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AULA-01-PSICOLOGIA-GERAL (1)

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PSICOLOGIA GERAL 
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Olá! 
 
A psicologia é a ciência que estuda o comportamento humano e os 
processos mentais subjacentes. É uma disciplina multifacetada que investiga 
uma ampla gama de fenômenos, desde os processos cognitivos básicos, 
como percepção e memória, até questões mais complexas, como emoções, 
desenvolvimento humano, interações sociais e distúrbios psicológicos. A 
psicologia utiliza métodos científicos, para entender e explicar o 
comportamento humano, incluindo observação, experimentação, análise 
estatística e formulação de teorias. 
 Ao longo de sua história, a psicologia evoluiu como uma ciência 
interdisciplinar, incorporando contribuições da biologia, filosofia, medicina, 
antropologia e outras áreas do conhecimento. Seu objetivo principal é 
fornecer insights sobre a natureza humana e promover o bem-estar mental e 
emocional das pessoas. 
 
 
 Bons estudos! 
 
AULA 01 – A PSICOLOGIA 
COMO CIÊNCIA. 
3 
 
1 PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA E AS ESCOLAS PSICOLÓGICAS: VERTENTES 
EPISTEMOLÓGICAS 
De acordo com Santos (2008), o surgimento da psicologia como ciência data 
de 1879, quando Wilhelm Wundt (1832-1920) estabeleceu o primeiro laboratório de 
pesquisas na área. Embora esse marco histórico seja significativo, a formação da 
psicologia como ciência foi um processo gradual, influenciado por diversas correntes 
filosóficas. Dessa forma, podemos dizer que a psicologia é considerada a ciência que 
se ocupa do comportamento e da mente. 
Observa-se tanto a importância das influências filosóficas em seu 
desenvolvimento quanto o distanciamento gradual da filosofia à medida que a 
psicologia se consolidava como uma disciplina científica autônoma. No período de 
surgimento da psicologia científica, as explicações adotadas eram fortemente 
marcadas pela racionalidade e pelo positivismo, refletindo a necessidade de 
conformidade com os critérios das ciências naturais. 
Os paradoxos presentes na formação da psicologia como uma ciência 
independente da filosofia e de outras disciplinas, como a fisiologia, contribuíram para 
a diversidade de abordagens dentro da área. Essa diversidade é frequentemente 
descrita como pré-paradigmática por alguns autores, enquanto outros argumentam 
que há um conjunto de pressupostos ou questões que todas as abordagens devem 
enfrentar, independentemente de suas orientações teóricas. Em sua essência, a 
Psicologia é a ciência que estuda o comportamento humano e os processos mentais. 
Como ciência, busca entender, explicar e prever os fenômenos psicológicos utilizando 
métodos científicos rigorosos. 
No entanto, a diversidade de abordagens e escolas psicológicas reflete as 
diferentes maneiras pelas quais os estudiosos têm abordado esses fenômenos ao 
longo do tempo. As escolas psicológicas representam diferentes tradições teóricas e 
metodológicas que moldaram a disciplina ao longo dos anos. Cada escola oferece 
uma lente única para entender a mente e o comportamento humano. 
 
 
 
 
4 
 
• Algumas das principais escolas psicológicas incluem: 
 
