Prévia do material em texto
A ÉTICA EM PSICANÁLISE AULA 6 Profª Giseli Cipriano Rodacoski 2 CONVERSA INICIAL Nesta etapa, destacaremos alguns pontos muito importantes: • Psicanálise e ciência; • Concepção de homem na psicanálise; • Ética da psicanálise; • Sacralidade do humano “O Homem Deus”; • Ensino “atravessado” e não reto da psicanálise; • Psicanálise e universidade. Os objetivos são delimitar o objeto de estudo em psicanálise, tanto no campo da clínica quanto na pesquisa, bem como situar a psicanálise no laço social, ou seja, como o discurso da psicanálise se sustenta diante de outros discursos. Com isso esperamos que o(a) leitor(a) possa ampliar a coerência entre o seu processo formativo e a ética da psicanálise. TEMA 1 – BREVE HISTÓRIA SOBRE AS VERDADES CIENTÍFICAS Durante toda a Antiguidade e Idade Média, e até enquanto durou a Santa Inquisição, as ciências naturais eram limitadas ao poder da Igreja especialmente quando se referia a procedimentos no corpo humano. Os médicos que em sua maioria eram cristãos, não podiam derramar o sangue dos pacientes, o que limitava procedimentos cirúrgicos, e não podiam dissecar cadáveres, o que limitava o estudo sobre a anatomia humana. O poder da ciência começou a disputar lugar com a igreja a partir do Renascimento, por volta do século XV, quando os médicos começaram a fazer cirurgias e assim, ampliaram o conhecimento em relação à anatomia e a fisiologia. Kickhöfel (2003) conta essa história em um artigo sobre a ética médica e destaca o médico André Vesálio, que publicou o livro “A organização do corpo humano” em 1543, considerado um marco para o surgimento da ciência moderna. O período seguinte, conhecido como Iluminismo (séculos XVII e XVIII), marca um século de luzes, que literalmente iluminou o conhecimento científico e mudou completamente a relação entre ciência e religião. A partir de então, houve um rápido avanço na medicina e no surgimento do que hoje chamamos de pesquisa com base em evidências. No livro “A História do Século XX pelas 3 descobertas da medicina” (Ujvari; Adoni, 2014) os autores contam histórias sobre descobertas científicas que foram determinantes para diminuir os riscos de infecção e aumentar o sucesso dos procedimentos invasivos. • 1731 - Fundada a Academia Real de Cirurgia na França. • 1846 – Primeira cirurgia com anestesia geral, em Harvard EUA. • 1860 a 1900 – Período de descobertas sobre técnicas de assepsia. Sigmund Freud participou desse período de dedicação aos experimentos e investigações científicas quando ainda era residente de medicina no Hospital Geral de Viena e estudou os efeitos cocaína, publicando em 1884 um artigo chamado Über Coca, na revista Therapie (Freud, 1884). Freud ambicionava descobrir algo novo que o tornasse famoso e o destacaria na comunidade científica da sua época. Freud acreditou ter descoberto na cocaína um remédio milagroso, anestésico e antidepressivo, mas logo que percebeu os efeitos iatrogênicos (efeitos adversos e indesejados), abandonou essa prescrição. (Gurfinkel, 2008). Faço essa apresentação inicial para caracterizar esse momento de inversão em que a ciência tomou à frente para trazer verdades indiscutíveis que melhoraram muito o tratamento de doenças. É indiscutível o valor da ciência! Mas como nos ensina a psicanálise, tudo tem seu preço. O prazer em excesso (gozo) implica em uma dor. Parte do que também nos constitui e nos determina não é acolhido claramente pela ciência. Em seu progresso, a ciência, apoiada em seu berço por Sigmund Freud, não demorou a ser um problema para o que ele mesmo tentou validar como científico: o inconsciente. A ciência avançou rapidamente, se apresentando como ciência para a humanidade, mas até hoje resiste em reconhecer o inconsciente como evidência científica. O filósofo contemporâneo André Comte-Sponville (2002, p.59) nos alerta que “há verdades não científicas e teorias científicas que descobriremos um dia não serem verdadeiras”. Com isso ele entende que não é um pleonasmo quando se usa a expressão “verdade científica” (título deste tópico), porque não se pode confundir conhecimento com ciência. Nem todo conhecimento é científico e isso acontece porque a ciência deixa de fora tudo o que não pode ser provado pelos seus métodos. 