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REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações Ltda. 
ISSN: 1983-0882 
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REVISTA CADERNO PEDAGÓGICO – Studies Publicações e Editora Ltda., Curitiba, v.22, n.7, p. 01-17. 2025. 
 
A educação escolar na perspectiva da interculturalidade 
 
School education from the perspective of interculturality 
 
La educación escolar desde la perspectiva de la 
interculturalidad 
 
DOI: 10.54033/cadpedv22n7-031 
 
Originals received: 4/4/2025 
Acceptance for publication: 4/28//2025 
 
 
Leisa Aparecida Gviasdecki de Oliveira 
Doutora em Educação 
Instituição: Universidade Federal do Paraná (UFPR) 
Endereço: Mossoró, Rio Grande do Norte, Brasil 
E-mail: leisaag@live.com 
 
Edilson Damasceno 
Doutorando em Ciências da Educação 
Instituição: Faculdade Interamericana de Ciências Sociais (FICS) 
Endereço: Mossoró, Rio Grande do Norte, Brasil 
E-mail: edildamasceno@gmail.com 
 
Jackson Luiz Fernandes Adelino 
Mestrando em Ciências Sociais e Humanas 
Instituição: Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) 
Endereço: Mossoró, Rio Grande do Norte, Brasil 
E-mail: prof.jackfernandes@gmail.com 
 
Meiriane Alves Crispim 
Mestra em Educação 
Instituição: Universidade Federal do Paraná (UFPR) 
Endereço: Curitiba, Paraná, Brasil 
E-mail: meirianeacrispim@gmail.com 
 
Simone Aparecida Conerado 
Doutoranda em Educação 
Instituição: Universidade Federal do Paraná (UFPR) 
Endereço: Curitiba, Paraná, Brasil 
E-mail: simoneconerado@ufpr.br 
 
 
RESUMO 
Atualmente, questões referentes às diferenças culturais crescem e se 
manifestam em nossa sociedade. Diariamente, nos deparamos com a presença 
 
 
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de diferentes grupos socioculturais considerados discriminados e 
subalternizados e somos provocados a investigar sobre a necessidade de uma 
educação que supere as dimensões de preconceitos e discriminações, que estão 
cada vez mais presentes nas escolas, como reflexo da atual sociedade. Diante 
dessas considerações, nos questionamos: A educação intercultural tem 
importância no contexto da educação escolar? O que precisamos saber sobre a 
interculturalidade? Como a interculturalidade pode ajudar nos processos 
pedagógicos? Este ensaio tem como objetivo analisar a relevância da educação 
intercultural no contexto escolar. Para atingir esse objetivo, buscamos autores 
que discutem a interculturalidade como uma centralidade dos processos 
socioculturais distintos. No entanto, no contexto escolar é possível nos 
depararmos com questões socioculturais, ainda de difícil resolução. É neste 
conjunto de preocupações que esta proposta busca compreender a importância 
de uma educação intercultural. 
 
Palavras-chave: Interculturalidade. Educação Escolar. Educação Intercultural. 
Políticas Públicas. 
 
ABSTRACT 
Currently, issues related to cultural differences are growing and manifesting in 
our society. Daily, we are confronted with the presence of different socio-cultural 
groups considered discriminated against and marginalized, which prompts us to 
investigate the need for an education that goes beyond dimensions of prejudice 
and discrimination, which are present in schools as a reflection of the current 
society. In light of these considerations, we question: Does intercultural education 
have importance in the context of school education? What do we need to know 
about interculturality? How can interculturality help in pedagogical processes? 
This essay aims to analyze the relevance of intercultural education in the school 
context. To achieve this objective, we sought authors who discuss interculturality 
as a centrality of distinct socio-cultural processes. However, in the school context, 
we may still encounter socio-cultural issues that are difficult to resolve. It is within 
this set of concerns that this proposal seeks to understand the importance of 
intercultural education. 
 
Keywords: Interculturality. School Education. Intercultural Education. Public Pol-
icies. 
 
