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UNIVERSIDADE DO VALE DO TAQUARÍ PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO MESTRADO EM ENSINO ALUNOS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA: PROCEDIMENTOS PEDAGÓGICOS E METODOLÓGICOS Felipe Carvalho Castro Lajeado/RS, junho de 2023 Felipe Carvalho Castro ALUNOS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA: PROCEDIMENTOS PEDAGÓGICOS E METODOLÓGICOS Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ensino, da Universidade do Vale do Taquari - UNIVATES, como parte da exigência para a obtenção do grau de Mestre em Ensino, na linha de pesquisa Formação de Professores, Estudo do Currículo e Avaliação. Orientador: Prof. Dr. José Claudio Del Pino Lajeado/RS, junho de 2023 Felipe Carvalho Castro ALUNOS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA: PROCEDIMENTOS PEDAGÓGICOS E METODOLÓGICOS A Banca Examinadora abaixo aprova a Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ensino da Universidade do Vale do Taquari – Univates, como parte da exigência para obtenção do título de Mestre em Ensino, na área de concentração Formação de Professores, Estudo do Currículo e Avaliação. Prof. Dr. José Claudio Del Pino – Orientador Universidade do Vale do Taquari – Univates Profa. Dra. Eniz Conceição Oliveira Universidade do Vale do Taquari – Univates Prof. Dr. Roniere dos Santos Fenner Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS Profa. Dra. Silvia Manoela de Jesus Santos Centro Universitário Ages - UNIAGES Lajeado/RS, junho de 2023 AGRADECIMENTOS “Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta”. Quisera eu ter a extensão vocabular contida na essência, profunda e clara, presente na fala de Cecília Meireles. Mas não sou poeta, nem tenho o lume nato proveniente das palavras moradoras na colônia da subjetividade. Apenas sou Felipe Carvalho Castro, um ente vivo das terras semiáridas do Nordeste baiano, um sonhador, com mais um pouco de um metro e meio de altura, que chegou até aqui rompendo léguas tiranas, atravessando o descompasso das dificuldades, pulando passadiços, a carregar nas costas uma sacola de esperanças. Eu, um ser, proveniente de família humilde, morador de uma comunidade simples da cidade de Cícero Dantas, cresci, mesmo sem compreender as diferenças entre os mundos que a sociedade mordaz apresentava, sobretudo quando se destacava ser menino pobre, estudante de escola pública, sem referência familiar, sem compreensão da existência de Pierre Bourdieu quando descreve sobre o processo em que se perpetuam e se impõem determinados valores culturais. Esse contexto me transporta ao heterônimo de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, quando diz: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada, todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”. Assim cresci, convivendo com a discrepância social e, mesmo inconsciente, pensava a escola ser um território de reforma pessoal. Sou fruto da escola pública, nela formei toda a minha base educacional, o que me faz hoje compreender o que Anísio Teixeira orientava ser um instrumento institucional eficiente para a construção da sociedade democrática e, por isso, deve ser entendida e defendida necessariamente como universal, gratuita, obrigatória, laica e de qualidade. Pois bem, dentro do meu tempo linear fui definindo estratégias pessoais para estar inserido no cenário de vida local, sem qualquer entendimento teórico. Escolhi a educação como campo de atuação por visualizar, nos aportes íntimos, maior fortaleza para minha profissionalização. E foi nessa fonte que bebi do canto de Leci Brandão https://www.pensador.com/autor/cecilia_meireles/ (1995), Professores Protetores das crianças do meu país Eu queria, gostaria De um discurso bem mais feliz Porque tudo é educação. Ingressei no Curso Magistério acreditando num mundo melhor. Atravessei as práticas educativas dos Estágios Supervisionados, de modo que o I – Observação, orientado pela professora Carmelita Joana (2004); o II- cooparticipação, sob a luz de Neuza Pereira (2005); o III – Regência I, com Bernadete Alves (2006); o IV – Regência, com Luciana Baldoino (2007); todos eles engrandeceram a minha base de formação, a perfazer um caminho didático de luz e garantia para seguir adiante. Em 2008 começa o meu exercício na prática como professor de Alfabetização na Escola Municipal Vereador Manoel Moises Ribeiro Gama. Por conseguinte, de forma tímida, dei os meus primeiros passos como funcionário temporário do Colégio Estadual Professor Luiz Navarro de Brito, o mesmo que um dia me motivou a enxergar o conhecimento e perfez a minha estrada didática para o ofício de educar. Nele, me foi oferecido o ministério disciplinar Língua Portuguesa e Literaturas, momento em que me tornei aprendiz da palavra, com percepção de ser uma ferramenta de mudança, pelo manuseio que dela tinha. Esse exercício me fascinava, ao tempo que mergulhava mais e mais em leituras e percebia o quanto meus olhos enxergavam possibilidades. “Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma", dizia-me o fazedor de mundos Fernando Pessoa. Não obstante, percebia a necessidade de me qualificar para o exercício da docência, o que me fez estudar Pedagogia na Faculdade Ages, na cidade de Paripiranga, com distância de 68 Km da minha residência, tendo o dobro para ida e volta. Escutava Bethânia cantar: Conhecer as manhas e as manhãs O sabor das massas e das maçãs É preciso amor pra poder pulsar É preciso paz pra poder sorrir É preciso a chuva para florir (Sater, 1992) Essa trajetória diária me colocava em estado de provação, pela sacrificante vontade de ter uma graduação, mesmo atravessando os perigos da estrada, desconforto alimentar, poucas horas de sono e lembrar de Frei Betto quando disse: Somos todos passageiros da mesma nave espacial chamada Terra. No entanto, como nas caravelas dos colonizadores e nos aviões transatlânticos, viajamos em condições desiguais. Mas venci. Tornei-me Pedagogo, com defesa da Teoria da Complexidade, forma de melhor compreender a mim e o outro. E segui em frente, orientado por Eduardo Galeano “corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião. O corpo é uma festa!”. No ano de 2012, como forma de garantir a minha formação de busca, rumei-me à Argentina, objetivado a fazer Mestrado. Sei que, ao lado do tango enriqueci meus passos na dança da vida, o que me fez nutrir a língua espanhola e conviver com a cultura de Evita Peron. “As ideias têm suas raízes na inteligência, mas os ideais têm seu pedestal no coração.” Ano seguinte estive a frente de Componentes Curriculares da maior escola particular da minha cidade – Colégio São José! Nela, o ofício de ministrar Sociedade e Cultura, bem como Artes/ Redação e Sociologia, o que me fez um ser com necessidades de aprimorar mais conhecimentos, a me garantir a função de Coordenador Pedagógico. Da alegria e da vontade começaram a surgir outros propósitos, que me levaram a fazer algumas especializações como: Docência do Ensino Superior, pela Faculdade AGES (2013); Gestão Educacional, pela Faculdade Evangélica Cristo Rei (2015); Psicopedagogia Institucional e Clínica , pela Faculdade São Judas Tadeu (2021); e Educação Especial Inclusiva, pelo Centro Universitário Leonardo Di Vinci (2021). Destarte, a mesma instituição que me conduziu nos ensinamentos da graduação, favoreceu-me com uma vaga na docência, com várias participações em programas de educação continuada, consultoria e de orientação de trabalhos de conclusão de curso, entre os anos 2014/2015. No ano seguinte, tornei-me professor Universitário na Faculdade Dom Luís, em Ribeira do Pombal-BA (2016/2020).uma construção cultural. Isto é, não se trata de um conceito abstrato que tenha algum tipo de existência fora e previamente à experiência humana. É, antes, um modo de organizar uma série de práticas políticas educativas. 35 Pesquisas mostram que há três décadas, aproximadamente, em nosso país, a educação especial era tratada apenas com o modelo clínico, as leis não favoreciam a inclusão efetiva desses alunos nas instituições escolares. Mas hoje, com a proposta de democratização do ensino, do aumento significativo de políticas direcionadas à Educação Inclusiva, nota-se que a prática pedagógica é um elemento chave na transformação da escola, estendendo essa possibilidade de transformação à sociedade (APAE, 2015). Assim, adaptar currículos para todos os alunos, não é considerada uma tarefa fácil para nenhum professor, principalmente para aqueles que lidam com alunos com necessidades educacionais. É um comprometimento que requer muito empenho e dedicação, e não se trata apenas de pensar nos alunos com necessidades educacionais especiais e que estejam nas classes regulares, e sim de contemplar a todos de forma geral (CARVALHO, 2009). Para Coll et al (2004), a escola, por ser uma instituição dotada de referencial teórico e prático para a formação cidadã e social, deve se preocupar em elaborar medidas para incluir todos os aprendizes em um ensino de qualidade, independente da condição que carregam consigo. Nesse sentido, a inclusão escolar ganha força, não apenas como projeto institucional, mas como projeto social, na medida em que mostra à sociedade que é possível vivenciar um contexto de igualdade de acesso aos direitos, e de superação dos desafios individuais e coletivos. Devido a isso, Silva (2009) demonstra em seu trabalho “Documentos de Identidade: uma introdução às teorias do currículo”, questionamentos acerca da organização e formação curricular, reconhecendo a necessidade de entender a elaboração do currículo, para assim aprimorá-lo. É preciso pensar o currículo como um espaço em que se reescreve o conhecimento escolar, com percepção das diferentes raízes étnicas e dos diferentes pontos de vista envolvidos em sua produção. E nesse espaço de questionamento das nossas representações, é que existem as relações entre nós e os outros, e que estão as ambiguidades e as antíteses. Lopes (2006), Silva (2005) e Sacristán (2000) afirmam que o Currículo não é uma listagem de conteúdo. O currículo é um processo constituído por um encontro cultural, de saberes e de conhecimentos escolares, na prática da sala de aula, local de interação de professor e aluno. Essas reflexões devem orientar a ação dos profissionais da educação quanto à elaboração do Currículo, além de estimular o valor 36 formativo do conhecimento pedagógico para os professores, e questionar o que realmente nos importa como docentes. 2.4.1 Referencial Curricular Municipal A Educação Municipal de Cícero Dantas – Bahia está inserida no projeto de transformação do cidadão por meio da educação. Isso se retrata no Referencial Curricular Municipal, conforme Parecer do CME n.º 04/2020 de 23 de novembro de 2020 e Portaria 008/2022. Corroborando o texto do art. 58 da LDB, “Entende-se por educação especial [...] a modalidade de educação escolar oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação.” (Lei n.º 12.796, de 2013). Via de regra, as unidades escolares, segundo a LDB, devem matricular os estudantes com deficiências, transtornos de neurodesenvolvimento e altas habilidades/superdotação, nas classes comuns do ensino regular, e no Atendimento Educacional Especializado (AEE) complementar ou suplementar à escolarização, oferecido em salas de recursos multifuncionais ou em centros de AEE da rede pública. Em Cícero Dantas, já é realidade o Centro de Referência para Atendimento Educacional Especializado Carmelita Joana dos Santos Menezes, que tem como público-alvo alunos com deficiência física, intelectual, visual, auditiva, transtornos do espectro autista (TEA) e, também, alunos com altas habilidades/superdotação. Pontua-se que a LDB, no artigo 59, preconiza que os sistemas de ensino devem assegurar aos estudantes: currículo, métodos, recursos e organização específicos para atender suas necessidades, bem como para assegurar a terminalidade específica àqueles que não atingiram o nível exigido para a conclusão do Ensino Fundamental, em virtude de suas deficiências, e a aceleração de estudos aos superdotados para conclusão do programa escolar. A Educação Especial deve promover oportunidades de aprendizado, ao longo da vida, para alunos com necessidades educacionais especiais, assegurando um compromisso com o sistema educacional inclusivo, em todos os níveis, etapas e modalidades de ensino, por meio da oferta de serviços e recursos que desenvolvam 37 a aprendizagem com qualidade. Inserida no projeto político-pedagógico da unidade escolar, a Educação Especial preceitua a valorização da diferença como elemento central para o enriquecimento do processo educativo, considerando os alunos conforme suas particularidades e potencialidades, ajudando-os a superar as possíveis barreiras para seu aprendizado. Esses parâmetros impulsionam as transformações no sistema de ensino para atender alunos, independentemente de suas condições intelectuais, físicas e sensoriais. Historicamente, esses princípios têm origem nas ideias difundidas pela Declaração Mundial de Educação para Todos (1990), a Declaração de Salamanca (1994) e a Convenção de Guatemala (2001). No Brasil, esses documentos fundamentaram a elaboração de uma legislação nacional que visou cumprir com o compromisso ético de garantir o direito de todos os alunos à educação: a LDB n.