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FONÉTICA E FONOLOGIA DA LÍNGUA PORTUGUESA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prezado(a) aluno(a), 
O Grupo Educacional FAVENI reafirma o compromisso de oferecer uma 
formação de excelência, reconhecendo que a modalidade de estudo confere ao 
aluno autonomia e flexibilidade para organizar seus estudos de acordo com suas 
necessidades e rotina. Nesse contexto, é fundamental que o estudante estabeleça 
uma rotina de estudos disciplinada e consistente, reservando horários para leitura, 
reflexão e realização das avaliações propostas. 
Reiteramos ainda que o ambiente virtual é equiparável ao presencial no que 
concerne à troca de conhecimentos e esclarecimento de dúvidas. Assim como em 
sala de aula, onde a interação acontece espontaneamente, no semipresencial o 
diálogo deve acontecer por meio dos canais disponíveis no Portal do Aluno e nos 
encontros ao polo. Incentivamos você a utilizar esses recursos para questionar, 
esclarecer dúvidas e aprofundar seu entendimento sobre os conteúdos abordados, 
pois suas perguntas serão respondidas de forma ágil e eficiente pelo nosso suporte. 
Lembre-se de que a autonomia no processo de aprendizagem implica 
também responsabilidade. A gestão do seu tempo, o cumprimento dos prazos e a 
organização das tarefas são essenciais para o seu crescimento acadêmico. 
Aproveite a flexibilidade que o curso oferece, estabelecendo uma rotina compatível 
com seus compromissos pessoais e profissionais. 
Desejamos sucesso em sua jornada de estudos e reforçamos nossa 
disposição em apoiá-lo(a) na construção de um aprendizado sólido e significativo. 
Bons estudos! 
 
 
 
 
 
 
1 MODELOS FONOLÓGICOS 
1.1 O Estruturalismo 
Iniciamos esta unidade de aprendizagem abordando o Estruturalismo, que foi 
um marco das ciências humanas do século XX pela sua contribuição na legitimação 
do campo científico dessas áreas. Enquanto abordagem, o estruturalismo foi a 
primeira escola americana de pensamento no campo da psicologia, impactando 
inclusive no campo antropológico (COSTA, 2020). 
Uma das características da vertente estruturalistas são os estudos da estrutura 
inconsciente, uma vez que a investigação dessa estrutura permite a utilização 
consciente das formas de tal sistema. Assim, o valor que a forma recebe dá-se em 
relação de oposição e complementariedade. Esse valor só tem sentido se considerado 
dentro do sistema em que se insere e das leis gerais que o regem. Nessa perspectiva 
teórica, as formas funcionais são: os fonemas, os sons ou as unidades sonoras 
distintivas na língua. 
O linguista Ferdinand de Saussure (1857- 1913) foi o expoente, no conjunto de 
grandes estruturalistas, que reconheceu a função distintiva dos sons para a 
significação. (Figura 1). 
 
Figura 1 – Linguista Ferdinand de Saussure 
 
Fonte: https://bityli.com/eZ85I 
 
 
O fonema é então uma entidade abstrata, que existe como tal apenas na mente 
do falante; e a unidade sonora distintiva, no sistema linguístico. Nem toda emissão 
fônica tem valor distintivo no sistema. Por meio da metodologia de pares mínimos, 
sequência sonora com sentido diferente e que contrasta em apenas um som, o 
pesquisador chegará aos sons de uma língua. 
Nessa perspectiva, Costa (2020) explica que, por exemplo, em uma das línguas 
faladas no Paraná, de influência da língua polonesa, o conjunto kot [kɔt] (gato) e koń 
[kɔɲ] (cavalo), há diferença na sequência dos sons [t] e [ɲ], e isso comprova que esses 
sons são fonemas no polonês, a oclusiva /t/ e a nasal /ɲ/. A notação [t] é usada para 
transcrição fonética e a notação /t/ para transcrição fonológica. Se a mudança de um 
som não altera o significado da palavra, esse som não é um fonema na língua em 
questão. 
Outro exemplo apresentado é da língua portuguesa, com o clássico exemplo 
da oclusiva alveolar e seu alofone, variação de um fonema, a africada [ʧ]. O conjunto 
tia [tia] e [ʧia] com o mesmo significado, irmã do pai ou da mãe, comprova que o som 
[ʧ] não é um fonema na nossa língua, mas um alofone da oclusiva alveolar [t] no 
contexto de suceder uma vogal alta anterior [i]. 
 
 
Apenas é fonema o som que tem valor distintivo em dada língua. 
 
 
O fonema é a forma e suas possíveis variações funcionam como uma unidade 
valorativa no sistema abstrato da língua em questão. No caso do exemplo anterior do 
e no português, [t] e [ʧ] têm o mesmo valor no sistema, embora possam ser 
articulatória e acusticamente diferentes. 
 
 
O fonema, forma distintiva funcional, está na língua, 
no sistema abstrato e é uma representação mental; 
e a forma pronunciada, que pode variar sua produção, está na fala. 
 
 
 
A língua é o sistema subjacente que permite a realização concreta e palpável 
ou observável, a fala. Perfeitamente estrutural. Saussure (2012, p. 77) definiu o 
fonema como “a soma das impressões acústicas e dos movimentos articulatórios”. 
Esse conceito do fonema como traços que ocorrem em conjunto ou feixe vai ser 
desenvolvido após Saussure, pelo chamado Círculo Linguístico de Praga, que unia 
Trubetzkoy, Jakobson e Karcevsky e marcou a fundação da Fonologia, em 1928, no 
1º Congresso Internacional de Linguística, realizado em Haia (COSTA, 2020). 
O primeiro conjunto de traços de base articulatória foi proposto por Roman 
Osipovich Jakobson (1896-1982), Carl Gunnar Michael Fant (1919 - 2009) e Morris 
Halle (1923-2018), em Preliminaries to Speech Analysis, o PSA (1976). (Figura 2). 
 
Figura 2 – Jakobson, Fant e Halle 
 
Fonte: https://linguistics.mit.edu/hallememorial/ 
 
1.2 O Gerativismo 
A abordagem gerativa para o componente sonoro foi explicitada em “The Sound 
Pattern of English”, de Chomsky e Halle em 1968, conhecido como SPE. A teoria 
gerativa foi mudando com o transcorrer do tempo e passou por vários modelos, aqui 
nos ateremos à teoria gerativa clássica. Nela a capacidade linguística humana 
justifica-se biologicamente. 
Uma afirmativa potente desta teoria é que a espécie humana é dotada com a 
Gramática Universal, chamada de GU, que contém todas as possibilidades 
 
 
linguísticas. Nesse sentido, trata-se da característica genética para a linguagem e a 
base comum para todas as línguas. A aquisição linguística marca e define as 
especificidades da língua materna, ou línguas, pela ação desencadeante do estímulo 
a que a criança é exposta. Dessa forma, Costa (2020) explica que o componente 
gramatical divide-se em: 
 
▪ Competência, o conhecimento inconsciente do falante, e; 
▪ Desempenho, o uso efetivo em situações concretas. 
 
A competência explica porque um falante nativo de português ao confrontar-
se com a frase “Pedro potechou calamente o motole” provavelmente reconhecerá que 
a segunda palavra e a terceira poderiam pertencer à língua portuguesa. Não existem 
na língua, mas suas estruturas são de verbo e de advérbio. 
O falante nativo, não especialista em linguagem, pode não saber definir o que 
é um verbo ou um advérbio, mas reconhecerá essas palavras como possíveis na 
língua. As palavras estão nas regras da língua portuguesa, apesar de não existirem 
no seu léxico. Também esse componente gramatical é dividido em módulos 
sucessivos: semântico>sintático> fonológico>fonético, entre os quais operam as 
regras gramaticais da língua em questão. 
A gramática gerativa pretende explicitar, além de descrever, como são geradas 
as formas linguísticas. Regras aplicadas na forma fonológica subjacente geram a 
forma fonética superficial: “O componente fonológico é, então, definido como a parte 
da gramática que atribui uma interpretação fonética à descrição sintática” 
(HERNANDORENA, 2001, p. 15). Os traços podem ser definidos então como 
“propriedades mínimas, de caráter acústico ou articulatório, como ‘nasalidade’, 
‘sonoridade’, ‘labialidade’, ‘coronalidade’, que, de forma coocorrente, constituem os 
sons da língua” (HERNANDORENA, 2001, p. 17). 
Na representaçãoa essência da língua dos homens se dá no som da fala 
e que esses sons são evocados mentalmente por meio de símbolos gráficos que são 
usados mundialmente por conta de uma concordância de grupos de estudiosos que, 
para facilitar a compreensão e a leitura dos sons produzidos pelo aparelho fonador, 
transformam esses sons em desenhos, em gráficos. Em outros termos: 
 
Na comunicação escrita, os sons da fala (que, em essência, constituem a 
linguagem dos homens) passam a ser apenas evocados mentalmente por 
meio de símbolos gráficos; a rigor, ela não se apresenta senão como um 
imperfeito sucedâneo da fala. Esta é que abrange a revelação do eu em sua 
totalidade, pressupondo, além da significação dos vocábulos e das frases, o 
timbre da voz, a entoação, os elementos subsidiários do gesto e do jogo 
fisionômico (LIMA, 2011, p. 35) 
 
Segundo as observações de Perini (2005), é preciso compreender que o todo 
dessas informações forma um arcabouço de regras e sistemas a partir do qual se 
pode entender determinado enunciado ou determinada frase. Pensar determinada 
realidade linguística é pensar sobre o seu funcionamento em um determinado 
contexto de apreensão e sobre determinado contexto de análise. 
Segundo o autor, na tentativa de facilitar a compreensão da imensa estrutura 
da língua, os gramáticos estabeleceram diversos níveis de análises; e uma dessas 
análises é justamente a análise fonológica, ou seja, ao analisar uma frase ou 
enunciado pode-se assumir a posição de que quer observar o modo de pronuncia de 
cada uma das palavras que compõe aquele determinado enunciado. Ou, por outro 
lado, pode-se olhar para a constituição morfológica da palavra, no parágrafo que 
forma aquele enunciado; tem-se aí uma análise morfológica. O autor, então, 
exemplifica com a frase: “Ana desprezou Ricardo”. E comenta: 
 
Nesse caso, serão estudadas regras de pronúncia como a que nos obriga a 
pronunciar o primeiro a de Ana como um a vogal nasal, por ser tônico e estar 
logo antes de um a consoante nasal (o n); ou a que nos obriga a pronunciar 
a vogal final de Ricardo como um u, e não um o etc. A esse estudo das regras 
de pronúncia de um a língua se dá o nome de fonologia. Mas a mesma frase 
pode ser estudada de outros pontos de vista: por exemplo, descrevendo a 
constituição interna das palavras. Desse ponto de vista, podem os observar 
que a palavra desprezou é formada de mais de um elemento: a sequência 
desprez- mais a sequência -ou. A primeira aparece também em outras 
formas relacionadas, como desprezo (tanto o substantivo como a forma 
verbal), desprezível, desprezamos, desprezado etc.; mais a sequência -ou, 
que ocorre em outras formas verbais, com o amou, desmanchou etc. 
Existem também regras que governam a associação dessas partes de 
palavras (denominadas de morfemas) […] (PERINI, 2005, p. 49, grifos do 
autor) 
 
 
Assim, é possível perceber que tanto a Fonética quanto a Fonologia para além 
de serem consideradas ramos da Gramática – como ciência que estuda o uso da 
língua – é também uma ferramenta para análise do funcionamento da língua em seus 
variados contextos de uso. Não se pode deixar de perceber que não usar essas 
ferramentas de análise é deixar de entender não apenas o como, mas o para que 
determinada coisa serve na análise normativa do uso da linguagem. 
6. ELEMENTOS DE COMPOSIÇÃO DO ALFABETO 
6.1 Contextualizando o Alfabeto 
Em uma definição simples, podemos dizer que o alfabeto é o conjunto das letras 
que são representações gráficas ou sinais gráficos, como já temos observados. Como 
foi proposto por Cegalla, em sua Novíssima gramática da língua portuguesa (2005, p. 
21), “a palavra alfabeto origina-se do nome das duas primeiras letras do alfabeto 
grego: alfa (a) + beta (b)”. Portanto, partindo analogicamente do nome de duas letras 
do alfabeto grego (Α ou α, primeira letra do alfabeto grego e B ou β, última letra do 
alfabeto grego) temos o nome do nosso conjunto de representações gráficas. 
O alfabeto grego ganhou forma e foi desenvolvido partindo do alfabeto de outro 
povo antigo, os fenícios; esse desenvolvimento do alfabeto fenício para o alfabeto 
grego e, depois, para o alfabeto de língua portuguesa vem sendo feito desde meados 
de mil (1.000) anos antes de Cristo (BECHARA, 2009). 
Os primeiros alfabetos da história da humanidade surgiram com os egípcios, 
portanto podemos dizer que sua história não é recente; ao contrário a história da 
organização e representação dos sons da língua carrega consigo um longo período 
de aperfeiçoamento, revisões e relações de troca com outros povos e nações. 
Acredita-se que os egípcios foram o primeiro povo a sentir a necessidade de uma 
organização gráfica de suas expressões, isso por volta do ano dois mil (2000) a. C. 
Assim, os primeiros símbolos foram desenvolvidos tomando por base a escrita egípcia 
que misturava para sua expressão figuras e símbolos, que também eram chamados 
de hieróglifos (na escrita cuneiforme). 
A escrita antiga, em especial de povos que viviam na mesopotâmia e regiões 
adjacentes, se caracterizavam, além de ser uma escrita muito primitiva ou rústica, ela 
 
 
se caracteriza pelo uso do mesmo instrumento para sua confecção – uma cunha 
(instrumento manual para marcação de símbolos ou desenhos) – com a qual se 
assinalava as marcas gráficas, ou letras, de um alfabeto. Daí a definição de que a 
escrita antiga era chamada de “escrita cuneiforme”, ou escrita que era feita com a 
instrumentalização de uma cunha (BECHARA, 2009). 
Grande parte das civilizações antigas tinham um alfabeto que não usavam 
vogais, somente consoante. Foram os gregos que começaram a mudar essa realidade 
com a introdução de outros símbolos. Os gregos modificaram o alfabeto fenício, 
acrescentando as vogais e as variantes de sua língua, bem como (a exemplo do que 
aconteceu com outros povos) o acréscimo de sinais de diferenciações fonéticas. 
Outra mudança grega foi a direção da escrita; as nações antigas escreviam da 
direita para a esquerda, os gregos mudaram essa dinâmica. Embora no 
acompanhasse a direção fenícia (da direita para a esquerda), ela foi sendo alterada 
até chegar ao sistema atual de esquerda para a direita. 
 
