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VANESSA MORAIS 1 Choque hemorrágico, cardiogênico, obstrutivo e distributivo, ▪ Emergência médica caracterizada pelo suprimento inadequado de oxigênio em nível celular, tecidual e orgânico, derivado do desequilíbrio entre a oferta e a demanda de O2 para os tecidos, resultando em hipóxia e, consequentemente, em danos reversíveis ou irreversíveis decorrentes dela. ▪ O fornecimento de O2 é regulado pelo débito cardíaco, integridade vascular e teor de oxigênio no sangue. ▪ Quatro mecanismos de choque são descritos: distributivo, cardiogênico, hipovolêmico e obstrutivo, sendo o hipovolêmico o mais comum e podendo o paciente ter um ou mais mecanismos envolvidos no quadro. FISIOPATOLOGIA O processo de utilização do oxigênio tecidual envolve os seguintes passos: 1. Difusão do oxigênio dos pulmões ao sangue. 2. Ligação do oxigênio à hemoglobina. 3. Transporte de oxigênio pelo débito cardíaco para periferia. 4. Difusão de oxigênio para a mitocôndria. PASSO 1: DIFUSÃO DO O2 DOS PULMÕES AO SANGUE ▪ O oxigênio (O2) atmosférico entra nos pulmões a partir da pressão negativa gerada pela inspiração. Posteriormente, o O2 alveolar se difunde para o sangue capilar pulmonar. ▪ A quantidade de O2 que é transferida para o sangue depende da relação ventilação-perfusão e da concentração de oxigênio inspirado (FiO2). ▪ Outros fatores importantes são a membrana alvéolo-capilar, a concentração de hemoglobina no sangue e sua afinidade pelo O2. PASSO 2: LIGAÇÃO DO O2 À HEMOGLOBINA É importante salientar que aproximadamente 98% do O2 é ligado à hemoglobina e 2% é dissolvido no plasma. O principal carreador do O2 é a hemoglobina, composta duas cadeias alfa e duas beta, cada uma ligada a um grupo heme. Cada grupo heme possui um anel porfirínico ligado a um átomo de ferro em estado reduzido (ferroso ou Fe2+), ao qual o O2 se liga. Assim, cada molécula de hemoglobina consegue carregar quatro moléculas de oxigênio. A afinidade da hemoglobina pelo O2 aumenta na medida em que o complexo com a hemoglobina se satura. Essa habilidade da hemoglobina de alterar sua afinidade pelo O2 a torna um carregador ideal. Nos capilares pulmonares, a ligação do oxigênio à hemoglobina é facilitada, enquanto nos capilares periféricos, a dissociação do O2 é promovida. Algumas situações aumentam ou diminuem a afinidade da hemoglobina pelo oxigênio e influenciam esse processo. PASSO 3: TRANSPORTE DE OXIGÊNIO PELO DÉBITO CARDÍACO PARA PERIFERIA O transporte de O2 aos tecidos depende da quantidade presente no sangue e do débito cardíaco. O conteúdo de oxigênio no sangue (em mL de O2/dL de sangue) pode ser expresso, então, pela seguinte fórmula: CONTEÚDO ARTERIAL DE OXIGÊNIO = (1,39 × Hb × Sat artO2) + 0,0031 × PaO2 (normal 16-22 mL/dL) CONTEÚDO VENOSO DE OXIGÊNIO = (1,39 × Hb × Sat venO2) + 0,0031 × PvO2 (normal 12-17 mL/dL) Assim, os dois principais componentes do conteúdo de O2 no sangue são a quantidade de hemoglobina e sua saturação, já que o O2 dissolvido no plasma representa uma ínfima parcela do conteúdo total. Já o transporte de oxigênio aos tecidos depende do débito cardíaco (DC) do paciente. OFERTA DE OXIGÊNIO (ML O2/MIN) = CaO2 × DC × 10 (normal 700-1.400 mL/min) Fica evidente a importância do débito cardíaco para o transporte de O2 para os tecidos. Quedas agudas da saturação ou anemias agudas podem ser compensadas por imediato aumento do débito cardíaco. VANESSA MORAIS 2 PASSO 4: DIFUSÃO DE OXIGÊNIO PARA A MITOCÔNDRIA ▪ O O2 posteriormente é transferido do sangue para a mitocôndria por um simples princípio de difusão, mas também por mecanismos de controle da microcirculação local que controlam o fluxo total, tempo de trânsito e recrutamento capilar. Fatores autonômicos neurais e metabólicos regulam os esfíncteres arteriolares de tal forma a aumentar a densidade capilar. ▪ Órgãos com pouca reserva capilar apresentam-se em desvantagem durante a hipóxia. ▪ Uma vez que o O2 chega à mitocôndria, ele deve funcionar como receptor final de elétrons provenientes do metabolismo aeróbico. ▪ Mesmo após entrar na mitocôndria, diversos mecanismos em determinadas patologias promovem a má utilização do oxigênio no metabolismo, levando a uma utilização glicolítica anaeróbica da glicose e hiperlactatemia para geração de ATP, apesar da presença de O2. O consumo de oxigênio (VO2) é definido pela equação de Fick: CONSUMO DE OXIGÊNIO (ML O2/MIN) = (CaO2 – CvO2) × DC × 10 (normal 180-280 mL/min) A taxa de extração de O2 pelos tecidos descreve a habilidade da periferia em remover o O2 do sangue: TAXA DE EXTRAÇÃO DE OXIGÊNIO = VO2/DO2 = (Sat arterial O2 – Sat venosa O2) / Sat arterial O2 (normal 20- 25%) Com diminuições graduais da oferta, o consumo permanece constante devido a um aumento da extração periférica. Porém, diminuições progressivas podem superar a capacidade de adaptação da microcirculação e a produção aeróbica de ATP cai abaixo da necessidade metabólica. A partir desse ponto, também chamado de DO2 crítico, a produção anaeróbica de ATP é iniciada. Entretanto, essa é uma solução parcial, relativamente de curto prazo e não pode substituir completamente a produção de ATP mitocondrial e, caso a hipoperfusão tecidual não seja corrigida, levará à morte celular. Por fim, uma maneira simplificada de se pensar no choque é que este consiste no desequilíbrio entre oferta (DO2) e consumo (VO2) de O2, devendo-se lembrar dos contribuintes de cada um. Uma vez estabelecido o choque, o organismo lança mão de mecanismos compensatórios inicialmente, mas a hipoperfusão tecidual leva à disfunção orgânica, o que perpetua a resposta inflamatória, levando a mais disfunção orgânica. Isso gera um círculo vicioso, que culmina na síndrome de disfunções de múltiplos órgãos e sistemas (SDMOS), condição caracterizada pelo acúmulo de duas ou mais disfunções orgânicas, sem considerar a disfunção inicial. Quando estabelecida, a SDMOS apresenta alta morbimortalidade, sendo difícil de ser revertida. Dessa maneira, devemos identificar e tratar precocemente o paciente em choque. DIAGNÓSTICO: O choque deve ser suspeitado em pacientes com hipoperfusão tecidual. CRITÉRIOS CLÍNICOS: → Pressão arterial média (menor que 70, associada a taquicardia) → Débito urinário → Nível de consciência → Tempo de enchimento capilar → Perfusão de pele/livedo → Cianose de extremidades → Lactato sérico → pH arterial, bicarbonato → Saturação mista de oxigênio venoso (SmvO2) ou ScvO2) → pCO2 venosa mista → oxigenação do tecido musculoesquelético (StO2) OBS: A Hipotensão geralmente está presente mas pode ser mascarada no caso de portadores de HAS. Quando presente geralmente a PAS é menor que 90mmHg. TEC >2s, livedo e diminuição da temperatura da pele fala a favor de baixo índice cardíaco e choque (especificidade 98% e sensibilidade 12%) VANESSA MORAIS 3 TEC >3s sugere pior prognóstico. FC: frequência cardíaca; SDMO: síndrome de disfunções de múltiplos órgãos; SNC: sistema nervoso central. A área de livedo reticular ao redor do joelho está diretamente relacionada à mortalidade, sendo um marcador importante de hipoperfusão tecidual no exame físico. Existem três janelas de perfusão tecidual, que identificam os danos que o choque causou no organismo: → PELE: pele fria e úmida, cianose, palidez, livedo, tempo de enchimento capilar prolongado, gradiente temperatura central-periférica (> 7°C = má perfusão periférica). → RIM: débito urinário < 0,5 mL/kg/h. → SISTEMA NERVOSO CENTRAL: estado mental alterado, que inclui torpor, desorientação e confusão. Vale ressaltar a importância da análise de outras disfunções orgânicas não avaliadas pelas três janelas descritas, visto que refletem também as consequências do choque no organismo. A avaliação por sistemas facilita a identificação das disfunções: → RESPIRATÓRIO:dispneia, uso de musculatura respiratória acessória, hipoxemia, relação PaO2/FiO2 < 400. → CARDIOVASCULAR: hipotensão, taquicardia, hiperlactatemia. → HEPÁTICA: icterícia, encefalopatia, aumento de bilirrubinas. → HEMATOLÓGICA: sangramentos, petéquias, alargamento de RNI, plaquetopenia. CRITÉRIOS LABORATORIAIS → A hiperlactatemia está tipicamente presente, indicando metabolismo anormal de oxigênio celular. O nível normal de lactato no sangue é de aproximadamente 1 mmol/L (ou 9 mg/dL), e o nível é aumentado (> 2 mmol/L ou >18 mg/dL) no choque. → O lactato durante décadas foi considerado exclusivamente o produto final da degradação parcial da glicose por mecanismo anaeróbico devido à hipóxia mitocondrial. No entanto, pesquisadores têm proposto que a produção de lactato retarda, e não causa a acidose. Assim, a acidose seria causada por reações que não são a produção de lactato. → O aumento da produção de lactato coincide com a acidose celular e permanece como um bom marcador indireto para condições metabólicas celulares que induzem a acidose metabólica. Devemos lembrar também que o lactato pode aumentar em situações não relacionadas à hipóxia, como disfunção hepática e uso de algumas medicações (metformina, linezolida). CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS Embora parâmetros clínicos isolados não sejam capazes de predizer o diagnóstico de choque com precisão, a combinação do exame clínico com parâmetros hemodinâmicos e laboratoriais aumenta a acurácia do diagnóstico. A ULTRASSONOGRAFIA POINT-OF- CARE O diagnóstico de choque pode ser refinado com a avaliação pelo ultrassom point-of-care , que inclui a avaliação de derrame pericárdico, a medição do tamanho e da função dos ventrículos esquerdo e direito, a avaliação da variação respiratória da veia cava inferior, o cálculo da integral da velocidade aórtica pela via de saída do ventrículo esquerdo, o exame abdominal e torácico com avaliação da aorta e de pneumotórax. VANESSA MORAIS 4 TIPOS DE CHOQUE CHOQUE HIPOVOLÊMICO Acontece pela redução do volume intravascular (pré-carga reduzida) que, por sua vez, reduz o DC. O choque hipovolêmico pode ser dividido em duas categorias: hemorrágico e não hemorrágico. Hemorrágico: existem várias causas de choque hemorrágico, sendo o mais comum o trauma, seguido por hemorragia varicosa e úlcera péptica. Causas menos comuns incluem hemorragia perioperatória, aneurisma aórtico abdominal roto e iatrogênico. Não hemorrágico: volume intravascular reduzido por perda de fluidos que não sejam sangue. A depleção de volume pela perda de sódio e água pode ocorrer a partir de vários sítios anatômicos, como perdas gastrointestinais, perdas de pele e perdas renais. MANEJO → A perda de volume do fluido corporal por formas de desidratação, como hipertermia, queimaduras, excesso de diurese, diarreia prolongada ou falta de reposição fisiológica usual de fluidos orais requer a reposição de fluidos por via oral ou intravenosa. → O uso intravenoso de uma solução cristaloide balanceada (por exemplo, solução de Ringer lactato [também conhecida como solução de Hartmann]) ou soro fisiológico é apropriada para ressuscitação em um paciente com choque hipovolêmico. → O sangramento por qualquer causa requer medidas imediatas para controlar a fonte. A ressuscitação volêmica com sangue e líquidos necessita ser instituída imediatamente. O sangramento após um trauma maior requer monitoramento e suporte de coagulação, além do uso apropriado de medidas hemostáticas locais, torniquetes, cálcio, desmopressina e, possivelmente, ácido tranexâmico. Quando indicada, a intervenção cirúrgica apropriada e imediata para controlar a hemorragia está associada a aumento da sobrevida e menos incapacidade. Demonstrou- se que o ácido tranexâmico reduz a mortalidade em pacientes de trauma com hemorragia quando administrado em até 3 horas após a lesão. → Alguns pacientes podem precisar de embolização dos vasos sangrantes por radiologia intervencionista ou cirurgia exploratória para obter a hemostasia. → As coagulopatias podem ocorrer por causa da transfusão de alto volume de sangue (deficiente em fatores de coagulação) ou pelo consumo de fatores de coagulação decorrente do sangramento contínuo. Isso pode ser corrigido com plasma fresco congelado e plaquetas, de acordo com as diretrizes locais. * Se ABC score ≥ 2 (trauma penetrante, FAST +, PAS < 90 mmHg, FC > 12 bpm) OU Shock index ≥ 1,2 (FC/PAS). ** O transamin é mais estudado no contexto de trauma. CAD: cetoacidose diabética; CH: concentrado de hemácias; Cai: cálcio ionizado; CP: concentrado de plaquetas; EV: endovenoso; FC: frequência cardíaca; GECA: gastroenterite aguda; PAS: pressão arterial sistólica; PFC: plasma fresco congelado; SCPC: síndrome cerebral perdedora de sal; s/n: se necessário; SNE: sonda nasoenteral; SNG: sonda nasogástrica; T: temperatura; TGI: trato gastrointestinal. VANESSA MORAIS 5 CHOQUE CARDIOGÊNICO