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SUMÁRIO 1. Introdução .................................................................... 3 2. Revisando .................................................................... 3 3. Classificação e etiologia ......................................... 7 4. Quando suspeitar do choque? ...........................11 5. Avaliação diagnóstica inicial ...............................12 6. Abordagem inicial ...................................................13 7. Drogas Vasoativas .................................................16 8. Fluidos .........................................................................18 Referências Bibliográficas ........................................20 3CHOQUE 1. INTRODUÇÃO O choque é uma condição de falên- cia circulatória ameaçadora à vida devido à distribuição inadequada de oxigênio. Pode então ser definido como um desequilíbrio entre a oferta e a demanda de oxigênio, produzin- do assim, hipóxia celular e tecidual. Os efeitos do choque são reversíveis inicialmente, mas rapidamente se tor- nam irreversíveis, levando à síndrome de disfunção de múltiplos órgãos. Logo, fica evidente que quanto mais precocemente for instituída a tera- pia, melhor será o prognóstico para o paciente. 2. REVISANDO O conhecimento dos princípios da cir- culação, da oferta e consumo de oxi- gênio são importantes para o com- preensão da fisiopatologia do choque. Inicialmente é importante lembrar quais os componentes mais impor- tantes do sistema circulatório, são eles: coração, sistema arterial, rede capilar e sistema venoso. O coração é considerado a bomba desse siste- ma, é o responsável por impulsionar o sangue para que ele chegue aos te- cidos. Nesse contexto, três variáveis possuem uma importância muito sig- nificativa: a pré-carga, a pós-carga e a contratilidade cardíaca. A pré-carga é definida como a pres- são no ventrículo esquerdo ao final da diástole (a quantidade de sangue que chega ao coração), sendo influen- ciada por: retorno venoso, volemia e complacência do músculo cardíaco. A contratilidade é definida como a capacidade de contração das fibras miocárdicas, sendo influenciada por: efeito simpático (p. ex. descargas adrenérgicas), alterações metabólicas (p. ex. distúrbios do potássio) e pela utilização de substâncias inotrópicas, como a dobutamina. Por fim, a pós- -carga é definida como a pressão no ventrículo esquerdo ao final da sístole (a pressão contra a qual os ventrícu- los precisam “vencer” para o bombe- amento do sangue), sendo influencia- da por: resistência vascular periférica e resistência vascular pulmonar. Re- sumindo, o volume de sangue ejetado pelo coração (volume sistólico) varia de acordo coma pré-carga, a contra- tilidade e a pós-carga. Outro conceito fundamental é o de débito cardíaco (DC), definido como a quantidade de sangue bombeada pelo coração para a aorta a cada mi- nuto. A capacidade de bombeamen- to do coração (DC) é uma função dos batimentos por minuto (frequência cardíaca) e do volume de sangue eje- tado por batimento (volume sistólico). Dessa forma, define-se débito cardí- aco como; DC = VS X FC Débito cardíaco = Volume sistólico X Frequência cardíaca. 4CHOQUE Quanto aos sistemas vasculares, tem-se o sistema venoso e o arterial. O sistema venoso é caracterizado por ser de baixa pressão, alta capacitância ( funciona como um verdadeiro reser- vatório para o volume sanguíneo, cer- ca de 70% do total), é pobre em oxi- gênio e possui uma alta complacência, ou seja, abriga grandes variações de volume sem aumentar muito a sua pressão. Já o sistema arterial, é de alta pressão, de alta elastancia, reserva cerca de 30% do volume sanguíneo e é rico em oxigênio. Ainda a respeito dos sistemas vasculares, ressalta-se a importância da manutenção de uma resistência vascular que permita o sistema circulatório operante. A