Figura 9 – Alfabeto fenício 
 
Fonte: https://bityli.com/5XASu 
Em uma organização que é tanto didática quanto articulatória, foi padronizado 
dividir o alfabeto de língua portuguesa em dois grupos principais. Ao primeiro grupo 
https://bityli.com/5XASu
 
 
deram o nome de consoante e ao segundo grupo deram o nome de vogal (a ordem 
aqui estabelecida respeita a ordem como esses dois grupos serão apresentados 
nesse texto). As representações gráficas da nossa língua como vogais e consoantes 
nos coloca diante de efeitos tanto articulatórios e físicos como efeitos sonoros. Como 
explica o gramático Evanildo Bechara (2009): 
 
A voz humana se compõe de tons (sons musicais) e ruídos, que o nosso 
ouvido distingue com perfeição. Caracterizam-se os tons, quanto às 
condições acústicas, por suas vibrações periódicas. Esta divisão 
corresponde, em suas linhas gerais, às vogais (= tons) e às consoantes (= 
ruídos). As consoantes podem ser ruídos puros, isto é, sem vibrações 
regulares (correspondem às consoantes surdas), ou ruídos combinados com 
um tom laríngeo (consoantes sonoras). Quanto às condições fisiológicas de 
produção, as vogais são fonemas durante cuja articulação a cavidade bucal 
se acha completamente livre para a passagem do ar. As consoantes são 
fonemas durante cuja produção a cavidade bucal está total ou parcialmente 
fechada, constituindo, assim, num ponto qualquer, um obstáculo à saída da 
corrente expiratória (BECHARA, 2009, p. 43, 44). 
 
Como nos ensina Henriques (2012, p. 14, grifos do autor), os fonemas são os 
sons distintivos de uma língua, pois, “eles se organizam e se combinam em padrões 
vocálicos e consonantais no interior da sílaba. No entanto, como vimos, nem todo som 
da fala é um fonema. 
A passagemdo som da fala a fonema é o que se chama fonologização. A 
fonologização é diferente um processo diferente da “gramatização”, que acontece 
quando se altera o sistema fonológico de uma língua por alteração de um dos seus 
traços distintivos, seja por acréscimo, por desaparecimento ou por outras quaisquer 
alterações. 
Ainda, segundo Henriques (2012, p. 14), a gramatização “é um processo de 
mudança linguística por que passa uma forma linguística (fonema, morfema, palavra 
ou locução) ”. O autor prossegue em seu argumento explicando que existem três 
possibilidades de mudanças linguística em um fonema, morfema, palavra ou locução. 
A primeira é quando a forma linguística incorpora ou assume novas propriedades 
sintáticas, morfológicas, fonológicas ou semânticas; a segunda é quando se 
transforma numa forma presa e, uma terceira, é quando um desses elementos 
desaparece “como consequência de uma cristalização extrema”. 
Logo depois da assinatura do texto base do Acordo Ortográfico (1995), admitido 
na cidade de Lisboa – Portugal, em dezembro de 1990, estabeleceu-se algumas 
 
 
mudanças na escrita de palavras da Língua portuguesa, visando a uniformidade de 
escrita em países lusófonos (que tem como sua língua primeira a Língua portuguesa). 
Entre os países que assinaram o acordo estão: Angola; Brasil; Cabo Verde; 
Guiné-Bissau; Moçambique; Portugal e São Tomé e Príncipe, sete ao todo. 
Estabeleceu-se também o número de letras no alfabeto de língua portuguesa, ao todo 
trinta e três letras. 
 
 
A ou a – B ou b – C ou c – D ou d – E ou e – F ou f – 
G ou g – H ou h – I ou i – J ou j – K ou k – L ou l – M ou m – 
N ou n – O ou o – P ou p – Q ou q – R ou r – S ou s – T ou t – 
 U ou u – V ou v – W ou w – X ou x – Y ou y – Z ou z 
 
 
Lembremo-nos de que o Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa acabou por 
incluir algumas letras que não faziam parte do alfabeto no Brasil. Essas letras são: 
“K”, “W” e “Y”. Elas foram usadas em apenas alguns casos especiais antes do Acordo 
Ortográfico. Atualmente, são tidas como elementos constituintes do alfabeto 
pertencente à nossa língua materna. Entretanto, quanto à função, esta continua a 
reger casos específicos (HENRIQUES, 2012). 
É correto afirmar que em sua composição, os fonemas, que posteriormente 
serão lidos como gráficos estáveis, ou letras, sofrem transformações em momentos 
variados da história. Essas transformações são constantes dependendo de situações 
históricas específicas. Em parte, por conta dessas mudanças é que temos mudanças 
no alfabeto, seja em nossa língua seja em línguas outras do mundo. 
6.2 Consoante em Língua portuguesa 
O alfabeto da Língua portuguesa falada no Brasil é constituído de duas 
espécies de representações gráficas. As primeiras representações gráficas são 
 
 
chamadas de “Vogais” e as segundas representações gráficas são chamadas de 
“Consoante”. Nessa seção trataremos das consoantes e, na seção posterior, 
trataremos das vogais e suas variações. Começaremos perguntando aos estudiosos 
da língua o sentido que eles dão à palavra consoante. 
Para o gramático Domingos Paschoal Cegalla, autor da Nova Minigramática da 
Língua Portuguesa (2004) e da Novíssima Gramática da Língua Portuguesa (2005) 
as “consoantes são ruídos provenientes da resistência que os órgãos bucais opõem 
à corrente de ar […]. Como o nome diz, consoante é o fonema que soa com a vogal. 
As consoantes só podem formar sílabas com o auxílio das vogais”. (CEGALLA, 2004, 
p. 9, grifos do autor). 
Em outro de seus trabalhos, o mesmo autor explica como a dinâmica fisiológica 
acontece para produção das consoantes. Segundo ele “vindo da laringe, a corrente 
de ar chega à boca, na qual encontra obstáculo total ou parcial da parte dos órgãos 
bucais. Se o fechamento dos lábios ou a interrupção da corrente de ar é total, dá-se a 
oclusão; se parcial, a constrição: daí a divisão das consoantes em oclusivas e 
constritivas” (CEGALLA, 2005, p. 28). 
Na mesma corrente de estudos para entender o que é uma consoante, o 
gramático Evanildo Bechara, autor da Moderna Gramática Portuguesa (2009), explica 
que as consoantes: 
 
São fonemas durante cuja produção a cavidade bucal está total ou 
parcialmente fechada, constituindo, assim, num ponto qualquer, um obstáculo 
à saída da corrente expiratória […]. As consoantes podem ser ruídos puros, 
isto é, sem vibrações regulares (correspondem às consoantes surdas), ou 
ruídos combinados com um tom laríngeo (consoantes sonoras) (BECHARA, 
2009, p. 45, 46). 
 
Apesar de os elementos acessórios variarem de um autor para o outro, os 
elementos principais, na conceituação do que seria uma consoante, continuam os 
mesmos. Então, temos as seguintes consoantes: 
 
 
/ B /, / C /, / D /, / F /, / G /, / J /, / K /, / L /, / M /, 
/ N /, / P /, / Q /, / R /, / S /, / T /, / V /, / W /, / X /, / Z / 
 
 
 
 
São dezenove sinais gráficos aos quais podemos, por seu modo de articulação, 
chamar de consoante. As consoantes, além das características apontadas acima 
pelos autores, podem ser classificadas por quatro critérios diferentes, a saber: 
 
(a) modo de articulação; 
(b) ponto de articulação; 
(c) função das cordas vocais e 
(d) função das cavidades bucal e nasal. 
 
Assim, podemos representar as consoantes da Língua portuguesa, da seguinte 
forma, de acordo com essa classificação: 
Figura 10 – Representação fonética e classificatória das consoantes 
 
Fonte: Cegalla (2005, p. 28). 
Segundo Cegalla (2005), quando as consoantes são classificadas levando-se 
 
 
em conta o “modo de articulação” é considerado a maneira pela qual os fonemas 
consonantais são articulados, elas podem ser consideradas “fricativas”, “quando o ar 
sai roçando ruidosamente as paredes da boca estreitada” (CEGALLA, 2005, p. 28). 
São dessa categoria os fonemas: F, V, Ç, S, Z, X, J; aqueles fonemas 
chamados de “vibrantes”. São classificados dessa forma porque para que eles sejam 
produzidos o ar precisa sair roçando ruidosamente as paredes da boca estreitada. 
São eles: o r (brando) e o R (forte). 
Por último, as chamadas consoantes “laterais” são aquelas que são produzidas 
pela passagem de ar que ao sair pela boca, encontra a língua em repouso apoiada no 
palato e, por isso, é forçada a sair pelas fendas laterais da boca. Equivalem a essa 
descrição o L e o LH. Ainda de acordo com Cegalla, as consoantes podem ser 
classificadas quanto ao seu “ponto de articulação”: É o lugar em que os órgãos entram 
em contato para a emissão do som. Quando entram em ação ou contato: 
 
 
▪ os lábios, as consoantes são bilabiais: p, b, m; 
▪ os lábios e os dentes, as consoantes são labiodentais: f, v; 
▪ a língua e os dentes, as consoantes são linguodentais: t, d. 
▪ a língua e os alvéolos, temos consoantes alveolares: s, c (= ç), Z, I, r 
(brando), r (forte ou múltiplo), n; 
▪ o dorso da língua e o palato duro (céu da boca), as consoantes se chamam 
palatais: i, g (= i), x, Ih, nh; 
▪ a parte posterior da língua e o véu palatino (palato mole), as consoantes 
denominam-se velares: c (k), q, g (guê). 
▪ As consoantes produzidas pelo concurso dos mesmos órgãos denominam-
se homorgânicas. Exemplos: 
 
 
t/ d s / Z P / b c (k) / g (guê) 
 
 
A classificação que respeita a “função das cordas vocais”. Quando a corrente 
de ar puser as cordas vocais em vibração, teremos uma consoante sonora; caso 
 
 
contrário, a consoante será surda. Já a “função das cavidades bucal e nasal”, ocorre 
quando o ar sai exclusivamente pela boca, as consoantes são orais; se, pelo 
abaixamento da úvula, o ar penetra nas fossas nasais, as consoantes são nasais: M, 
N, NH 
Vejamos outros exemplos de articulação e apresentação de consoantes, em 
especial aquelas que são apresentadas por mais de um símbolo gráfico, casos de 
exceção em nossa língua. (Figura 11). 
 
Figura 11 – Representação gráfica das consoantes 
 
 
Eainda: 
 
 
 
Fonte: Lima (2011, p. 53, 54). 
Existem, ainda, aqueles encontros de consoantes que, quando representados 
equivalem a uma só letra. A esses encontros consonantais damos o nome de 
“dígrafos”. Esses dígrafos são divididos em três grupos principais: 
 
(1) os dígrafos que representam uma só consoante; 
(2) os dígrafos que representam vogais nasais e 
(3) os dígrafos que aparecem no final das palavras. 
 
Veja nos exemplos como essa dinâmica acontece na prática. 
Exemplos do caso 1: 
▪ ch: chapéu, cheio gu: (antes de e ou i): guerra, seguinte 
▪ Ih: pilha, galho qu: (antes de e ou i): leque, aquilo 
▪ nh: banho, ganhar se: (antes de e ou i): descer, piscina 
▪ rr: barro, erro sç: (antes de a ou o): desça, cresço 
▪ ss: asseio, passo xc: (antes de e ou i): exceção, excitar 
Exemplos do caso 2: 
▪ am: tampa (tãpa) an: santa (sãta) 
▪ em: tempo (tepu) en: venda (veda) 
▪ im: limpo (Iipu) in: linda (lida) 
▪ om: ombro (õbru) on: sonda (sõda) 
▪ um: jejum (jejü) un: mundo (müdu) 
Exemplos do caso 3: 
 
 
▪ falam (fálãu), batem (bátei), alguém (alguei), 
▪ am e em não são dígrafos, porque representam um ditongo nasal, portanto, 
dois fonemas. 
Ao colocarem a questão do modelo a ser seguido no estudo dos fonemas em 
particular, e de outros fenômenos da linguagem, os autores do livro Fonética e 
fonologia do português brasileiro (2011, p. 71) colocam-nos diante de uma questão 
fundamental ao dizer que “o modelo de fonologia que parece mais facilmente 
entendido, normalmente por termos uma tradição maior na direção que vai do 
particular ao mais geral, é o da Fonêmica [estudado a partir de fonemas]”, ou seja, 
não existe um único modelo de estudo dos fenômenos linguísticos; porém, uma 
tradição que remonta a tempos muito distantes cimentou a compreensão de que a 
melhor maneira de se estudar os modelos e a articulação fonológica é por meio dos 
fonemas. Nas próximas páginas olharemos para as vogais. 
7 VOGAIS E ENCONTROS VOCÁLICOS 
7.1 Compreendendo as Vogais 
A dinâmica na qual o ar agressivo que sai dos pulmões e são percebidos pelo 
aparelho fonador e identificado, e o seu som são produzidos pelas cordas vocais, dá-
se o nome de vogais. Trata-se de uma dinâmica de produção e percepção dos sons. 
Nas palavras de Cegalla (2004, p. 9), as vogais “são fonemas sonoros que chegam 
livremente ao exterior sem fazer ruído”. Lima (2011, p. 45), define as vogas como 
“fonemas sonoros, que se produzem pelo livre escapamento do ar pela boca e se 
distinguem entre si por seu timbre característico”. E acrescenta: 
 
A corrente de ar sonorizada que sai da laringe encontra, na faringe, nas 
fossas nasais e na boca, uma caixa de ressonância de dimensões e forma 
variáveis para cada vogal. Esta caixa de ressonância pode alargar-se ou 
estreitar-se em virtude dos movimentos dos órgãos que a constituem, mas 
sempre a cavidade bucal estará suficientemente aberta para que a corrente 
de ar passe por ela sem encontrar empecilho (LIMA, 2011, p. 45). 
 
