Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

93
Capítulo 5
Wilhelm Wundt e o estudo da experiência interna
Saulo de Freitas Araujo
Wilhelm Wundt (1832-1920) é normalmente considerado, na 
historiografia da psicologia, como o fundador da psicologia científica, título 
este que está diretamente relacionado ao fato de ter criado, em 1879, o 
Laboratório de Psicologia na Universidade de Leipzig, na Alemanha. Além 
disso, é um dos autores mais citados e mencionados nos manuais de história 
da psicologia. Entretanto, apesar de toda essa fama, Wundt ainda é um autor 
não só bastante desconhecido, como também aquele, dentre os chamados 
“fundadores” da psicologia, cujas idéias mais sofreram distorções na literatura 
psicológica. Não só a extensão e as dificuldades de acesso à sua obra original, 
mas principalmente a atitude de vários historiadores da psicologia, que têm 
se detido apenas em partes dela, sem se preocupar com o sentido geral do seu 
sistema de pensamento, têm contribuído para essa situação desconfortável. 
Sendo assim, a primeira coisa que o leitor interessado em se aproximar da 
psicologia de Wundt deve ter em mente é que estamos ainda longe de ter uma 
clara e adequada compreensão de toda a sua obra e, o que aqui nos interessa 
mais de perto, do lugar que seu projeto psicológico nela ocupa. 
É bem verdade que, sobretudo a partir da década de 1980, começaram a 
surgir novos e importantes estudos sobre a obra de Wundt que têm procurado 
reavaliar o seu pensamento e mostrar as origens de algumas interpretações 
equivocadas tradicionalmente presentes nos manuais de história da psicologia. 
Alguns desses estudos, contudo, apesar de terem contribuído significativamente 
para mostrar a complexidade do projeto wundtiano de psicologia, são ainda 
superficiais e podem acabar introduzindo novos problemas na interpretação 
do pensamento de Wundt, na medida em que deixam de considerar textos 
fundamentais de sua obra, como seus escritos psicológicos iniciais, que 
abrangem o período de 1858 a 1863, quando ele ainda não tinha ido para 
Leipzig.
94 95
Muitas questões permanecem mal resolvidas na obra de Wundt. 
Em primeiro lugar, coloca-se a questão da continuidade ou ruptura de seu 
projeto de psicologia. Teria ele apresentado vários sistemas teóricos distintos, 
introduzindo modificações essenciais em cada um deles? Ou haveria um 
único sistema psicológico, cujas alterações posteriormente introduzidas não 
afetariam sua unidade fundamental? Isso nos remete a uma outra questão, 
que diz respeito aos interesses e pressupostos filosóficos fundamentais de 
Wundt, que subjazem ao seu projeto de psicologia. Wundt é, antes de tudo, 
um filósofo que formulou um sistema de filosofia, incluindo uma lógica, uma 
teoria do conhecimento, uma ética e uma metafísica. Sem uma adequada 
compreensão de seus escritos filosóficos, os problemas relativos à interpretação 
de sua psicologia não poderão ser satisfatoriamente resolvidos. 
Como as questões acima referidas aguardam uma solução definitiva, 
cujas exigências demandam um aprofundamento que extrapola os objetivos 
do presente capítulo, vamos privilegiar aqui, em vez de uma apresentação 
sistemática de todo o percurso wundtiano, alguns dos principais tópicos de seu 
pensamento psicológico, tomando como base sua fase madura, que se expressa 
na última grande síntese teórica de seu projeto de psicologia – o livro Compêndio 
de psicologia (Grundriß der Psychologie), cuja primeira edição é de 1896. 
A natureza da psicologia
Talvez a melhor maneira de iniciar uma apresentação introdutória 
da psicologia wundtiana seja explicitando a própria definição de psicologia 
proposta por Wundt. Neste sentido, a pergunta “O que é psicologia?” receberia 
a seguinte resposta: “A psicologia é uma ciência empírica cujo objeto de estudo 
é a experiência imediata”. No entanto, torna-se ainda necessário esclarecer o 
conceito de “experiência imediata”. 