RESUMEN 
Actualmente, las cuestiones relacionadas con las diferencias culturales están 
creciendo y manifestándose en nuestra sociedad. A diario nos encontramos con 
la presencia de diferentes grupos socioculturales considerados discriminados y 
subalternizados, lo que nos lleva a investigar la necesidad de una educación que 
supere las dimensiones de prejuicio y discriminación, presentes en las escuelas 
como reflejo de la sociedad actual. Ante estas consideraciones, nos pregunta-
mos: ¿Tiene importancia la educación intercultural en el contexto escolar? ¿Qué 
debemos saber sobre la interculturalidad? ¿Cómo puede ayudar la intercultura-
lidad en los procesos pedagógicos? Este ensayo tiene como objetivo analizar la 
relevancia de la educación intercultural en el contexto escolar. Para lograr este 
 
 
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objetivo, buscamos autores que debaten la interculturalidad como una centrali-
dad de distintos procesos socioculturales. Sin embargo, en el contexto escolar 
todavía nos podemos encontrar con cuestiones socioculturales de difícil resolu-
ción. Es dentro de este conjunto de preocupaciones que esta propuesta busca 
comprender la importancia de una educación intercultural. 
 
Palabras clave: Interculturalidad. Educación Escolar. Educación Intercultural. 
Políticas Públicas. 
 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
No campo da educação contemporânea, o conceito de cultura 
desempenha um papel central nas discussões sobre a formação de indivíduos e 
a construção de sociedades. Zygmunt Bauman, em sua obra “Ensaios sobre o 
conceito de cultura” (2012), propõe uma análise profunda sobre os múltiplos 
sentidos atribuídos à cultura, explorando como esses sentidos se entrelaçam 
com a história e os diferentes contextos sociais. Para Bauman, as variações no 
entendimento da cultura refletem não apenas as condições históricas, mas 
também as contradições e complexidades das sociedades que a concebem. O 
autor aponta que o termo “cultura” é uma construção histórica, cujas definições 
dependem das diferentes formas de pensamento que se deram ao longo do 
tempo. Essas formas de pensamento, por sua vez, estão ligadas às condições 
sociais e políticas de cada época, variando de acordo com o contexto histórico e 
as relações de poder em jogo. 
O primeiro conceito que Bauman discute é a cultura como um conceito 
hierárquico, um entendimento que se consolidou na mentalidade ocidental, 
especialmente em períodos de forte centralização do poder e da autoridade 
moral. Nesse modelo, a cultura é vista como uma característica própria do ser 
humano, um patrimônio que pode ser adquirido, moldado e até dissipado ao 
longo da vida. O ser humano, para Bauman, não é apenas um ser biológico, mas 
um ser social cujas características podem ser desenvolvidas, aprimoradas ou 
modificadas de acordo com o seu esforço, dedicação e ambiente. Essa visão 
hierárquica de cultura postula que certos comportamentos e valores são mais 
 
 
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“elevados” do que outros, sendo, portanto, a cultura uma ferramenta para 
alcançar um ideal humano de moralidade e beleza. 
No entanto, esse ideal está ligado, de maneira direta, ao conceito de 
prestígio social, que não é necessariamente resultado da prática de virtudes, 
mas da capacidade de aderir a certos valores compartilhados pela classe 
dominante. Para Bauman, a cultura hierárquica reflete a divisão entre as elites e 
as classes populares, na medida em que as elites podem desfrutar de prestígio 
social sem precisar praticar as virtudes que reivindicam.Esse conceito de cultura 
se entrelaça com a ideia de um status social que é amplificado pela 
intelectualidade, pela educação formal e pelos padrões de socialização 
predominantes, elementos que reforçam as hierarquias sociais existentes. 
A segunda concepção que Bauman explora é a cultura como um conceito 
diferencial, que busca entender as diferenças culturais e as diversas formas de 
vida que existem entre os diferentes grupos sociais. Esse conceito está 
fundamentado na ideia de que cada grupo humano, com suas tradições, hábitos 
e experiências de vida, constrói uma cultura própria, diferenciada das demais. A 
cultura, nesse caso, é vista como um produto das condições sociais e históricas 
de cada grupo, e é carregada de valores específicos, como verdade, beleza e 
moralidade, que variam de acordo com as normas de cada sociedade. A cultura 
diferencial, portanto, não pode ser compreendida de maneira universal, já que 
ela é marcada pela diversidade de práticas e significados atribuídos por cada 
grupo. 
Bauman, ao abordar essa concepção, destaca que o ser humano não é 
totalmente determinado por sua biologia ou genética. A cultura é, assim, uma 
resposta às necessidades sociais e históricas, um fenômeno social que não pode 
ser reduzido a uma expressão universal ou a um conjunto fixo de características. 
Esse conceito de cultura implica, portanto, que os seres humanos são 
incompletos por natureza, necessitando de uma formação cultural para se 
tornarem plenamente humanos. Nesse sentido, as culturas humanas são 
diversas e únicas, e o que é considerado “universal” não deve ser confundido 
com aquilo que é culturalmente específico. 
 