Para que uma vogal venha a ser reconhecida como tal, uma gama de coisas 
acontece em todo aparelho fonador. Assim, as vogais podem ser classificadas por 
 
 
meio de quatro critérios que podem ser percebidos conjuntamente: 
▪ Quanto à zona de articulação: anteriores, posteriores, média. 
▪ Quanto ao timbre: abertas, fechadas. 
▪ Quanto à ressonância nas cavidades bucal ou nasal: orais, nasais. 
▪ Quanto à intensidade: tônicas, átonas. 
Antes, porém, de falarmos sobre o lugar de articulação das vogais e seus 
efeitos na construção de elementos vocálicos é preciso nos lembrar de que a diferença 
fundamental que existe entre as vogais e as consoantes é justamente a dinâmica da 
passagem do som pela boca e pela cavidade nasal, como nos explicam os autores de 
Fonética e fonologia do português brasileiro (2011). Nas palavras dos autores: 
A divisão tradicional entre vogais e consoantes em nível de articulação deve 
ser entendida a partir da liberação do fluxo de ar dos pulmões. Nas vogais, 
não há nenhum impedimento a essa passagem de ar, ou seja, os segmentos 
vocálicos são produzidos com o fluxo de ar passando livremente ou 
praticamente sem obstáculos (obstruções ou constrições) no trato vocal. Já 
as consoantes são articuladas a partir de alguma obstrução no trato oral, seja 
ela parcial ou total. Uma outra diferença entre esses dois tipos de sons é que 
as vogais são vozeadas, isto é, são produzidas com a vibração das pregas 
vocais, enquanto as consoantes podem ou não ser produzidas com vibração 
das pregas vocais. Assim podem ser vozeados ou não-vozeados (SEARA; 
NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 25) 
Não apenas o modo de articulação das vogais como também suas dinâmicas 
de produção são e foram largamente estudadas por estudiosos da fonética e da 
fonologia. Note como outros estudiosos da língua (FARACO; MOURA, 1998, p. 31) 
lidam com a definição de vogal, para eles “vogal é o fonema produzido pelo ar que, 
expelido dos pulmões, faz vibrar as cordas vocais e não encontra nenhum obstáculo 
na sua passagem pelo aparelho fonador”. Mas essa definição pode ser desdobrada, 
dando início a outras dinâmicas articulatórias. Ou seja: 
A articulação de vogais nasais que são produzidas com a língua na posição 
mais baixa necessita de um maior abaixamento do véu palatino para elas 
soarem como nasais. Nesse caso, há uma diferença bastante grande entre a 
articulação de uma vogal baixa oral e uma nasal. É o que ocorre com a vogal 
baixa central. Dessa forma, para representar a vogal oral emprega-se o 
símbolo , no entanto, devido a essa diferença articulatória (e portanto 
acústica), a representação de sua contraparte nasal seria mais adequada 
através do símbolo fonético ɐ] (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 
2011, p. 26) 
Percebemos que o modo de articulação tende a determinar as classificações 
que uma vogal assumira nas representações articulatórias dos gráficos que 
 
 
representam os sons de uma determinada língua em seu contexto prático. Abaixo 
figura de demonstra essa dinâmica. 
 
Figura 12 – Articulação das vogais 
 
Fonte: Seara.; Nunes.; Lazzarotto-Volção (2011, P. 37). 
Amparado por tais definições, surgem propostas de quantificar as vogais; 
propostas essas que variam quanto ao número que pode ir de 5 a 23 vogais, ou mais, 
dependendo do teórico que se esteja estudando. 
Como nos esclarece Bechara (2009, p. 45), a distinção de uma vogal e de uma 
consoante só pode ser percebida por condições acústicas e fisiológicas; numa 
tentativa de imitação e simplificação dos povos gregos “os antigos gramáticos 
definiam a vogal pela sua função na sílaba: elemento necessário e suficiente para 
formar uma sílaba. E daí chegavam à conceituação deficiente de consoante: fonema 
sem existência independente, que só se profere com uma vogal”. Essa definição, por 
obvio, está equivocada, mas por muito tempo ela foi usada repetidamente. 
As vogais, de acordo com critérios estabelecidos internacionalmente, podem 
ser classificadas como vogais orais e vogais nasais. As primeiras são seguimentos 
vocálicos que são produzidos pela passagem de ar pela boca, sem impedimentos 
físicos, e as segundas são aqueles seguimentos vocálicos que são produzidos pela 
passagem do sem impedimentos físicos, mas pela cavidade nasal. 
 
 
 
 
Figura 13 – Quadro ilustrativo das vogais 
 
Fonte: Bechara (2009, p. 50). 
Ao tomar por ponto de partida o fato de que as diferentes línguas têm uma 
dinâmica própria de articulação vocálica e com o intuito de fazer comparações entre 
as diferentes línguas com suas dinâmicas, estabeleceu-se determinados pontos de 
articulação das vogais das diferentes línguas existentes. Esses pontos que foram 
estabelecidos partindo de limites articulatórios pré-definidos. Essas vogais que 
respeita essa organização são chamadas de vogais cardeais e, para início de estudo, 
elas não pertencem a nenhuma língua específica. Por seu turno esses vogaiscardeais 
foram divididos em vogais cardeais primárias e vogais cardeais secundários, 
dependendo do modo e do lugar na boca em que elas são produzidas (uma dinâmica 
diferente daquele que foi mostrada pela Figura 12). 
Segundo Segalla (2004, p. 25), a zona de articulação é o ponto ou a parte em 
que se dá o contato ou a aproximação dos órgãos que cooperam para a produção dos 
fonemas, no caso das vogais, a língua e o palato. Produzimos a vogal média a 
mantendo a língua baixa, quase em posição de descanso, e a boca entreaberta. Para 
passar da vogal /a/ para as anteriores (ê, ê, i), levantamos gradualmente a parte 
anterior da língua em direção ao palato duro, ao mesmo tempo que diminuímos a 
 
 
abertura da boca. Para emitir as vogais posteriores (ó, Ô, u), elevamos mais e mais a 
parte posterior da língua em direção ao véu palatino, arredondando progressivamente 
os lábios. Na emissão das vogais orais, a corrente sonora, impedida, pela úvula 
levantada, de chegar às cavidades nasais, ressoa apenas na boca. Na produção das 
vogais nasais, dá-se o abaixamento da úvula, e a corrente sonora chega, em parte, 
às fossas nasais e nelas ressoa (veja a Figura 14). 
 
Figura 14 - Zonas de articulação de vogais 
 
 
Fonte: Seara.; Nunes.; Lazzarotto-Volção (2011, p. 30, 31). 
As vogais tônicas são as que proferimos com maior intensidade: constituem a 
base das sílabas tônicas. As subtônicas proferem-se com intensidade secundária, 
sendo a base das sílabas subtônicas. As vogais átonas, de intensidade mínima, são 
a base das sílabas átonas. O timbre das vogais resulta da maior ou menor abertura 
da boca. Essa abertura é máxima na produção das vogais abertas (a, ê, ó), mínima 
na emissão das vogais fechadas (ê, Ô, i, u) e média na formação das reduzidas (veja 
 
 
a Figura 15). 
 
Figura 15 – Tonicidade das vogais 
 
Fonte: Seara.; Nunes.; Lazzarotto-Volção (2011, p. 46). 
Encontros vocálicos 
As vogais são, grosso modo, divididas em dois grupos, a saber, vogais e 
semivogais (também chamadas de “glide”, um som de transposição). As vogais, como 
dissemos, são aqueles sons produzidos pelo ar vindo dos pulmões sem nenhum tipo 
de interferência, seja labial, linguodental ou labiodental; as semivogais, por seu turno, 
são as vogais /i/ e /u/ sejam elas nasais ou orais representadas. 
Chamamos de encontros vocálicos o encontro de duas vogais na mesma sílaba 
(vogal + semivogal ou semivogal + vogal). Essas semivogais são representadas 
graficamente pelos sinais /w/ no caso do /u/ e pelo sinal /y/ no caso do /i/. Teremos 
então no caso do /y/ as palavras glória, pátria, diabo, área, nívea a representação é 
/ya/; e nas palavras cárie, calvície a representação é /ye/, e assim por diante. 
Os ditongos são denominados pela sua dinâmica de articulação, nesse sentido 
eles recebem o nome de “ditongo crescentes” e “ditongos decrescentes”. Assim, os 
ditongos crescentes são ditongos em que a semivogal vem antes da vogal, como nas 
palavras água, cárie, mágoa; enquanto que os ditongos decrescentes são aqueles nos 
 
 
quais os ditongos em que a vogal vem antes da semivogal como nas palavras pai, 
mãe, rei. 
Os ditongos ainda podem ser considerados quanto a sua vocalização, ou seja, 
eles podem ser classificados como nasais e orais; os ditongos nasais são sempre 
fechados, enquanto os orais podem ser abertos (pai, céu, rói, ideia) ou fechados (meu, 
doido, veia). 
Teremos como exemplos de “ditongos crescentes” as seguintes palavras: 
▪ ãe: mãe, pães; 
▪ ai: pai, vaidade; 
▪ ãi: cãibra, pai na; 
▪ ão: pão, mãos, falam (fálão); 
▪ au: mau, degrau éi: fiéis, papéis; 
▪ ei: rei, leite, rejeito ei: hem!, vivem, têm (tei); 
▪ éu: véu, céu eu: meu, bebeu iu: viu, partiu; 
▪ õe: põe, limões, ações; 
▪ ói: dói, herói, constrói; 
▪ oi: coitado, foi ; 
▪ ou: dou, louco, estoura ui: fui, ruivo, gratuito; 
▪ ui: muito (muito), muita. 
 
 Temos como exemplos de “ditongos decrescentes” as seguintes palavras: 
 
▪ ea: área, orquídea; 
▪ eo: róseo, níveo; 
▪ la: várias, sábia, infância; 
▪ le: série, espécie, quieto; 
▪ io: lírio, curioso, ópio; 
▪ oa: nódoa, mágoa; 
▪ ua: água, quadra; 
▪ uã: quando, araquã; 
▪ ue: tênue, equestre; 
▪ ue: aguento, frequente; 
▪ ui: sanguinário, tranquilo; 
▪ ui: quinquagésimo, pinguim; 
▪ uo: aquoso, vácuo. 
Seguindo a mesma lógica gráfico-fonética, e sob as observações de Cegalla 
(2005, p. 27), podemos afirmar que um tritongo é o conjunto semivogal + vogal + 
semivogal, formando uma só sílaba. 
O tritongo pode ser oral, como nas palavras: iguais, averiguei, averiguou, 
 
 
delinquiu, sequoia, Uruguai. Ou eles podem ser nasais, como nas palavras: quão, 
saguão, saguões, mínguam (mínguão), enxáguem (enxáguei), deságuam (deságuão), 
deságuem (deságuei). 
Temos, por fim, o hiato que é o encontro de duas vogais pronunciadas em dois 
impulsos distintos, formando sílabas diferentes. Como exemplos de hiatos temos a 
seguintes palavras: 
▪ orta (a-or-ta); 
▪ doer (do-er); 
▪ voo (vo-o); 
▪ creem (ere-em); 
▪ passeemos (pas-se-e-mos); 
▪ poeira (po-ei-ra); 
▪ meeiro (me-ei-ro); 
▪ fuinha (fu-i-nha); 
▪ lagoa (Ia-go-a); 
▪ friíssimo (fri-ís-si-mo); 
 
Ainda como observa Cegalla (2005, p. 27), “na poesia, exigências de ordem 
fonética ou estilística podem converter hiatos em ditongos (sinérese) ou dissolver 
ditongos em hiatos (diérese)”. Ou seja, quando na poesia, para respeitar a métrica 
dos versos, escreve-se ou pronuncia-se hiatos como ditongos, dá-se a esse 
movimento o nome de sinérese ou quando se dissolve ditongos e hiatos, dá-se a esse 
movimento o nome de diérese. 
8 A PRONUNCIA CORRETA DAS PALAVRAS 
A gramática é um elemento sistematizador e estabilizador da língua, mas em 
sua dinâmica ela apresenta caminhos possíveis para usos da língua – em nosso caso 
a Língua portuguesa – ela funciona como uma síntese que organizam o uso da língua 
em áreas diversas e, os modos de organização das gramáticas dependerão dos 
autores que são estudados e suas pesquisas. 
As muitas facetas da gramática e suas características é ponto de início da 
nossa relação com as interfaces da língua. Mas, como nos faz lembrar Mário A. Perini 
(2005): 
 
 
 
Uma gramática é obra de síntese e, como tal, depende do estado da pesquisa 
em cada uma das áreas consideradas. O resultado, portanto, é desigual: em 
certos pontos, é possível incluir na descrição resultados de pesquisas 
relevantes e razoavelmente completas; em outros casos, é preciso contentar-
se com indicações mais programáticas; às vezes, nada mais se pode fazer 
do que definir o problema e clamar por maiores pesquisas (PERINI, 2005, p. 
15). 
 
Para Castilho (2014), a língua pode ser considerada como resultante de 
“dispositivos sociocognitivos” (representados na figura pela sigla DSC) que, por seu 
turno, são regulados pela gramática e resultam nos vários discursos com os quais 
somos colocados constantemente em relação, sejam essas relações de ordem 
comunicacionais ou de análise. Castilho (2014, p. 69) afirma, ainda, que “interfaces 
podem ocorrer, mas não regras de dependência, ou seja, o léxico não governa a 
gramática, esta não governa a semântica ou o discurso, o discurso”. (Figura 16). 
 
Figura 16 – Sistema da língua 
 
Fonte: Castilho (2014, p. 69). 
 
Entre as subáreas da gramática está a Prosódia, que pode ser considerada 
como uma área da Fonologia, um estudo especial acerca da acentuação gráfica e 
suas características. Como nos ensina o professor Bechara (2009, p. 66) “Prosódia é 
a parte da fonética que trata da correta acentuação e entonação dos fonemas. 
A preocupação maior da prosódia é o conhecimento da sílaba predominante, 
chamada tônica”. Sob tal perspectiva, podemos dizer que há uma área da gramática 
chamada de fonologia e uma subárea da gramática chamada prosódia cujo intuito 
primeiro é silabação e acentuação gráfica com suas características próprias.Nas 
 
 
palavras de Lima (2011): 
O acento [resulta] da íntima associação de certas qualidades físicas dos sons 
da fala, tais como: a intensidade (maior ou menor força expiratória com que 
são proferidos); a altura (maior ou menor frequência com que vibram as 
cordas vocais); o timbre (ou metal de voz); e a quantidade (maior ou menor 
duração com que são emitidos). Em sentido estrito — aquele que nos 
interessa aqui — entende-se por acento a maior força expiratória com que 
uma sílaba se opõe às que lhe ficam contíguas no corpo dos vocábulos 
(LIMA, 2011, p. 60). 
Ainda, segundo Lima (2011), é possível dizer que em língua portuguesa o seu 
acento característico é o acento de intensidade que, em sentido comum, tem a função 
de assinalar, fixar e regular determinada sílaba de cada vocábulo da nossa língua, 
funcionando como um elemento gramatical próprio do nosso vernáculo. Ele também 
é capaz de diferenciar o valor morfológico e significativo de cada palavra, mesmo 
quando essas apresentam formas distribuídas na mesma sequência. Vejamos os 
exemplos que Lima (2011, p. 61) nos apresenta para ilustrar melhor o que acabamos 
de dizer: 
 
▪ ira (subst.) / irá (verbo); 
▪ vera (adjetivo) / verá (verbo); 
▪ sábia (adjetivo) / sabia (verbo) / sabiá (substantivo). 
 
