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Aula 1 – Evolução Histórica da Legislação Previdenciária no Brasil. As correntes previdenciárias em destaque são a política social de Otto Von Bismarck (Alemão) no período de 1883 a 1889 e a proposta de Lorde William Henry Beveridge em 1944 (Britânico). O sistema bismarckiano ou de capitalização consistia em contribuição dos empregadores e os empregados numa poupança compulsória, abrangendo a proteção apenas desses assalariados contribuintes. Já o plano de Beveridge toda a sociedade contribui para a criação de um fundo previdenciário e não somente os trabalhadores. Aqui há mais intervenção estatal, com o intuito de erradicar a pobreza, através de contribuição de toda a sociedade, criando-se um fundo social, protegendo a todos que sejam atingidos por alguns dos eventos previstos na legislação de amparo social. “A primeira corrente, que seguia as proposições de Bismarck, possuía uma conotação muito mais “securitária”. Propunha que a proteção social ou previdenciária fosse destinada apenas aos trabalhadores que, de forma compulsória, deveriam verter contribuições para o sistema. Para esta corrente a responsabilidade do Estado deveria ser limitada à normatização e fiscalização do sistema, com pequeno aporte de recursos. O financiamento do sistema se dava com a contribuição dos trabalhadores e empregadores. A corrente “bismarckiana” encontrou campo para desenvolvimento em vários países, destacando-se a Alemanha, a França, a Bélgica, a Holanda e a Itália. A segunda corrente se formou a partir do trabalho de Beveridge, e, para ela, a proteção social deve se dar não somente ao trabalhador, mas também de modo universal a todo cidadão, independentemente de qualquer contribuição para o sistema. Segundo esta corrente, a responsabilidade do Estado é maior, com o orçamento estatal financiando a proteção social dos cidadãos. As propostas de Beveridge se desenvolvem de forma mais acentuada nos países nórdicos, especialmente na Suécia, na Noruega, na Finlândia, na Dinamarca e no Reino Unido” (LAZZARI, J.B.; CASTRO, C.A.P. Direito Previdenciário. Rio de Janeiro: Forense, 2023, p. 29). O Brasil tem influências de ambos os modelos previdenciários, o Bismarckiano e o Beveridgiano. O marco oficial da Previdência Social no Brasil foi com a publicação da Lei Eloy Chaves – Decreto Legislativo n. 4.682 de 24.01.1923 que criou as Caixas de Aposentadoria e Pensões, mediante as contribuições efetivadas pela própria empresa, trabalhadores e os usuários dos serviços da empresa – com o intuito de assegurar a aposentadoria aos trabalhadores e pensão aos seus dependentes, em caso de morte do segurado, além de assistência médica e diminuição do custo de medicamentos. Nessa época foram criadas vários Institutos de Aposentadoria e Pensão de diversos ramos de atividade econômico por categorias profissionais, surgindo, então os Institutos de Aposentadoria e Pensão dos marítimos, dos comerciários, dos bancários dos empregados de transporte de carga. Cada caixas com suas regras próprias. Somente com a Constituição Federal de 1934 que houve a intervenção da União nas contribuições previdenciárias, ou seja, cria-se a forma tripartite de custeio: contribuições dos trabalhadores, dos empregadores e do Poder Público, a favor da velhice, da invalidez, da maternidade e nos casos de acidente do trabalho ou morte. Em 1949, o Poder Executivo publicou o Decreto 26.778 de 14.06.1949 que consiste no Regulamento Geral das Caixas de Aposentadoria e Pensão padronizando a concessão desses benefícios. Com a fusão dessas caixas, cria-se o Ministério do Trabalho e Previdência Social, promulgando a Lei n. 3.807 de 26.08.1960 – Lei Orgânica da Previdência Social (LOPS)– legislação que manteve vigente até 1990. Por meio da LOPS criou-se um único plano de benefícios, mas não se estendia aos rurais e aos empregados domésticos. Vale destacar alguns pontos da Lei 3.807/60 que geram discussão até hoje: essa legislação previa a