➢ Psicologia Estruturalista: esta foi uma das primeiras abordagens à 
psicologia, popularizada por Wilhelm Wundt (1832-1920). O 
estruturalismo buscava decompor a experiência humana em seus 
elementos básicos, através de métodos como a introspecção. 
➢ Funcionalismo: desenvolvido por William James (1842- 1910), o 
funcionalismo focava em como a mente opera e como as pessoas se 
adaptam ao ambiente. Ao contrário do estruturalismo, o funcionalismo 
estava mais interessado nos processos mentais em vez de seus 
elementos estruturais. 
➢ Behaviorismo: o behaviorismo, liderado por John B. Watson (1878- 
1958) e posteriormente por B.F. Skinner (1904- 1990), concentra-se no 
estudo do comportamento observável e mensurável, rejeitando a 
investigação dos processos mentais internos. Para os behavioristas, o 
comportamento é moldado principalmente por estímulos ambientais e 
recompensas. 
➢ Psicanálise: fundada por Sigmund Freud (1856- 1939), a psicanálise 
enfatiza o papel dos processos inconscientes na determinação do 
comportamento humano. Freud desenvolveu técnicas como a análise 
dos sonhos e a livre associação para acessar o conteúdo do 
inconsciente. 
➢ Gestalt: esta escola, liderada por Max Wertheimer (1880- 1943), 
Wolfgang Köhler (1887- 1967) e Kurt Koffka (1886- 1941), argumentava 
que a mente humana percebe e organiza a experiência em totalidades 
significativas, ou ‘gestalten’, em vez de simplesmente somar partes 
isoladas. 
➢ Abordagens Cognitivas: surgiram a partir das limitações percebidas do 
behaviorismo. Essas abordagens, incluindo a psicologia cognitiva e a 
neuropsicologia, concentram-se nos processos mentais internos, como 
percepção, memória, linguagem e resolução de problemas. 
➢ Abordagens Humanistas: representadas por figuras como Abraham 
Maslow (1908- 1970) e Carl Rogers (1902- 1987), as abordagens 
5 
 
humanistas destacam a importância do crescimento pessoal, 
autoconhecimento e autoatualização. Elas enfatizam o potencial 
humano para o crescimento e a realização pessoal. 
 
Essas escolas psicológicas, refletem diferentes perspectivas sobre a natureza 
da mente humana e como ela deve ser estudada. Embora cada uma delas tenha 
contribuído significativamente para o desenvolvimento da psicologia como ciência, é 
importante reconhecer que nenhuma abordagem sozinha pode fornecer uma 
compreensão completa e abrangente do comportamento humano. Em vez disso, uma 
abordagem integradora que reconheça a complexidade e a interconexão dos 
fenômenos psicológicos é fundamental para o progresso contínuo da disciplina 
(SANTOS, 2008). 
1.1 A história da psicologia e de seu objeto de estudo 
A obra "Extração da Pedra da Loucura", de Hieronymus Bosch, pintada em 
1494 e também conhecida como "Cutting the Stone" ou "The Cure of Folly", é famosa 
e intrigante devido à cena que retrata, despertando a curiosidade sobre a mente 
humana. Esta pintura está exposta no Museo del Prado, em Madrid, e continua a 
fascinar tanto artistas quanto pessoas em geral. 
Na Figura 1, a pintura retrata um homem amarrado a uma cadeira, sendo 
operado na cabeça enquanto mantém os olhos abertos. O cirurgião, possivelmente 
um médico, utiliza um funil na cabeça e uma pinça na mão para extrair algo, 
possivelmente uma tulipa, da cabeça do paciente. Um monge, segurando um 
recipiente com água, assiste à operação e conversa com o médico. Ao lado, uma 
mulher com um livro na cabeça observa a cena, apoiada em uma mesa onde há uma 
flor. A peculiaridade da cena reside na presença de diferentes objetos nas cabeças 
dos personagens, contrastando com o título da pintura, "Extração da Pedra da 
Loucura". Isso sugere uma preocupação com a sanidade mental e o controle da razão. 
 
 
 
 
6 
 
Figura 1. A extração da pedra da loucura, de Hieronymus Bosch (1494). 
 