º 9.394/96, a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008) e, mais recentemente, a Lei Brasileira de Inclusão (2015). O atendimento educacional especializado – AEE, em Cícero Dantas-BA, é oferecido no Centro de Referência para Atendimento Educacional Especializado Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes, onde as atividades são desenvolvidas por professoras de AEE e professoras de braile e libras, todas com formação em atendimento educacional especializado. Essas atividades visam promover o desenvolvimento biopsicossocial do aluno com necessidades educacionais especiais, além de assegurar a participação, a inclusão e o exercício da cidadania, uma vida digna e desenvolvimento humano. O atendimento é realizado em consonância com a rede regular de ensino, para que, de fato, as barreiras possam ser identificadas e eliminadas. Para realizar os trabalhos no AEE, o professor elabora o Plano de Atendimento Educacional Especializado – Plano de AEE e/ou Currículo Funcional, ambos documentos comprobatórios de que a escola, institucionalmente, reconhece a matrícula do estudante público-alvo da Educação Especial e assegura o atendimento de suas especificidades educacionais. O Currículo Funcional é aquele que facilita o desenvolvimento de habilidades essenciais e a participação em uma grande variedade de ambientes integrados (FALVEY, 1982). O mesmo parte do pressuposto de que educação não é só “escolaridade”, no sentido de conteúdos meramente acadêmicos, e que todas as pessoas podem beneficiar-se da educação sistemática e assistemática. O currículo funcional é uma 38 proposta que aponta caminhos para que o aluno, à sua maneira e com o auxílio da família e de professores, possa ter participação social e melhor autogestão na vida. No que se refere à elaboração e execução do plano de AEE, o art. 9º da Resolução CNE/CEB, n.º 4/2009, atribui aos professores que atuam na sala de recursos multifuncionais ou centros de AEE a articulação com os demais professores do ensinoregular, com a participação das famílias e em interface com os demais serviços setoriais da saúde e da assistência social, entre outros, quando necessários. No município de Cícero Dantas, a articulação do AEE com o ensino regular se dá por meio do regime colaborativo, trata-se de uma parceria na atuação pedagógica em sala de aula, realizada pelo regente da classe comum e o professor de ensino especial que, juntos, planejam, executam e avaliam as estratégias de ensino ministradas. Nessa parceria, tem o envolvimento direto do profissional de apoio escolar e auxiliar de classe, família e equipe multidisciplinar da educação especial. Essa parceria colaborativa definirá serviços e recursos de acessibilidade que removerão barreiras na aprendizagem de todos os alunos, inclusive definirá a medida de “flexibilização curricular”, ou seja, como essa medida se tornará efetiva. A escola, portanto, deverá adaptar e flexibilizar o currículo do aluno de educação especial. Segundo o artigo 28, inciso III, do Estatuto da Pessoa com Deficiência, na execução do processo de ensino do aluno da educação especial, caberá à escola estabelecer um [...] projeto pedagógico que institucionalize o atendimento educacional especializado, assim como os demais serviços e adaptações razoáveis, para atender as características dos estudantes com deficiência e garantir o seu pleno acesso ao currículo em condições de igualdade, promovendo a conquista e o exercício de sua autonomia. Assim, regulamentando o que diz a Lei Estadual, a Deliberação CEE-PR 02/2016, em seu artigo 23, § 1º, estabeleceu que “as instituições devem garantir, no seu Projeto Político Pedagógico, a flexibilização curricular e o atendimento pedagógico para suprir as necessidades e especificidades educacionais de seus estudantes”. É de suma importância a flexibilização do currículo, sendo realizadas as modificações necessárias para assegurar e promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais dos alunos com necessidades educacionais especiais. No contexto educacional, flexibilizar significa garantir o direito à diferença no currículo. O atendimento na sala de recursos multifuncionais ocorre no turno oposto ao ensino regular, duas vezes por semana, com duração de uma hora, priorizando o 39 atendimento individual e/ou em pequenos grupos, de acordo com as especificidades de cada aluno. Além da sala de recursos multifuncionais, o Centro de Referência para Atendimento Educacional Especializado Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes conta com uma equipe multidisciplinar composta por profissionais da pedagogia, serviço social, psicologia e psicopedagogia. Além disso, oferece o serviço de atendimento direto ao aluno, de maneira individual, realizado em parceria com a Secretaria de Saúde (fisioterapeuta, fonoaudióloga, terapeuta ocupacional, psicopedagoga, psicóloga, nutricionista, neurologista, dentista, psiquiatra e neuropediatra). O trabalho do Centro Carmelita significa um grande avanço para o município, no que se trata de Educação Especial e no alcance da meta 04 do Plano Municipal de Educação, que diz respeito a essa temática e às prerrogativas para o AEE na Educação Básica, seguindo suas estratégias para alcance da meta. A equipe multidisciplinar tem como objetivo realizar atendimentos e intervenções junto aos professores (ensino regular e AEE) e à família do aluno com necessidades educacionais especiais. O papel da equipe está centrado na Educação Especial e nas estratégias de inclusão em sala de aula, por meio de parceria planejada com professores (ensino regular e AEE) e família para que seja possível contribuir, assim, com o devido processo educacional do aluno em questão. O Centro de Referência para Atendimento Educacional Especializado Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes é regido pela legislação em vigor, e busca atender o previsto na Lei n.º 13.146, de 6 de julho de 2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência) que está destinada a assegurar e promover, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais da pessoa com deficiência, visando sua inclusão social e cidadã. O referido centro também segue a orientação do Sistema Municipal de Ensino em consonância com o Conselho Municipal de Educação e a Secretaria Municipal de Educação. 2.4.2 Adaptação curricular para a Educação Inclusiva e o PEI O currículo é a parte do processo de ensino que aponta a dificuldade de aprendizagem do aluno. Se, comparada com os demais colegas da turma, a criança não consegue acompanhar o conteúdo das atividades desenvolvidas em sala de aula, essa criança é diagnosticada pelo professor como um aluno que apresenta 40 dificuldades de aprendizagem. A instituição escolar precisa se adaptar para cumprir com as exigências dos currículos definidos pela União, além de proporcionar aos professores, cursos de formação continuada para se ajustarem às disposições do sistema educacional, e assim poderem acompanhar todas as necessidades educacionais do processo de ensino e aprendizagem (BRASIL, CNE/2001). A educação inclusiva reconhece e respeita todas as diferenças existentes, reconhece as limitações e conhece as necessidades específicas de cada aluno. Essa educação é pautada no atendimento às necessidades dos educandos, fazendo-se necessário que se rompa com velhos paradigmas, de maneira que seja efetivada uma "revolução" na inclusão que se propõe (SOUZA FREIRE, 2012, p. 4). As estratégias de adaptação curricular, segundo Coll et al (2004), apontam que o sistema educacional deve entender que há dois aspectos relacionados às crianças autistas: a diversidade e a personalização. Para o ensino de alunos autistas é necessário lembrar que algumas estratégias de ensino aprendizagem entendem que, quando os profissionais da educação recebem esses alunos na escola e se deparam com suas reações, sofrem um grande impacto, pois ainda estão diante de uma experiência nova. Para haver uma adequação educacional frente às dificuldades de aprendizagem dos alunos autistas, deve ser feita uma adaptação do currículo regular que crie estratégias e critérios de atuação docente, considerando decisões que possibilitem adequar a ação educativa escolar às maneiras peculiares de aprendizagem desses alunos (MEC/SEEP/SEB,1998). Leite (2008), destaca que algumas propostas devem ser elaboradas com mais frequência para alunos com necessidades educacionais especiais, assim como com qualquer outro aluno. É importante que o professor identifique, no cotidiano educacional: a) se esse aluno apresenta uma evolução satisfatória durante as atividades realizadas; b) qual e como está sendo o ritmo de sua aprendizagem diante dos mais diversos conteúdos curriculares, ou seja, como sua aprendizagem evolui. Deve ser observado se o aluno responde de maneira lenta, normal ou rápida; c) o professor deve observar se o aluno autista mostra motivação para realizar as atividades propostas em sala de aula, e mesmo as trazidas de casa; d) uma observação importante a ser realizada é se há necessidade de 41 providenciar recursos adicionais, como auxílio de materiais pedagógicos para essa aprendizagem. Diante das observações citadas acima, cabe ao professor adaptar a proposta mais apropriada para auxiliar esse aluno no processo de ensino e, assim, propor os ajustes curriculares necessários para o acesso ao currículo comum. Nesse contexto, vale ressaltar que, em nosso país, alicerçada em um considerável arcabouço legal, a Educação Inclusiva vem sendo implantada, há mais de vinte anos, e que, dentre vários dispositivos, tem a Lei n.º 13.146 (BRASIL, 2015), que versa acerca da inclusão de pessoas com deficiência, e cuja finalidade é assegurar e fomentar os direitos dessa população, objetivando sua inserção social e uma cidadania plena. Em seu artigo27 observa que: A educação constitui direito da pessoa com deficiência, assegurado sistema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida, de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas, sensoriais, intelectuais e sociais, segundo suas características, interesses e necessidades de aprendizagem (BRASIL, 2015, p. 9). Dialogando com as Considerações sobre as Necessidades Educacionais Especificas, Cool apud Carvalho (2003) apresenta a seguinte figura: Figura 1 – Pensamento de Coll sobre necessidades educacionais específicas Fonte: Do autor, adaptado de Cool apud Carvalho (2003). Observando as considerações necessárias para uma educação específica, 42 ainda há espaços para compreender o Currículo como fonte de observação da realidade exigida pelo contexto situacional. O caminho a percorrer exige a consolidação de parcerias, além de uma estrada construída meramente de conteúdo. Quanto aos discursos em torno do processo de inclusão da pessoa com deficiência, Silva (2005) destaca que “[...] parece refletir o modo pelo qual são representadas e expressadas, historicamente, as principais inquietações das práticas de escolarização desses indivíduos, particularmente, àquelas relacionadas à escola e ao Currículo”. Por isso, nesse contexto educacional inclusivo, é de suma importância realizar uma reflexão construtiva sobre a pessoa com transtorno do espectro autista, considerando que cada sujeito apresenta uma característica peculiar. Dessa forma, quando se defende a inclusão sem a valorização, de fato, da alteridade e das especificidades que a constituem, está se compreendendo o grupo de pessoas com deficiência de forma hegemônica, colocando esses sujeitos como seres que apresentam características e necessidades únicas e comuns. É nessa conjuntura que o Currículo se configura como locus de importância, no que diz respeito à discussão sobre diferença e diversidade. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais para a Educação Inclusiva (1998), o Currículo é construído a partir do projeto pedagógico da escola, com operacionalização do mesmo, orientando as atividades educativas, as formas de executá-las e definindo as suas finalidades. O documento usa as palavras “Adequações Curriculares” para referir-se ao Currículo como um elemento dinâmico da educação para todos, e que a sua viabilização para os alunos com necessidades educacionais especiais pode ser realizada por meio da flexibilização na prática educacional, com o objetivo de atender todos os alunos. Pensar em adequação curricular significa considerar o cotidiano das escolas, levando-se em conta as necessidades e capacidades dos seus alunos e os valores que orientam a prática pedagógica. Para os alunos que apresentam necessidades educacionais especiais essas questões têm um significado particularmente importante (PCNs, 1998, p. 32). Há necessidade de um currículo flexível, abrangente, com proposta de conteúdo, a partir da realidade de cada escola e com base na sua autonomia, Um currículo no qual os elementos curriculares ganhem novas formas, em que os conteúdos não sejam decorados e sim compreendidos; a relação entre professor e 43 alunos seja de uma parceria mútua; as metodologias sejam diversificadas e ativas e; a avaliação, não seja a cobrança da falta ou a exigência de comportamento obediente, e sim uma análise do processo para reorganizar as ações na rotina escolar. Vale salientar que o currículo não deve ser concebido para o aluno adaptar-se aos moldes que a escola oferece, e sim como um campo aberto à diversidade, em que cada aluno possa preparar-se para adquirir o conhecimento de um modo diferente. Para efetivar isso, ao planejar, o professor precisa estabelecer expectativas altas e criar oportunidades para todos os alunos aprenderem com sucesso. Também não é possível atribuir apenas à figura do professor em sala de aula, a responsabilidade por um currículo que se constitua a partir da diversidade, e respeite os ritmos diferentes de aprendizagem. Para tanto, este trabalho busca percorrer a adaptações curriculares definidas como “respostas educativas que devem ser dadas pelo sistema educacional, de forma a favorecer a todos os alunos e, dentre estes, os que apresentam necessidades educacionais especiais” (MEC/SEESP, 2000). As adaptações curriculares podem ser entendidas como estratégias que a escola, como um todo, deve usar para efetivar a inclusão escolar do aluno com deficiência, sendo que, essas modificações, para serem colocadas em prática, necessitam de aprovação que é responsabilidade de instâncias político-administrativas superiores, e que envolvem ações de natureza política, administrativa e financeira, entre outras, além de estarem atreladas a modificações que são de responsabilidade de todo o contexto educativo. Tais adaptações visam garantir que, de forma produtiva, no processo de ensino e aprendizagem, o aluno com deficiência alce voos a partir das suas habilidades. Segundo Freitas (2006), para que a inclusão aconteça de fato, a escola deve transformar sua estrutura organizativa, desconstruindo práticas que promovem a segregação, questionando concepções e valores de modo a abandonar atitudes que discriminam, não apenas pessoas com necessidades especiais, mas todos os alunos. O Plano Educacional Individualizado (PEI), como proposta, precisa da compreensão de que as escolas necessitam oferecer a adaptação curricular, apresentar diferentes formas de trabalho de ensino, assim como garantir recursos didáticos adequados ao desenvolvimento do estudante, quebrando o mito, em relação ao aluno com deficiência, de que ele não aprende. É preciso não se ater, necessariamente, ao resultado final como produto da aprendizagem, e sim ao processo de aprendizagem e seus possíveis ganhos. 44 Assim, o PEI surge como necessário para a escola, na promoção da mudança no ensino, pois no modelo vigente a culpa recai, muitas vezes, sobre o aluno ou sobre a falta de recursos. É com estratégias pedagógicas diferenciadas que se resgata o aluno da obscuridade explícita contida na concepção de um comportamento tido como fora do padrão. Para sensibilizar o grupo quanto às diferenças (individuais e grupais), são necessárias ações que valorizem o reconhecimento de suas capacidades e não de suas limitações, propiciando atividades que não se restrinjam ao concreto, e possibilitar abstrações que produzam significado para o aluno, e não a repetição constante sem sentido. O estudante com TEA deve sair de uma posição passiva e automática, e ter liberdade de escolha e de participação. O Plano Educacional Individualizado (PEI), apesar de ainda ser relativamente pouco conhecido no Brasil, já está presente em outros países como Estados Unidos, Portugal, Áustria, Bélgica e Reino Unido, onde se constitui como prática no atendimento a alunos com necessidades especiais (CRUZ, MASCARO e NASCIMENTO, 2011). Em nosso país, essa proposta vem sendo apresentada como uma estratégia de ensino para nortear as ações pedagógicas dos professores, a fim de contribuir para a inserção de alunos com necessidades educacionais especiais em turmas regulares de ensino (VIANNA, 2011). A proposta do Plano Educacional Individualizado (PEI) exige, primeiramente, um trabalho colaborativo em que as ações e as concepções sobre o ensino sejam compartilhadas por todos os atores da escola. A elaboração da estratégia apresentada implica uma rede de conhecimentos e interação entre os profissionais que trabalham com esses alunos, pois todos precisam ter a condição de compartilhar e conhecer os caminhos que são necessários para o aluno aprender e se desenvolver. 45 3 OS DESAFIOS NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DIANTE DO ALUNO AUTISTA Numa sociedade em que o nascimento (a situaçãoe a condição em que se nasce) é determinante para a consumação dos direitos, reafirmar o dever de assegurar os direitos, sem exceções, tem uma enorme relevância. Bem diferente é o conceito de desigualdade. Essa distorção é o que acontece quando não é cumprido o que se proclamou na Convenção sobre os Direitos da Criança. Ou seja, tem pouco a ver com a diferença, mas, ao longo da história – e ainda hoje –, a diferença tem sido usada para justificar a desigualdade. Quer dizer, muito do que se chama atualmente “diferença” é uma mistura de diferença e de desigualdade, e essa mistura leva à legitimação de atitudes de discriminação que não são devidas à diferença, mas induzidas pela própria desigualdade. Só conseguiremos olhar e analisar verdadeiramente a diferença quando abolirmos a desigualdade (RODRIGUES, 2009 p. 24). O referido autor continua com a ideia de discurso ao falar sobre a escola “laica, gratuita e universal”, que, quando foi criada, no início do século XIX, teria, certamente, entre os seus objetivos, o de promover a justiça social. Ao criar a escola obrigatória – a escola que todas as crianças deveriam frequentar –, o Estado procurava dar a todos uma base comum de competências, conhecimentos e identidade (RODRIGUES, 2009, p. 26). Associado a essa passagem, Facion (2009) identifica que existem vários fatores que interferem na qualidade da Educação Inclusiva oferecida atualmente, como uma má adequação de estrutura física e falta de investimentos em materiais específicos para cada caso, entre outros. Também está a falta de investimento na capacitação de professores e demais profissionais necessários para atuarem com crianças com deficiência. Houve um processo de regulamentação da Educação 46 Inclusiva, com exigência da atuação de professores com alunos deficientes, professores, na maioria dos casos, sem nenhum preparo. O professor é diariamente desafiado a corresponder às novas expectativas projetadas sobre ele, apesar da carência de recursos materiais, das limitações, das renovações pedagógicas e da escassez de material didático, componentes de um quadro gerado pela crise econômica e pelos cortes orçamentários. Quanto aos professores que atuam com alunos com necessidades educativas especiais, os problemas se intensificam. Isso porque, como expressa o professor, vive sendo desafiado o tempo todo com novas situações para as quais não foi adequadamente preparado Facion (2009, p. 143). Sendo assim, os processos formativos precisam incorporar estratégias e ações pedagógicas variadas, considerando a diversidade de situações vivenciadas no dia a dia das escolas. Além disso, criar condições para que os professores se posicionem sempre como sujeitos do processo de formação permanente, o que não foi incorporado como uma política de formação contínua pelos órgãos responsáveis. Culpar o professor pelo fracasso, em muitos casos, evidencia um desvio de responsabilidades. Na realidade, os professores e a escola como um todo precisam ter oportunidades oferecidas por políticas públicas governamentais, comprometidas com a qualidade educacional e que formem constantemente o professor para rever suas práticas e adequá-las de modo satisfatório, tendo uma base teórica que lhe dê suporte. Com isso, a formação não pode mais considerar apenas um aspecto em detrimento do outro. Teoria e prática devem ser consideradas de modo associado ao contexto escolar, de onde partem as principais problemáticas a serem estudadas e para as quais é necessário buscar soluções, o que não tem sido preocupação central para o ensino brasileiro. Não é possível visualizar a formação do profissional, nessa perspectiva, como prioridade governamental, ficando a cargo de algumas atitudes isoladas ou do interesse do professor, que busca por sua conta algum conhecimento sobre o assunto. Todavia, é necessário dizer que apenas a definição de uma política de formação contínua de professores não seria capaz de garantir qualidade educacional, a que depende também de outros aspectos, mas reconhecemos que é um dos mais importantes requisitos para o sucesso da aprendizagem e das transformações necessárias no campo educacional. Pires (2006) diz que é possível considerar, na formação, as mudanças educativas do sujeito, que se constroem num processo de desenvolvimento e interação, e só através dessa interação é possível conhecer, compreender e 47 ressignificar as peculiaridades do ser. O professor que se prepara para o enfrentamento da diversidade e das diferenças na sala de aula, precisa levar em conta, sempre, tanto as variáveis situacionais e contextuais do aluno, quanto o cenário ou a marca de convivência entre aluno e professor, que compreende o conjunto de interações vivenciadas no processo. Através da Educação Inclusiva deve-se oportunizar, não só aos alunos, mas também aos professores, com extensão à comunidade escolar, a experiência de viver e conviver com a diferença. A escola precisa promover a aprendizagem e o desenvolvimento da pessoa com deficiência, possibilitando-lhe novos adendos sobre o meio no qual está inserida e uma aprendizagem significativa, também deve prestar serviço de qualidade aos alunos e criar, em seus professores, um sentimento cooperativo, apropriando-se de uma pedagogia colaborativa em que os profissionais se sintam igualmente responsáveis pela inclusão. Santos e Teles (2012, p. 82) dizem que a escola deve se orientar a partir de um projeto pedagógico em que sejam contempladas distintas formas de ensinar, e se proponha a desenvolver conteúdos e avaliações no processo de ensino e aprendizagem, principalmente para atender os alunos com necessidades educacionais especiais. Isso, contudo, não se confunde com facilitação, sequer com negação da avaliação, apenas significa promover diferentes modos de realizá-la, valorizando o desenvolvimento dos discentes. Atualmente, na área educacional, se verifica um aumento significativo de estudos que procuram investigar as especificidades, a natureza e os processos de construção de conhecimentos ou de saberes de professores. Tardif (2002), cita que os saberes necessários à execução das tarefas que lhe são próprias é uma das condições essenciais a qualquer profissão, e afirma que o ensino é a mobilização de vários saberes que formam uma espécie de repertório do qual o professor se abastece para responder às exigências específicas da situação concreta de ensino. Tardif (2002, p. 9/10) indaga sobre os saberes docentes: Qual é a natureza desses saberes? Trata-se de conhecimentos racionais, baseados em argumentos, ou se apoiam em crenças implícitas, em valores e, em última análise, na subjetividade dos professores? Como esses saberes são adquiridos? Através da experiência pessoal, da formação recebida num instituto, numa escola normal, numa universidade, através do contato com os professores mais experientes ou através de outras fontes? Qual é o papel peso dos saberes dos professores em relação aos outros conhecimentos que marcam a atividade educativa e o mundo escolar, como os conhecimentos 48 científicos e universitários que servem de base às matérias escolares, os conhecimentos culturais, os conhecimentos incorporados nos programas escolares, etc. Os professores definem suas práticas cotidianas em relação aos diversos saberes docentes, com os que têm contato em diferentes momentos durante a formação continuada. Sobre a diversidade desses conhecimentos, Tardif assevera: [...] o saber dos professores não provém de uma fonte única, mas de várias fontes e de diferentes momentos da história de vida e da carreira profissional, essa própria diversidade levanta o problema da unificação e da recomposição dos saberes no e pelo trabalho. (TARDIF, 2002, p. 21). Pimenta (2000) considera a prática social como ponto de partida e como ponto de chegada, e isso possibilita, na formaçãode professores, uma ressignificação de saberes, sobretudo ao afirmar que os saberes da experiência são aqueles que os professores