pensão por morte ao menor sob guarda, que foi retirado do texto pela Lei 9.528 de 10.12.1997. Contudo, a Lei 9.528 de 10.12.1997 foi objeto de análise de inconstitucionalidade nas ADIn's 4.878 e 5.083 – do STF, que reconheceu, por maioria de votos (6X5) a inconstitucionalidade dessa lei, no que diz respeito à supressão da figura do "menor sob guarda" do rol de dependentes previdenciários previsto no art. 16 da lei 8.213/91. Posteriormente, a qualidade de dependente do menor sobre guarda foi discussão no Tema 732 do STJ, que também reconheceu o pagamento da pensão por morte ao menor sob guarda que comprovar a dependência econômica do seu Segurado/Instituidor na data do óbito com fundamentos no artigo 33, § 3º do Estatuto da Criança e do Adolescente (lei 8069/90), ou seja, visa proteger o direito do menor sob guarda, inclusive nas condições previdenciárias1 Contudo, o artigo 23 da Emenda Constitucional - EC 103/2019 (Reforma da Previdência) também excluiu o menor sob guarda na relação de dependentes do segurado e, mais uma vez está sendo objeto de discussão através do Tema 1.271 do STF2. Todavia, foi promulgada a Lei 15.108 de 13.03.2025, em que incluiu no § 2º do artigo 16 da Lei 8.213/91, a qualidade de dependente do Segurado Instituidor, o menor sob guarda, desde que não possuam condições suficientes para o próprio sustento e educação, in verbis: Art. 16 – São beneficiários do Regime Geral de Previdência Social, na condição de dependentes do segurado: [...] § 2º O enteado, o menor sob tutela e o menor sob guarda judicial equiparam-se a filho, mediante declaração do segurado e desde que não possuam condições suficientes para o próprio sustento e educação. Esclarece que essa lei é considerada constitucional, vez que o § 7º do artigo 23 autoriza a mudança na EC 103/2019 mediante lei, vejamos: 1 Art. 33. A guarda obriga a prestação de assistência material, moral e educacional à criança ou adolescente, conferindo a seu detentor o direito de opor-se a terceiros, inclusive aos pais [...] § 3º A guarda confere à criança ou adolescente a condição de dependente, para todos os fins e efeitos de direito, inclusive previdenciários. 2 Tema 1271 - Exclusão da criança e do adolescente sob guarda do rol de beneficiários, na condição de dependentes, do segurado do Regime Geral de Previdência Social, implementada pelo art. 23 da Emenda Constitucional nº 103/2019 (RE. 1442021). https://www.planalto.gov.br/CCivil_03/LEIS/L8213cons.htm#art16%C2%A72.0 Art. 23 [...] § 7º As regras sobre pensão previstas neste artigo e na legislação vigente na data de entrada em vigor desta Emenda Constitucional poderão ser alteradas na forma da lei para o Regime Geral de Previdência Social e para o regime próprio de previdência social da União. Agora, o Tema 1.271 do STF deverá se adequar a legislação previdenciária. Mas, a discussão está longe de terminar, visto que a pensão por morte é concedida na forma da legislação previdenciária prevista na data do óbito. Logo, para os óbitos ocorridos até 13.11.2019 o menor sob guarda se enquadra no rol de dependentes do segurado, sob a fundamentação da inconstitucionalidade da Lei 9.528/97, através das ADIn's 4.878 e 5.083 – do STF. Para óbitos ocorridos a partir de 13.03.2025 através da Lei 15.108. Assim, o período de 14.11.2019 a 12.03.2025 não há previsão legal a enquadrar como dependente do segurado o menor sob guarda, que será objeto de discussão nos Tribunais e nas legislações previdenciárias. Quanto ao valor da renda mensal da pensão por morte, o artigo 37 da Lei 3.807/603 determinava a alíquota de 50% do valor da aposentadoria que o segurado percebia ou daquela a que teria direito na data do seu falecimento, acrescida de 10% para cada dependente, limitando a cinco dependentes do segurado. Cazuza na letra da sua música “O Tempo não Para”, ele fala: “Eu vejoo Futuro repetir o passado” (Citação em Aula por Prof. Hermes Arrais Alencar). 