resis- tência vascular é a pressão exercida pelas paredes dos vasos contra o flu- xo sanguíneo, consequência do com- primento, do diâmetro e do tônus do vaso, além da viscosidade sanguínea. Como iremos perceber, alguns casos de choque têm como manifestação a queda da pressão arterial. Por sua vez, a pressão arterial é o produto do débito cardíaco e da resistência vas- cular periférica. MAPA MENTAL – A REGULAÇÃO DA PRESSÃO ARTERIAL Pressão arterial Comprimento do vaso Volume sistólicoFrequência cardíaca Débito cardíaco Resistência vascular Viscosidade sanguínea Diâmetro do vaso Pós-carga Contratilidade Pré-carga 5CHOQUE O oxigênio é transportado no sangue acoplado à hemoglobina e, no máxi- mo, quatro moléculas de oxigênio são carregadas em cada molécula de he- moglobina. Se todos os sítios dispo- níveis estão ocupados por oxigênio a saturação de oxigênio arterial (SaO2) é de 100%. Após a realização da troca gasosa a nível alveolar, ele pode seguir na cor- rente sanguínea de duas formas, ou dissolvido no plasma (PaO2 – pressão arterial de oxigênio e PvO2 – pressão venosa de oxigênio) ou carreado pela hemoglobina (SaO2 – saturação de oxigênio e SvO2 – saturação venosa de oxigênio). Nesse âmbito, existem alguns con- ceitos importantes que iremos abor- dar aqui. Inicialmente, abordaremos a DO2 – a oferta de oxigênio para os tecidos, uma função do conteúdo arterial de oxigênio e da quantidade ofertada aos tecidos (DC). Logo, DO2 = DC x CaO2. O consumo de oxigênio pelos tecidos (VO2) é determinado pela necessida- de que os tecidos têm dele, ou seja, é influenciado por situações que vão exigir mais ou menos oxigênio para o bom funcionamento das células, des- de situações fisiológicas até patoló- gicas. Diante disso, é possível com- preender o conceito fundamental do choque, a hipoperfusão tecidual, que nada mais é do que a falta de oxigênio necessária para a demanda tecidual. Os sinais e sintomas de hipoperfusão são os sinais e sintomas de choque e serão abordados no tópico de quadro clínico. Ademais, outros parâmetros utilizados para avaliar a perfusão te- cidual, são os laboratoriais, tais como: lactato, SvO2 e o Gap CO2. O lactato é um marcador de hipóxia tecidual e é um indicador de gravidade, mas vale lembrar que ele também pode se ele- var em condições não associadas com a hipoxemia, como a disfunção hepá- tica, descarga adrenérgica e a defici- ência de tiamina. A saturação venosa de oxigênio revela de forma indireta o consumo de oxigênio pelos tecidos periféricos, ou seja, a taxa de extração de O2. Cuidado, não confunda satu- ração venosa de O2 com saturação venosa central de O2, a venosa de O2 é obtida na artéria pulmonar, en- quanto que a central é obtida na veia cava superior ou no átrio direito, con- seguindo avaliar a saturação do orga- nismo de forma global. O gap de CO2 é a diferença entre a pressão venosa de dióxido de carbono e a pressão ar- terial dele, marcando a deficiência de “retirada” do CO2 da corrente sanguí- nea, sendo uma alteração bastante precoce da hipoxemia e marcador de diminuição do débito cardíaco. 6CHOQUE • Variações emocionais • Exercício físico • Mais jovens • Sepse • Neoplasia • Inflamação • Hipertireoidismo • Hipotireoidismo • Alterações hormonais • Estados comatosos Condições fisiológicas Condições patológicas VO2 VO2 • Sono • Mais velhos CONDIÇÕES QUE INFLUENCIAM NO CONSUMO DE OXIGÊNIO (VO2) 7CHOQUE 3. CLASSIFICAÇÃO E ETIOLOGIA Existem quatro tipos de choques re- conhecidos, são eles: distributivo, cardiogênico, hipovolêmico e obs- trutivo. No entanto, vale lembrar que muitos pacientes apresentam mais de um “tipo” de choque ao mesmo tempo, levando assim à uma falência circulatória. Distributivo É caracterizado por uma vasodilata- ção severa e pelos mecanismos/mo- léculas responsáveis por essa vaso- dilatação dependem da etiologia. • Choque séptico: A sepse é defi- nida