4 Estamos ainda em um momento histórico em que se discute o que é ciência, quais são os seus métodos e quem define quais são as evidências consideradas válidas. Os psicanalistas Marco Leite e Richard Couto (2023), identificaram mais de 120 artigos publicados nos últimos 10 anos em que a conclusão foi a de é possível comprovar evidência de resultado com a aplicação do método psicanalítico. No entanto, os autores apontam para um incentivo em financiamento para pesquisas que estudam as evidências dos medicamentos para o tratamento de sofrimentos mentais. Podemos perceber por essa breve apresentação, que a ciência avançou sim, mas em seu percurso, ainda que não assuma, dá pouco reconhecimento ao que não se apresenta como algo palpável, objetivo e material. Para Dunker (2023, p. 155) a psicanálise reconhece uma noção de realidade negativa: É isso que Freud viu com o conceito de inconsciente, ou seja, uma forma de negação da consciência que não corresponde à inexistência. É isso também que Lacan fez com a noção de Real, apreensível apenas em certas propriedades da realidade como a repetição, a deformação ou a subtração. Isso nos afasta da compreensão mais intuitiva da realidade, que costuma privilegiar o espaço como matéria tangível e palpável, dotada de forma empírica e sujeita a leis e causalidades. Entendemos o inconsciente como realidade negativa porque se trata de algo que existe, porém não se mostra de forma tão acessível quanto às funções da consciência que podem ser medidas, como por exemplo: o tempo de reação depois de um estímulo. Ao receberem o comando de apertar um botão quando perceberem um estímulo (visual ou sonoro) as pessoas apertam o botão em tempos diferentes e isso demonstra claramente as diferenças objetivas entre as suas funções mentais conscientes. Foi com experimentos como este que a psicologia surgiu, e é por isso que ela se diferencia da psicanálise. A psicologia estuda a parte consciente do psiquismo (realidade positiva, objetiva) e a psicanálise estuda a parte inconsciente do psiquismo (realidade negativa). O que não quer dizer que o inconsciente não existe, apenas que não se mostra aos métodos tradicionais quantitativos. Se houver honestidade no meio científico para validar tanto os métodos quantitativos quanto os qualitativos, tal como a ciência se define, vai terminar a dúvida se a psicanálise é ou não uma ciência. Como vemos, não é um problema da psicanálise e sim da ciência. Assim como Antígona, a psicanálise não renuncia ao inconsciente. Não deixará de defender a existência do inconsciente 5 para que seja considerada uma ciência. Esperamos que a ciência se desloque um pouco para longe dos interesses da indústria farmacêutica e possa incluir as manifestações do inconsciente e a cura pela fala como evidência científica. TEMA 2 – CONCEPÇÕES DE HOMEM Assim como acontecia entre os filósofos antes da psicanálise, não há consenso sobre a natureza do ser humano e o que determina o seu comportamento. Paralelamente aos primeiros estudos freudianos que deram origem à teoria psicanalítica, também teve início a psicologia como ciência. • 1879 – Nascimento da psicologia (pai: Wilhelm Wundt); • 1900 – Nascimento da psicanálise (pai: Sigmund Freud). São duas áreas de estudo que se dedicam ao estudo da mente, sendo que a psicologia seguiu investigando as funções mentais que favorecem a adaptação da pessoa ao meio ambiente, e a psicanálise dedicou-se ao estudo de processos mentais inconscientes, intrapsíquicos, que interferem nasfunções mentais adaptativas. A psicologia surge a partir de experimentos em laboratórios que mediam a intensidade das sensações, percepções espaciais, processos da atenção, sentimentos e afetos, processos de associação e memória. Teve grande relevância na época de revolução industrial, pois sistematizou o recrutamento e seleção de trabalhadores, separando os aptos dos inaptos (Morris, 2004). Ao longo de sua história a psicologia criou diversas linhas de pensamento (ou Escolas), dentre elas, uma aproximação com a psicanálise. Cada uma delas traz uma explicação sobre o que determina o comportamento humano e a partir de seus pressupostos definem seus métodos de tratamento, que são diferentes uns dos outros. Com base em Morris (2004) o quadro abaixo apresenta as principais escolas e seus pressupostos: Primeiras Escolas (linhas de pensamento) no século XIX: Estruturalismo Psicologia Experimental Focaram o seu estudo em investigar como se estruturava a mente humana, as características principais e específicas dos processos de consciência e as estruturas do sistema nervoso. Pesquisas experimentais em laboratório. Funcionalismo Focaram seu estudo no funcionamento dos processos mentais. Entendem que as pessoas se diferem pela maior ou menor capacidade de se adaptar ao contexto e esta capacidade será maior quanto melhor for o funcionamento dos processos mentais. Visão capacitista. 