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A ÉTICA EM PSICANÁLISE 
AULA 6 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Giseli Cipriano Rodacoski 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Nesta etapa, destacaremos alguns pontos muito importantes: 
• Psicanálise e ciência; 
• Concepção de homem na psicanálise; 
• Ética da psicanálise; 
• Sacralidade do humano “O Homem Deus”; 
• Ensino “atravessado” e não reto da psicanálise; 
• Psicanálise e universidade. 
Os objetivos são delimitar o objeto de estudo em psicanálise, tanto no 
campo da clínica quanto na pesquisa, bem como situar a psicanálise no laço 
social, ou seja, como o discurso da psicanálise se sustenta diante de outros 
discursos. 
Com isso esperamos que o(a) leitor(a) possa ampliar a coerência entre o 
seu processo formativo e a ética da psicanálise. 
TEMA 1 – BREVE HISTÓRIA SOBRE AS VERDADES CIENTÍFICAS 
Durante toda a Antiguidade e Idade Média, e até enquanto durou a Santa 
Inquisição, as ciências naturais eram limitadas ao poder da Igreja especialmente 
quando se referia a procedimentos no corpo humano. Os médicos que em sua 
maioria eram cristãos, não podiam derramar o sangue dos pacientes, o que 
limitava procedimentos cirúrgicos, e não podiam dissecar cadáveres, o que 
limitava o estudo sobre a anatomia humana. O poder da ciência começou a 
disputar lugar com a igreja a partir do Renascimento, por volta do século XV, 
quando os médicos começaram a fazer cirurgias e assim, ampliaram o 
conhecimento em relação à anatomia e a fisiologia. Kickhöfel (2003) conta essa 
história em um artigo sobre a ética médica e destaca o médico André Vesálio, 
que publicou o livro “A organização do corpo humano” em 1543, considerado um 
marco para o surgimento da ciência moderna. 
O período seguinte, conhecido como Iluminismo (séculos XVII e XVIII), 
marca um século de luzes, que literalmente iluminou o conhecimento científico e 
mudou completamente a relação entre ciência e religião. A partir de então, houve 
um rápido avanço na medicina e no surgimento do que hoje chamamos de 
pesquisa com base em evidências. No livro “A História do Século XX pelas 
 
 
3 
descobertas da medicina” (Ujvari; Adoni, 2014) os autores contam histórias 
sobre descobertas científicas que foram determinantes para diminuir os riscos 
de infecção e aumentar o sucesso dos procedimentos invasivos. 
• 1731 - Fundada a Academia Real de Cirurgia na França. 
• 1846 – Primeira cirurgia com anestesia geral, em Harvard EUA. 
• 1860 a 1900 – Período de descobertas sobre técnicas de assepsia. 
Sigmund Freud participou desse período de dedicação aos experimentos 
e investigações científicas quando ainda era residente de medicina no Hospital 
Geral de Viena e estudou os efeitos cocaína, publicando em 1884 um artigo 
chamado Über Coca, na revista Therapie (Freud, 1884). Freud ambicionava 
descobrir algo novo que o tornasse famoso e o destacaria na comunidade 
científica da sua época. Freud acreditou ter descoberto na cocaína um remédio 
milagroso, anestésico e antidepressivo, mas logo que percebeu os efeitos 
iatrogênicos (efeitos adversos e indesejados), abandonou essa prescrição. 
(Gurfinkel, 2008). 
Faço essa apresentação inicial para caracterizar esse momento de 
inversão em que a ciência tomou à frente para trazer verdades indiscutíveis que 
melhoraram muito o tratamento de doenças. É indiscutível o valor da ciência! 
Mas como nos ensina a psicanálise, tudo tem seu preço. O prazer em excesso 
(gozo) implica em uma dor. Parte do que também nos constitui e nos determina 
não é acolhido claramente pela ciência. 
Em seu progresso, a ciência, apoiada em seu berço por Sigmund Freud, 
não demorou a ser um problema para o que ele mesmo tentou validar como 
científico: o inconsciente. A ciência avançou rapidamente, se apresentando 
como ciência para a humanidade, mas até hoje resiste em reconhecer o 
inconsciente como evidência científica. 
O filósofo contemporâneo André Comte-Sponville (2002, p.59) nos alerta 
que “há verdades não científicas e teorias científicas que descobriremos um dia 
não serem verdadeiras”. Com isso ele entende que não é um pleonasmo quando 
se usa a expressão “verdade científica” (título deste tópico), porque não se pode 
confundir conhecimento com ciência. Nem todo conhecimento é científico e isso 
acontece porque a ciência deixa de fora tudo o que não pode ser provado pelos 
seus métodos. 
 