como uma resposta desregu- lada do hospedeiro contra a infec- ção, que resulta em ameaça à vida e disfunção orgânica . É a causa mais comum de choque distributi- vo. O choqueséptico está relacio- nado com uma alta taxa de mor- talidade, cerca de 40 – 50% dos pacientes. • Síndrome da resposta inflamató- ria sistêmica (SIRS): Uma síndro- me clínica caracterizada por uma robusta resposta inflamatória, cau- sada por um grande insulto corpo- ral, que pode ser infeccioso ou não. São exemplos de condições não DO2 VO2 GapCO2 DO2 crítico Dependência fisiológica SvO2 Lactato TeO2 RESUMINDO OS PARÂMETROS DE OFERTA E DEMANDA DE OXIGÊNIO, BEM COMO A AVALIAÇÃO DA HIPÓXIA TECIDUAL 8CHOQUE infecciosas que podem evoluir com SIRS – pancreatite, queimaduras, hipoperfusão causada por trauma, embolia de líquido amniótico, em- bolia gordurosa e outros. SE LIGA! Critérios diagnósticos para SIRS – 2 ou mais dos 4 critérios: tem- peratura > 38,3ºC ou < 36,0ºC; FC > 90bpm; FR > 20 ipm ou PaCO2 < 32 mmHg ou necessidade de ventilação mecânica; leucócitos > 12.000/mm ou < 4.000 ou > 10% de formas imaturas. • Choque neurogênico: Os pa- cientes com uma lesão traumática no cérebro ou na medula espinal, apresentam uma interrupção nas vias autonômicas, o que leva à uma diminuição na resistência vascular e alteração no tônus vagal, sendo eles os responsáveis pelo choque distributivo ocasionado. • Choque anafilático: O choque anafilático é mais comummente encontrado nos pacientes com re- ações alérgicas graves, mediadas pelo IgE, como a picadas de inse- tos, alimentos e drogas. Além dis- so, vale lembrar que o termo ana- filaxia também se aplica aos casos de liberação direta de mediadores inflamatórios dos mastócitos e ba- sófilos produzidos por vários ga- tilhos, como exercícios, látex ou idiopático. • Choque induzido por dro- gas e toxinas: Algumas reações medicamentosas ou à toxinas po- dem estar associadas ao choque ou a síndrome do tipo SIRS-like, como por exemplo: overdose por narcóticos, mordidas de cobra, envenenamento por escorpião ou aranhas, reações transfusionais, envenenamento por metais pesa- dos e infecções associadas com síndrome de choque tóxico (Strep- tococcus e Escherichia spp). • Choque endócrino: As crises ad- disonianas (falência da adrenal) e mixedema podem ser associadas com hipotensão e estados de cho- que. Nas situações de deficiên- cia de mineralocorticoides, pode ocorrer uma vasodilatação devido a alterações no tônus vascular, e a deficiência de aldosterona pode mediar uma hipovolemia. 9CHOQUE DISTRIBUTIVO PVC DC RVS N ou N ou PCV – Pressão venosa central; DC – Débito cardíaco; RVS – Resistência vascular sistêmica. Cardiogênico O choque cardiogênico é aquele cau- sado por alguma alteração intracardí- aca que leva a falência da bomba car- díaca, resultando em débito cardíaco reduzido. São várias as causas de fa- lência de bomba, mas elas podem ser divididas em 3 grandes grupos. • Cardiomiopatia: Nesse grupo estão incluídos: infarto miocárdi- co (que envolve mais de 40% do miocárdio ventricular), infarto do miocárdio de qualquer tamanho quando acompanhado de isque- mia extensa devido a doença ar- terial coronariana, infarto ventricu- lar direito severo, exacerbação da insuficiência cardíaca, miocárdio atordoado após uma parada cardí- aca, depressão miocárdica devido a choque séptico ou neurogênico e miocardites. • Arrítmica: As taquiarritmias e bra- diarritmias, tanto atrial quanto ven- tricular podem induzir a hipotensão, contribuindo assim para os estados de choque. No entanto, quando o debito cardíaco é prejudicado de forma severa devido as arritmias, os pacientes podem apresentar o choque cardiogênico. • Mecânica: As causas mecânicas incluem: insuficiência severa das válvulas aórtica ou mitral e defei- tos valvulares agudos devido a ruptura do músculo papilar ou das cordas tendíneas ou dissecção re- trógrada