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A cooperação técnica e financeira na América do Sul

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mais salutar. Ademais, não se poderia retroceder mais no tempo, 
alargando-se o período histórico, em função de delimitação espacial da monografia e, em 
certa medida, de ausência de fontes que fornecessem o material necessário. A Agência 
Brasileira de Cooperação – atual agência que organiza a cooperação internacional brasileira – 
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foi criada em 1987 e, devido à carência de recursos própria do período, não pôde realizar 
esforços cooperativos de grande significância vis-à-vis a década de 2000. 
A monografia, destarte, é dividida em dois capítulos. O primeiro deles aborda a 
cooperação Sul-Sul para o desenvolvimento na região sul-americana, porém com um foco na 
construção teórica, histórica e abrangente do fenômeno da cooperação para, pouco a pouco, 
especificar-se no caso brasileiro de cooperação Sul-Sul na América do Sul. O segundo 
capítulo, por sua vez, trata da empiria referente às duas modalidades de cooperação 
consideradas mais importantes, destacadas no final do primeiro capítulo: a cooperação técnica 
e a cooperação financeira. A primeira parte do capítulo trata, justamente, dos dados referentes 
à cooperação técnica no período designado. A segunda parte, ao tratar da cooperação 
financeira, faz referência à Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-
Americana (IIRSA) e mostra os dispêndios brasileiros nessa Iniciativa e as transferências de 
capital para os bancos que integram originalmente o projeto – Banco Interamericano de 
Desenvolvimento (BID), Fundo Financeiro dos Países da Bacia do Prata (FONPLATA) e 
Corporação Andina de Fomento (CAF) – e àqueles que não integram, mas fornecem ajuda 
direta em menor escala – Fundo para a Convergência Estrutural e Fortalecimento Institucional 
do MERCOSUL (FOCEM) e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social 
(BNDES). Apesar de não trazer o presente trabalho todos os investimentos desses bancos e 
fundos na região que não sejam no âmbito da IIRSA (à exceção do FOCEM), tem-se um 
apanhado significativo das transferências de capital brasileiro a esses bancos e de que modo 
custeiam obras na IIRSA. Delimitou-se, também, a cooperação financeira à temática da 
infraestrutura e à obras que não fossem integralmente em território brasileiro, o que, por si só, 
fugiria de uma cooperação financeira para o desenvolvimento. Uma terceira parte aborda a 
política exterior brasileira e o processo de integração regional de forma cronológica e 
mesclada, como panorama de diretrizes do Itamaraty e ações que contribuem para a 
compreensão do período proposto e que reflita as ações de cooperação para o 
desenvolvimento. Por fim, encontra-se uma ponte teórica, uma amálgama que possibilita uma 
compreensão holística da cooperação Sul-Sul para o desenvolvimento em âmbito regional: a 
hegemonia consensual. 
A conclusão assevera que, primeiramente, há de fato uma interelação entre cooperação 
Sul-Sul para o desenvolvimento em âmbito regional, política exterior brasileira e integração 
regional. Em segundo lugar, aponta que a hegemonia consensual pretendida pelo Brasil 
explica a cooperação com os países vizinhos da região no sentido de fomentar tanto um custo 
compartilhado para os investimentos em infraestrutura regional quanto na prestação de 
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cooperação técnica com os países sul-americanos, tendo como fim um adensamento de 
relações que possibilite a criação de consensos na região. Assim, a política exterior brasileira 
– que vê a região como plataforma de inserção internacional no mundo globalizado, geradora 
de economias de escala e de fomentadora do desenvolvimento nacional brasileiro – incentiva 
as coordenações e diálogos regionais, criando consensos e compartilhando os custos da 
integração regional, operacionalizando-se, também, via cooperação técnica para o 
desenvolvimento e via cooperação financeira em infraestrutura. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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1 A COOPERAÇÃO SUL-SUL PARA O DESENVOLVIMENTO 
EM ÂMBITO REGIONAL: CONCEITOS E TEORIAS 
 