produzem no seu cotidiano docente, num processo permanente de reflexão sobre sua prática. A Política Nacional de Educação Especial, na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008), sinaliza a necessidade de os sistemas de ensino cumprirem as condições essenciais para a Inclusão Escolar, dentre as quais encontra-se a formação de professores e demais profissionais da educação para o atendimento educacional especializado para a Inclusão Escolar. Capellini (2012 p. 249) reafirma a importância da formação contínua no cotidiano escolar e a partir dela deve-se: Responder às necessidades de um grupo específico; favorecer as reflexões a partir do cotidiano (estudos de casos); facilitar a compreensão, por parte do coletivo, dos pontos fortes e fracos de cada escola para a construção e/ou reconstrução do Projeto Político Pedagógico. O referido autor afirma que o professor, sozinho, não consegue refletir na sua prática docente, sendo necessária uma discussão em grupo. Nesse sentido, percebemos que os momentos de atividades, no coletivo, permitem a todos os professores pensar, refletir, analisar e avaliar suas práticas, reelaborando o seu planejamento e suas atividades, quando necessário. Corroborando o pensamento de Capellini (2014), ressaltar a abordagem do pensamento pedagógico de Paulo Freire é de fundamental importância para a formação de qualquer profissional de Educação que faça uma leitura da sua obra e 49 faça reflexões, a partir dela, buscando estabelecer uma vivência teórico-prática durante a atividade docente. A esse respeito, o próprio Freire sempre chamava a atenção para um novo conhecimento que é gerado e produzido na tensão entre a prática e a teoria. A história de Paulo Freire nos deixa uma grande herança: a sua práxis político-pedagógica e a luta pela construção de um projeto de sociedade inclusiva. Trazer a discussão da sua pedagogia é um compromisso de todos os que lutam por inclusão social, por ética, por liberdade, por autonomia, pela recuperação da memória coletiva e pela construção de um projeto para uma escola cidadã. Na obra Pedagogia do Oprimido, Freire (1982), fala sobre a prática docente sob a forma de Educação Bancária e Educação Problematizadora, ao propor a conscientização do educando sobre sua realidade social, explicando que o conhecimento deve vir do contato do homem com o seu mundo, que é dinâmico, e não como um ato de doação Freire (1983). Para o autor, a dialogicidade é a essência da Educação Libertadora. Além disso, outras características são necessárias para que ela se concretize, tais como: colaboração, união, organização e síntese cultural. Trazer essa abordagem é preciso, pelo fato de ser considerada foco contextual desta dissertação, sobretudo, quando a fala freiriana auxilia no desenvolvimento da epistemologia do conhecimento quando parte de uma reflexão acerca de uma experiência concreta para desenvolver a metodologia dialética: ação-reflexão-ação. Pensando na diferenciação do ensino, tendo como base as ideias de Perrenoud, exploradas por André (1999, p.22): Diferenciar é dispor-se a encontrar estratégias para trabalhar com os alunos mais difíceis. Se o arranjo habitual do espaço de sala não funciona com esses alunos, se os livros e materiais didáticos não são adequados para eles, se, enfim, as atividades planejadas não os motivam, é preciso modificá-las, inventar novas formas, experimentar, assumir o risco de errar e dispor-se a corrigir. Diferenciar é, sobretudo, aceitar o desafio de que não existem respostas prontas, nem soluções únicas; é aceitar as incertezas, a flexibilidade, a abertura das pedagogias ativas que em grande parte são construídas na ação cotidiana, em um processo que envolve negociação, revisão constante e iniciativa de seus atores. O procedimento paulatino que resulta na Metodologia como parte da problematização da prática concreta, vai à teoria estudando-a e reelaborando-a criticamente e, possivelmente, com retorno à prática para transformá-la. Nessa concepção, o diálogo se apresenta como condição fundamental para sua concretização. 50 4 PLANO EDUCACIONAL INDIVIDUALIZADO (PEI) PARA ALUNOS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA: EFEITO INTRODUTÓRIO, DEFINIÇÃO E DESAFIOS 4.1 Parâmetros discursivos sobre o PEI Seguir os parâmetros de construção de um Plano Educacional Individualizado (PEI) requer a compreensão de que as escolas necessitam oferecer a adaptação curricular, proporcionando diferentes formas metodológicas de ensino, assim como garantir recursos didáticos adequados ao desenvolvimento do estudante. De acordo com Pereira (2014), o conceito de PEI está diretamente ligado a um instrumento de diferenciação e contextualização para favorecer o ensino do estudante, e tem caráter norteador dentro do processo de ensino-aprendizagem. Outrossim, existem outras formas de planejar o ensino de alunos com TEA na escola além do PEI. Na atual conjuntura brasileira cita-se: AEE (Atendimento Educacional Especializado), SRM (Sala de Recursos Multifuncionais), PAEE (Plano e Atendimento Educacional Especializado), PDI (Plano de Desenvolvimento Individual), entre outros. Entretanto, o PEI não apresenta restrições ou inferências quanto a espaço e tempo, como uma sala determinada, sendo possível sua implementação em todo contexto escolar que se faça necessária. Segundo Glat e Plestch (2013), o PEI é “uma estratégia para a organização de uma proposta curricular que assiste os alunos com necessidades educacionais” e, também, “é um instrumento de mediação de aprendizagem de alunos com necessidades especiais em situação de inclusão” (GLAT; PLESTCH, 2013, p. 37). De acordo com Oliveira (2017), o PEI cumpre o papel de planejar, desenvolver e avaliar ações específicas para o estudante PAEE. Para além do público alvo da educação especial, deve também ser proposto para aqueles que apresentam 51 transtornos funcionais específicos, como dislexia, discalculia, TDAH, etc. A individualização do ensino como estratégia utilizada para esse fim, não deve ser confundida como o ato de segregar, e sim ser entendida no sentido de incluir, oferecendo a mesma oportunidade de aprendizagem dos demais estudantes, porém, com adequações que tornem efetiva a sua participação, atendendo as diferenças originadas em especificidades do seu desenvolvimento, sendo elas de natureza neurológica, comportamental, cognitiva ou sensorial. Com esse fim, se faz necessário repensar a utilidade da inclusão como cenário de reflexão/ação, especialmente de alunos com TEA (Transtorno do Espectro Autista), para consolidação do Plano Educacional Individualizado. Este, por sua vez, permite a colaboração, criando estratégias de atitudes contributivas para o processo de ensino- aprendizagem, considerando as especificidades do estudante, bem como o formato em que ele aprende. Para que a individualização ocorra, é de fundamental importância o conhecimento do aluno e do seu contexto educacional e territorial. Somente a partir dessa compreensão será possível um planejamento específico de objetivos, metas, estratégias metodológicas, recursos humanos, materiais de apoio, avaliar se há, ou não, a necessidade de um profissional de apoio etc., para que se tornem alcançáveis a aprendizagem e o desenvolvimento. O processo de elaboração do PEI é considerado complexo, por trazer no bojo da sua iniciativa o envolvimento de docentes e da equipe técnica em um planejamento de curto, médio e longo prazo. E, sem dúvida, se trata de uma ação que necessita de investimento na formação de professores e gestores. É importante destacar que o PEI, no Brasil, vem se configurando com iniciativas isoladas, como uma estratégia norteadora das ações pedagógicas,com a finalidade de contribuir para a inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais no ensino comum. Isso se torna mais evidente ao se tratar do estudante com deficiência intelectual, considerada complexa quando comparada às demais deficiências. Brescia (2015) apresenta uma ideia acerca da fase de conhecimento, que precede o planejamento individualizado, quando cita poder utilizar-se da coleta e análise de algumas informações, como: conhecimento do aluno (diagnóstico, documentação da escola precedente, encontros escola/aluno/família, observações, entrevistas etc.); conhecimento do contexto escolar (compreensão de como a escola se organiza, quais os seus recursos humanos e materiais, espaços físicos, 52 assistências, tecnologias assistivas etc.); conhecimento do contexto territorial (rede de apoio ao PAEE e aos estudantes que apresentam transtornos funcionais específicos). O autor ainda afirma que, além dos dados que identificam o estudante, no PEI devem ser registradas as suas necessidades educacionais especiais, suas habilidades e dificuldades, os objetivos e as metas esperados e como alcançá-los, os métodos e critérios de avaliação destinados a garantir ao estudante o direito à educação, incentivando sua inclusão, autonomia, melhoria das habilidades sociais e desenvolvimento de aprendizagem. O plano também deve explicitar todas as intervenções e adaptações voltadas para a aprendizagem do aluno, de forma compartilhada por todos os sujeitos nele envolvidos. Rodrigues (2009) trata dessa questão quando cita que, de todas as experiências que surgem no caminho de quem trabalha com a inclusão, receber um aluno com deficiência intelectual parece a mais complexa. Para o surdo, os primeiros passos são dados com a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Os cegos têm o braile como ferramenta básica e, para os estudantes com limitações físicas, adaptações no ambiente e nos materiais costumam resolver os entraves do dia-a-dia (RODRIGUES, 2009, p. 23). A ação pedagógica, na escolarização de alunos com deficiência, impõe a busca de formatos pedagógicos que favoreçam sua inclusão e participação no cenário escolar. A necessidade de se discutir a respeito dos conceitos, concepções e demais possíveis interações sobre adaptação curricular, é principalmente do PEI, por ser uma ferramenta educacional ainda pouco conhecida por grande parte dos profissionais da área do ensino, constituindo-se, por essa razão, em uma oportunidade de pesquisa relevante na área da educação em nosso país. Lima, Ferreira e Silva (2018, p. 133), quando se referem a uma técnica de ensino aplicada, afirmam que a elaboração do PEI deve ser desenvolvida no âmbito escolar, partindo das experiências e conhecimentos dos “personagens” envolvidos diretamente com os processos de ensino e aprendizagem, aconselhando-se então, que tal investigação ocorra a partir de uma matriz qualitativa e descritiva, por meio de uma metodologia de “pesquisa-ação colaborativa”, em que o pesquisador se ocupa, simultaneamente, da ação e da investigação, com a construção e revisão das estratégias de acordo com a evolução do trabalho. Tratando da importância do PEI no contexto escolar, no que se refere ao desenvolvimento diferenciado dos conteúdos curriculares, Young (2014) destaca o 53 currículo como uma questão educacional relevante, pois, uma das razões pelas quais os currículos existentes continuam a manter o acesso para alguns e a excluir outros é que não investigamos em que medida os processos de seleção, sequenciamento e progressão são limitados, de um lado, pela estrutura do conhecimento e, de outro, pela estrutura de interesses sociais mais amplos. Diante disso, a garantia de uma aprendizagem dos estudantes que apresentam necessidades educacionais especiais deve estar inserida na temática investigativa sobre o currículo de uma maneira mais ampla. O ensino está diretamente relacionado ao currículo que é único em uma escola, dessa forma entendemos que a diferenciação estará presente no cotidiano escolar, não por meio de diferenciação de conteúdo, mas sim de práticas pedagógicas flexíveis e diferenciadas de acordo com as necessidades dos estudantes. Assim, o professor deve conhecer aspectos concernentes à aprendizagem, observando as suas vertentes e as condições individuais do aluno. Dessa forma, é possível que a ação pedagógica seja planejada de acordo com as necessidades dos alunos, sejam eles com ou sem deficiências e com ou sem transtornos. Vygotski (1995) salienta que os entraves encontrados na aprendizagem e, consequentemente, na apropriação de conceitos pelos alunos com deficiência intelectual, não se deve somente a sua condição orgânica, mas, principalmente, às condições de desenvolvimento e aprendizados vivenciados. A esse respeito Correia (2017) atenta para as especificidades dos alunos com deficiência intelectual e a sua necessidade de mediação pedagógica: Os alunos, quando entram na escola, sabem muitas coisas e usam a palavra para expressarem seus pensamentos, mas, na maioria das vezes, não se apropriaram dos conceitos científicos que são fundamentais para compreenderam a sociedade, a cultura, a sua família, ou seja, a si mesmos e a realidade que os cerca. Em alunos com deficiência intelectual