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FONÉTICA E FONOLOGIA DA LÍNGUA PORTUGUESA Prezado(a) aluno(a), O Grupo Educacional FAVENI reafirma o compromisso de oferecer uma formação de excelência, reconhecendo que a modalidade de estudo confere ao aluno autonomia e flexibilidade para organizar seus estudos de acordo com suas necessidades e rotina. Nesse contexto, é fundamental que o estudante estabeleça uma rotina de estudos disciplinada e consistente, reservando horários para leitura, reflexão e realização das avaliações propostas. Reiteramos ainda que o ambiente virtual é equiparável ao presencial no que concerne à troca de conhecimentos e esclarecimento de dúvidas. Assim como em sala de aula, onde a interação acontece espontaneamente, no semipresencial o diálogo deve acontecer por meio dos canais disponíveis no Portal do Aluno e nos encontros ao polo. Incentivamos você a utilizar esses recursos para questionar, esclarecer dúvidas e aprofundar seu entendimento sobre os conteúdos abordados, pois suas perguntas serão respondidas de forma ágil e eficiente pelo nosso suporte. Lembre-se de que a autonomia no processo de aprendizagem implica também responsabilidade. A gestão do seu tempo, o cumprimento dos prazos e a organização das tarefas são essenciais para o seu crescimento acadêmico. Aproveite a flexibilidade que o curso oferece, estabelecendo uma rotina compatível com seus compromissos pessoais e profissionais. Desejamos sucesso em sua jornada de estudos e reforçamos nossa disposição em apoiá-lo(a) na construção de um aprendizado sólido e significativo. Bons estudos! 1 MODELOS FONOLÓGICOS 1.1 O Estruturalismo Iniciamos esta unidade de aprendizagem abordando o Estruturalismo, que foi um marco das ciências humanas do século XX pela sua contribuição na legitimação do campo científico dessas áreas. Enquanto abordagem, o estruturalismo foi a primeira escola americana de pensamento no campo da psicologia, impactando inclusive no campo antropológico (COSTA, 2020). Uma das características da vertente estruturalistas são os estudos da estrutura inconsciente, uma vez que a investigação dessa estrutura permite a utilização consciente das formas de tal sistema. Assim, o valor que a forma recebe dá-se em relação de oposição e complementariedade. Esse valor só tem sentido se considerado dentro do sistema em que se insere e das leis gerais que o regem. Nessa perspectiva teórica, as formas funcionais são: os fonemas, os sons ou as unidades sonoras distintivas na língua. O linguista Ferdinand de Saussure (1857- 1913) foi o expoente, no conjunto de grandes estruturalistas, que reconheceu a função distintiva dos sons para a significação. (Figura 1). Figura 1 – Linguista Ferdinand de Saussure Fonte: https://bityli.com/eZ85I O fonema é então uma entidade abstrata, que existe como tal apenas na mente do falante; e a unidade sonora distintiva, no sistema linguístico. Nem toda emissão fônica tem valor distintivo no sistema. Por meio da metodologia de pares mínimos, sequência sonora com sentido diferente e que contrasta em apenas um som, o pesquisador chegará aos sons de uma língua. Nessa perspectiva, Costa (2020) explica que, por exemplo, em uma das línguas faladas no Paraná, de influência da língua polonesa, o conjunto kot [kɔt] (gato) e koń [kɔɲ] (cavalo), há diferença na sequência dos sons [t] e [ɲ], e isso comprova que esses sons são fonemas no polonês, a oclusiva /t/ e a nasal /ɲ/. A notação [t] é usada para transcrição fonética e a notação /t/ para transcrição fonológica. Se a mudança de um som não altera o significado da palavra, esse som não é um fonema na língua em questão. Outro exemplo apresentado é da língua portuguesa, com o clássico exemplo da oclusiva alveolar e seu alofone, variação de um fonema, a africada [ʧ]. O conjunto tia [tia] e [ʧia] com o mesmo significado, irmã do pai ou da mãe, comprova que o som [ʧ] não é um fonema na nossa língua, mas um alofone da oclusiva alveolar [t] no contexto de suceder uma vogal alta anterior [i]. Apenas é fonema o som que tem valor distintivo em dada língua. O fonema é a forma e suas possíveis variações funcionam como uma unidade valorativa no sistema abstrato da língua em questão. No caso do exemplo anterior do e no português, [t] e [ʧ] têm o mesmo valor no sistema, embora possam ser articulatória e acusticamente diferentes. O fonema, forma distintiva funcional, está na língua, no sistema abstrato e é uma representação mental; e a forma pronunciada, que pode variar sua produção, está na fala. A língua é o sistema subjacente que permite a realização concreta e palpável ou observável, a fala. Perfeitamente estrutural. Saussure (2012, p. 77) definiu o fonema como “a soma das impressões acústicas e dos movimentos articulatórios”. Esse conceito do fonema como traços que ocorrem em conjunto ou feixe vai ser desenvolvido após Saussure, pelo chamado Círculo Linguístico de Praga, que unia Trubetzkoy, Jakobson e Karcevsky e marcou a fundação da Fonologia, em 1928, no 1º Congresso Internacional de Linguística, realizado em Haia (COSTA, 2020). O primeiro conjunto de traços de base articulatória foi proposto por Roman Osipovich Jakobson (1896-1982), Carl Gunnar Michael Fant (1919 - 2009) e Morris Halle (1923-2018), em Preliminaries to Speech Analysis, o PSA (1976). (Figura 2). Figura 2 – Jakobson, Fant e Halle Fonte: https://linguistics.mit.edu/hallememorial/ 1.2 O Gerativismo A abordagem gerativa para o componente sonoro foi explicitada em “The Sound Pattern of English”, de Chomsky e Halle em 1968, conhecido como SPE. A teoria gerativa foi mudando com o transcorrer do tempo e passou por vários modelos, aqui nos ateremos à teoria gerativa clássica. Nela a capacidade linguística humana justifica-se biologicamente. Uma afirmativa potente desta teoria é que a espécie humana é dotada com a Gramática Universal, chamada de GU, que contém todas as possibilidades linguísticas. Nesse sentido, trata-se da característica genética para a linguagem e a base comum para todas as línguas. A aquisição linguística marca e define as especificidades da língua materna, ou línguas, pela ação desencadeante do estímulo a que a criança é exposta. Dessa forma, Costa (2020) explica que o componente gramatical divide-se em: ▪ Competência, o conhecimento inconsciente do falante, e; ▪ Desempenho, o uso efetivo em situações concretas. A competência explica porque um falante nativo de português ao confrontar- se com a frase “Pedro potechou calamente o motole” provavelmente reconhecerá que a segunda palavra e a terceira poderiam pertencer à língua portuguesa. Não existem na língua, mas suas estruturas são de verbo e de advérbio. O falante nativo, não especialista em linguagem, pode não saber definir o que é um verbo ou um advérbio, mas reconhecerá essas palavras como possíveis na língua. As palavras estão nas regras da língua portuguesa, apesar de não existirem no seu léxico. Também esse componente gramatical é dividido em módulos sucessivos: semântico>sintático> fonológico>fonético, entre os quais operam as regras gramaticais da língua em questão. A gramática gerativa pretende explicitar, além de descrever, como são geradas as formas linguísticas. Regras aplicadas na forma fonológica subjacente geram a forma fonética superficial: “O componente fonológico é, então, definido como a parte da gramática que atribui uma interpretação fonética à descrição sintática” (HERNANDORENA, 2001, p. 15). Os traços podem ser definidos então como “propriedades mínimas, de caráter acústico ou articulatório, como ‘nasalidade’, ‘sonoridade’, ‘labialidade’, ‘coronalidade’, que, de forma coocorrente, constituem os sons da língua” (HERNANDORENA, 2001, p. 17). Na representaçãoa essência da língua dos homens se dá no som da fala e que esses sons são evocados mentalmente por meio de símbolos gráficos que são usados mundialmente por conta de uma concordância de grupos de estudiosos que, para facilitar a compreensão e a leitura dos sons produzidos pelo aparelho fonador, transformam esses sons em desenhos, em gráficos. Em outros termos: Na comunicação escrita, os sons da fala (que, em essência, constituem a linguagem dos homens) passam a ser apenas evocados mentalmente por meio de símbolos gráficos; a rigor, ela não se apresenta senão como um imperfeito sucedâneo da fala. Esta é que abrange a revelação do eu em sua totalidade, pressupondo, além da significação dos vocábulos e das frases, o timbre da voz, a entoação, os elementos subsidiários do gesto e do jogo fisionômico (LIMA, 2011, p. 35) Segundo as observações de Perini (2005), é preciso compreender que o todo dessas informações forma um arcabouço de regras e sistemas a partir do qual se pode entender determinado enunciado ou determinada frase. Pensar determinada realidade linguística é pensar sobre o seu funcionamento em um determinado contexto de apreensão e sobre determinado contexto de análise. Segundo o autor, na tentativa de facilitar a compreensão da imensa estrutura da língua, os gramáticos estabeleceram diversos níveis de análises; e uma dessas análises é justamente a análise fonológica, ou seja, ao analisar uma frase ou enunciado pode-se assumir a posição de que quer observar o modo de pronuncia de cada uma das palavras que compõe aquele determinado enunciado. Ou, por outro lado, pode-se olhar para a constituição morfológica da palavra, no parágrafo que forma aquele enunciado; tem-se aí uma análise morfológica. O autor, então, exemplifica com a frase: “Ana desprezou Ricardo”. E comenta: Nesse caso, serão estudadas regras de pronúncia como a que nos obriga a pronunciar o primeiro a de Ana como um a vogal nasal, por ser tônico e estar logo antes de um a consoante nasal (o n); ou a que nos obriga a pronunciar a vogal final de Ricardo como um u, e não um o etc. A esse estudo das regras de pronúncia de um a língua se dá o nome de fonologia. Mas a mesma frase pode ser estudada de outros pontos de vista: por exemplo, descrevendo a constituição interna das palavras. Desse ponto de vista, podem os observar que a palavra desprezou é formada de mais de um elemento: a sequência desprez- mais a sequência -ou. A primeira aparece também em outras formas relacionadas, como desprezo (tanto o substantivo como a forma verbal), desprezível, desprezamos, desprezado etc.; mais a sequência -ou, que ocorre em outras formas verbais, com o amou, desmanchou etc. Existem também regras que governam a associação dessas partes de palavras (denominadas de morfemas) […] (PERINI, 2005, p. 49, grifos do autor) Assim, é possível perceber que tanto a Fonética quanto a Fonologia para além de serem consideradas ramos da Gramática – como ciência que estuda o uso da língua – é também uma ferramenta para análise do funcionamento da língua em seus variados contextos de uso. Não se pode deixar de perceber que não usar essas ferramentas de análise é deixar de entender não apenas o como, mas o para que determinada coisa serve na análise normativa do uso da linguagem. 6. ELEMENTOS DE COMPOSIÇÃO DO ALFABETO 6.1 Contextualizando o Alfabeto Em uma definição simples, podemos dizer que o alfabeto é o conjunto das letras que são representações gráficas ou sinais gráficos, como já temos observados. Como foi proposto por Cegalla, em sua Novíssima gramática da língua portuguesa (2005, p. 21), “a palavra alfabeto origina-se do nome das duas primeiras letras do alfabeto grego: alfa (a) + beta (b)”. Portanto, partindo analogicamente do nome de duas letras do alfabeto grego (Α ou α, primeira letra do alfabeto grego e B ou β, última letra do alfabeto grego) temos o nome do nosso conjunto de representações gráficas. O alfabeto grego ganhou forma e foi desenvolvido partindo do alfabeto de outro povo antigo, os fenícios; esse desenvolvimento do alfabeto fenício para o alfabeto grego e, depois, para o alfabeto de língua portuguesa vem sendo feito desde meados de mil (1.000) anos antes de Cristo (BECHARA, 2009). Os primeiros alfabetos da história da humanidade surgiram com os egípcios, portanto podemos dizer que sua história não é recente; ao contrário a história da organização e representação dos sons da língua carrega consigo um longo período de aperfeiçoamento, revisões e relações de troca com outros povos e nações. Acredita-se que os egípcios foram o primeiro povo a sentir a necessidade de uma organização gráfica de suas expressões, isso por volta do ano dois mil (2000) a. C. Assim, os primeiros símbolos foram desenvolvidos tomando por base a escrita egípcia que misturava para sua expressão figuras e símbolos, que também eram chamados de hieróglifos (na escrita cuneiforme). A escrita antiga, em especial de povos que viviam na mesopotâmia e regiões adjacentes, se caracterizavam, além de ser uma escrita muito primitiva ou rústica, ela se caracteriza pelo uso do mesmo instrumento para sua confecção – uma cunha (instrumento manual para marcação de símbolos ou desenhos) – com a qual se assinalava as marcas gráficas, ou letras, de um alfabeto. Daí a definição de que a escrita antiga era chamada de “escrita cuneiforme”, ou escrita que era feita com a instrumentalização de uma cunha (BECHARA, 2009). Grande parte das civilizações antigas tinham um alfabeto que não usavam vogais, somente consoante. Foram os gregos que começaram a mudar essa realidade com a introdução de outros símbolos. Os gregos modificaram o alfabeto fenício, acrescentando as vogais e as variantes de sua língua, bem como (a exemplo do que aconteceu com outros povos) o acréscimo de sinais de diferenciações fonéticas. Outra mudança grega foi a direção da escrita; as nações antigas escreviam da direita para a esquerda, os gregos mudaram essa dinâmica. Embora no acompanhasse a direção fenícia (da direita para a esquerda), ela foi sendo alterada até chegar ao sistema atual de esquerda para a direita. Figura 9 – Alfabeto fenício Fonte: https://bityli.com/5XASu Em uma organização que é tanto didática quanto articulatória, foi padronizado dividir o