6 Escolas (linhas de pensamento) que surgiram no século XX: Behaviorismo / Comportamental Tem como premissa que o comportamento é sempre um produto do meio ambiente. Foco no treinamento de estímulo-resposta. Não considera o Inconsciente. Psicanálise Tem como premissa que o comportamento é influenciado pelo inconsciente e que este não se subordina ao treinamento estimulo- resposta. Psicologia fenomenológica existencial Tem como objeto de estudo a consciência e nega qualquer determinismo. Acredita na liberdade de escolha. Psicologia da Gestalt O comportamento depende de como a realidade é percebida. O indivíduo tem tendência a enxergar padrões, de completar uma figura com base em algumas pistas. Estuda como as pessoas percebem a relação figura-fundo. Psicologia humanista Centrada na pessoa e não no comportamento. Os interesses e valores humanos são primordialmente importantes. A importância ou intensidade dada a um evento é sempre determinada pelo valor que a pessoa dá e não pelo evento em si. Psicologia cognitiva Ampliou o interesse da psicologia para além do comportamento. Estudo dos processos mentais no sentido mais amplo: pensar, sentir, aprender, recordar, tomar decisões, fazer julgamentos e outras funções mentais que podem ser desenvolvidas ao longo da vida. Escolas “emergentes”, que surgiram no final do século XX e início do séc. XXI Psicologia evolucionista Busca compreender as origens evolucionárias que orientam padrões de comportamento e processos mentais. Psicologia positiva Dedica-se ao estudo do modo de vida, com foco em estimular pensamentos positivos, busca de felicidade e bem-estar. Acredita que podemos escolher nossos pensamentos. Fonte: Elaborado com base em Morris, 2004. Perceba que há uma variedade de ofertas de tratamentos “psi” e que se nem os profissionais têm clareza sobre a diferença de um para o outro, imagine os pacientes! Portanto, o analista precisa saber o lugar que deve ocupar quando se apresenta como psicanalista, afastando-se de qualquer outro discurso que estão alinhados com outras concepções de homem e outros métodos de tratamento. Não é coerente e nem ético misturar outra concepção de homem e outros métodos de tratamento, que não sejam aqueles defendidos pela psicanálise. Um grande problema é quando o profissional usa a psicanálise como abordagem, e não como método, mas se apresentam como psicanalistas. Por exemplo: médicos, psicólogos, terapeutas integrativos, religiosos e coaches são os principais exemplos, que estudam psicanálise para melhor compreender o ser humano, continuam atuando na sua profissão de origem, mas se apresentam 7 como psicanalistas. Em algumas situações, durante um treinamento ou orientação de carreira chegam a interromper a atividade e dizer “agora que está falando é o psicanalista”, e desse lugar, orientam condutas e dão conselhos. O contrário também acontece: quando estão atuando como psicanalistas e durante a sessão oferecem ou recomendam ao paciente o uso de alguma substância psicoativa na sessão (alucinógenos inclusive) com a intenção de “extrair conteúdo para a análise”. Se sentem autorizados a esta prescrição por terem tido uma ou duas disciplinas de farmacologia em seus cursos. Aqui já não atuam pelo discurso do analista e sim por um saber de mestre sobre o outro, que descaracteriza nossa identidade profissional. Podemos entender que não há limites para o conhecimento, mas sim para o desempenho. Isso quer dizer que o fato de saber sobre farmacologia não habilita o psicanalista para a prescrição ou indução ao uso de substância psicoativa. Saber teoricamente sobre psicanálise não habilita para o exercício da psicanálise. Para se autorizar psicanalista o candidato precisa ter feito o percurso de estudos, análise pessoal e submeter sua prática à supervisão, além de se manter coerente ao uso de método psicanalítico. Para tanto, precisa renunciar a outros métodos de tratamento enquanto exerce a psicanálise. Manter coerência pressupõe assumir compromisso com a concepção de homem que a psicanálise tem e com os seus métodos de tratamento. TEMA 3 – O HOMEM DEUS As escolas da Psicologia fenomenológica existencial, Humanista, Gestalt já são linhas de pensamento na psicologia que, assim como a psicanálise e a filosofia, se debruçam sobre os sintomas da contemporaneidade. Validando o livre arbítrio, a liberdade de escolha, o não determinismo nem de processos inconscientes nem do meio ambiente, a psicologia existencial surgiu no contexto da Revolução Francesa. Naquele período histórico foi muito importante lutar por ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Foi um período de sobrevivência física e psíquica em que a humanidade segurou firmemente as rédeas de seu destino. Entendemos que essas linhas de pensamento foram importantes para o seu contexto sócio-histórico, mas que precisam ser constantemente problematizadas para que não criem em si um novo modo de alienação. 