele vai acontecer; e • quando o evento é certo, e se sabe quando ele vá acontecer. Conforme explicitado pelo conceito de condição, somente as opções a e b constituem condição, sendo c e d situações em que se tem o instituto do termo, pois se tem a subordinação do efeito do negócio a evento certo ( FRANCA, 1977, p. 371), como veremos a seguir. As condições podem ser classificadas com relação aos seguintes aspectos: À possibilidade É física e juridicamente possível, se puder ser realizada conforme as leis físico-naturais e normas jurídicas. À licitude São lícitas todas as condições que não contrariam a lei, a ordem pública ou os bons costumes (artigo 122, do CC), sendo então ilícitas as que contrariam os parâmetros citados. À natureza A condição será necessária se for inerente à natureza do negócio, por exemplo, a venda de um automóvel, se ela se perfizer por escritura pública. É da essência desse ato negocial a outorga de escritura pública, logo, não é, verdadeiramente uma condição,visto que deriva da vontade das partes. A condição voluntária, é a autêntica condição, pois deriva da manifestação de vontade. À participação da vontade dos sujeitos A condição pode ser causal, se depender de força maior ou caso fortuito alheio à vontade das partes (ex: te darei um colar de brilhantes caso chova amanhã) ou potestativa, que é quando a condição decorre da vontade de uma das partes. Ao modo de atuação As condições podem ser suspensivas ou resolutivas. As condições suspensivas (artigo 125, do CC) são aquelas que, se não verificadas, suspendem a aquisição e o exercício do direito. Já as condições resolutivas (artigo 127 e 128, do CC), enquanto não verificadas, 60 vigorará o negócio jurídico, cabendo o exercício de direito. Sobrevindo essa condição, o negócio jurídico é extinto para todos os efeitos. Termo é o elemento do negócio jurídico que associa sua eficácia a evento futuro e certo. O termo pode ser certo, quando se sabe quando ocorrerá (exemplo: fim de um contrato por prazo determinado), ou incerto, quando associado a um evento que se sabe que irá ocorrer, mas não se sabe quando (exemplo: morte). Além disso, pode ser classificado como inicial, se fixar o momento em que a eficácia do negócio jurídico deve iniciar e final, quando determina a data de cessação dos efeitos. Conforme disposto no artigo 135, do CC, “ao termo inicial e final aplicam-se, no que couber, as disposições relativas à condição suspensiva resolutiva”. FIQUE DE OLHO Não há que se confundir o termo com prazo, que é o lapso de tempo compreendido entre a declaração de vontade e a superveniência do termo em que começa o exercício do direito ou extingue o direito até então vigente. Por fim, tem-se o encargo ou modo, que é um ônus introduzido em ato de liberalidade. Como exemplo, se tem a doação de um terreno para que, em parte dele, seja construída uma escola. O donatário recebe o terreno, caso não construa a escola no prazo fixado, caberá a revogação da doação (artigo 555, do CC). De acordo com Lopes (1995, p.504-505), o encargo produz os seguintes efeitos: a. não suspende a aquisição nem o exercício do direito, salvo quando expresso no ato, pelo disponente, sem condição suspensiva (art. 136, do CC); b. caso seja impossível ou ilícito o encargo, em regra, considera-se não escrito (artigo 137, do CC); c. gera uma declaração de vontade qualificada ou modificada que não pode ser destacada do negócio jurídico, daí sua compulsoriedade; d. podem exigir o seu cumprimento o próprio instituidor, seus herdei-ros, as pessoas beneficiadas ou representante do Ministério Público, se se contiver em disposição testamentária ou for de interesse público (CC, art. 553, parágrafo único); e. a resolução do negócio jurídico em virtude de inadimplemento do modo não prejudica direitos de terceiros. 61 1.4 Elementos naturais Os elementos naturais são as consequências ou efeitos que decorrem da própria natureza do negócio, sem necessidade de expressa menção. Normas supletivas já determinam essas consequências jurídicas, que podem ser afastadas por estipulação contrária. Os elementos naturais são assim, aquilo que está presente no negócio jurídico naturalmente. Não é preciso colocar regra dizendo que ele estará presente, pois ele não é um elemento essencial. Se retirar ou colocar, o negócio ainda vai valer da mesma maneira, pois ele decorre da natureza, como ocorre nos casos em que se tem vícios redibitórios, que são um defeito oculto da própria coisa ou no caso de evicção, que é a responsabilidade do devedor pela perda da coisa em virtude de decisão judicial, oriundo de fato jurídico superveniente. 2. DA INEXISTÊNCIA, INVALIDADE E INEFICÁCIA DO NEGÓCIO JURÍDICO Nulidade é a sanção imposta pela lei aos atos e negócios jurídicos realizados sem observância dos requisitos essenciais, impedindo-os de produzir os efeitos que lhes são próprios.Segundo Diniz (2012, p. 447), nulidade “vem a ser a sanção, imposta pela norma jurídica, que determina a privação dos efeitos jurídicos do negócio praticado em desobediência ao que prescreve”. A nulidade pode ser absoluta ou relativa, podendo ser total ou parcial. A nulidade absoluta faz com que este não produza qualquer efeito por ofender gravemente os princípios da ordem pública. Já a nulidade relativa se refere “a negócios que se acham inquinados de vício capaz de lhes determinar a ineficácia, mas que poderá ser eliminado, restabelecendo a sua normalidade” (BEVILAQUA, 2015, p. 281). No caso da invalidade total, todo o negócio jurídico é nulo ou anulável, enquanto no caso da invalidade parcial, parte do negócio jurídico é nulo ou anulável, em conformidade com o princípio da conservação do negócio jurídico (art. 184, do CC). 2.1 Nulidade absoluta “Nos casos de nulidade absoluta existe um interesse social, além do individual, para que se prive o ato ou negócio jurídico dos seus efeitos específicos, visto que há ofensa a preceito de ordem pública e, assim, afeta a todos” ( GONÇALVES, 2012, p.428). Por essa razão, pode ser alegada por qualquer interessado, devendo ser pronunciada de ofício pelo juiz, de acordo com o artigo 168, do CC. Conforme estabelece o artigo 166, do CC, são nulos os negócios jurídicos abaixo. Celebrado por pessoa absolutamente incapaz. For ilícito, impossível ou indeterminável o seu objeto. 62 O motivo determinante, comum a ambas as partes, for ilícito. Não revestir a forma prescrita em lei. For preterida alguma solenidade que a lei considere essencial para a sua validade. Tiver por objetivo fraudar lei imperativa. A lei taxativamente o declarar nulo, ou proibir-lhe a prática, sem cominar sanção. Os incisos I, II, IV e V estão atrelados, como já estudado, ao artigo 104, CC, que apresenta os requisitos para a validade de um negócio jurídico. Conforme estabelece o inciso I, são anuláveis os negócios praticados por pessoa relativamente incapaz, sem a devida assistência de seus legítimos representantes. Todavia, sobre este inciso cabem algumas observações. Quando a anulabilidade advier de falta de autorização do representante, será válido o negócio jurídico se ele a der posteriormente (art. 176, CC). Contudo, o menor púbere, que procede com malícia, praticando atos sem assistência, não poderá pedir a anulação desses negócios (art. 180, CC), invocando idade que maliciosamente ocultou, uma vez que não é juridicamente admissível que alguém prevaleça de sua própria malícia para tirar proveito de ato ilícito, causando dano ao outro contratante de boa-fé. O inciso III, é um preceito novo, trazido pelo Código Civil de 2002, que trata de uma situação de maior gravidade, em que o motivo determinante, comum às partes, é ilícito, não admitindo o ordenamento jurídico, por isso, que produza efeito. Já o inciso VI, refere-se o dispositivo ao negócio celebrado em fraude a preceito de ordem pública, à norma cogente, que a jurisprudência já vinha considerando nulo antes mesmo da mencionada inovação legislativa. Por fim, o inciso VII, traz o caso de nulidade expressa e virtual ou implícita, pois busca contemplar também os casos em que a lei não declara expressamente a nulidade do ato, mas proíbe sua prática ou submete a sua validade à observância de certos requisitos de interesse geral. Além disso, será declarado nulo também o negócio jurídico simulado, conforme artigo 167, do CC, subsistindo o que dissimulou, se valido for na substância e na forma. É considerada simulação do negócio jurídico quando: • aparentarem conferir ou transmitir direitos a pessoas diversas daquelas às quais realmente se conferem ou transmitem; • contiverem declaração, confissão, condição ou cláusula não verdadeira; • os instrumentos particulares forem ante-datados ou pós-datados. 63 Tem-se como efeito da nulidade bem como da anulabilidade, tornar inoperante o negócio jurídico que contém o defeito nulificador, tendo o decreto judicial da nulidade efeito ex tunc, ou seja, alcançando a declaração de vontade no momento da emissão.Vale ressaltar ainda que o artigo 170, do CC, visando o princípio da preservação ou da conservação negocial, estabelece que “se o negócio jurídico nulo contiver os requisitos de outro, subsistirá este quando o fim a que visam as partes permitir supor que o teriam querido, se houvessem previsto a nulidade”, o que é chamado de conversão. FIQUE DE OLHO Pode se ter a transformação de um contrato de compra e venda nulo, por defeito de forma, num compromisso de compra e venda. 2.2 Nulidade relativa A nulidade relativa ou anulabilidade atinge os negócios que apresentam vício capaz de determinar a invalidade, mas que podem ser afastados ou sanados. A anulabilidade é a sanção imposta pela lei aos atos e negócios jurídicos realizados por pessoas relativamente incapazes ou eivadas de algum vício do consentimento ou vício social. A anulabilidade visa, pois, a proteção do consentimento ou refere-se à incapacidade do agente. Segundo Francisco Amaral (2017), sua razão de ser está na proteção que o direito dispensa aos interesses particulares. Depende da manifestação judicial. Ao contrário do negócio jurídico nulo, o anulável produz efeitos até ser anulado em ação, para a qual são legitimados os interessados no ato, isto é, as pessoas prejudicadas e em favor de que o ato deve se tornar ineficaz. Conforme estabelece o artigo 171, do CC, “além dos casos expressamente declarados na lei, é anulável o negócio jurídico por incapacidade relativa do agente ou por vício resultante de erro, dolo, coação, estado de perigo, lesão ou fraude contra credores”. No entanto, conforme exposto, este vício é capaz de ser sanado, pois o negócio poderá ser considerado válido se o interessado se conformar com os seus efeitos. O artigo 172 do CC determina que “o negócio anulável pode ser confirmado pelas partes, salvo direito de terceiro”, devendo nesse caso, a confirmação conter a substância do negócio jurídico celebrado e a vontade expressa de mantê-lo. Diferente da nulidade, a anulabilidade produz efeito ex nunc, respeitando as consequências geradas anteriormente. O pronunciamento da nulidade absoluta ou relativa requer que as partes 64 voltem ao estado anterior, não sendo isso possível, por não mais existir a coisa ou por ser inviável a reconstituição da situação, o prejudicado será indenizado com o equivalente (art.182, do CC). FIQUE DE OLHO Casamento putativo é o casamento celebrado indevidamente de boa-fé, ou seja, um casamento que se imaginava verdadeiro, por ter preenchido todos os requisitos de existência, validade e produção de efeitos. No entanto, posteriormente, verificou-se vício, passível de anulação. Embora o casamento seja nulo ou anulável, gera efeitos em relação ao cônjuge que esteja de boa-fé. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 65 Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • aprender que o negócio jurídico é um fato jurídico e um tipo de ato jurídico lícito em sentido amplo, bem como o ato-fato jurídico e o ato jurídico em sentido estrito; • conhecer que existem três planos a serem analisados com relação ao negócio jurídico, o plano da existência, o plano da validade e o plano da eficácia; • entender que os requisitos de existência do negócio jurídico são os seus elementos estruturais, sendo estes as partes (ou agentes), declaração de vontade, o objeto e a forma. Faltando qualquer deles, o negócio inexiste; • compreender que a declaração de vontade é elemento essencial para a existência do negócio jurídico, podendo ser esta manifestação de forma expressa, tácita ou presumida; • assimilar que validade do negócio jurídico requer também um objeto lícito, possível e determinado ou determinável; • distinguir os elementos acidentais do negócio jurídico: a condição, o termo e o encargo. PARA RESUMIR AMARAL, F. Curso de direito civil brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2017. BEVILAQUA, C. Teoria Geral do Direito Civil. 2 ed. São Paulo: Servanda, 2015. BEVILAQUA. C. Código Civil dos Estados Unidos do Brasil comentado. Editora Lfa, 1957. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 3 nov. 2019. BRASIL. Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm. Acesso em: 3 nov. 2019. BRASIL. Lei 3.071, de 1º de janeiro de 1916. Código Civil dos Estados Unidos do Brasil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L3071.htm. Acesso em: 5 nov. 2019. DINIZ, M. H. Curso de Direito Civil Brasileiro: Teoria Geral do Direito Civil. 29 ed. São Paulo, Saraiva. 2012. FARIAS, C. C; ROSENVALD, N. Direito civil: teoria geral. Rio de Janeiro: Lumen Juris Ltda, 2011. FRANCA. R. L. Enciclopédia Saraiva de Direito. v. 17. São Paulo: Saraiva, 1977. GONÇALVES, C. A. Direito Civil Brasileiro. v. 1. São Paulo: Saraiva, 2012. LOPES, M. M. S. Curso de Direito Civil. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1995. LOTUFO, R. Código Civil Comentado. São Paulo: Saraiva, 2004. MAZEAUD, H. E. L.; et al. Leçons de droit civil. Paris: Montchrestien. 1994. ROSENVALD, N.; CHAVES, C. Curso de direito civil - Parte geral e LINDB. 13 ed. São Paulo: Atlas, 2015. SAVIGNY, F. C. V. Sistema de Derecho Romano Actual. Editora Analecta, 2004. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS UNIDADE 4 Dos defeitos dos negócios jurídicos e da prescrição e decadência Você está na unidade Dos defeitos dos negócios jurídicos e da prescrição e decadência. Conheça aqui o que é defeito no negócio jurídico, bem como seus efeitos. Serão ainda apresentados os defeitos dos negócios jurídicos: erro, dolo, coação, lesão, estado de perigo e fraude contra credores. Além disso, você também estudará nesta unidade os institutos da prescrição e da decadência, analisando seu conceito, bem como as causas impeditivas, suspensivas e interruptivas. Bons estudos! Introdução 69 1. DOS DEFEITOS DO NEGÓCIO JURÍDICO A declaração de vontade é um elemento estrutural ou requisito de existência do negócio jurídico. Porém, para que este seja válido, faz-se necessário a manifestação da vontade de forma livre e espontânea. “Pode acontecer, no entanto, que ocorra algum defeito na sua formação ou na sua declaração, em prejuízo do próprio declarante, de terceiro ou da ordem pública” (GONÇALVES, 2012. p. 384). Nesta unidade, serão analisados então as hipóteses em que a vontade se manifesta com algum vício que a torne anulável, conforme estabelece o artigo 171 do Código Civil (CC). Segundo o referido dispositivo, são defeitos do negócio jurídico o erro, dolo, coação, estado de perigo, lesão ou fraude contra credores. FIQUE DE OLHO Com exceção da fraude contra credores, todos os defeitos jurídicos supracitados são vícios de consentimento, pois a manifestação da vontade não condiz com o verdadeiro querer do agente. No caso da fraude contra credores, esta não condiz com a uma falta de correspondência entre a manifestação da vontade e o querer, mas sim é exteriorizada com a intenção de prejudicar terceiros, sendo assim considerada como um vício social. Tal sistema pode ser melhor visualizado e entendido no esquema abaixo. 70 Figura 1 - Defeitos do negócio jurídico Fonte: Elaborada pela autora, 2019. #PraCegoVer: na imagem, são descritos os defeitos do negócio jurídicos, que são ramificados em dois tipos: os que são de vontade ou consentimento e os que são sociais. Configuram-se como defeitos de vontade ou conhecimento o erro/ignorância, o dolo, a coação moral, o estado de perigo e a lesão. Todos esses são considerados anuláveis. Em relação aos defeitos sociais, podemos citar a simulação - que é um defeito nulo - e a fraude contra credores - que é um defeito anulável. “Defeitos do negócio jurídico são, pois, as imperfeições que nele podem surgir, decorrentes de anomalias na formação da vontade ou na sua declaração” (AMARAL, 2017, 479-480). 1.1 Erro “O erro é uma noção inexata, não verdadeira sobre algumacoisa, objeto ou pessoa, que influencia a formação da vontade, que impede que a vontade se forme em consonância com sua verdadeira motivação” (MONTEIRO, 2011, p.195). Conforme o autor, “nessa modalidade de vício, o agente engana-se sozinho, sendo o erro uma ideia falsa da realidade”. O erro apresenta-se em diversas espécies. Primeiramente, tem-se o erro substancial e o erro acidental. Não é qualquer espécie de erro que tona anulável o negócio jurídico. 71 Substancial ou essencial É o que recai sobre as circunstâncias e aspectos relevantes do negócio. Há de ser a causa determinante, ou seja, se reconhecida a realidade o negócio não seria celebrado. Segundo Francisco Amaral (ANO, p. 484), se o agente conhecesse a verdade, não manifestaria a vontade de concluir o negócio jurídico. Diz-se, por isso, essencial, porque tem, para o agente, importância determinante, isto é, se ele não existisse não se praticaria o ato”. Acidental É o erro que se refere a circunstâncias de menor importância, que não acarretam efetivo prejuízo, ou seja, se conhecida a realidade, mesmo assim o negócio jurídico seria realizado. Como exemplo, se tem o erro de cálculo que, conforme estabelece o artigo 143, do CC, apenas autoriza a retificação da declaração da vontade, não existindo neste caso vício propriamente dito. Conforme estabelece o artigo 139, do CC, o erro é substancial quando: • interessa à natureza do negócio, ao objeto principal da declaração, ou a alguma das qualidades a ele essenciais; • concerne à identidade ou à qualidade essencial da pessoa a quem se refira a declaração de vontade, desde que tenha influído nesta de modo relevante; • sendo de direito e não implicando recusa à aplicação da lei, for o motivo único ou principal do negócio jurídico. Sobre a natureza do negócio Aquela na qual uma das partes manifesta a sua vontade pretendendo ce- lebrar determinado negócio jurídico e, na verdade, realiza outro diferente, por exemplo, desejar alugar e escreve vender. Aqui tem-se uma divergência quanto à espécie de negócio, no que cada um dos agentes manifestou. Sobre o o b j e t o principal da declaração É o erro que incide sobre a identidade do objeto. A manifestação de vontade recai sobre objeto diverso daquele que o agente queria. Por exemplo, com- prador acredita estar adquirindo um terreno situado em uma rua importan- te, mas que, na verdade, possui pouco valor, porque está localizado em rua de mesmo nome em um vilarejo. S o b r e alguma das qualidades do objeto principal Ocorre quando o motivo determinante do negócio é a suposição de que o objeto possui determinada qualidade que, posteriormente, se verifica inexistir. Neste caso, o erro não recai sobre a identidade do objeto, que é o mesmo que se encontrava no pensamento do agente. Todavia, este não tem as qualidades que o agente considerava essenciais e que influíram em sua decisão. Exemplo: “pessoa adquire candelabros prateados, mas de material inferior, achando que eram de prata” (GONÇALVES, 2012, p. 388). 72 Erro de direito É o falso conhecimento, ignorância ou interpretação errônea da norma jurídica aplicável à situação concreta. Segundo Pereira (2018), é o que se dá quando o agente emite a declaração de vontade no pressuposto falso de que procede segundo o preceito legal. Tem-se ainda o conceito do erro escusável, que é o erro justificável, desculpável. Ao considerar anulável o erro “que poderia ser percebido por pessoa de diligência normal, em face das circunstâncias do negócio” (art.138, CC), o Código declara como anulável o erro inescusável. Nesse sentido, o Superior Tribunal de Justiça (BRASIL, 2010), em acórdão, proclamou: O erro que enseja a anulação de negócio jurídico, além de essencial, deve ser inescusável, decorrente da falsa representação da realidade própria do homem mediano, perdoável, no mais das vezes, pelo desconhecimento natural das circunstâncias e particularidades do negócio jurídico. Vale dizer, para ser escusável o erro deve ser de tal monta que qualquer pessoa de inteligência mediana o cometeria. Para invalidar o negócio jurídico, o erro deve ser ainda real, ou seja, causar prejuízo concreto para o interessado. Tem-se ainda o erro por falso motivo, conforme estabelece o artigo 140, do CC, “o falso motivo somente vicia a declaração de vontade quando expresso como razão determinante”. Motivos, são as ideias, as razoes subjetivas, interiores, consideradas acidentais e sem relevância para a apreciação da validade do negócio. A transmissão errônea da vontade é equiparada pelo Código Civil como ao erro, conforme estabelece o artigo 141, do CC, “a transmissão errônea da vntade por meios interpostos é anulável nos mesmos casos em que é a declaração direita”. 1.2 Dolo Dolo é o emprego de um artifício ou expediente astucioso usado para induzir alguém à prática de um ato que prejudica uma parte e aproveita o autor do dolo ou a terceiro. Para que seja configurado o dolo, tem-se alguns requisitos. Veja a seguir. 73 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: É necessário que se tenha a intenção de obter proveito à custa à custa de outrem sem se importar se essa pessoa será ou não prejudicada, utilizando-se de artifícios fraudulentos. Deve estar presente também o que se chama de dolos malus, que é a vontade de prejudicar ou obter vantagem indevida. O dolo deve ser substancial, ou seja, deve ser o motivo determinante da realização do ato. Quando se tem o dolo acidental, o negócio jurídico, de início, não se encontra viciado, podendo levar, no entanto, a apuração de perdas e danos. O dolo pode ser classificado de algumas formas. Acompanhe. Dolo positivo e negativo O positivo é o que se tem caracterizado por meio de ações, enquanto que o negativo é por meio de omissões, regulado pelo artigo 147, do CC. Exemplo: eu deveria passar uma informação sobre o objeto a ser vendido, mas me omito. Dolo de terceiro Conforme especificado no artigo 148, do CC, “Pode também ser anulado o negócio jurídico por dolo de terceiro, se a parte a quem aproveite dele tivesse ou devesse ter conhecimento; em caso contrário, ainda que subsista o negócio jurídico, o terceiro responderá por todas as perdas e danos da parte a quem ludibriou”. Ou seja, no caso em que a parte tem conhecimento, o negócio jurídico é anulável e cabe perdas e danos. No entanto, se a parte não tem conhecimento, cabe somente perdas e danos. 74 Dolo do representante O artigo 149, do CC, determina que “o dolo do representante legal de uma das partes só obriga o representado a responder civilmente até a importância do proveito que teve; se, porém, o dolo for do representante convencional, o representado responderá solidariamente com ele por perdas e danos”. Dolo de ambas as partes O Código Civil ainda apresenta a situação na qual ambas as partes procederam com dolo, nesse caso tem-se a “neutralização”, uma vez que ninguém pode se beneficiar da própria torpeza, não podendo então nenhuma das partes alegá-lo para anular o negócio ou obter perdas e danos (art. 150, CC). 1.3 Coação Coação é toda ameaça ou pressão injusta exercida sobre um indivíduo para forçá-lo, contra a sua vontade, a praticar um ato ou realizar um negócio, caracterizado pelo emprego da violência psicológica para viciar à vontade. A coação em si, não é um vício de vontade, mas sim o temor que ela inspira, tornando defeituosa a manifestação de querer do agente (MONTEIRO, 2011). O artigo 151, do CC, estabelece que “a coação, para viciar a declaração da vontade, há de ser tal que incuta ao paciente fundado temor de dano iminente e considerável à sua pessoa, à sua família, ou aos seus bens”. Sendo assim, tem-se como requisitos para a configuração da coação que esta seja causa determinante para a realização do negócio jurídico. A coação deve incutir na vítima um temor justificado, não sendo qualquer ameaça qualificada com coação e o temor deve dizer respeito ao um dano iminente. O dano deve ser considerável e atingir pessoa dafamília do paciente, nos casos em que não seja da família, o juiz, com base nas circunstâncias, decidirá se houve coação (parágrafo único, artigo 151, do CC). Não se terá configurada, no entanto, a coação nos casos em que se tratar de ameaça do exercício normal de um direito ou simples temor reverencial, como o medo de desagradar aos pais, conforme determina o artigo 153, do CC. Será declarado viciado o negócio jurídico também nos casos em que se tem a coação exercida por terceiros, se dela tivesse ou devesse ter conhecimento a parte a que aproveite, e esta responderá solidariamente por perdas e danos (artigo 154, CC). 1.4 Lesão Conforme estabelece o artigo 157, do CC, “Ocorre a lesão quando uma pessoa, sob premente necessidade, ou por inexperiência, se obriga a prestação manifestamente desproporcional ao valor da prestação oposta”. 75 Lesão é, portanto, o prejuízo resultante da enorme desproporção existente entre as prestações de um contrato, no momento de sua celebração, determinada pela premente necessidade ou inexperiência de uma das partes, não contentando o dispositivo com qualquer desproporção, tem que ser manifesta. Tem-se como elementos necessários para que se configure a lesão, a manifesta desproporção entre as prestações recíprocas, geradora do lucro exagerado, e a inexperiência ou premente necessidade do lesado. O paragrafo 1º, do artigo 157, do CC, sustenta que a apreciação da desproporção das prestações deve ser feita segundo os valores vigentes ao tempo em que foi celebrado o negócio jurídico. “A necessidade do contratante, de que que fala o referido dispositivo, não está relacionado às suas condições econômicas. [...]