 
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A terceira concepção discutida por Bauman é a cultura como um conceito 
genérico, que busca identificar as características universais do ser humano. 
Nesse sentido, a cultura é vista como a capacidade única do ser humano de 
produzir símbolos e significados, utilizando a linguagem e outros meios para 
organizar sua experiência e garantir sua sobrevivência. A cultura, nesse caso, é 
um fenômeno que transcende as diferenças sociais e se estabelece como uma 
característica universal de todos os seres humanos. O ser humano é, portanto, 
definido pela sua capacidade de produzir e interpretar símbolos culturais, o que 
o distingue dos demais animais. 
Esse conceito de cultura, por sua vez, é também o que fundamenta as 
práticas educativas nas sociedades humanas, pois, ao permitir a comunicação, 
o aprendizado e a construção de significados compartilhados, a cultura se torna 
a base sobre a qual se desenvolvem as práticas pedagógicas. Em um mundo 
cada vez mais plural, em que convivem diferentes culturas, identidades e formas 
de viver, a educação intercultural ganha relevância, pois ela busca não apenas 
ensinar as competências acadêmicas, mas também promover o respeito à 
diversidade e a convivência pacífica entre os diferentes grupos sociais. 
Nos dias atuais, a educação intercultural se apresenta como uma resposta 
às crescentes manifestações de preconceito, discriminação e intolerância 
presentes em nossas sociedades. Essas manifestações, que se traduzem em 
diferentes formas de violência física e simbólica, como racismo, homofobia, 
intolerância religiosa e exclusão social, têm se tornado cada vez mais visíveis, 
especialmente nas escolas. A pluralidade cultural que caracteriza a sociedade 
contemporânea exige uma abordagem pedagógica que promova a compreensão 
e o respeito pelas diferenças, ao mesmo tempo em que combate as 
desigualdades e as injustiças sociais. 
Entretanto, a presença crescente da diversidade cultural nas escolas nem 
sempre é acompanhada de uma abordagem pedagógica adequada. Muitas 
vezes, as escolas se veem diante da dificuldade de lidar com as questões 
culturais de forma construtiva, perpetuando práticas de exclusão e 
discriminação. Em muitos casos, os projetos pedagógicos que abordam a 
questão das diferenças culturais são apenas respostas pontuais a incidentes de 
 
 
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discriminação, e não uma prática sistemática e contínua que visa a construção 
de uma educação inclusiva e respeitosa. 
Diante desse cenário, a educação intercultural se torna um campo de 
grande importância. Ela propõe uma reflexão crítica sobre as práticas educativas 
e busca transformar as escolas em espaços de convivência plural e democrática, 
onde todas as culturas são reconhecidas e respeitadas. A interculturalidade, 
nesse sentido, não é apenas um conceito teórico, mas uma prática que deve ser 
incorporada aos processos pedagógicos de forma transversal, desde a 
educação infantil até o ensino superior. 
O papel dos professores nesse processo é fundamental. Eles são os 
mediadores que devem estar preparados para lidar com a diversidade cultural 
de forma sensível e construtiva, promovendo a reflexão crítica sobre as questões 
culturais e desafiando os estereótipos e preconceitos que ainda permeiam as 
práticas educativas. A formação de professores para a educação intercultural 
deve, portanto, ser uma prioridade, pois são eles que têm o poder de transformar 
a realidade das escolas e das comunidades em que atuam. 
Neste contexto, o presente artigo se propõe a discutir a importância da 
educação intercultural, apresentando um panorama sobre as concepções de 
cultura e suas implicações para a educação. A partir de uma breve 
contextualização do conceito de interculturalidade, será abordado como ele se 
aplica à prática pedagógica e como pode contribuir para a construção de uma 
educação mais inclusiva, justa e respeitosa. Ao final, serão discutidas as 
principais questões que envolvem a implementação da educação intercultural 
nas escolas, destacando seus desafios e possibilidades. 
 