 
4 
Estamos ainda em um momento histórico em que se discute o que é 
ciência, quais são os seus métodos e quem define quais são as evidências 
consideradas válidas. Os psicanalistas Marco Leite e Richard Couto (2023), 
identificaram mais de 120 artigos publicados nos últimos 10 anos em que a 
conclusão foi a de é possível comprovar evidência de resultado com a aplicação 
do método psicanalítico. No entanto, os autores apontam para um incentivo em 
financiamento para pesquisas que estudam as evidências dos medicamentos 
para o tratamento de sofrimentos mentais. 
Podemos perceber por essa breve apresentação, que a ciência avançou 
sim, mas em seu percurso, ainda que não assuma, dá pouco reconhecimento ao 
que não se apresenta como algo palpável, objetivo e material. 
Para Dunker (2023, p. 155) a psicanálise reconhece uma noção de 
realidade negativa: 
É isso que Freud viu com o conceito de inconsciente, ou seja, uma 
forma de negação da consciência que não corresponde à inexistência. 
É isso também que Lacan fez com a noção de Real, apreensível 
apenas em certas propriedades da realidade como a repetição, a 
deformação ou a subtração. Isso nos afasta da compreensão mais 
intuitiva da realidade, que costuma privilegiar o espaço como matéria 
tangível e palpável, dotada de forma empírica e sujeita a leis e 
causalidades. 
Entendemos o inconsciente como realidade negativa porque se trata de 
algo que existe, porém não se mostra de forma tão acessível quanto às funções 
da consciência que podem ser medidas, como por exemplo: o tempo de reação 
depois de um estímulo. Ao receberem o comando de apertar um botão quando 
perceberem um estímulo (visual ou sonoro) as pessoas apertam o botão em 
tempos diferentes e isso demonstra claramente as diferenças objetivas entre as 
suas funções mentais conscientes. Foi com experimentos como este que a 
psicologia surgiu, e é por isso que ela se diferencia da psicanálise. A psicologia 
estuda a parte consciente do psiquismo (realidade positiva, objetiva) e a 
psicanálise estuda a parte inconsciente do psiquismo (realidade negativa). O que 
não quer dizer que o inconsciente não existe, apenas que não se mostra aos 
métodos tradicionais quantitativos. 
Se houver honestidade no meio científico para validar tanto os métodos 
quantitativos quanto os qualitativos, tal como a ciência se define, vai terminar a 
dúvida se a psicanálise é ou não uma ciência. Como vemos, não é um problema 
da psicanálise e sim da ciência. Assim como Antígona, a psicanálise não 
renuncia ao inconsciente. Não deixará de defender a existência do inconsciente 
 
 
5 
para que seja considerada uma ciência. Esperamos que a ciência se desloque 
um pouco para longe dos interesses da indústria farmacêutica e possa incluir as 
manifestações do inconsciente e a cura pela fala como evidência científica. 
TEMA 2 – CONCEPÇÕES DE HOMEM 
Assim como acontecia entre os filósofos antes da psicanálise, não há 
consenso sobre a natureza do ser humano e o que determina o seu 
comportamento. Paralelamente aos primeiros estudos freudianos que deram 
origem à teoria psicanalítica, também teve início a psicologia como ciência. 
• 1879 – Nascimento da psicologia (pai: Wilhelm Wundt); 
• 1900 – Nascimento da psicanálise (pai: Sigmund Freud). 
São duas áreas de estudo que se dedicam ao estudo da mente, sendo 
que a psicologia seguiu investigando as funções mentais que favorecem a 
adaptação da pessoa ao meio ambiente, e a psicanálise dedicou-se ao estudo 
de processos mentais inconscientes, intrapsíquicos, que interferem nasfunções 
mentais adaptativas. 
A psicologia surge a partir de experimentos em laboratórios que mediam 
a intensidade das sensações, percepções espaciais, processos da atenção, 
sentimentos e afetos, processos de associação e memória. Teve grande 
relevância na época de revolução industrial, pois sistematizou o recrutamento e 
seleção de trabalhadores, separando os aptos dos inaptos (Morris, 2004). Ao 
longo de sua história a psicologia criou diversas linhas de pensamento (ou 
Escolas), dentre elas, uma aproximação com a psicanálise. Cada uma delas traz 
uma explicação sobre o que determina o comportamento humano e a partir de 
seus pressupostos definem seus métodos de tratamento, que são diferentes uns 
dos outros. Com base em Morris (2004) o quadro abaixo apresenta as principais 
escolas e seus pressupostos: 
Primeiras Escolas (linhas de pensamento) no século XIX: 
Estruturalismo 
Psicologia 
Experimental 
Focaram o seu estudo em investigar como se estruturava a mente 
humana, as características principais e específicas dos processos de 
consciência e as estruturas do sistema nervoso. Pesquisas 
experimentais em laboratório. 
Funcionalismo Focaram seu estudo no funcionamento dos processos mentais. 
Entendem que as pessoas se diferem pela maior ou menor capacidade 
de se adaptar ao contexto e esta capacidade será maior quanto melhor 
for o funcionamento dos processos mentais. Visão capacitista. 
 