. Ela deve estar relacionada à impossibilidade de evitar o contrato, que independe da capacidade financeira do lesado” (BECKER, 2000, p. 121-122). “Já a inexperiência deve ser relacionada ao contrato, consistindo na falta de conhecimentos técnicos ou habilidades relativas à natureza da transação” (LOTUFO, 2004, p. 442). Segundo o autor, inexperiência não está relacionada à falta de cultura, pois até pessoas eruditas e inteligentes podem celebrar um contrato sem perceber o seu real alcance, por não ser sua atividade comum. “A lei refere-se, portanto, à inexperiência contratual ou técnica, que se aferirá tanto em relação à natureza da transação quanto à pessoa da outra parte” (LOTUFO, 2004, p. 442). 1.5 Estado de perigo Conforme determina o artigo 156 do CC, “Configura-se o estado de perigo quando alguém, premido da necessidade de salvar-se, ou a pessoa de sua família, de grave dano conhecido pela outra parte, assume obrigação excessivamente onerosa”. Tem-se como exemplo clássico a hipótese em que um individuo, assaltado por bandidos, em lugar ermo, se dispõe a pagar alta quantia de dinheiro a quem venha livrá-lo da violência. • Tem-se assim, como reequisitos para a configuração do estado de perigo: • existência de uma situação de necessidade; • iminência de dano atual e grave; • nexo de causalidade entre a declaração e o perigo de grave dano; • a incidência da ameaça do dano sobre a pessoa do próprio declarante ou de sua família; • o conhecimento do perigo pela outra parte; • a assunção de obrigação excessivamente onerosa. 76 Vale ressaltar, que conforme estabelece o artigo 156, parágrafo único, do CC, tratando-se de pessoa que não pertence à família do declarante, o juiz decidirá segundo às circunstâncias. Teresa Ancona Lopez (2002, p. 56) justifica a razão para a anulabilidade do negócio jurídico celebrado em estado de perigo porque, evidentemente, se o declarante se aproveitar da situação de perigo para fazer um negócio vantajoso para ele e muito oneroso para a outra parte não há como se agasalhar tal negócio. Há uma frontal ofensa à justiça comutativa que deve estar presente em todos os contratos. 1.6 Fraude contra credores Constitui fraude contra credores a prática maliciosa, pelo devedor, de atos que deslocam o seu patrimônio com escopo de colocá-lós a salvo de uma execução por dívidas em detrimento de direitos creditórios alheios, constituindo esse um vício social, diferente dos demais, que são vícios vinculados à declaração da vontade. A regulamentação jurídica desse instituto assenta-se no princípio do direito das obrigações, segundo o qual o patrimônio do devedor responde por suas obrigações. É o princípio da responsabilidade patrimonial, previsto no artigo 957, do CC, “Não havendo título legal à preferência, terão os credores igual direito sobre os bens do devedor comum”. “Sendo assim, fraude contra credores é, portanto, todo ato suscetível de diminuir ou onerar seu patrimônio, reduzindo ou eliminando a garantia que este representa para o pagamento de suas dívidas, praticado por devedor insolvente ou por ele reduzido à insolvência (art. 158, CC)”(MELLO,2017, p. 163). A fraude contra credores conta com dois elementos, o objetivo e o subjetivo. Objetivo É o ato prejudicial ao credor, por tornar o devedor insolvente ou por ter sido realizado em insolvência. Subjetivo É a existência da intenção de prejudicar para ilidir os efeitos da cobrança. Dentre as hipóteses em que pode ocorrer fraude contra credores, tem-se: • Negócios gratuitos e remissão de dívidas (artigo 158, CC): não é somente nas transmissões onerosas pode se verificar fraude. Exemplo: um individuo tem um patrimônio de R$ 100 mil, mas deve R$ 150 mil. Se ele doar R$ 50 mil do seu patrimônio (que já está em débito), ele estará cometendo fraude. • Negócios onerosos: o artigo 159, do CC, determina que “serão igualmente anuláveis os contratos onerosos do devedor insolvente, quando a insolvência for notória, ou houver motivo para ser conhecida do outro contratante”. 77 • Garantias reais: o artigo 163, do CC, prescreve que “presumem-se fradulatórias dos direitos dos outros credores as garantias de dívidas que o devedor insolvente tiver dado a algum credor. Sendo assim, tem-se que não se pode outorgar a garantia quando o devedor está em estado de insolvência”. • Pagamento antecipado de dívidas: artigo 162, do CC, estabelece que “o credor quirografário, que receber do devedor insolvente o pagamento da dívida ainda não vencida, ficará obrigado a repor, em proveito do acervo sobre que se tenha de efetuar o concurso de credores, aquilo que recebeu”. A ação anulatória do negócio jurídico celebrado em fraude contra credores é chamada de revocatória ou ação pauliana em atenção ao pretor Paulo, que a introduziu no direito romano. São legitimados a propor a ação pauliana, os credores quirografários e somente aqueles que já eram credores ao tempo da alienação fraudulenta (art. 158, CC). Conforme dispõe o artigo 161, do CC, a ação pauliana pode ser intentada contra o devedor insolvente ou terceiros adquirentes que haja precedido de má-fé. No entanto, conforme disposto no art. 164, do CC, presumem-se, porém, de boa-fé e valem os negócios ordinários indispensáveis à manutenção de estabelecimento mercantil, rural, ou industrial, ou à subsistência do devedor e de sua família. Anulados os negócios fraudulentos, a vantagem resultante reverterá em proveito do acervo sobre que se tenha de efetuar o concurso de credores, conforme determina o artigo 165, do CC. 2. DA PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA Desde a concepção do ser humano o tempo inclui nas relações jurídicas de que o indivíduo participa. O tempo é elemento substancial, pois existe interesse em atribuir juridicidade àquelas situações que se prolongaram ao longo dos anos. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 78 2.1 Conceito Segundo Pontes de Miranda, a prescrição seria uma exceção que alguém tem contra o que não exerceu, durante um lapso de tempo fixado em norma, sua pretensão ou ação. Para Clovis Bevilaqua (1957), prescrição extintiva é a perda da ação atribuída a um direito, e de toda a sua capacidade defensiva, em consequência do não uso dela, durante determinado espaço de tempo” . Já, Caio Mário, acrescenta que prescrição é o modo pelo qual se extingueum direito (não somente a ação) pela inércia do titular durante certo lapso de tempo. O artigo 189, do CC, dispõe que, “violado o direito, nasce para o titular a pretensão, a qual se extingue, pela prescrição, nos prazos a que aludem os artigos 205 e 206”. Pode-se afirmar então que a prescrição tem como requisitos: • a violação do direito com o nascimento da pretensão; • a inércia do titular e o decurso do tempo fixado em lei. Existem, no entanto, pretensões que não prescrevem, sendo elas: as que protegem direitos da personalidade; as que se predem ao estado das pessoas; as de exercício facultativo (ou potestativo); as referentes a bens públicos; as que protegem o direito a propriedade; as pretensões de reaver bens confiados à guarda de outrem a título de depósito, penhor ou mandato; e as destinadas a anular inscrição do nome empresarial feita com violação de lei ou do contrato. Vale ressaltar ainda que se configura a prescrição intercorrente quando o autor de processo já iniciado, permanece inerte, de forma continuada e ininterrupta, durante lapso temporal suficiente para a perda da pretensão. A prescrição intercorrente foi implicitamente admitida no artigo 202, do CC, ao fazer referência ao ‘último ato do processo para a interromper’. A decadência, por outro lado é a perda do direito potestativo pela inércia do seu titular no período determinado em lei. Seu objeto são os direitos potestativos de qualquer espécie, disponíveis ou indisponíveis, direitos que conferem ao respectivo titular o poder de influir ou determinar mudanças na esfera jurídica de outrem, por ato unilateral, sem que haja dever correspondente, apenas uma sujeição. Na decadência o legislador estabelece que certo ato terá que ser exercido dentro de um determinado tempo, fora do qual ele não poderá mais efetivar-se pois decaiu o seu titular. 79 Gonçalves (2012, p. 511) explica que “um dos critérios usados pela doutrina para distinguir prescrição de decadência consiste em considerar que no caso da decadência o prazo começa a fruir no momento que nasce o direito”. Assim, conforme o autor (2012, p. 511), “no mesmo instante em que o agente adquire o direito, já começa a correr o prazo decadencial. Já o prazo prescricional só se inicia a partir do momento em que este tem seu direito violado”. Figura 2 - Principais diferenças entre prescrição e decadência Fonte: Elaborada pela autora, 2019. #PraCegoVer: na imagem, há dois quadros que resumem as principais diferenças entre prescrição e decadência. A prescrição é o direito a uma prestação, enquanto a decadência é um direito potestativo. A prescrição, ainda, pressupõe violação (inadimplemento), infração de direito pelo devedor. A decadência, por sua vez, não depende da outra parte, apenas de querer exercer o direito. Enquanto a prescrição trata da inércia do credor no decurso do prazo, a decadência trata da inércia do titular do direito potestativo. O prazo, na prescrição, só pode se dar em anos; na decadência, em dias, meses e anos. A prescrição é discutida no bojo da ação condenatória. Já a decadência no bojo da ação constitutiva. Enquanto a prescrição extingue a responsabilidade do devedor, o outro extingue o direito. A prescrição, além disso, sujeita-se a impedimento, suspensão e interrupção, mas a decadência não. Alegada por quem dela se beneficia é a prescrição; a decadência, por outro lado, pode ser alegada por qualquer pessoa. Diferente da prescrição, que não pode ser declarada de ofício (salvo exceção), a decadência deve ser declarada de ofício se for decadência legal. Contrariamente à decadência (irrenunciável), a prescrição é renunciável. Por fim, a prescrição é de interesse particular, enquanto a decadência é de interesse público. 80 2.2 Causas impeditivas e causas suspensivas O Código Civil agrupa as causas que suspendem e que impedem a prescrição em uma mesma seção, entendendo que estão subordinadas a uma unidade fundamental. As mesmas causas que ora impedem ora suspendem a prescrição, dependendo do momento em que surgem. Impeditiva Se o prazo ainda não começou a fluir, a causa ou obstáculo, impede que comece, sendo assim uma causa impeditiva. Suspensiva Se, entretanto, o obstáculo surge após o prazo ter se iniciado, dá-se a suspensão. No caso da suspensão, se cessada a causa de suspensão, o lapso temporal volta a fluir pelo tempo restante. O Código Civil, determina que não corre prescrição, sendo assim causas impeditivas ou suspensivas nos seguintes casos: entre os cônjuges, na constância da sociedade conjugal; entre ascendentes e descendentes, durante o poder familiar; entre tutelados ou curatelados e seus tutores ou curadores, durante a tutela ou curatela; contra os incapazes; contra os ausentes do País em serviço público da União, dos Estados ou dos Municípios; contra os que se acharem servindo nas Forças Armadas, em tempo de guerra; pendendo condição suspensiva; não estando vencido o prazo; pendendo ação de evicção. 2.3 Causas Interruptivas A interrupção depende, em regra, de um comportamento ativo do credor, diferente do que ocorre nos casos de suspensão e interrupção. Qualquer ato de exercício ou proteção ao direito interrompe a prescrição, extinguindo o tempo já decorrido, que volta a correr por inteiro. Conforme estabelece o parágrafo único do artigo 202, do CC, “a prescrição interrompida recomeça a correr da data do ato que a interrompeu, ou do último ato do processo para a interromper”. Se terá a interrupção dos prazos, conforme estabelece o artigo 202, do CC: 81 • por despacho do juiz, mesmo incompetente, que ordenar a citação, se o interessado a promover no prazo e na forma da lei processual; • por protesto, nas condições do inciso antecedente; • por protesto cambial; • pela apresentação do título de crédito em juízo de inventário ou em concurso de credores; • por qualquer ato judicial que constitua em mora o devedor; • por qualquer ato inequívoco, ainda que extrajudicial, que importe reconhecimento do direito pelo devedor. FIQUE DE OLHO Configura-se como defeito do negócio jurídico, capaz de ensejar a anulação deste por estado de perigo, o caso em que a pessoa se vê compelida a efetuar depósito ou a prestar garantia sob a forma de emissão cambial ou de prestação de fiança, exigidos por hospital, para conseguir internação ou atendimento de urgência de cônjuge ou de parente em perigo de vida (GONÇALVES, 2012, 411). Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 82 PARA RESUMIR Nesta unidade, você teve a oportunidade de: • estudar que os defeitos do negócio jurídico são as imperfeições que nele podem surgir, decorrentes de anomalias na formação da vontade ou na sua declaração; • conhecer os defeitos do negócio jurídico: erro, dolo, coação, estado de perigo, lesão e fraude contra credores; • aprender que o erro é uma noção inexata, não verdadeira sobre alguma coisa, que impede que a vontade se forme em consonância com sua verdadeira motivação; • entender que o dolo é o emprego de um artifício ou expediente astucioso usado para induzir alguém à prática de um ato que prejudica uma parte e aproveita o autor do dolo ou a terceiro; • compreender que a coação é toda ameaça ou pressão injusta exercida sobre um indivíduo para forçá-lo, contra a sua vontade, a praticar um ato ou realizar um negócio, caracterizado pelo emprego da violência psicológica para viciar a vontade; • refletir que a lesão ocorre quando uma pessoa, sob premente necessidade, ou por inexperiência, se obriga a prestação manifestamente desproporcional ao valor da prestação oposta; • assimilar que a prescrição é a perda da pretensão a qual se extingue pelo decurso do prazo estabelecido em lei e que a decadência é a perda do direito potestativo pela inércia do seu titular no período determinado por lei. AMARAL, F. Curso de direito civil brasileiro. São Paulo, Saraiva, 2017. BECKER, A. Teoria geral da lesão nos contratos. São Paulo, Saraiva. 2000. BEVILAQUA. C. Código Civil dos EstadosUnidos do Brasil comentado. Editora Lfa, 1957. BRASIL. Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm. Acesso em: 3 nov. 2019. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp 744.311/MT, Rel. Ministro Luis Felipe Salo- mão, Quarta Turma, julgado em 19/08/2010, DJe 9 set. 2010. DE MELLO, M. B. Teoria do fato jurídico. São Paulo, Saraiva. 2017. MIRANDA, P. Tratado de direito privado. Revista dos Tribunais. GONÇALVES, C. A. Direito Civil Brasileiro. v. 1. São Paulo, Saraiva. 2012. LOPEZ, T. A. O estado de perigo como defeito do negócio jurídico. v. 22, n. 68. São Paulo, Revista do Advogado, 2002. LOTUFO, R. Código Civil Comentado. São Paulo, Saraiva. 2004. MONTEIRO, W. B. Curso de direito civil. São Paulo: Saraiva, 2011. PEREIRA, C. M. S. Instituições de direito civil. São Paulo: Forense, 2018. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS A Teoria geral do direito civil é uma matéria ampla, porém imprescindível para todos os alunos de Direito Civil. Dividido em quatro unidades, este livro dá o embasamento que o aluno necessita em seus estudos. Após ler o conteúdo aqui disposto, o aluno estará apto a, entre outras habilidades, entender que o Direito Civil é o ramo do Direito Privado destinado a reger relações familiares, patrimoniais e obrigacionais; reconhecer que a emancipação é o instituto pelo qual o direito declara um menor capaz; assimilar que em casos de abuso da personalidade poderá ser desconsiderado o princípio da autonomia patrimonial da pessoa jurídica; reconhecer que o negócio jurídico é um fato jurídico; constatar que o erro é uma noção inexata, não verdadeira, sobre alguma coisa, que impede que a vontade se forme em consonância com sua verdadeira motivação.do estudo referente ao instituto da pessoa jurídica, suas classificações, limites e sua extinção, o objeto do direito, os bens e suas classificações e os fatos jurídicos em geral. A terceira unidade, Do negócio jurídico, traz aos alunos um pouco sobre os elementos e requisitos do negócio jurídico, dando destaque aos elementos naturais, acidentais e essenciais. Institutos da inexistência, invalidade e ineficácia do negócio jurídico, bem como uma análise das nulidades, absolutas e relativas também são assuntos dessa unidade. Para fechar, a última unidade, Dos defeitos dos negócios jurídicos e da prescrição e decadência, trata do defeito (erro, dolo, coação, lesão, estado de perigo e fraude contra credores) e do efeito no negócio jurídico. Os institutos da prescrição e da decadência, analisando seu conceito, bem como as causas impeditivas, suspensivas e interruptivas também são temas aqui abordados. Com o estudo dos temas acima listados, o aluno terá sólidos conhecimentos para dar andamento a estudos mais avançados. PREFÁCIO UNIDADE 1 Do direito civil, direito privado e da pessoa natural Você̂ está na unidade Direito Civil, Direito Privado e da Pessoa Natural. Conheça aqui um pouco da evolução história e o contexto que levaram à formação e elaboração do Código Civil de 2002. Além disso, nesta unidade também será apresentado o conceito de pessoa natural, suas capacidades e incapacidades como sujeito de direito e alguns conceitos e institutos importantes para a sua compreensão, como o da emancipação, do domicílio, da residência, da ausência e da morte. Bons estudos! Introdução 11 1. DIREITO CIVIL E DIREITO PRIVADO O ser humano é um ser eminentemente social. Não vive isolado, mas em grupos. A convivência impõe uma certa ordem, determinada por regras de conduta. Essa ordenação pressupõe a existência de restrições que limitam a atividade dos indivíduos componentes dos diversos grupos sociais. “O fim do direito é, precisamente, determinar regras que permitam aos homens a vida em sociedade” (MAZEAUD, H. E. L. et al, 1994, p.33).Ainda que não exista um consenso sobre o conceito de “direito”, hoje é utilizado para se referir ao conjunto de regras que disciplinam a sociedade, podendo estas ser de caráter público ou privado. FIQUE DE OLHO Conforme preceitua Caio Mário da Silva Pereira (2018, p. 13), “direito privado é o que disciplina as relações entre pessoas singulares, nas quais predomina imediatamente o interesse de ordem particular”, sendo o Direito Civil o que rege as relações entre os particulares (WALD, 1995, p. 15). 1.1 Origem e fontes Segundo a doutrina civilista, a palavra “fonte” pode ter dois sentidos principais: origem (“de onde vem”) e manifestações jurídicas (“formas de expressão do direito”). As fontes do Direito se dividem em fontes formais e fontes não formais. Fontes formais As fontes formais, conforme a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB), subdividem-se em fontes primárias e secundárias. Fontes não formais As fontes não formais não constam na LINDB, constituindo-se basicamente de doutrina, jurisprudência e equidade. As fontes formais primárias, são as normas jurídicas, um imperativo autorizante, que detém obrigatoriedade, não podendo o cidadão alegar ignorância de seu conteúdo, conforme exposto no artigo 3º da LINDB. Já as fontes formais secundárias são as aplicadas na falta de lei, isto é, quando a lei for omissa e existir uma lacuna normativa (BRASIL, 1942). No que tange às 12 fontes não formais, tem-se a doutrina, que é a interpretação do direito feita pelos estudiosos (exemplos: manuais, enunciados das Jornadas de Direito Civil, teses de doutorado); tem-se ainda a jurisprudência, que é a interpretação do Direito feita pelos Tribunais (exemplos: súmulas dos tribunais superiores). Vale ressaltar que com relação à jurisprudência, o Código de Processo Civil (CPC) trouxe uma valorização substancial, ao atribuir-lhe força vinculativa: • Artigo 332, CPC Nas causas que dispensem a fase instrutória, o juiz, independentemente da citação do réu, julgara liminarmente improcedente o pedido que contrariar: I - enunciado de súmula do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça; II - acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça em julgamento de recursos repetitivos; III - entendimento firmado em incidente de resolução de demandas repetitivas ou de assunção de competência; IV - enunciado de súmula de tribunal de justiça sobre direito local. • Artigo 489, CPC § 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que: [...] VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento. • Artigo 926, CPC Tribunais devem uniformizar sua jurisprudência e mantê-la estável, íntegra e coerente. • Artigo 927, CPC Os juízes e os tribunais observarão: I - as decisões do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade; II - os enunciados de súmula vinculante; III - os acórdãos em incidente de assunção de competência ou de resolução de demandas repetitivas e em julgamento de recursos extraordinário e especial repetitivos; IV - os enunciados das súmulas do Supremo Tribunal Federal em matéria constitucional e do Superior Tribunal de Justiça em matéria infraconstitucional; V - a orientação do plenário ou do órgão especial aos quais estiverem vinculados. 13 Por fim, tem-se ainda as formas de integração da Norma Jurídica (artigo 4º, LINDB), onde se tem as analogias, costumes e princípios gerais do direito. As analogias consistem na aplicação de uma norma próxima ou de um conjunto de normas próximas na ausência de lei para determinado caso. Já os costumes são práticas ou usos reiterados com conteúdo lícito e relevância jurídica. E os princípios gerais são regramentos básicos aplicáveis a determinado instituto jurídico, podendo ser abstraídos de norma, doutrina, jurisprudência e de aspectos econômico e social. É importante ressaltar que, com a Constituição Federal de 1988, alguns dos princípios gerais do Direito ganharam status constitucional, tendo assim prioridade de aplicação. 1.2 Desenvolvimento, conceito e objeto A noção de Direito Civil - como Direito Privado - remonta ao Direito Romano, que, inicialmente, era um só que regulava as relações particulares, sem diferenciação. Posteriormente, o Direito Romano passou a fazer a distinção entre o direito aplicado aos súditos e o direito das gentes, aplicado aos estrangeiros e romanos. Tendo essa divisão evoluído para uma tripartição, em que se tinha o Direito Privado comum, aplicável dentro das fronteiras do Império Romano, o direito aplicável às nações estrangeiras e o Direito Natural, uma espécie de ideal jurídico para o qual deveriam evoluir os demais. “O Direito Civil é o direito comum, que rege as relações entre particulares” (WALD, 2015, p. 15). “Disciplina a vida das pessoas, desde a concepção (até mesmo antes dela) até a morte, e ainda depois dela, reconhecendo a eficácia pós morte do testamento, e exigindo respeito à memória dos mortos”(GONÇALVES, 2012, p. 33). No vasto campo do direito privado, destaca-se o Direito Civil, como direito comum a todos os homens, no sentido de disciplinar o modo de ser e de agir das pessoas. Costuma-se dizer que o Código Civil é a Constituição do homem comum, por reger as relações mais simples da vida cotidiana, os direitos e deveres das pessoas, na sua qualidade de esposo ou esposa, pai ou filho, credor ou devedor, alienante ou adquirente, proprietário ou possuidor, condômino ou vizinho, testador ou herdeiro, etc. Toda a vida social, como se nota, está impregnada do Direito Civil, que regula as ocorrências do dia a dia (GONÇALVES, 2012). Devido às complexidades e ao enorme desenvolvimento da vida civil, não é mais possível enfeixaro Direito Civil no respectivo Código. Atualmente, muitos direitos e obrigações concernentes às pessoas, aos bens e suas relações encontram-se regulados em leis extravagantes, que não deixam de pertencer ao Direito Civil, bem como na própria Constituição Federal. 14 1.3 Direito Civil no quadro geral do Direito O Código Civil possui duas partes: a geral, que, com base nos elementos do direito subjetivo, apresenta normas concernentes às pessoas, aos bens, aos fatos jurídicos, aos atos e negócios jurídicos, desenvolvendo a teoria das nulidades e princípios reguladores da prescrição e decadência. Já a parte especial, conforme Maria Helena Diniz (2012, p. 61), apresenta normas relacionadas ao: Direito das obrigações Tendo como fulcro o poder de constituir relações obrigacionais para a consecução de fins econômicos ou civis, disciplinando os contratos e as obrigações oriundas de declaração unilateral de vontade e de atos ilícitos. Direito de empresa Regendo o empresário, a sociedade, o estabelecimento e os institutos complementares. Direito das coisas Referente à posse, à propriedade, aos direitos reais sobre coisas alheias, de gozo, de garantia e de aquisição. Direito de família Normas relativas ao casamento, à união estável, às relações entre os cônjuges e conviventes, às de parentesco e a proteção de menores e incapazes. Direito das sucessões Formulando normas sobre a transferência de bens por força de herança e sobre o inventário e partilha. O Direito Civil é, pois, o ramo do Direito Privado destinado a reger relações familiares, patrimoniais e obrigacionais, que se forma entre indivíduos como membros da sociedade (LOPES, 1995, p. 32). O Direito Civil rege as relações mais simples da vida cotidiana, estando toda avida social impregnada por este, que regula as ocorrências mais simples do dia a dia, como a aquisição de uma carteira (contrato de compra e venda) ou o uso de um ônibus (contrato de transporte). Conforme Diniz (2012, p.62), os princípios basilares que norteiam todo conteúdo do Direito Civil são: 15 Personalidade Ao aceitar a ideia de que todo ser humano é sujeito de direitos e obrigações, pelo simples fato de ser homem. Autonomia da vontade Pelo reconhecimento de que a capacidade jurídica da pessoa lhe confere o poder de praticar ou abster-se de certos atos, conforme sua vontade. Liberdade de estipulação negocial Devido à permissão de ou-torgar direitos e de aceitar deveres, nos limites legais, dando origem a negócios jurídicos. Propriedade individual Pela ideia assente de que o ho-mem, pelo seu trabalho ou pelas formas admitidas em lei, pode exteriorizar a sua personalidade em bens móveis ou imóveis que passam a constituir o seu patrimônio. Intangibilidadefamiliar Ao reconhecer a família como uma expressão imediata de seu ser pessoal. Herança e o direito de testar Pela aceitação de que, entre os poderes que as pessoas têm sobre seus bens, se inclui o de poder transmiti-los, total ou parcialmen-te, a seus herdeiros. Solidariedade social Ante a função social da propriedade e dos negócios jurídicos, a fim de conciliar as exigências da cole-tividade com os interesses particulares. 