3 Art. 37. A importância da pensão devida ao conjunto dos dependentes do segurado será constituída de uma parcela familiar, igual a 50% (cinqüenta por cento) do valor da aposentadoria que o segurado percebia ou daquela a que teria direito se na data do seu falecimento fôsse aposentado, e mais tantas parcelas iguais, cada uma, a 10% (dez por cento) do valor da mesma aposentadoria quantos forem os dependentes do segurado, até o máximo de 5 (cinco). A Emenda Constitucional 103/20194 – Reforma Previdenciária repetiu o passado, ao estabelecer novamente a renda mensal inicial da pensão por morte através da alíquota de 50%, acrescido de 10% para cada dependente sobre o valor da aposentadoria recebida pelo segurado ou daquela a que teria direito se fosse aposentado por incapacidade permanente na data do óbito. O artigo 34 da Lei 3.807/19605 criou a prestação de benefício PECÚLIO, que consistia na restituição em dobro do valor pago sobre as contribuições realizadas pelo segurado, em caso de invalidez ou morte, antes de completar o período de carência a Previdência Social. Assim como, a Lei 3.807/906 permitia a concessão de um abono de permanência em serviço que consistia no recebimento de 4% (quatro por cento) do valor da aposentadoria, o Segurado que não se aposentava e continuava em atividade após comprovar 30 anos de tempo de serviço. Em 08.11.1962 foi criada o Abono Anual (13º salário) através da Lei 4.090/62 – que mantem existente até hoje. Em 03.10.1963 criou o salário – família destinados aos segurados com filhos menores – visando à manutenção deles através da Lei 4.266/1963. 4 Art. 23. A pensão por morte concedida a dependente de segurado do Regime Geral de Previdência Social ou de servidor público federal será equivalente a uma cota familiar de 50% (cinquenta por cento) do valor da aposentadoria recebida pelo segurado ou servidor ou daquela a que teria direito se fosse aposentado por incapacidade permanente na data do óbito, acrescida de cotas de 10 (dez) pontos percentuais por dependente, até o máximo de 100% (cem por cento). 5 Art. 34. Ocorrendo invalidez ou morte do segurado antes de completar o período de carência, ser-lhe-á restituída ou aos seus beneficiários, em dobro, a importância das contribuições realizadas, acrescidas dos juros de 4% (quatro por cento). 6 Art. 32. A aposentadoria por tempo de serviço será concedida aos 30 (trinta) anos de serviço, no valor correspondente a: § 1º Para o segurado do sexo masculino que continuar em atividade após 30 (trinta ) anos de serviço, o valor da aposentadoria será acrescido de 4% (quatro por cento) do salário de benefício para cada nôvo ano completo de atividade abrangida pela previdência social, até o máximo de 100% (cem por cento) dêsse salário aos 35 (trinta e cinco) anos de serviço Em 1967 criou o seguro desemprego e o Seguro de Acidente de Trabalho (SAT) foi incorporado a Previdência Social pela Lei 5.316 de 14.09.1967, deixando de ser realizado com instituições privadas para ser feito exclusivamente por meio de contribuição vertidas ao regime geral previdenciário. A Lei Complementar 11/1971 criou a previdência social dos trabalhadores rurais através do FUNRURAL. Da mesma forma foi criada a Lei 5.859/1972 que regulamentou os direitos sociais da empregada doméstica. A Constituição Federal de 1988 estabeleceu o Sistema de Seguridade Social constituído em saúde, assistência social e previdência social. As contribuições sociais passaram a custear as ações do Estado nessas três áreas e não somente na previdência social. O artigo 201 da CF de 1988 estabelece o direito a concessão de benefício para aqueles que contribuiu nos termos da lei que não sejam abrangidos por outro regime social especifico. A CF/88 garante que o benefício substituto do rendimento e salário não será inferior ao salário mínimo vigente e os benefícios deverão ser reajustados periodicamente para preservar o valor real dos benefícios – conforme critérios definidos em lei. Na área da saúde tem-se o SUS (artigo 198 da CF) que tem o intuito de garantir o tratamento gratuito