 
6 
Escolas (linhas de pensamento) que surgiram no século XX: 
Behaviorismo / 
Comportamental 
Tem como premissa que o comportamento é sempre um produto do 
meio ambiente. Foco no treinamento de estímulo-resposta. Não 
considera o Inconsciente. 
Psicanálise Tem como premissa que o comportamento é influenciado pelo 
inconsciente e que este não se subordina ao treinamento estimulo-
resposta. 
Psicologia 
fenomenológica 
existencial 
Tem como objeto de estudo a consciência e nega qualquer 
determinismo. Acredita na liberdade de escolha. 
Psicologia da 
Gestalt 
O comportamento depende de como a realidade é percebida. O 
indivíduo tem tendência a enxergar padrões, de completar uma figura 
com base em algumas pistas. Estuda como as pessoas percebem a 
relação figura-fundo. 
Psicologia 
humanista 
Centrada na pessoa e não no comportamento. Os interesses e valores 
humanos são primordialmente importantes. A importância ou 
intensidade dada a um evento é sempre determinada pelo valor que a 
pessoa dá e não pelo evento em si. 
Psicologia 
cognitiva 
Ampliou o interesse da psicologia para além do comportamento. Estudo 
dos processos mentais no sentido mais amplo: pensar, sentir, aprender, 
recordar, tomar decisões, fazer julgamentos e outras funções mentais 
que podem ser desenvolvidas ao longo da vida. 
Escolas “emergentes”, que surgiram no final do século XX e início do séc. XXI 
Psicologia 
evolucionista 
Busca compreender as origens evolucionárias que orientam padrões de 
comportamento e processos mentais. 
Psicologia positiva Dedica-se ao estudo do modo de vida, com foco em estimular 
pensamentos positivos, busca de felicidade e bem-estar. Acredita que 
podemos escolher nossos pensamentos. 
Fonte: Elaborado com base em Morris, 2004. 
 Perceba que há uma variedade de ofertas de tratamentos “psi” e que se 
nem os profissionais têm clareza sobre a diferença de um para o outro, imagine 
os pacientes! Portanto, o analista precisa saber o lugar que deve ocupar quando 
se apresenta como psicanalista, afastando-se de qualquer outro discurso que 
estão alinhados com outras concepções de homem e outros métodos de 
tratamento. Não é coerente e nem ético misturar outra concepção de homem e 
outros métodos de tratamento, que não sejam aqueles defendidos pela 
psicanálise. 
 Um grande problema é quando o profissional usa a psicanálise como 
abordagem, e não como método, mas se apresentam como psicanalistas. Por 
exemplo: médicos, psicólogos, terapeutas integrativos, religiosos e coaches são 
os principais exemplos, que estudam psicanálise para melhor compreender o ser 
humano, continuam atuando na sua profissão de origem, mas se apresentam 
 
 
7 
como psicanalistas. Em algumas situações, durante um treinamento ou 
orientação de carreira chegam a interromper a atividade e dizer “agora que está 
falando é o psicanalista”, e desse lugar, orientam condutas e dão conselhos. 
 O contrário também acontece: quando estão atuando como psicanalistas 
e durante a sessão oferecem ou recomendam ao paciente o uso de alguma 
substância psicoativa na sessão (alucinógenos inclusive) com a intenção de 
“extrair conteúdo para a análise”. Se sentem autorizados a esta prescrição por 
terem tido uma ou duas disciplinas de farmacologia em seus cursos. Aqui já não 
atuam pelo discurso do analista e sim por um saber de mestre sobre o outro, que 
descaracteriza nossa identidade profissional. 
 Podemos entender que não há limites para o conhecimento, mas sim para 
o desempenho. Isso quer dizer que o fato de saber sobre farmacologia não 
habilita o psicanalista para a prescrição ou indução ao uso de substância 
psicoativa. Saber teoricamente sobre psicanálise não habilita para o exercício da 
psicanálise. Para se autorizar psicanalista o candidato precisa ter feito o percurso 
de estudos, análise pessoal e submeter sua prática à supervisão, além de se 
manter coerente ao uso de método psicanalítico. Para tanto, precisa renunciar a 
outros métodos de tratamento enquanto exerce a psicanálise. Manter coerência 
pressupõe assumir compromisso com a concepção de homem que a psicanálise 
tem e com os seus métodos de tratamento. 
TEMA 3 – O HOMEM DEUS 
As escolas da Psicologia fenomenológica existencial, Humanista, Gestalt 
já são linhas de pensamento na psicologia que, assim como a psicanálise e a 
filosofia, se debruçam sobre os sintomas da contemporaneidade. 
Validando o livre arbítrio, a liberdade de escolha, o não determinismo nem 
de processos inconscientes nem do meio ambiente, a psicologia existencial 
surgiu no contexto da Revolução Francesa. Naquele período histórico foi muito 
importante lutar por ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Foi um período 
de sobrevivência física e psíquica em que a humanidade segurou firmemente as 
rédeas de seu destino. Entendemos que essas linhas de pensamento foram 
importantes para o seu contexto sócio-histórico, mas que precisam ser 
constantemente problematizadas para que não criem em si um novo modo de 
alienação. 
 