1.4 Código Civil Brasileiro Desde a independência do Brasil, várias foram as tentativas feitas, mas, somente após a Proclamação da República, com a indicação de Clóvis Bevilaqua, o projeto de Código Civil, por ele elaborado, foi encaminhado para o presidente da República, que o remeteu ao Congresso Nacional, em 1900. Na Câmara dos Deputados, o Projeto Beviláqua sofreu algumas alterações, sendo aprovado em janeiro de 1916, e entrou em vigor em 1º de janeiro de 1917. 16 O Código Civil de 1916 tratava-se de um Código de acentuado rigor científico, aclamado internacionalmente pela sua clareza e precisão. O CC de 1916, que sofreu influência dos Códigos francês de 1804 e o alemão de 1896, possuía 1.807 artigos e era precedido pela Lei de Introdução ao Código Civil. Continha uma Parte Geral, da qual constavam conceitos, categorias e princípios básicos aplicáveis a todos os livros da parte Especial, esta dividia em quatro livros, Direito de Família, Direito das Coisas, Direito das Obrigações e Direito das Sucessões. A evolução social, o progresso cultural e o desenvolvimento científico, pelas quais passou a sociedade brasileira no decorrer do século passado, provocaram transformações que exigiram do direito uma contínua adaptação, mediante crescente elaboração de leis especiais, que trouxeram modificações relevantes ao Direito Civil, sendo o Direito de Família o mais afetado. Vale ressaltar o Estatuto da Mulher Casada (GONÇALVES, 2012) Lei do Divórcio (BRASIL, 1977) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990), como exemplos de tais alterações. Foram feitas diversas tentativas de atualizar o Código de 1916, sem muito sucesso. A Constituição Federal de 1988 é um marco importante no que tange o Direito de Família e as alterações feitas em função da evolução social vivida à época.Os princípios elencados na Constituição de 1988, como a pluralidade de formas de família, a igualdade jurídica dos cônjuges, a igualdade jurídica de todos os filhos, dignidade da pessoa humana, melhor interesse da criança, função social da propriedade e proteção do consumidor, exerceram forte influência sobre o novo código, o que, dessa forma, configurou um avanço e assegurou a aplicação dos princípios constitucionais às relações jurídico-privadas. “Desse modo, teve-se o deslocamento do centro da disciplina jurídica das relações privadas, permanecendo o Código Civil como fonte residual e supletiva nos diversos campos abrangidos pela legislação extravagante e constitucional” (DINIZ, 2012, p.50). Após algumas tentativas frustradas de promover a atualização e revisão do Código Civil de 1916, foi nomeada em 1967 uma nova comissão de juristas sob a supervisão de Miguel Reale. O Código Civil de 2002 surgiu abruptamente, com base no anteprojeto de Reale, e foi uma compilação de obras feitas, elaboradas, principalmente, com base na Constituição. Como foi pensado na década de 60, o Código Civil de 2002 nasceu anacrônico e conservador. Por essa razão, o novo código também não promoveu a renovação do direito civil. O debate entre seus destinatários aconteceu apenas nessa época, e, quando da promulgação, não houve esforço parlamentar em rever o texto, mas somente em adequá-lo à Constituição de 1988. Além disso, o anteprojeto de Reale comprometia-se a incluir no novo código toda a legislação especial promulgada após 1916, portanto, não apresentou muitas inovações em relação à realidade do direito civil brasileiro do século XXI. O Código de 2002 não enfrenta, por exemplo, a rápida evolução social, que levanta questões relacionadas, principalmente, à internet e à genética. Apresentou, porém, inovações na parte geral em relação ao primeiro Código: o 17 tratamento dos direitos da personalidade, a previsão expressa do abuso do direito e a previsão de lesão contratual. Na parte especial, a maior inovação foi a unificação das regras sobre obrigações civis e mercantis, o que já era feito na prática, mas não havia sido codificado. 1.5 Constitucionalização do direito privado A expressão “constitucionalização do Direito Privado” é comumente utilizada pelo fato de importantes institutos do direito privado como a propriedade, a família e o contrato, terem, hoje, as suas vigas mestras assentadas na Constituição Federal, processo esse que contribuiu para a fragmentação do Direito Civil.Conforme salientam Cristiano Chaves de Faria e Nelson Rosenvald (2011, p. 12-13): Ao reunificar o sistema jurídico em seu eixo fundamental (vértice axiológico|), estabelecendo como princípios norteadores da República Federativa do Brasil a dignidade da pessoa humana (art. 1º, II), a solidariedade social (art. 3º) e a igualdade substancial (arts. 3º e 5º), além da erradicação da pobreza e redução das desigualdades sociais, promovendo o bem de todos (art. 3º, III e IV),a Lex Fundamentalis de 1988 realizou uma interpenetração do direito público e do direito privado, redefinindo os seus espaços, até então estanques e isolados. Tanto o direito público quanto o privado devem obediência aos princípios fundamentais constitucionais, que deixam de ser neutros visando ressaltar a prevalência do bem estar da pessoa humana. Sendo assim, tem-se o surgimento de uma nova disciplina, que passa a estudar o Direito Privado à luz das disposições constitucionais. O direito privado-constitucional está baseado numa visão unitária do sistema, em que ambos os ramos são interpretados isoladamente, mas dentro de um todo, mediante uma interação simbiótica entre eles. Conforme Gonçalves (2012, p.44), “tem-se como fonte primária do Direito Privado a Constituição Federal, realçando apenas a necessária releitura do Código Civil e das leis especiais à luz da Constituição, redefinindo as categorias jurídicas civilistas a partir dos fundamentos principiológicos constitucionais”. 2. DA PESSOA NATURAL O conceito de personalidade está intrinsicamente ligado ao de pessoa. “Todo aquele que nasce com vida torna-se pessoa, ou seja, adquire personalidade. Esta é, portanto, qualidade ou atributo do ser humano” (GONÇALVES, 2012, p.92-93). Pode ser definida como aptidão genérica para adquirir direitos e contrair obrigações ou deveres na ordem civil. É pressuposto para inserção e atuação da pessoa na ordem jurídica. A personalidade é, portanto, o conceito básico da ordem jurídica, que estende a todos os homens, consagrando-a na legislação civil e nos direitos constitucionais de vida, liberdade e igualdade. Todavia, nem sempre foi assim. No direito romano o escravo era tratado como coisa, sem faculdades de ser titular de direitos. Na relação jurídica, a sua situação era de objeto, não de sujeito. “O reconhecimento hoje, dessa qualidade a todo ser humano, representa, pois, uma 18 conquista a toda civilização jurídica” (GONÇALVES, 2012, p. 92), reconhecida pelo Código Civil de 2002, que estabelece no art. 1º que “toda pessoa” é capaz de direitos e deveres na ordem civil. 2.1 Conceito O Código Civil de 1916 prescrevia em seu artigo 2º que “Todo homem é capaz de direitos e obrigações na ordem civil”. A expressão ‘todo homem’ já era empregada em sentido amplo, garantindo a tutela da ordem jurídica a todos, independente de sexo, raça, cor, etnia ou nacionalidade. O título I do Livro I do Código Civil de 2002, concernente às pessoas, dispõe sobre as ‘pessoas naturais’, trazendo em seu artigo 1º uma redação distinta do artigo, que traz em sua redação que “Toda pessoa é capaz de direitos e deveres na ordem civil”. Sendo assim, a partir das alterações feitas, tem-se que, conforme reconhece a doutrina geral, “pessoa natural é o termo utilizado para fazer referência ao ser humano, com todos os predicados que integram sua individualidade”. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 2.2 Personalidade jurídica O artigo 2º do Código Civil prescreve: “A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro”. Conforme o exposto no referido dispositivo legal, tem- se o nascimento como o marco inicial da personalidade respeitando-se, porém, os direitos do nascituro. Lembrando-se que nascituro é aquele que foi concebido, mas ainda não nasceu. 19 Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: A respeito da situação jurídica do nascituro, existem três correntes doutrinárias: natalista, concepcionista e a da pesonalidade condicional. A teoria natalista, defendida por doutrinadores como Silvio Rodrigues, Caio Mário da Silva Pereira, Santiago Dantas, civilistas clássicos, sustenta que o nascituro não é pessoa humana, pois a personalidade começa do nascimento com vida. A teoria da personalidade condicional, que tem como expoentes Washington de Barros Monteiro, Serpa Lopes e Arnaldo Rzzardo, é muito semelhante à teoria natalista, defende que o nascituro é pessoa se nascer com vida. A teórica concepcionista, por outro lado, sustentada por Silmara Chinellato, Francisco Amaral, Maria Helena Diniz, Álvaro Villaça, Giselda Hinoraka, Pablo Stolze, Rodolfo Pamplona, Cristiano Chaves e Nelson Rosenvald defende que o nascituro é pessoa humana, tendo direitos da personalidade desde a concepção. O posicionamento adotado recentemente pelo Superior Tribunal de Justiça (BRASIL, 2015), entende-se pela prevalência da teoria concepcionista. Não obstante, no mesmo sentido tem-se o Enunciado 1, aprovado na I Jornada de Direito Civil, que dispõe: “A proteção que o Código defere ao nascituro alcança o natimorto no que concerne aos direitos da personalidade, tais como: nome, imagem e sepultura”. 2.3 Capacidades e incapacidades: o sujeito do direito A personalidade e a capacidade se completam. De nada valeria a personalidade sem a capacidade jurídica que se ajusta assim ao conteúdo da personalidade, na mesma e certa medida em que a utilização do direito integra a ideia de ser alguém titular dele. 20 No que tange a capacidade, tem-se um indivíduo pode ser considerado absolutamente incapaz, relativamente incapaz e capaz. Os absolutamente incapazes (art. 3º, CC) são os menores de dezesseis anos, sendo estes incapazes de exercer os atos da vida civil (BRASIL, 2015, on-line). Sendo assim, tem-se que os absolutamente incapazes devem ser representados, sob pena de nulidade absoluta do ato praticado (art. 166, I, CC). Já os relativamente incapazes, (artigo 4º, CC) são os maiores de 16 anos e menores de 18 anos, ébrios habituais e viciados tóxicos, pessoas que, por causa transitória ou definitiva, não puderem exprimir sua vontade e pródigos, que são aqueles que gastam de maneira destemperada seu patrimônio, podendo reduzi-los a penúria. Para os relativamente incapazes há o instituto da assistência, sob pena de nulidade relativa dos atos praticados (artigo 171, CC). 2.4 Emancipação A emancipação, é o Instituto pelo qual o direito declara um menor capaz. Conforme estabelece o artigo 5º do CC, a menoridade cessa aos dezoito anos completos, quando a pessoa fica habilitada a todos os atos da vida civil. No entanto, existem exceções, casos nas quais se cessa a incapacidade para menores, estes considerados então emancipados. Existem três tipos de emancipação. A legal, a voluntária e a judicial. A legal ocorre pelo casamento (a partir de 16 anos podem se casar os menores, mediante autorização dos pais), pelo exercício de emprego público efetivo, pela colação de grau em curso de ensino superior, pelo estabelecimento civil ou comercial, ou pela existência de relação de emprego, desde que, em função deles, o menor com dezesseis anos completos tenha economia própria. Além disso, tem- se a emancipação voluntária, que ocorre pela concessão dos pais, que deverá ser feita mediante instrumento público. Tem-se também a emancipação judicial, que ocorre pela sentença do juiz, sendo ouvido o tutor e se o menor tiver dezesseis anos completos É importante ressalvar que o emancipado continua menor, mas passa a ser um menor capaz. Com a emancipação se tem a antecipação dos efeitos da maioridade para data anterior aos 18 anos, somente para efeitos civis. 