8 À posteriori é mais fácil reconhecer, mas a história precisa antes ser vivida para depois ser contada. Hoje estamos tentando entender o que estamos vivendo, com essas novas formas de laço social que não são mais hierárquicas (função edípica, paterna), mas sim horizontais (a referência são os pares) e autocentrada no seu próprio prazer em excesso (gozo). Observamos condições clínicas que nos parece hedonista, onde o imperativo é o gozo e o superego resiste em parar de querer gozar sempre mais. Lembrando aqui que o gozo é o prazer em excesso, quando traz em si um sofrimento, um custo, uma consequência chamada de angústia. E o sádico é o superego que mantêm um imperativo de querer sempre mais, ou seja, o superego não atua como uma lei de interdição, mas sim pelo contrário. A mais nova, a emergente Psicologia Positiva vem coroar essa emancipação do ser humano que quer só o prazer e busca respostas científicas sobre o que fazer com a angústia. A psicologia positiva foca em resultados e os ensina a domesticar pensamentos, de modo a escolher só pensamentos bons e postula que é possível alcançar a felicidade mediante tal esforço. Esse mal-estar já teorizado por Freud está relacionado com o distanciamento e enfraquecimento dos laços sociais com figuras de autoridade, representantes de uma ordem simbólica Nome-do-pai que poderia ser organizador simbólico. O filósofo e educador francês Luc Ferry diz que “as pessoas se dizem ainda católicas, mas submetemos mandamentos do Papa ao crivo humanista do exame crítico”. (2007, p. 56). O autor cita uma pesquisa realizada em 1994 na França em que as pessoas foram perguntadas: “Nas grandes decisões da sua vida, você considera, primeiramente, a sua consciência ou as posições da Igreja?”, 83% dos franceses responderam “a minha consciência”, 1%, somente, respondeu “as posições da Igreja”, e 9% responderam “as duas coisas”. Luc Ferry (2007) escreveu o livro intitulado: “O Homem Deus ou o sentido da vida” onde apresenta a ideia da humanização do divino, ou dito de outra forma, divinização do humano. Ao se nomear como livre, se emancipar das leis, escapar de todos os instintos, a grandeza do Homem Deus se torna a sua principal fraqueza. Se pela fé a humanidade tinha um Deus que os protegeria do Diabo, sem a fé ele não tem onde projetar, se não manter em si mesmo tanto o amor quanto o ódio/agressividade. O autor se define como ateu, mas confessa que seria muito mais confortável acreditar na existência de Deus, para diminuir 9 sua responsabilidade pessoal e intransferível de arcar com as consequências e reconhecer como seu os afetos ambivalentes, ou usando termos psicanalíticos: sustentar o resto de seu desejo insatisfeito, os excessos de prazer (gozo) porque somos não-todo. Essa expressão não-todo define a concepção de homem na psicanálise: Não todo satisfeito, não todo em equilíbrio, não todo consciente, não todo livre, não todo emancipado, não totalmente maduro. Luc Ferry (2007, p. 70-71) também faz considerações sobre a relação entre religião e psicanálise: O próprio Freud se expressou quanto a isso e seus argumentos são sem ambiguidade. Em O futuro de uma ilusão, os grandes monoteísmos foram assimilados a uma gigantesca neurose obsessiva que teria ganho as dimensões da humanidade inteira. Para além da letra dos textos do Pai fundador, as duas visões parecem irreconciliáveis, e isso por uma razão básica: toda religião supõe um momento de transcendência radical. O sagrado, em qualquer sentido que seja, remete a uma entidade exterior aos homens e, por isso, justamente, requer deles um ato de fé. Ora, a Psicanálise não admite qualquer outra exterioridade que não seja o inconsciente. Se, então, se puder ainda falar em transcendência (desse inconsciente com relação ao consciente), só poderá ser uma transcendência, se for possível assim se exprimir, interna à nossa subjetividade. Nessa perspectiva, o Diabo e Deus, não poderiam deixar de ser apenas fantasmas, projeções de conflitos inconscientes. Sendo assim, a relação entre psicanálise e religião é a mesma que a da água com o fogo. No entanto, a psicanálise reconhece que Deus é uma representação de lei que tem o poder de organizar e interditar o gozo, assim como o pai edípico. A condição de Homem Deus afasta o sujeito dos laços sociais, ou melhor, os laços sociais são estabelecidos a partir de uma posição de não reconhecimento. Os efeitos dessa posição na cultura estão sendo percebidos nos últimos anos. Há uma sacralização do corpo humano: fecundação in vitro, pílula abortiva, inseminação artificial, clonagem, experiências