Mas esse contraste de ordem fonológica pode acontecer, também, dentro da 
mesma classe de palavras. Observe os exemplos abaixo: 
 
▪ Substantivos: edito (lei) / édito (ordem judicial); 
▪ Adjetivos: florido (em flor) / flórido (brilhante). 
8.1 Sobre as sílabas 
Tomemos como ideia de partida a conceituação de que “sílaba é um fonema 
ou grupo de fonemas emitidos num só impulso da voz (impulso expiratório) ” 
(CEGALLA, 2005, p. 35), ou seja, uma sílaba é emitida quando impulsionamos o som 
de maneira a modelar sua passagem pela boca. Em língua portuguesa é obrigatório 
a formação de sílabas sempre acompanhado por uma vogal, não há em nossa língua 
 
 
uma sílaba formada só por consoante, ela precisa estar acompanhada por uma vogal. 
É perceptível o fato de que nas palavras de duas ou mais sílabas, há uma que 
se destaca das demais, por ser proferida com maior intensidade. Essa será aquela 
que chamamos de a sílaba tônica, em relação à qual as outras, pronunciadas com 
menos força, são — átonas. Assim, as sílabas tónicas são as sílabas fortes das 
palavras, enquanto que as sílabas átonas são as sílabas fracas. Em nossa língua, as 
palavras têm uma sílaba tónica e todas as outras serão átonas. 
Como nos explica Cegalla (2005, p. 37), certos vocábulos ou palavras 
derivadas, geralmente polissílabos, além da sílaba tônica (em que recai o acento 
principal ou tônico), possuem uma sílaba subtônica, com acento secundário. Nos 
exemplos seguintes, as sílabas subtônicas aparecem em destaque: 
 
▪ Cafezinho; 
▪ Indiazinha; 
▪ Rapidamente; 
▪ Comodamente. 
 
As sílabas fracas (ou átonas) podem ser classificadas como pretônica, quando 
vem antes da sílaba tônica, ou postônica, quando vem depois da sílaba tônica. 
Vejamos alguns exemplos para que tenhamos consciência de como essa dinâmica 
acontece. 
 
▪ Na palavra “Montanha” temos: MON – átona / TA – tônica / NHA – átona. 
▪ Na palavra “Facilmente” temos: FA – subtônica / CIL – pretônica / MEN – 
tônica / TE – postônica. 
▪ Na palavra “Heroizinho” temos: HE – pretônico / ROI – subtônica / ZI – tônica 
/ NHO – postônica. 
 
No que diz respeito a numeração das sílabas, podemos dizer que elas podem 
ser classificadas em quatro grupos, a saber, monossílabas; dissílabas; trissílabas e 
polissílabas. Essa classificação nos é fornecida pelas gramáticas que se preocupam 
em compreender a correta divisão dos vocábulos em nossa língua portuguesa. Temos 
então, quanto ao número de sílabas, a seguinte modo de classificação: 
 
 
 
▪ Monossílabas - as que têm uma só sílaba: pó, luz, pães, mau, reis, boi, 
véus, etc. 
▪ Dissílabas - as que têm duas sílabas: café, livro, leite, caixas, noites, caí, 
roer, etc. 
▪ Trissílabas - as constituídas de três sílabas: jogador, cabeça, ouvido, 
circuito, etc. 
▪ Polissílabas - as que têm mais de três sílabas: casamento, americano, 
responsabilidade, jesuíta, etc. 
 
Ainda no que diz respeito a silabação, podemos afirmar que no que diz respeito 
à sua posição as sílabas podem assumir uma posição de sílaba inicial; sílaba medial 
e sílaba final. No exemplo a seguir, usaremos a foco de nossa demonstração a palavra 
fonética, que na classificação numérica pode ser definida como uma polissílaba cuja 
tonicidade recai sobre a segunda sílaba (NÉ) e, no que diz respeito à posição, pode 
ser ilustrada da seguinte forma: FO - NÉ - TI – CA, onde /FO/ é a sílaba inicial, /NÉ/ é 
a sílaba medial, /TI/ sílaba medial e /CA/ é sílaba final 
8.2 Pronúncia correta ou Ortofonia 
Compreender o modo correto de se pronunciar uma palavra ou vocabulário é 
fundamental para a ação de lidar de modo profissional ou de usos diversificados da 
língua. Para o professor alfabetizador, por exemplo, é absolutamente importante 
conhecer alguns princípios da transcrição fonética, tendo em vista que esse 
conhecimento poderá contribuir para uma melhor compreensão da influência fonética 
que se manifesta na escrita dos alfabetizandos, ou seja, na escrita daqueles que estão 
aprendendo a técnica da escrita. No processo de aprendizagem da escrita, é comum 
que eles compreendam, inicialmente, que a escrita é uma transcrição da fala, e por 
isso escrevem como falam, à semelhança de uma transcrição fonética. 
As gramáticas normativas (aquelas que tentam padronizar à língua) trabalham 
para preservar uma certa uniformidade da fala e essa uniformidade é preservada por 
meio de padrões de modos de dizer, isto é, estabelecendo padrões sobre as formas 
corretas de dizer uma certa palavra ou expressão da nossa língua. Essa tentativa de 
padronizar os modos de pronuncia de uma determinada palavra ou de vocábulos 
 
 
damos o nome de “ortofonia”. 
Como nos lembra Faraco e Moura (20, p. 63), “ortofonia é a parte da fonologia 
que trata da pronúncia correta das palavras, tomando como modelo o padrão da língua 
considerada culta”. Os autores lembram-nos ainda que a ortofonia (que atenta para a 
língua falada), como uma ciência da área da linguagem, não está subordinada à 
ortografia, que é a ciência que estabelece o modo correto de escrever e que, portanto, 
trabalha com a língua escrita. 
Algumas palavras, por conta de fatores sociais, educacionais e outros, são 
transcritas de uma forma e pronunciada de outra, o que resulta em uma variação da 
fonação de determinado vocábulo. Como nos explica Henriques (2012, p. 6, grifos do 
autor) “tomada em seu objetivo significativo, a serviço da comunicação, a FONAÇÃO – 
que é o ato humano de emitir sons vocais – se constitui como a própria fala”; 
geralmente expressa no modo de falar de um indivíduo ou de determinados indivíduos 
de determinada sociedade de falantes. 
Andrade e Henriques (2018) nos ensinam que existe hoje uma acalorada 
discussão sobre qual seria o melhor termo a ser usada quando se verifica que uma 
palavra ou vocábulo está sendo escrito ou falado de modo a não corresponder ao 
modo como ele aparece na gramática culta. Alguns tem defendido que não se pode 
mais falar em “erro”; mas dever-se-ia falar em “inadequação”, ou seja, quando uma 
falante ou usuário (no caso da língua escrita) cometesse algum equívoco no uso da 
língua, deveria se chamar a atenção dessa pessoa para o uso inadequado que ela 
está fazendo daquele termo ou vocábulo. 
Mas para conhecer a forma correta de pronuncia das palavras é preciso 
conhecer os manuais, livros e cartilhas especializadas a partir das quais é possível 
conhecer o que a norma culta chamara de “forma correta de pronuncia das palavras”; 
esse conhecimento, porém, a maioria das pessoas de fala simples não possuem, 
acarretando com isso essa forma inadequada de pronuncia das palavras dovernáculo. Vejamos abaixo algumas palavras e como elas são transcritas 
corretamente pela norma culta da Língua portuguesa. 
 
 
 
 
 
 
Figura 17 – Transcrição de algumas palavras 
 
Fonte: Seara; Nunes; Lazzarotto-Volção (2011, p. 101). 
Além daquelas características anteriormente apontadas, temos ainda o fato do 
nosso país ter uma extensão geográfica muito grande, o que favorece os 
regionalismos (os modos de dizer de cada região do país). Uma mesma palavra pode 
ser pronunciada de duas ou três formas diferentes dependendo da região do Brasil na 
qual se encontre. Essas modalizações regionais que alguns chamarão de “sotaque”, 
na verdade pode ser tecnicamente nominada de “variação diatópica”. Vejamos abaixo 
algumas palavras de dupla pronuncia que podem ser listadas em língua portuguesa: 
▪ tio - [' tʃiu] e ['tiu]; 
▪ dia - [´dƷiɐ] e [´diɐ]; 
▪ mal - ['maw] e ['maɬ]; 
▪ gol - ['gow] e ['goɬ]; 
▪ baixo - ['baʃu] e ['bajʃu]; 
▪ ouro - ['oɾu] e ['owɾu]; 
▪ queijo - ['keƷu] e ['kejƷu]; 
▪ chave - ['ʃavi] e ['ʃave]. 
Essas variações nos colocam diante de um desafio que nos é apontado pelos 
 
 
autores de Fonética e fonologia (2011), ao dizer que aqueles que trabalham como 
alfabetizadores precisam atentar-se par alguns elementos do funcionamento da 
língua, bem como para técnicas fonológicas para otimizar o modo de ensinar e de 
aprender daqueles que estão sendo iniciados da língua escrita. Nas palavras dos 
autores: 
 
É indispensável para os professores que atuam na alfabetização, quer de 
adultos, quer de crianças o conhecimento de Fonética e noções sobre o 
funcionamento da Fonologia de sua língua, para que esses professores 
melhor atendam às necessidades de seus alunos. Existem técnicas 
fonológicas que, empregadas em atividades com os alunos, podem fazê-los 
se debruçar com interesse sobre os fatos da língua. Além disso, é 
fundamental saber lidar com a variação fonético e fonológica - que sempre 
vai existir - e levar o aluno a compreender essas variações, para relacioná-
las aos elementos gráficos. Especialmente em relação às variações fonéticas 
que sofrem influências de natureza social (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-
VOLÇÃO, 2011, p. 15). 
 
Assim, lidar com Fonética e Fonologia, como ciências que se debruçam no 
estudo da articulação física do som, da percepção desses sons produzidos e na 
representação gráfica e sonora desses mesmos sons, é indispensável se quisermos 
aumentar a nossa compreensão da língua, tanto em sua manifestação falada quanto 
em sua manifestação escrita. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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2020.fonológica subjacente, eles são marcadores binários, 
positivo ou presença e negativo ou ausência. Não vamos definir aqui todo o conjunto 
de traços do SPE, mas apenas aqueles que especificariam as classes principais de 
segmentos. Eles são três: 
 
▪ Sonorante ou não sonorante (obstruinte); 
 
 
▪ Vocálico ou não vocálico; 
▪ Consonantal ou não consonantal. 
 
Sonorantes 
São sons produzidos com uma configuração do trato vocal no qual o 
vozeamento espontâneo é possível. Os obstruintes são produzidas com uma 
configuração que torna o vozeamento espontâneo impossível. 
 
Vocálicos 
São sons produzidos sem uma constrição radical no trato oral, essa constrição 
não excede aquela feita para produzir as vogais altas [i] e [u], e as cordas vocais estão 
posicionadas de modo a permitir o vozeamento espontâneo. 
 
Consonantais 
São sons produzidos com uma constrição radical no trato oral. Posteriormente, 
no próprio SPE, o traço Vocálico é substituído pelo traço Silábico, definido como um 
traço presente em segmentos que podem constituir pico ou núcleo de sílaba 
(HERNANDORENA, 2001). 
 
Este é um procedimento da teoria gerativa, a partir da observação dos 
fenômenos linguísticos: modificam-se os postulados. A troca do traço vocálico por 
silábico deu-se a partir da constatação de que, às vezes, segmentos não vocálicos 
podem ser núcleo de sílaba em algumas línguas. Assim a presença ou ausência 
desses três traços de classes principais formaria as classes naturais de sons. Por 
exemplo, uma vogal seria especificada como [+ sonorante, - consonantal, + silábica], 
já uma consoante como [-sonorante, + consonantal, - silábica]. Cada segmento tem 
uma especificação própria de traços fonéticos que ocorrem simultaneamente e a 
diferença de um traço ou mais é que diferencia os sons da fala (COSTA, 2020). 
As postulações de traços distintivos para os segmentos faziam-se, então, 
baseadas nas observações dos fenômenos, e o poder formalista e abstrato da teoria 
foi grande, pois as explicações para os fenômenos sonoros geravam as 
representações mentais. 
Com o desenvolvimento e a socialização crescente da tecnologia no século XX, 
 
 
a possibilidade de observações instrumentais realizadas em laboratórios de fonética 
acústica e aparelhos ultrassonográficos que permitem a observação articulatória, 
despontam outros tipos de abordagens teóricas para a Fonologia que consideram a 
observação da produção ou realização sonora. 
 
1.3 Fonologia Gestual 
 
De acordo com os estudos feitos por Costa (2020), no campo de atuação da 
Fonologia de Laboratório, denominação que agrega abordagens teóricas 
desenvolvidas com base em técnicas de laboratório, principalmente análise fonética 
acústica, a Fonologia Gestual define como seu objeto de análise o gesto articulatório. 
A autora explica que esse gesto articulatório não deve ser confundido com os 
gestos feitos nas manobras articulatórias para a produção sonora, eles são 
caracterizações abstratas dotadas de especificação temporal. O termo Fonologia 
Gestual evita uma ligação mnemônica com a Fonética Articulatória e marca a 
especificidade teórica dessa abordagem, pois o gesto é uma oscilação abstrata em 
termos de uma dinâmica de tarefa que envolve os articuladores e não apenas o 
movimento dos articuladores implicados na atividade de fala (COSTA, 2020). 
Os gestos são definidos em termos de dinâmica de tarefa porque envolvem a 
formação e soltura de constrições no trato vocal com tempo intrínseco. O que é 
caracterizado dinamicamente não é o movimento isolado dos articuladores, mas, sim, 
o movimento de variáveis do trato. 
Explica-se que na Fonologia Gestual existem cinco variáveis do trato e cada 
uma delas caracteriza a dimensão da constrição em local e grau e os articuladores 
envolvidos. As ações conjuntas dos articuladores constituem as variáveis do trato que 
relacionadas implementam os gestos articulatórios; como o local e o grau são 
dimensões de uma mesma constrição, eles estão alocados na mesma linha. A seguir 
descrevem-se cada uma delas, no Quadro 1: 
 
 
 
 
 
 
 
Quadro 1 – Variáveis do trato na Fonologia Gestual 
 
Fonte: Costa (2020, p. 56). 
 
O gesto de protusão labial envolve assim a ação coordenada de três 
articuladores: lábios inferior e superior e a mandíbula. Já um gesto de corpo de língua, 
envolvido na produção dos sons vocálicos, envolve a ação coordenada do corpo de 
língua e da mandíbula. 
Os gestos são as unidades básicas, ou primitivos, de contraste fonológico; 
assim, dois itens lexicais diferem se tiverem composição gestual diferente. Essa 
diferença pode concretizar-se pela presença ou ausência de determinado gesto, por 
diferenças nos parâmetros dos gestos e por diferenças de organização dos gestos. O 
modo como os gestos são organizados para formar os sons da fala chama-se 
faseamento e é representado na teoria com a pauta gestual (COSTA, 2020). 
Os gestos são eventos físicos que ocorrem no tempo e no espaço e possuem 
duração, podendo sobrepor-se a outros gestos. Assim, a sobreposição dos gestos 
pode ser mínima, parcial e completa. Dessa forma, a diferente organização e a 
sobreposição dos gestos criam os contrastes lexicais na língua. Já a maleabilidade 
dos gestos, consequência de sua natureza como um sistema dinâmico, gera o 
contínuo gradiente observado na fala e que pode manifestar-se como variação. 
A mesma estrutura gestual caracteriza simultaneamente as propriedades 
fonológicas e as físicas. Como um sistema dinâmico, o gesto consegue representar o 
contínuo gradiente da fala observado por meio de análises fonéticas acústicas. 
Podemos citar, por exemplo, o caso da sonoridade dos sons: na observação acústica, 
podemos constatar a natureza não categórica dessa propriedade, determinado som 
pode ser surdo (sem vibração das pregas vocais) ou sonoro (com vibração das pregas 
vocais), mas essa propriedade é escalar, apresenta níveis de sonoridade, e não 
 
 
apenas dicotômica, presença versus ausência. 
A Fonologia Gestual incorpora, então, a natureza gradiente dos sons e, 
também, modela a variação como uma cristalização de mudanças na organização e 
na sobreposição de gestos. Importante destacar que, como toda abordagem teórica, 
a Fonologia Gestual foi modificando-se e apresentando novos conceitos e postulados 
(COSTA, 2020). 
 