alfabeto de língua portuguesa em dois grupos principais. Ao primeiro grupo https://bityli.com/5XASu deram o nome de consoante e ao segundo grupo deram o nome de vogal (a ordem aqui estabelecida respeita a ordem como esses dois grupos serão apresentados nesse texto). As representações gráficas da nossa língua como vogais e consoantes nos coloca diante de efeitos tanto articulatórios e físicos como efeitos sonoros. Como explica o gramático Evanildo Bechara (2009): A voz humana se compõe de tons (sons musicais) e ruídos, que o nosso ouvido distingue com perfeição. Caracterizam-se os tons, quanto às condições acústicas, por suas vibrações periódicas. Esta divisão corresponde, em suas linhas gerais, às vogais (= tons) e às consoantes (= ruídos). As consoantes podem ser ruídos puros, isto é, sem vibrações regulares (correspondem às consoantes surdas), ou ruídos combinados com um tom laríngeo (consoantes sonoras). Quanto às condições fisiológicas de produção, as vogais são fonemas durante cuja articulação a cavidade bucal se acha completamente livre para a passagem do ar. As consoantes são fonemas durante cuja produção a cavidade bucal está total ou parcialmente fechada, constituindo, assim, num ponto qualquer, um obstáculo à saída da corrente expiratória (BECHARA, 2009, p. 43, 44). Como nos ensina Henriques (2012, p. 14, grifos do autor), os fonemas são os sons distintivos de uma língua, pois, “eles se organizam e se combinam em padrões vocálicos e consonantais no interior da sílaba. No entanto, como vimos, nem todo som da fala é um fonema. A passagemdo som da fala a fonema é o que se chama fonologização. A fonologização é diferente um processo diferente da “gramatização”, que acontece quando se altera o sistema fonológico de uma língua por alteração de um dos seus traços distintivos, seja por acréscimo, por desaparecimento ou por outras quaisquer alterações. Ainda, segundo Henriques (2012, p. 14), a gramatização “é um processo de mudança linguística por que passa uma forma linguística (fonema, morfema, palavra ou locução) ”. O autor prossegue em seu argumento explicando que existem três possibilidades de mudanças linguística em um fonema, morfema, palavra ou locução. A primeira é quando a forma linguística incorpora ou assume novas propriedades sintáticas, morfológicas, fonológicas ou semânticas; a segunda é quando se transforma numa forma presa e, uma terceira, é quando um desses elementos desaparece “como consequência de uma cristalização extrema”. Logo depois da assinatura do texto base do Acordo Ortográfico (1995), admitido na cidade de Lisboa – Portugal, em dezembro de 1990, estabeleceu-se algumas mudanças na escrita de palavras da Língua portuguesa, visando a uniformidade de escrita em países lusófonos (que tem como sua língua primeira a Língua portuguesa). Entre os países que assinaram o acordo estão: Angola; Brasil; Cabo Verde; Guiné-Bissau; Moçambique; Portugal e São Tomé e Príncipe, sete ao todo. Estabeleceu-se também o número de letras no alfabeto de língua portuguesa, ao todo trinta e três letras. A ou a – B ou b – C ou c – D ou d – E ou e – F ou f – G ou g – H ou h – I ou i – J ou j – K ou k – L ou l – M ou m – N ou n – O ou o – P ou p – Q ou q – R ou r – S ou s – T ou t – U ou u – V ou v – W ou w – X ou x – Y ou y – Z ou z Lembremo-nos de que o Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa acabou por incluir algumas letras que não faziam parte do alfabeto no Brasil. Essas letras são: “K”, “W” e “Y”. Elas foram usadas em apenas alguns casos especiais antes do Acordo Ortográfico. Atualmente, são tidas como elementos constituintes do alfabeto pertencente à nossa língua materna. Entretanto, quanto à função, esta continua a reger casos específicos (HENRIQUES, 2012). É correto afirmar que em sua composição, os fonemas, que posteriormente serão lidos como gráficos estáveis, ou letras, sofrem transformações em momentos variados da história. Essas transformações são constantes dependendo de situações históricas específicas. Em parte, por conta dessas mudanças é que temos mudanças no alfabeto, seja em nossa língua seja em línguas outras do mundo. 6.2 Consoante em Língua portuguesa O alfabeto da Língua portuguesa falada no Brasil é constituído de duas espécies de representações gráficas. As primeiras representações gráficas são chamadas de “Vogais” e as segundas representações gráficas são chamadas de “Consoante”. Nessa seção trataremos das consoantes e, na seção posterior, trataremos das vogais e suas variações. Começaremos perguntando aos estudiosos da língua o sentido que eles dão à palavra consoante. Para o gramático Domingos Paschoal Cegalla, autor da Nova Minigramática da Língua Portuguesa (2004) e da Novíssima Gramática da Língua Portuguesa (2005) as “consoantes são ruídos provenientes da resistência que os órgãos bucais opõem à corrente de ar […]. Como o nome diz, consoante é o fonema que soa com a vogal. As consoantes só podem formar sílabas com o auxílio das vogais”. (CEGALLA, 2004, p. 9, grifos do autor). Em outro de seus trabalhos, o mesmo autor explica como a dinâmica fisiológica acontece para produção das consoantes. Segundo ele “vindo da laringe, a corrente de ar chega à boca, na qual encontra obstáculo total ou parcial da parte dos órgãos bucais. Se o fechamento dos lábios ou a interrupção da corrente de ar é total, dá-se a oclusão; se parcial, a constrição: daí a divisão das consoantes em oclusivas e constritivas” (CEGALLA, 2005, p. 28). Na mesma corrente de estudos para entender o que é uma consoante, o gramático Evanildo Bechara, autor da Moderna Gramática Portuguesa (2009), explica que as consoantes: São fonemas durante cuja produção a cavidade bucal está total ou parcialmente fechada, constituindo, assim, num ponto qualquer, um obstáculo à saída da corrente expiratória […]. As consoantes podem ser ruídos puros, isto é, sem vibrações regulares (correspondem às consoantes surdas), ou ruídos combinados com um tom laríngeo (consoantes sonoras) (BECHARA, 2009, p. 45, 46). Apesar de os elementos acessórios variarem de um autor para o outro, os elementos principais, na conceituação do que seria uma consoante, continuam os mesmos. Então, temos as seguintes consoantes: / B /, / C /, / D /, / F /, / G /, / J /, / K /, / L /, / M /, / N /, / P /, / Q /, / R /, / S /, / T /, / V /, / W /, / X /, / Z / São dezenove sinais gráficos aos quais podemos, por seu modo de articulação, chamar de consoante. As consoantes, além das características apontadas acima pelos autores, podem ser classificadas por quatro critérios diferentes, a saber: (a) modo de articulação; (b) ponto de articulação; (c) função das cordas vocais e (d) função das cavidades bucal e nasal. Assim, podemos representar as consoantes da Língua portuguesa, da seguinte forma, de acordo com essa classificação: Figura 10 – Representação fonética e classificatória das consoantes Fonte: Cegalla (2005, p. 28). Segundo Cegalla (2005), quando as consoantes são classificadas levando-se em conta o “modo de articulação” é considerado a maneira pela qual os fonemas consonantais são articulados, elas podem ser consideradas “fricativas”, “quando o ar sai roçando ruidosamente as paredes da boca estreitada” (CEGALLA, 2005, p. 28). São dessa categoria os fonemas: F, V, Ç, S, Z, X, J; aqueles fonemas chamados de “vibrantes”. São classificados dessa forma porque para que eles sejam produzidos o ar precisa sair roçando ruidosamente as paredes da boca estreitada. São eles: o r (brando) e o R (forte). Por último, as chamadas consoantes “laterais” são aquelas que são produzidas pela passagem de ar que ao sair pela boca, encontra a língua em repouso apoiada no palato e, por isso, é forçada a sair pelas fendas laterais da boca. Equivalem a essa descrição o L e o LH. Ainda de acordo com Cegalla, as consoantes podem ser classificadas quanto ao seu “ponto de articulação”: É o lugar em que os órgãos entram em contato para a emissão do som. Quando entram em ação ou contato: ▪ os lábios, as consoantes são bilabiais: p, b, m; ▪ os lábios e os dentes, as consoantes são labiodentais: f, v; ▪ a língua e os dentes, as consoantes são linguodentais: t, d. ▪ a língua e os alvéolos, temos consoantes alveolares: s, c (= ç), Z, I, r (brando), r (forte ou múltiplo), n; ▪ o dorso da língua e o palato duro (céu da boca), as consoantes se chamam palatais: i, g (= i), x, Ih, nh; ▪ a parte posterior da língua e o véu palatino (palato mole), as consoantes denominam-se velares: c (k), q, g (guê). ▪ As consoantes produzidas pelo concurso dos mesmos órgãos denominam- se homorgânicas. Exemplos: t/ d s / Z P / b c (k) / g (guê) A classificação que respeita a “função das cordas vocais”. Quando a corrente de ar puser as cordas vocais em vibração, teremos uma consoante sonora; caso contrário, a consoante será surda. Já a “função das cavidades bucal e nasal”, ocorre quando o ar sai exclusivamente pela boca, as consoantes são orais; se, pelo abaixamento da úvula, o ar penetra nas fossas nasais, as consoantes são nasais: M, N, NH Vejamos outros exemplos de articulação e apresentação de consoantes, em especial aquelas que são apresentadas por mais de um símbolo gráfico, casos de exceção em nossa língua. (Figura 11). Figura 11 – Representação gráfica das consoantes Eainda: Fonte: Lima (2011, p. 53, 54). Existem, ainda, aqueles encontros de consoantes que, quando representados equivalem a uma só letra. A esses encontros consonantais damos o nome de “dígrafos”. Esses dígrafos são divididos em três grupos principais: (1) os dígrafos que representam uma só consoante; (2) os dígrafos que representam vogais nasais e (3) os dígrafos que aparecem no final das palavras. Veja nos exemplos como essa dinâmica acontece na prática. Exemplos do caso 1: ▪ ch: chapéu, cheio gu: (antes de e ou i): guerra, seguinte ▪ Ih: pilha, galho qu: (antes de e ou i): leque, aquilo ▪ nh: banho, ganhar se: (antes de e ou i): descer, piscina ▪ rr: barro, erro sç: (antes de a ou o): desça, cresço ▪ ss: asseio, passo xc: (antes de e ou i): exceção, excitar Exemplos do caso 2: ▪ am: tampa (tãpa) an: santa (sãta) ▪ em: tempo (tepu) en: venda (veda) ▪ im: limpo (Iipu) in: linda (lida) ▪ om: ombro (õbru) on: sonda (sõda) ▪ um: jejum (jejü) un: mundo (müdu) Exemplos do caso 3: ▪ falam (fálãu), batem (bátei), alguém (alguei), ▪ am e em não são dígrafos, porque representam um ditongo nasal, portanto, dois fonemas. Ao colocarem a questão do modelo a ser seguido no estudo dos fonemas em particular, e de outros fenômenos da linguagem, os autores do livro Fonética e fonologia do português brasileiro (2011, p. 71) colocam-nos diante de uma questão fundamental ao dizer que “o modelo de fonologia que parece mais facilmente entendido, normalmente por termos uma tradição maior na direção que vai do particular ao mais geral, é o da Fonêmica [estudado a partir de fonemas]”, ou seja, não existe um único modelo de estudo dos fenômenos linguísticos; porém, uma tradição que remonta a tempos muito distantes cimentou a compreensão de que a melhor maneira de se estudar os modelos e a articulação fonológica é por meio dos fonemas. Nas próximas páginas olharemos para as vogais. 7 VOGAIS E ENCONTROS VOCÁLICOS 7.1 Compreendendo as Vogais A dinâmica na qual o ar agressivo que sai dos pulmões e são percebidos pelo aparelho fonador e identificado, e o seu som são produzidos pelas cordas vocais, dá- se o nome de vogais. Trata-se de uma dinâmica de produção e percepção dos sons. Nas palavras de Cegalla (2004, p. 9), as vogais “são fonemas sonoros que chegam livremente ao exterior sem fazer ruído”. Lima (2011, p. 45), define as vogas como “fonemas sonoros, que se produzem pelo livre escapamento do ar pela boca e se distinguem entre si por seu timbre característico”. E acrescenta: A corrente de ar sonorizada que sai da laringe encontra, na faringe, nas fossas nasais e na boca, uma caixa de ressonância de dimensões e forma variáveis para cada vogal. Esta caixa de ressonância pode alargar-se ou estreitar-se em virtude dos movimentos dos órgãos que a constituem, mas sempre a cavidade bucal estará suficientemente aberta para que a corrente de ar passe por ela sem encontrar empecilho (LIMA, 2011, p. 45). Para que uma vogal venha a ser reconhecida como tal, uma gama de coisas acontece em todo aparelho fonador. Assim, as vogais podem ser classificadas por meio de quatro critérios que podem ser percebidos conjuntamente: ▪ Quanto à zona de articulação: anteriores, posteriores, média. ▪ Quanto ao timbre: abertas, fechadas. ▪ Quanto à ressonância nas cavidades bucal ou nasal: orais, nasais. ▪ Quanto à intensidade: tônicas, átonas. Antes, porém, de falarmos sobre o lugar de articulação das vogais e seus efeitos na construção de elementos vocálicos é preciso nos lembrar de que a diferença fundamental que existe entre as vogais e as consoantes é justamente a dinâmica da passagem do som pela boca e pela cavidade nasal, como nos explicam os autores de Fonética e fonologia do português brasileiro (2011). Nas palavras dos autores: A divisão tradicional entre vogais e consoantes em nível de articulação deve ser entendida a partir da liberação do fluxo de ar dos pulmões. Nas vogais, não há nenhum impedimento a essa passagem de ar, ou seja, os segmentos vocálicos são produzidos com o fluxo de ar passando livremente ou praticamente sem obstáculos (obstruções ou constrições) no trato vocal. Já as consoantes são articuladas a partir de alguma obstrução no trato oral, seja ela parcial ou total. Uma outra diferença entre esses dois tipos de sons é que as vogais são vozeadas, isto é, são produzidas com a vibração das pregas vocais, enquanto as consoantes podem ou não ser produzidas com vibração das pregas vocais. Assim podem ser vozeados ou não-vozeados (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 25) Não apenas o modo de articulação das vogais como também suas dinâmicas de produção são e foram largamente estudadas por estudiosos da fonética e da