com o embrião humano, doação de órgãos, manipulação e terapias genéticas, medicina preditiva: a imprensa não para de evocar os inextricáveis dramas existenciais, éticos e jurídicos a que nos submetem esses poderes inéditos do homem sobre o homem. (Ferry, 2007, p. 145) O fato de tais poderes estarem à inteira disposição do homem constitui, em si, um problema maior. Ele não somente é parte interessada, mas também juiz, por assim dizer, e não tem o controle, pelo menos por enquanto, dos efeitos possíveis de suas intervenções sobre sua própria “natureza”. (Ferry, 2007, p. 146) Sendo um livre arbítrio, o homem-deus precisa assumir a sua condição de não inocência diante do erro. O homem constrói o seu destino, as voltas com 10 seus próprios demônios, sem acreditar em um Deus ou pedir conselhos a um pai, o homem precisará dar conta desse desamparo decorrente do poder que ele mesmo reivindicou para si, sem que consiga se auto interditar. “O corpo humano, à imagem de Cristo, se tornou Templo. Mas a divindade que ele abriga parece inencontrável [...] e nesse contexto o ateu não se encontra menos assustado do que o crente” (Ferry, 2007, p. 147). TEMA 4 – ATRAVESSADO PELA PSICANÁLISE Saber qual é a posição que a psicanálise ocupa no laço social com a ciência e com os demais discursos de poder é importante para sustentar o discurso do analista. Quando se diz que alguém foi atravessado pela psicanálise, o que isso representa? A principal evidência é quando a pessoa (psicanalista) começa a ouvir tudo de maneira atravessada! Está atenta aos deslizes, aos enganos, aos discursos resistentes e principalmente está atenta para a subjetividade. Alguém atravessado pela psicanálise não repete discursos tais como: “Controle a si mesmo”, “Você precisa ser feliz para ter sucesso”; e muito menos se oferece profissionalmente como alguém que vai ajudar na busca pela felicidade ou para se livrar de emoções ruins. Estar atravessado pela psicanálise é ter se permitido sentir na própria pele os efeitos do método psicanalítico. Representa que se passou por um processo em que precisou acontecer o que Lacan chamou de tempo lógico: Tempo de ver, tempo de compreender e tempo de concluir. Ou, como dito por Freud: tempo de recordar, repetir e elaborar. Esse processo de formação não se dá de maneira linear. Podemos relacionar a formação de um psicanalista com o que acontece ao longo de uma análise. No início tudo está disperso, com algumas relações que conseguimos estabelecer entre alguns elementos. Dunker (2023, p.23), se referindo ao processo de construção de casos clínicos, resgata o conceito de construção em Freud: Em “A etiologia da histeria”, um texto de 1898 que data do nascimento da psicanálise, Freud compara a construção com a montagem de um quebra-cabeça, quando, ao final de tentativas e ensaios, vamos adquirindo a certeza de que cada peça, cada fragmento, corresponde a um dos lugares que permanecem vazios, e, no caso de peças perdidas, os contornos dos lugares desocupados deixam entrever 11 quais peças estão faltando e que somente a reconstrução dessas peças em forma e conteúdo finaliza o trabalho. Freud se referia à construção de casos clínicos, mas consideramos relacionar também à formação do psicanalista, pois sabemos que o psicanalista se autoriza a ser psicanalista como resultado de um processo de construção que envolve a sustentação teórica e técnica do método, mas também a sustentação de um discurso atravessado pela psicanálise na sua própria vida e para isso é fundamental que a formação passe pelo processo de análise pessoal. As peças do quebra-cabeça são entendidas aqui como os conceitos psicanalíticos, que no início dos estudos não fazem sentido, demora um pouco para relacionar e articular, podemos montar pequenos pedaços em grupos separados no tabuleiro, até que o todo vai ficando mais claro. Atravessado pela psicanálise também significa que não é algo que seja reto, sequencial, objetivo, totalmente explicado e nem totalmente entendido. A psicanálise nos entra de maneira atravessada, tal como o inconsciente interfere na nossa vida. “As experiências do atravessado, essas do inconsciente, como poderíamos conceber o fato de que elas possam se transmitir de maneira direta, de uma maneira endireitada? O problema é que, uma vez que as tornamos endireitadas, perdemos o coração dessa experiência” (Wiener, 2013, p. 120). A principal habilidade que um psicanalista precisa ter é justamente a de ouvir e analisar tudo de maneira atravessada. O saber da psicanálise não é um ato consciente da razão ou da racionalidade, mas uma apreensão por efeito de um entendimento conceitual que se