2 VARIAÇÃO LINGUÍSTICA E PRECONCEITOS LINGUÍSTICOS 
 
2.1 Variação linguística: definição e classificação 
 
Iniciaremos o estudo introduzindo algumas noções básicas. Entende-se por 
variável qualquer elemento da língua que se realiza de maneiras diferentes. Por 
exemplo, o “r” em final de silaba é uma variável do português brasileiro porque é 
pronunciado de maneiras distintas: “amorrr”, “amor”, “amô”, entre outras. Já variante 
é cada uma dessas formas de realizar a variável. Por fim, variedade linguística é um 
conjunto de variantes utilizado por certo grupo. Podemos pensar, por exemplo, na 
variedade linguística utilizada por paulistas interioranos de alta escolaridade: eles 
provavelmente usam algumas variantes comuns em sua região, como o r “puxado”, 
mas não outras, como a troca de lh por i (eles não falam “páia”, e sim “palha”) 
(GUIMARÃES, 2014). 
Em qualquer momento histórico, como já vimos, a língua é um conjunto de 
variedades. As variantes que formam esses conjuntos de variedades e que se 
relacionam a determinada variável, podem coexistir durante anos, décadas e até 
séculos na língua sem que uma tome o lugar da outra. O próprio caso do r em final de 
sílaba é um bom exemplo disso: há muito tempo o r “puxado” da fala caipira convive 
com as outras realizações desse fonema (as outras variantes), e é pouco provável 
que uma e torne dominante em detrimento da outra. 
Em vários casos, porém, em decorrência de fatores linguísticos (internos ao 
próprio sistema) ou extralinguísticos (sociais e culturais), ou ainda de uma combinação 
deles, acontecede uma variante antes dominante tornar-se cada vez menos 
frequente, até desaparecer e ser substituída por outra, com a qual até então coexistia. 
Isso é o que ocorreu, por exemplo, no emprego do “vós”, que desapareceu do 
português brasileiro escrito e falado, permanecendo apenas em algumas práticas 
 
 
linguareiras muito específicas e cristalizadas, como as preces religiosas (“Bendita sois 
vós entre as mulheres”). Em todos os outros usos, ele foi substituído pelo pronome 
vocês (GUIMARÃES, 2014). 
Quando um fenômeno desse tipo ocorre, dizemos que houve uma variação 
linguística diacrônica - palavra que, como você já sabe, vem da junção dos elementos 
gregos diá, “ao longo de”, e Khrónos, “tempo”. Além das variações diacrônicas, 
existem, é claro, todas as outras que se observam em um mesmo momento do tempo: 
as variações linguísticas sincrônicas. Elas se dividem em quatro outros grupos: 
▪ Variações diatópicas (do grego topos, “lugar”) — são aquelas 
relacionadas à região onde o falante nasceu ou mora; 
▪ Variações diastráticas (do latim stratum, “camada”) — são aquelas 
relacionadas à camada ou grupo social a que pertence o falante; 
▪ Variações diamésicas (do grego mésos, “meio”) - são aquelas 
relacionadas ao meio pelo qual se dá a comunicação: oralmente ou por 
escrito; 
▪ Variações diafásicas (do grego phásis, “modo de falar”) – são aquelas 
relacionadas ao estilo: um mesmo falante é capaz de se expressar de 
modo mais ou menos formal, informal, rude, simpático, infantilizado e 
assim por diante (GUIMARÃES, 2014). 
 Variações diatópicas (regionais) 
Em um país tão extenso quanto o Brasil, temos muitas variações diatópicas, ou 
seja, variações relacionadas à região geográfica. Elas se manifestam principalmente: 
 
▪ Na pronúncia das palavras (sotaque) - um exemplo disso é à perda de 
certos fonemas na fala mineira: “mineirim” (em vez de mineirinho), “prestenção” 
(em vez de presta atenção), “perdacerca” (em vez de perto da cerca). Outro 
exemplo é o “s” chiante dos cariocas, em palavras como festa e arroz. 
▪ No vocabulário - são exemplos de variações no vocabulário as palavras 
bergamota e mexerica, usadas em diferentes partes do país para designar a 
tangerina. 
▪ Na maneira de conjugar os verbos e de combinar as palavras na frase - 
um exemplo disso é a conjugação “tu visse” em vez de tu viste. Outro exemplo 
 
 
é a construção “sei, não” (em vez de “não sei”). Ambas às formas são comuns 
em certas partes do Nordeste (GUIMARÃES, 2014). 
 
 Variações diastráticas (sociais) 
 
Quando o assunto é variação linguística social, muitas pessoas imediatamente 
pensam no contraste entre variedades populares e variedades cultas, ou seja, entre a 
fala dos pouco escolarizados e a dos muito escolarizados. Contudo, as variações 
diastráticas vão muito além disso. Se queremos analisar as variações diastráticas em 
certa população, podemos considerar uma série de critérios, por exemplo: 
 
▪ Nível de escolaridade — quanto maior o tempo de escolarização de uma 
pessoa, maior a probabilidade de ela falar e escrever de acordo com as regras 
da gramática normativa. 
▪ Faixa etária — você certamente não fala como seus pais, que por sua vez 
não falam como os pais deles. A variação relacionada à faixa etária está 
diretamente ligada à mudança linguística, uma vez que, se determinada 
maneira de falar não passa de uma geração para a outra, é sinal de que está 
entrando em extinção. 
▪ Sexo – se você sempre achou que homens e mulheres falavam “línguas 
diferentes”, de certa maneira acertou: várias pesquisas comprovam notáveis 
diferenças entre a expressão verbal masculina e feminina. De modo geral, as 
mulheres tendem a obedecer à norma padrão com mais rigor do que os 
homens. Elas costumam manter o “s” e o “m” como marca de plural no fim das 
palavras (por exemplo: as crianças nadam), enquanto eles tendem a se 
expressar de maneira mais relaxada, mesmo quando têm o mesmo nível de 
escolaridade que elas (RÚBIO, 2010). 
▪ Profissão – a variante linguística típica de um grupo profissional (às vezes 
incompreensível para os leigos) é chamada de jargão. São exemplos disso: o 
“informatiquês” e o “economês”. 
▪ Grupos sociais – as categorias profissionais são um tipo de agrupamento 
social, mas existem vários outros, especialmente entre os jovens, e cada um 
deles pode apresentar marcas linguísticas específicas. Pense, por exemplo, no 
 
 
linguajar próprio de grupos como surfistas, evangélicos, fãs de música 
sertaneja, fãs de quadrinhos japoneses e tantas outras “tribos” unidas por 
vários tipos de afinidades (GUIMARÃES, 2014). 
 
 Variações diamésicas (oralidade e escrita) 
 
A oralidade tem certas características que a distinguem da expressão escrita. 
A principal delas diz respeito aos momentos de produção e recepção do texto: na 
comunicação oral, esses momentos são simultâneos - à medida que você fala, seu 
interlocutor ouve. Já na comunicação escrita, existe uma defasagem entre o momento 
de produção e o de recepção. Essa diferença fundamental traz vantagens e 
desvantagens para cada modalidade. A vantagem da simultaneidade na comunicação 
oral é que ela nos permite acionar dois importantes mecanismos. Esses mecanismos 
não são acionados apenas por palavras, mas também por gestos, expressões faciais, 
olhares. Basta nosso interlocutor nos olha com “cara de ponto de interrogação” para 
sabermos que não estamos sendo compreendidos (GUIMARÃES, 2014). 
A linguagem não verbal nos permite, também, complementar o sentido da 
verbal: entonação, gestos, referências a elementos do ambiente — tudo isso ajuda a 
tomar a comunicação oral mais clara. Já a comunicação escrita não conta com 
nenhum desses expedientes. O autor precisa prever todas as dúvidas que seu texto 
pode causar ao leitor e tentar esclarecê-las ainda no momento de produção. O leitor, 
por sua vez, só conta com aquele papel (ou tela) “sem vida” para recuperar os 
significados que o autor tentou construir. 
Essa falta de sincronia, por outro lado, tem suas vantagens. Podemos dizer 
que, se o texto oral é como uma transmissão ao vivo, o texto escrito é como um 
programa gravado e editado: podemos revisá-lo quantas vezes for necessário, 
“apagando” os erros que cometemos e apresentando o interlocutor apenas o resultado 
final, perfeitamente polido e retocado. 
Outra vantagem da comunicação escrita é que ela nos permite fazer pesquisas 
e consultas durante a produção — se você está preparando uma monografia para à 
faculdade, por exemplo, pode buscar informações em livros e textos na internet, já se 
estiver apresentando um seminário, só poderá contar com suas anotações e a própria 
memória (GUIMARÃES, 2014). 
 
 
A possibilidade de produzir textos mais bem-acabados gera, também, maior 
cobrança na expressão escrita. Em outras palavras, tendemos a ser bem menos 
tolerantes com erros nos textos escritos do que nos orais. Sabendo disso, as pessoas 
costumam tomar um cuidado maior na hora de escrever. A expressão escrita tende, 
por essa razão, a ser mais formal do que a oral (GUIMARÃES, 2014). 
 
 Variações diafásicas (registro formal e informal) 
 
Pense em um renomado intelectual, acostumado a dar palestras e a escrever 
artigos acadêmicos. Nessas situações comunicativas, obviamente ele precisa 
obedecer com rigor à norma padrão. É bem provável que evite gírias e expressões 
coloquiais. Mas, será que ele se comporta do mesmo modo quando está em casa, 
conversando com os filhos, ou quando escreve um bilhete para a mulher? Certamente, 
não. 
 Pense, agora, em um trabalhador analfabeto que foi convocado para dar um 
testemunho em um tribunal. Você acha que ele vai falar na frente do juiz e dos 
advogados da mesma maneira que fala no trabalho, com parentes ou amigos? A 
resposta, mais uma vez, é não. Mesmo sem ter jamais frequentado a escola, o homem 
vai perceber que se trata de uma situação formal e, em consequência,vai expressar-
se de maneira mais cuidada do que o habitual 
 Que conclusão extraímos desses exemplos? Nenhum de nós usa o idioma 
da mesma maneira o tempo todo. Independentemente de sermos mais ou menos 
escolarizados, de morarmos nessa ou naquela região, de sermos jovens ou velhos, 
homens ou mulheres, surfistas ou roqueiros, todos nós mudamos nossa maneira de 
falar e escrever conforme o grau de formalidade da situação comunicativa 
(GUIMARÃES, 2014). 
As variedades linguísticas relacionadas ao nível de formalidade são chamadas 
de registros ou níveis de linguagem. Assim, existem registros (ou níveis de linguagem) 
mais e menos formais. Contudo, em vez de pensar em dois polos extremos, com a 
formalidade de um lado e a informalidade de outro, seria mais correto pensar em uma 
linha ascendente de formalidade (GUIMARÃES, 2014). 
 
 
 
 
2.2 Atitudes e preconceitos linguísticos 
 
A maioria dos brasileiros não percebe disparidade entre norma culta e norma 
padrão. Se você ouvisse as variantes condenadas pela norma padrão, provavelmente 
não notaria nada de errado nelas. Analise, agora, as frases a seguir: 
 
Tem menas gente na sala de espera. 
A professora passou este exercício para mim fazer. 
Eu “truxe” pão com queijo. 
Posso “ponhá” mais água no feijão? 
A gente vamos de trem para o litoral. 
 
Ao ler ou ouvir cada uma dessas construções, você e a grande maioria dos 
brasileiros escolarizados não teriam dúvidas: elas estão erradas. Você já deve estar 
adivinhando a razão disso, que na verdade é muito simples: as construções dessas 
frases são utilizadas por pessoas pobres, de baixo ou nenhum prestígio social. 
Bagno (2007, p. 142) chama essas construções de traços graduais, ou seja, 
são traços linguísticos “que aparecem na fala de todos os brasileiros, 
independentemente de sua origem social, regional etc.”. Outra classificação 
apresentada pelo autor são os dos traços descontínuos, ou seja, “aqueles que 
aparecem principalmente na fala dos brasileiros de origem social humilde, de pouca 
ou nenhuma escolaridade, de antecedentes rurais etc.” (BAGNO, 2007, p. 142). 
A Figura 3 representa visualmente a relação entre esses dois grandes 
conjuntos de traços linguísticos. Nela, os traços graduais aparecem desde a base até 
o topo da pirâmide socioeconômica. Em contrapartida, os traços descontínuos estão 
presentes apenas na base dela, ou seja, nas variedades linguísticas faladas pelas 
camadas menos favorecidas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 3 – Traços linguísticos 
 
Fonte: Bagno (2007) 
 