da aorta ascendente no anel valvar aórtico ou um absces- so do anel aórtico. Além disso, ou- tras possíveis causas são: defeitos severos no septo ventricular, ou ruptura aguda do septo intraven- tricular e mixomas atriais. A este- nose aórtica ou mitral raramente leva ao choque cardiogênico, mas frequentemente contribuem para a hipotensão nos casos de choque por sepse ou hipovolemia. CARDIOGÊNICO PVC DC RVS 10CHOQUE pós-operatório, ruptura da aorta abdominal, fistula aórtica-entérica, pancreatite hemorrágica e outras. • Não hemorrágico: Ocorre pela diminuição do volume intravascu- lar por perda de algum fluido que não seja sangue. Ou seja, mais comumente ocasionado pela per- da de sódio ou de água, em vários sítios anatômicos, como: o trato gastrointestinal (diarreia, vômi- tos), pele (queimaduras, condições dermatológicas severas como a síndrome de Stevens-Johnson), perdas renais (uso excessivo de diuréticos, nefropatias) e outras. Hipovolêmico É o choque ocasionado por uma re- dução no volume intravascular, o que reduz o débito cardíaco. Esse tipo de choque pode ser dividido em duas categorias. • Hemorrágico: A perda de sangue resulta em uma redução no volume intravascular o que pode resultar em choque. Existem múltiplas cau- sas para isso, dos quais o trauma (contuso ou penetrante) é o mais comum, seguido por hemorragia varicosa e sangramento intesti- nal inferior. Dentre as causas me- nos comuns estão: sangramento HIPOVOLÊMICO PVC DC RVS Obstrutivo O choque obstrutivo é ocasionado, frequentemente, por causas extracar- díacas, que levam à uma falência da bomba e é muito associado com um baixo débito cardíaco direito. As cau- sas desse tipo de choque podem ser divididas em duas categorias. • Pulmonar vascular: Muitas vezes o choque obstrutivo ocorre devido à falência ventricular direita que é resultado de duas condições prin- cipais, a embolia pulmonar e a hipertensão pulmonar. Nesse sen- tido, a falha do ventrículo é decor- rente da alta pressão pulmonar, fazendo com que a sístole ventri- cular não vença essa pressão au- mentada. Além disso, os pacientes com estenose grave ou com qua- dro agudo de obstrução da válvu- la pulmonar ou tricúspide também podem ser enquadrados nessa categoria. • Mecânico: Os pacientes dessa categoria desenvolvem o choque 11CHOQUE para bombear. São exemplos: pneumotórax, tamponamento car- díaco, cardiomiopatia restritiva e pericardite constritiva. devido ao distúrbio que leva à uma diminuição da pré-carga, ou seja, o retorno venoso é prejudicado e as- sim a bomba não tem “substrato” OBSTRUTIVO PVC DC RVS Choque combinado Como dito anteriormente, frequente- mente a causa de choque é multifa- torial, ou seja, mais de uma etiologia associada. Dessa forma, um exemplo é paciente que desenvolve o choque séptico por uma pancreatite – incial- mente possuem o choque distributivo, devido a “sopa” de mediadores infla- matórias que causam a vasodilata- ção, mas frequentemente possuem um componente hipovolêmico devido aos vômitos e diminuição da ingestão oral, além de um componente cardio- gênico, decorrente da inflamação que leva à uma depressão do miocárdio. PVC DC RVS Cardiogênico Aumentado Diminuído Aumentado Hipovolêmico Diminuído Diminuído Aumentado Distributivo Normal ou diminuído Normal ou aumentado Bastante diminuído Obstrutivo Aumentado Diminuído Aumentado 4. QUANDO SUSPEITAR DO CHOQUE? Manifestações clínicas Os achados clínicos no paciente com choque variam de acordo com a etio- logia e o estágio de apresentação (descritos acima). Os achados que le- vantam a suspeita para choque são: hipotensão, taquicardia, oligúria, alte- ração no estado mental, taquipneia, pele fria, pegajosa, cianótica, aumen- to do tempo de enchimento capilar (TEC), acidose metabólica e hiperlac- tatemia. A hipotensão ocorre nos pa- cientes com choque podendo ser ab- soluta (quando a pressão sistólica