É causado por patologias cardíacas que levem à falência da bomba e à redução do débito cardíaco (DC). As causas de falha da bomba cardíaca são diversas, mas podem ser divididas em três categorias: Cardiomiopatia: causas de cardiomiopatia induzindo choque incluem infarto do miocárdio envolvendo mais de 40% do miocárdio doventrículo esquerdo, infarto do miocárdio de qualquer tamanho se for acompanhado por isquemia extensa e grave devido a doença coronariana multiarterial, infarto agudo do ventrículo direito, exacerbação da insuficiência cardíaca em pacientes com cardiomiopatia dilatada grave subjacente, miocárdio atordoado após parada cardíaca, isquemia prolongada ou circulação extracorpórea, depressão miocárdica por choque séptico ou neurogênico avançado e miocardite. Arrítmica: tanto as taquiarritmias atriais e ventriculares quanto as bradiarritmias podem induzir hipotensão. Quando o DC é gravemente comprometido por distúrbios significativos do ritmo (p. ex., taquicardia ventricular sustentada, bloqueio atrioventricular total), os pacientes podem apresentar choque cardiogênico. Mecânica: insuficiência valvar aórtica ou mitral grave, defeitos valvares agudos, como a ruptura de um músculo papilar ou de cordoalhas tendíneas, dissecção retrógrada da aorta ascendente, ruptura aguda do septo interventricular, mixomas atriais e ruptura do aneurisma da parede livre ventricular são causas de choque cardiogênico. O estado de choque cardiogênico em pacientes com IAM resulta de um círculo vicioso que perpetua a isquemia e a falência miocárdica. A oclusão coronariana leva à isquemia miocárdica, com diminuição da contratilidade ventricular esquerda e queda da performance cardíaca, causando hipotensão arterial. O estado de hipotensão, associado a mecanismos fisiológicos de resposta ao choque (sistema renina-angiotensina-aldosterona, catecolaminas), leva a um déficit de perfusão coronariana, taquicardia e aumento do VO2 miocárdico, piorando a isquemia e comprometendo mais a função miocárdica. Os mesmos mecanismos de resposta associados ao baixo DC causam diminuição da perfusão tecidual e hipóxia regional e, consequentemente, dão início à disfunção de múltiplos órgãos. São causas de choque cardiogênico: a) Taquiarritmias; b) Bradiarritmias; c) Falência de bomba; d) IAM; e) Miocardiopatias; f) Disfunção valvar aguda; g) Ruptura do septo interventricular ou da parede livre. DIAGNÓSTICO → O quadro clínico do choque cardiogênico caracteriza-se por hipotensão, congestão pulmonar, dispneia, oligúria e confusão mental, presentes na maioria dos casos de baixo débito. → Para diag. Dif. Pode-se usar da monitorização hemodinâmica invasiva pelo cateter de artéria pulmonar, tanto para diagnóstico quanto para orientação no tratamento. → Os achados da monitorização invasiva mostram usualmente PAS < 90 mmHg, IC < 1,8 L/min/m2, PCP > 18 mmHg e índice de RVS > 2.000 dina/s/m2. Além disso, há aumento na fração de extração do O2 decorrente da diminuição da DO2 e aumento do VO2. Consequentemente,surge acidose metabólica com hiperlactemia ocasionada pelo metabolismo celular anaeróbico. → Entre os exames complementares importantes para o diagnóstico e a monitorização da terapêutica, podem-se citar eletrocardiograma, radiografia de tórax, ecocardiograma, marcadores de necrose miocárdica, fator natriurético atrial, além da cineangiocoronariografia, esta fundamental também para o tratamento da condição. → A seguir, os perfis hemodinâmicos e clínicos possíveis dentro da condição clínica de insuficiência cardíaca descompensada, em que o choque cardiogênico é caracterizado pelos perfis D e C (paciente frio, podendo ou não estar congesto). O edema agudo pulmonar é caracterizado pelo perfil B. VANESSA MORAIS 6 MANEJO → O manejo imediato do infarto do miocárdio inclui a revascularização e a anticoagulação, tanto por angioplastia primária ou, quando esta não estiver disponível, por trombólise e transporte imediato para um centro com recursos para revascularização. Na angioplastia primária, os stents farmacológicos reduzem a revascularização do vaso-alvo em comparação com os stents metálicos. → A insuficiência cardíaca aguda pode necessitar de suporte respiratório, como a ventilação mecânica não invasiva ou invasiva, e a diurese urgente ou a terapêutica com nitrato. → Agentes inotrópicos e estratégias vasodilatadoras podem ser usados no contexto apropriado. → Os inotrópicos puros não são obrigatórios nesse caso, a menos que haja sinais ou suspeita de hipocontratilidade cardíaca. → Medidas mecânicas, como a inserção de uma bomba de balão intra-aórtico, também podem ser consideradas em pacientes instáveis após um infarto do miocárdio ou cirurgia cardíaca. A bomba de balão intra-aórtico aumenta a pressão arterial (PA) e a perfusão coronariana inflando durante a diástole e desinflando durante a sístole. → A oxigenação por membrana extracorpórea tem sido usada efetivamente para a ressuscitação de pessoas com choque cardiogênico grave. BB: betabloqueador; BIA: balão intra-aórtico; BNP: peptídeo natriurético cerebral; ECG: eletrocardiograma; ECOTE: ecocardiograma transesofágico; ECOTT: ecocardiograma transtorácico; FC: frequência cardíaca; GasoA: gasometria arterial; IC: índice cardíaco; HMG: hemograma; MNM: marcadores de necrose miocárdica; PAS: pressão arterial sistólica; PCP: pressão capilar pulmonar; RX: raio X; VE: ventrículo esquerdo. CHOQUE DISTRIBUTIVO É caracterizado por vasodilatação periférica grave com queda da resistência vascular sistêmica. Choque séptico: a sepse é definida como resposta desregulada do hospedeiro à infecção, resultando em disfunção orgânica com risco de morte. Choque séptico é sepse com necessidade de terapia vasopressora e presença de níveis elevados de lactato (> 2 mmol/L ou > 18mg/dL), apesar da ressuscitação volêmica adequada. É o tipo mais comum de choque distributivo e tem mortalidade estimada em 40 a 50%. Choque neurogênico: ocorre geralmente em vítimas de traumatismo cranioencefálico grave e lesão da medula espinhal, sobretudo se esta for acima de T6, levando à interrupção das vias autonômicas, com diminuição da resistência vascular e alteração do tônus vagal. Choque anafilático: a anafilaxia está associada a mecanismos imunológicos (IgE mediado – alimento, inseto, látex – ou não IgE mediado – omalizumab, infliximab) e não imunológicos (exercício, frio, radiocontraste), todos levando à degranulação de mastócitos e/ou basófilos. Pode acometer diversos sistemas (cardiovascular, respiratório, pele, trato gastrointestinal e sistema nervoso central). O choque e a obstrução de via aérea são as principais causas de morte. VANESSA MORAIS 7 Choque por cianeto e por monóxido de carbono: choque por disfunção mitocondrial. No primeiro caso, o paciente possui O2, mas não consegue utilizá-lo por bloqueio da fosforilação oxidativa pelo cianeto. No segundo caso, além desse mecanismo, o monóxido de carbono tem muita afinidade pela hemoglobina, dificultando sua ligação ao oxigênio. Choque endócrino: crise addisoniana (insuficiência adrenal devido à deficiência mineralocorticoide) e coma mixedematoso podem estar associados à hipotensão e a estados de choque. Em estados de deficiência mineralocorticoide, a vasodilatação pode ocorrer devido ao tônus vascular alterado e à hipovolemia mediada pela deficiência de aldosterona. Os doentes com tireotoxicose podem desenvolver insuficiência cardíaca de alto débito e, com a progressão da doença, esses pacientes podem desenvolver disfunção sistólica do ventrículo esquerdo ou taquiarritmias, levando à hipotensão. O choque distributivo caracteriza-se pela diminuição da RVS e é associado frequentemente a aumento no DC. Nesse tipo de choque, existe o que chamamos shunt, ou seja, existem áreas com fluxo sanguíneo excessivo com relação à demanda metabólica e áreas com fluxo insuficiente para tal demanda. São causas: a) Choque séptico; b) Síndrome da resposta inflamatória sistêmica; c) Choque anafilático e reações anafilactoides; d) Choque neurogênico; e) Reações a drogas e toxinas (picadas de insetos, reações transfusionais); f) Insuficiência suprarrenal aguda; g) Coma mixedematoso. CHOQUE NEUROGÊNICO: O choque neurogênico é uma forma infrequente de síndrome clínica de choque. Sua principal causa é o trauma cervical associado a lesão medular alta, geralmente acima de C5. Com a interrupção do controle autonômico do tônus vascular sistêmico, ocorre grande redução da pré-carga, pois há diminuição do retorno venoso pela vasodilatação dos 2 territórios. Outro componente que auxilia no surgimento é a bradicardia que se desenvolve pela ausência da modulação parassimpática. Assim, é frequente e chama a atenção para essa etiologia quando ocorre a apresentação de hipotensão sem a taquicardia reflexa, característica das demais formas de choque. Seu tratamento é mediado por vasopressores, reposição volêmica e cronotrópicos. CHOQUE ANAFILÁTICO O choque anafilático é a forma mais grave e intensa da reação inflamatória alérgica e caracteriza-se pela liberação maciça de histamina, um potente vasodilatador. O tratamento baseia-se no uso de vasopressores, adrenalina e corticoide. CHOQUE SÉPTICO Essa definição considera choque séptico como quadro de sepse associado à necessidade de vasopressor para manter a PAM > 65 mmHg e, ainda, lactato acima de 2 mmol/L mesmo após intensa e adequada reposição volêmica. MANEJO → Pode haver anafilaxia após a exposição a novos alimentos, medicamentos, transfusões sanguíneas, erupções cutâneas, mordidas e picadas, e está frequentemente associada a broncoespasmo. Todos os agentes potencialmente desencadeantes devem ser interrompidos. Em pacientes com hipotensão e sinais de choque anafilático, a adrenalina intramuscular deve ser administrada imediatamente. → A sepse é um espectro de doença na qual existe uma resposta sistêmica e desregulada do hospedeiro a uma infecção. A apresentação pode variar desde sintomas inespecíficos ou não localizados (por exemplo, indisposição com temperatura normal) a sinais graves com evidências de disfunção de múltiplos órgãos e choque séptico. → Ambas as características a seguir devem estar presentes (apesar da ressuscitação volêmica adequada): ▪ Hipotensão persistente que exige vasopressores para manter a pressão arterial média (PAM) ≥65 mmHg e ▪ Lactato sérico >2 mmol/L (>18 mg/dL). VANESSA MORAIS 8 O Third International Consensus Group (Sepsis-3) recomenda o uso do escore de determinação da falência orgânica relacionada à sepse (SOFA) (validado principalmente nos pacientes em unidade de terapia intensiva), com um escore ≥2 em um paciente com uma suspeita de infecção sendo sugestiva de sepse. • Administre oxigênio em sistema de alto fluxo para manter a meta de saturações de oxigênio >94% em pacientes com doença aguda que não apresentam risco de hipercapnia. Almeje uma saturação de oxigênio de 88% a 92% empessoas com risco de insuficiência respiratória hipercápnica (por exemplo, aquelas com DPOC). • Obter hemoculturas. • Administrar antibióticos por via intravenosa. • Começar a ressuscitação fluídica intravenosa. • Verificar o nível de lactato. • Monitorar o débito urinário a cada hora. → Os inotrópicos, como a noradrenalina e a dobutamina, podem ser considerados após a ressuscitação adequada se o paciente permanecer hipotenso. A noradrenalina é o vasopressor de preferência para o tratamento de choque séptico em adultos e crianças → Pacientes que recebem agentes vasoativos (vasopressores e/ou inotrópicos) necessitam de monitoramento contínuo para determinar a resposta à terapia e orientar o tratamento. → Os pacientes com choque séptico grave podem desenvolver insuficiência de corticosteroide, diagnosticada pelo teste de estímulo com o hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) ou simplesmente com base na necessidade aumentada de vasopressores. As diretrizes atuais recomendam que corticosteroides em baixas doses sejam administrados apenas em pacientes cuja PA seja pouco responsiva à ressuscitação fluídica e à terapia vasopressora. → Os pacientes com suspeita de CHOQUE NEUROGÊNICO necessitam de exames de imagem imediatos e possível intervenção para reverter os deficits potencialmente reversíveis, bem como a ressuscitação fluídica para manter o volume vascular e o débito cardíaco. ATB: antibiótico; EV: endovenoso; HMC: hemocultura; MOVED: monitor, oxigênio, veia, exames/ECG e dextro; nora: noradrenalina; PAM: pressão arterial média; s/n: se necessário; USPOC: ultrassom point-of-care. VANESSA MORAIS 9 CHOQUE OBSTRUTIVO → O mecanismo principal do choque obstrutivo é o impedimento do enchimento adequado ventricular, consequência de um bloqueio mecânico ao fluxo sanguíneo na circulação