Por estarem associadas aos grupos sociais sobre os quais recai a maior carga 
de discriminação, essas são variedades estigmatizadas, isto é, variedades em relação 
às quais as pessoas em geral mantêm uma atitude desfavorável, de rejeição e 
desprezo. 
A elas se opõem às variedades prestigiadas (ou normas urbanas de prestígio, 
termo que, como já comentamos, vem substituindo norma culta), estas, mesmo 
estando em desconformidade com a norma padrão, não são vistas como erradas, 
porque são associadas a grupos sociais diante dos quais se tem, em geral, uma 
atitude favorável, de respeito e aprovação (GUIMARÃES, 2014). 
Pela análise desses fatos, percebemos que as atitudes linguísticas dos 
falantes, isto é, as avaliações que eles fazem de uma língua ou de uma variedade 
linguística, não costumam ser objetivas nem científicas. Elas se baseiam em ideias 
que essas pessoas já têm, previamente, acerca dos grupos que usam tal língua ou 
variedade. Se esta é utilizada por um grupo de prestígio social, será prestigiada 
também; se é praticada por um grupo estigmatizado, será discriminada também. 
Como os falantes em geral adotam essas atitudes linguísticas com base em 
prejulgamentos, sem questioná-los nem refletir sobre eles, muitas vezes nos referimos 
a elas como preconceitos linguísticos. É interessante notar que o preconceito pode 
ser tanto positivo como negativo (GUIMARÃES, 2014). 
Em primeiro lugar, por todos os motivos que vimos analisando desde o início 
desta unidade, não existe um lugar do Brasil onde se fala um “português mais correto” 
 
 
do que nos outros. Existem, isso sim, lugares onde predominam variantes 
prestigiadas, e outros onde predominam variantes estigmatizadas. 
3 FONÉTICA OU FONOLOGIA 
Quando se tenta pensar em Fonética e Fonologia, geralmente tem-se alguma 
dificuldade em entender de forma clara a divisão que existe, ou pode existir, entre 
essas duas vertentes dos estudos da produção e captação dos sons em matéria de 
Língua portuguesa e construção de linguagem. Como pode ser percebido, “a maior 
parte da literatura que trata de Fonética e Fonologia vem tentando fazer uma distinção 
entre elas que não tem convencido aqueles que se aventuram nessas áreas” (SEARA; 
NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 11); uma vez que um dos grandes 
desafios do estudo tanto da Fonética como da Fonologia é, justamente, fazer 
diferenciação entre os objetos de estudo de uma e o objeto de estudo de outra ciência. 
Caminharemos para tentar diferenciar os objetos de estudo das duas disciplinas. 
3.1 Breve história da Fonética e da Fonologia 
 Como nos ensina Souza (2012), a história dos estudos sobre a linguagem, o 
conhecimento e práticas acerca da produção e manifestação dos sons da fala, sempre 
pendularam (se movimentaram) entre dois extremos; por uma lado havia aqueles que 
não se interessavam em estudar os caminhos e aplicações dos sons em suas 
manifestações fisiológicas e, por outro lado, havia aqueles que se interessavam 
muitíssimo pela produção e articulação dos sons da fala a ponto de esquecer-se de 
outros elementos importante na compreensão dos sons produzidos pelo aparelho 
fonador e como esses sons eram captados pelos ouvidos humanos. 
Esses dos grupos entraram em uma verdadeira batalha para tentar convencer 
um ao outro sobre qual era o campo de estudos da produção dos sons mereciam 
maior atenção para os estudiosos e intelectuais que trabalhavam com essa 
perspectiva dos estudos linguísticos. E o autor continua dizendo que: 
Com a descoberta da gramática do sânscrito, a gramática de Pânini, no 
começo do século XIX, novos horizontes foram descortinados, 
particularmente, à fonética, por meio do estudo detalhado apresentado nessa 
gramática sobre a articulação dos sons do sânscrito. O refinamento com que 
 
 
os sons são descritos por Pânini fez com que se elucidassem as ideias que 
os estudiosos europeus possuíam da fonética. Esses eram levados, muitas 
vezes, a confundir os sons vocais com as letras que os representavam na 
escrita, o que pode ser constatado na “gramática de Port-Royal”, de Arnald e 
Lancelot […] (SOUZA, 2012, p. 2). 
Mas não é possível pensar a ciência linguística, sejam quais forem as vertentes 
que se estude, sem pensar em um dos maiores intelectuais dos estudos do 
funcionamento da língua, o linguista suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913). Ao 
estudar os elementos e funcionamento da língua, Saussure desenvolveu novos 
parâmetros para a linguística como um todo, colocando diante dos estudiosos novos 
elementos de análise e reflexão, bem como novos parâmetros para essas análises. 
Suas reflexões e ensinamentos foram organizadas e publicadas, depois da sua morte, 
pelos seus alunos que anotaram, organizaram e trouxeram a público o conteúdo de 
suas aulas. 
Essas anotações com o conteúdo das aulas do mestre suíço foram publicadas 
sob o nome de Curso de Linguística Geral, no ano de 1916; o que tornou possível a 
popularizou das ideias linguísticas com as quais Saussure trabalhou durante toda a 
sua vida acadêmica. O livro trouxe grandes contribuições para o estudo da linguística 
como ciência, em especial quando o estudioso estabelece sua conhecida dicotomia 
entre “língua” e “fala” como elementos constituintes e distintos da linguagem. 
Figura 4 – Imagem rústica do aparelho fonador 
 
Fonte: BECHARA (2009, p. 43). 
 
 
 
Para Saussure (2006)a “língua” era compreendida como um sistema de signos 
que apresentam sua própria ordem particular de representação e execução; enquanto 
que a “fala” era estudada como um elemento individual, pragmático e histórico, 
portanto pertencente ao indivíduo, à pessoa. Como nos lembra Souza (2012, p. 3), “a 
partir da dicotomia língua/fala, é definido, para Saussure, o lugar dos estudos dos sons 
em seus aspectos fisiológicos” no que diz respeito aos aspectos que lidam com à 
história das transformações linguísticas e sua produção. 
Saussure chama de Fonologia a fisiologia dos sons, portanto ela olha para os 
mecanismos físicos de produção do som; a Fonética, por sua vez, na concepção do 
linguista, deve designar o estudo das evoluções dos sons, ou seja, ser uma ciência 
histórica, diacrônica ao tratar da evolução da língua e a produção dos sons em um 
período mais abrangente dos estudos temporais. Ou, em palavras do próprio 
Saussure (2006, p. 43), a “Fonologia se coloca fora do tempo, já que o mecanismo da 
articulação permanece sempre igual a si mesmo [e a Fonética] é uma das partes 
essenciais da ciência da língua; à Fonologia, cumpre repetir, não passa de disciplina 
auxiliar e só se refere à fala”. 
Apesar dos esforços de Saussure na caracterização dessas duas ciências – 
Fonética e Fonologia – foram apenas com os trabalhos do russo Nikolay S. Trubetzkoy 
(1890-1938) que houve uma delimitação sistemática sobre o alcance e as práticas 
concernentes à Fonética e a Fonologia. Segundo o teórico russo, “a fonologia não 
objetiva estudar os sons, mas os fonemas, os elementos imateriais constitutivos do 
significante linguístico. O fonólogo considera o som como a realização fonética do 
fonema, um símbolo material do mesmo” (SOUZA, 2012, p. 5). Assim, podem ser 
estabelecidas as áreas de atuação tanto da fonética quanto da fonologia, com 
disciplinas que estão irmanadas, mas ao mesmo tempo separadas pelos objetos que 
estão sob responsabilidade de cada uma delas. Para Trubetzkoy (apud SOUZA, 2012, 
p. 4, 5): 
Por um lado, os ‘sons’ não são fenômenos puramente físicos, mas 
psicofísicos por definição [...] e, por outro lado, o que distingue o fonema do 
som não é o seu caráter puramente psíquico, mas antes seu caráter 
diferencial – o que faz dele um valor linguístico […] a fonética procura 
descobrir o que de fato se pronuncia ao falar uma língua, e a fonologia o que 
se crê pronunciar. 
O autor russo continua dizendo, em seus próprios termos, que as pesquisas 
 
 
realizadas pelo estudioso da língua Ferdinand de Saussure e por aqueles que 
continuaram o seu trabalho de pesquisa e sistematização não deram a devida atenção 
a aspectos fônicos da língua. A percepção de que os trabalhos do autor suíço não 
olhavam devidamente para as questões de produção e percepção dos sons, acabou 
por contribuir para o aprofundamento dos estudos posteriores das disciplinas de 
Fonética e Fonologia. Nas palavras de Trubetzkoy: 
Nem F. de Saussure nem nenhum de seus adeptos tentaram aplicar seus 
princípios teóricos à solução de problemas fonológicos mais ou menos 
complicados ou à descrição científica de um sistema fonológico concreto. 
Ora, é somente trabalhando com materiais concretos que se pode chegar a 
aperfeiçoar e pormenorizar uma teoria. Privada desta fonte de 
aperfeiçoamento, a teoria de F. de Saussure ficou incompleta no que diz 
respeito ao aspecto fônico da língua. J. Baudouin de Courtenay insistia muito 
menos que F. de Saussure sobre a noção de “sistema”, mas, em troca, tinha, 
no que diz respeito à diferença entre os “sons” e os “fonemas”, ideias mais 
claras do que as do mestre de Genebra. [...]. Nem F. de Saussure nem J. 
Baudouin de Courtenay nunca tentaram a formulação de leis fonológicas 
concretas (mesmo quando a existência de tais leis era consequência da 
noção de “sistema onde todos os seus elementos são solidários”). No que diz 
respeito a isto, a fonologia atual não tem predecessores entre os linguistas 
das gerações anteriores. (TRUBETZKOY apud SOUZA, 2012, p. 6) 
É preciso, sobretudo, que percebamos que o intuito primeiro de Saussure não 
era estudar os elementos que comporão, em momentos futuros da história dos 
estudos da linguagem aquilo que chamamos de Fonética e Fonologia; mas as 
percepções do estudioso suíço somadas aos aprofundamentos dos estudos 
capitaneados pelo linguista russo, acabaram por abrir caminho para uma nova ciência 
dentro dos estudos concernente a fala, ou seja, abriram caminho para a produção e 
sistematização de um conhecimento novo que a gramática chamará de Fonética. 
Ainda mais, nas gramáticas o conhecimento desenvolvido no decorrer do tempo sobre 
a produção e percepção do som, foi sistematicamente agrupado em duas áreas de 
estudos, a Fonética e a Fonologia. 
3.2 Sobre a Fonética e a Fonologia 
Em sentido introdutório, é preciso que se afirme que tanto a Fonética quanto a 
Fonologia têm como objetos primeiro de estudo os sons da fala, o como os homens 
produzem esses sons; por esse motivo é difícil fazer – para não dizer impossível – 
fazer fonologia sem entender o que seria fonética. É preciso, portanto, observar com 
maior atenção para o lugar científico que cada uma dessas ciências ocupa nas 
 
 
subáreas das ciências da linguagem. 
Em sua Gramática (2009), o professor Evanildo Bechara ensina que a Fonética 
e a Fonologia não são disciplinas opositoras, elas não se opõem uma à outra; mas 
que ambas as disciplianas pertencem ao nível biológico da fala humana e ainda que, 
tanto uma como a outra, podem ser lotadas na categoria de elementos 
“psicofisicamente” condicionados, ou seja, elementos que se manifestam psicológica 
e fisicamente juntamente. O autor afirma que “a disciplina que estuda minuciosamente 
os sons da fala, as múltiplas realizações dos fonemas, chama-se fonética” 
(BECHARA, 2009, p. 41). E completa o seu ensino ao dizer que “a primeira [fonologia] 
estuda o número de oposições utilizadas e suas relações mútuas, enquanto a fonética 
experimental determina a natureza física e fisiológica das distinções observadas […]” 
(BECHARA, 2009, p. 43). 
Em outros termos, podemos entender que o autor está afirmando que, 
enquanto a fonologia preocupa-se com aquilo que está sendo produzido pelo aparelho 
fonador; a fonética se preocupa com o como esses sons estão sendo produzidos. Ou 
nas palavras de Souza (2012, p.10) “é com base [na] compreensão que Trubetzkoy, 
fundamentado nas teorias estruturalistas do Círculo Linguístico de Praga, dá o nome 
de fonética à ciência dos sons da fala e de fonologia à ciência dos sons da língua”. 
Quando consideramos, ainda, os ensinos da Gramática de Cunha e Cintra 
(2017) percebemos que os autores fazer uma distinção entre aquilo que eles 
chamaram de “fonética acústica”, que é a descrição dos efeitos acústicos de um 
fonema, e “fonética fisiológica”, de base fisiológica e articulatória. Esses estudos só 
são possíveis por conta do fato de que, como explicam Cunha e Cintra (2017, p. 37), 
“os sons de nossa fala resultam quase todos da ação de certos órgãos sobre a 
corrente de ar vinda dos pulmões”. As ações dos orgãos para produção dos sons e o 
como ela se dá chamamos de “Fonética”; já o resultado comunicativo dessas 
articulações, chamamos de “Fonologia”. 
Pensar, portanto, Fonética e Fonologia como disciplinas que operam em 
separados é, em todos os sentidos, o desafio que o estudioso da língua precisa 
enfrentar no intuíto de construir o ensino linguístico que seja consistente, não frágil. 
Ao tentar clarear o nosso conhecimento sobre essa matéria, os autores do livro 
Fonética e Fonologia (2011) argumentam que: 
Podemos estudar a fala a partir da sua fisiologia, ou seja, a partir dos órgãos 
 
 
que a produzem, tais como a língua, responsável pela articulação da maior 
parte dos sons da fala; e a laringe, responsável principalmente pela produção 
de “voz” que leva à distinção entre sons vozeados (sonoros) e não-vozeados(surdos). Podemos também estudá-la a partir dos sons gerados por esses 
órgãos, ou seja, com base nas propriedades sonoras (acústicas) transmitidas 
por esses sons. Podemos ainda examinar a fala, sob a ótica do ouvinte, ou 
seja, da análise e processamento da onda sonora quando realiza a tarefa de 
percepção dos sons, dando sentido àquilo que foi ouvido. Todos esses 
aspectos podem ser considerados pela Fonética (SEARA; NUNES; 
LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 11, 12, grifos dos autores). 
 
Observamos, então, que os elementos constitutivos do estudo da Fonologia, 
considerado aqui em sentido amplo, são a produção do som e a percepção desse som 
pelo ouvinte, falante ou não de determinada língua. Os autores continuam suas 
reflexões clareando e adequando sua concepção de Fonologia nos seguintes termos: 
 
É consenso que a fala tem como principal objetivo o aporte de significado, 
mas, para isso, deve se constituir em uma atividade sistematicamente 
organizada. O estudo dessa organização, que é dependente de cada língua, 
é considerada Fonologia. Assim, a Fonologia pode ser vista como a 
organização da fala focalizando línguas específicas. Logo, poderíamos dizer 
que uma descrição de como segmentos vocálicos (vogais) podem ser 
produzidos e percebidos seria fornecida pela Fonética, já uma descrição das 
vogais do português brasileiro a partir de seus traços opositivos seria 
proporcionada pela Fonologia (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 
2011, p. 12, grifos dos autores). 
 