 
Fonte: https://shre.ink/8yEd 
 
Esta obra renomada é frequentemente usada para explorar os paradoxos entre 
razão e loucura, refletindo a percepção concreta e manipulativa da psique humana na 
época. Práticas históricas de abertura do crânio para remoção de supostos espíritos 
ou fatores relacionados a doenças mentais, são documentadas. A fascinação pela 
mente humana remonta a períodos anteriores a Bosch (1994), onde se acreditava que 
problemas psicológicos eram influenciados por espíritos malignos. 
Uma técnica empregada para expulsar tais espíritos era a trepanação, na qual 
os curandeiros faziam um buraco no crânio das pessoas com instrumentos 
rudimentares, assemelhando-se ao procedimento representado na pintura de Bosch 
(1994). Embora possa causar espanto, essas práticas e concepções representam 
uma forma de psicologia, refletindo a preocupação com o psiquismo humano naquela 
época (FELDMAN, 2015). 
Desde os primórdios do conhecimento,pré-científico até os dias atuais, 
questões relacionadas às características, reações e manifestações humanas têm 
intrigado pensadores de diversas áreas, incluindo filosofia, religião e ciência. Ao longo 
da história das ciências, diferentes disciplinas e teorias foram desenvolvidas para 
explicar o comportamento humano, desde o período moderno, caracterizado por uma 
7 
 
visão predominantemente mecanicista do mundo, até os avanços contemporâneos, 
que incluem o vasto conhecimento acumulado e o desenvolvimento da inteligência 
artificial. Em todas essas épocas, persiste o desejo de compreender, explicar e 
reproduzir a mente humana. 
Conforme observado por Figueiredo e Santi (2008), é comum que os livros que 
abordam a história da psicologia, comecem explorando suas raízes na filosofia 
ocidental, especialmente na filosofia grega, e prossigam examinando as influências 
da revolução científica, incluindo os antecedentes filosóficos, fisiológicos e físicos da 
psicologia. Japiassu (1995) destaca a importância de se concentrar na história da 
psicologia como ciência desde sua fundação, a fim de compreender melhor suas 
bases teóricas. 
O autor expressa sua descrença na busca externa por fundamentos teóricos 
da psicologia, preferindo enfatizar sua prática. Embora reconheça a importância das 
influências e contribuições de outras ciências e disciplinas para o surgimento da 
psicologia, o foco será na sua trajetória desde sua concepção como ciência. Portanto, 
quaisquer referências aos antecedentes serão concisas e destinadas à 
contextualização. 
Assim, a epistemologia da psicologia é gradualmente elaborada à medida que 
a disciplina se estabelece como ciência, desenvolvendo teorias e contando com as 
contribuições de diversos autores. É amplamente reconhecido que as demandas e 
padrões estabelecidos por outras disciplinas, especialmente as ciências naturais e 
biológicas, durante sua fundação, tiveram influência significativa na trajetória da 
psicologia. Em essência, o surgimento da ciência moderna marcou uma ruptura com 
as visões religiosas, místicas, astrológicas e alquímicas, abrindo caminho para um 
conhecimento baseado na razão e na precisão. 
Nesse sentido, a produção de conhecimento na psicologia passa a ser 
fundamentada em medidas, avaliações e experimentos, superando abordagens mais 
contemplativas e especulativas. O advento do modelo positivista, representa uma 
ruptura com os antigos sistemas de valores baseados na cosmologia religiosa e 
mística, embora não ofereça uma alternativa clara para lidar com questões humanas. 
A psicologia assume esse papel, definindo o ser humano como objeto e sujeito da 
ciência, em contraposição à natureza e à religião, respectivamente. A epistemologia 
da psicologia se propõe a compreender como os conhecimentos produzidos pelos 
8 
 
