Prévia do material em texto
TURISMO, MEIO AMBIENTE E SUSTENTABILIDADE AULA 2 Prof.ª Aline Maria Biagi 2 CONVERSA INICIAL Avanços legais que possibilitam o turismo na natureza Aqui, vamos abordar as legislações que criam e impulsionam as áreas naturais a se tornarem ambientes protegidos, com funções voltadas para a sustentabilidade e um manejo harmonioso. Algumas normativas são usadas para poder diferenciar cada espaço, respeitando a sua individualidade e a sua beleza natural. Vamos conhecer mais a fundo as Unidades de Conservação e como elas desempenham um importante papel na sensibilização para a relação homem/natureza. CONTEXTUALIZANDO A ideia de que ambientes naturais com grande beleza cênica deveriam ser um bem comum e preservado para a sua apreciação é antigo. Dessa forma, desde a década de 1930, essa discussão é latente no Brasil. Legislações e normatizações apresentam um importante papel nesse processo, oferecendo ferramentas teóricas para a implementação e o melhor uso de unidades de conservação, com a intenção de manter a preservação desses locais e ao mesmo tempo proporcionar, para os visitantes, experiências únicas de contato e conexão com a natureza. Nesta abordagem, trataremos de dois pontos importantes desse processo: a Lei n. 9.985 de 2000, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), e o Rol de oportunidades de visitação (ROVUC), que traz recomendações nas ações de visitação em UCs. Essas questões são de extrema importância para considerar o vasto território e a diversidade de paisagens que devem ser comtempladas turisticamente. TEMA 1 – UNIDADES DE CONSERVAÇÃO: TIPOLOGIAS, CLASSIFICAÇÃO E USOS Em um contexto histórico, a criação de áreas restritas, com foco em preservação, inicialmente buscava conservar ambientes naturais de 3 características excepcionais. O marco inicial para a criação de unidade de conservação em nível global foi o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, no ano de 1972. Esse parque foi percursor para a criação de outros parques nacionais pelo mundo, tendo impulsionado também novos modelos de unidade de conservação. Os primeiros parques nacionais do Brasil foram o Parque Nacional do Itatiaia (1937), o Parque Nacional da Serra dos Órgãos e o Parque Nacional do Iguaçu (1939). Essas UCs se estabeleceram pela influência do primeiro Código Florestal brasileiro, que remonta a 1934. Em seu texto, descrevia as florestas nativas “como áreas de interesse comum, dividindo-as em quatro tipos: protetoras e remanescentes (de preservação permanente), e modelo e produtivas (passíveis de exploração comercial)” (BNDS, 2023). Depois dessas UCs, foi registrada a expansão do número de unidades de conservação no país, com avanço das legislações. A delimitação dessas áreas é regulamentada pela Lei n. 9.985, de 2000, que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC). Nessa lei, a unidade de conservação é entendida como “espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção” (Brasil, 2000). O art. 7º divide as UCs em dois grupos com características especificas: Unidades de Proteção Integral e Unidades de Uso Sustentável. O WWF elaborou um quadro que discute cada categoria de UC, considerando tanto a proteção integral quanto o uso sustentável. Quadro 1 – Tipologia das unidades de conservação de proteção integral Unidades de Proteção Integral Categoria Objetivo Uso Estações Ecológicas Preservar e pesquisar. Pesquisas científicas, visitação pública com objetivos educacionais. Reservas Biológicas (REBIO) Preservar a biota (seres vivos) e demais atributos naturais, sem interferência humana direta ou modificações ambientais. Pesquisas científicas, visitação pública com objetivos educacionais. Parque Nacional (Parna) Preservar ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica. Pesquisas científicas, desenvolvimento de atividades de educação e interpretação ambiental, recreação em contato com a natureza e turismo ecológico. https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/questoes_ambientais/unid/protint/ Highlight 4 Monumentos Naturais Preservar sítios naturais raros, singulares ou de grande beleza cênica. Visitação pública. Refúgios de Vida Silvestre Proteger ambientes naturais e assegurar a existência ou reprodução da flora ou fauna. Pesquisa científica e visitação pública. Fonte: Elaborado com base em WWF Brasil, 2023. A relação de uso das Unidades de Conservação de Uso Sustentável é diferenciada, permitindo alguns manejos. O quadro a seguir aborda essas questões. Quadro 2 – Características das unidades de uso sustentável. Unidades de Uso Sustentável Categoria Característica Objetivo Uso Área de Proteção Ambiental (APA) Área extensa, pública ou privada, com atributos importantes para a qualidade de vida das populações humanas locais. Proteger a biodiversidade, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais. São estabelecidas normas e restrições para a utilização de uma propriedade privada localizada em uma APA. Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) Área de pequena extensão, pública ou privada, com pouca ou nenhuma ocupação humana, com características naturais extraordinárias. Manter os ecossistemas naturais e regular o uso admissível dessas áreas. Respeitados os limites constitucionais, podem ser estabelecidas normas e restrições para utilização de uma propriedade privada localizada em uma ARIE. Floresta Nacional (FLONA) Área de posse e domínio público com cobertura vegetal de espécies predominantemente nativas. Uso múltiplo sustentável dos recursos florestais para a pesquisa científica, com ênfase em métodos para exploração sustentável de florestas nativas. Visitação, pesquisa científica e manutenção de populações tradicionais. Reserva Extrativista (RESEX) Área de domínio público com uso concedido às populações extrativistas tradicionais. Proteger os meios de vida e a cultura das populações extrativistas tradicionais, e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais. Extrativismo vegetal, agricultura de subsistência e criação de animais de pequeno porte. Visitação pode ser permitida. Reserva de Fauna (REFAU) Área natural de posse e domínio público, com populações animais adequadas para estudos sobre o manejo econômico sustentável. Preservar populações animais de espécies nativas, terrestres ou aquáticas, residentes ou migratórias. Pesquisa científica. Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Área natural, de domínio público, que abriga populações tradicionais, cuja Preservar a natureza e assegurar as condições necessárias para a reprodução e Exploração sustentável de componentes do ecossistema. Visitação https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/questoes_ambientais/unid/unid_us/ 5 existência baseia-se em sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais. melhoria dos modos e da qualidade de vida das populações tradicionais. e pesquisas científicas podem ser permitidas. Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Área privada, gravada com perpetuidade. Conservar a diversidade biológica. Pesquisa científica, atividades de educação ambiental e turismo. Fonte: Elaborado com base em WWF Brasil, 2023. A questão sobre as tipologias é uma abordagem bastante teórica, porém é essencial que o profissional do turismo a domine, considerando o que é permitidoe o que é proibido em cada tipo de UC. Nos próximos tópicos, vamos analisar ver exemplos e abordagens práticas sobre as possibilidades de turismo nas UCs. TEMA 2 – INTRODUÇÃO AO PLANEJAMENTO DO TURISMO EM ÁREAS NATURAIS As Unidades de Conservação (UC) são territórios estratégicos para a conservação. Quando manejadas com competência e responsabilidade, “resguardam, além de espécies ameaçadas e ecossistemas saudáveis, processos ecológicos que geram múltiplos benefícios, como diversos serviços ambientais”. Porém, a gestão das UCs ocorre em ambientes dinâmicos e com muitas pressões externas sobre os recursos naturais (D’Amico; Coutinho; Moraes, 2018, p. 14). A Lei n. 9.985/2000 (SNUC) aborda a questão do plano de manejo, que é definido da seguinte forma: Documento técnico mediante o qual, com fundamento nos objetivos gerais de uma unidade de conservação, se estabelece o seu zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais, inclusive a implantação das estruturas físicas necessárias à gestão da unidade. (Brasil, 2020) Em outras palavras, o plano de manejo é a ferramenta norteadora da forma como a UC deve ser implementava, para alcançar os objetivos definidos em sua criação. Todas as UCs devem dispor de um plano de manejo, “que abranja não só a área da unidade de conservação, mas sua zona de amortecimento (ZA) e possíveis corredores ecológicos” (D’Amico; Coutinho; Moraes, 