Wundt entende por experiência em geral um todo unitário e coerente, 
que pode ser concebido e elaborado cientificamente a partir de dois pontos 
de vista distintos, porém complementares: toda experiência pode ser analisada 
pelo seu conteúdo objetivo (experiência mediata) ou subjetivo (experiência 
imediata). No primeiro caso, a ênfase recai sobre os objetos da experiência 
(mundo externo), pensados independentemente do sujeito da experiência, 
enquanto, no segundo caso, investiga-se o próprio sujeito da experiência 
(mundo interno) em sua relação com os conteúdos da experiência. Com 
base nesses dois pontos de vista, surge uma dupla possibilidade de se fazer 
94 95
ciência empírica: a ciência natural (física, química, fisiologia etc.), que cuida 
dos conteúdos específicos da experiência mediata, uma vez que os objetos 
fornecidos na experiência são sempre mediados pelos fatores subjetivos; e a 
psicologia, que tem por objeto a experiência imediata, já que não abstrai o 
próprio sujeito, como a ciência natural.
Com essa definição de psicologia, Wundt pretende, em primeiro lugar, 
atacar um tipo de psicologia bastante difundida em sua época, que vinha sendo 
definida como ciência da alma ou MENTE (cf. capítulo 2). Segundo Wundt, 
essa psicologia está assentada em hipóteses metafísicas (ESPIRITUALISMO ou 
MATERIALISMO) que extrapolam o domínio da experiência possível. Como sua 
intenção é inaugurar uma nova psicologia, autônoma e independente de teorias 
metafísicas, o único caminho possível era recusar essa psicologia e construir 
uma outra, que se atém somente à experiência psicológica propriamente dita. 
Para a psicologia wundtiana, só há a experiência, vista como um conjunto de 
processos interligados, e nada mais.
É importante enfatizar que, de acordo com essa definição, não há uma 
diferença essencial de natureza entre o mundo interno e o externo – uma vez 
que a experiência é um todo organizado que abrange ambos –, mas apenas uma 
diferença na maneira de se abordá-los. Por isso, a relação entre a psicologia e 
as ciências da natureza (NATURWISSENSCHAFTEN) é de complementaridade. Elas 
se complementam, na medida em que fornecem relatos diferentes da mesma 
experiência, sem que haja a possibilidade de haver uma subordinação ou 
redução de uma a outra. 
Por outro lado, na medida em que a psicologia é a ciência das formas 
universais da experiência humana imediata, ela pode ser considerada a mais 
geral de todas as ciências do espírito (GEISTESWISSENSCHAFTEN) e, portanto, 
Na língua alemã, não existe um substantivo para aquilo que hoje chamamos de “MENTE”. No contexto da filosofia 
e da psicologia alemãs do século XIX, utilizam-se freqüentemente dois substantivos – Seele (alma) e Geist (espírito) –, que 
podem ter significados muito diversos conforme o autor em questão. Em Wundt, contudo, podemos aproximar a idéia de 
alma à de mente, evitando assim um possível anacronismo terminológico na psicologia contemporânea.
Wundt entende por ESPIRITUALISMO qualquer hipótese ou teoria que defenda a existência de uma substância ou entidade 
imaterial (alma, espírito etc.), que seria o fundamento de todos os processos psíquicos.
O MATERIALISMO é a doutrina segundo a qual a matéria é o fundamento de tudo o que existe. Estendida ao campo dos 
fenômenos psíquicos, afirma que todos os eventos psicológicos não são nada mais que eventos cerebrais.
A distinção entre ciências da natureza (NATURWISSENSCHAFTEN) e ciências do espírito (GEISTESWISSENSCHAFTEN) foi introduzida 
pela primeira vez por Wilhelm Dilthey (1833-1911), na segunda metade do século XIX, na Alemanha, e refere-se à tentativa 
de se estabelecer uma autonomia metodológica para os estudos sobre a experiência humana em relação aos estudos sobre 
a natureza. Neste sentido, a inclusão da psicologia entre as ciências do espírito (Geisteswissenschaften) poderia sugerir uma 
contradição no pensamento de Wundt, na medida em que Wundt foi um crítico radical do espiritualismo. No entanto, 
essa aparente contradição se dissolve quando consideramos a diferença existente entre uma tese metafísica que afirma 
a existência deuma substância espiritual subjacente à nossa experiência (espiritualismo) e um postulado metodológico e 
epistemológico que reconhece e legitima a dualidade dessa mesma experiência (imediata e mediata), sem que isso implique 
uma distinção metafísica sobre a natureza última da realidade (paralelismo psicofísico de Wundt).