é < 90mmHg e a pressão arterial média é 12CHOQUE < 65 mmHg), relativa (quando a pres- são sistólica diminui > 40 mmHg) e ortostática (queda de > 20mmHg na pressão sistólica ou >10 mmHg na pressão diastólica com o paciente empé) ou profunda (vasopressor-depen- dente). A taquicardia é o sintoma com- pensatório mais precoce nos pacien- tes com choque. A taquipneia é um mecanismo compensatório precoce também, em especial nos pacientes que já apresentam acidose metabó- lica. As alterações mentais ocorrem por: perfusão cerebral pobre ou en- cefalopatia, começando com agitação e pode evoluir para confusão ou deli- rium, e mais gravemente para obnu- bilação e coma. Ainda, as alterações descritas na pele ocorrem devido a vasoconstrição periférica, que visa manter a perfusão adequada nos ór- gãos vitais. É importante lembrar que, várias etiologias podem levar ao cho- que, portanto, a história do paciente, a clínica e o auxilio de exames de la- boratório e imagem são importantes para definição da causa base e para guiar o tratamento “definitivo”. 5. AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA INICIAL Como dito acima, a avaliação começa na suspeição do estado de choque, ou seja, é aquele paciente que manifesta alguns sinais e sintomas sugestivos dessa condição clínica. Após confir- mado o estado de choque, e a esta- bilização clínica, inicia-se uma inves- tigação para descobrir qual é o fator desencadeante. Logo, após a história clínica e o exame físico, podem ser solicitados alguns exames, como: ele- trocardiograma, laboratório (lactato sérico, função hepática e renal, enzi- mas cardíacas e peptídeo natriurético atrial, hemograma, estudo coagula- ção e D-dímero e gasometria arterial) e exames de imagem (radiografia de tórax, radiografia de abdome, TC de crânio, coluna vertebral, tórax, abdo- me e pelve, USG point-of-care). 13CHOQUE MOTTLING SCORE. Fonte: Ait-Oufella et. Al. Intensive Care Med, 2011. SAIBA MAIS! Mottling score – é uma forma de avaliação da perfusão tecidual, utilizando como parâmetro os aspectos da pele (fria, pegajosa, livedo reticular) na região do joelho. Utiliza-se semicírculos que começam na proeminência do joelho, no grau leve e vão se estendendo para regiões mais distais (do centro, tendo como base a região patelar) e é classificado de 1 – 5, sendo 1 a nível patelar e 5 acima da raiz da coxa. Quando o score é alto a taxa de letalidade também é alta. 0 – Ausência 1 – Presença com tamanho de cerca de uma moeda, no joelho. 2 – Extende-se para a rótula 3 – Extende-se até a dobra da virilha 4 – Ultrapassa a virilha 6. ABORDAGEM INICIAL A abordagem inicial dos pacientes com hipotensão/choque indiferencia- do é baseada em uma abordagem multidisciplinar, sempre que possível. • A via aérea deve ser estabilizada e o acesso venoso deve ser garanti- do, para que os pacientes possam ser tratados imediatamente com lí- quidos (cristaloides) para restaurar a perfusão tecidual. • Os pacientes devem ser constan- temente avaliados (monitoração) quanto à necessidade de algu- ma intervenção imediata ou pre- coce, para que as terapias sal- va-vidas possam ser instituídas prontamente. • Depois de estabilizados os pacien- tes devem passar por uma “pes- quisa” minuciosa, para que seja determinada a causa do choque. Nos casos em que os pacientes desenvolvam a síndrome da an- gústia respiratória ou estejam com 14CHOQUE instabilidade hemodinâmica, eles podem ser intubados, com exceção dos pacientes com suspeita de pneu- motórax hipertensivo, os quais serão drenados. Vale lembrar que, na se- quencia de intubação rápida desses pacientes, devem ser evitadas as dro- gas que podem cursar com hipoten- são, como propofol e midazolam. O acesso venoso periférico ou o acesso intraósseo são suficientes na maioria dos pacientes no choque indiferen- ciado, porém, naqueles em que não for possível, o acesso venoso