2018, p. 14). Os planos de manejo também devem incluir medidas que promovam a integração das UCs à vida econômica e social das comunidades 6 residentes e vizinhas. Já o Decreto nº 4.340, de 22 de agosto de 2002, que regulamenta a Lei nº 9.985/2000, prevê que os órgãos executores do SNUC devem estabelecer roteiro metodológico básico para a elaboração dos planos de manejo das diferentes categorias de UCs, uniformizando conceitos e metodologias e fixando diretrizes para sua elaboração. Até dezembro de 2017, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) possuía distintos documentos com diferentes orientações metodológicas para a elaboração de planos de manejo entre as categorias do SNUC. Para os parques nacionais (Parna), reservas biológicas (Rebio) e estações ecológicas (Esec) considerava-se o Roteiro Metodológico de 2002 (Galante et al., 2002) ou sua atualização proposta em 2011 (ICMBio, 2011), a qual não foi oficializada. As florestas nacionais (Flona) também contavam com um Roteiro Metodológico elaborado em 2003 e revisado em 2009 (ICMBio, 2009). As áreas de proteção ambiental (APA) tinham como referência o Roteiro Metodológico para a Gestão de Área de Proteção Ambiental (IBAMA, 2001), que incluía as diretrizes de planejamento. A elaboração dos planos de manejo participativos das reservas extrativistas (Resex) e reservas de desenvolvimento sustentável (RDS) era orientada pela Instrução Normativa (IN) ICMBio nº 01, de 18 de setembro de 2007. Para as áreas de relevante interesse ecológico (Arie), refúgio de vida silvestre (Revis) e monumentos naturais (Mona) o ICMBio contava apenas com orientações internas não formalizadas. (D’Amico; Coutinho; Moraes, 2018, p. 14) A elaboração do plano de manejo a partir desse roteiro metodológico, cedido pelo ICMBio, uniformiza a abordagem de planejamento entre as diferentes categorias de UC, de forma a manter a correspondência de conceitos e componentes do plano de manejo e também as especificidades de cada área (D’Amico; Coutinho; Moraes, 2018, p. 20). Os elementos de um plano de manejo são conceitualmente agrupados em quatro partes: componentes fundamentais, dinâmicos, normativos e planos específicos, conforme descrito a seguir. Componentes Fundamentais: constituem a missão da UC e geralmente não mudam com o tempo. Além disso, são a base para o desenvolvimento dos planos específicos e dos esforços de manejo futuros. Componentes Dinâmicos: são elementos dinâmicos que mudam com o tempo. A medida em que o contexto em que a UC está inserida mudar, ou as condições e tendências dos recursos e valores fundamentais mudarem com o tempo, a análise da necessidade de dados e planejamento precisará ser revisitada e revisada, juntamente com as questões-chave. Componentes Normativos: são elementos que sistematizam os atos legais vigentes para a UC, bem como definem normas gerais de uso e gestão de seu território, com implicações legais. Buscando alguma padronização para os planos de manejo, foram elaborados os roteiros metodológicos de planejamento. Esses roteiros são “diretrizes institucionais consolidadas em documentos elaborados a partir da experiência e experimentação acumulada pelo ICMBio, desde a elaboração dos primeiros planos de manejo que foram os dos Parques Nacionais de Brasília – DF; Sete Cidades – PI e Amazônia – AM, em 1977” (ICMBio, 2020). Em números, 7 As unidades de conservação federais registraram o recorde de 15 milhões de visitas em 2019, acumulando grande aumento de demanda histórica e refletindo a incontestável e reconhecida vocação brasileira para o ecoturismo, com muitos importantes destinos especialmente protegidos em unidades de conservação. (ICMBio, 2020, p. 9) Os roteiros metodológicos mesmo com as particularidades do seu período de elaboração e com as especificidades que cada categoria de UC possui, o pressuposto dos roteiros metodológicos é “a adoção de abordagem sistêmica, processual e participativa, resultando em metodologia objetiva, porém flexível, a ser aplicada à realidade de cada Unidade de Conservação, observando os recursos institucionais, sociais e financeiros envolvidos” (ICMBio, 2020). O Ministério do Meio Ambiente, por meio do Instituto Chico Mendes de Conservação, elaborou um documento denominado “ROVUC: Rol de oportunidades de visitação em unidades de conservação”. Esse documento apresenta as responsabilidades