no campo da medicina a toda população independentemente de contribuição. No âmbito da Assistência Social é garantido independentemente de contribuição o valor de um salário mínimo à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios à sua subsistência, por si só ou por sua família, com o propósito de reduzir a vulnerabilidade socioeconômica de famílias em situação de pobreza ou de extrema pobreza (art. 203 CF). Em 1990 foi criado o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) que passou a gerenciar tanto a concessão de benefício como a fiscalizar as contribuições (fonte de custeio), que antigamente era gerenciado por dois órgãos: Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) e Instituto de Administração Financeira da Previdência (IAPAS) que administrava recursos financeiros, arrecadava, fiscalizava e cobrava contribuições previdenciárias. Mas, em 2007, pela Lei 11.457, essa atribuição foi transferida a Secretaria da Receita Federal do Brasil, que mantem vigente até hoje. Em 1991 foi criado a Lei 8.212 – que trata sobre a fonte de custeio da Seguridade Social no Brasil e a Lei 8.213 – que trata da concessão de benefícios e serviços da Previdência Social, incluindo os benefícios por acidente de trabalho, leis que até hoje vigoram, mesmo com alterações em diversos artigos por legislações ordinária e Reformas Previdenciárias (EC 20/98 e EC 103/2019 – no âmbito do Regime Geral de Previdência Social - RGPS). As alterações importantes através da Lei 8.213/91 se iniciaram com a Lei 8.870 de 15.04.1994, que aboliu duas prestações previdenciárias: fim do pecúlio e o abono de permanência em serviço, que era pago ao segurado que, fazendo jus à aposentadoria receberia uma alíquota de 4% (quatro por cento) sobre o valor dela para permanecer em atividade sem requerer o benefício. Mas a maior alteração de todas na Lei 8.213/91, foi com a promulgação da Lei 9.032 de 28.04.1995 que criou critérios mais rígidos para a concessão de aposentadoria especial; exigência de contribuição previdenciária do segurado aposentado que continua exercendo atividade laboral; exclui a “pessoa designada” do rol de dependentes; fórmula de cálculo da renda mensal inicial que consistia no salário de benefício correspondente na média aritmética de 36 últimos salários de contribuição anteriores ao requerimento da aposentadoria; e outros mais. “A seguir, a Lei 9.032, de 28.04.1995, trouxe o que se pode dizer uma verdadeira reforma na legislação previdenciária ordinária: a) exigência de contribuição previdenciária do segurado aposentador que continua a exercer atividade remunerada, sendo que ele somente faria jus, em termos de contrapartida, ao salário-família, ao auxílio – acidente e à reabilitação profissional; b) exclui a “pessoa designada” do rol de dependentes, isto é, vedou a possibilidade de o segurado designar dependentes para recebimento de pensão por morte e auxilio-reclusão; c) alterou os critérios de cálculo da renda mensal inicial dos benefícios acidentários, equiparando-os à sistemática dos demais benefícios previdenciários, bem como alterou os critérios de cálculo da renda mensal inicial da aposentadoria especial, pensão por morte, aposentadoria por invalidez e auxílio-doença; d) extinguiu a possibilidade de atividade exercida pelo segurado ser considerada especial por pertencer este a determinada categoria profissional – com o consequente direito à contagem diferenciada de tempo de contribuição e aposentadoria antecipada – passando a exigir a efetiva exposição aos agentes nocivos químicos, físicos e biológicos pelo desempenho do trabalho permanente do segurado, não ocasional nem intermitente,como condição ao reconhecimento da atividade especial; e) vedou a possibilidade de conversão do tempo de atividade comum para fins de obtenção de aposentadoria especial; f) estendeu o auxílio-acidente para além das hipóteses de acidente de trabalho; g) passou a vedar a acumulação de pensão deixada por cônjuge ou companheiro, ressalvado