central deve ser obtido e também naqueles que precisão de infusão de grandes volumes de fluidos ou naqueles que precisam de infusões prolongadas de vasopressores. SE LIGA! Quanto mais rápido e mais eficiente for o processo de abordagem inicial, maiores são as chances de sobre- vida do paciente e menores as chances de sequelas. Logo, o fato de não ter um acesso central para administração de vasopressores não deve adiar a admi- nistração deles. Condições que comumente precisam e medidas salvadoras de vida Nas condições citadas abaixo, há ne- cessidade de obtenção de uma breve história, além de uma avaliação rápi- da e eficaz. • Choque anafilático: Os pacientes com suspeita de choque anafilático, como: hipotensão, estridor inspira- tório, edema facial e oral, urticária e história recente de exposição à alérgenos, devem receber epinefri- na intramuscular. Outros fármacos usados seguidos da epinefrina são: anti-histamínicos (difenidramina, ranitidina), além de nebulização e corticoides (metilprednisolona). • Pneumotórax hipertensivo: Deve ser suspeitado nos pacientes com: taquipneia, dor pleurítica unilate- ral, sons respiratórios diminuídos, veias do pescoço distendidas, desvio traqueal e fatores de risco. Nesses casos não é necessário a solicitação de uma radiografia de tórax, sendo necessária a re- alização de uma toracotomia ou uma descompressão usando um cateter intravenoso seguida da toracotomia. • Tamponamento cardíaco: Essa situação deve ser suspeitada nos pacientes que apresentam disp- neia, taquicardia, hipotensão, ele- vação da pressão venosa jugular, abafamento das bulhas cardíacas, pulso paradoxal e fatores de risco. Diante disso, realiza-se um ECO ou USG à beira de leito, se possível antes da pericardiocentese. • Instabilidade hemodinâmica no choque hipovolêmico: Os pacien- tes com história de trauma e sem exteriorização de sangramento me- recem um FAST, para identificação 15CHOQUE de possíveis hemorragias internas, se encontrada, cirurgia para corre- ção. Já nos pacientes sem histó- ria de trauma, a suspeita pode ser uma rotura de aorta ou hemorragia gastrointestinal. • Coque séptico: Nos pacientes com suspeita de infecção, devem ser tratados de forma precoce com a administração de antibióti- cos intravenoso, sendo a escolha da classe definida pela suspeita diagnóstica. Em causas desconhe- cidas, pode-se iniciar antibioticote- rapia empírica. • Outras condições que merecem cuidado: Arritmias, infarto do mio- cárdio, dissecção aguda da aorta ascendente, embolismo pulmo- nar, crises adrenais e picadas de insetos. Suporte hemodinâmico No geral, o suporte hemodinâmico ao paciente com choque inespecífico é – fluidos intravenosos e vasopresso- res, com o intuito de manter a pressão arterial média em torno de 65 – 70 mmHg. Inicialmente faz a utilização dos fluidos e quando eles não são efe- tivos administra-se os vasopressores. • Fluidos intravenosos: São as me- didas de primeira linha nos pa- cientes com hipotensão e choque indiferenciados. É preferível que a administração dos fluidos seja feita em bólus, como por exemplo 500 – 1000 mL, até que a pressão arterial e a perfusão tecidual se- jam aceitáveis. Vale lembrar que o total de volume a ser infundido é determinado pela etiologia do cho- que, por exemplo: casos de cho- que cardiogênico, de maneira ge- ral, necessitam de 500 – 1000mL, nos casos de choque hipovolêmico esse volume é maior, cerca de 3 – 5 L, incluindo a necessidade de hemoderivados. O fluido ideal ain- da é incerto, mas na maioria das vezes os cristaloides são os utili- zados, como o Ringer Lactato e o Soro Fisiológico 0,9%, sendo pre- ferível o Ringer. Aqueles pacientes com choque hemorrágico devem ser tratados, preferencialmente com produtos sanguíneos. • Vasopressores: Os vasopressores são drogas frequentemente reque- ridas nos pacientes com choque, pois a ressuscitação volêmica