sistêmica ou pulmonar, com queda na perfusão tecidual. Os pacientes apresentam sinais e sintomas de baixo DC, como hipotensão, sudorese, taquicardia, taquipneia, oligúria e confusão mental. → Exames como radiografia de tórax, eletrocardiograma, ecocardiograma, gasometria arterial, D-dímero e tomografia de tórax helicoidal são importantes para a confirmação diagnóstica. O tratamento baseia-se naquele do choque hipovolêmico, associado à resolução da causa do choque, como pericardiocentese nos casos de tamponamento cardíaco, cirurgia na coarctação de aorta e uso de trombolíticos ou embolectomia nos casos de embolia pulmonar. São causas: Pneumotórax hipertensivo; Doença pericárdica; Tamponamento cardíaco; Coarctação de aorta; Embolia pulmonar. É causado principalmente por causas extracardíacas que culminam em insuficiência cardíaca. As causas de choque obstrutivo podem ser divididas em duas categorias: Vascular pulmonar: a maioria dos casos de choque obstrutivo é devido a insuficiência ventricular direita decorrente de tromboembolismo pulmonar hemodinamicamente significativo (TEP) ou hipertensão pulmonar grave (HP). Nesses casos, o ventrículo direito falha, porque é incapaz de gerar pressão suficiente para superar a alta resistência vascular pulmonar. Se o paciente não apresenta disfunção de VD, o choque não pode ser explicado pelo TEP e outras causas devem ser pesquisadas. Em pacientes com hipertensão pulmonar preexistente e disfunção do VD, isquemia, sobrecarga de volume ou hipoxemia devem ser evitadas, pois esses insultos podem resultar em disfunção ventricular direita crônica agudizada, resultando em colapso cardiovascular. Mecânica: apresentação clínica similar ao choque hipovolêmico, pois o distúrbio fisiológico primário é uma diminuição da pré-carga, em vez da falha da bomba (p. ex., redução do retorno venoso ao átrio direito ou enchimento inadequado do ventrículo direito). Causas mecânicas de obstrução de choque incluem: pneumotórax hipertensivo, tamponamento pericárdico, pericardite constritiva e cardiomiopatia restritiva. MANEJO → O PNEUMOTÓRAX HIPERTENSIVO é um possível diagnóstico em pacientes com trauma torácico, jovens com história pregressa de pneumotórax ou pacientes com sinais de hipotensão e hipóxia com murmúrios vesiculares diminuídos unilateralmente. Esses achados geralmente requerem drenagem imediata por toracotomia com agulha, seguida por uma drenagem torácica formal. → Os pacientes com comprometimento hemodinâmico e achados clínicos sugestivos de TAMPONAMENTO PERICÁRDICO (tríade de Beck com bulhas cardíacas hipofonéticas, distensão jugular venosa e bradicardia) precisam de avaliação urgente com ecocardiografia e pericardiocentese. → A EMBOLIA PULMONAR deve ser considerada em pacientes recém-operados e imobilizados; o tratamento geralmente inclui anticoagulação, trombólise (se não houver contraindicações absolutas) ou, raramente, remoção cirúrgica ou mecânica do coágulo. EV: endovenoso; HNF: heparina não fracionada; PSAP: pressão sistólica de artéria pulmonar; s/n: se necessário; TEP: tromboembolismo pulmonar; VCI: veia cava inferior; VD: ventrículo direito; US: ultrassom. VANESSA MORAIS 10 PROTOCOLO RUSH Avaliação Janela Achado Tamponamento pericárdico Paraesternal eixo longo Líquido pericárdico Colapso do AD na diástole Colapso do VD na diástole Ventrículo Direito Apical Dilatação aguda de VD sugere TEP ou IAM de VD Redução da mobilidade de parede de VD poupando ápice (sinal de McConell) sugere TEP Ventrículo Esquerdo Paraesternal eixo longo no nível dos músculos papilares Diferença < 30% do tamanho do VE entre sístole e diástole indica função gravemente reduzida. Sugere IAM, insuficiência cardíaca ou cardiomiopatia por sepse. Diferença maior que 90% do tamanho do VE entre sístole e diástole indica função hiperdinâmica. Sugere hipervolemia ou sepse. Veia cava inferior Subcostal Diâmetro da VCI < 1,5 cm com colapso inspiratório sugere responsividade a volume (utilidade controversa) FAST QSD QSE Suprapúbico Líquido livre pode sugerir ascite maciça, rotura de vísceras, sangramento intra-abdominal, aneurisma de aorta abdominal ou gravidez ectópica. Tórax Interface diafragma-pulmonar Hemotórax Aorta Subcostal suprarrenal infrarrenal Bifurcação ilíaca Diâmetro da aorta > 5cm em qualquer uma das janelas sugere o diagnóstico de aneurisma de aorta abdominal roto Pneumotórax 3º EI anterior bilateral Sinal da estratosfera no modo M VANESSA MORAIS 11 Mecanismo do choque Fisiopatologia e exemplos Hipovolêmico Redução do volume intravascular Ex: hemorragia ou perda de fluidos (diarreia, NET, diurese osmótica) Cardiogênico Redução do débito cardíaco por falha da bomba cardiogênica Ex: IAM, Cardiomiopatia em estágio final, doença cardíaca valvar avançada, miocardite ou arritmias. Obstrutivo Redução do débito cardíaco por causas extracardíacas, geralmente associada a falência de VD Ex: Embolia pulmonar, tamponamento cardíaco ou pneumotórax Distributivo Vasodilatação sistêmica Ex: Sepse, anafilaxia, crise adrenal aguda, pancreatite Variável fisiológica Pré-carga Bomba Pós carga Perfusão tecidual Variável clínica Pressão oclusão artéria pulmonar Débito cardíaco Resistência vascular sistêmica Saturação venosa mista de o2 Hipovolêmico ↔ precoce ou ↓ tardio ↔ precoce ou ↓ tardio ↑ >65% precoce ou <65% tardia Cardiogênico ↑ ↓ ↑ < 65% Distributivo ↔ precoce ou ↓ tardio ↔ precoce ou ↓ tardio ↓ >65% obstrutivo Tromboembolismo pulmonar, hipertensão pulmonar, pneuomotórax ↔ precoce ou ↓ tardio ↔ precoce ou ↓ tardio ↑ >65% Tamponamento pericárdico ↑ ↓ ↑ <65% TRATAMENTO → Os suportes hemodinâmico e ventilatório precoce e adequado de pacientes em choque são essenciais para evitar piora clínica, SDMOS e morte. O tratamento do choque deve ser iniciado enquanto se investiga a etiologia que, uma vez identificada, deve ser corrigida rapidamente, por exemplo: controle de sangramento para hemorragia, intervenção coronariana percutânea para síndrome coronarianaaguda, trombolítico ou embolectomia para TEP e administração de antibióticos e controle de foco infeccioso para sepse. → As medidas possíveis de intervenção terapêutica, após adequação de ventilação e oxigenação do paciente, são o emprego de volume (cristaloide ou coloide) para melhora da pré-carga e do débito cardíaco, emprego de drogas vasoativas, como inotrópicos e vasopressores, e