fonologia. Note como outros estudiosos da língua (FARACO; MOURA, 1998, p. 31) lidam com a definição de vogal, para eles “vogal é o fonema produzido pelo ar que, expelido dos pulmões, faz vibrar as cordas vocais e não encontra nenhum obstáculo na sua passagem pelo aparelho fonador”. Mas essa definição pode ser desdobrada, dando início a outras dinâmicas articulatórias. Ou seja: A articulação de vogais nasais que são produzidas com a língua na posição mais baixa necessita de um maior abaixamento do véu palatino para elas soarem como nasais. Nesse caso, há uma diferença bastante grande entre a articulação de uma vogal baixa oral e uma nasal. É o que ocorre com a vogal baixa central. Dessa forma, para representar a vogal oral emprega-se o símbolo , no entanto, devido a essa diferença articulatória (e portanto acústica), a representação de sua contraparte nasal seria mais adequada através do símbolo fonético ɐ] (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 26) Percebemos que o modo de articulação tende a determinar as classificações que uma vogal assumira nas representações articulatórias dos gráficos que representam os sons de uma determinada língua em seu contexto prático. Abaixo figura de demonstra essa dinâmica. Figura 12 – Articulação das vogais Fonte: Seara.; Nunes.; Lazzarotto-Volção (2011, P. 37). Amparado por tais definições, surgem propostas de quantificar as vogais; propostas essas que variam quanto ao número que pode ir de 5 a 23 vogais, ou mais, dependendo do teórico que se esteja estudando. Como nos esclarece Bechara (2009, p. 45), a distinção de uma vogal e de uma consoante só pode ser percebida por condições acústicas e fisiológicas; numa tentativa de imitação e simplificação dos povos gregos “os antigos gramáticos definiam a vogal pela sua função na sílaba: elemento necessário e suficiente para formar uma sílaba. E daí chegavam à conceituação deficiente de consoante: fonema sem existência independente, que só se profere com uma vogal”. Essa definição, por obvio, está equivocada, mas por muito tempo ela foi usada repetidamente. As vogais, de acordo com critérios estabelecidos internacionalmente, podem ser classificadas como vogais orais e vogais nasais. As primeiras são seguimentos vocálicos que são produzidos pela passagem de ar pela boca, sem impedimentos físicos, e as segundas são aqueles seguimentos vocálicos que são produzidos pela passagem do sem impedimentos físicos, mas pela cavidade nasal. Figura 13 – Quadro ilustrativo das vogais Fonte: Bechara (2009, p. 50). Ao tomar por ponto de partida o fato de que as diferentes línguas têm uma dinâmica própria de articulação vocálica e com o intuito de fazer comparações entre as diferentes línguas com suas dinâmicas, estabeleceu-se determinados pontos de articulação das vogais das diferentes línguas existentes. Esses pontos que foram estabelecidos partindo de limites articulatórios pré-definidos. Essas vogais que respeita essa organização são chamadas de vogais cardeais e, para início de estudo, elas não pertencem a nenhuma língua específica. Por seu turno esses vogaiscardeais foram divididos em vogais cardeais primárias e vogais cardeais secundários, dependendo do modo e do lugar na boca em que elas são produzidas (uma dinâmica diferente daquele que foi mostrada pela Figura 12). Segundo Segalla (2004, p. 25), a zona de articulação é o ponto ou a parte em que se dá o contato ou a aproximação dos órgãos que cooperam para a produção dos fonemas, no caso das vogais, a língua e o palato. Produzimos a vogal média a mantendo a língua baixa, quase em posição de descanso, e a boca entreaberta. Para passar da vogal /a/ para as anteriores (ê, ê, i), levantamos gradualmente a parte anterior da língua em direção ao palato duro, ao mesmo tempo que diminuímos a abertura da boca. Para emitir as vogais posteriores (ó, Ô, u), elevamos mais e mais a parte posterior da língua em direção ao véu palatino, arredondando progressivamente os lábios. Na emissão das vogais orais, a corrente sonora, impedida, pela úvula levantada, de chegar às cavidades nasais, ressoa apenas na boca. Na produção das vogais nasais, dá-se o abaixamento da úvula, e a corrente sonora chega, em parte, às fossas nasais e nelas ressoa (veja a Figura 14). Figura 14 - Zonas de articulação de vogais Fonte: Seara.; Nunes.; Lazzarotto-Volção (2011, p. 30, 31). As vogais tônicas são as que proferimos com maior intensidade: constituem a base das sílabas tônicas. As subtônicas proferem-se com intensidade secundária, sendo a base das sílabas subtônicas. As vogais átonas, de intensidade mínima, são a base das sílabas átonas. O timbre das vogais resulta da maior ou menor abertura da boca. Essa abertura é máxima na produção das vogais abertas (a, ê, ó), mínima na emissão das vogais fechadas (ê, Ô, i, u) e média na formação das reduzidas (veja a Figura 15). Figura 15 – Tonicidade das vogais Fonte: Seara.; Nunes.; Lazzarotto-Volção (2011, p. 46). Encontros vocálicos As vogais são, grosso modo, divididas em dois grupos, a saber, vogais e semivogais (também chamadas de “glide”, um som de transposição). As vogais, como dissemos, são aqueles sons produzidos pelo ar vindo dos pulmões sem nenhum tipo de interferência, seja labial, linguodental ou labiodental; as semivogais, por seu turno, são as vogais /i/ e /u/ sejam elas nasais ou orais representadas. Chamamos de encontros vocálicos o encontro de duas vogais na mesma sílaba (vogal + semivogal ou semivogal + vogal). Essas semivogais são representadas graficamente pelos sinais /w/ no caso do /u/ e pelo sinal /y/ no caso do /i/. Teremos então no caso do /y/ as palavras glória, pátria, diabo, área, nívea a representação é /ya/; e nas palavras cárie, calvície a representação é /ye/, e assim por diante. Os ditongos são denominados pela sua dinâmica de articulação, nesse sentido eles recebem o nome de “ditongo crescentes” e “ditongos decrescentes”. Assim, os ditongos crescentes são ditongos em que a semivogal vem antes da vogal, como nas palavras água, cárie, mágoa; enquanto que os ditongos decrescentes são aqueles nos quais os ditongos em que a vogal vem antes da semivogal como nas palavras pai, mãe, rei. Os ditongos ainda podem ser considerados quanto a sua vocalização, ou seja, eles podem ser classificados como nasais e orais; os ditongos nasais são sempre fechados, enquanto os orais podem ser abertos (pai, céu, rói, ideia) ou fechados (meu, doido, veia). Teremos como exemplos de “ditongos crescentes” as seguintes palavras: ▪ ãe: mãe, pães; ▪ ai: pai, vaidade; ▪ ãi: cãibra, pai na; ▪ ão: pão, mãos, falam (fálão); ▪ au: mau, degrau éi: fiéis, papéis; ▪ ei: rei, leite, rejeito ei: hem!, vivem, têm (tei); ▪ éu: véu, céu eu: meu, bebeu iu: viu, partiu; ▪ õe: põe, limões, ações; ▪ ói: dói, herói, constrói; ▪ oi: coitado, foi ; ▪ ou: dou, louco, estoura ui: fui, ruivo, gratuito; ▪ ui: muito (muito), muita. Temos como exemplos de “ditongos decrescentes” as seguintes palavras: ▪ ea: área, orquídea; ▪ eo: róseo, níveo; ▪ la: várias, sábia, infância; ▪ le: série, espécie, quieto; ▪ io: lírio, curioso, ópio; ▪ oa: nódoa, mágoa; ▪ ua: água, quadra; ▪ uã: quando, araquã; ▪ ue: tênue, equestre; ▪ ue: aguento, frequente; ▪ ui: sanguinário, tranquilo; ▪ ui: quinquagésimo, pinguim; ▪ uo: aquoso, vácuo. Seguindo a mesma lógica gráfico-fonética, e sob as observações de Cegalla (2005, p. 27), podemos afirmar que um tritongo é o conjunto semivogal + vogal + semivogal, formando uma só sílaba. O tritongo pode ser oral, como nas palavras: iguais, averiguei, averiguou, delinquiu, sequoia, Uruguai. Ou eles podem ser nasais, como nas palavras: quão, saguão, saguões, mínguam (mínguão), enxáguem (enxáguei), deságuam (deságuão), deságuem (deságuei). Temos, por fim, o hiato que é o encontro de duas vogais pronunciadas em dois impulsos distintos, formando sílabas diferentes. Como exemplos de hiatos temos a seguintes palavras: ▪ orta (a-or-ta); ▪ doer (do-er); ▪ voo (vo-o); ▪ creem (ere-em); ▪ passeemos (pas-se-e-mos); ▪ poeira (po-ei-ra); ▪ meeiro (me-ei-ro); ▪ fuinha (fu-i-nha); ▪ lagoa (Ia-go-a); ▪ friíssimo (fri-ís-si-mo); Ainda como observa Cegalla (2005, p. 27), “na poesia, exigências de ordem fonética ou estilística podem converter hiatos em ditongos (sinérese) ou dissolver ditongos em hiatos (diérese)”. Ou seja, quando na poesia, para respeitar a métrica dos versos, escreve-se ou pronuncia-se hiatos como ditongos, dá-se a esse movimento o nome de sinérese ou quando se dissolve ditongos e hiatos, dá-se a esse movimento o nome de diérese. 8 A PRONUNCIA CORRETA DAS PALAVRAS A gramática é um elemento sistematizador e estabilizador da língua, mas em sua dinâmica ela apresenta caminhos possíveis para usos da língua – em nosso caso a Língua portuguesa – ela funciona como uma síntese que organizam o uso da língua em áreas diversas e, os modos de organização das gramáticas dependerão dos autores que são estudados e suas pesquisas. As muitas facetas da gramática e suas características é ponto de início da nossa relação com as interfaces da língua. Mas, como nos faz lembrar Mário A. Perini (2005): Uma gramática é obra de síntese e, como tal, depende do estado da pesquisa em cada uma das áreas consideradas. O resultado, portanto, é desigual: em certos pontos, é possível incluir na descrição resultados de pesquisas relevantes e razoavelmente completas; em outros casos, é preciso contentar- se com indicações mais programáticas; às vezes, nada mais se pode fazer do que definir o problema e clamar por maiores pesquisas (PERINI, 2005, p. 15). Para Castilho (2014), a língua pode ser considerada como resultante de “dispositivos sociocognitivos” (representados na figura pela sigla DSC) que, por seu turno, são regulados pela gramática e resultam nos vários discursos com os quais somos colocados constantemente em relação, sejam essas relações de ordem comunicacionais ou de análise. Castilho (2014, p. 69) afirma, ainda, que “interfaces podem ocorrer, mas não regras de dependência, ou seja, o léxico não governa a gramática, esta não governa a semântica ou o discurso, o discurso”. (Figura 16). Figura 16 – Sistema da língua Fonte: Castilho (2014, p. 69). Entre as subáreas da gramática está a Prosódia, que pode ser considerada como uma área da Fonologia, um estudo especial acerca da acentuação gráfica e suas características. Como nos ensina o professor Bechara (2009, p. 66) “Prosódia é a parte da fonética que trata da correta acentuação e entonação dos fonemas. A preocupação maior da prosódia é o conhecimento da sílaba predominante, chamada tônica”. Sob tal perspectiva, podemos dizer que há uma área da gramática chamada de fonologia e uma subárea da gramática chamada prosódia cujo intuito primeiro é silabação e acentuação gráfica com suas características próprias.Nas palavras de Lima (2011): O acento [resulta] da íntima associação de certas qualidades físicas dos sons da fala, tais como: a intensidade (maior ou menor força expiratória com que são proferidos); a altura (maior ou menor frequência com que vibram as cordas vocais); o timbre (ou metal de voz); e a quantidade (maior ou menor duração com que são emitidos). Em sentido estrito — aquele que nos interessa aqui — entende-se por acento a maior força expiratória com que uma sílaba se opõe às que lhe ficam contíguas no corpo dos vocábulos (LIMA, 2011, p. 60). Ainda, segundo Lima (2011), é possível dizer que em língua portuguesa o seu acento característico é o acento de intensidade que, em sentido comum, tem a função de assinalar, fixar e regular determinada sílaba de cada vocábulo da nossa língua, funcionando como um elemento gramatical próprio do nosso vernáculo. Ele também é capaz de diferenciar o valor morfológico e significativo de cada palavra, mesmo quando essas apresentam formas distribuídas na mesma sequência. Vejamos os exemplos que Lima (2011, p. 61) nos apresenta para ilustrar melhor o que acabamos de dizer: ▪ ira (subst.) / irá (verbo); ▪ vera (adjetivo) / verá (verbo); ▪ sábia (adjetivo) / sabia (verbo) / sabiá (substantivo). Mas esse contraste de ordem fonológica pode acontecer, também, dentro da mesma classe de palavras. Observe os exemplos abaixo: ▪ Substantivos: edito (lei) / édito (ordem judicial); ▪ Adjetivos: florido (em flor) / flórido (brilhante). 