que apresentam dificuldades na organização do pensamento devido à dificuldade de abstrair e generalizar a construção de conceitos científicos requer que o professor conheça as demandas de seus alunos e, a partir deste olhar atento, propicie situações de aprendizagem que contribuam para este processo (Corrêa, 2016, p.33). Nesse sentido, o PEI vem colaborar com uma nova dinâmica para o processo de ensino e aprendizagem do aluno com deficiência intelectual, podendo ser definido como uma estratégia para promover o desenvolvimento e a futura inserção social e laboral de alunos com deficiência, configurando, segundo Pletsch (2014), um 54 importante instrumento para redimensionar as práticas entre professores de classe comum e o professor do atendimento educacional especializado (AEE), por meio do trabalho colaborativo entre ambos campos. Para efeitos conceituais, cabe traçar enunciados de entendimentos acerca do TEA, como ponto cristalizador macro de entendimento geral do documento. Vygotsky (2000) atribui atenção especial ao estudo do desenvolvimento humano para a formação dos processos psicológicos superiores, segundo ele: [...] a formação de funções psíquicas superiores trata, em primeiro lugar, de processos de domínio de meios externos do desenvolvimento cultural e do pensamento: a linguagem, a escrita, o cálculo, o desenho; e, em segundo, de processos de desenvolvimento de funções psíquicas superiores especiais, não limitadas nem determinadas com exatidão, que a psicologia tradicional denomina de percepção, atenção voluntária, memória, lógica, formação de conceitos. Tanto uns como outros, considerados em conjunto, formam o que qualificamos convencionalmente como processos do desenvolvimento das formas superiores de comportamento da criança (Vygotsky, 2000, p.13). Para tanto, é necessário um aprendizado psicoeducacional, com apoio da família, educadores, e profissionais envolvidos. Alguns autores afirmam que o planejamento deve ser de acordo com o desenvolvimento do aluno. Com crianças pequenas, a prioridade deveria ser terapia da fala, interação social/linguagem, educação especial e suporte familiar. Já com adolescentes, os alvos seriam os grupos de habilidades sociais, terapia ocupacional e sexualidade. Com adultos, questões como as opções de moradia e tutela deveriam ser focadas, de acordo com Bosa (2006). Nesse aspecto, o projeto educacional de um Plano Individualizado deverá envolver terapias que dialoguem com o avanço da melhoria do cidadão, apresentando foco no desenvolvimento, como: a) Terapia Cognitiva Comportamental (TCC).De acordo Consolini; Lopes; Lopes, (2019), o procedimento tem se mostrado eficaz no tratamento de diversos transtornos surgidos na infância. Em relação ao TEA-AF, os estudos mostram grande eficácia em crianças e jovens. Entende-se que, essa abordagem, mesmo sendo adaptada para o atendimento infantil, implica que os pacientes demonstrem um determinado nível cognitivo para que o trabalho seja efetivo; b) Equoterapia. Segundo Silva; Lima; Salles (2018), essa modalidade de terapia, abrange todas as atividades e técnicas que utilizam o cavalo como 55 mediador, cujo foco maior é educar ou reabilitar os pacientes que apresentam deficiência, tanto física quanto psíquica. Esse animal é muito inteligente e possui uma boa memória, o que o torna capaz de memorizar lugares, acontecimentos, objetos e pessoas, podendo, inclusive, refletir a forma em que determinado indivíduo o trata; c) Psicanálise. Adurens e Melo (2017) tem como objeto de estudo, no TEA, os seguintes aspectos relevantes para as intervenções: o psíquico, o social e o orgânico, priorizando as relações de desejo para obter a formação subjetiva e o surgimento do sujeito desejante. O tratamento do autismo, na psicanalise, foca no que falta na constituição de um sujeito psíquico, de forma que sua aprendizagem surja como uma consequência da sua integração subjetiva no campo significante; d) Terapia ABA (Análise Aplicada do Comportamento). Bagaiolo; Guilhardi; Romano apud Schwartzman; Araújo (2011) apresentam o maior compêndio de evidências científicas em relação ao prognóstico positivo de indivíduos com TEA. Essa linha teórica é originada diretamente no behaviorismo radical, que foi descrito por Skinner e que entende o comportamento como uma resposta ocasionada e mantida por eventos antecedentes e consequências reforçadoras ou punitivas. Michael (1993), de maneira generalizada, levanta o fato de determinados estímulos tornarem-se motivadores quando aparecem como antecedentes a uma resposta que, provavelmente, terá como consequência reforçadores, aumentando, assim, sua frequência. A motivação, portanto, é o centro da manifestação ABA, por acreditar que o ser humano é capaz de aprender novas habilidades, ou ainda alterar seus comportamentos, caso esteja motivado. Uma nova habilidade a ser ensinada para a criança deve sempre ser pareada com sua definida instrução e, quando a criança, mesmo que com ajuda, responde adequadamente à demanda solicitada, cabe ao terapeuta gratificá-la com o que, na terapia, é chamado de reforço positivo, assim Mello (2007), corrobora a questão em evidência. O fonoaudiólogo é importante para o acompanhamento no caso de o aluno ter dificuldades na aquisição de linguagem verbal e na linguagem não verbal. A terapia ocupacional é necessária para a reorganização sensorial, porque, comumente, a criança com TEA tem questões sensoriais importantes para as quais, sem o tratamento ocupacional, a terapia psicológica se torna ineficaz (TEIXEIRA, 2016). 56 O mesmo autor assinala que o ambiente sociocultural e afetivo da criança com TEA deve ser enriquecido com ações do tipo iniciação esportiva e atividades sociais, considerando que essas ações desencadeiam uma variedade de estímulos, normalmente supervisionados pelos pais já orientados sobre o TEA. Do mesmo modo, a interação com outras crianças da mesma faixa etária proporciona contextos sociais que permitem vivenciar experiências que dão origem à troca de ideias, de papéis e ao compartilhamento de atividades que exigem negociação interpessoal e discussão para a resolução de conflitos. Dessa forma, é possível melhorar suas habilidades sociais, entendendo que esse tipo de transtorno compromete o desenvolvimento social de algumas crianças desde os primeiros anos de vida. 4.2 Trabalho colaborativo entre equipe multidisciplinar e professores da Educação Básica Para Correia (2017), a colaboração é um componente essencial da inclusão porque encoraja docentes e discentes a provocarem ambientes de entreajuda e, a confiança e o respeito mútuos são essenciais para estabelecer estratégias. Sendo assim, há a possibilidade de trocar experiências e compartilhar dúvidas e sucessos. Colaboração é o termo necessário e preciso entre a equipe multidisciplinar e o professor da Educação Básica, conforme defende Imbernón (2009). Essa formação contempla atividades colaborativas que superem a barreira do isolamento e do individualismo, despertem o sentimento de pertencimento à escola enquanto coletivo, valorize a prática, não só pelo conhecimento e domínio de um conteúdo específico, mas pelas relações que estabelece e pelas perspectivas que constrói em termos de novos conhecimentos e percursos. Desse modo, ressaltar a colaboração, no campo das discussões de ideias, é uma alternativa para melhorar o ensino-aprendizagem e o desenvolvimento na escola. Peterson (2006) afirma que os programas inclusivos não podem ser bem sucedidos em escolas públicas, se professores do ensino regular e da educação especial não estiverem capacitados para implementar programas de ensino colaborativo. Isso reafirma quão necessária é a colaboração entre os dois segmentos da educação. Na implementação colaborativa é preciso buscar condições de uma colaboração eficaz a partir de uma série de compromissos, implicações, cujas repercussões práticas e 57 benefícios são para todos. Dentro desse processo de reflexão, Correia (2017) assinala que, na inclusão, o professor da educação regular deve conciliar-se com o da especial e com os pais, de forma colaborativa, para desenvolver estratégias mais ativas nos processos de aprendizagem do estudante, sendo que as famílias são personagens importantes e aptos para tomar decisões. Para Cook e Friend (1990) colaboração é um estilo de interação entre, no mínimo, dois parceiros equivalentes, engajados num processo conjunto de tomada de decisão, em direção a um objetivo comum. Os autores apresentam características colaborativas que promovem um ambiente satisfatório para o processo de ensino aprendizagem: 1 – Existência de objetivos comuns 2 – Metas mútuas e aceitas por todos os participantes 3 – Igualdade na tomada de decisão 4 – Responsabilidades compartilhadas 5 – Assumem os resultados alcançados 6 – Compartilham os recursos materiais e humanos 7 – A crença individual é a base da participação colaborativa (COOK & FRIEND,1990). A legislação brasileira contempla o trabalho colaborativo, como nos textos da Resolução CNE/CEB n.º 2/2001, que institucionalizou as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica (Brasil, 2001) e que apresenta os primeiros apontamentos sobre o trabalho em conjunto, entre a Educação Especial e a Regular. Mas, foi em 2008 que essa orientação se fortaleceu com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, mediante uma Educação Especial que priorizasse as seguintes metas dentro da escola: orientar a organização de redes de apoio, incentivar a formação continuada, identificar recursos e serviços e desenvolver práticas colaborativas. 4.3 Componentes do PEI A função do atendimento educacional especializado é identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem as barreiras para a plena participação dos estudantes, considerando suas necessidades específicas. Desse modo, os componentes abaixo descritos atendem os critérios sugeridos 58 para esta pesquisa. 4.3.1 Identificação do estudante Faz-se necessário identificar o estudante, colhendo informações básicas para se ter um acompanhamento mais dedicado, conforme cita Oliveira (2017, p. 2) “Deve conter informações básicas do discente, como: idade, curso/modalidade, condição de público-alvo da educação especial, entre outros”. É preciso que contenha dados que identifiquem o aluno, além dosnomes e assinaturas dos pais e/ou responsáveis, data de ingresso na escola, data da elaboração do plano, disciplinas cursadas, etc. Após a Identificação do aluno deve ser seguido o passo a passo, conforme Barbosa e Carvalho (2019, p.) citam: Passo 1 - Após a matrícula, o estudante preenche um formulário com propósito de identificar se é um caso de estudante PAEE ou com algum transtorno funcional específico. É importante que a equipe previamente constituída trabalhe nesse momento, de modo a sanar quaisquer dúvidas no preenchimento do formulário; Passo 2 - Encaminhamento à equipe constituída para o andamento avaliativo acerca da resposta obtida; Passo 3 - A equipe fará contato com a família desses estudantes e agendará um encontro antes do início do ano letivo; Passo 4 - A equipe realiza o primeiro encontro com o estudante. Há casos em que é necessária a presença dos pais e pode acontecer de apenas um encontro ser suficiente para obter as informações necessárias para o início dos trabalhos. Em outros casos, a coleta dessas informações demanda mais de um encontro. Passo 5 - A equipe e a Coordenação de Curso em que o aluno está matriculado realiza a primeira reunião para discussão e encaminhamento dos trabalhos. Esse passo a passo contribui sobremaneira para melhor conhecer o estudante e ter um acompanhamento mais qualificado. 