transfusão de concentrado de hemácias para melhora da oferta de oxigênio. No choque cardiogênico, ainda é possível utilizar dispositivos mecânicos de assistência circulatória, como balão intraórtico ou circulação extracorpórea assistida. → O atendimento do paciente em choque deve ser realizado em sala de emergência, e, a menos que o choque seja rapidamente revertido, um cateter arterial deve ser inserido para monitorar a pressão arterial invasiva, além de um cateter venoso central para drogas vasoativas. É importante salientar que, se houver indicação de iniciar drogas vasoconstritoras, estas podem ser iniciadas em um acesso venoso periférico calibroso, até que se obtenha um cateter venoso central com segurança. Cardenas-Garcia et al. (2015) demonstraram segurança em administrar drogas vasoativas em cateter venoso periférico calibroso durante várias horas (49 ± 22 horas). Vale lembrar também que drogas vasoativas sem ação vasoconstritora como dobutamina, nitroglicerina e nitroprussiato de sódio não necessitam de acesso venoso central. Para entendermos a abordagem geral do choque, devemos nos lembrar de quais são os principais componentes do DO2 (oferta de O2) e do VO2 (consumo de O2), como descrito na seção de fisiopatologia. Para todo tipo de choque, devemos racionar no sentido de otimização da relação DO2 × VO2, como representado na Figura 10. Seguindo a Figura 10, a seguir iremos descrever o passo a passo do manejo do choque. VANESSA MORAIS 12 DC: débito cardíaco; DO2: oferta de O2; Hb: hemoglobina; IAM: infarto agudo do miocárdio; PAM: pressão arterial média; SatO2: saturação de O2; TEC: tempo de enchimento capilar; USPOC: ultrassom point-of-care; VCI: veia cava inferior; VE: ventrículo esquerdo; VO2: consumo de O2. OTIMIZAÇÃO DA PRÉ-CARGA A ressuscitação volêmica pode melhorar o fluxo sanguíneo microvascular e aumentar o débito cardíaco, sendo uma parte essencial do tratamento da maioria dos tipos de choque. → CRISTALOIDES: há dois tipos básicos de cristaloides – a solução salina clássica (soro fisiológico) e as soluções balanceadas (Ringer lactato, PlasmaLyte). Para ressuscitações volêmicas de até 2 L, soro fisiológico, para ressuscitações volêmicas agressivas (> 2 L), ringer lactato. VANESSA MORAIS 13 → COLOIDES: o racional de administrar coloides parte do conceito de que apenas 1/4 do volume de cristaloides administrado permanece no intravascular, ao passo que ocorre menor extravasamento extravascular no caso dos coloides, resultando em uma expansão volêmica mais rápida. → ALBUMINA: não há superioridade da expansão volêmica com albumina em relação aos cristaloides, porém, como estes são mais baratos, são geralmente preferíveis à albumina. Entretanto, vale ressaltar que a albumina deve ser evitada no contexto de trauma cranioencefálico (TCE), pois culminou em maior mortalidade, quando comparada aos cristaloides. Pacientes cirróticos, que possuem hipoalbuminemia, redução do volume intravascular e sobrecarga volêmica total (distribuída pelo terceiro espaço e leito esplâncnico), talvez se beneficiem de ressuscitação volêmica com albumina a 20 a 25%, porém não há evidências robustas que comprovem essa conduta. → AMIDOS (“STARCHES”): devem ser evitados, pois levam a maior incidência de injúria renal aguda, necessidade de diálise e mortalidade, quando comparados aos demais fluidos. Alguns exemplos são dextran e gelatinas. → HEMOCOMPONENTES: os principais utilizados no tratamento do choque são concentrado de hemácias, concentrado de plaquetas, aférese de plaquetas (corresponde a seis concentrados de plaquetas de um único doador), plasma fresco congelado (contém todos os fatores de coagulação e todas as proteínas do plasma) e crioprecipitado (contém os fatores VIII, XIII, fibrinogênio e vWF). Em seguida, devemos definir qual é o tipo e a quantidade de solução que devem ser utilizados em cada tipo de choque. Para isso, devemos pensar qual o tipo de fluido deficitário em cada situação e, para facilitar, vamos dividir os pacientes em dois grupos: CHOQUE HEMORRÁGICO: a maioria dos conceitos nesse grupo de pacientes é extrapolada do trauma, pois é o grupo de choque hemorrágico mais comum e o mais estudado. Aqui o paciente está perdendo predominantemente sangue, portanto, deve ser ressuscitado com sangue. → A administração de cristaloides pode levar a coagulopatia por diluição dos fatores de coagulação, além de hipotermia. Porém, como os hemocomponentes não são rapidamente disponíveis, pode-se iniciar a reposição volêmica com cristaloides, até que os hemocomponentes cheguem à sala de emergência. → O ATLS (10ª edição) recomenda a administração de 1 L de cristaloide inicialmente, seguida de hemocomponentes, caso o paciente mantenha-se hipotenso. Choques hemorrágicos graus III e IV já são indicações de ressuscitação com hemocomponentes no trauma. → Vale lembrar o conceito de “ressuscitação hipotensiva” ou “hipotensão permissiva”, em que se almeja uma pressão arterial sistêmica (PAS) > 80-90 mmHg até que haja o controle do foco de sangramento. Para isso, evita-se uma ressuscitação volêmica agressiva, que poderia levar a coagulopatia por diluição de fatores de coagulação e a destruição de coágulos que já estejam tamponando algum foco de sangramento. No entanto, esse conceito não é aplicado para TCE grave, visto que a hipotensão pode piorar a perfusão cerebral. Nesse caso, objetiva-se uma pressão arterial média (PAM) ≥ 80 mmHg. → Nos pacientes com choque hemorrágico grave, devemos acionar o protocolo de transfusão maciça, em que administramos ácido tranexâmico em até 3 h do trauma, além de concentrado de hemácias, plaquetas e plasma fresco congelado na proporção de 1:1:1 VANESSA MORAIS 14 CHOQUE NÃO HEMORRÁGICO: aqui o paciente apresenta déficit no conteúdo intravascular, porém sem perdas sanguíneas. Nesse cenário, não devemos ressuscitar o paciente com hemocomponentes, mas priorizar os cristaloides. → No choque séptico o Ringer lactato se mostrou superior ao soro fisiológico. A quantidade de cristaloide preconizada na sepse, por exemplo, é de 30 mL/kg nas primeiras 3 horas. No entanto, esse valor não deve ser seguido ao pé da letra, mas, sim, servir apenas como um guia. O ideal é administrar pequenas alíquotas (250- 500 mL) de cristaloides EV, reavaliando o paciente à beira do leito (pressão arterial, tempo de enchimento