8.1 Sobre as sílabas Tomemos como ideia de partida a conceituação de que “sílaba é um fonema ou grupo de fonemas emitidos num só impulso da voz (impulso expiratório) ” (CEGALLA, 2005, p. 35), ou seja, uma sílaba é emitida quando impulsionamos o som de maneira a modelar sua passagem pela boca. Em língua portuguesa é obrigatório a formação de sílabas sempre acompanhado por uma vogal, não há em nossa língua uma sílaba formada só por consoante, ela precisa estar acompanhada por uma vogal. É perceptível o fato de que nas palavras de duas ou mais sílabas, há uma que se destaca das demais, por ser proferida com maior intensidade. Essa será aquela que chamamos de a sílaba tônica, em relação à qual as outras, pronunciadas com menos força, são — átonas. Assim, as sílabas tónicas são as sílabas fortes das palavras, enquanto que as sílabas átonas são as sílabas fracas. Em nossa língua, as palavras têm uma sílaba tónica e todas as outras serão átonas. Como nos explica Cegalla (2005, p. 37), certos vocábulos ou palavras derivadas, geralmente polissílabos, além da sílaba tônica (em que recai o acento principal ou tônico), possuem uma sílaba subtônica, com acento secundário. Nos exemplos seguintes, as sílabas subtônicas aparecem em destaque: ▪ Cafezinho; ▪ Indiazinha; ▪ Rapidamente; ▪ Comodamente. As sílabas fracas (ou átonas) podem ser classificadas como pretônica, quando vem antes da sílaba tônica, ou postônica, quando vem depois da sílaba tônica. Vejamos alguns exemplos para que tenhamos consciência de como essa dinâmica acontece. ▪ Na palavra “Montanha” temos: MON – átona / TA – tônica / NHA – átona. ▪ Na palavra “Facilmente” temos: FA – subtônica / CIL – pretônica / MEN – tônica / TE – postônica. ▪ Na palavra “Heroizinho” temos: HE – pretônico / ROI – subtônica / ZI – tônica / NHO – postônica. No que diz respeito a numeração das sílabas, podemos dizer que elas podem ser classificadas em quatro grupos, a saber, monossílabas; dissílabas; trissílabas e polissílabas. Essa classificação nos é fornecida pelas gramáticas que se preocupam em compreender a correta divisão dos vocábulos em nossa língua portuguesa. Temos então, quanto ao número de sílabas, a seguinte modo de classificação: ▪ Monossílabas - as que têm uma só sílaba: pó, luz, pães, mau, reis, boi, véus, etc. ▪ Dissílabas - as que têm duas sílabas: café, livro, leite, caixas, noites, caí, roer, etc. ▪ Trissílabas - as constituídas de três sílabas: jogador, cabeça, ouvido, circuito, etc. ▪ Polissílabas - as que têm mais de três sílabas: casamento, americano, responsabilidade, jesuíta, etc. Ainda no que diz respeito a silabação, podemos afirmar que no que diz respeito à sua posição as sílabas podem assumir uma posição de sílaba inicial; sílaba medial e sílaba final. No exemplo a seguir, usaremos a foco de nossa demonstração a palavra fonética, que na classificação numérica pode ser definida como uma polissílaba cuja tonicidade recai sobre a segunda sílaba (NÉ) e, no que diz respeito à posição, pode ser ilustrada da seguinte forma: FO - NÉ - TI – CA, onde /FO/ é a sílaba inicial, /NÉ/ é a sílaba medial, /TI/ sílaba medial e /CA/ é sílaba final 8.2 Pronúncia correta ou Ortofonia Compreender o modo correto de se pronunciar uma palavra ou vocabulário é fundamental para a ação de lidar de modo profissional ou de usos diversificados da língua. Para o professor alfabetizador, por exemplo, é absolutamente importante conhecer alguns princípios da transcrição fonética, tendo em vista que esse conhecimento poderá contribuir para uma melhor compreensão da influência fonética que se manifesta na escrita dos alfabetizandos, ou seja, na escrita daqueles que estão aprendendo a técnica da escrita. No processo de aprendizagem da escrita, é comum que eles compreendam, inicialmente, que a escrita é uma transcrição da fala, e por isso escrevem como falam, à semelhança de uma transcrição fonética. As gramáticas normativas (aquelas que tentam padronizar à língua) trabalham para preservar uma certa uniformidade da fala e essa uniformidade é preservada por meio de padrões de modos de dizer, isto é, estabelecendo padrões sobre as formas corretas de dizer uma certa palavra ou expressão da nossa língua. Essa tentativa de padronizar os modos de pronuncia de uma determinada palavra ou de vocábulos damos o nome de “ortofonia”. Como nos lembra Faraco e Moura (20, p. 63), “ortofonia é a parte da fonologia que trata da pronúncia correta das palavras, tomando como modelo o padrão da língua considerada culta”. Os autores lembram-nos ainda que a ortofonia (que atenta para a língua falada), como uma ciência da área da linguagem, não está subordinada à ortografia, que é a ciência que estabelece o modo correto de escrever e que, portanto, trabalha com a língua escrita. Algumas palavras, por conta de fatores sociais, educacionais e outros, são transcritas de uma forma e pronunciada de outra, o que resulta em uma variação da fonação de determinado vocábulo. Como nos explica Henriques (2012, p. 6, grifos do autor) “tomada em seu objetivo significativo, a serviço da comunicação, a FONAÇÃO – que é o ato humano de emitir sons vocais – se constitui como a própria fala”; geralmente expressa no modo de falar de um indivíduo ou de determinados indivíduos de determinada sociedade de falantes. Andrade e Henriques (2018) nos ensinam que existe hoje uma acalorada discussão sobre qual seria o melhor termo a ser usada quando se verifica que uma palavra ou vocábulo está sendo escrito ou falado de modo a não corresponder ao modo como ele aparece na gramática culta. Alguns tem defendido que não se pode mais falar em “erro”; mas dever-se-ia falar em “inadequação”, ou seja, quando uma falante ou usuário (no caso da língua escrita) cometesse algum equívoco no uso da língua, deveria se chamar a atenção dessa pessoa para o uso inadequado que ela está fazendo daquele termo ou vocábulo. Mas para conhecer a forma correta de pronuncia das palavras é preciso conhecer os manuais, livros e cartilhas especializadas a partir das quais é possível conhecer o que a norma culta chamara de “forma correta de pronuncia das palavras”; esse conhecimento, porém, a maioria das pessoas de fala simples não possuem, acarretando com isso essa forma inadequada de pronuncia das palavras dovernáculo. Vejamos abaixo algumas palavras e como elas são transcritas corretamente pela norma culta da Língua portuguesa. Figura 17 – Transcrição de algumas palavras Fonte: Seara; Nunes; Lazzarotto-Volção (2011, p. 101). Além daquelas características anteriormente apontadas, temos ainda o fato do nosso país ter uma extensão geográfica muito grande, o que favorece os regionalismos (os modos de dizer de cada região do país). Uma mesma palavra pode ser pronunciada de duas ou três formas diferentes dependendo da região do Brasil na qual se encontre. Essas modalizações regionais que alguns chamarão de “sotaque”, na verdade pode ser tecnicamente nominada de “variação diatópica”. Vejamos abaixo algumas palavras de dupla pronuncia que podem ser listadas em língua portuguesa: ▪ tio - [' tʃiu] e ['tiu]; ▪ dia - [´dƷiɐ] e [´diɐ]; ▪ mal - ['maw] e ['maɬ]; ▪ gol - ['gow] e ['goɬ]; ▪ baixo - ['baʃu] e ['bajʃu]; ▪ ouro - ['oɾu] e ['owɾu]; ▪ queijo - ['keƷu] e ['kejƷu]; ▪ chave - ['ʃavi] e ['ʃave]. Essas variações nos colocam diante de um desafio que nos é apontado pelos autores de Fonética e fonologia (2011), ao dizer que aqueles que trabalham como alfabetizadores precisam atentar-se par alguns elementos do funcionamento da língua, bem como para técnicas fonológicas para otimizar o modo de ensinar e de aprender daqueles que estão sendo iniciados da língua escrita. Nas palavras dos autores: É indispensável para os professores que atuam na alfabetização, quer de adultos, quer de crianças o conhecimento de Fonética e noções sobre o funcionamento da Fonologia de sua língua, para que esses professores melhor atendam às necessidades de seus alunos. Existem técnicas fonológicas que, empregadas em atividades com os alunos, podem fazê-los se debruçar com interesse sobre os fatos da língua. Além disso, é fundamental saber lidar com a variação fonético e fonológica - que sempre vai existir - e levar o aluno a compreender essas variações, para relacioná- las aos elementos gráficos. Especialmente em relação às variações fonéticas que sofrem influências de natureza social (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO- VOLÇÃO, 2011, p. 15). Assim, lidar com Fonética e Fonologia, como ciências que se debruçam no estudo da articulação física do som, da percepção desses sons produzidos e na representação gráfica e sonora desses mesmos sons, é indispensável se quisermos aumentar a nossa compreensão da língua, tanto em sua manifestação falada quanto em sua manifestação escrita. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, Cibelle Corrêa Béliche. “Por onde tá 'o tu'?” No português falado no Maranhão. Signum: Estud. Ling , Londrina, n 15/1, p. 13- 31, jun. 2012. ANDRADE, Maria Margarida de; HENRIQUES, Antonio. Língua portuguesa. São Paulo: Atlas, 2018. BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística. 3. ed. São Paulo: Parábola editorial, 2007. BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. CAMPOS, Geir. O que é tradução? 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São Paulo: DLCV/FFLCH/USP, 2020.fonológica subjacente, eles são marcadores binários, positivo ou presença e negativo ou ausência. Não vamos definir aqui todo o conjunto de traços do SPE, mas apenas aqueles que especificariam as classes principais de segmentos. Eles são três: ▪ Sonorante ou não sonorante (obstruinte); ▪ Vocálico ou não vocálico; ▪ Consonantal ou não consonantal. Sonorantes São sons produzidos com uma configuração do trato vocal no qual o vozeamento espontâneo é possível. Os obstruintes são produzidas com uma configuração que torna o vozeamento espontâneo impossível. Vocálicos São sons produzidos sem uma constrição radical no trato oral, essa constrição não excede aquela feita para produzir as vogais altas [i] e [u], e as cordas vocais estão posicionadas de modo a permitir o vozeamento espontâneo. Consonantais São sons produzidos com uma constrição radical no trato oral. Posteriormente, no próprio SPE, o traço Vocálico é substituído pelo traço Silábico, definido como um traço presente em segmentos que podem constituir pico ou núcleo de sílaba (HERNANDORENA, 2001). Este é um procedimento da teoria gerativa, a partir da observação dos fenômenos linguísticos: modificam-se os postulados. A troca do traço vocálico por silábico deu-se a partir da constatação de que, às vezes, segmentos não vocálicos podem ser núcleo de sílaba em algumas línguas. Assim a presença ou ausência desses três traços de classes principais formaria as classes naturais de sons. Por exemplo, uma vogal seria especificada como [+ sonorante, - consonantal, + silábica], já uma consoante como [-sonorante, + consonantal, - silábica]. Cada segmento tem uma especificação própria de traços fonéticos que ocorrem simultaneamente e a diferença de um traço ou mais é que diferencia os sons da fala (COSTA, 2020). As postulações de traços distintivos para os segmentos faziam-se, então, baseadas nas observações dos fenômenos, e o poder formalista e abstrato da teoria foi grande, pois as explicações para os fenômenos sonoros geravam as representações mentais. Com o desenvolvimento e a socialização crescente da tecnologia no século XX, a possibilidade de observações instrumentais realizadas em laboratórios de fonética acústica e aparelhos ultrassonográficos que permitem a observação articulatória, despontam outros tipos de abordagens teóricas para a Fonologia que consideram a observação da produção ou realização sonora. 1.3 Fonologia Gestual De acordo com os estudos feitos por Costa (2020), no campo de atuação da Fonologia de Laboratório, denominação que agrega abordagens teóricas desenvolvidas com base em técnicas de laboratório, principalmente análise fonética acústica, a Fonologia Gestual define como seu objeto de análise o gesto articulatório. A autora explica que esse gesto articulatório não deve ser confundido com os gestos feitos nas manobras articulatórias para a produção sonora, eles são caracterizações abstratas dotadas de especificação temporal. O termo Fonologia Gestual evita uma ligação mnemônica com a Fonética Articulatória e marca a especificidade teórica dessa abordagem, pois o gesto é uma oscilação abstrata em termos de uma dinâmica de tarefa que envolve os articuladores e não apenas o movimento dos articuladores implicados na atividade de fala (COSTA, 2020). Os gestos são definidos em termos de dinâmica de tarefa porque envolvem a formação e soltura de constrições no trato vocal com tempo intrínseco. O que é caracterizado dinamicamente não é o movimento isolado dos articuladores, mas, sim, o movimento de variáveis do trato. Explica-se que na Fonologia Gestual existem cinco variáveis do trato e cada uma delas caracteriza a dimensão da constrição em local e grau e os articuladores envolvidos. As ações conjuntas dos articuladores constituem as variáveis do trato que relacionadas implementam os gestos articulatórios; como o local e o grau são dimensões de uma mesma constrição, eles estão alocados na mesma linha. A seguir descrevem-se cada uma delas, no Quadro 1: Quadro 1 – Variáveis do trato na Fonologia Gestual Fonte: Costa (2020, p. 56). O gesto de protusão labial envolve assim a ação coordenada de três articuladores: lábios inferior e superior e a mandíbula. Já um gesto de corpo de língua, envolvido na produção dos sons vocálicos, envolve a ação coordenada do corpo de língua e da mandíbula. Os gestos são as unidades básicas, ou primitivos, de contraste fonológico; assim, dois itens lexicais diferem se tiverem composição gestual diferente. Essa diferença pode concretizar-se pela presença ou ausência de determinado gesto, por diferenças nos parâmetros dos gestos e por diferenças de organização dos gestos. O modo como os gestos são organizados para formar os sons da fala chama-se faseamento e é representado na teoria com a pauta gestual (COSTA, 2020). Os gestos são eventos físicos que ocorrem no tempo e no espaço e possuem duração, podendo sobrepor-se a outros gestos. Assim, a sobreposição dos gestos pode ser mínima, parcial e completa. Dessa forma, a diferente organização e a sobreposição dos gestos criam os contrastes lexicais na língua. Já a maleabilidade dos gestos, consequência de sua natureza como um sistema dinâmico, gera o contínuo gradiente observado na fala e que pode manifestar-se como variação. A mesma estrutura gestual caracteriza simultaneamente as propriedades fonológicas e as físicas. Como um sistema dinâmico, o gesto consegue representar o contínuo gradiente da fala observado por meio de análises fonéticas acústicas. Podemos citar, por exemplo, o caso da sonoridade dos sons: na observação acústica, podemos constatar a natureza não categórica dessa propriedade, determinado som pode ser surdo (sem vibração das pregas vocais) ou sonoro (com vibração das pregas vocais), mas essa propriedade é escalar, apresenta níveis de sonoridade, e não apenas dicotômica, presença versus ausência. A Fonologia Gestual incorpora, então, a natureza gradiente dos sons e, também, modela a variação como uma cristalização de mudanças na organização e na sobreposição de gestos. Importante destacar que, como toda abordagem teórica, a Fonologia Gestual foi modificando-se e apresentando novos conceitos e postulados (COSTA, 2020). 