96 97
o fundamento de cada uma delas em particular (filologia, história, direito 
etc.).
Há que se considerar ainda a relação entre psicologia e filosofia. De 
todas as disciplinas empíricas, Wundt considera que a psicologia é aquela 
cujos resultados mais contribuem para a investigação dos problemas gerais da 
teoria do conhecimento e da ética, os dois domínios filosóficos fundamentais 
para ele. Se a psicologia, portanto, é complementar às ciências naturais e o 
fundamento das ciências do espírito, podemos dizer que é preparatória para a 
filosofia. Em outras palavras, os resultados da investigação psicológica podem 
guiar a construção de um sistema filosófico. 
A questão do método e a subdivisão da psicologia
Como a psicologia não estuda um objeto diferente do objeto das ciências 
naturais, mas apenas a mesma experiência de um outro ponto de vista, seus 
métodos de investigação também não podem diferir. A psicologia vai se servir, 
portanto, dos dois principais métodos utilizados pelas ciências da natureza: 
o experimento e a observação. O experimento consiste na interferência 
proposital (manipulação) do pesquisador sobre o início, a duração e o modo 
de apresentação dos fenômenos investigados (como na física, na química e 
na fisiologia). A observação propriamente dita refere-se à mera apreensão 
de fenômenos ou objetos, sem que haja qualquer interferência por parte do 
observador (como na botânica, na anatomia e na astronomia).
No que diz respeito ao experimento, a psicologia utiliza-o diretamente em 
suas investigações, como demonstram os estudos sobre a sensação, a percepção 
e a representação, ou seja, aquilo que Wundt chama de psicologia individual, 
fisiológica ou experimental. Nesse caso, pode-se investigar cuidadosamente 
tanto o início quanto o curso desses processos, visando sempre à sua relação 
com seus elementos constituintes. 
Há, porém, uma diferença metodológica significativa entre a psicologia e 
as ciências da natureza, decorrente da especificidade da perspectiva psicológica. 
Em primeiro lugar, já que a psicologia é o estudo da experiência imediata, 
seu conteúdo revela apenas processos, jamais objetos estáveis, como acontece 
na observação científica da natureza. Em segundo lugar, a psicologia não 
pode desconsiderar ou colocar entre parênteses, como fazem as ciências 
naturais, o sujeito da experiência, uma vez que este é precisamente o assunto 
de seu interesse. Além disso, seria muito difícil que, mesmo em situações 
96 97
freqüentemente repetidas, os mesmos elementos objetivos da experiência 
imediata viessem acompanhados da mesma condição do sujeito. Em outras 
palavras, a intenção do observador, que deve estar presente nas observações 
científicas, altera significativamente o início e o curso dos processos psíquicos. 
Levando em consideração essa particularidade dos eventos psicológicos, o 
psicólogo estaria, portanto, impossibilitado, por princípio, de utilizar a 
observação pura ou auto-observação (Selbstbeobachtung) no domínio da psicologia 
individual. 
É importante estar atento para este ponto, tendo em vista o fato de que 
Wundt é muitas vezes acusado de ser um dos principais defensores da auto-
observação ou introspecção tradicional, que remonta à tradição filosófica. No 
entanto, o que permanece em grande parte ignorado por seus intérpretes, e 
que está implícito nas considerações anteriores, é a diferença fundamental 
que ele estabeleceu entre a auto-observação (Selbsbeobachtung) e a percepção 
interna (innere Wahrnehmung). Essa última, segundo Wundt, por estar baseada 
no controle experimental das condições externas da experiência, substituiria 
a introspecção tradicional e livraria a psicologia das duras críticas feitas por 
diversos autores ao introspeccionismo.
Isso não significa, porém, que não haja lugar para a pura observação na 
psicologia. Ao contrário, existem fatos psíquicos que, embora não sejam objetos 
reais do mundo externo, possuem o caráter de objetos psíquicos, na medida 
em que sua natureza é relativamente estável e que independem do observador. 
Além disso, eles têm uma outra característica em comum, que os tornam 
adequados à observação: eles são inacessíveis pelo método experimental. Mas 
que objetos psíquicos são esses? São aquilo que Wundt chama de produtos 
mentais surgidos ao longo da história, como a linguagem, a religião, os mitos 
e os costumes, que dependem de certas condições psíquicas gerais, as quais 
podemos inferir com base em suas características objetivas. 