 
8 
À posteriori é mais fácil reconhecer, mas a história precisa antes ser vivida 
para depois ser contada. Hoje estamos tentando entender o que estamos 
vivendo, com essas novas formas de laço social que não são mais hierárquicas 
(função edípica, paterna), mas sim horizontais (a referência são os pares) e 
autocentrada no seu próprio prazer em excesso (gozo). Observamos condições 
clínicas que nos parece hedonista, onde o imperativo é o gozo e o superego 
resiste em parar de querer gozar sempre mais. Lembrando aqui que o gozo é o 
prazer em excesso, quando traz em si um sofrimento, um custo, uma 
consequência chamada de angústia. E o sádico é o superego que mantêm um 
imperativo de querer sempre mais, ou seja, o superego não atua como uma lei 
de interdição, mas sim pelo contrário. 
A mais nova, a emergente Psicologia Positiva vem coroar essa 
emancipação do ser humano que quer só o prazer e busca respostas científicas 
sobre o que fazer com a angústia. A psicologia positiva foca em resultados e os 
ensina a domesticar pensamentos, de modo a escolher só pensamentos bons e 
postula que é possível alcançar a felicidade mediante tal esforço. 
Esse mal-estar já teorizado por Freud está relacionado com o 
distanciamento e enfraquecimento dos laços sociais com figuras de autoridade, 
representantes de uma ordem simbólica Nome-do-pai que poderia ser 
organizador simbólico. O filósofo e educador francês Luc Ferry diz que “as 
pessoas se dizem ainda católicas, mas submetemos mandamentos do Papa ao 
crivo humanista do exame crítico”. (2007, p. 56). O autor cita uma pesquisa 
realizada em 1994 na França em que as pessoas foram perguntadas: “Nas 
grandes decisões da sua vida, você considera, primeiramente, a sua consciência 
ou as posições da Igreja?”, 83% dos franceses responderam “a minha 
consciência”, 1%, somente, respondeu “as posições da Igreja”, e 9% 
responderam “as duas coisas”. 
Luc Ferry (2007) escreveu o livro intitulado: “O Homem Deus ou o sentido 
da vida” onde apresenta a ideia da humanização do divino, ou dito de outra 
forma, divinização do humano. Ao se nomear como livre, se emancipar das leis, 
escapar de todos os instintos, a grandeza do Homem Deus se torna a sua 
principal fraqueza. Se pela fé a humanidade tinha um Deus que os protegeria do 
Diabo, sem a fé ele não tem onde projetar, se não manter em si mesmo tanto o 
amor quanto o ódio/agressividade. O autor se define como ateu, mas confessa 
que seria muito mais confortável acreditar na existência de Deus, para diminuir 
 