2 VARIAÇÃO LINGUÍSTICA E PRECONCEITOS LINGUÍSTICOS 2.1 Variação linguística: definição e classificação Iniciaremos o estudo introduzindo algumas noções básicas. Entende-se por variável qualquer elemento da língua que se realiza de maneiras diferentes. Por exemplo, o “r” em final de silaba é uma variável do português brasileiro porque é pronunciado de maneiras distintas: “amorrr”, “amor”, “amô”, entre outras. Já variante é cada uma dessas formas de realizar a variável. Por fim, variedade linguística é um conjunto de variantes utilizado por certo grupo. Podemos pensar, por exemplo, na variedade linguística utilizada por paulistas interioranos de alta escolaridade: eles provavelmente usam algumas variantes comuns em sua região, como o r “puxado”, mas não outras, como a troca de lh por i (eles não falam “páia”, e sim “palha”) (GUIMARÃES, 2014). Em qualquer momento histórico, como já vimos, a língua é um conjunto de variedades. As variantes que formam esses conjuntos de variedades e que se relacionam a determinada variável, podem coexistir durante anos, décadas e até séculos na língua sem que uma tome o lugar da outra. O próprio caso do r em final de sílaba é um bom exemplo disso: há muito tempo o r “puxado” da fala caipira convive com as outras realizações desse fonema (as outras variantes), e é pouco provável que uma e torne dominante em detrimento da outra. Em vários casos, porém, em decorrência de fatores linguísticos (internos ao próprio sistema) ou extralinguísticos (sociais e culturais), ou ainda de uma combinação deles, acontecede uma variante antes dominante tornar-se cada vez menos frequente, até desaparecer e ser substituída por outra, com a qual até então coexistia. Isso é o que ocorreu, por exemplo, no emprego do “vós”, que desapareceu do português brasileiro escrito e falado, permanecendo apenas em algumas práticas linguareiras muito específicas e cristalizadas, como as preces religiosas (“Bendita sois vós entre as mulheres”). Em todos os outros usos, ele foi substituído pelo pronome vocês (GUIMARÃES, 2014). Quando um fenômeno desse tipo ocorre, dizemos que houve uma variação linguística diacrônica - palavra que, como você já sabe, vem da junção dos elementos gregos diá, “ao longo de”, e Khrónos, “tempo”. Além das variações diacrônicas, existem, é claro, todas as outras que se observam em um mesmo momento do tempo: as variações linguísticas sincrônicas. Elas se dividem em quatro outros grupos: ▪ Variações diatópicas (do grego topos, “lugar”) — são aquelas relacionadas à região onde o falante nasceu ou mora; ▪ Variações diastráticas (do latim stratum, “camada”) — são aquelas relacionadas à camada ou grupo social a que pertence o falante; ▪ Variações diamésicas (do grego mésos, “meio”) - são aquelas relacionadas ao meio pelo qual se dá a comunicação: oralmente ou por escrito; ▪ Variações diafásicas (do grego phásis, “modo de falar”) – são aquelas relacionadas ao estilo: um mesmo falante é capaz de se expressar de modo mais ou menos formal, informal, rude, simpático, infantilizado e assim por diante (GUIMARÃES, 2014). Variações diatópicas (regionais) Em um país tão extenso quanto o Brasil, temos muitas variações diatópicas, ou seja, variações relacionadas à região geográfica. Elas se manifestam principalmente: ▪ Na pronúncia das palavras (sotaque) - um exemplo disso é à perda de certos fonemas na fala mineira: “mineirim” (em vez de mineirinho), “prestenção” (em vez de presta atenção), “perdacerca” (em vez de perto da cerca). Outro exemplo é o “s” chiante dos cariocas, em palavras como festa e arroz. ▪ No vocabulário - são exemplos de variações no vocabulário as palavras bergamota e mexerica, usadas em diferentes partes do país para designar a tangerina. ▪ Na maneira de conjugar os verbos e de combinar as palavras na frase - um exemplo disso é a conjugação “tu visse” em vez de tu viste. Outro exemplo é a construção “sei, não” (em vez de “não sei”). Ambas às formas são comuns em certas partes do Nordeste (GUIMARÃES, 2014). Variações diastráticas (sociais) Quando o assunto é variação linguística social, muitas pessoas imediatamente pensam no contraste entre variedades populares e variedades cultas, ou seja, entre a fala dos pouco escolarizados e a dos muito escolarizados. Contudo, as variações diastráticas vão muito além disso. Se queremos analisar as variações diastráticas em certa população, podemos considerar uma série de critérios, por exemplo: ▪ Nível de escolaridade — quanto maior o tempo de escolarização de uma pessoa, maior a probabilidade de ela falar e escrever de acordo com as regras da gramática normativa. ▪ Faixa etária — você certamente não fala como seus pais, que por sua vez não falam como os pais deles. A variação relacionada à faixa etária está diretamente ligada à mudança linguística, uma vez que, se determinada maneira de falar não passa de uma geração para a outra, é sinal de que está entrando em extinção. ▪ Sexo – se você sempre achou que homens e mulheres falavam “línguas diferentes”, de certa maneira acertou: várias pesquisas comprovam notáveis diferenças entre a expressão verbal masculina e feminina. De modo geral, as mulheres tendem a obedecer à norma padrão com mais rigor do que os homens. Elas costumam manter o “s” e o “m” como marca de plural no fim das palavras (por exemplo: as crianças nadam), enquanto eles tendem a se expressar de maneira mais relaxada, mesmo quando têm o mesmo nível de escolaridade que elas (RÚBIO, 2010). ▪ Profissão – a variante linguística típica de um grupo profissional (às vezes incompreensível para os leigos) é chamada de jargão. São exemplos disso: o “informatiquês” e o “economês”. ▪ Grupos sociais – as categorias profissionais são um tipo de agrupamento social, mas existem vários outros, especialmente entre os jovens, e cada um deles pode apresentar marcas linguísticas específicas. Pense, por exemplo, no linguajar próprio de grupos como surfistas, evangélicos, fãs de música sertaneja, fãs de quadrinhos japoneses e tantas outras “tribos” unidas por vários tipos de afinidades (GUIMARÃES, 2014). Variações diamésicas (oralidade e escrita) A oralidade tem certas características que a distinguem da expressão escrita. A principal delas diz respeito aos momentos de produção e recepção do texto: na comunicação oral, esses momentos são simultâneos - à medida que você fala, seu interlocutor ouve. Já na comunicação escrita, existe uma defasagem entre o momento de produção e o de recepção. Essa diferença fundamental traz vantagens e desvantagens para cada modalidade. A vantagem da simultaneidade na comunicação oral é que ela nos permite acionar dois importantes mecanismos. Esses mecanismos não são acionados apenas por palavras, mas também por gestos, expressões faciais, olhares. Basta nosso interlocutor nos olha com “cara de ponto de interrogação” para sabermos que não estamos sendo compreendidos (GUIMARÃES, 2014). A linguagem não verbal nos permite, também, complementar o sentido da verbal: entonação, gestos, referências a elementos do ambiente — tudo isso ajuda a tomar a comunicação oral mais clara. Já a comunicação escrita não conta com nenhum desses expedientes. O autor precisa prever todas as dúvidas que seu texto pode causar ao leitor e tentar esclarecê-las ainda no momento de produção. O leitor, por sua vez, só conta com aquele papel (ou tela) “sem vida” para recuperar os significados que o autor tentou construir. Essa falta de sincronia, por outro lado, tem suas vantagens. Podemos dizer que, se o texto oral é como uma transmissão ao vivo, o texto escrito é como um programa gravado e editado: podemos revisá-lo quantas vezes for necessário, “apagando” os erros que cometemos e apresentando o interlocutor apenas o resultado final, perfeitamente polido e retocado. Outra vantagem da comunicação escrita é que ela nos permite fazer pesquisas e consultas durante a produção — se você está preparando uma monografia para à faculdade, por exemplo, pode buscar informações em livros e textos na internet, já se estiver apresentando um seminário, só poderá contar com suas anotações e a própria memória (GUIMARÃES, 2014). A possibilidade de produzir textos mais bem-acabados gera, também, maior cobrança na expressão escrita. Em outras palavras, tendemos a ser bem menos tolerantes com erros nos textos escritos do que nos orais. Sabendo disso, as pessoas costumam tomar um cuidado maior na hora de escrever. A expressão escrita tende, por essa razão, a ser mais formal do que a oral (GUIMARÃES, 2014). Variações diafásicas (registro formal e informal) Pense em um renomado intelectual, acostumado a dar palestras e a escrever artigos acadêmicos. Nessas situações comunicativas, obviamente ele precisa obedecer com rigor à norma padrão. É bem provável que evite gírias e expressões coloquiais. Mas, será que ele se comporta do mesmo modo quando está em casa, conversando com os filhos, ou quando escreve um bilhete para a mulher? Certamente, não. Pense, agora, em um trabalhador analfabeto que foi convocado para dar um testemunho em um tribunal. Você acha que ele vai falar na frente do juiz e dos advogados da mesma maneira que fala no trabalho, com parentes ou amigos? A resposta, mais uma vez, é não. Mesmo sem ter jamais frequentado a escola, o homem vai perceber que se trata de uma situação formal e, em consequência,vai expressar- se de maneira mais cuidada do que o habitual Que conclusão extraímos desses exemplos? Nenhum de nós usa o idioma da mesma maneira o tempo todo. Independentemente de sermos mais ou menos escolarizados, de morarmos nessa ou naquela região, de sermos jovens ou velhos, homens ou mulheres, surfistas ou roqueiros, todos nós mudamos nossa maneira de falar e escrever conforme o grau de formalidade da situação comunicativa (GUIMARÃES, 2014). As variedades linguísticas relacionadas ao nível de formalidade são chamadas de registros ou níveis de linguagem. Assim, existem registros (ou níveis de linguagem) mais e menos formais. Contudo, em vez de pensar em dois polos extremos, com a formalidade de um lado e a informalidade de outro, seria mais correto pensar em uma linha ascendente de formalidade (GUIMARÃES, 2014). 2.2 Atitudes e preconceitos linguísticos A maioria dos brasileiros não percebe disparidade entre norma culta e norma padrão. Se você ouvisse as variantes condenadas pela norma padrão, provavelmente não notaria nada de errado nelas. Analise, agora, as frases a seguir: Tem menas gente na sala de espera. A professora passou este exercício para mim fazer. Eu “truxe” pão com queijo. Posso “ponhá” mais água no feijão? A gente vamos de trem para o litoral. Ao ler ou ouvir cada uma dessas construções, você e a grande maioria dos brasileiros escolarizados não teriam dúvidas: elas estão erradas. Você já deve estar adivinhando a razão disso, que na verdade é muito simples: as construções dessas frases são utilizadas por pessoas pobres, de baixo ou nenhum prestígio social. Bagno (2007, p. 142) chama essas construções de traços graduais, ou seja, são traços linguísticos “que aparecem na fala de todos os brasileiros, independentemente de sua origem social, regional etc.”. Outra classificação apresentada pelo autor são os dos traços descontínuos, ou seja, “aqueles que aparecem principalmente na fala dos brasileiros de origem social humilde, de pouca ou nenhuma escolaridade, de antecedentes rurais etc.” (BAGNO, 2007, p. 142). A Figura 3 representa visualmente a relação entre esses dois grandes conjuntos de traços linguísticos. Nela, os traços graduais aparecem desde a base até o topo da pirâmide socioeconômica. Em contrapartida, os traços descontínuos estão presentes apenas na base dela, ou seja, nas variedades linguísticas faladas pelas camadas menos favorecidas. Figura 3 – Traços linguísticos Fonte: Bagno (2007) Por estarem associadas aos grupos sociais sobre os quais recai a maior carga de discriminação, essas são variedades estigmatizadas, isto é, variedades em relação às quais as pessoas em geral mantêm uma atitude desfavorável, de rejeição e desprezo. A elas se opõem às variedades prestigiadas (ou normas urbanas de prestígio, termo que, como já comentamos, vem substituindo norma culta), estas, mesmo estando em desconformidade com a norma padrão, não são vistas como erradas, porque são associadas a grupos sociais diante dos quais se tem, em geral, uma atitude favorável, de respeito e aprovação (GUIMARÃES, 2014). Pela análise desses fatos, percebemos que as atitudes linguísticas dos falantes, isto é, as avaliações que eles fazem de uma língua ou de uma variedade linguística, não costumam ser objetivas nem científicas. Elas se baseiam em ideias que essas pessoas já têm, previamente, acerca dos grupos que usam tal língua ou variedade. Se esta é utilizada por um grupo de prestígio social, será prestigiada também; se é praticada por um grupo estigmatizado, será discriminada também. Como os falantes em geral adotam essas atitudes linguísticas com base em prejulgamentos, sem questioná-los nem refletir sobre eles, muitas vezes nos referimos a elas como preconceitos linguísticos. É interessante notar que o preconceito pode ser tanto positivo como negativo (GUIMARÃES, 2014). Em primeiro lugar, por todos os motivos que vimos analisando desde o início desta unidade, não existe um lugar do Brasil onde se fala um “português mais correto” do que nos outros. Existem, isso sim, lugares onde predominam variantes prestigiadas, e outros onde predominam variantes estigmatizadas. 3 FONÉTICA OU FONOLOGIA Quando se tenta pensar em Fonética e Fonologia, geralmente tem-se alguma dificuldade em entender de forma clara a divisão que existe, ou pode existir, entre essas duas vertentes dos estudos da produção e captação dos sons em matéria de Língua portuguesa e construção de linguagem. Como pode ser percebido, “a maior parte da literatura que trata de Fonética e Fonologia vem tentando fazer uma distinção entre elas que não tem convencido aqueles que se aventuram nessas áreas” (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 11); uma vez que um dos grandes desafios do estudo tanto da Fonética como da Fonologia é, justamente, fazer diferenciação entre os objetos de estudo de uma e o objeto de estudo de outra ciência. Caminharemos para tentar diferenciar os objetos de estudo das duas disciplinas. 