4.3.2 Relatório circunstanciado O Relatório Circunstanciado é preenchido a partir da observação feita por todos os profissionais da educação, como também da família. Essa é a primeira etapa do planejamento individualizado, por conter o histórico de vida e o desempenho do aluno. De acordo com o Plano de Desenvolvimento Individual do Aluno, do estado de 59 Minas Gerais (PDI/SEE-MG, 2013, p. 09), é preciso considerar algumas questões no momento da sua construção, como: • Quando a deficiência, TGD foi diagnosticada? • Quem fez o diagnóstico? • Qual foi a reação dos pais/família ao receber o diagnóstico? • Como é a relação dos pais/famílias com o/a estudante, desde o diagnóstico? • Qual o entendimento do/da estudante em relação ao diagnóstico? • Quem acompanha o/a estudante, no seu processo de desenvolvimento, desde o nascimento? • O/A estudante andou com qualidade? Falou com qual idade? • O/A estudante toma algum medicamento? Se sim, qual é o medicamento? Que efeitos causa no/na estudante, relativo à atenção, memórias, estado de alerta, dentre outros. • Outras informações relevantes. Para o processo de avaliação, no diagnóstico inicial, é muito importante conhecer o sujeito que será avaliado, e que o processo se inicie a partir do conhecimento da história desse/dessa estudante, até sua chegada à escola. Essas informações devem ser fornecidas pela família do/a estudante, pelos relatórios clínicos e por outras escolas que ele/ela tenha frequentado. Em consonância com a ideia, o mesmo documento (p 10) complementa sobre a experiência escolar: • O/A estudante frequentou creche? • Quando o/a estudante foi à escola pela primeira vez? • Qual era a escola? • Como reagiu? • Qual o conceito que os pais/família/responsáveis dão para essa primeira experiência escolar do/da estudante (ruim, regular, bom ou ótimo)? Justifique. • O/A estudante passou por outras escolas? Quais? Como foi o seu desenvolvimento? Qual o motivo da mudança de escola? • O/A estudante sofreu preconceito/e/ou bullying por parte de colegas, professores e/ou outro/outra profissional da escola? • Nas escolas ou em anos anteriores, algum professor ou alguma professora estabeleceu um relacionamento diferenciado com o/a estudante? Explique Teve algum apelido na escola por parte dos colegas ou professor/professora? • O/A estudante já é alfabetizado/alfabetizada? • Se sim, ele/ela gosta de ler? O que ele/ela gosta de ler? • Ele/ela gosta de estudar? • Quem estuda com ele/ela ou ajuda nas tarefas de casa? • Ele/ela tem dificuldade nas tarefas de casa? Por quê? • Como é o desempenho escolar dele/dela? • Por que os pais/família/responsáveis escolheram esta escola para sua filha / filho? • O que os pais/família/responsáveis esperam dessa escola, no processo de desenvolvimento de sua filha / filho? • Os pais leem? Gostam de ler? O que gostam de ler? • Qual o nível de escolarização dos pais/família? • Outras informações relevantes. 60 4.3.3 Dificuldades É primordial a percepção das dificuldades apresentadas pelos alunos, nos campos mais diversos da convivência e da aprendizagem. Esse tópico é essencial no registro de cada estudante. De acordo com Coscia (2010), quando o processo de ensino aprendizagem é iniciado com a criança autista, o professor sente a sensação de que ela se recusará a interagir e a estudar qualquer coisa sugerida por ele. Nesse caso, cabe ao professor adaptar um ambiente adequado, com intervenções precisas para que aconteça a comunicação. Rosa (2005) destaca que o trabalho na Educação Especial, ou no Atendimento Educacional Especializado (AEE), requer muito mais do professor, pois, além do dever de ensinar e auxiliar na construção de conhecimento acadêmico, o educador precisa ter entusiasmo e acreditar no potencial de seu aluno, mudando frequentemente sua prática pedagógica, seus objetivos e perspectivas. 4.3.4 Habilidades No campo da observação prática convém observar os campos de atuação de maior interesse do estudante, como forma de melhor aprofundar o acompanhamento individualizado a partir dos seus interesses e afeições, ponto de partida para o desenvolvimento de habilidades. Convêm compreender a importância da percepção entendida como a captação de informações e conhecimentos do mundo exterior, e também como um hábito com suas próprias características. Para a inclusão de todos, é preciso ser solidário, cooperativo e participativo, possibilitar a participação para que todos, realmente, façam parte do processo, já que as tecnologias estão cada vez mais avançadas e essencialmente desenvolvidas para ajudar na comunicação, locomoção e qualidade de vida de aqueles que possuem as mais diferentes necessidades especiais. Assim, a população pôde se beneficiar de tantas mudanças através da história. Jamais se teve tantas oportunidades e tempo propício para a inclusão. 4.3.5 Material de apoio No PEI, as estratégias a serem utilizadas estão na abordagem da Lei n.º 61 9.394/96, em seu artigo 59, inciso I, em que diz que os estudantes PAEE devem ter assegurados, pelos sistemas de ensino, os “currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para atender às suas necessidades” (BRASIL, 1996). A Lei n.º 13.146/2015 define como tecnologia assistiva ou ajuda técnica: [...] produtos, equipamentos, dispositivos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que promovam a funcionalidade, relacionada à atividade e à participação da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, visando à sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social (BRASIL, 2015). A Lei instituiu o estatuto da pessoa com deficiência para assegurar e promover condições de igualdade, exercício dos direitos e das liberdades fundamentais, e, com isso, atingir a inclusão social e a cidadania de todas as pessoas com deficiência. 4.3.6 Avaliação A avaliação se dá na utilização dos instrumentos adequados às características do aluno. Nesse formato, avaliar deve ter o entendimento processual e não de desempenho. Brescia (2015) fala sobre esse aspecto, defendendo que o professor deve avaliar o grau de manutenção, ao longo do tempo, das habilidades adquiridas e a autonomia na sua execução, já que o educando pode manifestar sua aprendizagem de diferentes formas. Tannús-Valadão (2013) contribui falando na importância de o PEI não ser elaborado de forma isolada, posto que o documento requer o compartilhamento de vários saberes, um complementandoo outro. O trabalho colaborativo é uma das estratégias que pode favorecer a inclusão. Na maioria das vezes, o PEI é elaborado somente pelos docentes do aluno. Porém, a responsabilidade pelo documento é de competência da discussão formulada em equipe, por entender que é um trabalho colaborativo entre os diferentes sujeitos da escola, considerando a presença da família do aluno. É preciso, também, considerar a participação dos vários segmentos que protagonizam o auxílio, os quais realizam ou já realizaram o atendimento do aluno a quem será dirigido o PEI. Segundo o PEI, esses são os principais sujeitos que devem se envolver nos trabalhos com o 62 plano “[...] tendo como característica ser um planejamento individualizado, sendo periodicamente revisado e avaliado”. A partir da avaliação se definirá pela continuidade ou alteração do planejamento. Vale salientar que o documento do PEI é flexível, com possibilidades de revisões, sempre que houver necessidade, para o bom desenvolvimento do aluno. 4.3.7 Formulário A proposta de um formulário que poderá ser utilizado para a confecção do documento, serve apenas de modelo, considerando não haver uma forma ou padrão único a seguir. Cada escola pode confeccionar o seu próprio formulário de PEI, cuidando para que fique bem delineado, com os campos de informações dispostos de maneira clara, pontuada, a fim de não deixar margem para dúvidas à equipe responsável por sua escrita, conforme quadro 1 com discriminação do Plano Educacional Individualizado. Quadro 1 – Modelo de Plano Educacional Individualizado PLANO EDUCACIONAL INDIVIDUALIZADO NOME: CURSO: COMPONENTE CURRICULAR: DATA DE ELABORAÇÃO: DOCENTE: DATA DE AVALIAÇÃO: RELATÓRIO CIRCUNSTANCIADO NECESSIDADES EDUCACIONAIS ESPECIAIS HABILIDADES: DIFICULDADES: ADAPTAÇÕES CURRICULARES: Objetivos e Metas: Metodologias: Material de Apoio: Critérios e Métodos e Avaliação: REVISÃO E REFORMULAÇÃO ______________________________________________ assinatura Fonte: Elaborado pelo autor (2022), com base em: BENVENNTI, Vânia (2019). A elaboração e implementação de um Planejamento Educacional Individualizado envolve vários sujeitos, no decorrer do processo das mais diversas 63 etapas de trabalho e tomadas de decisões colaborativas. Para tanto, trabalhar com o PEI requer desafios para muitos, sobretudo para os profissionais da educação envolvidos com a proposta, entendendo quão importante se faz investir na formação desses profissionais, por pensar numa necessidade contínua, não apenas para os docentes, mas para todos os educadores que querem se tornar inclusivos. O planejamento educacional individualizado exige ação e procedimento colaborativo da comunidade implicada, com o envolvimento dos pais do estudante, uma vez que, na maioria dos casos, eles são importante fonte de informações. 64 5 ESTADO DA ARTE: O QUE ESTÁ SENDO PRODUZIDO SOBRE O TEMA O estado da arte é a busca por pesquisas iguais ou semelhantes, e até mesmo complementares, dos aspectos da pesquisa pretendida, que fornecerão conceitos, dados e informações passíveis de reflexão para a construção de novos conhecimentos (LAKATOS, 2021). 5.1 Estado da arte na produção científica no ensino de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Plano Educacional Individualizado (PEI) Ao pensar nas condições de aportes diferenciais, é preciso rever posicionamentos sobre desigualdade, com visão sobre a diversidade, entendendo que a sociedade está composta de elementos plurais, com necessidades de visibilidade sobre esse aspecto. A multiplicidade de perfis contribui na formação do conjunto social, com cada ser inserido no seu contexto de vivência e aprendizagem, como também de habilidades. Portanto, abordar o Ensino de Alunos com Transtorno do Espectro Autista e o Plano Educacional Individualizado (PEI), na rede municipal de ensino de Cícero Dantas – BA e, em específico, o trabalho realizado no Centro de AEE Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes, é respeitar essas diferenças e buscar recursos para um ensino e uma aprendizagem na vida desses alunos. De acordo com Carvalho (2009): Todas as crianças, jovens e adultos, em sua condição de seres humanos, têm direito de beneficiar-se de uma educação que satisfaça as suas necessidades básicas de aprendizagem, na acepção mais nobre e mais plena do termo, uma educação que signifique aprender e assimilar conhecimentos, aprender a fazer, a conviver, a ser. Uma educação orientadora a explorar os talentos e capacidades de cada pessoa e a 65 desenvolver a personalidade do educando, com o objetivo de que melhore sua vida e transforme a sociedade (CARVALHO, 2011, p.14). Nessa perspectiva, foram pesquisadas as produções acadêmicas que têm se debruçado sobre o ensino de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e sobre o Plano Educacional Individualizado (PEI), assim como a percepção dos professores que trabalham no Atendimento Educacional Individualizado (AEE) e na modalidade regular na Educação Básica, suas dificuldades e os desafios por eles enfrentados, e compreendê-los para, assim, oferecer contribuições para este estudo. Do mesmo modo, com a finalidade de destacar as propostas de ensino e a implementação e utilização do PEI na sua contribuição para a inclusão de alunos autistas, além de analisar como têm sido utilizadas por professores para superar reveses, foi realizado um levantamento bibliográfico de pesquisas produzidas nos últimos 5 (cinco) anos, na área da Educação/Ensino. O recorte foi escolhido considerando o marco temporal destacado em um dos objetivos específicos desta investigação. Dessa maneira, foi considerado importante realizar um levantamento da produção na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). Inicialmente, a sondagem nesse motor de busca revelou que a palavra-chave Ensino de Alunos com Espectro Autista e Plano Educacional Individualizado está presente nas distintas áreas do conhecimento, com variados focos de estudo que abordam: a relação da inclusão do aluno com TEA, o currículo na educação básica, o currículo na educação especial, a formação de professores para trabalho com alunos com TEA, a formação continuada de professores em AEE, o Plano Educacional Individualizado, as Propostas de Ensino de alunos com TEA, as Dificuldades e desafios da inclusão de alunos com TEA e o Ensino e Aprendizagem de Alunos especiais. No entanto, a pesquisa centrou-se na área de Educação/Ensino e foram filtrados os resultados usando os descritores: ensino de alunos com TEA, dificuldades e desafios docentes e, plano educacional individualizado. Como resultado, foram obtidos trinta e dois (32) trabalhos, entre teses e dissertações, dentre os quais, prévia análise, foram selecionadas as cinco (05) produções que mais se aproximavam da temática tratada neste estudo. Como critério de proximidade foram escolhidos trabalhos que versavam sobre as práticas e a atuação de docentes vinculadas à inclusão de alunos com TEA focando nos desafios e as dificuldades enfrentadas no âmbito do ensino desses alunos e que abordassem propostas implementadas a partir 66 da utilização do Plano Educacional Individualizado, seja tratando de algum desses elementos ou de todos em conjunto. Assim, foram tomadas cinco (05) dissertações: a) Práticas docentes e a inclusão de alunos com transtorno do espectro autista em escolas do município de Alegrete, RS, de Auristela de Oliveira Fernandes, relatório apresentado em 2017; b) Plano de desenvolvimento educacional individualizado: as contribuições para o desenvolvimento do aluno com transtorno do espectro autista na rede pública municipal de ensino em Aparecida de Goiânia, de Lívia Alves Moreira, dissertação defendida em 2020; c) Plano educacional individualizado e sua importânciapara a inclusão de crianças autistas, de Marines Andreazza de Oliveira, dissertação defendida em 2020; d) Atuação do