e a importância das experiências vivenciadas em uma UC, além de conceitos e diretrizes. Vamos abordar esse documento mais detalhadamente, considerando o plano de manejo, no próximo tópico. TEMA 3 – MANEJO DE VISITANTES EM ÁREAS NATURAIS: PRODUTOS E EXPERIÊNCIAS DE VISITAÇÃO EM ÁREAS NATURAIS Um gestor de unidade de conservação tem algumas responsabilidades e atribuições, duas das quais se destacam quando observadas pela ótica do manejo e do desenvolvimento de atividades recreativas de contato com a natureza e o turismo ecológico: 1. Conservar a biodiversidade, os recursos naturais e socioculturais, que prestam importantes serviços ambientais e representam os principais atrativos para a visitação das unidades de conservação; 2. Promover e executar programas recreacionais, de uso público e de ecoturismo nas unidades de conservação, considerando as expectativas e as necessidades dos visitantes e provendo as ações de manejo que maximizem a variedade de experiências de qualidade a serem oferecidas ao público. (ICMBio, 2020, p. 13) Nesse processo, o uso público é uma ferramenta de conservação da natureza, em especial quando aliado a estratégias de proteção das UCs. Isso ocorre porque “a presença do visitante, assim como de pesquisadores e voluntários do uso público, auxilia no monitoramento das atividades e colabora para inibir as práticas ilícitas que podem ocorrer nas UCs”. É importante ainda considerar o aspecto informativo, quando os visitantes entram em contato com ambientes naturais, buscando compreender a importância da conservação e 8 criando vínculos com a biodiversidade e com a área que vai ser protegida (ICMBio, 2020, p. 13). Com essa visão, foi popularizado, no ramo do turismo, o ROS – Espectro de Oportunidades Recreativas, do inglês Recreation Opportunity Spectrum. Esse termo surgiu a partir de estudos nos Estados Unidos sobre “a recreação em contato com a natureza representa um produto, assim como a madeira, a água, o alimento, que pode ser moldado e direcionado paraum público consumidor específico” (ICMBio, 2020, p. 15). No Brasil, o ROS/Rovap tem essa mesma intenção, sendo base para o desenvolvimento de ferramentas voltadas para o planejamento da visitação. Um exemplo dessa aplicação é o Índice de Atratividade Turística – IAT, que é “utilizado como referência para análises da demanda turística em áreas protegidas que, além de indicadores internos, utiliza indicadores do entorno das áreas protegidas, como distância de aeroportos, serviços de hospedagem e alimentação disponíveis, entre outros” (ICMBio, 2020, p. 16). Essas ferramentas, somadas ao rol de oportunidades de visitação (ROVUC): servem como critérios para a definição do zoneamento no processo de elaboração ou revisão dos planos de manejo das UCs; apresentam parâmetros objetivos para distinguir as diferentes classes de experiência da visitação; serão aplicáveis a todas as categorias de unidades de conservação do SNUC; serão aplicáveis no processo de planejamento de UC, tanto em ambientes terrestres quanto aquáticos (todos os biomas); terão aplicação viável, financeira e operacionalmente, em curto prazo. Outra definição teórica que auxilia o ROVUC em sua aplicação é a de classes de experiência, divididas em cinco: pristina, seminatural, ruralizada e urbanizada. O quadro a seguir apresenta as características de cada uma dessas classes. Quadro 3 – Relação entre as classes de experiência e o grau de intervenção da visitação nos atributos da Rovuc 9 Classe de experiência Definição do grau de intervenção nos atributos Pristina Visitação de baixo grau de intervenção: corresponde às formas primitivas de visitação e recreação, em áreas com alto grau de conservação, possibilitando ao visitante experimentar algum nível de desafio, solidão e risco. Os encontros com outros grupos de visitantes são improváveis ou ocasionais. A infraestrutura, quando existe, é mínima e tem por objetivo a proteção dos recursos naturais e a segurança dos visitantes. É incomum a presença de estradas ou atividades motorizadas. Natural Visitação de médio grau de intervenção: É possível experimentar alto grau de naturalidade do ambiente. No entanto, já existe algum nível de alteração ambiental ou evidências de atividades humanas. O acesso a essas áreas pode ser realizado por veículos motorizados. Em ambientes terrestres, as estradas em geral não são