3.1 Breve história da Fonética e da Fonologia Como nos ensina Souza (2012), a história dos estudos sobre a linguagem, o conhecimento e práticas acerca da produção e manifestação dos sons da fala, sempre pendularam (se movimentaram) entre dois extremos; por uma lado havia aqueles que não se interessavam em estudar os caminhos e aplicações dos sons em suas manifestações fisiológicas e, por outro lado, havia aqueles que se interessavam muitíssimo pela produção e articulação dos sons da fala a ponto de esquecer-se de outros elementos importante na compreensão dos sons produzidos pelo aparelho fonador e como esses sons eram captados pelos ouvidos humanos. Esses dos grupos entraram em uma verdadeira batalha para tentar convencer um ao outro sobre qual era o campo de estudos da produção dos sons mereciam maior atenção para os estudiosos e intelectuais que trabalhavam com essa perspectiva dos estudos linguísticos. E o autor continua dizendo que: Com a descoberta da gramática do sânscrito, a gramática de Pânini, no começo do século XIX, novos horizontes foram descortinados, particularmente, à fonética, por meio do estudo detalhado apresentado nessa gramática sobre a articulação dos sons do sânscrito. O refinamento com que os sons são descritos por Pânini fez com que se elucidassem as ideias que os estudiosos europeus possuíam da fonética. Esses eram levados, muitas vezes, a confundir os sons vocais com as letras que os representavam na escrita, o que pode ser constatado na “gramática de Port-Royal”, de Arnald e Lancelot […] (SOUZA, 2012, p. 2). Mas não é possível pensar a ciência linguística, sejam quais forem as vertentes que se estude, sem pensar em um dos maiores intelectuais dos estudos do funcionamento da língua, o linguista suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913). Ao estudar os elementos e funcionamento da língua, Saussure desenvolveu novos parâmetros para a linguística como um todo, colocando diante dos estudiosos novos elementos de análise e reflexão, bem como novos parâmetros para essas análises. Suas reflexões e ensinamentos foram organizadas e publicadas, depois da sua morte, pelos seus alunos que anotaram, organizaram e trouxeram a público o conteúdo de suas aulas. Essas anotações com o conteúdo das aulas do mestre suíço foram publicadas sob o nome de Curso de Linguística Geral, no ano de 1916; o que tornou possível a popularizou das ideias linguísticas com as quais Saussure trabalhou durante toda a sua vida acadêmica. O livro trouxe grandes contribuições para o estudo da linguística como ciência, em especial quando o estudioso estabelece sua conhecida dicotomia entre “língua” e “fala” como elementos constituintes e distintos da linguagem. Figura 4 – Imagem rústica do aparelho fonador Fonte: BECHARA (2009, p. 43). Para Saussure (2006)a “língua” era compreendida como um sistema de signos que apresentam sua própria ordem particular de representação e execução; enquanto que a “fala” era estudada como um elemento individual, pragmático e histórico, portanto pertencente ao indivíduo, à pessoa. Como nos lembra Souza (2012, p. 3), “a partir da dicotomia língua/fala, é definido, para Saussure, o lugar dos estudos dos sons em seus aspectos fisiológicos” no que diz respeito aos aspectos que lidam com à história das transformações linguísticas e sua produção. Saussure chama de Fonologia a fisiologia dos sons, portanto ela olha para os mecanismos físicos de produção do som; a Fonética, por sua vez, na concepção do linguista, deve designar o estudo das evoluções dos sons, ou seja, ser uma ciência histórica, diacrônica ao tratar da evolução da língua e a produção dos sons em um período mais abrangente dos estudos temporais. Ou, em palavras do próprio Saussure (2006, p. 43), a “Fonologia se coloca fora do tempo, já que o mecanismo da articulação permanece sempre igual a si mesmo [e a Fonética] é uma das partes essenciais da ciência da língua; à Fonologia, cumpre repetir, não passa de disciplina auxiliar e só se refere à fala”. Apesar dos esforços de Saussure na caracterização dessas duas ciências – Fonética e Fonologia – foram apenas com os trabalhos do russo Nikolay S. Trubetzkoy (1890-1938) que houve uma delimitação sistemática sobre o alcance e as práticas concernentes à Fonética e a Fonologia. Segundo o teórico russo, “a fonologia não objetiva estudar os sons, mas os fonemas, os elementos imateriais constitutivos do significante linguístico. O fonólogo considera o som como a realização fonética do fonema, um símbolo material do mesmo” (SOUZA, 2012, p. 5). Assim, podem ser estabelecidas as áreas de atuação tanto da fonética quanto da fonologia, com disciplinas que estão irmanadas, mas ao mesmo tempo separadas pelos objetos que estão sob responsabilidade de cada uma delas. Para Trubetzkoy (apud SOUZA, 2012, p. 4, 5): Por um lado, os ‘sons’ não são fenômenos puramente físicos, mas psicofísicos por definição [...] e, por outro lado, o que distingue o fonema do som não é o seu caráter puramente psíquico, mas antes seu caráter diferencial – o que faz dele um valor linguístico […] a fonética procura descobrir o que de fato se pronuncia ao falar uma língua, e a fonologia o que se crê pronunciar. O autor russo continua dizendo, em seus próprios termos, que as pesquisas realizadas pelo estudioso da língua Ferdinand de Saussure e por aqueles que continuaram o seu trabalho de pesquisa e sistematização não deram a devida atenção a aspectos fônicos da língua. A percepção de que os trabalhos do autor suíço não olhavam devidamente para as questões de produção e percepção dos sons, acabou por contribuir para o aprofundamento dos estudos posteriores das disciplinas de Fonética e Fonologia. Nas palavras de Trubetzkoy: Nem F. de Saussure nem nenhum de seus adeptos tentaram aplicar seus princípios teóricos à solução de problemas fonológicos mais ou menos complicados ou à descrição científica de um sistema fonológico concreto. Ora, é somente trabalhando com materiais concretos que se pode chegar a aperfeiçoar e pormenorizar uma teoria. Privada desta fonte de aperfeiçoamento, a teoria de F. de Saussure ficou incompleta no que diz respeito ao aspecto fônico da língua. J. Baudouin de Courtenay insistia muito menos que F. de Saussure sobre a noção de “sistema”, mas, em troca, tinha, no que diz respeito à diferença entre os “sons” e os “fonemas”, ideias mais claras do que as do mestre de Genebra. [...]. Nem F. de Saussure nem J. Baudouin de Courtenay nunca tentaram a formulação de leis fonológicas concretas (mesmo quando a existência de tais leis era consequência da noção de “sistema onde todos os seus elementos são solidários”). No que diz respeito a isto, a fonologia atual não tem predecessores entre os linguistas das gerações anteriores. (TRUBETZKOY apud SOUZA, 2012, p. 6) É preciso, sobretudo, que percebamos que o intuito primeiro de Saussure não era estudar os elementos que comporão, em momentos futuros da história dos estudos da linguagem aquilo que chamamos de Fonética e Fonologia; mas as percepções do estudioso suíço somadas aos aprofundamentos dos estudos capitaneados pelo linguista russo, acabaram por abrir caminho para uma nova ciência dentro dos estudos concernente a fala, ou seja, abriram caminho para a produção e sistematização de um conhecimento novo que a gramática chamará de Fonética. Ainda mais, nas gramáticas o conhecimento desenvolvido no decorrer do tempo sobre a produção e percepção do som, foi sistematicamente agrupado em duas áreas de estudos, a Fonética e a Fonologia. 3.2 Sobre a Fonética e a Fonologia Em sentido introdutório, é preciso que se afirme que tanto a Fonética quanto a Fonologia têm como objetos primeiro de estudo os sons da fala, o como os homens produzem esses sons; por esse motivo é difícil fazer – para não dizer impossível – fazer fonologia sem entender o que seria fonética. É preciso, portanto, observar com maior atenção para o lugar científico que cada uma dessas ciências ocupa nas subáreas das ciências da linguagem. Em sua Gramática (2009), o professor Evanildo Bechara ensina que a Fonética e a Fonologia não são disciplinas opositoras, elas não se opõem uma à outra; mas que ambas as disciplianas pertencem ao nível biológico da fala humana e ainda que, tanto uma como a outra, podem ser lotadas na categoria de elementos “psicofisicamente” condicionados, ou seja, elementos que se manifestam psicológica e fisicamente juntamente. O autor afirma que “a disciplina que estuda minuciosamente os sons da fala, as múltiplas realizações dos fonemas, chama-se fonética” (BECHARA, 2009, p. 41). E completa o seu ensino ao dizer que “a primeira [fonologia] estuda o número de oposições utilizadas e suas relações mútuas, enquanto a fonética experimental determina a natureza física e fisiológica das distinções observadas […]” (BECHARA, 2009, p. 43). Em outros termos, podemos entender que o autor está afirmando que, enquanto a fonologia preocupa-se com aquilo que está sendo produzido pelo aparelho fonador; a fonética se preocupa com o como esses sons estão sendo produzidos. Ou nas palavras de Souza (2012, p.10) “é com base [na] compreensão que Trubetzkoy, fundamentado nas teorias estruturalistas do Círculo Linguístico de Praga, dá o nome de fonética à ciência dos sons da fala e de fonologia à ciência dos sons da língua”. Quando consideramos, ainda, os ensinos da Gramática de Cunha e Cintra (2017) percebemos que os autores fazer uma distinção entre aquilo que eles chamaram de “fonética acústica”, que é a descrição dos efeitos acústicos de um fonema, e “fonética fisiológica”, de base fisiológica e articulatória. Esses estudos só são possíveis por conta do fato de que, como explicam Cunha e Cintra (2017, p. 37), “os sons de nossa fala resultam quase todos da ação de certos órgãos sobre a corrente de ar vinda dos pulmões”. As ações dos orgãos para produção dos sons e o como ela se dá chamamos de “Fonética”; já o resultado comunicativo dessas articulações, chamamos de “Fonologia”. Pensar, portanto, Fonética e Fonologia como disciplinas que operam em separados é, em todos os sentidos, o desafio que o estudioso da língua precisa enfrentar no intuíto de construir o ensino linguístico que seja consistente, não frágil. Ao tentar clarear o nosso conhecimento sobre essa matéria, os autores do livro Fonética e Fonologia (2011) argumentam que: Podemos estudar a fala a partir da sua fisiologia, ou seja, a partir dos órgãos que a produzem, tais como a língua, responsável pela articulação da maior parte dos sons da fala; e a laringe, responsável principalmente pela produção de “voz” que leva à distinção entre sons vozeados (sonoros) e não-vozeados(surdos). Podemos também estudá-la a partir dos sons gerados por esses órgãos, ou seja, com base nas propriedades sonoras (acústicas) transmitidas por esses sons. Podemos ainda examinar a fala, sob a ótica do ouvinte, ou seja, da análise e processamento da onda sonora quando realiza a tarefa de percepção dos sons, dando sentido àquilo que foi ouvido. Todos esses aspectos podem ser considerados pela Fonética (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 11, 12, grifos dos autores). Observamos, então, que os elementos constitutivos do estudo da Fonologia, considerado aqui em sentido amplo, são a produção do som e a percepção desse som pelo ouvinte, falante ou não de determinada língua. Os autores continuam suas reflexões clareando e adequando sua concepção de Fonologia nos seguintes termos: É consenso que a fala tem como principal objetivo o aporte de significado, mas, para isso, deve se constituir em uma atividade sistematicamente organizada. O estudo dessa organização, que é dependente de cada língua, é considerada Fonologia. Assim, a Fonologia pode ser vista como a organização da fala focalizando línguas específicas. Logo, poderíamos dizer que uma descrição de como segmentos vocálicos (vogais) podem ser produzidos e percebidos seria fornecida pela Fonética, já uma descrição das vogais do português brasileiro a partir de seus traços opositivos seria proporcionada pela Fonologia (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 12, grifos dos autores). Como se pode ver por aquilo que foi mostrado em parágrafos anteriores, não é uma tarefa fácil conceituar as matérias de fonética e fonologia; é assim que os autores ressalvam, ainda, que “uma outra maneira de diferenciar Fonética de Fonologia está relacionada à faceta empírica própria da Fonética” (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 12). Por último, é preciso lembrar que tanto no que diz respeito a investigação sistemática da língua quanto a organização mental da fala são possíveis, primordialmente, por meio da observação dos fenômenos linguísticos. A observação é primordial para compreensão dos fenômenos da língua. 