psicólogos se estruturam e se articulam, considerando-os simultaneamente como 
objeto e sujeito, dentro de um contexto histórico e cultural, buscando assim a 
especificidade e a objetividade científica (JAPIASSU, 1995). 
A história da psicologia como uma disciplina científica autônoma, teve início no 
século XIX, quando os primeiros estudiosos começaram a realizar estudos 
sistemáticos e a obter reconhecimento em instituições acadêmicas tradicionais, como 
universidades e centros de pesquisa. A transição paradigmática necessitou de um 
período de tempo para se consolidar. Mesmo com a predominância das ciências mais 
racionais e precisas, o comportamento humano, tanto voluntário quanto involuntário, 
ainda era interpretado por médicos, fisiologistas, anatomistas e outros cientistas como 
aspectos relacionados ao espírito ou à alma. 
Mesmo as ciências humanas e sociais, como economia e sociologia, que 
surgiram nesse período, não enfatizavam a interpretação do homem, apenas o 
considerando como um elemento pertencente à sociedade, seja como produtor ou 
produto dela. A psique, ou mente, seu objeto de estudo, não se apresentava de forma 
tangível ou sujeita aos parâmetros das ciências da época, predominantemente 
dominadas pela biologia e pelas ciências naturais. Na sua origem, a psicologia 
mantinha diversas conexões com outras disciplinas científicas, o que explica em parte 
sua aplicação em uma ampla gama de áreas da vida humana, como clínica, trabalho 
e educação (FIGUEIREDO; SANTI, 2008). 
A situação da psicologia científica é peculiar. Por um lado, busca afirmar sua 
posição como uma disciplina distinta entre as ciências, estabelecendo faculdades e 
institutos de pesquisa dedicados à psicologia. Ao mesmo tempo, os psicólogos 
práticos buscam o reconhecimento de sua competência específica, o que é 
regulamentado por órgãos como os conselhos de psicologia, que restringem a 
atuação em áreas legalmente reservadas aos profissionais da psicologia. Por outro 
lado, a psicologia não pode se desenvolver plenamente sem estabelecer relações 
cada vez mais próximas com as ciências biológicas e sociais (FIGUEIREDO; SANTI, 
2008). 
No contexto sociocultural que deu origem à psicologia, o interesse pelo aspecto 
psicológico surgiu quando a subjetividade passou por uma transformação, tornando-
se privatizada e, posteriormente, sendo questionada. A privatização da subjetividade 
implicava que os indivíduos viviam inseridos e condicionados por uma sociedade que 
9 
 
exercia controle sobre eles, por meio de influências religiosas, leis e obrigações, que 
simultaneamente os protegiam e os limitavam. Atualmente, a liberdade da 
subjetividade privatizada parece ser uma realidade evidente, uma vez que as pessoas 
podem exercer controle sobre seu mundo interior, tomar decisões e experimentar 
emoções de forma pessoal e intrínseca. 
A transição da Idade Média para a Idade Moderna é associada à gradual 
conquista da individualidade, originalidade e liberdade. A modernidade é vista não 
apenas como um período histórico, mas como uma característica social que marca a 
consolidação da individualidade e do espaço íntimo interior. Essa mudança pode ser 
observada na crescente estetização dos ambientes urbanos e dos corpos humanos 
(BERMAN, 1986; LIPOVETSKY, 2009). 
De acordo com historiadores e antropólogos, a experiência da subjetividade 
privatizada surge em momentos de crise social, quando os sistemas de crenças, 
valores e normas são questionados e substituídos por novos. Durante períodos em 
que antigas tradições são contestadas e a sociedade enfrenta incertezas, os 
indivíduos tendem a voltar-se para seus próprios pensamentos e sentimentos devido 
à falta de referências coletivas. 
 Esses eventos históricos contribuíram para a formação da crença na 
individualidade e liberdade pessoal, juntamente com o desenvolvimento de sistemas 
políticos e econômicos. A noção contemporânea de subjetividade privada está 
associada à modernidade e abrange um período de aproximadamente três séculos, 
do Renascimento ao final do século XIX (FIGUEIREDO; SANTI, 2008). 
O Renascimento marcou um período de grande liberdade para os seres 
humanos, com o homem assumindo o papel central no universo, exercendo controle 
sobre a natureza e transformando-a de acordo com seus desejos. A valorização dos 
feitos individuais e o avanço técnico permitiram que mais pessoas tivessem acesso 
ao conhecimento intelectual e oportunidades de expressar suas opiniões. Esses 
acontecimentos contribuíram para a criação de um espaço pessoal e íntimo para os 
indivíduos e suas mentes. Diante desse aumento de autonomia e importância do 
indivíduo comum, as estruturas sociais e seus princípios reagiram tentando controlá-
los, eventualmente procurando estabelecer uma nova síntese entre religião e 
liberdade. 
 