Uma característica fundamental desses produtos mentais é que eles 
pressupõem a existência de uma comunidade de muitos indivíduos que 
compartilham uma certa mentalidade, embora sua fonte última sejam sempre 
as características psíquicas do indivíduo em particular. É por estarem ligados 
a uma comunidade popular que Wundt chamou essa área de investigação 
psicológica de psicologia dos povos (Völkerpsychologie), que complementa a 
psicologia individual ou experimental na busca de uma compreensão geral 
dos princípios fundamentais da vida psíquica. No entanto, há uma curiosa 
diferença na atitude de Wundt em relação a essas duas áreas de investigação 
psicológica. Enquanto na psicologia individual ele procurou sempre investigar 
98 99
direta e empiricamente os fenômenos, na psicologia dos povos Wundt o fez 
apenas indiretamente, baseando-se acima de tudo nos relatos e estudos 
etnológicos. Os últimos 20 anos de sua vida (1900-1920) foram dedicados 
principalmente a essa psicologia dos povos, esforço esse que resultou em dez 
extensos volumes. 
Em suma, a psicologia dispõe, assim como a ciência natural, de dois 
métodos de investigação, que darão origem a duas formas complementares 
de estudo psicológico: o experimento, que a psicologia individual/fisiológica 
utiliza na análise dos processos psíquicos mais simples; e a observação 
dos produtos mentais, através da qual a psicologia dos povos investiga os 
processos psíquicos superiores. É importante termos sempre em mente que 
essa subdivisão da psicologia é uma necessidade apenas metodológica, que em 
princípio não compromete a unidade do seu objeto de estudo (os processos 
psíquicos revelados na experiência).
Principais conceitos e idéias psicológicas
Uma das principais idéias psicológicas de Wundt é a de que a vida 
psíquica desenvolve-se gradual e continuamente do simples para o complexo, 
através de uma série de processos regulares, que constituem nossa experiência 
psicológica na vida cotidiana. Neste sentido, nossa experiência imediata só nos 
fornece conteúdos de natureza complexa, que resultam da ligação de vários 
elementos simples. 
Esses elementos psíquicos, que são revelados através da análise 
psicológica e, portanto, de uma abstração – uma vez que em nossa experiência 
eles nunca aparecem isolados, mas somente ligados a outros conteúdos –, 
constituem a base de toda nossa vida mental. Como o conteúdo de nossa 
experiência imediata varia entre dois pólos, um objetivo e outro subjetivo, os 
elementos podem ser, seguindo essa divisão, de dois tipos: as sensações ligadas 
ao conteúdo objetivo (som, luz etc.) e os sentimentos simples relacionados ao 
conteúdo subjetivo (prazer, desprazer etc.). 
O próximo passo é a formação, a partir das sensações ou dos sentimentos 
simples, daquilo que Wundt chamou de complexos psíquicos (psychische 
Gebilde), que se diferenciam uns dos outros por certas características próprias, 
formando uma unidade relativamente autônoma. Eles podem assumir quatro 
formas diferentes: representações, sentimentos compostos, afetos e processos 
volitivos. Enquanto as representações têm sua origem nas sensações, todos os 
98 99
outros complexospsíquicos originam-se a partir dos sentimentos simples (ver 
Esquema 1). 
Esquema 1. Conteúdos da consciência
É importante ressaltar aqui que, para Wundt, os complexos psíquicos, 
embora sejam compostos de elementos psíquicos, possuem características que 
não pertencem a nenhum de seus elementos em particular. É a ligação dos 
elementos que produz essas novas características, que pertencem somente 
aos complexos enquanto tais. Aqui entra em cena uma das principais 
idéias da teoria psicológica de Wundt, que permanece ignorada por muitos 
comentadores, a saber, o conceito de fusão (Verschmelzung) e o princípio da síntese 
criadora. É a fusão – que tem como resultado a síntese criadora – que liga os 
elementos e constitui os complexos psíquicos, enquanto que a associação é um 
processo secundário, que se refere apenas à ligação de elementos já presentes 
em diversos compostos. O processo fundador da complexidade psíquica é, pois, 
a fusão, e não a associação. Sendo assim, Wundt está longe do ASSOCIACIONISMO 
BRITÂNICO, como faz questão de ressaltar inúmeras vezes. 