2 INTERCULTURALIDADE: CONTEXTUALIZAÇÃO E CONHECIMENTOS 
 
O conceito de "cultura" é uma construção multifacetada e dinâmica que 
evolui ao longo da história, refletindo as complexas relações sociais, políticas e 
econômicas de diferentes períodos. No contexto educacional, a compreensão de 
cultura é essencial para entender as interações entre grupos sociais e para o 
desenvolvimento de práticas pedagógicas que respeitem e valorizem a 
 
 
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diversidade. Neste sentido, a educação intercultural emerge como uma resposta 
a esses desafios, buscando promover a convivência harmoniosa e a equidade 
entre diferentes grupos culturais. Para abordar a interculturalidade no contexto 
educacional, é necessário, antes de mais nada, entender o percurso histórico do 
conceito de cultura e como ele se transformou ao longo dos séculos. 
Historicamente, o termo “cultura” começa a ser associado à ideia de 
civilização a partir do século XVIII, especialmente no período do Iluminismo. A 
civilização passou a ser entendida como um processo de progresso intelectual, 
espiritual e material, com o qual se procurava definir o que significaria ser 
“civilizado”. Para os pensadores iluministas, a civilização não se limitava a 
aspectos materiais, mas também envolvia a moralidade e os costumes das 
sociedades. Nesse contexto, a cultura e a civilização eram vistas como conceitos 
quase sinônimos, ambos vinculados a uma visão de progresso. No entanto, com 
o avanço das ideias modernas e a emergência de novas formas de pensamento, 
a relação entre cultura e civilização passou a ser questionada, principalmente a 
partir do século XIX, quandose acirrou a rivalidade intelectual entre franceses e 
alemães. 
Enquanto para os franceses a “civilização” incluía a vida política e social 
de uma nação, os alemães, por sua vez, associavam a cultura a um fenômeno 
mais específico, relacionado à arte, à religião e à intelectualidade. Essa disputa 
ideológica gerou uma mudança importante no entendimento de cultura, que 
passou a ser vista, a partir dos alemães, como algo mais profundo e diferenciado, 
refletindo o modo de vida de um povo e suas características específicas. Assim, 
o conceito de cultura se distanciou da ideia de um processo linear de progresso 
e passou a ser entendido como um fenômeno plural, caracterizado pela 
diversidade de formas de vida e pelas especificidades de diferentes grupos e 
sociedades. 
Terry Eagleton, em sua análise da cultura, reforça essa ideia de que a 
cultura não é uma narrativa universal da humanidade, mas sim um conjunto de 
formas de vida específicas, cada uma com suas próprias leis de evolução. Para 
ele, o conceito de cultura deve ser entendido como uma diversidade de modos 
de vida, que se manifestam de maneiras distintas em diferentes nações e 
 
 
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períodos históricos. Eagleton, ao refletir sobre as dinâmicas culturais, propõe 
que todas as culturas estão interligadas, não sendo nenhuma delas isolada ou 
pura, mas, sim, híbrida. Essa visão pluralista da cultura rompe com a ideia de 
culturas autênticas ou puras, destacando a complexidade das relações culturais 
e a constante troca de influências entre os povos. 
Ao longo do século XX, o estudo da cultura se expandiu e se diversificou, 
especialmente em relação às relações entre culturas distintas. No Ocidente, a 
ideia de que a cultura europeia seria a cultura universal natural e racional levou 
ao processo de colonização cultural. Através da educação e de outras formas de 
controle social, os europeus buscaram impor sua visão de mundo e suas práticas 
culturais aos povos colonizados, frequentemente justificando a escravidão, o 
genocídio e a subordinação cultural com base em uma concepção etnocêntrica. 
Esse processo de colonização cultural, no entanto, não se limitou à Europa. Nos 
Estados Unidos, por exemplo, a luta contra a escravidão e a busca por liberdade 
e igualdade de direitos para todos os cidadãos começou a moldar a construção 
de uma nação que, embora diversa, buscava criar uma identidade comum. 
Porém, as diferenças culturais e étnicas existentes entre os diferentes grupos, 
em vez de serem celebradas, transformaram-se em desigualdades sociais 
profundas. 
A Europa, por sua vez, enfrentou tensões culturais após a Segunda 
Guerra Mundial, quando acolheu um grande número de imigrantes provenientes 
de suas antigas colônias. Na Inglaterra, por exemplo, prevalecia a ideia de que 
todos os homens eram iguais, o que impedia que fossem tomadas ações 
específicas para ajudar os grupos imigrantes marginalizados, sob a justificativa 
de que isso poderia reforçar a desigualdade e a segregação. No entanto, o 
multiculturalismo e a luta contra o racismo começaram a se consolidar como 
elementos essenciais da educação intercultural, especialmente com o aumento 
da presença de imigrantes e a necessidade de integrar essas populações na 
sociedade. A educação intercultural na Europa passou a enfatizar a importância 
da convivência pacífica entre diferentes culturas, promovendo a integração e a 
superação das discriminações. 
Por outro lado, na América Latina, a diversidade cultural foi historicamente 
 