10 
 
A liberdade recém-adquirida foi considerada fundamental e preservada, desde 
que fosse exercida com disciplina. Durante o período dos movimentos religiosos da 
Reforma e da Contrarreforma, houve uma ênfase no controle dos impulsos e desejos 
do corpo. Nessa época,a racionalização e o ceticismo se tornaram influentes na 
sociedade, e o princípio do cogito, da dúvida, ganhou destaque no conhecimento. Por 
outro lado, a dúvida requer um sujeito, como expresso na famosa frase ‘penso, logo 
existo’ (FIGUEIREDO; SANTI, 2008). 
O homem moderno é caracterizado por sua capacidade de duvidar, pensar e 
não se limitar apenas ao conhecimento pré-estabelecido. O conhecimento é 
reconhecido por transitar pelo espaço subjetivo, permitindo que o indivíduo alcance a 
verdade por meio do método adequado. No entanto, o primado da onipotência do 
conhecimento é criticado consistentemente durante o Iluminismo. O foco passa a ser 
o sujeito como o conhecedor da realidade. O movimento romântico adiciona 
elementos de sensibilidade e paixão ao sujeito racional e cartesiano, destacando a 
valorização dos impulsos e das forças naturais, incluindo as humanas. 
Assim, outros movimentos filosóficos sucessivos introduziram e avaliaram 
diferentes características do sujeito moderno, questionando suas pretensões de 
soberania. No entanto, a subjetividade foi firmemente estabelecida como um conceito 
central (JAPIASSU, 1995; FIGUEIREDO; SANTI, 2008). 
Conforme apontado por Japiassu (1995), a ciência moderna tem tendido a 
negligenciar as qualidades sensoriais do mundo, como sentimentos, emoções e 
paixões, em prol da primazia da razão. Nesse processo, a subjetividade muitas vezes 
fica marginalizada, pois as explicações exclusivamente objetivas não conseguem 
abarcar plenamente a complexidade da vida. Portanto, o maior desafio para a 
legitimação da psicologia como ciência não reside tanto em sua qualidade científica, 
mas sim em seu reconhecimento e influência dentro do contexto da ciência moderna, 
visto que seu objeto de estudo é eminentemente subjetivo e, consequentemente, não 
é valorizado da mesma forma que outras áreas mais técnicas, que podem ser mais 
facilmente quantificadas e mensuradas. 
Por outro lado, de acordo com o autor, há uma tendência na psicologia de se 
dividir em abordagens extremas, seja ela experimentalista ou especulativa, ambas 
não contribuindo adequadamente para o reconhecimento da disciplina como uma 
ciência legítima. Japiassu (1995) sugere que a psicologia precisa abandonar tanto a 
11 
 