Os complexos psíquicos 
podem ainda se conectar, formando 
um todo unitário. Essa conexão 
dos complexos psíquicos Wundt 
denomina consciência. E o processo 
através do qual um conteúdo 
psíquico é trazido à clareza da 
EXPERIÊNCIA
IMEDIATA
conteúdo
objetivo
conteúdo
subjetivo
sensações
sentimentos
simples
representações
afetos
sentimentos
complexos
processos
volitivos
} conteúdos da
consciência
ˆ
Ò
Ô Ô
Ô Ô
ˆ
ˆ
ˆ
FUSÃO
O ASSOCIACIONISMO é um dos princípios fundamentais do 
chamado empirismo britânico, que tem como representantes 
principais John Locke (1632-1704) e David Hume (1711-
1776). De acordo com esses empiristas, a associação de idéias 
é o mecanismo fundador da dinâmica psíquica e responsável 
por toda a formação dos compostos psíquicos, que consistem 
unicamente na ligação de elementos simples.
100 101
consciência é chamado de apercepção 
(Apperception), que vem acompanhado 
do estado de atenção. Mas é possível 
também apreender conteúdos sem a 
presença da atenção, e nisso consiste 
exatamente a percepção (Perception). 
Desta forma, fazendo uma analogia 
com o sistema visual, Wundt chama 
o conteúdo ao qual a atenção está 
dirigida de ponto focal (Blickpunkt) da 
consciência, e o conteúdo restante de 
campo visual (Blickfeld) da consciência 
(ver Esquema 2).
Outra importante idéia psicológica de Wundt é o conceito de 
“causalidade psíquica”, que está diretamente relacionado ao seu PARALELISMO 
PSICOFÍSICO. Para Wundt, a experiência pode, como já foi dito, ser conhecida a 
partir de dois pontos de vista distintos, 
porém complementares: objetivo 
(experiência mediata) e subjetivo 
(experiência imediata). Certas partes 
da experiência mediata podem ter uma 
correspondência direta com partes da 
experiência imediata, sem que uma possa 
ser reduzida à ou derivada da outra. De 
acordo com o princípio do paralelismo 
psicofísico, quando isso acontece há uma 
relação necessária entre cada processo 
psíquico elementar e seu processo físico 
correspondente. No entanto, existem 
vários conteúdos da nossa experiência 
que só podem ser conhecidos a partir de um único ponto de vista, seja ele 
físico ou psicológico. Nesse caso, somos obrigados a reconhecer a autonomia 
do conhecimento psicológico e estamos justificados a supor uma causalidade 
própria para o domínio dos processos mentais, do mesmo modo que supomos a 
causalidade física na natureza. Os dois tipos de causalidade são complementares 
e nunca podem entrar em contradição entre si. Assim como a causalidade física 
está fundamentada nas leis da natureza, a causalidade psíquica vai encontrar 
sua fundamentação última nas leis fundamentais da vida psíquica.
O PARALELISMO PSICOFÍSICO é uma doutrina acerca 
do problema mente-corpo, que tem suas raízes nas 
filosofias de Baruch Spinoza (1632-1677) e Gottfried 
Leibniz (1646-1716), entre outros. Embora conte-
nha variantes, caracteriza-se essencialmente pela 
afirmação de que o físico e o psíquico são proces-
sos paralelos, que não podem ser reduzidos um 
ao outro. É uma doutrina bastante influente na 
filosofia e na psicologia do século XIX, que consiste 
em uma tentativa de superar tanto o dualismo de 
substâncias quanto o monismo materialista. 
A particularidade do paralelismo de Wundt consiste 
no fato de ele não ser um princípio metafísico, 
mas sim um postulado empírico que garante a 
autonomia da psicologia em relação à fisiologia, ou 
seja, ele é uma expressão da irredutibilidade da nossa 
experiência subjetiva. 