o direito de opção pela mais vantajosa; h) revogou o direito de incorporação de 50% do auxílio-acidente ao valor da pensão por morte”. (ROCHA, D.M.; SAVARIS, J.A. Curso de Direito Previdenciário: fundamentos de interpretação e aplicação do direito previdenciário. Curitiba: Alteridade Editora, 2014, p. 91). A Emenda Constitucional 20 de 15.12.1998 teve o intuito de se colocar uma idade mínima para aposentadoria, isso porque, já se previa um déficit na Previdência Social em razão das aposentadorias concedidas precocemente, visto que a expectativa de vida subiu consideravelmente e a longevidade pode ser encarada como fardo a ser carregado pelas gerações futuras. “Enquanto, no mundo inteiro, a transição demográfica determinava a revisão dos limites etários para a concessão de aposentadoria, no Brasil, permitia a concessão de aposentadorias para pessoas ainda jovens (com menos de 40 anos de idade), que, em decorrência, poderiam receber o benefício por longos períodos, muitas vezes sem efetiva necessidade, uma vez que não havia imposição do abandono do emprego, no RGPS para obtenção do benefício”. (ROCHA, D.M.; SAVARIS, J.A. Curso de Direito Previdenciário: fundamentos de interpretação e aplicação do direito previdenciário. Curitiba: Alteridade Editora, 2014, p. 87). Contudo, no momento da votação eletrônica, um dos deputados se confundiu na resposta, entre sim ou não - se deve ou não ter idade mínima para se aposentar, naquele momento, a votação era de desempate, e a resposta foi “não”, ou seja, não se passou a idade mínima para o Regime Geral de Previdência Social, somente para o Regime Próprio de Previdência Social (estatutário). Logo, permaneceram com a regra do cálculo da aposentadoria no coeficiente de renda de 100% (cem por cento) sobre o salário de benefício, que consistia na média aritmética dos últimos 36 (trinta e seis) meses dos salários de contribuição anteriores a data de entrada do requerimento administrativo. A aposentadoria por tempo de serviço passou a ser denominada aposentadoria por tempo de contribuição, sendo que o homem tem que comprovar 35 anos de contribuição e a mulher 30 anos de contribuição. Um outro fator para a incidência de uma previdência deficitária citada pelo Professor Daniel Machado da Rocha é o exercício da atividade informal realizada por trabalhador por conta própria (contribuinte individual) que não vertem contribuição para a previdência público de forma oficial. Em 06.05.1999 foi publicado o Decreto 3.048/99 que aprova o Regulamento da Previdência Social, ou seja, que regula a legislação ordinária (lei 8.213/91). Em 29.11.1999 – com o intuito de reduzir a aposentadoria precoce e a fórmula de cálculo da renda mensal inicial, o Governo publicou a Lei 9.876 – criando um índice matemático denominado fator previdenciário, que consistia o tempo de contribuição apurado, idade do segurado, expectativa de sobrevida estabelecida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, na data da entrada do requerimento administrativo do benefício. O resultado da apuração desse índice aplica – se sobre o salário de benefício que consiste na média aritmética dos salários de contribuição. A criação do fator previdenciário foi justamente para desestimular a aposentadoria precoce, vez que quanto menos tempo de contribuição contar o segurado e maior for a expectativa de sobrevida ao se aposentar, menor será o valor do benefício previdenciário. O artigo 29 da Lei 8.213/91 – que regula a fórmula de cálculo do salário de benefício de uma aposentadoria (até então, previa a média aritmética dos últimos 36 meses do salário de contribuição anteriores ao requerimento administrativo) passou a regulamentar nos seguintes termos: a) Para quem se filiar a Previdência Social e iniciar suas contribuições previdenciárias a partir de 29.11.2009 – o salário de benefício consiste na média aritmética de todo o período contributivo correspondente aos 80% (oitenta por cento) maiores salários de contribuição, multiplicado