 Como se pode ver por aquilo que foi mostrado em parágrafos anteriores, não 
é uma tarefa fácil conceituar as matérias de fonética e fonologia; é assim que os 
autores ressalvam, ainda, que “uma outra maneira de diferenciar Fonética de 
Fonologia está relacionada à faceta empírica própria da Fonética” (SEARA; NUNES; 
LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 12). Por último, é preciso lembrar que tanto no que 
diz respeito a investigação sistemática da língua quanto a organização mental da fala 
são possíveis, primordialmente, por meio da observação dos fenômenos linguísticos. 
A observação é primordial para compreensão dos fenômenos da língua. 
3.3 Utilização da Fonética e da Fonologia 
Ressaltamos que, diferente do que acontece com aquelas línguas que são 
chamadas de “línguas naturais”, as línguas em que sua manifestação são 
desenvolvidas sem uma intervenção formal externa ou aquelas línguas que se 
desenvolvem sob a ausência de uma sistematização material formal, a Língua 
 
 
portuguesa, considerando sua vertente grega (NEVES, 2005) ou latina (BECHARA, 
2009), sempre se preocupou com os objetivos práticos do estudo de certa divisão da 
gramática normativo-tradicional, sempre se perguntou o para quê do estudo de 
determinada disciplina. 
Como essa questão dos objetivos pelos quais devemos estudar determinado 
campo do conhecimento humano, colocarem-nos diante de alguns argumentos que, 
em matéria de conhecimento prático, nos ajudarão a entender os motivos pelos quais 
devemos estudar este ou aquele objeto em específico. Nos perguntaremos, então, 
sobre os motivos pelos quais deveríamos estudar e aprender sobre Fonética e 
Fonologia como ciências da linguagem. Essa categorização, vale dizer, é apenas 
didática, na medida em que se propõe a servir de apoio e reforço em práticas 
educativas formal-escolares, reforços que ajudam o estudante a desvincular o 
conhecimento de uma necessidade primeira. Observemos os motivos pelos quais 
devemos estudar Fonética e Fonologia. 
Alfabetização – Quando falamos de alfabelização, nos referimos ao ato 
através do qual um professor conduz o seu aluno na iniciação do uso de um 
sistema ortográfico, seja ele a língua portuguesa, a língua inglesa, a língua 
espanhola, etc. No intuíto de realizar essa tarefa, o alfabetizador, tanto de 
adultos quanto de crianças, precisa dominar as noções de Fonética e 
Fonologia, para tornar o seu trabalho de ensino tanto mais qualificado quanto 
objetivo. Com isso o professor conseguirá “levar o aluno a compreender essas 
variações, para relacioná-las aos elementos gráficos” da língua (SEARA; 
NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 14). 
Fonoaudiologia – Não costumamos pensar que o profissional 
fonoaudiólogo lida com alterações no processo de aquisição e apresentação 
dos sons da língua, ou seja, esse profissional precisa ter um conhecimento 
tanto fonético, na articulação sonora, quanto fonológica, na medida em que lida 
com problemas neurológicos e auditivos. Além do que no trabalho de 
reabilitação os profissionais fonoaudiólogos precisam ter domínio desses 
conhecimentos. 
 
Fonética Forense – Fonética forense ou investigativa é uma área que 
 
 
vem crescendo muito nos últimos anos e pode ser caracterizada pela 
verificação de sons para estabelecer relações, isto é, “tem-se trabalhado na 
linha de verificação de locutor que busca determinar se uma fala gravada (de 
uma pessoa suspeita de um crime, por exemplo) é a mesma de um criminoso” 
(SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 14). 
 
Tradução – O profissional de tradução também vai precisar de uma 
ideia, ainda que básica, sobre o que é Fonética e Fonologia. Quando falamos 
sobre tradução e o que ela é podemos seguir aquilo que nos ensina Campos 
(1986) quando afirma que o verbo traduzir vem do latim e significa “conduzir ou 
fazer passar de um lado para o outro”. Assim, traduzir nada mais é do que “fazer 
passar, de uma língua para outra, um texto escrito […]. Quando o texto é oral, 
falado, dize-se que há ‘interpretação’, e quem a realiza então é um ‘interprete’” 
(CAMPOS, 1986, p. 7). Traduzir, nesse sentido, é não apenas conhecimento 
de língua e contexto, mas também de som e aquisição de fala. 
Temos percebido que há uma diferenciação semântica-conceitual entre os 
termos Fonética e Fonologia; percebemos também que essa conceituação está longe 
de ser unanimidade entre os especialistas da área; vimos ainda que é possível acordar 
que enquanto a Fonética opera com a produção fisiológica do som a Fonologia 
trabalha com a articulação e percepção do som pelo ouvinte e, por fim, 
compreendemos que o estudo das duas disciplinas é importante para muitas e 
variadas disciplinas que lidam com a língua e a linguagem, como a tradução, a fonética 
forense, a fonoaudiologia e a alfabetização, dentre outras. 
4 APARELHO FONADOR 
A Fonética se ocupa primordialmente em saber sobre como os sons são 
produzidos pelo aparelho fonador, ou seja, quais dos órgãos do corpo humano, de 
forma geral, ou do aparelho produtor da voz, de forma específica, são responsáveis 
por tornar possível a sonorização de determinada expressão sonora, de determinado 
som. É oportuno lembrar que a função principal do aparelho fonador não é produzir 
sons de fala, mas eles servem objetivamente para respirar, mastigar, engolir, cheirar, 
 
 
etc. 
4.1 A produção dos sons 
O estudo de toda essa dinâmica na articulação da voz (e aqui não se pode 
confundir voz, que é o som produzido pela vibração das pregas vocais, com fala, que 
é o ato ou efeito de falar) que é estudado em um ramo específico da fonética chamado 
de Fonética Articulatória. Nessa perspectiva, “a Fonética Articulatória é definida como 
o estudo dos sons da fala na perspectiva de suas características fisiológicas e 
articulatórias” (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 11). Temos, 
portanto, ciências diferentes para estudar ciências diferentes aos quais podemos 
chamar de voz e fala; que a maioria tende a considerar como se fosse a mesma coisa 
e, como já aprendemos, eles não são a mesma coisa. 
Mas para que compreendamos melhor a articulação fonética que resulta na 
produção dos sons, é preciso que olhemos com maior atenção para o aparelho 
fonador humano. Como veremos, o aparelho fonador pode ser considerado como uma 
estrutura importante na compreensão da produção e percepção dos sons. Produção 
no sentido de ele ser usado como uma ferramenta cujo o produto último é a produçãodos “sons”; mas o aparelho fonador também pode ser entendido como um mecanismo 
a partir do qual podemos perceber – captar – os sons produzidos pelo aparelho 
fonador. 
Em termos descritivos, é possível dizer que a corrente de ar que vem dos 
pulmões passa por outros órgãos do aparelho fonador resultando em espécies 
diferentes de deslocamentos de ar, aos quais chamamos comumente de “sons”. Em 
língua portuguesa, como em outros idiomas, esses sons que resultam da passagem 
de ar pelos órgãos do aparelho fonador podem ser catalogados e classificados, 
dependendo do tipo de estudos que se procura desenvolver. Mas como nos lembra o 
professor Evanildo Bechara (2009, p. 43), “produzimos os fonemas servindo-nos de 
órgão do aparelho respiratório e da parte superior do aparelho digestivo, que só 
secundariamente se adaptaram às exigências da comunicação, numa aquisição lenta 
do homem”. Como explica Bechara: 
 
Em português, como na maioria dos idiomas, os fonemas são produzidos 
graças à modificação que esses órgãos da fala impõem à corrente de ar que 
 
 
sai dos pulmões. Línguas há, entretanto, que se servem da corrente 
inspiratória (entrando o ar nos pulmões) para produzir fonemas, que são 
conhecidos pelo nome de cliques. Produzimos cliques quando fazemos os 
movimentos bucais, acompanhados da sucção de ar na boca, para o beijo, o 
muxoxo e certos estalidos como o que serve para animar a caminhada dos 
cavalos, mas não os utilizamos como sons da fala em português (BECHARA, 
2009, p. 44). 
 
Nessa esteira, para Bechara, os órgãos que são usados pelo ser humano na 
produção dos sons, resultam de uma evolução histórica e paulatina para um uso 
secundário desses órgãos que são primordialmente utilizados para tornar possível a 
respiração humana. Ainda segundo Bechara (2009, p. 43), “a esses órgãos da fala, 
constitutivos do aparelho fonador, pertencem, além de músculos e nervos”: 
▪ Os brônquios; 
▪ A traqueia; 
▪ A laringe (com as cordas vocais); 
▪ A faringe; 
▪ As fossas nasais e a boca com a língua (dividida em ápice, dorso e raiz); 
▪ As bochechas; 
▪ O palato duro (ou céu da boca); 
▪ O palato mole (ou véu palatino) com a úvula ou campainha; 
▪ Os dentes (mormente os anteriores) com os alvéolos; 
▪ Os lábios. 
Esses órgãos estão subdivididos, de acordo com a figura abaixo (Figura 5), em 
“região supraglótica”, aqueles que estão acima da glota, e “região subglótica”, aqueles 
que estão abaixo da glota. Usando termos mais técnicos, podemos dizer que a “glote 
é o espaço entre as pregas vocais localizadas na laringe” (SEARA; NUNES; 
LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 17). Sempre precisa haver nos estudos da fonética 
e da fonologia, uma relação técnico-formal para que não haja descompasso entre 
realidade e descrição; portanto essa é uma organização sistemática e didática. 
Sistemática no sentido de ser uma organização que privilegie a ordem, o modo de 
apresentação e formal no sentido de seguir uma forma, uma estética constante. 
Notemos como Cegalla (2004, p. 24) descreve as mais importantes funções dos 
órgãos que formam o aparelho fonador: 
▪ Cordas vocais: São duas pregas musculares, elásticas, distendidas 
 
 
horizontalmente diante da glote. Quando vibradas, produzem fonemas sonoros. 
▪ Faringe: Cavidade ligeiramente afunilada, entre a boca e a parte superior do 
esôfago. Conduz o ar para a boca e as fossas nasais. 
▪ Úvula: Vulgarmente chamada campainha, a úvula é um apêndice flexível do 
véu palatino. Tem a função de fiscalizar a passagem do ar; levantando-se 
contra a parede posterior da faringe, intercepta a passagem do ar para as 
fossas nasais: o ar escoa-se pela boca e o fonema se diz oral; abaixando-se a 
úvula, permite que a corrente de ar se escape em parte pelas fossas nasais, 
produzindo-se então um fonema nasal. 
▪ Boca e órgãos anexos: Podemos dizer que os fonemas nascem na laringe 
e se completam na boca. E isso acontece graças ao concurso das arcadas 
dentárias, dos alvéolos, do palato duro (ou céu da boca) e do palato mole (ou 
véu palatino) e, sobretudo, à atividade da língua, dos lábios e das bochechas, 
os quais se movimentam para modificar a corrente sonora e moldar os 
fonemas. A cavidade bucal atua também como caixa de ressonância dos 
fonemas sonoros. 
▪ Fossas nasais: Cavidades situadas acima do maxilar superior, funcionam 
como caixa de ressonância dos fonemas nasais 
 
Mais do que observar os órgãos que formam o aparelho fonador, é preciso 
pensar sobre o como esses órgãos operam para que esse aparelho desenvolva aquilo 
que podemos chamar, em última instância, de elementos de comunicação, ou seja, 
mais do que descrever os elementos para efetivação da fala, pensarmos como essa 
dinâmica pode nos ajudar a compreender a comunicação humana. 
Quando nos referimos a uma organização sistemática e didática, estamos 
querendo dizer que em todas as vezes que tentamos descrever o funcionamento do 
aparelho fonador, estamos lançando, concomitantemente, descrever esses processos 
de forma organizada (sistemática) e de forma a proporcionar a outras pessoas a 
possibilidade de aprender por meio dessa descrição (didática). Acompanhe como 
todos esses órgãos estão organizados no aparelho fonador humano (veja a figura 5): 
 
 
 
 
Figura 5 – Aparelho fonador expandido 
 
 
Fonte: Seara; Nunes; Lazzarotto-Volção (2011, p. 18). 
Cabe dizer ainda que, quando consideramos os órgãos que caracterizam o 
aparelho fonador, eles podem ser organizados em “articuladores ativos”, aqueles que 
são mobilizados para realizar os diferentes sons da fala, e os “articuladores passivos” 
aqueles que são mobilizados na parte superior do aparelho fonador, ou seja, 
“compreendem o lábio superior, os dentes superiores, os alvéolos (região crespa, logo 
atrás dos dentes superiores), o palato duro (região central do céu da boca) e o palato 
mole (final do céu da boca)” (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 18). 
Abaixo nos ocuparemos daquela parte do aparelho fonador que chamamos de 
“região supraglótica” para que notemos como a dinâmica para produção do som 
obedece a uma lógica que é, ao mesmo tempo, simples, no que diz respeito à pratica 
de entrada e saída do ar, e complexa, quando consideramos a ligação entre a 
produção sonora e a articulação cerebral na inteligibilidade dos sons produzidos. A 
partir daí temos elementos variados para os quais precisamos olhar com maior 
atenção. 
 
 
Figura 6 – Esquema detalhado da região supraglótica do aparelho fonador 
 
Fonte: Seara; Nunes; Lazzarotto-Volção (2011, p. 19). 
4.2 A articulação da fala 
A região que temos chamado de “supraglótica” é a região responsável pela 
articulação primordial da fala. Como nos ensinam Cunha e Cintra (2016, p. 41), “a 
descrição dos sons da fala (descrição fonética), para ser completa, deveria considerar 
sempre” alguns elementos ou relações que são primordial na articulação sistemática-
prática da produção da fala. São eles: 
 
a) como eles são produzidos; 
b) como são transmitidos; 
c) como são percebidos. 
 
Nesse sentido, podemos dizer que ao olharmos para o aparelho fonador 
humano, percebemos uma dinâmica a partir da qual se pode perceber os elementos 
dinâmicos do som, ou seja, como ele é produzido; como o som é transmitido e como 
esse som é percebido. Explicando o funcionamento do aparelho fonador na produção 
 
 
da fala humana, os autores de Fonética e fonologia do português brasileiro (2011) 
explicam como essa dinâmica acontece passo a passo: 
 
Para que ocorra a inspiração, é necessário que o volume dos pulmões 
aumente. Esse aumento de volume faz com que a pressão do ar dentro dos 
pulmões diminua, ficando menor do que a pressão atmosférica, o que permite 
a entrada do fluxo de ar vindo das cavidades superiores. O movimento de 
deslocamento do ar é de regiões de alta pressão para regiões de baixa 
pressão. Em seguida, a pressão do ar passa a ser igual à da pressão 
atmosféricae o fluxo de ar para. Quando o volume dos pulmões diminui, na 
fase de expulsão do ar, há um aumento da pressão de ar dentro dos pulmões. 
Assim, a pressão atmosférica torna-se menor do que a pressão pulmonar e o 
ar se desloca para fora dos pulmões, ocorrendo a expiração. É nesse 
momento que a fala geralmente ocorre (SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-
VOLÇÃO, 2011, p. 19). 
 
Como veremos adiante, em nossos estudos a respeito da fonética e fonologia, 
a articulação dos sons para a formação de representações gráficas ganharão nomes 
que lhe serão equivalentes (mas não exatos); esse movimento se dará por conta de 
convenções internacionais as quais veremos na próxima aula em nossos estudos de 
Fonética e Fonologia. Outro conceito do qual deveremos nos apossar é o conceito de 
fonema. É preciso que nos lembremos de que “fonema” não é a mesma coisa que 
“fala”; portanto, não se pode tomar uma coisa por outra, como veremos a seguir. 
4.3 Sobre o Fonema 
Em um sentido mais acessível, podemos dizer que os fonemas são unidades 
sonoras da língua, elas podem ser consideradas as menores unidades sonoras da 
língua. Ou como nos explica Cegalla (2004), os fonemas, como unidades mínimas da 
língua, funcionam como elementos distintivos ou das palavras que compõe uma 
língua, diferenciando-as uma das outras. 
Na língua de manifestação escrita, os “fonemas” são representados por 
“signos”, também chamados de “sinais gráficos” aos quais chamamos de “letras”; 
então as letras são representações gráficas das unidades sonoras da língua. Apesar 
de depender em grande medida do estudioso e do desenvolvimento do seu trabalho, 
de pesquisa e da teoria que baliza esse trabalho, podemos afirmar que no sistema 
fonético do português falado no Brasil, existem aproximadamente trinta e três (33) 
fonemas. 
 