CONSCIÊNCIA
(conexão de 
complexos 
psíquicos)
apercepção
✜
atenção
percepção
ponto focal
campo
visual
ˆ
Ô
Ô
ˆ
Esquema 2. Apercepção e percepção
100 101
A institucionalização da psicologia
O título de fundador da psicologia, normalmente consagrado a 
Wundt em quase todos os manuais de história da psicologia, encontra 
freqüentemente justificativa na fundação, em 1879, do Laboratório de 
Psicologia da Universidade de Leipzig, onde ele permaneceu até se aposentar 
em 1917. Entretanto, esse fato seria por si só insuficiente para sustentar tal 
escolha. Tendo em vista a rápida disseminação de laboratórios de fisiologia 
por praticamente toda a Alemanha do século XIX, é sempre possível apontar 
a existência de laboratórios anteriores ao de Leipzig, onde também eram 
realizadas investigações de cunho psicológico, o que colocaria em questão o 
pioneirismo de Wundt.
Ao investigarmos mais detalhadamente a vida acadêmica de Wundt, 
sobretudo o período de Leipzig, podemos perceber mais claramente onde 
reside a verdadeira justificativa para a eleição de Wundt como o fundador 
da psicologia científica. Não se trata da fundação do laboratório em si, mas 
sim daquilo que ele passou a representar a partir de então. Durante todo o 
último quarto do século XIX, o Laboratório de Leipzig atraiu estudantes de 
várias partes do mundo (Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, entre outros) 
e tornou-se o primeiro e maior centro de formação de toda uma geração de 
psicólogos, que posteriormente regressaram a seus locais de origem e 
fundaram novos laboratórios nos moldes wundtianos. 
Foi também o sucesso do LABORATÓRIO DE LEIPZIG que 
gerou a institucionalização formal da psicologia, quando, em 
1883, o Instituto de Psicologia teve sua autonomia oficialmente 
reconhecida pela Universidade de Leipzig e passou a ser incluído 
no orçamento universitário. A nova psicologia (científica) 
separava-se formalmente, pela primeira vez na história, da 
filosofia e ganhava finalmente sua esperada autonomia. 
Contudo, os resultados posteriores dessa separação não foram 
vistos com bons olhos por Wundt, que continuou até o fim da 
vida insistindo na reaproximação entre ambas as disciplinas. 
Além de tudo isso, é digno de nota o fato de Wundt ter 
fundado e publicado, em 1883, um dos primeiros periódicos 
de psicologia, que inicialmente se chamava Philosophische Studien 
(Estudos filosóficos), e, a partir de 1906, passou a se chamar 
Psychologische Studien (Estudos psicológicos). Esse periódico era o 
O 
LABORATÓRIO
DE PSICOLOGIA
fundado em 1879 
era bastante precário 
e consistia apenas 
em uma pequena sala, 
anteriormente utilizada 
como auditório, que 
foi doada a Wundt. Aos 
poucos, ele foi adicionando 
novas salas ao Laboratório, 
o que levou o espaço a 
adquirir feições de um 
Instituto propriamente dito. 
Posteriormente, o Instituto 
mudou-se para um prédio 
próprio, construído segundo 
as especificações de 
Wundt, que se tornou 
modelo para os demais 
laboratórios de 
psicologia na época, 
até ser totalmente 
destruído durante 
a Segunda 
Guerra 
Mundial. 
102 103
veículo oficial de publicação dos trabalhos realizados no Instituto de 
Psicologia. 
Não podemos nos esquecer também que o próprio Wundt, desde seus 
primeiros trabalhos psicológicos (1858-1863), que antecedem por mais de 
dez anos sua chegada a Leipzig (1875), sempre reivindicou para si o ato de 
fundação de uma nova psicologia,restrita ao campo da experiência possível. Foi 
Wundt, mais do que qualquer outra pessoa, que lutou para fixar o significado 
do termo “psicologia” em conformidade com a tradição científica do século 
XIX na Alemanha. 
No que diz respeito ao desenvolvimento e à institucionalização da 
psicologia no Brasil, é praticamente impossível estabelecer qualquer ligação 
direta entre esta e a obra de Wundt. Se levarmos em consideração que 
a penetração da psicologia no Brasil ocorreu principalmente pela via da 
psicologia aplicada – seja na psiquiatria ou na pedagogia, com ênfase na 
psicometria – e que Wundt jamais se preocupou seriamente com qualquer 
aplicação da psicologia, torna-se evidente a distância. O máximo que podemos 
afirmar é que, caso tenha havido alguma influência, esta ocorreu de maneira 
muito indireta, com a criação de laboratórios de psicologia e a utilização de 
alguns instrumentos de medição de fenômenos psicológicos.