professor do AEE: desafios da inclusão de alunos com TEA, de Adams Ricardo Pereira de Abreu, dissertação defendida em 2021; e) A percepção de professores sobre os desafios e possibilidades de implementação do plano educacional individualizado (PEI) para alunos com transtorno do espectro do autismo, de Gabrielle Lenz da Silva, dissertação defendida em 2021; O quadro 2 sistematiza os achados destacados na (BDTD): Quadro 2 – Relação de teses e dissertações encontradas na BDTD RELATÓRIO/ DISSERTAÇÕES Autor Título Ano/ Universidade Orientador(a) Auristela de Oliveira Fernandes Práticas docentes e a inclusão de alunos com transtorno do espectro autista em escolas do município de Alegre/RS (Relatório crítico reflexivo) 2017, UNIPAMPA Paula Trindade da Silva Selbach Lívia Alves Moreira Plano de desenvolvimento educacional individualizado: as contribuições para o desenvolvimento do aluno com transtorno do espectro autista na rede pública municipal de ensino em Aparecida de Goiânia 2020, UFG Vanessa Helena Santana Dalla Déa 67 Marines Andreazza de Oliveira Plano educacional individualizado e sua importância para a inclusão de crianças autistas 2020, UNIOESTE Adriana Zilly Adams Ricardo Pereira de Abreu Atuação do professor do AEE: desafios da inclusão de alunos com TEA 2021, UERN Adelaide Alves Dias Gabrielle Lenz da Silva A percepção de professores sobre os desafios e possibilidades de implementação do plano educacional individualizado (PEI) para alunos com transtorno do espectro do autismo 2021, UFPEL Síglia Pimentel Höher Camargo Fonte: do autor (2022). O relatório crítico-reflexivo apresentado no curso de mestrado profissional da UNIPAMPA, de Auristela de Oliveira Fernandes (2017), Práticas docentes e a inclusão de alunos com transtorno do espectro autista em escolas do município de Alegrete, RS, buscou oportunizar espaços de reflexão sobre o processo de inclusão de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em encontros de partilha de saberes com professores da rede municipal de Alegrete/RS. Através de uma pesquisa intervencionista, teve por objetivo planejar e implementar momentos de formação continuada. As atividades foram organizadas partindo de um convite aberto aos professores das trinta e quatro (34) escolas da Rede Municipal de Alegrete/RS, com alunos que apresentavam Transtorno do Espectro Autista (TEA) matriculados em suas salas de aula regular ou aos que tivessem interesse no tema. O censo escolar ao qual a autora teve acesso, apontava que o município tinha vinte e um (21) alunos com esse transtorno, matriculados nas escolas de ensino comum da Rede Municipal de Ensino. Esse dado permitiria a criação de um grupo de, no mínimo, vinte e um (21) professores para participar no processo. O convite foi feito para toda a rede municipal, pois a intenção era que o grupo fosse formado por sujeitos que demonstrassem interesse no tema sugerido. A dinâmica de intervenção proposta foi realizada por meio de círculos de aprendizagem, em 6 (seis) encontros, e denominada Discutindo o autismo em rede. Para a autora “Os círculos de aprendizagem são metodologias de ensino não formal, participativas, dinâmicas, fundamentadas na experiência dos participantes e particularmente incentivadoras da aprendizagem” (FERNANDES, 2017, p. 36). 68 A autora menciona que, no ano de 2016, foi realizado o primeiro encontro com os participantes que aceitaram o convite para fazer parte na pesquisa, e foi um momento de explicações, diálogos, reflexões e diagnóstico de grupo, tendo como objetivo o planejamento dos próximos encontros. Nesse encontro ficou acordado que os círculos trariam para o debate: Autismo: histórico e definições; Escalas de Triagem do TEA; Métodos de intervenção: ABA, TEACCH, Comunicação Aumentativa e Alternativa e; Oficina de criação de álbum com seleção de atividades adaptadas para as pessoas com TEA. A autora ainda cita quando coloca que, “ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho. Aprendemos em comunhão mediatizados pelo mundo”. E concorda com ele, mencionando que, “uma escola para todos tem como uma de suas bases o diálogo que possibilita a reflexão, com o objetivo de formar cidadãos da práxis progressista, transformadora da ordem social, econômica e política injusta” (FERNANDES, 2017, p. 37). Corroborando essa ideia, cita que o instrumento de registro e avaliação da intervenção utilizado foi a caderneta de metacognição (o que eu aprendi? como eu aprendi? o que eu não entendi?). Nessa caderneta, os participantes deveriam registrar suas impressões, a cada encontro, por meio de registro escrito refletindo sobre seus ensinamentos e aprendizagens. Para a autora, o recurso possibilita compreender o que o sujeito da pesquisa conseguiu assimilar, bem como o que ainda necessita ser aprofundado. Destaca-se que, ao final do círculo, foi proposto o seminário Mostra de Aprendizagens, pois, para a autora [...] os círculos estabelecem vínculos e aprendizagens mútuas [...] Durante o trabalho, muitas aprendizagens. E fomos descobrindo o Transtorno do Espectro Autista, suas limitações e possibilidades nas práticas docentes (FERNANDES, 2017, p. 39). Ressalta-se que os participantes estiveram representados por cinco (5) profissionais de apoio aos alunos com deficiência, dois (2) profissionais do AEE e seis (06) professores regentes. E ficaram assim organizados: cinco (5) profissionais da área da educação infantil, seis (6) de anos iniciais e dois (2) do AEE. Evidencia-se ainda que, dos profissionais participantes, cinco (5) atuam diretamente com alunos com TEA, como no caso dos profissionais de apoio; dois (2) 69 profissionais no AEE; e, dos (6) seis professores regentes, apenas quatro (4) atuam com alunos com essa deficiência, sendo que os outros dois (2), que não estão diretamente atuando com essas crianças, propuseram-se a analisar, em suas escolas, casos de alunos com TEA. A autora conclui dizendo que, em um histórico de exclusão, a educação tem sido um dos artífices da segregação, do privilégio dos que não se apresentavam fora dos “padrões” de “normalidade”. E que, embora muitos educadores reclamem da falta de formação, a baixa adesão ao projeto fez a autora refletir se realmente há o desejo de incluir, ou se não sabemos lidar e aceitar verdadeiramente as diferenças. Destaca, ainda, como ponto positivo da intervenção, a utilização das cadernetas de metacognição que proporcionaram o registro e a observação da evolução do grupo, na assimilação dos conceitos e temas estudados. “Uma forma de estimular a escrita por parte dos sujeitos desta pesquisa. O professor precisa registrar mais suas atividades, escrever sobre suas ações, também ser um pesquisador” (FERNANDES, 2017, p. 69). A autora ressalta que o grupo final de sujeitos da pesquisa ficou composto por quatro (4) professoras regentes, duas (2) monitoras (profissionais de apoio com alunos com deficiência) e duas professoras de AEE que se comprometeram com o trabalho e aceitaram que seus relatos fizessem parte do seminário final. Os sujeitos desta pesquisa; educadores da rede municipal, profissionais de apoio, e profissionais responsáveis pelas salas de recursos multifuncionais, ao visitar as escolas, escolhendo turmas com alunos com TEA para analisar e criar recursos para esses alunos, constaram, em seus relatos, que nenhuma dessas turmas contava com a rotina de atividades da turma. Dessa forma, entende-se esse trabalho como de fundamental importância para o debate sobre TEA, pois o mesmo deixa de manifesto a relevância da formação dos professores para trabalharem com alunos com tais condições, tendo em vista as suas especificidades. Esses alunosAtualmente, sou Secretário Municipal de Educação, Cultura e Lazer da cidade de Cícero Dantas. Se procurar bem você acaba encontrando. Não a explicação (duvidosa) da vida, Mas a poesia (inexplicável) da vida (1989) E com Drummond me deixo envolver, para continuar o trajeto, agradecendo aos meus amados e sempre apoiadores e incentivadores da vida: Meus pais, pela grandeza da vida e oportunidade terrena de evolução. Ana Márcia Carvalho de Oliveira, minha mãe Marcinha: Tenho às vezes vontade de ser Novamente um menino E na hora do meu desespero Gritar por você Te pedir que me abrace E me leve de volta pra casa Que me conte uma história bonita E me faça dormir (Carlos, 1978). Mãe, espelho da minha alma, grandeza da gênese do meu ser, inspiração e calor protetor sempre. A, meu pai, José Rutemarques dos Santos Castro, símbolo de luta, garra e perseverança, que me transporta para os ensinamentos ditos, mesmo calado. “Naquela mesa ele sentava sempre e me dizia sempre o que é viver melhor” (1972). A meus lindos sobrinhos e afilhados, Ravi Castro e Matias Castro, seres de luz e empatia, que vieram trazer renovação espiritual e ensinamentos subjetivos a toda a família. A Gael Castro, in memoriam, anjo de luz que veio trazer consolidação de laços fraternos à família. Meu pensamento sempre te busca e: “Hoje eu sonhei com você Saudade me faz sofrer Tantas lembranças no ar Me fazem chorar Me fazem querer De novo encontrar você” (Exaltasamba) A meus irmãos, Sérgio Castro e Vinícius Castro, extensão de amor e dedicação incondicional e Carla Patrícia, minha cunhada, pela atenção e disposição sempre. A Ricardo Almeida, prefeito de Cícero Dantas, pela confiança em depositar nas minhas mãos a Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Lazer, responsabilidade tamanha com os pilares educativos de um povo. A meu grupo de trabalho da SEMEC, por me suportar nos instantes mais diversos, nas minhas repentinas atitudes de êxtase vital e variação pedagógica. À Maria da Conceição Ferreira Andrade Carvalho e Maria Emília Ferreira Carvalho, pelos momentos cruciais de dor e desespero, mas seguras na fé que consola e cura João Felipe: ele é um milagre! “A gente se apaixona por nossos amigos”, já dizia Mônica Martelli; consagro a presença deles, mesmo na distância física que o Mestrado trouxe e me faz saudoso, de cada volta ao aconchego em Lajeado. Aos amigos do Rio Grande do Sul, em especial Jhonathan Corsini, Amanda Evelyn, Luciano e Valerie Charry. A Glaydston Machado e Renata Dantas, grandes incentivadores desta vitória e porto seguro nas travessias que me fizeram desacreditar, sempre me mostraram que era possível. Deus os guie sempre! Ao meu orientador, Professor José Claudio Del Pino, por aceitar me orientar nesse trabalho, e me ensinar o ofício normativo que as regras impõem ao texto. A todos que direta e indiretamente contribuíram para a formação deste trabalho. Gente deve ser o bom Tem de se cuidar De se respeitar o bom Está certo dizer que estrelas Estão no olhar De alguém que o amor te elegeu Pra amar... Gente espelho de estrelas, Reflexo do esplendor Se as estrelas são tantas, Só mesmo o amor. Caetano Veloso E, para não concluir, num suspiro aliviado, digo: “Aprendi a ser o máximo possível de mim mesmo” Nelson Rodrigues. “O mundo não é. O mundo está sendo. Como subjetividade curiosa, inteligente, interferidora na objetividade com que dialeticamente me relaciono, meu papel no mundo não é só o de que ocorre, mas também o de quem intervém como objeto de ocorrências. Não sou apenas objeto História, mas seu sujeito igualmente.” Paulo Freire RESUMO A proposta desta pesquisa traz como discussão a inclusão de estudantes com Transtorno do Espectro Autista como desafio no processo de ensino, apropriando-se do Plano Educacional Individualizado como instrumento norteador, cujo conteúdo contempla o formato colaborativo com a participação dos envolvidos nos contextos escolar, familiar e clínico. A busca é a de melhor atender as especificidades de cada realidade como princípio para atender à pergunta macro: como a análise do ensino de alunos com Transtorno do Espectro Autista a partir do Plano Educacional Individualizado pode melhorar a qualidade de vida e a aprendizagem do estudante com transtorno? A partir desse questionamento nasceu o objetivo do presente estudo, que é analisar o ensino de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), a partir da utilização do Plano Educacional Individualizado (PEI). Para a construção do trabalho foi realizado um levantamento bibliográfico em livros, documentos legais e nas bases de dados da SciELO e do Google Acadêmico, utilizando os termos em português: Transtorno do Espectro Autista, Plano Educacional Individualizado e Inclusão Escolar. Esse levantamento indagou sobre os parâmetros legais da inclusão, com seleção de leis que versam sobre especificidades do transtorno e sobre a importância da aplicação de um Plano Educacional Individualizado desde os anos iniciais. Esse aporte teórico mostrou a necessidade de adequações e práticas individualizadas no ensino de pessoas com Transtorno do Espectro Autista, e do delineamento de um Plano Educacional Individualizado. Quanto à metodologia, enquadra-se como pesquisa de estudo de caso, com aporte teórico de Yin (2014); de abordagem qualitativa, com respaldo