habita. Escrevendo sobre isso Wiener (2013) diz quea transmissão da psicanálise é errante mesmo, que se dá de modo atravessado. Não se pode ensinar e aprender psicanálise de maneira organizada, racional, e esse é o risco de uma formação acadêmica. Não é desejado no perfil de um psicanalista que ele diga que sabe tudo de psicanálise. Para ser psicanalista é preciso se envolver como saber do sujeito do inconsciente, e “o inconsciente freudiano foi fundado em fenômenos que se dão de maneira atravessada: a língua que diz outra coisa — o ato que é falho — os esquecimentos que não se trata de simples erros que carregam em sua origem algo aleatório, e sim trata-se de algo atravessado, os equívocos que indicam uma outra lógica, a do inconsciente.” (Wiener, 2013, p. 120) Ao simplificar a psicanálise perde-se a sua essência, que é de ser complexa, assim como é o sujeito do inconsciente. Ao simplificar nos aproximamos do saber do mestre e da positividade tóxica que nos ensina a ser 12 feliz domesticando pensamentos. Isso é o avesso da ética psicanalítica que justamente dá lugar para a dor, dando espaço para a dimensão subjetiva. Em essência, a psicanálise mais afirma o que não sabe do que o que sabe sobre o outro. Pois essa é a proposta da psicanálise: atuar ativamente para se manter no lugar de vazio, que pode ser ocupado pelo conteúdo do analisante. Ser atravessado pela psicanálise é saber falar a partir do “lugar de suposto saber” (SsS) sem fazer uso dele. Ser atravessado pela psicanálise é saber que o que se busca se dá no processo e não na sessão e que não se alcança por completo, por isso consideramos que um psicanalista está sempre em formação e que esta é uma profissão impossível. Impossível no sentido de que não é possível dizer quando você termina de aprender. O que se tem ao final de um percurso formativo é uma condição suficiente para começar e uma postura ética de suportar essa condição de não saber tudo, não prometer cura, não impor seu saber ou seu modo de perceber a vida ao outro. TEMA 5 – PSICANÁLISE NA UNIVERSIDADE Freud sempre quis ensinar psicanálise na graduação, mesmo defendendo que não é a instituição de ensino que habilita um psicanalista, pois é o próprio psicanalista que autoriza a si mesmo quando se sente pronto o suficiente para começar. Em 1918 ele disse o seguinte: “A inclusão da psicanálise no currículo universitário seria, sem dúvida, olhada com satisfação por todo psicanalista” (Freud, 1918/1974, p. 216). A grande preocupação de Freud e dos psicanalistas pós-freudianos é em manter o caráter livre e laico da Psicanálise, por isso nunca foi desejado que ela fosse subordinada à medicina, psicologia ou a qualquer outro saber. Não teria sido bom se a psicanálise tivesse sido engolida na universidade pela medicina, deixando de fora todas as outras áreas. Para bancar o desejo da psicanálise em ser livre e leiga foi melhor não ser um curso acadêmico do que ter que ser uma parte da medicina. Outra preocupação era com o risco de a psicanálise ser simplificada para que coubesse em uma disciplina acadêmica, sendo transformada em perguntas e respostas e assim pudesse ser decorada. E isso de fato aconteceu nos Estados Unidos. O interesse americano pela psicanálise não se aprofundou. Foi o primeiro país a aceitar e divulgar a psicanálise incluíram a disciplina em muitos dos cursos de medicina daquele país, fizeram homenagens públicas a Freud 13 desde 1909, mas o próprio Freud concluiu que a popularização levou à aceitação superficial sem estudo sério. Em uma rara entrevista concedida em 1926 ele disse o seguinte: O interesse americano pela psicanálise não se aprofunda. A popularização leva à aceitação superficial sem estudo sério. As pessoas apenas repetem as frases que aprendem no teatro ou na imprensa. Pensam compreender algo da psicanálise porque brincam com seu jargão! Eu prefiro a ocupação intensa com a psicanálise, tal como ocorre nos centros europeus. (Viereck, 2020, p. 15) No caso brasileiro, a psicanálise começou a ser estudada dentro das universidades, nos cursos de graduação de medicina a partir de 1914 e na psicologia desde o primeiro curso criado em 1953. “As relações psicanálise e universidade parecem indissociáveis desde o seu início, fazendo parte indelével da história do movimento psicanalítico. A entrada da psicanálise no Brasil coincide com a criação da universidade brasileira” (Fontaneles; Coutinho; 2016, p. 185). No entanto, apesar de sabidamente leiga desde que assim foi recomendada por Freud, até o começo da década de 1980, somente a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo aceitava membros não- médicos (Oliveira, 2014, p. 71). Mas isso