 
A guisa de lembrança, precisamos repetir que Fonema é o som produzido pelo 
aparelho fonador, enquanto que a Letra é um sinal gráfico representativo do som. 
Deste modo, enquanto para falar usamos fonemas, para escrever usamos letras. Um 
e outro conceito operam em esferas diferentes da expressão; um opera na esfera da 
fala e outro opera na esfera da escrita. 
Cegalla (2004, p. 21) apresenta, ainda, exemplos do funcionamento prático dos 
fonemas em língua portuguesa: 
 
Mala gato mal 
Mola mato mar 
Mula pato mas 
 
Somos levados a pensar que cada fonema seja representado por uma letra, 
mas não é assim que acontece na prática expressiva. Essa seria uma dinâmica ideal 
(um fonema para cada letra), mas na língua portuguesa não é assim que acontece. 
Veja os exemplos abaixo (entre parênteses temos fonemas de representações 
gráficas): 
 
▪ A mesma letra pode representar fonemas diferentes: eXame, Xale, 
próXimo, seXo; Cola, Cera. 
▪ O mesmo fonema pode ser figurado por letras diferentes: caSa, eXílio, 
coZinha; tiGela, laje. 
▪ Um fonema pode ser representado por um grupo de duas letras 
(dígrafo): maCHado, muLHer, uNHa, miSSa, caRRo. 
▪ A letra X pode representar, simultaneamente, dois fonemas diferentes: 
táXi (tácsi), fiXo (ficso), tóraX (tóracs). 
▪ Há letras que, às vezes, não representam fonemas; funcionam apenas 
como notações léxicas: caMpo (cãpo), reNda (reda), regUe (U insonoro, para 
não se proferir reje). 
▪ Usam-se letras simplesmente decorativas: não representam fonemas 
nem funcionam como notações léxicas. Mantiveram-se em razão da etimologia: 
hotel (otel), diScípulo (dicípulo), eXceção (eceção), qUina (qina). 
 
 
▪ Há fonemas que, em certos casos, não se representam graficamente: 
bem (bei), batem (bátei), falam (fálãU). 
 
Cegalla (2004, p. 23) continua a nos lembrar de que o motivo pelo qual essas 
diferenças acontecem em nossa língua “e o nosso sistema ortográfico não é 
rigorosamente fonético, mas ainda está preso à origem das palavras. Escreve-se, por 
exemplo, exame, em vez de ‘ezame’, porque este substantivo vem da palavra latina 
examen”. 
Como acontece com muitas palavras em língua portuguesa, a sua escrita, ou 
representação gráfica, não obedecem ao som produzido pela articulação da fala, mas 
respeita uma tradição linguística que pode vir de outras línguas, seja ela de tradição 
românica ou não (línguas românicas são aquelas cuja tradição remonta o grego). A 
escrita de uma palavra pode obedecer aos requisitos da língua da qual ela foi 
importada, da qual ela foi trazida para o vocábulo de língua portuguesa. 
Nas palavras de Cunha e Cintra (2017, p. 38), que também tratam dessa 
questão dos fonemas e das letras, afirmam que, em nossa língua portuguesa, quase 
todos os sons da fala são produzidos por conta da expiração, pela passagem de ar 
dos pulmões para fora do corpo; e o autor continua dizendo que “a inspiração 
normalmente funciona para nós como um instante de silêncio, um momento de pausa 
na elocução”. Em português praticamos alguns cliques [sons], mas sem valor fonético: 
o beijo, que é uma bilabial inspiratória” pode ser considerado um exemplo de um som 
(o estralo dos lábios) que não tem representação fonética significativa. 
Assim, o aparelho fonador é responsável pela produção e percepção dos sons 
que são emitidos pela passagem do ar e, posteriormente, são representados por letras 
que nem sempre tem uma equivalência formal com as letras do alfabeto; este 
fenômeno acontece pela dinâmica de formação da Língua portuguesa em seu 
convencionalmente de representação dos sons. 
5 FONEMA E REPRESENTAÇÃO FONÊMICA 
5.1 Constituição dos Fonema 
Estabelecer uma diferença entre letra e fonema é necessário para que não haja 
nenhum tipo de confusão concernente ao material com o qual estamos lidando nessa 
 
 
unidade do nosso curso. Quando falamos sobre “fonema” estamos falando a respeito 
do resultado da ação do aparelho fonador (o aparelho responsável pela produção do 
som) em determinado movimento físico, que pode ser maior ou menor dependendo 
da força do ar que é expelido pelos pulmões e passam por vários órgãos, como cordas 
vocais, língua e dentes. Uma ilustração nos servirá de parâmetro para 
compreendermos como se dá essa dinâmica: 
 
Essa relação entre volume e pressão pode ser melhor entendida se 
pensarmos nos pulmões como uma sala de 2 m². Nessa sala, estão 10 
pessoas (período antes de puxar o ar para dentro dos pulmões). Em função 
do tamanho da sala, muito provavelmente as pessoas não devem estar 
espremidas umas às outras. No entanto, se o número de pessoas cresce para 
200, 300 (entrada de ar nos pulmões), provavelmente a pressão entre elas 
será grande, uma vez que agora estarão espremidas umas às outras. Vai 
chegar um momento em que a pressão dentro da sala será tão grande que 
será preciso “expulsar” as pessoas da sala para que a pressão diminua, é o 
momento de expulsão do ar dos pulmões. Se, do lado de fora da sala, não 
houver muitas pessoas, ou seja, se a pressão não for grande, as de dentro 
da sala poderão ser empurradas para fora e novamente a sala vai apresentar 
uma menor pressão entre as que nela restarem. O mesmo acontece com os 
pulmões, pois normalmente não expelimos todo o ar que há dentro deles 
(SEARA; NUNES; LAZZAROTTO-VOLÇÃO, 2011, p. 20). 
 
Ao expulsar o ar dos pulmões, por uma dinâmica fisiológica própria, é produzido 
o fonema. O gramático Mattoso Câmera (apud BECHARA, 2009) afirma que ao 
mesmo tempo em que o fonema tem uma dinâmica de produção semelhante em todas 
as suas manifestações; são também distintivos ganhando novas representações 
gráficas dependendo do contraste sonoro que recebem pelo aparelho fonador; em 
outros termos, poderíamos dizer que todo fonema é produzido pelo deslocamento do 
ar liberado pelos pulmões ao mesmo tempo em que eles ganham nova sonoridadedependendo dos obstáculos que encontram até ganharem novas percepções no 
ambiente físico. Essas novas percepções são tanto sonora como representativa em 
forma de gráficos. Em palavras do próprio Mattoso Câmara: 
 
O fonema, entendido como um feixe de traços distintivos, individualiza-se e 
ganha realidade gramatical pelo seu contraste com outros feixes em idênticos 
ambientes fonéticos. Não é, pois, a diferença articulatória e acústica que 
distingue primariamente dois fonemas, senão a possibilidade de 
determinarem significações distintas numa mesma situação fonética. 
Compreende-se assim que um mesmo fonema possa variar amplamente na 
sua realização, conforme o ambiente fonético ou as peculiaridades do sujeito 
falante (CÂMERA apud BECHARA, 2009, p. 43). 
 
 
 
Some-se a isso, o fato de que o formato das cordas vocais pode ser 
considerado um dos fatores determinantes para a chamada sonorização (ou 
vozeamento), isto é, a quantidade e qualidade de vibração das cordas vocais na 
produção dos sons. Essas cordas vocais variam de tamanho de pessoas para pessoa 
(de homem para mulher), mas apresentam em comum sua localização na laringe e 
sua prisão na cartilagem aritenoide. 
Como nos indica Viaro (2020, p. 7), “o termo ‘aritenoide’ vem do grego ‘cântaro’, 
isto é, ‘semelhante a um cântaro’. Além delas, existem a cartilagem tiroide (‘escudo’) 
e cricoide (‘anel’)”. O vazeamento determinará o lugar em que o som será produzido 
de forma mais fraca ou mais forte, o que resultará, em seu todo, na produção de vogais 
e consoantes surdas ou sonoras que serão representadas por símbolos diferentes. 
Ainda segundo Bechara: 
 
A fonética pode reconhecer, e realmente o faz, diversas realizações para o / 
t/ da série ta-te-ti-to-tu; a fonêmica não leva em conta as variações (que se 
chamam alofones), porque delas não tomam conhecimento os falantes de 
língua portuguesa. Um fonema admite uma gama variada de realizações 
fonéticas que vai até a conservação da integridade do vocábulo: quando isto 
não ocorre, diz-se que houve mudança de fonema. O /l/ admite várias 
realizações no Brasil, de norte a sul (e estas variantes não interessam à 
análise fonêmica, análise que deveria ter primazia em nosso estudo de 
língua); mas haverá mudança de fonemas quando se não puder fazer a 
oposição mal / mau (BECHARA, 2009, p. 42, 43). 
 
 
Nos estudos da Fonética, no que diz respeito ao aparelho fonador e sua 
articulação na articulação dos sons, todos as suas funções são importantes, porém 
dois órgãos especialmente podem ser observados com maior atenção; o primeiro e a 
laringe e o segundo é a boca. Como nos ensina Lima (2011), esses dois órgãos do 
aparelho fonador (laringe e boca) são fundamentais para nossa compreensão de 
como acontece a produção dos sons em nosso aparelho fonador, em sua parte 
superior, bem como o seu funcionamento. Nas palavras balizadas do autor apredemos 
que: 
 
Na parte superior da laringe existem dois pares de pequenos músculos 
chamados vulgarmente cordas vocais, separados por uma depressão 
conhecida como ventrículo de Morgagni. O papel principal, se não exclusivo, 
na produção da voz, cabe ao par de cordas inferior, cordas verdadeiras. 
Estas, que se opõem à maneira de lábios, deixam entre si uma estreita fenda, 
 
 
a glote, capaz de se fechar por contração dos músculos insertos nas 
cartilagens moles da laringe. Na boca são de notar: a língua, os dentes, os 
lábios e o palato, compreendendo este duas porções: o palato duro (céu da 
boca) e o palato mole (véu do paladar). O véu do paladar, levantando-se, 
intercepta a passagem do ar pelas fossas nasais (LIMA, 2011, p. 43). 
 
Conhecer o aparelho fonador e suas funções – primárias e secundárias – é 
importante para aquele que quer entender não apenas o funcionamento desses 
órgãos, mas também entender os modos pelos quais o corpo humano (por meio do 
aparelho fonador) produz e articula todos os sons a partir dos quais a língua 
portuguesa constrói, as letras, as palavras e, por último, a comunicação como um todo 
orgânico que é tornada real por meio do aparelho fonador e dos órgãos que o compõe. 
Não podemos nos esquecer de que o som só é possível por conta das articulações 
dos órgãos do nosso aparelho fonador, daí a importância do estudo e observação de 
seu desenvolvimento e funcionamento. 
Figura 7 – Parte superior do aparelho fonador 
 
Fonte: Seara; Nunes; Lazzarotto-Volção (2011, p. 9). 
 
O gramático Rocha Lima (2011), nos coloca diante de uma dinâmica a partir da 
qual ocorre a produção do som na parte superior do aparelho fonador, o que resultará 
em momento posterior na manifestação dos sons e que, dependendo de uma 
organização e percepção linguística serão tomados como fonemas, ou seja, sons que 
 
 
ganharão uma representação gráfica. Contudo, “à gramática, entretanto, só interessa 
classificar aqueles sons da fala que concorrem para distinguir uma palavra de outra; 
de tal sorte que eles não podem substituir-se mutuamente sem alterar o sentido das 
palavras onde figuram” (LIMA, 2011, p. 44). 
Não são todos os sons que são objeto de estudo da Fonética, mas tão somente 
aqueles que colaboram para distinção ou assemelhação entre palavras. Vejamos 
alguns exemplos de fonemas diferenciadores em palavra semelhantes, como por 
exemplos: faro / fero /firo; bola / cola / mola; capa / casa / cala; mal/ mar /mas. 
5.2 Alfabeto fonético internacional 
Na tentativa de estabilizar e normatizar a representação dos sons produzidos 
na dinâmica da sonorização linguística nasceu o Alfabeto Fonético Internacional que 
contou em seus vários anos de existência com cinco versões (de 1844 à 1865) além 
de algumas revisões, como a que aconteceu em 2015 em nossa época. Abaixo um 
exemplo do Alfabeto Fonético. 
Como nos ensina Viaro (2020), o Quadro Fonético da International Phonetic 
Association (IPA), em português a Associação Internacional de Fonética, é um 
sistema de notação de símbolos fonéticos tendo como base a escrita alfabética latina, 
ou seja, a língua latina. Foi criado por um grupo de professores franceses e britânicos. 
Cada um dos símbolos faz referência a parâmetros articulatórios sistematicamente 
estudados e colocados em um sistema de representação comum. 
Em princípio, o sistema de símbolos do IPA permite transcrever todo o som de 
qualquer língua (em especial aquelas línguas que vieram do grego/latim chamadas de 
românicas. O objetivo do conjunto de símbolos do IPA é homogeneizar o registro 
escrito da notação fonética. É um sistema de símbolos amplamente utilizado nas áreas 
de Fonética, e também nos registros de pronúncia de dicionários, como pode ser 
percebido na maioria dos dicionários de língua portuguesa (VIARO, 2020). 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 8 – Alfabeto fonético internacional 
 
Fonte: VIARO (2020, p. 3). 
À guisa de exemplificação podemos observar que no alfabeto fonético (Figura 
8) os sons e suas produções são representados pelas colunas verticais e horizontais. 
Tomemos como exemplo o som “nasal” e “bilabial” /m / que em nossa figura está 
mostrado na coluna 1 e na linha 2, representando a nossa consoante “M”. Assim, o 
som do ar que passa pela traqueia e chaga a boca e que é obstaculado pelos lábios 
e chaga até às fossas nasais, está representado no alfabeto fonético por /m / (sempre 
acompanhado, na sua representação, pelos dos traços laterais), e essa mesma 
dinâmica acontecerá com todas as outras representações dos sons produzidos pelo 
aparelho fonador. 
Outro exemplo que podemos usar para entender como pode ser feita a leitura 
do Alfabeto fonético é, como se segue, aquele apresentado em forma de quadro 
ilustrativo por Silva (2015). Nele, o autor nos apresenta alguns exemplos usando 
palavras de língua portuguesa. 
 
Quadro 2 – Tabela fonêmica consonantal 
 
Fonte: SILVA, 2015, p. 136 
Não podemos nos esquecer de que, como nos lembra a Gramática normativa 
 
 
da língua portuguesa (2011),

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