2.5 Domicílio e residência Conforme determina o artigo 70 do Código Civil, o domicílio da pessoa natural é o lugar onde ela estabelece a sua residência com ânimo definitivo. Percebem-se, então, dois elementos importantes na definição de domicílio: um material/objetivo, que é a residência, e outro psíquico/ subjetivo, que é a vontade de permanecer, ou, como colocado no Código Civil, ânimo definitivo. Na doutrina brasileira, o aspecto psíquico faz da residência um domicílio. 21 “No entanto, resta a dúvida, o que é considerado como ‘residência’? Residência é um elemento componente do conceito de domicílio, constituindo apenas estado de fato, corresponde a radicação de um indivíduo em um determinado lugar” (GONÇALVES, 2012, p. 154). Uma pessoa pode ter só um domicílioe mais de uma residência e é possível também que se tenha mais de um domicílio. O Código Civil de 2002 aceita o princípio da pluralidade de domicílios, conforme estabelece o artigo 71 do CC, retomando a tradição romana. A justificativa para esse princípio é o fato de que não há nenhuma impossibilidade material em que uma pessoa se desdobre por mais de uma residência e mais de um centro de atividades. Além disso, o Código Civil de 2002 introduziu o conceito de domicílio profissional, exposto no artigo 72, associando o conceito de residência definitiva com o centro de interesses. O CC também aceita que uma pessoa não tenha domicílio certo. Consoante com o artigo 73, aquele que não possui residência habitual ou empregue a vida em viagens, sem ponto central de negócios, terá ́por domicílio o lugar onde for encontrado. Existe, também, a possibilidade de mudança do domicílio, que pode ser voluntária (efetuada com arbítrio próprio) ou compulsória (decorre de imposição legal). No caso da mudança voluntária, o artigo 74 do CC traz dois requisitos: objetivo (transferência material) e subjetivo (comunicação às autoridades). 2.6 Ausência O instituto da ausência está exposto no artigo 22 do CC, que ocorre quando a pessoa desaparece fora do domicílio, sem deixar representação. Desaparecendo uma pessoa do seu domicílio sem dela haver notícia, se não houver deixado representante ou procurador a quem caiba administrar-lhe os bens, o juiz, a requerimento de qualquer interessado ou do Ministério Público, declarará a ausência, e nomear-lhe-á curador (BRASIL, 2002). 22 Figura 1 - Veja como funciona o instituto da ausência Fonte: Elaborada pela autora, 2019. #PraCegoVer: na imagem, vemos o funcionamento do instituto da ausência, que está representado por uma linha do tempo. Acima dessa linha do tempo, há o título “Sentença: após 180 dias da publicação”, que descreve as fases do instituto de ausência. Na primeira fase, chamada curadoria, ocorre, a partir do desaparecimento da pessoa, a nomeação de um curador, que passa a tomar as providências para administrar os bens de quem representa. Depois que o nome do curador é publicado em edital, tem-se até três anos para que o ausente em questão reapareça. Caso isso não aconteça, acontece a posse de bens aos herdeiros do ausente, que são representados pelo curador. Esse representante é quem passa, a partir de então, a administrar esses bens - esta fase, conforme a imagem, é chamada de sucessão provisória. Dá-se início, então, à terceira fase, chamada sucessão definitiva, que acontece quando passam dez anos da posse dos bens pelos herdeiros. O ausente, conforme consta na linha do tempo, tem até dez anos para voltar e recuperar seus bens. A primeira fase baseia-se na ação de qualquer interessado (cônjuge ou companheiro, pais e descendentes) de requerer a ausência perante a um juiz, nomeando-se curador. Com a nomeação do curador, este passará a tomar todas as providências para administrar os bens de quem representa. A curatela do ausente acontece em três fases: caracterização da ausência, sucessão provisória e sucessão definitiva. Após a nomeação do curador, o nome do ausente é publicado em edital e, passado um ano da publicação sem que se saiba do ausente, e não tendo comparecido seu procurador ou representante no prazo de três anos, poderão os interessados (BRASIL, 2012, on-line), conforme estabelece o artigo 26, do CC, requerer que se abra provisoriamente a sucessão, dando início à segunda etapa do processo. 23 A sentença que determinar a abertura da sucessão provisória somente produzirá efeito 180 dias após a publicação. O sucessor provisório difere do curador por administrar bens que no futuro serão seus. Aos cônjuges, descendentes e ascendentes cabem os frutos e rendimentos dos bens. Os demais sucessores provisórios devem capitalizar, em benefício do ausente, metade deles. Caso o ausente reapareça, cessam os privilegio do sucessor provisório. No caso do requerimento de ausência pelo MP, passado o prazo legal, sem que apareça qualquer interessado na sucessão, o MP promoverá a citação por edital dos possíveis herdeiros interessados. No caso da ausência destes, será nomeado curador e, em 10 anos, serão os bens incorporados ao Município, Distrito Federal, ou União. Decorridos dez anos do trânsito em julgado, ou quando o ausente completar 80 anos (se de cinco anos datam suas últimas notícias), os interessados podem requerer a sucessão definitiva, conforme estabelece os artigos 37 e 38 do CC, dando início à terceira fase do processo. Deferida a sucessão definitiva, os sucessores dispõem, livremente, dos bens recebidos. Caso esse sujeito volte antes de passados dez anos da abertura da sucessão definitiva, ele só recebe de volta o que for possível, vide artigo 39 do CC. Os herdeiros, neste caso, não deverão se desfazer de suas aquisições. Caso ele volte depois de vencido o prazo, não terá direito a nada. 2.7 Registro Civil, morte e ausência Conforme estabelece o artigo 6º do CC, a morte gera o fim da personalidade jurídica, salvo os direitos da personalidade do morto e o direito à imagem. A morte pode ser classificada como morte real ou morte presumida. A morte real é aquela considerada com o “corpo presente”, a morte é cerebral e não a coronária. Conforme alteração trazida pela Lei 13.484/17, o laudo médico tornou-se dispensável para o atestado de óbito. Já a morte presumida é aquela “sem corpo presente”, é uma dedução lógica feita pela lei ou pelo aplicador do direito, que parte de um fato conhecido para chegar no desconhecido. A morte presumida pode ocorrer sem declaração de ausência, como já exposto ou com a declaração de ausência. Conforme estabelece o artigo 7º do CC, poderá ser declarada a morte presumida sem declaração de ausência, caso se tenha o desaparecimento da pessoa, sendo extremamente provável a sua morte, pois estava em perigo de vida (exemplo: acidentes, desastres, catástrofes, inundações) ou caso, alguém desaparecido em campanha ou feito prisioneiro, não for encontrado até dois anos após o término da guerra. É importante ressaltar também que a morte pode acontecer em momento certo ou incerto. Pequenas diferenças, nesse caso, são irrelevantes para o direito. Há um problema, porém, quando há incerteza em relação ao momento da morte de duas ou mais pessoas com vínculos sucessórios, dado que os direitos de sucessão são executados de forma diferente. 24 FIQUE DE OLHO Pai morre um minuto antes do filho: nesse caso, o filho se torna herdeiro instantaneamente e depois, toda a herança do filho (inclusive acrescida pela herança do pai) é transferida para seus herdeiros (filhos e/ou cônjuges). Caso ocorra o contrário, ou seja, caso o filho morra antes do pai, sua herança é toda transferida para o cônjuge; o pai não recebe nada. Quando o pai morre, o filho não existe mais, e a herança é transferida para o avô. No caso de incerteza do momento de morte nesses casos, o CC Brasileiro adota a teoria da Comoriência, ou seja, presume-se que ambos morreram ao mesmo tempo, conforme estabelece o artigo 8º do CC. Sendo a morte real ou presumida, deverá ser registrada no registro civil de pessoas naturais o óbito, conforme determina o artigo 29 da Lei de Registros Públicos. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 25 FIQUE DE OLHO O artigo 4º, inciso III, do CC, determina que são relativamente incapazes pessoas que, por causa transitória ou definitiva, não puderem exprimir sua vontade. Nesse caso, tem-se um problema quando se trata de pessoas em coma profundo ou em estado vegetativo, pois ambas são relativamente incapazes. O PL 757/2015 visa solucionar esta questão. 26 • aprender que as fontes do direito civil se dividem em fontes formais e não formais. As fontes formais primárias são as normas jurídicas e as secundárias são aquelas aplicadas na falta da lei, quando a lei for omissa ou existir uma lacuna normativa; • compreender que as fontes não formais são: doutrina, jurisprudência,analogias, costumes e princípios gerais; • conhecer que o Direito Civil é, pois, o ramo do Direito Privado destinado a reger relações familiares, patrimoniais e obrigacionais; • identificar que os princípios basilares que norteiam o Direito Civil são: personalidade, autonomia da vontade, liberdade de estipulação negociar, propriedade individual, intangibilidade familiar, legitimidade da herança e do direito de testar e solidariedade social; • entender que a expressão “constitucionalização do Direito Privado” é comumente utilizada pelo fato de importantes institutos do direito privado como a propriedade, a família e o contrato, terem, hoje, as suas vigas mestras assentadas na Constituição Federal; • estudar que a personalidade é pressuposto para inserção e atuação da pessoa na ordem jurídica; • descobrir que a pessoa natural é o termo utilizado para fazer referência ao ser humano, com todos os predicados que integram sua individualidade; • conhecer que a personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro; • aprender que os absolutamente incapazes são os menores de dezesseis anos, sendo estes incapazes de exercer os atos da vida civil; • conhecer que os relativamente incapazes são os maiores de 16 anos e menores de 18 anos, ébrios habituais, viciados tóxicos, pessoas que, por causa transitória ou definitiva, não puderem exprimir sua vontade e pródigos, que são aqueles que gastam de maneira destemperada seu patrimônio, podendo reduzi-los à penúria; • estudar que a emancipação, é o Instituto pelo qual o direito declara um menor capaz; • compreender que ausência se caracteriza quando uma pessoa desaparece do seu domicilio, sem deixar representação. A curatela do ausente acontece em três fases: caracterização da ausência, sucessão provisória e sucessão definitiva; • assimilar que a morte gera o fim da personalidade jurídica, podendo ser presumida ou real. PARA RESUMIR BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 3 nov. 2019. BRASIL. Decreto-lei 4.657, de 4 de setembro de 1942. Lei de Introdução às normas de Direito Brasileiro. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/ Del4657compilado.htm. Acesso em: 02 nov. 2019. BRASIL. Lei n. 13.484, de 26 de setembro de 2017. Altera a Lei 6.015, de 31 de dezem- bro de 1973, que dispõe sobre os registros públicos. Disponível em: http://www.pla- nalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/L13484.htm. Acesso em: 4 nov. 2019. BRASIL. Lei n. 13.146, 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da pessoa com deficiência). Disponível em: http://www.pla- nalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm. Acesso em: 2 nov. 2019. BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del4657compilado.htm. Acesso em 02 nov. 2019. BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm. Acesso em: 3 nov. 2019. BRASIL. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/cci- vil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 3 nov. 2019. BRASIL. Lei n. 6.515, de 26 de dezembro de 1977. Regula os casos de dissolução da sociedade conjugal e do casamento, seus efeitos e respectivos processos, e dá outras providencias. Disponível em: http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/LEIS/L6515.htm. Acesso em: 4 nov. 2019. BRASIL. Lei n. 6.015, de 31 de dezembro de 1973. Dispõe sobre os registros públicos, e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/ L6015consolidado.htm. Acesso em: 4 nov. 2019. BRASIL. Lei n. 4.121, de agosto de 1962. Dispões sobre a situação jurídica da mulher casada. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1950-1969/L4121. htm. Acesso em: 4 nov. 2019. BRASIL. Projeto de Lei do Senado 757, de 2015. Autoria: senador Antonio Carlos Vala- dares (PSB/SE), senador Paulo Paim (PT/RS) e outros. Disponível em: https://www25. senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/124251. Acesso em: 4 nov. 2019. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial 399028 SP 2001/0147319-0. Recorrente: Antônio Nival Leonidas e outros. Recorrido: Companhia Brasileira de Trens Urbanos CBTU. Relator: Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira, Brasília, 26 fev. 2002, T4 - QUARTA TURMA, Data de Publicação: DJ 15.04.2002 p. 232 RSTJ v. 161 p. 395 RT v. 803 p. 193; STJ - AgRg no AgRg no AREsp: 150297 DF 2012/0041902-2, Relator: Ministro Sidnei Beneti, 19 fev. 2013, T3 - TERCEIRA TURMA, Data de Publicação: DJe 7 maio 2013; STJ - REsp: 1.487.089 - SP (2014/0199523-6), Relator: Ministro Marco Buzzi - QUARTA TURMA, julgado em 23 jun. 2015. DJe 28 out. 2015. DINIZ, M. H. Curso de Direito Civil Brasileiro: Teoria Geral do Direito Civil. 29 ed. São Paulo: Saraiva, 2012. FARIAS, C. C.; ROSENVALD, N. Direito civil: teoria geral. Rio de Janeiro: Lumen Juris Ltda, 2011. GONÇALVES, C. A. Direito Civil Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2012. LOPES, M. M. S. Curso de Direito Civil. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1995. MAZEAUD, H. E. L. et al. Leçons de droit civil. Paris: Montchrestien, 1994. PEREIRA, C. M. S. Instituições de direito civil, v. 1. São Paulo: Forense, 2018. VALADÃO, H. 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Uma empresa e um município, por exemplo, são considerados pessoas perante à lei. Sendo assim, tem-se dois grandes grupos, as pessoas naturais e as pessoas jurídicas. Nesta unidade, será trabalhado o instituto da pessoa jurídica. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 1.1 Conceito A razão de ser da pessoa jurídica está na necessidade ou conveniência de os indivíduos unirem esforços e utilizarem recursos coletivos para a realização de objetivos comuns, que transcendem as possibilidades individuais. Conforme os autores Arnoldo Wald e Francisco Amaral, essa constatação motivou a organização de pessoas e bens, com o reconhecimento do direito, que atribui personalidade ao grupo, distinta da de cada um de seus membros, passando este a atuar na vida jurídica com personalidade própria. Sendo assim, Carlos Alberto Gonçalves (2002) afirma que pessoas jurídicas são entidades, a que a lei confere personalidade, capacitando-as como sujeitos de direitos e obrigações. Segundo o autor, a principal característica é que essas entidades atuam na vida jurídica, com personalidade diversa da dos indivíduos que as compõem. A formação da pessoa jurídica exige uma pluralidade de pessoas ou de bens e uma finalidade específica (elementos de ordem material), bem como um ato constitutivo e respectivo registro em órgão competente (elementos de ordem formal). Veja os quatro requisitospara a constituição da pessoa jurídica: 1 Vontade humana criadora (intenção de criar uma entidade distinta da de seus membros. 32 2 Elaboração do ato constitutivo. 3 Registro do ato constitutivo no órgão competente. 4 Laicidade de seu objetivo. 1.2 Classificações As pessoas jurídicas podem ser classificadas como: pessoa jurídica de direito público externo ou interno, ou direito privado, conforme estabelece o artigo 40 do Código Civil (CC). As pessoas jurídicas de direito público interno (artigo 41, CC) são a União, os Estados, Distrito Federal, Municípios, territórios, as autarquias (inclusive as associações públicas) e as demais entidades de caráter público criadas por lei. Já as pessoas jurídicas de direito externo (artigo 42, CC) são os Estados estrangeiros e todas as pessoas que forem regidas pelo direito internacional público (ex. ONU, OEA). As pessoas jurídicas de direito privado (artigo 44, CC) são as associações, as sociedades, as fundações, as organizações religiosas, os partidos políticos, as Empresas Individuais de Responsabilidade Limitada. Veja abaixo mais sobre cada uma delas. Associações São entidades sem fins lucrativos, que buscam fins altruísticos, filantrópicos, educacionais (ex: APAE, Associação Brasileira de Letras). No caso das associações, o eventual lucro obtido é aplicado na manutenção da própria pessoa jurídica, e não dividido entre os associados. Sociedades São pessoas jurídicas de caráter associativo com fins lucrativos, sendo o lucro obtido dividido entre os sócios (ex: TAM). Fundações Têm caráter institucional e não têm fins lucrativos, tendo esta um patrimônio ligado a um fim para o qual se atribuiu a personalidade (ex: Fundação Roberto Marinho). 33 Organizações religiosas São, conforme estabelece o artigo 44, §1º, do CC, de livre criação e organização com relação à sua estruturação interna. Partidos políticos Conforme dispõe o § 3º, do art. 44, do CC, são organizados e funcionam conforme disposto em lei específica (Lei 9.096, de 19/09/1995). Eireli Criada pela Lei 12.441, em 2011, a Eireli (Empresa Individual de Responsabilidade Limitada) é constituída por uma única pessoa titular da totalidade do capital social. O titular não responderá com seus bens pessoais pelas dívidas da empresa. 1.3 Limites e desconsideração da personalidade jurídica O ordenamento jurídico confere às pessoas jurídicas personalidade distinta da de seus membros, tendo assim autonomia patrimonial. Todavia, este princípio possibilita que personalidade jurídica seja utilizada como instrumento para a prática de fraudes e abusos de direito contra credores, acarretando-lhes prejuízos (G ONÇALVES, 2012). Tendo em vista tais abusos, surgiu como reação, a teoria da desconsideração da personalidade jurídica. “Tal teoria permite que o juiz, em casos de fraude e de má-fé, desconsidere o princípio de que as pessoas jurídicas têm existência distinta da dos seus membros e os efeitos dessa autonomia, para atingir e vincular os bens particulares” (GONÇALVES, 2012, p. 236). Nesses casos, conforme esclarece Fábio Ulhoa Coelho (2009, p.40), o juiz pode “deixar de aplicar regras de separação patrimonial entre sociedade e sócio, ignorando a existência da pessoa jurídica num caso concreto, porque é necessário coibir a fraude perpetrada graças à manipulação de tais regras”. Conforme o autor, seria inviável coibir se respeitada a autonomia da sociedade, pois, ao desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade, a medida não desfaz o seu ato constitutivo e, dessa forma, não o invalida e nem importa a sua dissolução. “Trata apenas e rigorosamente, de suspensão episódica da eficácia desse ato. Quer dizer, a constituição da pessoa jurídica não produz efeitos apenas no caso em julgamento, permanecendo valida e inteiramente eficaz para todos os outros fins” (COELHO, 2009, p. 42). 34 FIQUE DE OLHO O instituto da desconsideração da personalidade jurídica se encontra especificado no art. 50, do CC. Em caso de abuso da personalidade jurídica caracterizado pelo desvio de finalidade, ou pela confusão patrimonial, pode o juiz decidir, a requerimento da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, que os efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens particulares dos administradores ou sócios da pessoa jurídica. Sobre a desconsideração da personalidade jurídica, existem duas doutrinas: Teoria maior A comprovação da fraude constitui requisitos para que o juiz possa ignorar a autonomia patrimonial das pessoas jurídicas. Teoria menor Considera que o simples prejuízo do credor é motivo suficiente para a des- consideração, não se preocupando então em verificar se houve ou não abu- so de personalidade. O STJ decidiu que “a teoria da desconsideração da personalidade jurídica, conquanto encontre amparo no direito positivo brasileiro, deve ser aplicada com cautela, diante da previsão da autonomia e existência de patrimônios distintos entre pessoas físicas e jurídicas”. O artigo 50 do CC, adota a teoria maior, apresentando então como requisitos para a desconsideração da personalidade jurídica o abuso da personalidade jurídica (ex: desvio de finalidade ou confusão patrimonial) e a existência de prejuízo ao credor. O instituto da desconsideração da personalidade jurídica também se encontra regulado pelo art. 28 do Código de Defesa do Consumidor (CDC), que estabelece que o juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando, em detrimento do consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder, infração da lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. A desconsideração também será efetivada quando houver falência, estado de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa jurídica, provocados por má administração. É acrescentado ainda pelo § 5°, que também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for, de alguma forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados aos consumidores. O instituto é ainda exposto no caso de atividades lesivas ao meio 35 ambiente, pela Lei 9.605/98, em seu artigo 4º, que determina que poderá ́ ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua personalidade for obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados à qualidade do meio ambiente. A desconsideração da personalidade jurídica pode ocorrer ainda na modalidade inversa, na qual os bens da pessoa jurídica respondem por dívidas dos sócios ou dos administradores, conforme estabelece o artigo 133 do CPC. 1.4 Registro Civil e extinção A existência legal das pessoas jurídicas de direito privado somente começa com o efetivo registro do ato constitutivo no órgão competente. O artigo 45 do CC determina que começa a existência legal das pessoas jurídicas de direito privado com a inscrição do ato constitutivo no respectivo registro, precedida, quando necessário, de autorização ou aprovação do Poder Executivo, averbando-se no registro todas as alterações por que passar o ato constitutivo (BRASIL, 2002). O registro social de uma sociedade empresária faz-se na Junta Comercial, que mantém o Registro Público de Empresas Mercantis. Os estatutos e os atos constitutivos das demais pessoas jurídicas de direito privado são registrados no Cartório de Registro Civil das Pessoas Jurídicas, conforme determina o artigo 1.150 do CC do Código Civil e artigo 114 e seguintes da Lei dos Registros Públicos (Lei 6.015/73). Vale ressaltar que a sociedade simples de advogados somente pode ser registrada na Ordem dos Advogados do Brasil, conforme os arts. 15 e 16, §3º da Lei n. 8.906. O artigo 46 do CC, indica os elementos que o registro deve conter: a denominação, os fins, a sede, o tempo de duração e o fundo social, quando houver; o nome e a individualização dos fundadores ou instituidores, e dos diretores; o modo por que se administra e representa, ativa e passivamente, judicial e extrajudicialmente; se o ato constitutivo é reformávelno tocante à administração, e de que modo; se os membros respondem, ou não, subsidiariamente, pelas obrigações sociais; as condições de extinção da pessoa jurídica e o destino do seu patrimônio, nesse caso. Já o procedimento do registro civil é determinado pela Lei dos Registros Públicos, em seu artigo 121. Para que seja realizado o registro devem ser apresentadas duas vias do estatuto, compromisso ou contrato, pelas quais se fará o registro mediante petição do representante legal da sociedade, lançando o oficial, nas duas vias, a competente certidão do registro, com o respectivo número de ordem, livro e folha. Uma das vias será entregue ao representante e a outra arquivada em cartório, rubricando o oficial as folhas em que estiver impresso o contrato, compromisso ou estatuto. 36 Diferente de como ocorre com a criação da pessoa jurídica de direito privado, que se inicia com o registro, o seu término, ou extinção, pode ocorrer por diversas causas. O processo de extinção da pessoa jurídica realiza-se pela dissolução e liquidação, podendo o ato de dissolução assumir quatro formas distintas, conforme a natureza e a origem. Convencional Ocorre nos casos em que se tem o consenso unânime dos sócios; por deliberação dos sócios, por maioria absoluta, na sociedade de prazo indeterminado; no caso de falta de pluralidade de sócios, não reconstituída no prazo de 180 dias; ou pelo vencimento do prazo de duração, nos casos de sociedade com prazo de existência. O artigo 1.028, II, CC, ainda traz a possibilidade de dissolução no caso de morte de um dos sócios, se os sócios remanescentes optarem pela dissolução, e o artigo 1.035, CC, apresenta a possibilidade de “outras causas de dissolução” previstas no contrato (ex. condição resolutiva). Legal Em razão de disposição legal determinante, como no caso de decretação de falência (Lei 11.101, de 9 de fevereiro de 2005) ou morte dos sócios (artigo 1.028, CC). Administrativa Quando as pessoas jurídicas dependem de autorização do Poder Público para funcionar e esta é cassada, seja por infração a disposição de ordem pública ou prática de atos contrários aos fins declarados em seu estatuto, seja por se tornar ilícita, impossível ou inútil a finalidade. Judicial A sociedade pode ser dissolvida judicialmente, a requerimento de qualquer dos sócios quando anulada sua constituição ou exaurindo o fim social, ou verificada sua inexequibilidade. Após a dissolução ou quando cassada a autorização para o funcionamento da pessoa jurídica, no processo de extinção, conforme estabelece o artigo 51, do CC, a pessoa jurídica subsistirá para fins de liquidação, até que esta se conclua. 