não impediu que psicólogos exercessem a psicanálise desde sempre no Brasil, mesmo não sendo aceitos pela grande maioria das Sociedades Psicanalíticas (Oliveira, 2014). Sabemos dos desafios de ensinar psicanálise na graduação, especialmente por não se tratar de um discurso racional. A psicanálise em sua essência é complexa e não se pode dar respostas simples para questões complexas. Não tem um protocolo (um passo a passo) sobre como conduzir as sessões, o que dizer, em que momento dizer. Sendo assim fica difícil sustentar um saber de mestre sobre a psicanálise, pois nunca se saberá tudo sobre a mente humana nem tem um manual sobre como manejar a transferência. Mas o desafio é justamente esse: estar preparado o suficiente para começar e fazer os ajustes finos nas supervisões da prática clínica depois de concluída a formação fundamental (de base). No tempo de Freud e de Lacan a metodologia de ensino era tradicional, caracterizada por: leia, copie, decore e repita. A psicanálise não podia ser ensinada dessa maneira. Por isso ela se manteve sendo transmitida de um a um, assim como fazem os artistas. Depois de termos sido atravessados pela pedagogia libertadora de Paulo Freire (1986), que muito nos orgulha ser 14 brasileiro, não só no Brasil, mas no mundo todo o modo de ensino deixou de ser pela repetição e passou a ser pela reflexão. Deste modo, sim, hoje é possível ensinar psicanálise com um discurso de mestre que se permite deixar algo em aberto, que assume não saber tudo, que estimula os alunos a fazerem análise e discussão crítica sobre o que aprendem. O que temos no Brasil atualmente é que a faculdade de psicologia habilita ao exercício da psicanálise mesmo tendo poucas disciplinas de psicanálise, já que a psicologia também precisa incluir na grade curricular outras correntes de pensamento. O primeiro curso de graduação para formação de psicanalistas, autorizado pelo MEC, foi criado em 2022 e este é um marco histórico para a psicanálise no Brasil. Com toda essa tradição brasileira de formar psicanalistas na universidade, o curso de graduação em psicanálise amplia o acesso à formação pela interiorização e capilaridade que a educação a distância tem, abrindo possibilidade para a formação de novos grupos de estudos e de prática clínica supervisionada. Dunker (2023, p. 10), relatando sua experiência como professor e supervisor de estágio no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo – USP, apresenta como se dá o percurso formativo a partir da vida acadêmica: Ao longo destes dez anos (2006 – 2016), desenvolvemos uma experiência que consistiu na construção de casos clínicos atendidos na Clínica Durval Marcondes do referido instituto. Como se sabe, ainda que não se tenha em conta a importância desta contingência para o desenvolvimento da psicanálise no Brasil, os cursos de Psicologia por aqui são habilitantes, ou seja, ao contrário de outros países, onde o curso de graduação é eminentemente teórico e nos quais a prática clínica depende de formações posteriores, baseadas em trainings, cursos de especialização e provas de habilitação, nossos alunos têm contato continuado com pacientes desde o terceiro ou quarto ano. Boa parte das supervisõesconsoantes às disciplinas práticas envolve orientação psicanalítica. Na experiência descrita por Dunker, os alunos calouros iniciam na clínica escola da faculdade os seus processos de análise pessoal (ou buscando seus analistas de forma independente), enquanto os veteranos iniciam sua prática clínica sendo supervisionados em grupos pelos professores psicanalistas. Como reconhece Dunker, há um grande contingente de psicanalistas no Brasil formados nos cursos de graduação em Psicologia. Com base no que foi acima exposto, mesmo que a recomendação de Freud fosse pela não obrigatoriedade de ser médico para ser psicanalista, durante muitos anos, ser psicanalista era quase sinônimo de ser psiquiatra. A 15 experiência brasileira com a psicanálise desde sempre é sustentada pela universidade que habilita psicanalistas em cursos de graduação e pós- graduação. “Hoje, podemos afirmar que o fato de a psicanálise ser ensinada na universidade pode colaborar para a despatologização da psiquiatria, pautada pelos manuais de classificação das doenças mentais.” (Fernandes, 2017, p. 95). Freud considerava que a psicanálise é uma formação impossível, pois um psicanalista pode ser experiente, mas estará em constante formação e esse é um imperativo ético da psicanálise. NA PRÁTICA Assim como um quebra-cabeça a formação de um psicanalista acontece por meio do atravessamento de diversos dispositivos formativos, que podem ser resumidos em: estudo, análise pessoal