 
9 
sua responsabilidade pessoal e intransferível de arcar com as consequências e 
reconhecer como seu os afetos ambivalentes, ou usando termos psicanalíticos: 
sustentar o resto de seu desejo insatisfeito, os excessos de prazer (gozo) porque 
somos não-todo. 
Essa expressão não-todo define a concepção de homem na psicanálise: 
Não todo satisfeito, não todo em equilíbrio, não todo consciente, não todo livre, 
não todo emancipado, não totalmente maduro. 
Luc Ferry (2007, p. 70-71) também faz considerações sobre a relação 
entre religião e psicanálise: 
O próprio Freud se expressou quanto a isso e seus argumentos são 
sem ambiguidade. Em O futuro de uma ilusão, os grandes 
monoteísmos foram assimilados a uma gigantesca neurose obsessiva 
que teria ganho as dimensões da humanidade inteira. Para além da 
letra dos textos do Pai fundador, as duas visões parecem 
irreconciliáveis, e isso por uma razão básica: toda religião supõe um 
momento de transcendência radical. O sagrado, em qualquer sentido 
que seja, remete a uma entidade exterior aos homens e, por isso, 
justamente, requer deles um ato de fé. Ora, a Psicanálise não admite 
qualquer outra exterioridade que não seja o inconsciente. Se, então, se 
puder ainda falar em transcendência (desse inconsciente com relação 
ao consciente), só poderá ser uma transcendência, se for possível 
assim se exprimir, interna à nossa subjetividade. Nessa perspectiva, o 
Diabo e Deus, não poderiam deixar de ser apenas fantasmas, 
projeções de conflitos inconscientes. 
 Sendo assim, a relação entre psicanálise e religião é a mesma que a da 
água com o fogo. No entanto, a psicanálise reconhece que Deus é uma 
representação de lei que tem o poder de organizar e interditar o gozo, assim 
como o pai edípico. A condição de Homem Deus afasta o sujeito dos laços 
sociais, ou melhor, os laços sociais são estabelecidos a partir de uma posição 
de não reconhecimento. Os efeitos dessa posição na cultura estão sendo 
percebidos nos últimos anos. 
Há uma sacralização do corpo humano: fecundação in vitro, pílula 
abortiva, inseminação artificial, clonagem, experiências com o embrião 
humano, doação de órgãos, manipulação e terapias genéticas, 
medicina preditiva: a imprensa não para de evocar os inextricáveis 
dramas existenciais, éticos e jurídicos a que nos submetem esses 
poderes inéditos do homem sobre o homem. (Ferry, 2007, p. 145) 
O fato de tais poderes estarem à inteira disposição do homem constitui, 
em si, um problema maior. Ele não somente é parte interessada, mas 
também juiz, por assim dizer, e não tem o controle, pelo menos por 
enquanto, dos efeitos possíveis de suas intervenções sobre sua própria 
“natureza”. (Ferry, 2007, p. 146) 
Sendo um livre arbítrio, o homem-deus precisa assumir a sua condição de 
não inocência diante do erro. O homem constrói o seu destino, as voltas com 
 
 
10 
seus próprios demônios, sem acreditar em um Deus ou pedir conselhos a um 
pai, o homem precisará dar conta desse desamparo decorrente do poder que ele 
mesmo reivindicou para si, sem que consiga se auto interditar. “O corpo humano, 
à imagem de Cristo, se tornou Templo. Mas a divindade que ele abriga parece 
inencontrável [...] e nesse contexto o ateu não se encontra menos assustado do 
que o crente” (Ferry, 2007, p. 147). 
TEMA 4 – ATRAVESSADO PELA PSICANÁLISE 
Saber qual é a posição que a psicanálise ocupa no laço social com a 
ciência e com os demais discursos de poder é importante para sustentar o 
discurso do analista. 
Quando se diz que alguém foi atravessado pela psicanálise, o que isso 
representa? A principal evidência é quando a pessoa (psicanalista) começa a 
ouvir tudo de maneira atravessada! Está atenta aos deslizes, aos enganos, aos 
discursos resistentes e principalmente está atenta para a subjetividade. Alguém 
atravessado pela psicanálise não repete discursos tais como: “Controle a si 
mesmo”, “Você precisa ser feliz para ter sucesso”; e muito menos se oferece 
profissionalmente como alguém que vai ajudar na busca pela felicidade ou para 
se livrar de emoções ruins. 
 Estar atravessado pela psicanálise é ter se permitido sentir na própria pele 
os efeitos do método psicanalítico. Representa que se passou por um processo 
em que precisou acontecer o que Lacan chamou de tempo lógico: Tempo de ver, 
tempo de compreender e tempo de concluir. Ou, como dito por Freud: tempo de 
recordar, repetir e elaborar. 
Esse processo de formação não se dá de maneira linear. Podemos 
relacionar a formação de um psicanalista com o que acontece ao longo de uma 
análise. No início tudo está disperso, com algumas relações que conseguimos 
estabelecer entre alguns elementos. Dunker (2023, p.23), se referindo ao 
processo de construção de casos clínicos, resgata o conceito de construção em 
Freud: 
Em “A etiologia da histeria”, um texto de 1898 que data do nascimento 
da psicanálise, Freud compara a construção com a montagem de um 
quebra-cabeça, quando, ao final de tentativas e ensaios, vamos 
adquirindo a certeza de que cada peça, cada fragmento, corresponde 
a um dos lugares que permanecem vazios, e, no caso de peças 
perdidas, os contornos dos lugares desocupados deixam entrever 
 