 
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negligenciada nas propostas políticas e educativas, sendo tratada de maneira 
homogeneizadora. Durante muitos anos, a ideia de um Estado-nação unificado, 
com uma identidade cultural única, prevaleceu, e as culturas indígenas e 
afrodescendentes foram marginalizadas. A educação nesse contexto teve um 
caráter compensatório, sem considerar adequadamente a pluralidade cultural. A 
partir da década de 1980, no entanto, começaram a surgir propostas para uma 
educação intercultural que buscavam reconhecer e valorizar a diversidade dos 
povos originários e afrodescendentes. No Brasil, esse movimento foi reforçado 
pela Constituição de 1988, que reconheceu os direitos das comunidades 
indígenas e afro-brasileiras, e pela criação de políticas educacionais voltadas 
para a educação intercultural, com foco na preservação das culturas e tradições 
desses povos. 
O Brasil, como um país de origem multifacetada, constituído por uma 
mistura de povos indígenas, europeus e africanos, carrega em sua formação 
uma rica diversidade cultural. Essa diversidade, no entanto, muitas vezes é 
tratada de maneira simplista, como se as culturas se integrassem facilmente em 
uma nação homogênea. A história do Brasil é marcada pela violência da 
colonização e pela exploração do trabalho escravo, processos que, para muitos 
autores, representam um genocídio e um etnocídio implacáveis contra os povos 
originários e africanos. No entanto, essa diversidade cultural também tem sido 
uma força de resistência e resiliência, que se reflete na construção de uma 
identidade nacional única, mas ao mesmo tempo plural. 
Com a valorização da cultura popular, a partir da década de 1960, 
movimentos urbanos e camponeses passaram a lutar pelo reconhecimento e 
valorização das culturas de diferentes grupos. Esses movimentos sociais, por 
meio da educação, desempenharam um papel fundamental na conscientização 
sobre a importância da diversidade cultural. A Constituição de 1988 também 
representou uma mudança importante, ao garantir a educação diferenciada, 
intercultural e bilíngue para as populações indígenas, buscando preservar suas 
tradições enquanto lhes fornecia ferramentas para interagir com outras 
sociedades. Essa abordagem visava, assim, equilibrar a preservação das 
culturas indígenas com o reconhecimento da necessidade de enfrentar as novas 
 
 
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realidades sociais e culturais. 
A partir da década de 1990, com a introdução dos Parâmetros 
Curriculares Nacionais, a pluralidade cultural passou a ser uma temática 
transversal nas escolas brasileiras. A educação intercultural foi vista como uma 
forma de promover a compreensão das diferenças culturais e de buscar a 
integração desses grupos na sociedade de maneira justa e igualitária. Nesse 
contexto, a interculturalidade é entendida como um campo interdisciplinar e 
transversal, que busca articular os processos identitários socioculturais diversos 
em um ambiente de respeito e compreensão mútua. Essa abordagem, segundo 
Fleuri (2003), contribui para a construção de um projeto comum, no qual as 
diferenças sejam integradas de maneira dialética. 
De acordo com Candau (2008), a educação intercultural deve ser uma 
educação para o reconhecimento do “outro”, que permita o diálogo entre os 
diferentes grupos sociais e culturais. Deve, ainda, ser capaz de enfrentar os 
conflitos decorrentes da desigualdade de poder entre esses grupos, promovendo 
a construção de uma sociedade democrática, plural e humana. Nesse sentido, a 
interculturalidade não se limita a um conjunto de práticas educacionais, mas 
envolve um projeto mais amplo de transformação social, onde as políticas de 
igualdade se articulam com as políticas de identidade. 
Neste artigo, propomos uma reflexão sobre a interculturalidade no 
contexto educacional, abordando como a educação intercultural pode ser um 
meiode construir uma sociedade mais justa e igualitária. A seguir, exploraremos 
as práticas pedagógicas que podem ser adotadas para promover o 
reconhecimento e o respeito à diversidade, bem como os desafios e as 
possibilidades da implementação de uma educação intercultural nas escolas. 
 