e supervisão. A formação acontece de modo atravessado, pois não há um começo lógico para estudar de forma simples. Desde o início a psicanálise é complexa. Uma sequência possível é começar por Freud, depois Lacan, depois estudos contemporâneos, mas isso é só uma preferência. Cada um pode começar a estudar psicanálise de onde quiser. O saber sempre se dará por acumulação. Não será ao final de um conteúdo que o(a) leitor(a) terá a sensação que entendeu, mas sim depois de já ter ouvido e estudado aquele tema várias vezes, e especialmente depois de ter passado pela experiência de ser psicoanalisado. O conhecimento se dá no processo e a segurança se adquire na supervisão da prática clínica. Tal como um quebra-cabeça, que vai fazendo sentido da metade para o final, que é quando começa a tomar forma. FINALIZANDO A psicanálise é em si didática, pois por meio do processo de análise pessoal se aprende muito sobre o manejo do método, mas apenas de ser condição necessária, não é suficiente para tornar-se analista (Lacan, 1957). É preciso complementar com supervisão e estudos. E para o estudo, o contexto acadêmico tem se mostrado ser o mais acessível e democrático. Para se manter leiga e laica a psicanálise precisa resistir à objetivação do saber imposto pelo discurso científico. Enquanto a ciência excluir a verdade do 16 inconsciente a psicanálise estará excluída também. Esse é um desejo que a psicanálise, enquanto ciência e profissão, leva às últimas consequências. São muitos os discursos de poder que atravessam os seres humanos e com os quais estabelecemos laços sociais para nos manter membros de uma mesma cultura, no entanto, esses discursos de poder estão em constantes tensões, por exemplo: a religião, a ciência, a psiquiatria e o capitalismo são discursos imperativos que nos determinam o que fazer, como se comportar, o que sentir, o que consumir. A psicanálise se posiciona como operadora de fazer surgir um discurso do sujeito sobre ele mesmo. Por isso o psicanalista não pode se posicionar como mais um mestre, como alguém que sabe sobre o outro, mas sim, precisa se posicionar sustentando o discurso do analista (aquele que opera para fazer surgir no outro o saber que ele tem, mas não sabe que tem). 17 REFERÊNCIAS COMTE-SPONVILLE, A. Apresentação da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2002. Disponível em: . Acesso em: 9 out. 2023. DUNKER, C. A Construção de Casos Clínicos em Psicanálise: método clínico e formalização discursiva. São Paulo: Ed. Zagodoni, 2023. FERNANDES, A. O ensino e a transmissão da psicanálise. Stylus (Rio J.), Rio de Janeiro, n. 34, p. 93-102, jun. 2017. Disponível em: . Acesso em: 9 out. 2023. FERRY, L. O Homem Deus, ou, o sentido da vida. Rio de Janeiro: Difel, 2007. FONTELES, C.; COUTINHO, D.; Psicanálise e universidade: o caso brasileiro. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 50, n. 4, p. 175-188, 2016. FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1986. FREUD, S. (1918). Sobre o ensino da psicanálise na universidade. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974, v. 17. _____. (1926). A questão da análise leiga. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974, v. 20. _____. 1884. “Uber Coca”. Publicado no site da Associação Psicanalítica de Porto Alegre. Disponível em: . Acesso em: 9 out. 2023. GAGEIRO, A; TOROSSIAN, S. A História da Psicanálise em Porto Alegre. Analytica. São João del Rei, v. 3, n. 4, p. 117-144, jan. 2014. GURFINKEL. D. O episódio de Freud com a cocaína: o médico e o monstro. Revista Latino-americana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, v. 11, n. 3, p. 420-436, setembro 2008. 18 KICKHÖFEL, E. (2003). A lição de anatomia de Andreas Vesalius e a ciência moderna. Scientiae Studia, v. 1, n. 3, p. 389-404. Disponível em: . Acesso em: 9 out. 2023. LEITE MC, COUTO RHO. Psychoanalysis and evidence-based practice in mental health. J Psychol Clin Psychiatry, v. 14, n. 5, p. 127‒134, 2023. MORRIS, C; MAISTO, A. Introdução à psicologia. 6 ed. São Paulo: Pearson, 2004. E-book. Disponível em: . Acesso em: 9 out. 2023. OLIVEIRA, C. Trajetórias da psicanálise paulista. Revista Analytica. São João del-Rei, v. 3; n. 4; p. 59-87. janeiro/junho de 2014. UJVARI, S.; ADONI, T. A História do Século XX pelas descobertas da medicina. São Paulo: Contexto, 2014. VIERECK, G. O valor da vida (Uma entrevista rara de Freud). Ide (São Paulo). São Paulo, v. 42, n. 69, p. 11-15, jun. 2020. Disponível em: . Acesso em: 9 out. 2023. WIENER, S. Isso se transmite de maneira atravessada, a psicanálise. Estud. Psicanal, Belo Horizonte, n. 39, p. 119-123, jul. 2013. Disponível em . Acesso em: 9 out. 2023.