pelo fator previdenciário (artigo 29 da Lei 8.213/91 – redação dada pela Lei 9.876/99)7 REGRA DEFINITIVA; b) Para quem já era filiado a Previdência Social antes da publicação da Lei 9.876/99, o salário de benefício consiste na média aritmética dos 80% (oitenta por cento) maiores salários de contribuição desde 07.1994 – moeda real, multiplicado pelo fator previdenciário (redação dada pelo artigo 3º da Lei 9.876/99)8 REGRA DE TRANSIÇÃO. Ainda a Lei 9.876/99 criou um divisor mínimo de 60% (sessenta por cento) do tempo decorrido desde 07.1994 (moeda real) até a data do início do benefício para quem era filiado a previdência social antes da publicação desta lei (artigo 3º, § 2º da Lei 9.876/99)9. 7 Art. 29 - inciso I da Lei 8.213/91: - para os benefícios de que tratam as alíneas b e c do inciso I do art. 18, na média aritmética simples dos maiores salários-de-contribuição correspondentes a oitenta por cento de todo o período contributivo, multiplicada pelo fator previdenciário; (Incluído pela Lei nº 9.876, de 26.11.99) 8 Art. 3o da Lei 9.876/99: Para o segurado filiado à Previdência Social até o dia anterior à data de publicação desta Lei, que vier a cumprir as condições exigidas para a concessão dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social, no cálculo do salário-de-benefício será considerada a média aritmética simples dos maiores salários-de-contribuição, correspondentes a, no mínimo, oitenta por cento de todo o período contributivo decorrido desde a competência julho de 1994, observado o disposto nos incisos I e II do caput do art. 29 da Lei no 8.213, de 1991, com a redação dada por esta Lei. 9 Art. 3º, § 2o da Lei 9.876/99: No caso das aposentadorias de que tratam as alíneas b, c e d do inciso I do art. 18, o divisor considerado no cálculo da média a que se refere o caput e o § 1o não poderá ser inferior a sessenta por cento do período decorrido da competência julho de 1994 até a data de início do benefício, limitado a cem por cento de todo o período contributivo. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9876.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9876.htm#art2 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8213cons.htm#art29i https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8213cons.htm#art29i A criação do divisor mínimo de 60% (sessenta por cento) do tempo decorrido desde 07.1994 dentro do período base de cálculo de uma aposentadoria para apuração de cálculo do salário de benefício, aos segurados filiados na previdência social antes de 29.11.1999 – através da Lei 9.876/99, e a incidência de fator previdenciário foi objeto de discussão na Tese da Revisão da Vida Toda através dos Temas 999 do STJ10 e Tema 1.102 do STF11 - aguardando o trânsito em julgado. Os Segurados da Previdência Social filiados antes da Lei 9.876/99 se depararam com critérios de cálculo da renda mensal inicial mais rigorosos em detrimento àqueles que se filiaram após 29.11.1999. Com a vigência da lei, deixaram de integrar salário de contribuição anterior a 07.1994 (moeda real) no período base de cálculo para apuração do salário de benefício, que corresponde à média aritmética dos 80% (oitenta por cento) maiores salários de contribuição, afastando a aplicação do divisor mínimo de 60% (sessenta por cento) do tempo decorrido de 07.1994 até a data do início do benefício, pois aplicando o divisor mínimo no período base de cálculo, não haveria salários de contribuição para ser excluído da média aritmética, prejudicando/ diminuindoo valor da renda mensal inicial. 10 Tema 999 do STJ: Aplica-se a regra definitiva prevista no art. 29, I e II da Lei 8.213/1991, na apuração do salário de benefício, quando mais favorável do que a regra de transição contida no art. 3o. da Lei 9.876/1999, aos Segurado que ingressaram no Regime Geral da Previdência Social até o dia anterior à publicação da Lei 9.876/1999. 11 PROCESSUAL CIVIL. PREVIDENCIÁRIO. AGRAVO DE INSTRUMENTO. REVISÃO. TEMA 1102/STF. SOBRESTAMENTO. PUBLICAÇÃO DO ACÓRDÃO PARADIGMA. TRÂNSITO EM JULGADO. AGRAVO PROVIDO. 