 
11 
quais peças estão faltando e que somente a reconstrução dessas 
peças em forma e conteúdo finaliza o trabalho. 
Freud se referia à construção de casos clínicos, mas consideramos 
relacionar também à formação do psicanalista, pois sabemos que o psicanalista 
se autoriza a ser psicanalista como resultado de um processo de construção que 
envolve a sustentação teórica e técnica do método, mas também a sustentação 
de um discurso atravessado pela psicanálise na sua própria vida e para isso é 
fundamental que a formação passe pelo processo de análise pessoal. As peças 
do quebra-cabeça são entendidas aqui como os conceitos psicanalíticos, que no 
início dos estudos não fazem sentido, demora um pouco para relacionar e 
articular, podemos montar pequenos pedaços em grupos separados no 
tabuleiro, até que o todo vai ficando mais claro. 
Atravessado pela psicanálise também significa que não é algo que seja 
reto, sequencial, objetivo, totalmente explicado e nem totalmente entendido. A 
psicanálise nos entra de maneira atravessada, tal como o inconsciente interfere 
na nossa vida. “As experiências do atravessado, essas do inconsciente, como 
poderíamos conceber o fato de que elas possam se transmitir de maneira direta, 
de uma maneira endireitada? O problema é que, uma vez que as tornamos 
endireitadas, perdemos o coração dessa experiência” (Wiener, 2013, p. 120). 
 A principal habilidade que um psicanalista precisa ter é justamente a de 
ouvir e analisar tudo de maneira atravessada. O saber da psicanálise não é um 
ato consciente da razão ou da racionalidade, mas uma apreensão por efeito de 
um entendimento conceitual que se habita. Escrevendo sobre isso Wiener (2013) 
diz quea transmissão da psicanálise é errante mesmo, que se dá de modo 
atravessado. Não se pode ensinar e aprender psicanálise de maneira 
organizada, racional, e esse é o risco de uma formação acadêmica. 
Não é desejado no perfil de um psicanalista que ele diga que sabe tudo 
de psicanálise. Para ser psicanalista é preciso se envolver como saber 
do sujeito do inconsciente, e “o inconsciente freudiano foi fundado em 
fenômenos que se dão de maneira atravessada: a língua que diz outra 
coisa — o ato que é falho — os esquecimentos que não se trata de 
simples erros que carregam em sua origem algo aleatório, e sim trata-se 
de algo atravessado, os equívocos que indicam uma outra lógica, a do 
inconsciente.” (Wiener, 2013, p. 120) 
Ao simplificar a psicanálise perde-se a sua essência, que é de ser 
complexa, assim como é o sujeito do inconsciente. Ao simplificar nos 
aproximamos do saber do mestre e da positividade tóxica que nos ensina a ser 
 
 
12 
feliz domesticando pensamentos. Isso é o avesso da ética psicanalítica que 
justamente dá lugar para a dor, dando espaço para a dimensão subjetiva. 
Em essência, a psicanálise mais afirma o que não sabe do que o que sabe 
sobre o outro. Pois essa é a proposta da psicanálise: atuar ativamente para se 
manter no lugar de vazio, que pode ser ocupado pelo conteúdo do analisante. 
Ser atravessado pela psicanálise é saber falar a partir do “lugar de suposto 
saber” (SsS) sem fazer uso dele. Ser atravessado pela psicanálise é saber que 
o que se busca se dá no processo e não na sessão e que não se alcança por 
completo, por isso consideramos que um psicanalista está sempre em formação 
e que esta é uma profissão impossível. Impossível no sentido de que não é 
possível dizer quando você termina de aprender. O que se tem ao final de um 
percurso formativo é uma condição suficiente para começar e uma postura ética 
de suportar essa condição de não saber tudo, não prometer cura, não impor seu 
saber ou seu modo de perceber a vida ao outro. 
TEMA 5 – PSICANÁLISE NA UNIVERSIDADE 
Freud sempre quis ensinar psicanálise na graduação, mesmo defendendo 
que não é a instituição de ensino que habilita um psicanalista, pois é o próprio 
psicanalista que autoriza a si mesmo quando se sente pronto o suficiente para 
começar. Em 1918 ele disse o seguinte: “A inclusão da psicanálise no currículo 
universitário seria, sem dúvida, olhada com satisfação por todo psicanalista” 
(Freud, 1918/1974, p. 216). 
A grande preocupação de Freud e dos psicanalistas pós-freudianos é em 
manter o caráter livre e laico da Psicanálise, por isso nunca foi desejado que ela 
fosse subordinada à medicina, psicologia ou a qualquer outro saber. Não teria 
sido bom se a psicanálise tivesse sido engolida na universidade pela medicina, 
deixando de fora todas as outras áreas. Para bancar o desejo da psicanálise em 
ser livre e leiga foi melhor não ser um curso acadêmico do que ter que ser uma 
parte da medicina. 
Outra preocupação era com o risco de a psicanálise ser simplificada para 
que coubesse em uma disciplina acadêmica, sendo transformada em perguntas 
e respostas e assim pudesse ser decorada. E isso de fato aconteceu nos 
Estados Unidos. O interesse americano pela psicanálise não se aprofundou. Foi 
o primeiro país a aceitar e divulgar a psicanálise incluíram a disciplina em muitos 
dos cursos de medicina daquele país, fizeram homenagens públicas a Freud 
 