pavimentadas. Os encontros com outros visitantes são mais comuns. Nas unidades de conservação de uso sustentável, pode haver a presença de moradores isolados, que podem experimentar o modo de vida local. A infraestrutura é mínima ou moderada, tendo por objetivo, além da segurança e da proteção dos recursos naturais, melhorar a experiência e proporcionar comodidade ao visitante. Por exemplo: ponte, pequenas edificações, mirante, escada, deck, acampamento, abrigo, banheiro, estrada com revestimento permeável etc. Seminatural Visitação de alto grau de intervenção: a visitação é intensiva e planejada para atender maior demanda. Ainda que exista a oportunidade de privacidade, os encontros e a interação podem ser frequentes entre os visitantes, os funcionários e a comunidade local. É comum a presença de grupos maiores de visitantes ou excursões. Existe mais atenção na segurança dos visitantes, na proteção de áreas sensíveis próximas aos atrativos, e menos ênfase na promoção de autonomia ou desafios. A infraestrutura geralmente é mais desenvolvida, com a presença comum de edificações e estradas, inclusive pavimentadas, podendo resultar em alterações significativas na paisagem. Centros de visitantes, museus, auditórios, estacionamentos, postos de gasolina, estradas pavimentadas, piscinas, hotéis, pousadas, teleféricos, pistas de pouso, paisagismos, estábulos podem ocorrer nas zonas de manejo com alto grau de intervenção, dependendo da categoria de manejo da UC. Ruralizada Urbanizada Fonte: Elaborado com base em ICMBio, 2020. A partir dos ambientes internos e externos da UC, e de seus demais atributos biofísicos, socioculturais e de manejo, é possível avaliar o perfil de visitação adequado, considerando, dentre as áreas, quais se enquadram para a implementação de determinadas experiências de visitação, na intenção de conciliar: (1) as expectativas dos visitantes e as características da UC; (2) as experiências de visitação de qualidade e as estratégias de proteção dos recursos naturais. Vale ressaltar que, “no processo de diversificação das oportunidades de visitação, o enfoque nas atividades nem sempre funciona muito bem. Como já mencionado, uma mesma atividade possui sentidos e expectativas diferentes para cada pessoa”. Assim, para fazer o planejamento de uma visitação, é importante compreender a interação entre quatro elementos: experiências, atividades, ambiente (atributos biofísico, sociocultural e de manejo), benefícios (pessoais, sociais, econômicos, culturais e ambientais). Dessa forma, “as 10 oportunidades de visitação são formadas pela relação entre esses quatro elementos, uma vez que os visitantes buscam realizar ‘atividades’ em ‘ambientes’ que lhes permitem obter as ‘experiências’ desejadas, produzindo ‘benefícios’ pessoais, sociais, econômicos, culturais e ambientais” (ICMBio, 2020, p. 25). Muitas são as opções de roteiros e as formas de abordar os atributos físicos, socioculturais e de manejo. Nos próximos tópicos, vamos abordar alguns desses aspectos. TEMA 4 – PAISAGENS TURÍSTICAS NATURAIS DO BRASIL: EXEMPLOS DE UC A PARTIR DA TIPOLOGIA Os Parques Nacionais (PN) atuam como ferramentas de proteção da natureza. Eles possibilitam a realização de atividades turísticas, que no entanto demandam ferramentas para a visitação adequada. Com a expansão turística nessas áreas, os PN assumem duas responsabilidades: manter a qualidade da experiência dos visitantes e contribuir com o seu potencial natural para a sociedade (Gomes; Figueiredo; Salvio, 2021). Gomes, Figueiredo e Salvio (2023) realizaram uma pesquisa com o objetivo de analisar as oportunidades oferecidas em 5 PN brasileiros, buscando compreender como as Classes de Oportunidades (vistas no tópico anterior) atuam nesses locais. Os PN estudados foram: Parque Nacional da Tijuca: Localizado no centro da cidade do Rio de Janeiro, com 3.95 mil hectares. Foi criado no ano de 1961. Apresenta estrutura turística em mais de 150 atrativos, 128 quilômetros de trilhas manejadas para o uso público e 52 km de estradas internas, além de 69 monumentos históricos e um centro de visitantes. O parque tem áreas conservadas e áreas com alto grau de intervenção, com utilização turística distribuídas em seus três setores. O Corcovado é o principal atrativo visitado, representando 62% do total de visitantes, seguido da Estrada da Vista Chinesa, com 16%, e