abordagem experimentalista, típica da pesquisa científica, quanto a abordagem 
especulativa, característica da filosofia. Ele argumenta que ao modificar seus 
métodos, a psicologia poderia se tornar mais sistemática e genuína. Na próxima 
seção, serão discutidos esses paradoxos na psicologia, que surgem de suas origens 
e desafios. 
1.2 A psicologia seria uma ciência do comportamento? 
A psicologia faz parte de um processo moderno de construção do indivíduo 
como uma entidade interior, o que resultou na concepção do psicológico. Esse 
processo histórico moldou as experiências dos indivíduos como um campo a ser 
explorado. Conforme observado por Prado Filho e Martins (2007, p. 14), antes da 
emergência das psicologias, não havia uma experiência psicológica reconhecida, nem 
mesmo uma noção da "substância psíquica" ou da existência psicológica. Também 
não havia a percepção de si mesmo como um ser subjetivo. Esses aspectos, que 
compõem o campo de experiências do sujeito moderno, incluindo sensações de 
privacidade e intimidade, foram gradualmente construídos e vivenciados como 
elementos "reais" e "naturais". 
As condições históricas que possibilitaram o surgimento de um sujeito 
psicológico na modernidade incluem o Humanismo, a reforma religiosa e o 
antropocentrismo. Esses elementos deram origem a uma série de reflexões que 
destacaram o papel central do sujeito conhecedor na vida cotidiana, na ciência e na 
filosofia. No entanto, também resultaram em uma crítica à metafísica e na necessidade 
de objetivar o objeto de estudo da psicologia. 
O objeto de estudo específico da psicologia é uma questão que recebe 
diferentes respostas de acordo com as abordagens teóricas adotadas por 
psicanalistas, comportamentalistas, cognitivistas e funcionalistas. Prado Filho e 
Martins (2007) observam que tradicionalmente, essa disciplina é frequentemente 
definida como a ciência do comportamento, influenciada principalmente por correntes 
cientificistas. No entanto, sua origem filosófica remonta à reflexão sobre a alma e, 
posteriormente, sobre a mente, conforme apontado etimologicamente. 
 
 
12 
 
Portanto, compreende-se que a psicologia pode ser vista como o estudo da 
experiência humana ou da consciência, ou até mesmo como a renúncia a essas 
concepções devido à sua natureza imprecisa e difícil de mensurar. Assim, tais ideias 
são substituídas pela noção de comportamento, com o objetivo de estabelecer a 
psicologia como uma ciência baseada em evidências empíricas. 
Considerando a evolução desse campo em busca de uma base científica, 
observa-se uma variedade de objetos de estudo, conforme discutido por Prado Filho 
e Martins (2007), refletindo o desenvolvimento de diferentes abordagens psicológicas 
não lineares nem unânimes. Essa dinâmica não implica na superação de sistemas de 
pensamento, mas sim na diversidade e na divergência epistemológica de perspectivas 
sobre o fenômeno psicológico. 
Nesse sentido, a construção do campo da psicologia engloba uma variedade 
de objetos de estudo distintos, como a mente, associada a uma concepção idealista 
e subjetivista com forte ligação metafísica; os processos psicológicos, como a 
cognição; o comportamento e a relação entre estímulo e resposta; a percepção, 
enquanto fenômeno experimentado pelo indivíduo; o inconsciente; e as relações 
sociais, relacionadas ao processo de subjetivação. Cada um desses objetos contribui 
para diferentes abordagens do pensamento psicológico, que coexistem até hoje. 
Conforme destacado por Figueiredo (2008a), o campo da psicologia apresenta 
uma ambiguidade de objetos no plano teórico, o que torna qualquer sistematização 
sujeita às contradições inerentes a essa diversidade. O autor categoriza esse campo 
em dois amplos grupos de correntes de pensamento, os quais se subdividem em 
outras correntes mais específicas (Quadro 1). 
 
Quadro 1. Matrizes cientificistas e matrizes românticas e pós-românticas. 
 
 
Fonte: Figueiredo (2008a). 
 