 
13 
desde 1909, mas o próprio Freud concluiu que a popularização levou à aceitação 
superficial sem estudo sério. Em uma rara entrevista concedida em 1926 ele 
disse o seguinte: 
O interesse americano pela psicanálise não se aprofunda. A 
popularização leva à aceitação superficial sem estudo sério. As 
pessoas apenas repetem as frases que aprendem no teatro ou na 
imprensa. Pensam compreender algo da psicanálise porque brincam 
com seu jargão! Eu prefiro a ocupação intensa com a psicanálise, tal 
como ocorre nos centros europeus. (Viereck, 2020, p. 15) 
No caso brasileiro, a psicanálise começou a ser estudada dentro das 
universidades, nos cursos de graduação de medicina a partir de 1914 e na 
psicologia desde o primeiro curso criado em 1953. “As relações psicanálise e 
universidade parecem indissociáveis desde o seu início, fazendo parte indelével 
da história do movimento psicanalítico. A entrada da psicanálise no Brasil 
coincide com a criação da universidade brasileira” (Fontaneles; Coutinho; 2016, 
p. 185). 
No entanto, apesar de sabidamente leiga desde que assim foi 
recomendada por Freud, até o começo da década de 1980, somente a 
Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo aceitava membros não-
médicos (Oliveira, 2014, p. 71). Mas isso não impediu que psicólogos 
exercessem a psicanálise desde sempre no Brasil, mesmo não sendo aceitos 
pela grande maioria das Sociedades Psicanalíticas (Oliveira, 2014). 
Sabemos dos desafios de ensinar psicanálise na graduação, 
especialmente por não se tratar de um discurso racional. A psicanálise em sua 
essência é complexa e não se pode dar respostas simples para questões 
complexas. Não tem um protocolo (um passo a passo) sobre como conduzir as 
sessões, o que dizer, em que momento dizer. Sendo assim fica difícil sustentar 
um saber de mestre sobre a psicanálise, pois nunca se saberá tudo sobre a 
mente humana nem tem um manual sobre como manejar a transferência. Mas o 
desafio é justamente esse: estar preparado o suficiente para começar e fazer os 
ajustes finos nas supervisões da prática clínica depois de concluída a formação 
fundamental (de base). 
No tempo de Freud e de Lacan a metodologia de ensino era tradicional, 
caracterizada por: leia, copie, decore e repita. A psicanálise não podia ser 
ensinada dessa maneira. Por isso ela se manteve sendo transmitida de um a 
um, assim como fazem os artistas. Depois de termos sido atravessados pela 
pedagogia libertadora de Paulo Freire (1986), que muito nos orgulha ser 
 