do Setor Floresta da Tijuca, com 8%. Parque Nacional do Iguaçu: localizado na região extremo Oeste paranaense, na cidade de Foz do Iguaçu. Apresenta 185,26 mil hectares e foi criado no ano de 1939. O parque permite a união, pelo Rio Iguaçu, do PN Iguazu na Argentina, integrando-se ao mais importante contínuo 11 biológico do Centro Sul da América do Sul e garantindo, com aproximadamente 600 mil hectares de área protegida, os esforços dos dois países, sob ações conjuntas, de proteger e conservar a área. O PN tem como principal atração as Cataratas do Iguaçu. Apresenta estrutura de visitação para uso intensivo, contendo centro de visitantes e diversas opções de trilhas. Parque Nacional de Jericoacoara: criado a partir da recategorização parcial da Área de Proteção Ambiental de Jericoacoara, o PN está localizado nos municípios de Jijoca de Jericoacoara, Cruz e Camocim, no litoral cearense. O parque apresenta 8,85 mil hectares. Ele foi criado em 2002. Ele tem trilhas, atrativos e setores para esportes de vento. As praias representamos principais atrativos, como a Pedra Furada e o Serrote, que são formações rochosas muito visitadas. O parque apresenta passeios nos manguezais e nas lagoas temporárias. O parque não tem Centro de Visitantes. A Sede do Parque situa-se na Vila de Jericoacoara. A Vila de Jericoacoara é acessada por meio do município de Jijoca de Jericoacoara, por trilhas não pavimentadas e utilizando preferencialmente veículos de tração integral e bugies. Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha: localiza-se no arquipélago de Fernando de Noronha, a 345 km a nordeste do cabo de São Roque, no Rio Grande do Norte (RN) e 545 km de Recife, no Pernambuco (PE). Abrange 70% da ilha principal do Arquipélago Fernando de Noronha e todas as outras 21 ilhas secundárias. A sua gestão é feita em parceria com a Área de Proteção Ambiental (APA) de Fernando de Noronha. Apresenta 11,27 mil hectares e foi criado no ano de 1988. O parque tem atrativos, trilhas, como a da Baía do Sancho e a do Forte de São Joaquim, sítios históricos divididos entre parte terrestre e parte marinha, além de um centro de visitantes. Destaque para as ilhas de Rata, Rasa e Frade. Em cada oportunidade, há a possibilidade de atividades de caminhada, observação da vida marinha e escalada. Em alguns trechos, são permitidos apenas passeios de barco, não sendo permitido aos visitantes o fundeio. As embarcações trafegam em velocidade reduzida e existe fiscalização permanente. No arquipélago, há estrutura para serviços de hospedagem, que atendem diversos tipos de público. 12 Parque Nacional de Brasília: situado na porção noroeste do Distrito Federal (DF), a cerca de 10 km do centro de Brasília. Apresenta 42,39 mil hectares e foi criado no ano de 1961. O parque conta com diversas atividades de uso público, em particular o uso das piscinas da "Água Mineral", terminologia utilizada pelo público para identificar o parque. Os locais mais atrativos para o lazer no parque são as piscinas, em especial a piscina velha. Entre os atrativos, temos ainda o Centro de Educação Ambiental e as trilhas abertas para caminhadas e passeios de bicicleta. O parque tem um centro de visitantes. Os autores identificaram os potenciais turísticos de cada PN, como podemos ver no quadro a seguir. Quadro 4 – Descrição das oportunidades recreativas identificadas em cinco parques brasileiros enquadradas nas cinco classes de oportunidades Parque Nacional Classes de oportunidades Pristina Primitiva Natural Rural Urbana Tijuca 31 áreas de visitação (50% da área do parque) Sete áreas de visitação (locais com trilhas de acesso 264 áreas de visitação. Um centro de visitantes; 153 atrativos; 128 km de trilhas Três áreas de visitação (locais de acesso aos bairros adjacentes ao parque) 28 áreas de visitação (entre restaurantes, lanchonetes, áreas para piquenique, estacionamento e loja de presentes. Iguaçu Três áreas de visitação (60% da área do parque) 12 áreas de visitação (trilhas primitivas) Nove áreas de visitação (um centro de visitantes; quatro trilhas principais; cinco atrativos) Quatro áreas de visitação (trilhas de acesso aos municípios adjacentes) Três áreas de visitação (estação da administração, estação espaço porto canoa e praça de alimentação Jericoacoara Quatro áreas de visitação (trilhas primitivas) 26 áreas de visitação (dois setores