3 EDUCAÇÃO INTERCULTURAL: UM CAMINHO PARA A INCLUSÃO E DI-
VERSIDADE NO CONTEXTO ESCOLAR 
 
A educação intercultural se configura como um tema de relevância cres-
cente no contexto educacional, especialmente em uma sociedade cada vez mais 
caracterizada pela diversidade cultural, étnica, religiosa e social. No entanto, 
 
 
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para compreendê-la em toda sua profundidade, é necessário primeiramente en-
tender a origem e os fundamentos do conceito de intercultura, que serve como 
base para a construção de práticas educativas que respeitam as diferenças e 
promovem a inclusão de todos os sujeitos no processo de aprendizagem. 
A palavra “intercultura” emergiu como um campo de debate interdisciplinar 
e multifacetado, que busca lidar com a complexidade das relações intergrupais, 
estabelecendo uma ponte entre diferentes culturas, identidades e valores. Fleuri 
(2003), ao abordar o conceito de intercultura, destaca que ele se refere a um 
campo de discussão que lida com as relações entre processos identitários soci-
oculturais distintos. O autor afirma que a intercultura foca, sobretudo, na possi-
bilidade de respeitar as diferenças culturais, integrando-as em uma unidade que 
não as anule, mas que as reconheça e valorize em sua diversidade. A intercul-
tura, portanto, vai além da pluralidade e da diversidade, buscando compreender 
a ambivalência e o hibridismo presentes nas relações intergrupais e intersubjeti-
vas, compostas por diferentes campos identitários, como etnia, gênero, classe 
social, entre outros. 
Este conceito de intercultura, como proposto por Fleuri, é essencial para 
o desenvolvimento de uma educação capaz de compreender e lidar com a com-
plexidade das relações culturais no contexto escolar. A intercultura emerge não 
apenas como um campo de estudo interdisciplinar, mas também como uma nova 
perspectiva epistemológica que desafia as concepções tradicionais da edu-
cação, propondo uma abordagem que vá além da simples aceitação da diver-
sidade e busque integrá-la de forma significativa no processo educativo. 
No âmbito da educação, o conceito de intercultura foi adotado com o ob-
jetivo de promover a integração entre culturas, superando velhos e novos racis-
mos e preconceitos, e acolhendo estrangeiros e imigrantes, particularmente os 
filhos desses imigrantes nas escolas. Desde a década de 1980, o Conselho Eu-
ropeu tem utilizado o termo “educação intercultural” para tratar da questão da 
entrada de estrangeiros no sistema educacional, reconhecendo a importância da 
convivência entre diferentes culturas na construção de uma sociedade mais justa 
e inclusiva. A educação intercultural, nesse contexto, tem como objetivo 
promover a integração de pessoas de diferentes culturas, respeitando suas 
 