 
14 
brasileiro, não só no Brasil, mas no mundo todo o modo de ensino deixou de ser 
pela repetição e passou a ser pela reflexão. Deste modo, sim, hoje é possível 
ensinar psicanálise com um discurso de mestre que se permite deixar algo em 
aberto, que assume não saber tudo, que estimula os alunos a fazerem análise e 
discussão crítica sobre o que aprendem. 
O que temos no Brasil atualmente é que a faculdade de psicologia habilita 
ao exercício da psicanálise mesmo tendo poucas disciplinas de psicanálise, já 
que a psicologia também precisa incluir na grade curricular outras correntes de 
pensamento. O primeiro curso de graduação para formação de psicanalistas, 
autorizado pelo MEC, foi criado em 2022 e este é um marco histórico para a 
psicanálise no Brasil. Com toda essa tradição brasileira de formar psicanalistas 
na universidade, o curso de graduação em psicanálise amplia o acesso à 
formação pela interiorização e capilaridade que a educação a distância tem, 
abrindo possibilidade para a formação de novos grupos de estudos e de prática 
clínica supervisionada. 
Dunker (2023, p. 10), relatando sua experiência como professor e 
supervisor de estágio no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo – 
USP, apresenta como se dá o percurso formativo a partir da vida acadêmica: 
Ao longo destes dez anos (2006 – 2016), desenvolvemos uma 
experiência que consistiu na construção de casos clínicos atendidos 
na Clínica Durval Marcondes do referido instituto. Como se sabe, ainda 
que não se tenha em conta a importância desta contingência para o 
desenvolvimento da psicanálise no Brasil, os cursos de Psicologia por 
aqui são habilitantes, ou seja, ao contrário de outros países, onde o 
curso de graduação é eminentemente teórico e nos quais a prática 
clínica depende de formações posteriores, baseadas em trainings, 
cursos de especialização e provas de habilitação, nossos alunos têm 
contato continuado com pacientes desde o terceiro ou quarto ano. Boa 
parte das supervisõesconsoantes às disciplinas práticas envolve 
orientação psicanalítica. 
Na experiência descrita por Dunker, os alunos calouros iniciam na clínica 
escola da faculdade os seus processos de análise pessoal (ou buscando seus 
analistas de forma independente), enquanto os veteranos iniciam sua prática 
clínica sendo supervisionados em grupos pelos professores psicanalistas. Como 
reconhece Dunker, há um grande contingente de psicanalistas no Brasil 
formados nos cursos de graduação em Psicologia. 
Com base no que foi acima exposto, mesmo que a recomendação de 
Freud fosse pela não obrigatoriedade de ser médico para ser psicanalista, 
durante muitos anos, ser psicanalista era quase sinônimo de ser psiquiatra. A 
 
 
15 
experiência brasileira com a psicanálise desde sempre é sustentada pela 
universidade que habilita psicanalistas em cursos de graduação e pós-
graduação. “Hoje, podemos afirmar que o fato de a psicanálise ser ensinada na 
universidade pode colaborar para a despatologização da psiquiatria, pautada 
pelos manuais de classificação das doenças mentais.” (Fernandes, 2017, p. 95). 
Freud considerava que a psicanálise é uma formação impossível, pois um 
psicanalista pode ser experiente, mas estará em constante formação e esse é 
um imperativo ético da psicanálise. 
NA PRÁTICA 
Assim como um quebra-cabeça a formação de um psicanalista acontece 
por meio do atravessamento de diversos dispositivos formativos, que podem ser 
resumidos em: estudo, análise pessoal e supervisão. 
A formação acontece de modo atravessado, pois não há um começo 
lógico para estudar de forma simples. Desde o início a psicanálise é complexa. 
Uma sequência possível é começar por Freud, depois Lacan, depois 
estudos contemporâneos, mas isso é só uma preferência. Cada um pode 
começar a estudar psicanálise de onde quiser. O saber sempre se dará por 
acumulação. Não será ao final de um conteúdo que o(a) leitor(a) terá a sensação 
que entendeu, mas sim depois de já ter ouvido e estudado aquele tema várias 
vezes, e especialmente depois de ter passado pela experiência de ser 
psicoanalisado. O conhecimento se dá no processo e a segurança se adquire na 
supervisão da prática clínica. Tal como um quebra-cabeça, que vai fazendo 
sentido da metade para o final, que é quando começa a tomar forma. 
FINALIZANDO 
A psicanálise é em si didática, pois por meio do processo de análise 
pessoal se aprende muito sobre o manejo do método, mas apenas de ser 
condição necessária, não é suficiente para tornar-se analista (Lacan, 1957). É 
preciso complementar com supervisão e estudos. E para o estudo, o contexto 
acadêmico tem se mostrado ser o mais acessível e democrático. 
 Para se manter leiga e laica a psicanálise precisa resistir à objetivação do 
saber imposto pelo discurso científico. Enquanto a ciência excluir a verdade do 
 
 
16 
inconsciente a psicanálise estará excluída também. Esse é um desejo que a 
psicanálise, enquanto ciência e profissão, leva às últimas consequências. 
 São muitos os discursos de poder que atravessam os seres humanos e 
com os quais estabelecemos laços sociais para nos manter membros de uma 
mesma cultura, no entanto, esses discursos de poder estão em constantes 
tensões, por exemplo: a religião, a ciência, a psiquiatria e o capitalismo são 
discursos imperativos que nos determinam o que fazer, como se comportar, o 
que sentir, o que consumir. A psicanálise se posiciona como operadora de fazer 
surgir um discurso do sujeito sobre ele mesmo. Por isso o psicanalista não pode 
se posicionar como mais um mestre, como alguém que sabe sobre o outro, mas 
sim, precisa se posicionar sustentando o discurso do analista (aquele que opera 
para fazer surgir no outro o saber que ele tem, mas não sabe que tem). 
 
 
 
17 
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