para os esportes de vento; 17 atrativos; sete trilhas). Não possui centro de visitantes Oito áreas de visitação (trilhas de acesso às vilas e assentamentos adjacentes ao limite do parque) Quatro áreas de visitação. (portarias com guaritas para controle do acesso e registro de entrada de visitantes) Highlight Highlight Highlight Highlight Highlight Highlight Highlight Highlight Highlight Highlight 13 Fernando de Noronha Quatro áreas de visitação (monitoram ento e pesquisas científicas) 10 áreas de visitação (locais de passeio de barco) 34 áreas de visitação (oito trilhas; 19 atrativos; seis sítios históricos; um centro de visitantes) 12 áreas de visitação (acesso às vilas do entorno e aos sítios históricos) Cinco áreas de visitação; 102 opções de hospedagem apenas no arquipélago Brasília Quatro áreas de visitação (pesquisas científicas) 15 áreas de visitação (circundante s da zona prístina) Sete áreas de visitação (um centro de visitantes: trilhas e atrativos) Duas áreas de visitação. Estradas de acesso a municípios do entorno Oito áreas de visitação (restaurantes, lanchonete, posto médico, bicicletário, posto de apoio e sede) Fonte: Elaborado com base em Gomes; Figueiredo; Salvio, 2021. Vale a pena pesquisar sites ou redes sociais desses lugares para conhecer os atrativos aqui descritos. Além de explorar a estrutura oferecida nesses espaços, as oportunidades de turismo e a experiência com a natureza apresentam diferentes perspectivas a partir de cada bioma, proporcionando experiências bastante variadas no mesmo território nacional. TEMA 5 – PAISAGENS TURÍSTICAS NATURAIS DO BRASIL: EXEMPLOS DE ATRATIVOS TURÍSTICOS EM CADA BIOMA O termo bioma pode ser definido da seguinte forma: um conjunto de vida vegetal e animal, constituído pelo agrupamento de tipos de vegetação que são próximos e que podem ser identificados em nível regional, com condições de geologia e clima semelhantes e que, historicamente sofreram os mesmos processos de formação da paisagem, resultando em uma diversidade de flora e fauna própria. (IBGE, 2023) No Brasil, temos registrados os seguintes biomas: Amazônia, Mata atlântica, Cerrado, Caatinga, Pampa e Pantanal. Aqui, vamos usar o material desenvolvido pelo IBGE para falar sucintamente de cada bioma, apresentando um exemplo de reserva natural com potencial turístico. O primeiro que vai ser abordado é o bioma amazônico. A Figura 1 apresenta a distribuição territorial de cada bioma. 14 Figura 1 – Distribuição territorial dos biomas brasileiros Fonte: IBGE, 2023. O bioma da Amazônia ocupa cerca de 49% do território brasileiro. A Amazônia possui a maior floresta tropical do mundo, equivale a 1/3 das reservas de florestas tropicais úmidas que abrigam a maior quantidade de espécies da flora e fauna. Contém 20% da disponibilidade mundial de água e grandes reservas minerais. (IBGE, 2023) São Parques Nacionais no Bioma Amazônia: Parque Nacional Serra do Pardo, Parque Nacional do Juruena e Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, entre outros. O bioma Mata Atlântica ocupa cerca de 13% do território brasileiro. Por estar localizada na região litorânea, ocupa mais de 50% da população brasileira, o que faz com que esse seja o bioma mais ameaçado do Brasil. Apenas 27% de sua cobertura florestal original ainda está preservada (IBGE, 2023). São reservas naturais no bioma Mata Atlântica: Parque Nacional do Iguaçu, Ilha do Mel, Parque da Tijuca, entre outros. O bioma Cerrado ocorre em maior parte no Planalto Central brasileiro, ocupando cerca de 24% do território brasileiro, sendo considerado a savana mais rica do mundo em biodiversidade. “Até a década de 1950, os Cerrados mantiveram-se quase inalterados. A partir da década de 1960, com a transferência da Capital Federal, do Rio de Janeiro para Brasília, e a abertura de 15 uma nova rede rodoviária, a cobertura vegetal natural deu lugar à pecuária e à agricultura intensiva” (IBGE, 2023). São exemplos de PARQUES NACIONAIS no Cerrado: Parque Nacional Chapada dos Veadeiros, Parque Estadual do Jalapão, Parque Nacional da Serra da Canastra, entre outros. O bioma Caatinga ocupa aproximadamente 10% do território nacional. Mesmo localizada em área do clima semiárido, apresenta uma vasta variedade de paisagens, com riquezas biológicas de espécies que ocorrem apenas nessebioma. Porém, da área original ocupada por esse bioma, aproximadamente 