1. A questão em análise foi cadastrada como "TEMA 1102” (RE 1276977), na base de dados do Supremo Tribunal Federal – “Possibilidade de revisão de benefício previdenciário mediante a aplicação da regra definitiva do artigo 29, incisos I e II, da Lei nº 8.213/91, quando mais favorável do que a regra de transição contida no artigo 3º da Lei nº 9.876/99, aos segurados que ingressaram no Regime Geral de Previdência Social antes da publicação da referida Lei nº 9.876/99, ocorrida em 26/11/99”. 2. O STF pacificou o entendimento ao fixar a tese no Tema 1102/RE: “O segurado que implementou as condições para o benefício previdenciário após a vigência da Lei 9.876, de 26.11.1999, e antes da vigência das novas regras constitucionais, introduzidas pela EC 103/2019, tem o direito de optar pela regra definitiva, caso esta lhe seja mais favorável. ” (Ata de Julgamento, DJE - ATA Nº 38, de 01/12/2022. DJE nº 253, divulgado em 12/12/2022). O v. acórdão referido foi publicado no DJE em 13/04/2023. 3. Para a aplicação de tal paradigma firmado em sede de recurso repetitivo ou de repercussão geral, Tema 1102/STF, não é necessário aguardar o trânsito em julgado. Precedentes do STJ e STF (AgRg no ARE 673.256/RS, Rel. Ministra ROSA WEBER, PRIMEIRA TURMA, Dje de 22/10/2013; AgInt nos EREsp 1.400.632/PR, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA SEÇÃO, DJe de 03/05/2017). 4. Agravo de instrumento provido. (TRF 3ª Região, 8ª Turma, AI - AGRAVO DE INSTRUMENTO - 5007256-78.2023.4.03.0000, Rel. TORU YAMAMOTO, julgado em 11/07/2023, DJEN DATA: 14/07/2023) Na Tese da Revisão da Vida Toda discutia a aplicação da regra definitiva no artigo 29 inciso I e II da Lei 8.213/91 – redação dada pela Lei 9.876/99, na apuração do salário de benefício quando mais favorável que a regra de transição estabelecida no artigo 3º da Lei 9.876/99, aos segurados que se filiaram antes de 29.11.1999. A Revisão da Vida Toda visou assegurar aplicação da regra mais vantajosa para apuração do salário de benefício, com o intuito de prevalecer o critério de cálculo que proporcione a maior renda mensal possível a partir do histórico de contribuições do Segurado. Contudo, a Tese da Revisão da Vida Toda não vingou e o advogado que estava rico ficou pobre novamente. Embora tenha sido reconhecido inicialmente no Tema 999 do STJ e no Julgamento do Tema 1.102 do STF, houve o julgamento da ADIs 2110 e 2111 – em que se discutia a constitucionalidade do artigo 3º da Lei 9.876/99. No caso, prevaleceu o voto do ministro Cristiano Zanin, em que havendo liminar nas ADIs a favor da constitucionalidade da lei há mais de 20 anos, a regra de transição deve prevalecer e não há possibilidade de escolha. O ministro propôs a seguinte tese: “A declaração de constitucionalidade do artigo 3º da lei 9876, de 1999, impõe que o dispositivo legal seja observado de forma cogente pelos demais órgãos do poder judiciário e pela administração pública, em sua interpretação literal, que não permite exceção: o segurado do INSS que se enquadra no dispositivo, não pode optar pela regra definitiva, independente de lhe ser mais favorável”. O julgamento da ADIs 2110 e 2111 em março de 2024, pelo STF, decidiu que a regra da Lei 9.876/99 é obrigatória e o segurado não poderá escolher o cálculo que lhe for mais favorável. Com essa decisão nas ADIs 2110 e 2111 vincula aos demais órgãos do Poder Judiciário, ou seja, corre-se o risco do STF reconhecer a nulidade do acórdão proferido no Tema 999 do STJ, determinando a remessa dos autos àquela Corte, para que seja realizado novo julgamento nos termos do artigo 97 da Constituição Federal12. Dessa forma, o STJ não poderá reiterar a tese fixada anteriormente, concedendo a Revisão da Vida Toda, em vista da decisão proferida pela ADIs 2110 e 2111 a qual diz a constitucionalidade das regras definitivas e de transição pela Lei 9.876/99, não podendo o Segurado escolher o cálculo mais