3.3 Utilização da Fonética e da Fonologia Ressaltamos que, diferente do que acontece com aquelas línguas que são chamadas de “línguas naturais”, as línguas em que sua manifestação são desenvolvidas sem uma intervenção formal externa ou aquelas línguas que se desenvolvem sob a ausência de uma sistematização material formal, a Língua portuguesa, considerando sua vertente grega (NEVES, 2005) ou latina (BECHARA, 2009), sempre se preocupou com os objetivos práticos do estudo de certa divisão da gramática normativo-tradicional, sempre se perguntou o para quê do estudo de determinada disciplina. Como essa questão dos objetivos pelos quais devemos estudar determinado campo do conhecimento humano, colocarem-nos diante de alguns argumentos que, em matéria de conhecimento prático, nos ajudarão a entender os motivos pelos quais devemos estudar este ou aquele objeto em específico. Nos perguntaremos, então, sobre os motivos pelos quais deveríamos estudar e aprender sobre Fonética e Fonologia como ciências da linguagem. Essa categorização, vale dizer, é apenas didática, na medida em que se propõe a servir de apoio e reforço em práticas educativas formal-escolares, reforços que ajudam o estudante a desvincular o conhecimento de uma necessidade primeira. Observemos os motivos pelos quais devemos estudar Fonética e Fonologia. Alfabetização – Quando falamos de alfabelização, nos referimos ao ato através do qual um professor conduz o seu aluno na iniciação do uso de um sistema ortográfico, seja ele a língua portuguesa, a língua inglesa, a língua espanhola, etc. No intuíto de realizar essa tarefa, o alfabetizador, tanto de adultos quanto de crianças, precisa dominar as noções de Fonética e Fonologia, para tornar o seu trabalho de ensino tanto mais qualificado quanto objetivo. Com isso o professor conseguirá “levar o aluno a compreender essas variações, para relacioná-las aos elementos gráficos” da língua (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 14). Fonoaudiologia – Não costumamos pensar que o profissional fonoaudiólogo lida com alterações no processo de aquisição e apresentação dos sons da língua, ou seja, esse profissional precisa ter um conhecimento tanto fonético, na articulação sonora, quanto fonológica, na medida em que lida com problemas neurológicos e auditivos. Além do que no trabalho de reabilitação os profissionais fonoaudiólogos precisam ter domínio desses conhecimentos. Fonética Forense – Fonética forense ou investigativa é uma área que vem crescendo muito nos últimos anos e pode ser caracterizada pela verificação de sons para estabelecer relações, isto é, “tem-se trabalhado na linha de verificação de locutor que busca determinar se uma fala gravada (de uma pessoa suspeita de um crime, por exemplo) é a mesma de um criminoso” (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 14). Tradução – O profissional de tradução também vai precisar de uma ideia, ainda que básica, sobre o que é Fonética e Fonologia. Quando falamos sobre tradução e o que ela é podemos seguir aquilo que nos ensina Campos (1986) quando afirma que o verbo traduzir vem do latim e significa “conduzir ou fazer passar de um lado para o outro”. Assim, traduzir nada mais é do que “fazer passar, de uma língua para outra, um texto escrito […]. Quando o texto é oral, falado, dize-se que há ‘interpretação’, e quem a realiza então é um ‘interprete’” (CAMPOS, 1986, p. 7). Traduzir, nesse sentido, é não apenas conhecimento de língua e contexto, mas também de som e aquisição de fala. Temos percebido que há uma diferenciação semântica-conceitual entre os termos Fonética e Fonologia; percebemos também que essa conceituação está longe de ser unanimidade entre os especialistas da área; vimos ainda que é possível acordar que enquanto a Fonética opera com a produção fisiológica do som a Fonologia trabalha com a articulação e percepção do som pelo ouvinte e, por fim, compreendemos que o estudo das duas disciplinas é importante para muitas e variadas disciplinas que lidam com a língua e a linguagem, como a tradução, a fonética forense, a fonoaudiologia e a alfabetização, dentre outras. 4 APARELHO FONADOR A Fonética se ocupa primordialmente em saber sobre como os sons são produzidos pelo aparelho fonador, ou seja, quais dos órgãos do corpo humano, de forma geral, ou do aparelho produtor da voz, de forma específica, são responsáveis por tornar possível a sonorização de determinada expressão sonora, de determinado som. É oportuno lembrar que a função principal do aparelho fonador não é produzir sons de fala, mas eles servem objetivamente para respirar, mastigar, engolir, cheirar, etc. 4.1 A produção dos sons O estudo de toda essa dinâmica na articulação da voz (e aqui não se pode confundir voz, que é o som produzido pela vibração das pregas vocais, com fala, que é o ato ou efeito de falar) que é estudado em um ramo específico da fonética chamado de Fonética Articulatória. Nessa perspectiva, “a Fonética Articulatória é definida como o estudo dos sons da fala na perspectiva de suas características fisiológicas e articulatórias” (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 11). Temos, portanto, ciências diferentes para estudar ciências diferentes aos quais podemos chamar de voz e fala; que a maioria tende a considerar como se fosse a mesma coisa e, como já aprendemos, eles não são a mesma coisa. Mas para que compreendamos melhor a articulação fonética que resulta na produção dos sons, é preciso que olhemos com maior atenção para o aparelho fonador humano. Como veremos, o aparelho fonador pode ser considerado como uma estrutura importante na compreensão da produção e percepção dos sons. Produção no sentido de ele ser usado como uma ferramenta cujo o produto último é a produçãodos “sons”; mas o aparelho fonador também pode ser entendido como um mecanismo a partir do qual podemos perceber – captar – os sons produzidos pelo aparelho fonador. Em termos descritivos, é possível dizer que a corrente de ar que vem dos pulmões passa por outros órgãos do aparelho fonador resultando em espécies diferentes de deslocamentos de ar, aos quais chamamos comumente de “sons”. Em língua portuguesa, como em outros idiomas, esses sons que resultam da passagem de ar pelos órgãos do aparelho fonador podem ser catalogados e classificados, dependendo do tipo de estudos que se procura desenvolver. Mas como nos lembra o professor Evanildo Bechara (2009, p. 43), “produzimos os fonemas servindo-nos de órgão do aparelho respiratório e da parte superior do aparelho digestivo, que só secundariamente se adaptaram às exigências da comunicação, numa aquisição lenta do homem”. Como explica Bechara: Em português, como na maioria dos idiomas, os fonemas são produzidos graças à modificação que esses órgãos da fala impõem à corrente de ar que sai dos pulmões. Línguas há, entretanto, que se servem da corrente inspiratória (entrando o ar nos pulmões) para produzir fonemas, que são conhecidos pelo nome de cliques. Produzimos cliques quando fazemos os movimentos bucais, acompanhados da sucção de ar na boca, para o beijo, o muxoxo e certos estalidos como o que serve para animar a caminhada dos cavalos, mas não os utilizamos como sons da fala em português (BECHARA, 2009, p. 44). Nessa esteira, para Bechara, os órgãos que são usados pelo ser humano na produção dos sons, resultam de uma evolução histórica e paulatina para um uso secundário desses órgãos que são primordialmente utilizados para tornar possível a respiração humana. Ainda segundo Bechara (2009, p. 43), “a esses órgãos da fala, constitutivos do aparelho fonador, pertencem, além de músculos e nervos”: ▪ Os brônquios; ▪ A traqueia; ▪ A laringe (com as cordas vocais); ▪ A faringe; ▪ As fossas nasais e a boca com a língua (dividida em ápice, dorso e raiz); ▪ As bochechas; ▪ O palato duro (ou céu da boca); ▪ O palato mole (ou véu palatino) com a úvula ou campainha; ▪ Os dentes (mormente os anteriores) com os alvéolos; ▪ Os lábios. Esses órgãos estão subdivididos, de acordo com a figura abaixo (Figura 5), em “região supraglótica”, aqueles que estão acima da glota, e “região subglótica”, aqueles que estão abaixo da glota. Usando termos mais técnicos, podemos dizer que a “glote é o espaço entre as pregas vocais localizadas na laringe” (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 17). Sempre precisa haver nos estudos da fonética e da fonologia, uma relação técnico-formal para que não haja descompasso entre realidade e descrição; portanto essa é uma organização sistemática e didática. Sistemática no sentido de ser uma organização que privilegie a ordem, o modo de apresentação e formal no sentido de seguir uma forma, uma estética constante. Notemos como Cegalla (2004, p. 24) descreve as mais importantes funções dos órgãos que formam o aparelho fonador: ▪ Cordas vocais: São duas pregas musculares, elásticas, distendidas horizontalmente diante da glote. Quando vibradas, produzem fonemas sonoros. ▪ Faringe: Cavidade ligeiramente afunilada, entre a boca e a parte superior do esôfago. Conduz o ar para a boca e as fossas nasais. ▪ Úvula: Vulgarmente chamada campainha, a úvula é um apêndice flexível do véu palatino. Tem a função de fiscalizar a passagem do ar; levantando-se contra a parede posterior da faringe, intercepta a passagem do ar para as fossas nasais: o ar escoa-se pela boca e o fonema se diz oral; abaixando-se a úvula, permite que a corrente de ar se escape em parte pelas fossas nasais, produzindo-se então um fonema nasal. ▪ Boca e órgãos anexos: Podemos dizer que os fonemas nascem na laringe e se completam na boca. E isso acontece graças ao concurso das arcadas dentárias, dos alvéolos, do palato duro (ou céu da boca) e do palato mole (ou véu palatino) e, sobretudo, à atividade da língua, dos lábios e das bochechas, os quais se movimentam para modificar a corrente sonora e moldar os fonemas. A cavidade bucal atua também como caixa de ressonância dos fonemas sonoros. ▪ Fossas nasais: Cavidades situadas acima do maxilar superior, funcionam como caixa de ressonância dos fonemas nasais Mais do que observar os órgãos que formam o aparelho fonador, é preciso pensar sobre o como esses órgãos operam para que esse aparelho desenvolva aquilo que podemos chamar, em última instância, de elementos de comunicação, ou seja, mais do que descrever os elementos para efetivação da fala, pensarmos como essa dinâmica pode nos ajudar a compreender a comunicação humana. Quando nos referimos a uma organização sistemática e didática, estamos querendo dizer que em todas as vezes que tentamos descrever o funcionamento do aparelho fonador, estamos lançando, concomitantemente, descrever esses processos de forma organizada (sistemática) e de forma a proporcionar a outras pessoas a possibilidade de aprender por meio dessa descrição (didática). Acompanhe como todos esses órgãos estão organizados no aparelho fonador humano (veja a figura 5): Figura 5 – Aparelho fonador expandido Fonte: Seara; Nunes; Lazzarotto-Volção (2011, p. 18). Cabe dizer ainda que, quando consideramos os órgãos que caracterizam o aparelho fonador, eles podem ser organizados em “articuladores ativos”, aqueles que são mobilizados para realizar os diferentes sons da fala, e os “articuladores passivos” aqueles que são mobilizados na parte superior do aparelho fonador, ou seja, “compreendem o lábio superior, os dentes superiores, os alvéolos (região crespa, logo atrás dos dentes superiores), o palato duro (região central do céu da boca) e o palato mole (final do céu da boca)” (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 18). Abaixo nos ocuparemos daquela parte do aparelho fonador que chamamos de “região supraglótica” para que notemos como a dinâmica para produção do som obedece a uma lógica que é, ao mesmo tempo, simples, no que diz respeito à pratica de entrada e saída do ar, e complexa, quando consideramos a ligação entre a produção sonora e a articulação cerebral na inteligibilidade dos sons produzidos. A partir daí temos elementos variados para os quais precisamos olhar com maior atenção. Figura 6 – Esquema detalhado da região supraglótica do aparelho fonador Fonte: Seara; Nunes; Lazzarotto-Volção (2011, p. 19). 4.2 A articulação da fala A região que temos chamado de “supraglótica” é a região responsável pela articulação primordial da fala. Como nos ensinam Cunha e Cintra (2016, p. 41), “a descrição dos sons da fala (descrição fonética), para ser completa, deveria considerar sempre” alguns elementos ou relações que são primordial na articulação sistemática- prática da produção da fala. São eles: a) como eles são produzidos; b) como são transmitidos; c) como são percebidos. Nesse sentido, podemos dizer que ao olharmos para o aparelho fonador humano, percebemos uma dinâmica a partir da qual se pode perceber os elementos dinâmicos do som, ou seja, como ele é produzido; como o som é transmitido e como esse som é percebido. Explicando o funcionamento do aparelho fonador na produção da fala humana, os autores de Fonética e fonologia do português brasileiro (2011) explicam como essa dinâmica acontece passo a passo: Para que ocorra a inspiração, é necessário que o volume dos pulmões aumente. Esse aumento de volume faz com que a pressão do ar dentro dos pulmões diminua, ficando menor do que a pressão atmosférica, o que permite a entrada do fluxo de ar vindo das cavidades superiores. O movimento de deslocamento do ar é de regiões de alta pressão para regiões de baixa pressão. Em seguida, a pressão do ar passa a ser igual à da pressão atmosféricae o fluxo de ar para. Quando o volume dos pulmões diminui, na fase de expulsão do ar, há um aumento da pressão de ar dentro dos pulmões. Assim, a pressão atmosférica torna-se menor do que a pressão pulmonar e o ar se desloca para fora dos pulmões, ocorrendo a expiração. É nesse momento que a fala geralmente ocorre (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO- VOLÇÃO, 2011, p. 19). Como veremos adiante, em nossos estudos a respeito da fonética e fonologia, a articulação dos sons para a formação de representações gráficas ganharão nomes que lhe serão equivalentes (mas não exatos); esse movimento se dará por conta de convenções internacionais as quais veremos na próxima aula em nossos estudos de Fonética e Fonologia. Outro conceito do qual deveremos nos apossar é o conceito de fonema. É preciso que nos lembremos de que “fonema” não é a mesma coisa que “fala”; portanto, não se pode tomar uma coisa por outra, como veremos a seguir. 