36% já foi alterada pelo homem (IBGE, 2023). São exemplos de parques nacionais no bioma Caatinga: Parque Nacional do Catimbau, Parque Nacional da Serra da Capivara, Parque Nacional Serra de Itabaiana, entre outros. O bioma Pampa ocupa uma área aproximada de 2% do território nacional, sendo caracterizado por clima chuvoso, sem período seco, mas com temperaturas negativas no inverno, fator que influencia na vegetação (IBGE, 2023). São exemplos de parques nacionais no bioma Pampa: Parque Estadual do Espinilho, Parque Estadual de Itapuã, Parque Natural Municipal Pedra do Segredo, entre outros. O bioma Pantanal ocupa aproximadamente 2% do território nacional, sendo reconhecido como a maior planície de inundação contínua do planeta, o que constitui o principal fator de diferenciação com os outros biomas (IBGE, 2023). O bioma Pantanal apresenta grande potencial turístico, com destaque para o turismo de pesca. São parques nacionais a se conhecer no bioma Pantanal: Parque Nacional Pantanal Matogrossense, Parque Estadual do Pantanal do Rio Negro, Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Rio Negro, Parque Estadual Encontro das Águas, entre outros. Apresentamos uma quantidade muito pequena de PNs e Reservas Naturais. Vale ressaltar, dentre os diferentes biomas, os variados potenciais turísticos de cada um. A partir desse potencial turístico, a experiência e o contato com a natureza se aliam à sensibilização e à educação ambiental dos visitantes. TROCANDO IDEIAS O ICMBio disponibilizou um vídeo que fala sobre as UCs e seus benefícios. Acesse: 16 O VALOR DAS unidades de conservação para a sociedade brasileira. Canalicmbio, 2019. Disponível em: . Acesso em: 29 maio 2023. Vamos conversar um pouco. Existe alguma UC na sua região? Cite alguma vantagem que a UC pode trazer para a comunidade, além das citadas no vídeo. Quais experiências os visitantes podem adquirir ao conhecer as UCs mais a fundo? NA PRÁTICA Vejamos dois exemplos de UCs de diferentes tipologias e diferentes portes, com plano de uso público. Primeiramente, o Parque Nacional do Iguaçu: URBIA+CATARATAS. Blog Cataratas do Iguaçu. Disponível em: . Acesso em: 29 maio 2023. Depois, temos a Reserva Natural Salto Morato: FUNDAÇÃO GRUPO BOTICÁRIO. Conservação da biodiversidade. Disponível em: . Acesso em: 29 maio 2023. Vocês conhecem alguma dessas UCs? A partir dos materiais disponibilizados no site, descreva o tipo de experiência que cada uma dessas atrações naturais possibilita aos visitantes e aponte os prós e os contras de cada uma delas. FINALIZANDO A valorização, a preservação e a conservação dos espaços naturais é de extrema importância para a conservação da biodiversidade, a manutenção climática, entre outros fatores. Além disso, o correto manejo e a visitação podem transformar esses espaços, de belezas estonteantes, em ferramentas de sensibilização e importantes questões ambientais. A ideia é fazer com que mais pessoas se atentem para assuntos de sustentabilidade e para o cumprimento dos objetivos do desenvolvimento sustentável. No próximo capítulo, vamos estudar a forma como a sensibilização e a educação ambiental são desenvolvidos nas UCs. 17 REFERÊNCIAS BNDS – Banco Nacional do Desenvolvimento. Unidades de conservação: os diferentes tipos e suas contribuições para o desenvolvimento. 17 dez. 2020. Disponível em: . Acesso em: 29 mail 2023. BRASIL. Lei n. 9.985, de 18 de julho de 2000. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 19 jul. 2000. D’AMICO, A. R.; COUTINHO, E. de O.; MORAES, L. F. P. (Org.) Roteiro metodológico para a elaboração e a revisão de planos de manejo das unidades de conservação federais. Brasília: ICMBio, 2018. Disponível em: . Acesso em: 29 maio 2023. GOMES, C. R.; FIGUEIREDO, M. A.; SALVIO, G. M. M. Oportunidades de visitação oferecidas em Áreas Naturais Protegidas: análise dos Parques Nacionais mais visitados no Brasil e nos Estados Unidos da América em 2017. Revista sociedade & natureza, v. 33, 2021. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. IBGE Educa: Biomas brasileiros. Brasília, 2023. Disponível em: . Acesso em: 29 mail 2023. ICMBIO – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Roteiros Metodológicos. Brasília, 2020. Disponível em: . Acesso em: 29 mail 2023. WWF BRASIL. Questões Ambientais. Unidades de conservação. Disponível em: . Acesso em: 29 mail 2023.