não consegue estabelecer níveis acei- táveis de PA e perfusão tecidual. Vale lembrar que os vasopressores podem ser prejudiciais nos pacien- tes com hemorragia ou choque hi- povolêmico, de modo que essas drogas devem ser usadas apenas como forma de suporte adicional de suporte hemodinâmico, quando a ressuscitação volêmica falhar, ou como último recurso para pacien- tes em situaçãoextrema. Os agen- tes mais usados são: agonistas 16CHOQUE adrenérgicos (norepinefrina e do- pamina) e os agentes inotrópicos (dobutamina). Nesse sentido, den- tre os agonistas adrenérgicos, a droga mais utilizada é a norepine- frina (utilizada na dosagem inicial de 8 – 12 mcg/min, via IV), quanto aos agentes inotrópicos, a dobu- tamina é a mais utilizada (na dose inicial de 0,5 a 1 mcg/kg/min), sen- do mais comumente usada nos ca- sos de choque cardiogênico, sendo geralmente usada em associação com a norepinefrina, usada para compensar a diminuição da resis- tência vascular periférica causada pelas doses baixas de dobutamina. 7. DROGAS VASOATIVAS São medicações que possuem efeitos vasculares periféricos, pulmonares e cardíacos, que possuem alta potên- cia e possuem o efeito rápido e curto, sendo caracterizadas por possuir uma resposta dose dependente. São divi- didas em 03 grupos: os vasopresso- res, inotrópicos e os vasodilatadores. Ainda, para o entendimento adequa- do de como essas drogas funcionam é necessário conhecer os possíveis receptores onde elas irão agir, são eles: adrenérgicos (alfa 1, alfa 2, beta 1 e beta 2) e o de vasopressina (V1). Alfa 1 – responsável pela vasocons- trição das artérias e veias, contração do músculo liso dos vasos e assim, aumento na resistência vascular periférica. Alfa 2 – responsável por “contrabalan- cear” os efeitos do alfa 1. Porém, pos- sui poucos efeitos hemodinâmicos. Beta 1 – capaz de aumentar a frequ- ência cardíaca e aumentar a contrati- lidade miocárdica. Beta 2 – atuam causando vasodila- tação, diminuição da resistência vas- cular periférica e a nível pulmonar – broncodilatação. • Os vasopressores – são drogas que atuam aumentando a resis- tência vascular periférica, por meio do aumento no tônus vascular. • Noradrenalina – Droga que tem capacidade de agir nos receptores alfa 1 (principalmente) e também no beta 1. É a droga de escolha no choque distributivo. A sua dose varia de 0,01 – 3,0 mcg/kg/min. • Vasopressina – É um análogo do ADH (hormônio antidiurético), age no receptor V1, tendo um poten- te efeito vasoconstritor e pode ser usada nos casos de choque refra- tário, associada com a noradrena- lina. Sua dose varia de 0,01 – 0,06 UI/min. • Adrenalina – Capaz de atuar nos receptores alfa 1, beta 1 e beta 2 (broncodilatação), sendo um im- portante vasoconstritor e também 17CHOQUE inotrópico. Devido a essa sua ca- pacidade de atuar em receptores diferentes, é a droga escolhida nos casos de choque anafilático e de segunda linha no choque séptico. Sua dose varia de 1 – 10 mcg/min. DVA RECEPTORES α 1 ẞ 1 ẞ 2 Efeitos Noradrenalina +++ + - RVP e DC Adrenalina +++ ++ ++ RVP, DC, FC Vasopressina - - - RVP • Os inotrópicos – atuam de forma a aumentar a contratilidade cardí- aca, ou seja, ou aumentam a força de contração do coração. • Dobutamina – Atua nos recepto- res beta 1 e beta 2, causando au- mento na contratilidade cardíaca e também na frequência cardíaca, além de promover vasodilatação (no vaso sanguíneo). É a droga de escolha na disfunção miocárdica, como no choque cardiogênico. Sua dose varia de 2,5 – 20 mcg/kg/min. • Levosimedan – Também é uma droga inotrópica, não muito utiliza- da na prática clínica, que age au- mentando a sensibilidade da tro- ponina C ao cálcio. Sua utilização é com 12 – 14 mcg/kg/ em bólus + 0,05 – 2 mcg/kg/min. • Milrinona – Exerce seu efei- to inotrópico através da inibição da fosfodiesterase, o que culmi- na no aumento do cálcio intrace- lular, resultando