Wundt e Titchener
Um dos equívocos cometidos com mais freqüência nos manuais de 
história da psicologia é a afirmação de que Wundt seria, ao lado de Titchener, 
um dos principais representantes do estruturalismo. Esse equívoco, que por 
si só já representa uma total falta de compreensão da psicologia wundtiana, 
está diretamente relacionado a outros ainda mais graves – p. ex., quando ele é 
apontado como um defensor do elementarismo e do associacionismo britânicos 
–, na medida em que subvertem os principais fundamentos filosóficos de seu 
pensamento.
Em primeiro lugar, deve-se ressaltar que existem diferenças importantes 
entre Wundt e Titchener, pelo menos enquanto este último se definiu como 
estruturalista e foi fiel aos seus princípios. Foi Titchener quem fundou o 
estruturalismo, e não Wundt. Embora tenha sido aluno e colaborador de 
Wundt no Laboratório de Leipzig, ele construiu sua própria concepção de 
psicologia, que em muitos aspectos se distanciou do pensamento wundtiano. 
102 103
A divergência fundamental está na própria concepção de objeto e método 
da psicologia. Para Titchener, a psicologia é fundamentalmente o estudo 
dos elementos da consciência através da introspecção. Aquilo que não for 
passível de estudo e registro introspectivo não deve ser considerado assunto 
da psicologia. Fica evidente, portanto, que o sistema de Titchener é muito 
mais restrito do que o de Wundt, uma vez que todo o conteúdo da psicologia 
dos povos não deve ser tema de investigação psicológica.
Há ainda uma outra divergência importante. Titchener foi reconhe-
cidamente um defensor do elementarismo e do associacionismo. A análise 
ou decomposição dos processos psíquicos conscientes em seus elementos 
mais básicos (estruturas fundamentais) e a descoberta dos seus mecanismos 
associativos subjacentes eram os objetivos últimos de sua psicologia 
estruturalista. Para Wundt, a análise era apenas um meio de se alcançar a 
meta principal da psicologia, que era a descoberta das leis universais da vida 
psíquica em todas as suas manifestações. Além disso, quando rotulou seu 
sistema psicológico de voluntarismo, uma de suas maiores preocupações era 
manifestar sua insatisfação com a psicologia associacionista, que segundo ele 
era incapaz de explicar a dimensão afetiva (sentimentos) e volitiva (vontade) 
da vida mental. 
Os equívocos acerca de Wundt presentes na historiografia tradicional da 
psicologia só poderão vir a ser definitivamente corrigidos quando os estudos 
sobre sua obra alcançarem uma maior consistência, permitindo-nos, desta 
forma, resolver problemas cruciais de interpretação do seu pensamento, como, 
por exemplo, a questão da relação entre seus textos psicológicos iniciais e seu 
pensamento maduro. Ainda está por vir uma análise exaustiva do projeto 
wundtiano de psicologia.
Bibliografia indicada
Araujo, S. de F. (2003) A obra inicial de Wundt: um capítulo esquecido na historiografia da 
psicologia. Revista do Departamento de Psicologia da UFF, 15 (2): 63-76.
Bringmann, W. e Tweney, R. (1980) Wundt Studies. Toronto: C. J. Hogrefe.
Rieber, R. (1980) Wilhelm Wundt and the making of a Scientific Psychology. Nova York: Plenum.
Rieber, R. e Robinson, D. (2001) Wilhelm Wundt in History. Nova York: Kluwer Academic/
Plenum Publishers.
Wundt, W. (1896) Grundriß der Psychologie. Leipzig: Alfred Kröner.
104
Referências bibliográficas
Bringmann, W. e Scheerer, E. (1980) Wundt centennial issue. Psychological Research (42) 1-2.
Petersen, P. (1925) Wilhelm Wundt und seine Zeit. Stuttgart: Fr. Frommanns.
Ringer, F. (2000) O declínio dos mandarins alemães. São Paulo: EDUSP.
Wundt, W. (1910) Das Institut für experimentelle Psychologie zu Leipzig. Psychologische Studien, 
Band V: 279-293.
 (1920) Erlebtes und Erkanntes. Stuttgart: Alfred Kröner.

Mais conteúdos dessa disciplina