capilar, diurese, ausculta pulmonar), o que guiará a administração de novas alíquotas. → Por fim, após a administração de volume, devemos avaliar se o paciente responderá a novas alíquotas de volume. → A maioria dos testes para verificação de resposta à reposição só pode ser avaliada se o paciente estiver intubado e com condições ótimas de ventilação e sedação. Para pacientes em ventilação espontânea, o mais usado é a elevação passiva de pernas, mas deve-se saber calcular o débito cardíaco pelo USPOC ou dispor de um monitor de débito cardíaco. O desafio volêmico pode ser repetido conforme a necessidade, se o paciente apresentar resposta, mas, caso contrário, deve ser interrompido rapidamente, a fim de evitar sobrecarga de volume, que em alguns estudos tem sido associada com pior prognóstico. OTIMIZAÇÃO DA PÓS-CARGA → Em pacientes com hipotensão persistente após ressuscitação volêmica, a administração de vasopressores é indicada. Porém, a tendência é iniciar as drogas vasoativas mais precocemente, enquanto a ressuscitação volêmica está em andamento (Tabela 9), ou seja, o início de vasopressoresnão exclui a necessidade adicional de volume. → Em seguida, devemos providenciar uma pressão arterial invasiva para monitorização da pressão arterial média e um cateter venoso central para administração de drogas vasoconstritoras. → Norepinefrina é o vasopressor de primeira escolha nos quadros de choque, exceto no anafilático, em que a epinefrina é superior. A administração geralmente resulta em um aumento clinicamente significativo na PAM, com pouca alteração na frequência cardíaca ou no débito cardíaco. → A dopamina e a norepinefrina, em um estudo randomizado, tiveram efeitos semelhantes na sobrevida em pacientes com choque, mas a dopamina foi mais associada a arritmias e eventos cardiovasculares e, no subgrupo de pacientes com choque cardiogênico, foi associada com aumento de mortalidade. Por esse motivo, a norepinefrina é considerada a droga preferencial. → A dopamina atua em diferentes receptores adrenérgicos, a depender da sua dose. Quando menor que 5 mcg/kg/min, possui efeito em receptores dopa; quando a dose está entre 5 e 10 mcg/kg/min, possui efeito beta predominante; quando maior que 10 mcg/kg/min, predomina o efeito alfa. Como possui muitos efeitos adversos, sobretudo arritmias, é pouco usada hoje em dia, sendo reservada para situações de bradiarritmias instáveis, como uma ponte para o marca-passo transvenoso. Vale lembrar que, nesta situação, podemos utilizar também a epinefrina ou o marca- passo transcutâneo. VANESSA MORAIS 15 → A epinefrina, que é um agente mais potente, tem efeitos predominantemente β-adrenérgicos em doses baixas (propriedade inotrópica), com efeitos α-adrenérgicos (vasoconstritor) tornando-se clinicamente significativos em doses mais elevadas. É a primeira escolha na anafilaxia, mas não costuma ser utilizada nos outros tipos de choque, tendo espaço apenas em choques refratários, devendo ser evitada no choque cardiogênico, pois está associada a mais arritmias, hipoperfusão esplâncnica e hiperlactatemia. → Em pré-hospitalar, o push dose de adrenalina (0,5-2 mL a cada 5 minutos de adrenalina 1 amp + 99 mL de SF 0,9%) tem sido utilizado como resgate hemodinâmico em pacientes com quadro de choque, como terapia de ponte até o tratamento definitivo. Essa prática ainda necessita de validação para indicação definitiva. → A vasopressina atua em receptores V1, diferente dos sítios de ação da norepinefrina, dopamina e epinefrina. Sobretudo em pacientes com choques distributivos, pode haver uma deficiência de vasopressina, e sua administração em doses baixas pode resultar em aumentos substanciais na pressão arterial. Sugerimos o uso de vasopressina como segunda droga em pacientes com quadro de choque séptico, já em uso de noradrenalina, que mantêm hipotensão arterial e que não apresentam depressão miocárdica importante associada. → Outra maneira de otimizar a pós-carga é reduzi-la no contexto de choque cardiogênico, pois isso facilita o funcionamento da bomba cardíaca, que se encontra debilitada. Mas, para utilizarmos os vasodilatores endovenosos nesse contexto, precisamos de uma pressão arterial minimamente segura, em geral uma PAS acima de 90 mmHg. → A nitroglicerina (Tridil®) leva à vasodilatação mediada por GMP cíclico, sobretudo do leito venoso, mas também do leito coronariano. Por isso, é a droga de escolha no contexto de isquemia miocárdica e na insuficiência cardíaca descompensada. → O nitroprussiato de sódio (Nipride®) leva à vasodilatação mediada pelo óxido nítrico, sendo potente nos leitos arterial e venoso, porém sem causar aumento da perfusão coronariana, o que pode causar o fenômeno de “roubo” de fluxo de coronária, não sendo a primeira escolha nos casos de isquemia miocárdica e insuficiência cardíaca descompensada. Além disso, deve ser evitado em gestantes devido ao risco de intoxicação do feto por cianeto. Por outro lado, o nitroprussiato de sódio é mais potente hipotensor do que a nitroglicerina, sendo preferido na maioria das emergências hipertensivas. → O suporte mecânico com contrapulsão de balão intra-aórtico (BIA) pode reduzir a pós-carga ventricular esquerda e aumentar o fluxo sanguíneo coronariano. No entanto, seu uso rotineiro em choque cardiogênico não é recomendado atualmente. → A membrana extracorpórea de oxigenação venoarterial (ECMO) pode ser usada como medida de exceção em pacientes com choque cardiogênico grave, como ponte para transplante cardíaco. VANESSA MORAIS 16 OTIMIZAÇÃO DO DÉBITO CARDÍACO Dobutamina é o agente inotrópico mais utilizado para o aumento do débito cardíaco, apresentando efeitos em receptores beta-1 e beta-2-adrenérgicos. Uma dose inicial de apenas 2 mg por kg por minuto pode aumentar substancialmente o débito cardíaco. Doses maiores que 20 mcg por kg por minuto geralmente oferecem pouco benefício adicional. A dobutamina tem efeitos limitados sobre a pressão arterial, embora possa causar hipotensão quando iniciada, devido ao efeito beta-2, sobretudo em pacientes hipovolêmicos. Entretanto, para pacientes com disfunção miocárdica importante, a pressão tende a aumentar, devido ao aumento do inotropismo. Vale ressaltar que em pacientes com pressão arterial sistólica < 80 mmHg, deve-se ter cautela em utilizar a dobutamina sem vasopressor associado. Outra precaução é a precipitação