em aumento da contratilidade cardíaca. Além do seu efeito inotrópico é um poten- te vasodilatador do sistema arte- rial e venoso. Sua utilização é com 0,5 mcg/kg em bólus + 0,25 – 0,75 mcg/kg/min. • Os vasodilatadores – são drogas que atuam diminuindo a resistên- cia vascular periférica, por meio da diminuição do tônus vascular. • Nitroprussiato de sódio – Tem potente ação vasodilatadora que se dá através do aumento do óxi- do nítrico, que atua diminuindo o tônus vascular e assim diminui a resistência vascular periférica. Por isso, é capaz de aumentar o dé- bito cardíaco, pois atua diminuin- do a pós-carga (diminui tônus dos vasos arteriais). Sua dose varia de 0,5 – 5 mcg/kg/min. Uma consideração importante acerca da utilização dessas drogas é que o paciente tem que estar devidamente 18CHOQUE monitorizado. A pressão arterial pode ser avaliada por oscilometria ou atra- vés da pressão arterial invasiva, ou- tro parâmetro a ser avaliado é o dé- bito cardíaco, tendo como forma mais simples de avaliação o ecocardiogra- ma ou através da análise do controle de pulso ou por meio do cateter da artéria pulmonar. 8. FLUIDOS Fisiologia dos fluidos Os fluidos no organismo estão aloja- dos em 03 compartimentos, são eles: o plasma, interstício e o intravascular. Existe uma troca de fluidos no orga- nismo, que é feita através de algu- mas membranas, na capilar, quando é entre o plasma e o interstício e na celular quando é entre o interstício o espaço intravascular. Nesse sentido, vale lembrar de um conceito impor- tante, o de pressão oncótica, que é determinado basicamente pela quan- tidade de albumina e faz com que o fluido continue no espaço intravascu- lar, diferente das situações em que há diminuição na quantidade de albumi- na e por isso, perda de líquido para o terceiro espaço (interstício) causando edema e diminuição da pressão ar- terial, além de poder comprometer o individuo hemodinamicamente. Tipos de fluidos São divididos em 02 grandes grupos, os cristaloides e os coloide. Dentro dos cristaloides, estão o soro fisioló- gico a 0,9%, o ringer lactato, o ringer acetato e o plasmalyte e dentro do grupo dos coloides, tem-se os natu- ral, representado pela albumina e os sintéticos, representados pela dex- tranas e gelatinas. SE LIGA! O preferível é a utilização de cristaloides, dentre eles, o mais indicado é Ringer Lactato. CRISTALOIDE COLOIDE Não balanceado – Solução salina 0,9% Natural – Albumina Balanceado - Ringer (lactato e acetato) e plasmalyte Semissintético – dextranas e gelatinas. 19CHOQUE OBS – Comparação com o plasma: ELETRÓLITOS PLASMA SF 0,9 RINGER LACTATO Na 136 – 145 154 130 K 3,5 – 5,0 - 4,0 Ca 4,4 – 5,2 - 3,0 Cl 98 – 106 154 109,0 Mg 1,6 – 2,4 - - Lactato - - 28 Acetato - - - Gluconato - - - Osmolaridade 290 – 303 309 272 pH 7,4 5,5 – 6,2 6,0 – 7,5 Fluido-responsividade Fluido-responsividade é determinada pela elevação do débito cardíaco em resposta à administração de volume, tendo como parâmetro – 500 mL = aumento de 10% no débito cardíaco. Como isso funciona? Ao administrar volume, há um aumento na pré-car- ga, o que é capaz de aumentar a dis- tensão do miocárdio (forças de Frank Starling), o que, consequentemente, aumenta a contração do miocárdio e, assim, o débito cardíaco. Relação entre pré-carga e volume sistólico. A e B – possuem fluido-res- ponsividade, C e D não respondem aos fluidos. SE LIGA! Como avaliar a fluido-respon- sividade? As quatro formas mais co- muns são: variação da pressão de pulso, variação da veia cava, manobra passive leg raising e prova volêmica. 20CHOQUE REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GAIESKI, David F. Evaluation of and initial approach to the adult patient with undifferentiated hypotension and shock. UpToDate. 2019. GAIESKI, David F. Definition, classification, etiology, and pathophysiology of shock in adults. UpToDate. 2020. 21CHOQUE