4.3 Sobre o Fonema Em um sentido mais acessível, podemos dizer que os fonemas são unidades sonoras da língua, elas podem ser consideradas as menores unidades sonoras da língua. Ou como nos explica Cegalla (2004), os fonemas, como unidades mínimas da língua, funcionam como elementos distintivos ou das palavras que compõe uma língua, diferenciando-as uma das outras. Na língua de manifestação escrita, os “fonemas” são representados por “signos”, também chamados de “sinais gráficos” aos quais chamamos de “letras”; então as letras são representações gráficas das unidades sonoras da língua. Apesar de depender em grande medida do estudioso e do desenvolvimento do seu trabalho, de pesquisa e da teoria que baliza esse trabalho, podemos afirmar que no sistema fonético do português falado no Brasil, existem aproximadamente trinta e três (33) fonemas. A guisa de lembrança, precisamos repetir que Fonema é o som produzido pelo aparelho fonador, enquanto que a Letra é um sinal gráfico representativo do som. Deste modo, enquanto para falar usamos fonemas, para escrever usamos letras. Um e outro conceito operam em esferas diferentes da expressão; um opera na esfera da fala e outro opera na esfera da escrita. Cegalla (2004, p. 21) apresenta, ainda, exemplos do funcionamento prático dos fonemas em língua portuguesa: Mala gato mal Mola mato mar Mula pato mas Somos levados a pensar que cada fonema seja representado por uma letra, mas não é assim que acontece na prática expressiva. Essa seria uma dinâmica ideal (um fonema para cada letra), mas na língua portuguesa não é assim que acontece. Veja os exemplos abaixo (entre parênteses temos fonemas de representações gráficas): ▪ A mesma letra pode representar fonemas diferentes: eXame, Xale, próXimo, seXo; Cola, Cera. ▪ O mesmo fonema pode ser figurado por letras diferentes: caSa, eXílio, coZinha; tiGela, laje. ▪ Um fonema pode ser representado por um grupo de duas letras (dígrafo): maCHado, muLHer, uNHa, miSSa, caRRo. ▪ A letra X pode representar, simultaneamente, dois fonemas diferentes: táXi (tácsi), fiXo (ficso), tóraX (tóracs). ▪ Há letras que, às vezes, não representam fonemas; funcionam apenas como notações léxicas: caMpo (cãpo), reNda (reda), regUe (U insonoro, para não se proferir reje). ▪ Usam-se letras simplesmente decorativas: não representam fonemas nem funcionam como notações léxicas. Mantiveram-se em razão da etimologia: hotel (otel), diScípulo (dicípulo), eXceção (eceção), qUina (qina). ▪ Há fonemas que, em certos casos, não se representam graficamente: bem (bei), batem (bátei), falam (fálãU). Cegalla (2004, p. 23) continua a nos lembrar de que o motivo pelo qual essas diferenças acontecem em nossa língua “e o nosso sistema ortográfico não é rigorosamente fonético, mas ainda está preso à origem das palavras. Escreve-se, por exemplo, exame, em vez de ‘ezame’, porque este substantivo vem da palavra latina examen”. Como acontece com muitas palavras em língua portuguesa, a sua escrita, ou representação gráfica, não obedecem ao som produzido pela articulação da fala, mas respeita uma tradição linguística que pode vir de outras línguas, seja ela de tradição românica ou não (línguas românicas são aquelas cuja tradição remonta o grego). A escrita de uma palavra pode obedecer aos requisitos da língua da qual ela foi importada, da qual ela foi trazida para o vocábulo de língua portuguesa. Nas palavras de Cunha e Cintra (2017, p. 38), que também tratam dessa questão dos fonemas e das letras, afirmam que, em nossa língua portuguesa, quase todos os sons da fala são produzidos por conta da expiração, pela passagem de ar dos pulmões para fora do corpo; e o autor continua dizendo que “a inspiração normalmente funciona para nós como um instante de silêncio, um momento de pausa na elocução”. Em português praticamos alguns cliques [sons], mas sem valor fonético: o beijo, que é uma bilabial inspiratória” pode ser considerado um exemplo de um som (o estralo dos lábios) que não tem representação fonética significativa. Assim, o aparelho fonador é responsável pela produção e percepção dos sons que são emitidos pela passagem do ar e, posteriormente, são representados por letras que nem sempre tem uma equivalência formal com as letras do alfabeto; este fenômeno acontece pela dinâmica de formação da Língua portuguesa em seu convencionalmente de representação dos sons. 5 FONEMA E REPRESENTAÇÃO FONÊMICA 5.1 Constituição dos Fonema Estabelecer uma diferença entre letra e fonema é necessário para que não haja nenhum tipo de confusão concernente ao material com o qual estamos lidando nessa unidade do nosso curso. Quando falamos sobre “fonema” estamos falando a respeito do resultado da ação do aparelho fonador (o aparelho responsável pela produção do som) em determinado movimento físico, que pode ser maior ou menor dependendo da força do ar que é expelido pelos pulmões e passam por vários órgãos, como cordas vocais, língua e dentes. Uma ilustração nos servirá de parâmetro para compreendermos como se dá essa dinâmica: Essa relação entre volume e pressão pode ser melhor entendida se pensarmos nos pulmões como uma sala de 2 m². Nessa sala, estão 10 pessoas (período antes de puxar o ar para dentro dos pulmões). Em função do tamanho da sala, muito provavelmente as pessoas não devem estar espremidas umas às outras. No entanto, se o número de pessoas cresce para 200, 300 (entrada de ar nos pulmões), provavelmente a pressão entre elas será grande, uma vez que agora estarão espremidas umas às outras. Vai chegar um momento em que a pressão dentro da sala será tão grande que será preciso “expulsar” as pessoas da sala para que a pressão diminua, é o momento de expulsão do ar dos pulmões. Se, do lado de fora da sala, não houver muitas pessoas, ou seja, se a pressão não for grande, as de dentro da sala poderão ser empurradas para fora e novamente a sala vai apresentar uma menor pressão entre as que nela restarem. O mesmo acontece com os pulmões, pois normalmente não expelimos todo o ar que há dentro deles (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 20). Ao expulsar o ar dos pulmões, por uma dinâmica fisiológica própria, é produzido o fonema. O gramático Mattoso Câmera (apud BECHARA, 2009) afirma que ao mesmo tempo em que o fonema tem uma dinâmica de produção semelhante em todas as suas manifestações; são também distintivos ganhando novas representações gráficas dependendo do contraste sonoro que recebem pelo aparelho fonador; em outros termos, poderíamos dizer que todo fonema é produzido pelo deslocamento do ar liberado pelos pulmões ao mesmo tempo em que eles ganham nova sonoridadedependendo dos obstáculos que encontram até ganharem novas percepções no ambiente físico. Essas novas percepções são tanto sonora como representativa em forma de gráficos. Em palavras do próprio Mattoso Câmara: O fonema, entendido como um feixe de traços distintivos, individualiza-se e ganha realidade gramatical pelo seu contraste com outros feixes em idênticos ambientes fonéticos. Não é, pois, a diferença articulatória e acústica que distingue primariamente dois fonemas, senão a possibilidade de determinarem significações distintas numa mesma situação fonética. Compreende-se assim que um mesmo fonema possa variar amplamente na sua realização, conforme o ambiente fonético ou as peculiaridades do sujeito falante (CÂMERA apud BECHARA, 2009, p. 43). Some-se a isso, o fato de que o formato das cordas vocais pode ser considerado um dos fatores determinantes para a chamada sonorização (ou vozeamento), isto é, a quantidade e qualidade de vibração das cordas vocais na produção dos sons. Essas cordas vocais variam de tamanho de pessoas para pessoa (de homem para mulher), mas apresentam em comum sua localização na laringe e sua prisão na cartilagem aritenoide. Como nos indica Viaro (2020, p. 7), “o termo ‘aritenoide’ vem do grego ‘cântaro’, isto é, ‘semelhante a um cântaro’. Além delas, existem a cartilagem tiroide (‘escudo’) e cricoide (‘anel’)”. O vazeamento determinará o lugar em que o som será produzido de forma mais fraca ou mais forte, o que resultará, em seu todo, na produção de vogais e consoantes surdas ou sonoras que serão representadas por símbolos diferentes. Ainda segundo Bechara: A fonética pode reconhecer, e realmente o faz, diversas realizações para o / t/ da série ta-te-ti-to-tu; a fonêmica não leva em conta as variações (que se chamam alofones), porque delas não tomam conhecimento os falantes de língua portuguesa. Um fonema admite uma gama variada de realizações fonéticas que vai até a conservação da integridade do vocábulo: quando isto não ocorre, diz-se que houve mudança de fonema. O /l/ admite várias realizações no Brasil, de norte a sul (e estas variantes não interessam à análise fonêmica, análise que deveria ter primazia em nosso estudo de língua); mas haverá mudança de fonemas quando se não puder fazer a oposição mal / mau (BECHARA, 2009, p. 42, 43). Nos estudos da Fonética, no que diz respeito ao aparelho fonador e sua articulação na articulação dos sons, todos as suas funções são importantes, porém dois órgãos especialmente podem ser observados com maior atenção; o primeiro e a laringe e o segundo é a boca. Como nos ensina Lima (2011), esses dois órgãos do aparelho fonador (laringe e boca) são fundamentais para nossa compreensão de como acontece a produção dos sons em nosso aparelho fonador, em sua parte superior, bem como o seu funcionamento. Nas palavras balizadas do autor apredemos que: Na parte superior da laringe existem dois pares de pequenos músculos chamados vulgarmente cordas vocais, separados por uma depressão conhecida como ventrículo de Morgagni. O papel principal, se não exclusivo, na produção da voz, cabe ao par de cordas inferior, cordas verdadeiras. Estas, que se opõem à maneira de lábios, deixam entre si uma estreita fenda, a glote, capaz de se fechar por contração dos músculos insertos nas cartilagens moles da laringe. Na boca são de notar: a língua, os dentes, os lábios e o palato, compreendendo este duas porções: o palato duro (céu da boca) e o palato mole (véu do paladar). O véu do paladar, levantando-se, intercepta a passagem do ar pelas fossas nasais (LIMA, 2011, p. 43). Conhecer o aparelho fonador e suas funções – primárias e secundárias – é importante para aquele que quer entender não apenas o funcionamento desses órgãos, mas também entender os modos pelos quais o corpo humano (por meio do aparelho fonador) produz e articula todos os sons a partir dos quais a língua portuguesa constrói, as letras, as palavras e, por último, a comunicação como um todo orgânico que é tornada real por meio do aparelho fonador e dos órgãos que o compõe. Não podemos nos esquecer de que o som só é possível por conta das articulações dos órgãos do nosso aparelho fonador, daí a importância do estudo e observação de seu desenvolvimento e funcionamento. Figura 7 – Parte superior do aparelho fonador Fonte: Seara; Nunes; Lazzarotto-Volção (2011, p. 9). O gramático Rocha Lima (2011), nos coloca diante de uma dinâmica a partir da qual ocorre a produção do som na parte superior do aparelho fonador, o que resultará em momento posterior na manifestação dos sons e que, dependendo de uma organização e percepção linguística serão tomados como fonemas, ou seja, sons que ganharão uma representação gráfica. Contudo, “à gramática, entretanto, só interessa classificar aqueles sons da fala que concorrem para distinguir uma palavra de outra; de tal sorte que eles não podem substituir-se mutuamente sem alterar o sentido das palavras onde figuram” (LIMA, 2011, p. 44). Não são todos os sons que são objeto de estudo da Fonética, mas tão somente aqueles que colaboram para distinção ou assemelhação entre palavras. Vejamos alguns exemplos de fonemas diferenciadores em palavra semelhantes, como por exemplos: faro / fero /firo; bola / cola / mola; capa / casa / cala; mal/ mar /mas. 5.2 Alfabeto fonético internacional Na tentativa de estabilizar e normatizar a representação dos sons produzidos na dinâmica da sonorização linguística nasceu o Alfabeto Fonético Internacional que contou em seus vários anos de existência com cinco versões (de 1844 à 1865) além de algumas revisões, como a que aconteceu em 2015 em nossa época. Abaixo um exemplo do Alfabeto Fonético. Como nos ensina Viaro (2020), o Quadro Fonético da International Phonetic Association (IPA), em português a Associação Internacional de Fonética, é um sistema de notação de símbolos fonéticos tendo como base a escrita alfabética latina, ou seja, a língua latina. Foi criado por um grupo de professores franceses e britânicos. Cada um dos símbolos faz referência a parâmetros articulatórios sistematicamente estudados e colocados em um sistema de representação comum. Em princípio, o sistema de símbolos do IPA permite transcrever todo o som de qualquer língua (em especial aquelas línguas que vieram do grego/latim chamadas de românicas. O objetivo do conjunto de símbolos do IPA é homogeneizar o registro escrito da notação fonética. É um sistema de símbolos amplamente utilizado nas áreas de Fonética, e também nos registros de pronúncia de dicionários, como pode ser percebido na maioria dos dicionários de língua portuguesa (VIARO, 2020). Figura 8 – Alfabeto fonético internacional Fonte: VIARO (2020, p. 3). À guisa de exemplificação podemos observar que no alfabeto fonético (Figura 8) os sons e suas produções são representados pelas colunas verticais e horizontais. Tomemos como exemplo o som “nasal” e “bilabial” /m / que em nossa figura está mostrado na coluna 1 e na linha 2, representando a nossa consoante “M”. Assim, o som do ar que passa pela traqueia e chaga a boca e que é obstaculado pelos lábios e chaga até às fossas nasais, está representado no alfabeto fonético por /m / (sempre acompanhado, na sua representação, pelos dos traços laterais), e essa mesma dinâmica acontecerá com todas as outras representações dos sons produzidos pelo aparelho fonador. Outro exemplo que podemos usar para entender como pode ser feita a leitura do Alfabeto fonético é, como se segue, aquele apresentado em forma de quadro ilustrativo por Silva (2015). Nele, o autor nos apresenta alguns exemplos usando palavras de língua portuguesa. Quadro 2 – Tabela fonêmica consonantal Fonte: SILVA, 2015, p. 136 Não podemos nos esquecer de que, como nos lembra a Gramática normativa da língua portuguesa (2011),