37 1.5 Sociedade As sociedades são formadas por pessoas que, reciprocamente, se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício da atividade econômica e partilham, entre si, dos resultados, conforme estabelece o artigo 981, do CC, ou seja, são conjuntos de pessoas que se unem com fins lucrativos. Elas podem ser divididas em sociedades simples e sociedades empresariais. Sociedade simples São constituídas, em geral, por profissionais que atual em uma mesma área ou por prestadores de serviços técnicos e que tem fim econômico lucrativo (ex. clínicas médicas ou dentárias, escritórios de advocacia, instituição de ensino). Sociedades empresariais Também visam ao lucro, todavia, têm por objeto o exercício de atividade própria de empresário. Conforme estabelece o artigo 966, CC, considera-se empresário “quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou de serviços”. A sociedade adquire personalidade jurídica com a inscrição no registro próprio e, na forma da lei, dos seus atos constitutivos, consoante com o disposto no artigo 985, do CC. A partir da inscrição do ato constitutivo no respectivo registro, a sociedade passa a constituir uma pessoa jurídica de direito privado, conforme determina o artigo 44 do CC. 1.6 Fundação As fundações são um conjunto de bens arrecadados e afetados para uma finalidade específica. Sendo assim, as fundações constituem um acervo de bens, que recebe personalidade jurídica para a realização de fins determinados, de interesse público, de modo permanente e estável. Clovis Bevilaqua (2015, p. 117) sustenta que as fundações “consistem em complexos de bens dedicados à consecução de certos fins e, para esse feito, dotados de personalidade”. 38 FIQUE DE OLHO As fundações podem ser particulares ou públicas. As fundações públicas são instituídas pelo Estado, pertencendo seus bens ao patrimônio público, com destinação especial, regendo- se por normas próprias de direito administrativo (GONÇALVES, 2012, p. 228). Já as fundações particulares são reguladas pelo CC. Conforme estabelece o artigo 62, do CC, “Para criar uma fundação, o seu instituidor fará, por escritura pública ou testamento, dotação especial de bens livres, especificando o fim a que se destina, e declarando, se quiser, a maneira de administrá-la”. A fundação compõe-se de dois elementos, o patrimônio e o fim a que se destina, fim este que é estabelecido pelo instituidor e não pode ser lucrativo, mas social, de interesse público. As fundações somente poderão ser constituídas para os seguintes fins: • assistência social; • cultura, defesa e conservação do patrimônio histórico e artístico; • educação; • saúde; • segurança alimentar e nutricional; • defesa, preservação e conservação do meio ambiente e promoção do desenvolvimento sustentável; • pesquisa cientifica, desenvolvimento de tecnologias alternativas, modernização de sistemas de gestão, produção, e divulgação de informações e conhecimentos técnicos e científicos; • promoção étnica, da cidadania, da democracia e dos direitos humanos; • atividades religiosas. Sendo criada a fundação nos termos acima descritos, esta passa a ter personalidade jurídica, sendo pessoa jurídica de direito privado, nos termos do artigo 44, III, do CC. 39 2. DO OBJETO DO DIREITO Todo direito tem o seu objeto. Como o direito subjetivo é poder outorgado a um titular, requer um objeto. De acordo com Gonçalves (2012, p. 265), “objeto da relação jurídica é tudo o que se pode submeter ao poder dos sujeitos de direito, como instrumento de realização de suas finalidades jurídicas. Compreende os bens objeto dos direitos reais e também as ações humanas denominadas prestações”. 2.1 Dos bens e suas classificações “Juridicamente falando, o conceito de ‘coisas’ corresponde ao de ‘bens’, mas nem sempre há perfeita sincronização entre as duas expressões” (SCUTO, 1921, p. 291). Sobre o tema, sustenta Clóvis Beviláqua (2015, p. que a palavra coisa, ainda que, sob certas relações, corresponda, na técnica jurídica, ao termo bem, todavia dele se distingue. Há bens jurídicos, que não são coisas: a liberdade, a honra, a vida por exemplo. E, embora o vocábulo coisa seja, no domínio do direito, tomado no sentido mais ou menos amplo, podemos afirma que designa, mais particularmente, os bens que são, ou podem ser, objeto de direitos reais. Neste sentido dizemos, direito das coisas. Sendo assim, podemos conceituar os bens como todas as coisas materiais ou imateriais, suscetíveis de apropriação ou utilização econômica, por pessoas físicas ou jurídicas. O Código Civil disciplina, em seu Livro II, da Parte Geral, os bens, sob três capítulos e classificações diferentes: dos bens considerados em si mesmo, dos bens reciprocamente considerados e dos bens públicos. A primeira classificação, ‘dos bens considerados em si mesmo’, apresenta subclassificações, tendo-se: dos bens imóveis e móveis, dos bens fungíveis e consumíveis, dos bens divisíveis e dos bens singulares e coletivos. Bens móveis e imóveis Os bens imóveis são aqueles que não podem ser transportados de um lugar para outro sem perder o seu valor. Eles podem ser imóveis por natureza, abrangendo o solo e tudo aquilo que a ele é; imóveis por acessão artificial, que compreende tudo o homem incorpora permanentementeao solo; imóveis por acessão natural, que são as árvores e os frutos pendentes, bem como todos os acessórios; ou imóveis por determinação legal. Os bens móveis são considerados como tais por serem suscetíveis de remoção por uma força própria ou alheia, e, ao serem removidos, conservam seu valor. Os bens imóveis só podem ser adquiridos por procedimentos de direito público, enquanto que os bens móveis podem ser adquiridos pela simples entrega. 40 Bens fungíveis e infungíveis Bens fungíveis podem ser substituídos por outros da mesma espécie, com a mesma qualidade e quantidade, não sendo verdadeiramente importante a sua identidade concreta (artigo 85, CC). Os bens infungíveis não podem ser trocados por outros semelhantes, em detrimento de sua identidade e valor insubstituível. (ex: quadro da Monalisa). Bens consumíveis e inconsumíveis Os bens consumíveis são os bens móveis cujo uso importa destruição imediata da própria substância. São considerados inconsumíveis os bens que podem ser usados continuamente, ou seja, que permitem, a utilização continua, sem a destruição da substância. Bens divisíveis e indivisíveis O critério da divisibilidade para o direito, que se assenta sobre três fatores - a substância, o valor e o uso - é que a fragmentação respeite as qualidades essenciais do todo. Só podem ser tidos como bens divisíveis juridicamente as coisas que possam ser cindidas em partes, sem que percam a sua substância, sem que se reduza seu valor e sem que o seu uso próprio seja prejudicado. Se faltar alguma dessas características, a coisa é juridicamente tida como indivisível. Os bens indivisíveis, por outro lado, caracterizam- se pelo seu fracionamento resultar em sua desvalia econômica, ou seja, as partes resultantes perdem substância econômica. Ex.: apartamento, automóvel. Bens singulares e coletivos São singulares os bens que, embora reunidos, se consideram por si, independentemente dos demais. São singulares, portanto, quando considerados na sua individualidade, como cavalo, uma árvore. A árvore, é um bom exemplo de bem que pode ser singular em sua individualidade, ou coletivo, quando formando parte de um todo (floresta). Os bens coletivos são os agregados num todo. Podemos citar a biblioteca, a floresta, o rebanho. Após a análise dos bens em sua individualidade, o legislador muda o critério, classificando-os conforme a sua relação com os outros, no capítulo II, “dos bens reciprocamente considerados”, classificando-os como principais ou acessórios. Conforme estabelece o artigo 92, do CC, é principal o bem que existe sobre si, abstrata ou concretamente, e acessório o que a existência supõe a do principal. Os bens principais existem sobre si, funcionam sozinhos e têm uma utilidade. Já os bens acessórios dependem da existência de outro bem para atingirem seu objetivo; não têm autonomia. 41 Benfeitorias São obras ou despesas feitas no bem, com o fim de conservá-lo, melhorá-lo ou embelezá-lo. Art. 96, CC. Elas podem ser necessárias, quando tem por fim con- servar o bem ou evitar que ele se deteriore (Ex.: reconstrução de uma parede danificada; a reposição de peças para o regular funcionamento do automóvel); úteis, que são as que aumentam ou facilitam o uso do bem. Não são necessárias, mas agregam valor econômico ao bem (Ex.: ampliação do sistema de iluminação); e voluptuárias, que embelezam o bem, tem finalidade estética, sem agregar valor ao bem (Ex.: o jardim de uma casa). Frutos São as utilidades que a coisa periodicamente produz, sem desfalque da sua substân- cia. São proveitos econômicos que derivam da coisa, e não alteram a integridade, o valor ou utilidade do bem principal. Apesar de terem estreita relação com o bem principal (frutos pendentes), podem vir a adquirir autonomia (frutos colhidos ou percebidos). Ex.: frutos de uma árvore, juros de capital. Produtos São as partes que se destacam do bem principal, reduzindo proporcional e pro- gressivamente sua integridade e seu valor. Retiram-se do bem ao mesmo passo que diminuem de quantidade. São “frutos” que alteram a qualidade do bem principal (ex.: minerais). Pertenças São os bens que, não constituindo partes integrantes, se destina, de modo dura- douro, ao uso, ao serviço ou ao aformoseamento do outro (artigo 93, do CC) Por fim, tem-se a classificação quanto à titularidade do domínio, podendo ser os bens públicos ou particulares. Os bens públicos são de domínio nacional e perten- centes às pessoas de direito público interno (artigo 98, do CC). Os bens públicos são de domínio nacional e pertencentes às pessoas de direito público interno (artigo 98, CC). Os bens públicos, conforme disposto no artigo 99, CC, podem de três formas. Veja a seguir. Os bens de uso comum não podem sofrer limitações que os tornem privativos de pessoa física ou jurídica particular (ex. ruas, praças, etc.). Já os bens de uso especial são afetados ao desenvolvimento de atividades públicas, que podem sofrer restrição de ingresso, como os imóveis onde funcionam os órgãos públicos. Os bens dominicais, por sua vez, constituem patrimônio da entidade de direito público, como se fossem privado (ex. terreno da Marinha). 2.2 Patrimônio Patrimônio segundo a doutrina, é o complexo das relações jurídicas de uma pessoa, que tenham valor econômico. Beviláqua (2015, p. 153), nesse mesmo sentido sustenta assim, compreende-se no patrimônio, tanto os elementos ativos quanto passivos, isto é, os direitos 42 de ordem privada, economicamente apreciáveis e as dívidas. É a atividade econômica de uma pessoa, sob o seu aspecto jurídico ou a projeção econômica da personalidade civil. O patrimônio restringe-se aos bens avaliáveis em dinheiro. Conforme Gonçalves (2012), para a teoria clássica, o patrimônio é uma universalidade de direito unitário e indivisível, que se apresenta como projeção e continuação da personalidade. Já para a teoria realista (moderna ou de afetação), o patrimônio é formado apenas pelo ativo. Ele não é unitário e indivisível, mas formado de vários núcleos separados, conjuntos de bens destinados a fins específicos, como por exemplo, os bens reservados, a herança, a massa falimentar, etc. Gonçalves (2012, p. 271), destaca a importância da noção de patrimônio quando se observa que nela se baseia um princípio norteador do direito das obrigações: o patrimônio do devedor responde por suas dívidas. “É o patrimônio do devedor, com efeito, que responde por suas obrigações e que constitui a garantia geral dos credores, tenham elas se originado da prática de atos lícitos, como os contratos e as declarações unilaterais da vontade, ou de atos ilícitos”. 3. FATOS JURÍDICOS EM GERAL Fatos são acontecimentos, que não, necessariamente, são relevantes para o Direito. Já o fato jurídico é todo evento que tem repercussão no Direito, estabelecendo a criação, a modificação ou a extinção de relação jurídica. Conforme exemplifica Caio Mário Pereira (2018, p. 291), “a chuva que cai é um fato, que ocorre e continua a ocorrer, dentro da normal indiferença da vida jurídica, o que não quer dizer que, algumas vezes, este mesmo fato não repercuta no campo do direito, para estabelecer ou alterar situações jurídicas.” Sendo assim, tem-se que todo fato, para ser considerado jurídico, passa por um juízo de valoração. O ordenamento jurídico que regula a atividade humana prevê hipóteses de fatos que são juridicamente relevantes. O fato jurídico em sentido amplo é, portanto, todo acontecimento que o ordenamento jurídico considera relevante no campo do direito. Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 43 3.1 Fatos jurídicos Quando se estuda os fatos jurídicos, é necessário compreender alguns conceitos. Primeiramente, o fato jurídico, em sentido amplo, é qualquer fato que interessa ao direito, podendo ser natural ou humano. Os primeiros decorrem de simples manifestação da natureza, e os segundos da atividade humana. Já os fatos humanos podem ser divididos em lícitos e ilícitos. Os atos lícitos dividem-se