13 
 
No entanto, desde o início de sua formação com Wundt (1832-1920), a 
psicologia apresentou duas perspectivas de estudo, sugerindo que seu objeto de 
análise não pode ser limitado apenas à atividade cerebral, respostas fisiológicas e 
comportamento. Assim, ela se estabeleceu como um campo de conhecimento 
caracterizado pela diversidade de abordagens, embora tenha buscado durante muito 
tempo uma fundamentação ontológica ao adotar métodos de outras disciplinas, 
tornando-se suscetível a reducionismos (BAIRRÃO, 2009). 
De acordo com Prado Filho e Martins (2007), observa-se um movimento na 
psicologia em direção à construção de um objeto de estudo que transita do biológico 
ao cultural, incorporando conceitos como consciência, comportamento, 
personalidade, identidade, subjetividade e singularidade. Serbena e Raffaelli (2003) 
acrescentam que é essencial considerar a origem da psicologia como ciência da alma, 
de modo a abranger as diferentes abordagens e discussões sobre a subjetividade e a 
experiência humana. Isso evidencia que a presença de múltiplas correntes de 
pensamento não implica na invalidação da psicologia como campo científico, 
especialmente ao se considerar a natureza específica das ciências humanas e seu 
objeto de estudo, o ser humano. 
De acordo com as reflexões de Santos (2008) sobre a emergência de um 
paradigma alternativo ao modelo positivista, a psicologia é caracterizada por uma 
diversidade de objetos de estudo, o que a diferencia de uma simples ciência do 
comportamento ou do inconsciente. Isso se deve à complexidade do ser humano, que 
é influenciado por uma variedade de fatores sociais, culturais, políticos, fisiológicos e 
subjetivos.Segundo a análise de Santos (2008), a compreensão da psicologia como um 
processo histórico possibilita uma ruptura com as dicotomias que caracterizaram a 
ciência moderna. Nesse sentido, superar o paradigma dominante da ciência implica 
transcender dualismos tradicionais na investigação da humanidade. Dessa forma, o 
ser humano é considerado tanto um agente inserido no contexto histórico quanto parte 
do mundo natural. A vida é concebida como uma totalidade sistêmica e complexa, 
exigindo uma apreensão da complexidade da realidade. 
No entanto, as tentativas de estabelecer uma distinção epistemológica entre 
sujeito e objeto nunca foram simples, apesar das estratégias metodológicas 
desenvolvidas para controlar essa separação. O surgimento de uma ciência social, ao 
14 
 
longo do tempo, revelou suas limitações, uma vez que a relação ocorre entre dois 
sujeitos, e não entre um sujeito e um objeto. No entanto, ambos os sujeitos produzem 
textos, escritos em diferentes linguagens (acadêmica e do cotidiano/cultural), o que 
evidencia que a subjetividade sempre esteve presente na ciência, sendo parte 
constituinte dela. 
A partir dessa mudança de paradigma, Santos (2008) argumenta que é 
inadequado reduzir a totalidade às suas partes individuais, as quais são examinadas 
utilizando o modelo das ciências naturais. Essa abordagem conduziu à especialização 
do conhecimento e à subdivisão da psicologia em diferentes disciplinas e subcampos, 
cada um focado apenas em uma parte específica do todo. O autor enfatiza que essa 
fragmentação deve ser abordada como uma questão temática, em vez de ser tratada 
meramente como uma divisão disciplinar. 
Portanto, o rompimento de um modelo dualista contribui para transcender a 
perspectiva disciplinar, que cria obstáculos para um campo científico que tem o ser 
humano como objeto de estudo comum. A fragmentação e a divisão disciplinar do 
conhecimento impossibilitam o diálogo e a integração entre diferentes áreas de 
estudo. 
Prado Filho e Martins (2007) e Bairrão (2009) destacam que a formação da 
psicologia como campo científico é fortemente influenciada por questões políticas, 
pois sua emancipação e afirmação como ciência independente estão relacionadas à 
resposta às demandas políticas e sociais da época. Seguindo a perspectiva 
apresentada por Santos (2008), a psicologia deve ser vista como uma epistemologia 
diversificada, caracterizada pela complexidade do ser humano e sua interação com 
diversas áreas das ciências humanas. Assim, é uma disciplina em constante diálogo 
com outros domínios do conhecimento. 
 
 
 
 
 
 
 
 
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