vantajoso. Vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos que há previsão do julgamento dos Embargos de Declaração oposto pelo INSS, no Tema 1.102 do STF, para este primeiro semestre de 2025. OREMOS! A Segunda Reforma da Previdência Social foi através da Emenda Constitucional – EC 103 de 13.11.2019 – que teve o intuito de impor idade mínima para se aposentar. Ainda, houve mudança na regra de cálculo das aposentadorias através da média aritmética de todo salário de contribuição no período base de cálculo desde 07.1994, ou desde o início das contribuições previdenciárias, se posterior a essa competência, ou seja, não havendo mais a exclusão dos 20% (vinte por cento) menores salários de contribuição (artigo 26 da EC 103/2019)13. Contudo, a EC 103/2019 criou a possibilidade de descarte de algumas contribuições que resulte na redução do valor do benefício, no período base de cálculo, desde que mantido o tempo mínimo de contribuição exigido, vedada a utilização do tempo excluído para qualquer outra finalidade, para a averbação em outro regime 12 https://blog.grupogen.com.br/juridico/areas-de-interesse/previdenciario/o-julgamento-das-adis- 2110-e-2111-e-a-revisao-da-vida-toda/ 13 Art. 26. Até que lei discipline o cálculo dos benefícios do regime próprio de previdência social da União e do Regime Geral de Previdência Social, será utilizada a média aritmética simples dos salários de contribuição e das remunerações adotados como base para contribuições a regime próprio de previdência social e ao Regime Geral de Previdência Social, ou como base para contribuições decorrentes das atividades militares de que tratam os arts. 42 e 142 da Constituição Federal, atualizados monetariamente, correspondentes a 100% (cem por cento) do período contributivo desde a competência julho de 1994 ou desde o início da contribuição, se posterior àquela competência. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constituicao.htm#art42 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constituicao.htm#art142 previdenciário ou para a obtenção dos proventos de inatividade das atividades (artigo 26, § 6º da EC 103/2019)14. Para quem se filiar a partir de 13.11.2019 - EC 103/2019 a regra permanente da aposentadoria passa ser somente a aposentadoria por idade, extinguindo a modalidade de aposentadoria por tempo de contribuição. Para quem se filiou e começou a contribuir antes da Reforma Previdenciária foi criada quatro regras de transição de aposentadoria por tempo de contribuição (artigo 15 a 22 da EC 103/2019). Os requisitos da aposentadoria por idade apresentada no artigo 19 da EC 103/2019 é regra transitória, ou seja, está previsto naquela regra até que lei dispõe de modo diverso. Logo se fala de uma outra “mini” reforma previdenciária através de lei ordinária que ainda não foi criada. Somente foi regulamentado o Decreto 10.410/2020 em 30.06.2020, que alterou e incluiu nele os artigos da nova emenda constitucional. Aguarda-se, pois, por nova legislação previdenciária. 14 § 6º Poderão ser excluídas da média as contribuições que resultem em redução do valor do benefício, desde que mantido o tempo mínimo de contribuição exigido, vedada a utilização do tempo excluído para qualquer finalidade, inclusive para o acréscimo a que se referem os §§ 2º e 5º, para a averbação em outro regime previdenciário ou para a obtenção dos proventos de inatividade dasatividades de que tratam os arts. 42 e 142 da Constituição Federal. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constituicao.htm#art42 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constituicao.htm#art142 BIBLIOGRAFIA CASTRO, C.A.P.; LAZZARI. Direito Previdenciário. 3.ed., rev. e atual. Rio de Janeiro: Forense; Método, 2023. ROCHA, D.M.; SAVARIS, J.A. Curso de Direito Previdenciário: fundamentos de interpretação e aplicação do direito previdenciário. Curitiba: Alteridade Editora, 2014. si_pedrini@hotmail.com simonepedrinicamargo Simone Pedrini Simone Pedrini Camargo (19) 98132 7412 CONTATOS: