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PSICOLOGIA GERAL 2 Olá! A psicologia é a ciência que estuda o comportamento humano e os processos mentais subjacentes. É uma disciplina multifacetada que investiga uma ampla gama de fenômenos, desde os processos cognitivos básicos, como percepção e memória, até questões mais complexas, como emoções, desenvolvimento humano, interações sociais e distúrbios psicológicos. A psicologia utiliza métodos científicos, para entender e explicar o comportamento humano, incluindo observação, experimentação, análise estatística e formulação de teorias. Ao longo de sua história, a psicologia evoluiu como uma ciência interdisciplinar, incorporando contribuições da biologia, filosofia, medicina, antropologia e outras áreas do conhecimento. Seu objetivo principal é fornecer insights sobre a natureza humana e promover o bem-estar mental e emocional das pessoas. Bons estudos! AULA 01 – A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA. 3 1 PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA E AS ESCOLAS PSICOLÓGICAS: VERTENTES EPISTEMOLÓGICAS De acordo com Santos (2008), o surgimento da psicologia como ciência data de 1879, quando Wilhelm Wundt (1832-1920) estabeleceu o primeiro laboratório de pesquisas na área. Embora esse marco histórico seja significativo, a formação da psicologia como ciência foi um processo gradual, influenciado por diversas correntes filosóficas. Dessa forma, podemos dizer que a psicologia é considerada a ciência que se ocupa do comportamento e da mente. Observa-se tanto a importância das influências filosóficas em seu desenvolvimento quanto o distanciamento gradual da filosofia à medida que a psicologia se consolidava como uma disciplina científica autônoma. No período de surgimento da psicologia científica, as explicações adotadas eram fortemente marcadas pela racionalidade e pelo positivismo, refletindo a necessidade de conformidade com os critérios das ciências naturais. Os paradoxos presentes na formação da psicologia como uma ciência independente da filosofia e de outras disciplinas, como a fisiologia, contribuíram para a diversidade de abordagens dentro da área. Essa diversidade é frequentemente descrita como pré-paradigmática por alguns autores, enquanto outros argumentam que há um conjunto de pressupostos ou questões que todas as abordagens devem enfrentar, independentemente de suas orientações teóricas. Em sua essência, a Psicologia é a ciência que estuda o comportamento humano e os processos mentais. Como ciência, busca entender, explicar e prever os fenômenos psicológicos utilizando métodos científicos rigorosos. No entanto, a diversidade de abordagens e escolas psicológicas reflete as diferentes maneiras pelas quais os estudiosos têm abordado esses fenômenos ao longo do tempo. As escolas psicológicas representam diferentes tradições teóricas e metodológicas que moldaram a disciplina ao longo dos anos. Cada escola oferece uma lente única para entender a mente e o comportamento humano. 4 • Algumas das principais escolas psicológicas incluem: ➢ Psicologia Estruturalista: esta foi uma das primeiras abordagens à psicologia, popularizada por Wilhelm Wundt (1832-1920). O estruturalismo buscava decompor a experiência humana em seus elementos básicos, através de métodos como a introspecção. ➢ Funcionalismo: desenvolvido por William James (1842- 1910), o funcionalismo focava em como a mente opera e como as pessoas se adaptam ao ambiente. Ao contrário do estruturalismo, o funcionalismo estava mais interessado nos processos mentais em vez de seus elementos estruturais. ➢ Behaviorismo: o behaviorismo, liderado por John B. Watson (1878- 1958) e posteriormente por B.F. Skinner (1904- 1990), concentra-se no estudo do comportamento observável e mensurável, rejeitando a investigação dos processos mentais internos. Para os behavioristas, o comportamento é moldado principalmente por estímulos ambientais e recompensas. ➢ Psicanálise: fundada por Sigmund Freud (1856- 1939), a psicanálise enfatiza o papel dos processos inconscientes na determinação do comportamento humano. Freud desenvolveu técnicas como a análise dos sonhos e a livre associação para acessar o conteúdo do inconsciente. ➢ Gestalt: esta escola, liderada por Max Wertheimer (1880- 1943), Wolfgang Köhler (1887- 1967) e Kurt Koffka (1886- 1941), argumentava que a mente humana percebe e organiza a experiência em totalidades significativas, ou ‘gestalten’, em vez de simplesmente somar partes isoladas. ➢ Abordagens Cognitivas: surgiram a partir das limitações percebidas do behaviorismo. Essas abordagens, incluindo a psicologia cognitiva e a neuropsicologia, concentram-se nos processos mentais internos, como percepção, memória, linguagem e resolução de problemas. ➢ Abordagens Humanistas: representadas por figuras como Abraham Maslow (1908- 1970) e Carl Rogers (1902- 1987), as abordagens 5 humanistas destacam a importância do crescimento pessoal, autoconhecimento e autoatualização. Elas enfatizam o potencial humano para o crescimento e a realização pessoal. Essas escolas psicológicas, refletem diferentes perspectivas sobre a natureza da mente humana e como ela deve ser estudada. Embora cada uma delas tenha contribuído significativamente para o desenvolvimento da psicologia como ciência, é importante reconhecer que nenhuma abordagem sozinha pode fornecer uma compreensão completa e abrangente do comportamento humano. Em vez disso, uma abordagem integradora que reconheça a complexidade e a interconexão dos fenômenos psicológicos é fundamental para o progresso contínuo da disciplina (SANTOS, 2008). 1.1 A história da psicologia e de seu objeto de estudo A obra "Extração da Pedra da Loucura", de Hieronymus Bosch, pintada em 1494 e também conhecida como "Cutting the Stone" ou "The Cure of Folly", é famosa e intrigante devido à cena que retrata, despertando a curiosidade sobre a mente humana. Esta pintura está exposta no Museo del Prado, em Madrid, e continua a fascinar tanto artistas quanto pessoas em geral. Na Figura 1, a pintura retrata um homem amarrado a uma cadeira, sendo operado na cabeça enquanto mantém os olhos abertos. O cirurgião, possivelmente um médico, utiliza um funil na cabeça e uma pinça na mão para extrair algo, possivelmente uma tulipa, da cabeça do paciente. Um monge, segurando um recipiente com água, assiste à operação e conversa com o médico. Ao lado, uma mulher com um livro na cabeça observa a cena, apoiada em uma mesa onde há uma flor. A peculiaridade da cena reside na presença de diferentes objetos nas cabeças dos personagens, contrastando com o título da pintura, "Extração da Pedra da Loucura". Isso sugere uma preocupação com a sanidade mental e o controle da razão. 6 Figura 1. A extração da pedra da loucura, de Hieronymus Bosch (1494). Fonte: https://shre.ink/8yEd Esta obra renomada é frequentemente usada para explorar os paradoxos entre razão e loucura, refletindo a percepção concreta e manipulativa da psique humana na época. Práticas históricas de abertura do crânio para remoção de supostos espíritos ou fatores relacionados a doenças mentais, são documentadas. A fascinação pela mente humana remonta a períodos anteriores a Bosch (1994), onde se acreditava que problemas psicológicos eram influenciados por espíritos malignos. Uma técnica empregada para expulsar tais espíritos era a trepanação, na qual os curandeiros faziam um buraco no crânio das pessoas com instrumentos rudimentares, assemelhando-se ao procedimento representado na pintura de Bosch (1994). Embora possa causar espanto, essas práticas e concepções representam uma forma de psicologia, refletindo a preocupação com o psiquismo humano naquela época (FELDMAN, 2015). Desde os primórdios do conhecimento,pré-científico até os dias atuais, questões relacionadas às características, reações e manifestações humanas têm intrigado pensadores de diversas áreas, incluindo filosofia, religião e ciência. Ao longo da história das ciências, diferentes disciplinas e teorias foram desenvolvidas para explicar o comportamento humano, desde o período moderno, caracterizado por uma 7 visão predominantemente mecanicista do mundo, até os avanços contemporâneos, que incluem o vasto conhecimento acumulado e o desenvolvimento da inteligência artificial. Em todas essas épocas, persiste o desejo de compreender, explicar e reproduzir a mente humana. Conforme observado por Figueiredo e Santi (2008), é comum que os livros que abordam a história da psicologia, comecem explorando suas raízes na filosofia ocidental, especialmente na filosofia grega, e prossigam examinando as influências da revolução científica, incluindo os antecedentes filosóficos, fisiológicos e físicos da psicologia. Japiassu (1995) destaca a importância de se concentrar na história da psicologia como ciência desde sua fundação, a fim de compreender melhor suas bases teóricas. O autor expressa sua descrença na busca externa por fundamentos teóricos da psicologia, preferindo enfatizar sua prática. Embora reconheça a importância das influências e contribuições de outras ciências e disciplinas para o surgimento da psicologia, o foco será na sua trajetória desde sua concepção como ciência. Portanto, quaisquer referências aos antecedentes serão concisas e destinadas à contextualização. Assim, a epistemologia da psicologia é gradualmente elaborada à medida que a disciplina se estabelece como ciência, desenvolvendo teorias e contando com as contribuições de diversos autores. É amplamente reconhecido que as demandas e padrões estabelecidos por outras disciplinas, especialmente as ciências naturais e biológicas, durante sua fundação, tiveram influência significativa na trajetória da psicologia. Em essência, o surgimento da ciência moderna marcou uma ruptura com as visões religiosas, místicas, astrológicas e alquímicas, abrindo caminho para um conhecimento baseado na razão e na precisão. Nesse sentido, a produção de conhecimento na psicologia passa a ser fundamentada em medidas, avaliações e experimentos, superando abordagens mais contemplativas e especulativas. O advento do modelo positivista, representa uma ruptura com os antigos sistemas de valores baseados na cosmologia religiosa e mística, embora não ofereça uma alternativa clara para lidar com questões humanas. A psicologia assume esse papel, definindo o ser humano como objeto e sujeito da ciência, em contraposição à natureza e à religião, respectivamente. A epistemologia da psicologia se propõe a compreender como os conhecimentos produzidos pelos 8 psicólogos se estruturam e se articulam, considerando-os simultaneamente como objeto e sujeito, dentro de um contexto histórico e cultural, buscando assim a especificidade e a objetividade científica (JAPIASSU, 1995). A história da psicologia como uma disciplina científica autônoma, teve início no século XIX, quando os primeiros estudiosos começaram a realizar estudos sistemáticos e a obter reconhecimento em instituições acadêmicas tradicionais, como universidades e centros de pesquisa. A transição paradigmática necessitou de um período de tempo para se consolidar. Mesmo com a predominância das ciências mais racionais e precisas, o comportamento humano, tanto voluntário quanto involuntário, ainda era interpretado por médicos, fisiologistas, anatomistas e outros cientistas como aspectos relacionados ao espírito ou à alma. Mesmo as ciências humanas e sociais, como economia e sociologia, que surgiram nesse período, não enfatizavam a interpretação do homem, apenas o considerando como um elemento pertencente à sociedade, seja como produtor ou produto dela. A psique, ou mente, seu objeto de estudo, não se apresentava de forma tangível ou sujeita aos parâmetros das ciências da época, predominantemente dominadas pela biologia e pelas ciências naturais. Na sua origem, a psicologia mantinha diversas conexões com outras disciplinas científicas, o que explica em parte sua aplicação em uma ampla gama de áreas da vida humana, como clínica, trabalho e educação (FIGUEIREDO; SANTI, 2008). A situação da psicologia científica é peculiar. Por um lado, busca afirmar sua posição como uma disciplina distinta entre as ciências, estabelecendo faculdades e institutos de pesquisa dedicados à psicologia. Ao mesmo tempo, os psicólogos práticos buscam o reconhecimento de sua competência específica, o que é regulamentado por órgãos como os conselhos de psicologia, que restringem a atuação em áreas legalmente reservadas aos profissionais da psicologia. Por outro lado, a psicologia não pode se desenvolver plenamente sem estabelecer relações cada vez mais próximas com as ciências biológicas e sociais (FIGUEIREDO; SANTI, 2008). No contexto sociocultural que deu origem à psicologia, o interesse pelo aspecto psicológico surgiu quando a subjetividade passou por uma transformação, tornando- se privatizada e, posteriormente, sendo questionada. A privatização da subjetividade implicava que os indivíduos viviam inseridos e condicionados por uma sociedade que 9 exercia controle sobre eles, por meio de influências religiosas, leis e obrigações, que simultaneamente os protegiam e os limitavam. Atualmente, a liberdade da subjetividade privatizada parece ser uma realidade evidente, uma vez que as pessoas podem exercer controle sobre seu mundo interior, tomar decisões e experimentar emoções de forma pessoal e intrínseca. A transição da Idade Média para a Idade Moderna é associada à gradual conquista da individualidade, originalidade e liberdade. A modernidade é vista não apenas como um período histórico, mas como uma característica social que marca a consolidação da individualidade e do espaço íntimo interior. Essa mudança pode ser observada na crescente estetização dos ambientes urbanos e dos corpos humanos (BERMAN, 1986; LIPOVETSKY, 2009). De acordo com historiadores e antropólogos, a experiência da subjetividade privatizada surge em momentos de crise social, quando os sistemas de crenças, valores e normas são questionados e substituídos por novos. Durante períodos em que antigas tradições são contestadas e a sociedade enfrenta incertezas, os indivíduos tendem a voltar-se para seus próprios pensamentos e sentimentos devido à falta de referências coletivas. Esses eventos históricos contribuíram para a formação da crença na individualidade e liberdade pessoal, juntamente com o desenvolvimento de sistemas políticos e econômicos. A noção contemporânea de subjetividade privada está associada à modernidade e abrange um período de aproximadamente três séculos, do Renascimento ao final do século XIX (FIGUEIREDO; SANTI, 2008). O Renascimento marcou um período de grande liberdade para os seres humanos, com o homem assumindo o papel central no universo, exercendo controle sobre a natureza e transformando-a de acordo com seus desejos. A valorização dos feitos individuais e o avanço técnico permitiram que mais pessoas tivessem acesso ao conhecimento intelectual e oportunidades de expressar suas opiniões. Esses acontecimentos contribuíram para a criação de um espaço pessoal e íntimo para os indivíduos e suas mentes. Diante desse aumento de autonomia e importância do indivíduo comum, as estruturas sociais e seus princípios reagiram tentando controlá- los, eventualmente procurando estabelecer uma nova síntese entre religião e liberdade. 10 A liberdade recém-adquirida foi considerada fundamental e preservada, desde que fosse exercida com disciplina. Durante o período dos movimentos religiosos da Reforma e da Contrarreforma, houve uma ênfase no controle dos impulsos e desejos do corpo. Nessa época,a racionalização e o ceticismo se tornaram influentes na sociedade, e o princípio do cogito, da dúvida, ganhou destaque no conhecimento. Por outro lado, a dúvida requer um sujeito, como expresso na famosa frase ‘penso, logo existo’ (FIGUEIREDO; SANTI, 2008). O homem moderno é caracterizado por sua capacidade de duvidar, pensar e não se limitar apenas ao conhecimento pré-estabelecido. O conhecimento é reconhecido por transitar pelo espaço subjetivo, permitindo que o indivíduo alcance a verdade por meio do método adequado. No entanto, o primado da onipotência do conhecimento é criticado consistentemente durante o Iluminismo. O foco passa a ser o sujeito como o conhecedor da realidade. O movimento romântico adiciona elementos de sensibilidade e paixão ao sujeito racional e cartesiano, destacando a valorização dos impulsos e das forças naturais, incluindo as humanas. Assim, outros movimentos filosóficos sucessivos introduziram e avaliaram diferentes características do sujeito moderno, questionando suas pretensões de soberania. No entanto, a subjetividade foi firmemente estabelecida como um conceito central (JAPIASSU, 1995; FIGUEIREDO; SANTI, 2008). Conforme apontado por Japiassu (1995), a ciência moderna tem tendido a negligenciar as qualidades sensoriais do mundo, como sentimentos, emoções e paixões, em prol da primazia da razão. Nesse processo, a subjetividade muitas vezes fica marginalizada, pois as explicações exclusivamente objetivas não conseguem abarcar plenamente a complexidade da vida. Portanto, o maior desafio para a legitimação da psicologia como ciência não reside tanto em sua qualidade científica, mas sim em seu reconhecimento e influência dentro do contexto da ciência moderna, visto que seu objeto de estudo é eminentemente subjetivo e, consequentemente, não é valorizado da mesma forma que outras áreas mais técnicas, que podem ser mais facilmente quantificadas e mensuradas. Por outro lado, de acordo com o autor, há uma tendência na psicologia de se dividir em abordagens extremas, seja ela experimentalista ou especulativa, ambas não contribuindo adequadamente para o reconhecimento da disciplina como uma ciência legítima. Japiassu (1995) sugere que a psicologia precisa abandonar tanto a 11 abordagem experimentalista, típica da pesquisa científica, quanto a abordagem especulativa, característica da filosofia. Ele argumenta que ao modificar seus métodos, a psicologia poderia se tornar mais sistemática e genuína. Na próxima seção, serão discutidos esses paradoxos na psicologia, que surgem de suas origens e desafios. 1.2 A psicologia seria uma ciência do comportamento? A psicologia faz parte de um processo moderno de construção do indivíduo como uma entidade interior, o que resultou na concepção do psicológico. Esse processo histórico moldou as experiências dos indivíduos como um campo a ser explorado. Conforme observado por Prado Filho e Martins (2007, p. 14), antes da emergência das psicologias, não havia uma experiência psicológica reconhecida, nem mesmo uma noção da "substância psíquica" ou da existência psicológica. Também não havia a percepção de si mesmo como um ser subjetivo. Esses aspectos, que compõem o campo de experiências do sujeito moderno, incluindo sensações de privacidade e intimidade, foram gradualmente construídos e vivenciados como elementos "reais" e "naturais". As condições históricas que possibilitaram o surgimento de um sujeito psicológico na modernidade incluem o Humanismo, a reforma religiosa e o antropocentrismo. Esses elementos deram origem a uma série de reflexões que destacaram o papel central do sujeito conhecedor na vida cotidiana, na ciência e na filosofia. No entanto, também resultaram em uma crítica à metafísica e na necessidade de objetivar o objeto de estudo da psicologia. O objeto de estudo específico da psicologia é uma questão que recebe diferentes respostas de acordo com as abordagens teóricas adotadas por psicanalistas, comportamentalistas, cognitivistas e funcionalistas. Prado Filho e Martins (2007) observam que tradicionalmente, essa disciplina é frequentemente definida como a ciência do comportamento, influenciada principalmente por correntes cientificistas. No entanto, sua origem filosófica remonta à reflexão sobre a alma e, posteriormente, sobre a mente, conforme apontado etimologicamente. 12 Portanto, compreende-se que a psicologia pode ser vista como o estudo da experiência humana ou da consciência, ou até mesmo como a renúncia a essas concepções devido à sua natureza imprecisa e difícil de mensurar. Assim, tais ideias são substituídas pela noção de comportamento, com o objetivo de estabelecer a psicologia como uma ciência baseada em evidências empíricas. Considerando a evolução desse campo em busca de uma base científica, observa-se uma variedade de objetos de estudo, conforme discutido por Prado Filho e Martins (2007), refletindo o desenvolvimento de diferentes abordagens psicológicas não lineares nem unânimes. Essa dinâmica não implica na superação de sistemas de pensamento, mas sim na diversidade e na divergência epistemológica de perspectivas sobre o fenômeno psicológico. Nesse sentido, a construção do campo da psicologia engloba uma variedade de objetos de estudo distintos, como a mente, associada a uma concepção idealista e subjetivista com forte ligação metafísica; os processos psicológicos, como a cognição; o comportamento e a relação entre estímulo e resposta; a percepção, enquanto fenômeno experimentado pelo indivíduo; o inconsciente; e as relações sociais, relacionadas ao processo de subjetivação. Cada um desses objetos contribui para diferentes abordagens do pensamento psicológico, que coexistem até hoje. Conforme destacado por Figueiredo (2008a), o campo da psicologia apresenta uma ambiguidade de objetos no plano teórico, o que torna qualquer sistematização sujeita às contradições inerentes a essa diversidade. O autor categoriza esse campo em dois amplos grupos de correntes de pensamento, os quais se subdividem em outras correntes mais específicas (Quadro 1). Quadro 1. Matrizes cientificistas e matrizes românticas e pós-românticas. Fonte: Figueiredo (2008a). 13 No entanto, desde o início de sua formação com Wundt (1832-1920), a psicologia apresentou duas perspectivas de estudo, sugerindo que seu objeto de análise não pode ser limitado apenas à atividade cerebral, respostas fisiológicas e comportamento. Assim, ela se estabeleceu como um campo de conhecimento caracterizado pela diversidade de abordagens, embora tenha buscado durante muito tempo uma fundamentação ontológica ao adotar métodos de outras disciplinas, tornando-se suscetível a reducionismos (BAIRRÃO, 2009). De acordo com Prado Filho e Martins (2007), observa-se um movimento na psicologia em direção à construção de um objeto de estudo que transita do biológico ao cultural, incorporando conceitos como consciência, comportamento, personalidade, identidade, subjetividade e singularidade. Serbena e Raffaelli (2003) acrescentam que é essencial considerar a origem da psicologia como ciência da alma, de modo a abranger as diferentes abordagens e discussões sobre a subjetividade e a experiência humana. Isso evidencia que a presença de múltiplas correntes de pensamento não implica na invalidação da psicologia como campo científico, especialmente ao se considerar a natureza específica das ciências humanas e seu objeto de estudo, o ser humano. De acordo com as reflexões de Santos (2008) sobre a emergência de um paradigma alternativo ao modelo positivista, a psicologia é caracterizada por uma diversidade de objetos de estudo, o que a diferencia de uma simples ciência do comportamento ou do inconsciente. Isso se deve à complexidade do ser humano, que é influenciado por uma variedade de fatores sociais, culturais, políticos, fisiológicos e subjetivos.Segundo a análise de Santos (2008), a compreensão da psicologia como um processo histórico possibilita uma ruptura com as dicotomias que caracterizaram a ciência moderna. Nesse sentido, superar o paradigma dominante da ciência implica transcender dualismos tradicionais na investigação da humanidade. Dessa forma, o ser humano é considerado tanto um agente inserido no contexto histórico quanto parte do mundo natural. A vida é concebida como uma totalidade sistêmica e complexa, exigindo uma apreensão da complexidade da realidade. No entanto, as tentativas de estabelecer uma distinção epistemológica entre sujeito e objeto nunca foram simples, apesar das estratégias metodológicas desenvolvidas para controlar essa separação. O surgimento de uma ciência social, ao 14 longo do tempo, revelou suas limitações, uma vez que a relação ocorre entre dois sujeitos, e não entre um sujeito e um objeto. No entanto, ambos os sujeitos produzem textos, escritos em diferentes linguagens (acadêmica e do cotidiano/cultural), o que evidencia que a subjetividade sempre esteve presente na ciência, sendo parte constituinte dela. A partir dessa mudança de paradigma, Santos (2008) argumenta que é inadequado reduzir a totalidade às suas partes individuais, as quais são examinadas utilizando o modelo das ciências naturais. Essa abordagem conduziu à especialização do conhecimento e à subdivisão da psicologia em diferentes disciplinas e subcampos, cada um focado apenas em uma parte específica do todo. O autor enfatiza que essa fragmentação deve ser abordada como uma questão temática, em vez de ser tratada meramente como uma divisão disciplinar. Portanto, o rompimento de um modelo dualista contribui para transcender a perspectiva disciplinar, que cria obstáculos para um campo científico que tem o ser humano como objeto de estudo comum. A fragmentação e a divisão disciplinar do conhecimento impossibilitam o diálogo e a integração entre diferentes áreas de estudo. Prado Filho e Martins (2007) e Bairrão (2009) destacam que a formação da psicologia como campo científico é fortemente influenciada por questões políticas, pois sua emancipação e afirmação como ciência independente estão relacionadas à resposta às demandas políticas e sociais da época. Seguindo a perspectiva apresentada por Santos (2008), a psicologia deve ser vista como uma epistemologia diversificada, caracterizada pela complexidade do ser humano e sua interação com diversas áreas das ciências humanas. Assim, é uma disciplina em constante diálogo com outros domínios do conhecimento. 15 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA BAIRRÃO, J. O que é a psicologia? Psicologia, Lisboa, v. 23, n. 2, p. 11–20, 2009. BERMAN, M. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1986. BOSCH. H. A Extração da Pedra da Loucura (1501) de Hieronymus Bosch - 75x105 - Tela Canvas Para Quadro (1494). 2021. FELDMAN, R. S. Introdução à psicologia. 10. ed. Porto Alegre: AMGH, 2015. FIGUEIREDO, L. C. M. Matrizes do pensamento psicológico. Petrópolis: Vozes, 2008. FIGUEIREDO, L. C. M; SANTI, P. L. R. Psicologia, uma (nova) introdução: uma visão histórica da psicologia como ciência. 3. ed. São Paulo: EDUC, 2008. JAPIASSU, H. Introdução à epistemologia da psicologia. 5. ed. São Paulo: Letras & Letras, 1995. LIPOVETSKY, G. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. PRADO FILHO, K.; MARTINS, S. A subjetividade como objeto da(s) psicologia(s). Psicologia & Sociedade, Porto Alegre, v. 19, n. 3, p. 14–19, 2007. SANTOS, B. S. Um discurso sobre as ciências. 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