 
Este primeiro capítulo tem como objetivo abordar em termos teóricos e históricos o 
fenômeno da cooperação internacional para o desenvolvimento em sua edição Sul-Sul dentro 
do continente sul-americano e prestado pelo Brasil. Para se chegar a tal especificidade, partir-
se-á do que é mais amplo e genérico para o mais restrito e específico. Destarte, este capítulo 
trará seções referentes i) a conceitos mais amplos sobre cooperação, desenvolvimento e 
cooperação para o desenvolvimento, além de mudanças semânticas ou do entendimento pelo 
qual se tem desses conceitos ao longo do tempo, quando esse for o caso; ii) a conceitos de 
ajuda oficial ao desenvolvimento, cooperação internacional para o desenvolvimento; iii) aos 
históricos da cooperação para o desenvolvimento, tanto em sua edição Norte-Sul, quanto na 
Sul-Sul; iv) às motivações que levam os países a adotarem políticas de cooperação; v) ao 
entendimento sobre e quais usos o Brasil faz destes conceitos acima mencionados, assim 
como apreende os dois tipos de cooperação majoritários, isto é, justamente a Norte-Sul e Sul-
Sul, além de enquadrar a Agência Brasileira de Cooperação nesse aspecto; vi) a um breve 
apanhado de quais são as modalidades pelas quais a cooperação sul-sul para o 
desenvolvimento é balizada e vii) às modalidades de cooperação técnica e de cooperação 
financeira entre países em desenvolvimento. A experiência brasileira e sua contextualização 
com a política externa e com o processo de integração regional tomará corpo no segundo 
capítulo deste trabalho. 
 
1.1 Conceitos de cooperação, desenvolvimento e cooperação 
para o desenvolvimento 
 
 
Esses três termos merecem atenção para uma devida conceituação, sem a qual o 
prosseguimento do trabalho padecerá de robustez conceitual. Apesar de esta seção ser 
destinada a uma possível conceituação fechada, é perfeitamente visível que são termos que 
suscitam várias interpretações, numa ampla gama de variáveis que poderiam se inclusas para 
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sua definição. Aqui a intenção é tão somente definir o que é cada um destes termos para os 
propósitos deste trabalho. 
A cooperação pode ser compreendida através da teoria social. Iara Costa Leite faz um 
breve acesso a esta perspectiva teórica para definir o que viria a ser o fenômeno da 
cooperação. Segundo ela, Marwell e Schmitt mostram que a cooperação é “um conjunto de 
relações entre comportamentos e suas consequências, sendo seus dois elementos básicos: o 
comportamento voltado para objetivos; e a existência de recompensas para cada uma das 
partes envolvidas.” (LEITE, 2012, p. 4). Portanto, há de existir alguma troca factível entre 
duas partes, desta forma diminuindo a crença de que uma parte deseje cooperar por puro 
altruísmo, sem desejar absolutamente nada em troca, seja em curto ou longo prazo. 
O desenvolvimento passou por uma mudança significativa de seu entendimento desde 
meados do século XX até o início do século XXI. Em breves palavras, passou da visão 
economicista e setorial, nas décadas de 1950 a 1970, para uma abordagem multidiciplinar e 
transdiciplinar, principalmente com o fim da Guerra Fria, ou seja, de 1990 em diante. A 
questão principal que concernia o desenvolvimento era o crescimento econômico, isto é, o 
crescimento do produto interno bruto (PIB) dos países subdesenvolvidos, que causaria um 
efeito de transbordamento para uma extensa variedade de setores produtivos. Essa perspectiva 
foi ficando obsoleta quando se percebeu que esse spillover effect não se verificava e que 
indicadores anteriormente ignorados – principalmente os de cunho social – também 
influenciavam no que era o desenvolvimento.

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