de taquiarritmias com doses crescentes desse inotrópico. Existem outros inotrópicos menos disponíveis, como levosimendana e milrinone, mas que fogem do escopo deste capítulo. OTIMIZAÇÃO DA OXIGENAÇÃO → A administração de O2 suplementar deve ser iniciada precocemente, para aumentar o fornecimento de oxigênio aos tecidos e prevenir hipertensão pulmonar. A oximetria de pulso pode não ser confiável, devido à vasoconstrição periférica e, portanto, a gasometria arterial é fundamental. → Pacientes com dispneia grave, hipoxemia, acidemia grave e persistente ou com rebaixamento do nível de consciência são elegíveis para ventilação mecânica invasiva. A ventilação mecânica invasiva tem as vantagens adicionais de redução da demanda de O2 dos músculos respiratórios (já escasso pelo estado de hipoperfusão tecidual) e diminuição da pós-carga ventricular esquerda. → Uma queda abrupta na pressão arterial após a intubação orotraqueal e o início de ventilação mecânica invasiva podem ocorrer, devido à pressurização do tórax (redução do retorno venoso), sobretudo em pacientes hipovolêmicos. Ademais, o uso de indutores para a intubação, em especial o midazolam e o propofol, potencializa esse efeito. Por isso, antes de intubar, devemos otimizar a hemodinâmica do paciente, para evitar piora da pressão arterial e da perfusão periférica após a intubação orotraqueal. Ainda no sentido de evitar hipotensão, o ideal é utilizar sequência rápida de intubação com etomidato ou quetamina EV, associados a um bloqueador neuromuscular, como succinilcolina ou rocurônio EV. → Um detalhe relevante é que a dose dos indutores no paciente chocado deve ser reduzida, pois pode piorar o choque, e a dose dos bloqueadores deve ser aumentada, já que o paciente está hipoperfundido, necessitando de doses maiores para um bloqueio efetivo. → As doses sugeridas (baseadas no peso ideal do paciente) seriam: etomidato 0,2 mg/kg, quetamina 1-1,5 mg/kg (não usar doses superiores a esta no paciente chocado), propofol 0,5-0,75 mg/kg, succinilcolina 2 mg/kg, rocurônio 2 mg/kg EV. Alguns autores têm receio de usar etomidato em pacientes com choque devido à possibilidade de levar a insuficiência adrenal, mas parece não haver esse risco com uma única dose para indução de sequência rápida. → A ventilação não invasiva, em vez de intubação endotraqueal, tem uma limitada utilidade no tratamento de choque, porque a sua falha pode resultar rapidamente em insuficiência respiratória e parada cardíaca. SUPORTE TRANSFUSIONAL De maneira geral, recomenda-se manter um alvo de hemoglobina (Hb) acima de 7 g/dL, sendo indicada transfusão de concentrados de hemácias se estiver abaixo desse nível.Para cardiopatas o alvo passa a ser Hb acima de 8 a 8,5 g/dL. É importante salientar que no choque hemorrágico, como já discutido neste capítulo, realizamos a ressuscitação volêmica com concentrados de hemácias, se o paciente estiver hipotenso, independentemente dos níveis de Hb. Ademais, se tiver indicação de acionamento do protocolo de transfusão maciça, outros hemocomponentes são indicados, como concentrados de plaquetas e plasma fresco congelado. REDUÇÃO DO VO2 Outro ponto importante é a redução do consumo periférico de oxigênio. Para isso, devemos nos atentar para alguns detalhes: → Evitar hipertermia (antitérmicos, se necessário). → Controlar a dor (analgésicos, se necessário). → Reduzir a ansiedade (ansiolíticos, se necessário). → Reduzir o trabalho respiratório (ventilação mecânica, quando indicada, e esta deve ser bem ajustada, evitando assincronias). VANESSA MORAIS 17 TRATAMENTO ETIOLÓGICO ESPECÍFICO Ao encontrar a etiologia do choque, devemos tratá-la prontamente. ALVOS DO TRATAMENTO → O principal objetivo da ressuscitação não deve ser apenas restaurar a pressão sanguínea, mas também fornecer condições para um metabolismo celular adequado, para o qual a correção da hipotensão arterial é um pré-requisito. Restaurar uma pressão arterial sistêmica média de 65 a 70 mmHg é um bom objetivo inicial, mas o nível deve ser ajustado para restabelecer a perfusão tecidual, avaliada com base no estado mental, na aparência da pele e diurese, ou seja, pelas três janelas de perfusão que comentamos anteriormente. Vale salientar que uma pressão arterial menor do que 65 a 70 mmHg pode ser aceitável em um paciente com sangramento agudo sem grandes problemas neurológicos, com o fim de limitar a perda de sangue e coagulopatia associada, até que o sangramento seja controlado. → A monitorização da pressão venosa central e da saturação central de oxigênio já não são mais recomendadas para uso rotineiro no departamento de emergência, devido à baixa acurácia, quando comparados aos demais parâmetros clínicos apontados. → O valor da medida do lactato em série do tratamento do choque é bem demonstrado. Embora as mudanças na mensuração de lactato sejam mais lentas do que mudanças na pressão arterial sistêmica ou no débito cardíaco, o nível do lactato sanguíneo deveria diminuir ao longo de um período de horas com terapia eficaz. Em pacientes com choque e um nível de lactato no sangue de mais de 3 mmol por litro, um estudo mostrou que uma diminuição de pelo menos 20% no nível de lactato no sangue durante um período de 2 horas parecia estar associada com uma reduzida mortalidade intra-hospitalar. Portanto, o clearance de lactato é uma ferramenta que pode ser somada às demais apresentadas para avaliar a resposta do paciente ao tratamento do choque. → O desenvolvimento de dispositivos portáteis de polarização espectral (OPS) e sua imagem está fornecendo novos meios de visualizar diretamente a microcirculação e avaliar os efeitos de intervenções sobre o fluxo da microcirculação. A espectroscopia infravermelha é uma técnica que utiliza luz infravermelha para determinar o nível de oxigênio nos tecidos a partir das frações de oxi-hemoglobina e desoxihemoglobina. → Uma análise das alterações na saturação de oxigênio nos tecidos durante um breve episódio de isquemia no antebraço pode ser usada para quantificar a disfunção microvascular. Tais alterações pioram o prognóstico e várias intervenções terapêuticas têm sido mostradas como tendo um efeito sobre essas variáveis da microcirculação. Porém, não se sabe ainda se a terapia dirigida por monitoramento da microcirculação pode melhorar os desfechos, quando comparada ao monitoramento clínico.