 
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identidades e valores, ao mesmo tempo em que trabalha pela igualdade de 
direitos e oportunidades para todos. 
Fleuri (2012) destaca ainda que a educação intercultural, quando ana-
lisada no contexto histórico, social e cultural brasileiro, revela a necessidade de 
uma abordagem epistemológica que seja capaz de lidar com a complexidade 
das relações interculturais no Brasil. Em um país como o Brasil, marcado pela 
diversidade cultural, racial e social, é fundamental que as práticas pedagógicas 
sejam repensadas para promover a inclusão de todos, respeitando suas diferen-
ças e oferecendo condições para que todos tenham acesso à educação de qual-
idade. 
A diversidade cultural, com suas múltiplas manifestações, como as 
diferentes etnias, religiões, línguas, políticas e tradições, exige propostas educa-
tivas que promovam a renovação dos paradigmas científicos e metodológicos 
tradicionais. A partir dessas propostas, novas perspectivas epistemológicas po-
dem surgir, capazes de lidar com as questões da transversalidade das relações 
interculturais e de promover uma educação que seja inclusiva e respeitosa com 
todas as culturas. Neste sentido, a intercultura se torna um campo de debate e 
reflexão que ultrapassa a simples coexistência de diferentes culturas, propondo 
uma integração e valorização dessas diferenças no contexto educacional. 
Os desafios dessa integração são evidentes, especialmente quando 
lidamos com questões como raça, etnia, gênero, preconceito racial, homofobia, 
intolerância religiosa, exclusão de pessoas com deficiência e outras formas de 
violência simbólica e física. Essas questões estão presentes em diversas esferas 
da sociedade, incluindo as escolas, e refletem a necessidade de uma abordagem 
educacional que não apenas reconheça, mas também combata as desigual-
dades e exclusões presentes na sociedade. A educação intercultural, nesse con-
texto, propõe-se a ser um instrumento de transformação social, capaz de 
desconstruir as formas de opressão e exclusão, promovendo uma educação que 
seja verdadeiramente inclusiva. 
Candau (2012), em sua pesquisa com professores, aponta que a con-
sciência sobre a realidade da diversidade cultural está se tornando cada vez 
mais forte entre os educadores. No entanto, muitos professores ainda têm 
 
 
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dificuldades em lidar com as diferenças culturais, muitas vezes devido à falta de 
preparação e conhecimento para trabalhar com essa diversidade. Isso pode le-
var à tendência de padronizar os alunos, tratando as diferenças como um prob-
lema a ser resolvido, em vez de reconhecê-las como uma riqueza a ser valor-
izada. Nesse sentido, a pesquisa de Candau revela que os termos “igualdade” e 
“diferença” são frequentemente mal compreendidos nas práticas pedagógicas, 
refletindo uma cultura escolar que tende a negar ou invisibilizar as diferenças, 
promovendo uma educação monocultural que não leva em conta as especi-
ficidades de cada aluno. 
A autora afirma que é essencial desconstruir essa lógica de padronização 
e promover uma educação que respeite e valorize as diferenças, reconhecendo 
que a igualdade não significa homogeneização, mas sim a garantia dos direitos 
de todos, independentemente de suas diferenças. Nesse contexto, Candau 
propõe uma educação intercultural que, ao mesmo tempo em que busca a igual-
dade de direitos, reconhece e valoriza as diferenças culturais, promovendo uma 
sociedade mais justa e democrática. 
Em sua análise, Candau (2012) também destaca a importância da articu-
lação entre políticas de igualdade e políticas de identidade, reconhecendo que a 
construção de uma educação intercultural efetiva depende da implementação de 
políticas públicas que promovam a inclusão e o reconhecimento das diferenças 
culturais, sociais e étnicas. No entanto, a autora observa que as políticas edu-
cacionais ainda enfrentam uma visão dicotômica, que separa a igualdade da 
diferença, e que é necessário repensar essas políticas de forma a garantir que 
todos os grupos sociais, especialmente os mais vulneráveis, sejam incluídos de 
forma plena na sociedade. 
A proposta de Candau (2012) é, portanto, a construção de práticas peda-
gógicas que articulem as questões de igualdade e diferença de maneira inte-
grada, reconhecendo a importância de cada indivíduo e de cada gruposocial, 
respeitando suas identidades e promovendo uma educação que seja verdadei-
ramente inclusiva. Para isso, é fundamental que os educadores adotem uma 
postura crítica e reflexiva em relação às questões culturais, questionando seus 
 
 
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próprios preconceitos e limitadores, e promovendo uma educação que, em sua 
essência, busque a emancipação e a inclusão social. 
O conceito de “daltonismo cultural”, como proposto por Candau (2012), 
descreve a tendência de não reconhecer ou não dar visibilidade às diferenças 
culturais na sala de aula, seja por falta de preparo, por uma dificuldade em lidar 
com a diversidade, ou por uma visão errônea de que a homogeneização é a 
melhor solução. Para promover uma educação intercultural efetiva, é necessário 
superar esse “daltonismo cultural”, reconhecendo as diferenças e integrando-as 
de forma construtiva no processo educativo. Isso implica em uma mudança de 
postura por parte dos educadores, que devem ser capazes de olhar para a di-
versidade como uma oportunidade de aprendizagem e enriquecimento, e não 
como um obstáculo. 
Neste contexto, a educação intercultural emerge como uma proposta fun-
damental para o fortalecimento de uma sociedade democrática e plural, onde 
todas as culturas, identidades e valores são respeitados e valorizados. Para que 
isso aconteça, é necessário que as práticas pedagógicas sejam repensadas e 
ajustadas, para que os educadores possam desenvolver uma educação que seja 
inclusiva, respeitosa e, acima de tudo, comprometida com a promoção dos 
direitos humanos e com a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. 
A educação intercultural, portanto, é um caminho para a transformação social, 
que deve ser percorrido com coragem, reflexão e compromisso com a diver-
sidade. 
 
4 CONCLUSÃO 
 
A educação intercultural emerge como um elemento fundamental para o 
desenvolvimento de uma sociedade mais democrática e inclusiva, onde as 
diferenças culturais, sociais e étnicas são valorizadas e respeitadas. Sua imple-
mentação nas escolas é imprescindível para que possamos avançar no fortalec-
imento da convivência entre diferentes grupos culturais, promovendo a com-
preensão mútua e o diálogo, e, consequentemente, contribuindo para a con-
strução de uma sociedade mais justa e igualitária. 
 
 
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É essencial que a educação intercultural vá além do reconhecimento su-
perficial das culturas diversas presentes nas salas de aula. O verdadeiro com-
promisso com a interculturalidade implica em uma ação pedagógica que 
promova a reflexão crítica, desafiando estereótipos e preconceitos arraigados, 
além de propiciar o conhecimento e a valorização das particularidades de cada 
grupo. A educação intercultural, nesse sentido, deve ser uma ferramenta de 
transformação, atuando como um antídoto contra a discriminação e exclusão, e 
estimulando o respeito pelas diversas formas de expressão e identidade. 
O conceito de interculturalidade não se limita a uma abordagem teórica, 
mas deve se traduzir em práticas pedagógicas concretas e eficazes que incen-
tivem os educadores a promover um ambiente inclusivo e estimulante para todos 
os alunos, independentemente de sua origem cultural, étnica ou social. Ao inte-
grar a diversidade cultural no processo educativo, a escola se torna um espaço 
de aprendizagem plural, onde os saberes de diferentes culturas são valorizados 
e reconhecidos como parte integrante do conhecimento global. Isso não só en-
riquece a experiência dos estudantes, mas também contribui para o desenvolvi-
mento de uma visão de mundo mais aberta, crítica e empática. 
No entanto, apesar dos avanços que já foram conquistados por muitos 
educadores comprometidos com a promoção da educação intercultural, ainda 
existe um longo caminho a ser percorrido. A implementação efetiva desse 
modelo educacional na maioria das escolas enfrenta obstáculos significativos, 
como a falta de capacitação adequada dos professores, a resistência a mudan-
ças e a escassez de recursos materiais e pedagógicos. É essencial que haja um 
esforço coletivo, tanto dentro das escolas quanto em movimentos sociais e 
outras esferas da sociedade, para fortalecer essa prática e torná-la uma reali-
dade em todas as instituições educacionais. 
Ademais, é importante destacar que a escola, sozinha, não pode ser re-
sponsável pela resolução de todas as questões sociais. No entanto, sua articu-
lação com outros atores sociais, como comunidades, movimentos sociais, organ-
izações não governamentais e políticas públicas, pode desempenhar um papel 
crucial na promoção de uma educação de qualidade e na construção de uma 
sociedade mais inclusiva. A colaboração entre diferentes setores da sociedade 
 
 
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é fundamental para garantir que as práticas pedagógicas sejam realmente trans-
formadoras e que todos os estudantes, independentemente de suas origens, ten-
ham a oportunidade de desenvolver seu pleno potencial. 
Portanto, a educação intercultural se configura como um caminho 
necessário para superar as desigualdades educacionais e sociais, promovendo 
uma formação que respeite e valorize as diferenças, ao mesmo tempo em que 
combate todas as formas de discriminação. Para que isso aconteça, os profis-
sionais da educação devem estar bem preparados, com uma formação contínua 
que inclua o conhecimento das diversas culturas e a reflexão constante sobre as 
práticas pedagógicas. Somente assim poderemos criar um ambiente edu-
cacional verdadeiramente inclusivo, onde a troca, o respeito e a colaboração en-
tre os diferentes grupos culturais seja a base para a construção de uma socie-
dade mais justa e democrática. 
 
 
 
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