em Gil (2019) e; com coleta de dados, provenientes de um questionário previamente elaborado, com perguntas abertas acerca do ensino de alunos com TEA. A estrutura desse questionário foi baseada em Eixos com a seguinte divisão: I – Perfil geral; II – Ensino; III - Planejamento; IV- Avaliação e V - PEI. Participaram do trabalho oito profissionais, sendo: 03 de apoio pedagógico, 01 de apoio psicológico, 01 de apoio assistencial e 03 professores. A pesquisa aconteceu no Centro Carmelita Joana dos Santos Menezes, situada na cidade de Cícero Dantas – Bahia. Como resultado para análise de dados, utilizou-se Bardin (2016). Palavras-chave: Ensino. Alunos com Transtorno do Espectro Autista. Plano Educacional Individualizado. ABSTRACT The purpose of this research discusses the inclusion of students with Autistic Spectrum Disorder as a challenge in the teaching process, using the Individualized Educational Plan as a guiding instrument, whose content includes a collaborative format with the participation of those involved in school, family and social contexts and clinic. The study is to better meet the specificities of each reality as a principle to answer the macro question: how can the analysis of the teaching of students with Autistic Spectrum Disorder based on the Individualized Educational Plan improve the quality of life and learning of students with disorder? From this questioning, the objective of the present study was created, which is to analyze the teaching of students with Autistic Spectrum Disorder (ASD), from the use of the Individualized Educational Plan (IEP). For the construction of this work, a bibliographic survey was carried out in books, legal documents and in SciELO and Google Scholar databases, using the terms in Portuguese: Transtorno do Espectro Autista, Plano Educacional Individualizado e Inclusão Escolar. This survey inquired about the legal parameters of inclusion, with a selection of laws that deal with specificities of the disorder and the importance of applying an Individualized Educational Plan from the early years. This theoretical contribution pointed the need for adjustments and individualized practices in teaching people with Autistic Spectrum Disorder, and the design of an Individualized Educational Plan. As for the methodology, it fits as case study research, with theoretical support from Yin (2014);requerem um entendimento/estudo da sua condição, por parte dos docentes, a partir do seu diagnóstico, para que estes possam criar mecanismos/estratégias de ensino que forneçam condições para sua aprendizagem. A dissertação de Lívia Alves Moreira, intitulada Plano de desenvolvimento educacional individualizado: as contribuições para o desenvolvimento do aluno com transtorno do espectro autista na rede pública municipal de ensino em Aparecida de Goiânia, do Programa de Pós-graduação em Ensino da Educação Básica do Centro 70 de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação da Universidade Federal de Goiás, está fundamentada em uma perspectiva histórico-cultural. Foi desenvolvida em uma escola pública de Aparecida de Goiânia, em três salas comuns, com três alunos com TEA na faixa etária de 4 a 9 anos. Dentre os 17 alunos com TEA, matriculados nessa unidade de ensino, os alunos supracitados foram indicados pela escola. Destaca-se, ainda, a sala de inclusão utilizada pela rede de ensino. O trabalho inicial da autora se deu a partir da construção da proposta do Plano de Desenvolvimento Educacional Individualizado buscando identificar habilidades comunicativas, de leitura/escrita, de raciocínio lógico matemático, sensoriais, motoras, habilidades sociais e adaptativas, e programando um plano de atendimento (objetivos, atividades desenvolvidas e avaliação final), entre os meses de agosto a dezembro de 2019. No termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), a autora esclarece para os pais e/ou responsáveis, todas as etapas do projeto (MOREIRA, 2020, pp. 124-125), a saber: A pesquisa será realizada em cinco etapas durante um semestre: I - Observação de toda a rotina escolar anotará em um diário de campo para análise, posteriormente se dará a aproximação da pesquisadora com o aluno objetivando a criação de vínculo e confiança; II – Avaliação do desenvolvimento do aluno nas habilidades: comunicativas, leitura/escrita, raciocínio lógico matemático, sensoriais, motoras, sociais e adaptativas; III – Elaboração do plano de atendimento a ser desenvolvido no semestre com o aluno; IV – Intervenção da pesquisadora com a elaboração da nova rotina junto ao aluno e posteriormente no desenvolvimento das atividades propostas; V – Análise dos dados por meio de uma avaliação diagnóstica final no intuito de verificar se o plano de atendimento favoreceu o desempenho do aluno. A autora traz um quadro com a identificação dos alunos que participaram da pesquisa, apresentando ano escolar, diagnóstico e breve histórico, permitindo entender o contexto dos referidos alunos. A pesquisa apresentou uma proposta de Plano de Desenvolvimento Educacional Individualizado (PDEI) que teve por objetivo auxiliar os alunos a alcançarem as exigências do currículo padrão da escola. Dessa forma, fez-se necessário, segundo a autora, a adequação do currículo e a utilização de instrumentos pedagógicos específicos para essa finalidade, mediante o que apresentou no TCLE para os pais/responsáveis, quando propôs a pesquisa. Ressalta-se ainda que o mapeamento inicial realizado com cada aluno, possibilitou as escolhas das atividades pedagógicas que seriam desenvolvidas durante os atendimentos. No mês de dezembro de 2019, foi realizada uma avaliação 71 final, obedecendo os mesmos critérios da avaliação inicial, contidos no PDEI, para comparar os dados e averiguar o sucesso da ação. A fundamentação teórica trazida por Moreira (1997), em seu trabalho dissertativo, compartilha citações de Cunha (2018, p. 57), entre as quais destaca a seguinte: “O professor não tem por ofício o diagnóstico, mas a avaliação e o ensino. Para tal, precisa identificar o transtorno conhecendo seus sintomas para traçar estratégias educacionais”. E ainda de acordo com Cunha (2018, p.12) “O que o professor precisa fazer é observar, avaliar, mediar, para que os recursos pedagógicos de que a escola dispõe sejam apropriados por quem ensina e para quem aprende”. E, por fim, na mesma linha de discussão, Cunha (2018, p. 88), a respeito do aluno coloca que “Ele aprende de forma singular. Há uma relação diferente entre o cérebro e os sentidos, e as informações nem sempre geram conhecimento. Os objetos não exercem atração em razão da sua função, mas em razão do estímulo que promovem”. A autora detalha as intervenções e avaliações realizadas com os alunos, as quais denomina de A, B e C, nas categorias propostas/criadas no PDEI, a partir de quadros, trazendo uma avaliação inicial e final de cada aluno participante da pesquisa. Nessas avaliações aparecem todas as atividades realizadas e uma análise/relato do desempenho dos envolvidos. Verifica-se o aprofundamento e o zelo no trabalho desenvolvido pela pesquisadora, ao criar atividades para cada encontro com os alunos selecionados pela unidade escolar, de forma tal que atendessem suas necessidades, pensando em um ensino contextualizado e adequado para crianças que necessitam de estímulos diferentes. Moreira (2020, p.113), coloca que “A utilização do PDEI, como instrumento de aprendizagem, trouxe maior segurança na prática pedagógica e permitiu que o aluno fosse visto de forma integral”. Ainda destaca que, “como os alunos com TEA tem direito a um currículo individualizado, o PDEI foi elaborado dentro de uma estrutura prática e norteadora que possibilitou as escolhas das atividades, no que tange às habilidades descritas nos instrumentos” (MOREIRA, 2020, p. 113). É importante mencionar que as atividades desenvolvidas pela pesquisadora aconteciam em paralelo com as atividades realizadas pelos professores regentes e de apoio, e que também podia observar o trabalho que eles realizavam com os alunos com TEA. 72 Moreira (2020) ressalta a relevância da sala de inclusão da escola, tendo em vista sua importância para a realização de algumas atividades individuais, destacando que a prática de uso dessa sala não foi vista como segregação, devido a seu caráter de ser utilizada para atividades específicas. A autora destaca que, para o desenvolvimento do trabalho, mesmo apresentando resultados positivos, foi necessário ter paciência e cautela para entender a sua complexidade, e ir aprendendo, durante o percurso, com os erros e os acertos. Isso fez com que a autora precisasse exercer a flexibilidade, modificando planejamentos e reavaliando a metodologia. Destaca ainda que, mesmo não sendo o objetivo da pesquisa, foi constatado que a inclusão do aluno com TEA só vai ser possível se os professores possuírem formação e estiverem dispostos a inserir, em suas práticas docentes, formas para os alunos aprenderem, de forma individual e coletiva, com estratégias específicas para suas necessidades. Assim, o estudo avalia-se como de fundamental importância para o debate sobre o Plano de Desenvolvimento Educacional Individualizado (PDEI), e a sua potencialidade tem destaque no trabalho com alunos com TEA, mostrando-se uma ferramenta primordial para uma ação individualizada e de acompanhamento das necessidades específicas desse público. Também defende o fazer pedagógico dos professores, sejam eles regentes e/ou de apoio, para que se coloquem a disposição para estudar, aprender e modificar as suas práticas, em favor de uma educação, de fato, inclusiva, e que permita a esses alunos se desenvolverem dentro das suas individualidades. O trabalho intitulado Plano individualizado e sua importância para a inclusão de crianças autistas, apresentado por Marines Andreazza de Oliveira, no curso de Mestrado em Ensino da UNIOESTE, em 2020, tem como objetivo geral: Conhecer a Percepção de Professores da Educação Infantil sobre o Plano Educacional Individualizado (PEI) como Estratégia de Organização Curricular para a Inclusão de Alunos com Transtorno do Espectro Autista. A autora destaca que a coleta de dados foi realizada no ano de 2020, por meio de entrevistas semiestruturadas,com professores que atuaram com alunos autistas de pré-escola (4 e 5 anos), no ano de 2019, em centros municipais de educação infantil de um município no oeste do Paraná. Assinala que foram realizadas 27 (vinte e sete) entrevistas, sendo 9 (nove) pessoalmente e 18 (dezoito) por chamada de vídeo, tendo a representatividade de 20 (vinte) centros de educação. 73 A pesquisa foi definida como de cunho qualitativo, na qual utilizou-se a técnica de análise de dados pelo Discurso do Sujeito Coletivo (DSC). O levantamento do número de crianças com TEA atendidas pela rede de ensino foi feito a partir de dados oficiais. Optou-se por definir alunos de pré-escola (4 e 5 anos), que totalizaram 57 (cinquenta e sete), e um total de 44 (quarenta e quatro) professores nessas duas modalidades. Esses professores estavam alocados em 26 (vinte e seis) CMEIs, localizados em 24 (vinte e quatro) bairros, de cinco diferentes regiões do município. A autora ainda afirma que, participaram da pesquisa 27 (vinte e sete professores) do sexo feminino, com idade mínima de 23 e máxima de 60 anos, sendo 60% (16) delas com idades na faixa de 40 a 60 anos. Dentre elas, 41% (11) atuaram no ano de 2019 com crianças de 4 a 5 anos – Infantil 4, e 59% (16) com crianças de idades entre 5 e 6 anos – Infantil 5. Das crianças matriculadas com idades de 4 a 6 anos (até 31 de março), 28,2% (1135) estavam no Infantil 4 e, 71,8% (2893) frequentando o Infantil 5. Para os alunos com TEA, coloca que 1,4% (57) do total de alunos, dezesseis (16) encontram-se nas turmas de Infantil 4 e vinte e dois (22) nas turmas de Infantil 5. Foram 36 (trinta e seis) as crianças com diagnóstico de TEA que fizeram parte da população da pesquisa, na maioria meninos. A faixa etária foi de 4 a 6 anos até o 31 de março do ano em que ocorreu a matrícula. Para a autora, o PEI se apresenta como um instrumento norteador para o caminho da inclusão, e destacou que obteve como proposta conhecer como a inclusão tem acontecido na educação infantil, e como os professores trabalham com o PEI, em todas as suas fases (construção, revisão, implementação). Reflete também sobre a importância de aprofundar o conhecimento sobre o TEA, e as articulações promovidas entre os profissionais da educação e da saúde, e as famílias, para o desenvolvimento da criança autista. Em suma, o trabalho da referida autora deixa clara a importância do PEI e o diálogo entre professores, equipe multidisciplinar e família, para estudar e traçar o melhor caminho a ser percorrido pelos alunos com TEA, dentro das suas especificidades. Ela destaca o PEI como elemento norteador para a construção de um trabalho colaborativo e que atenda às necessidades da criança. O trabalho de Adams Ricardo Pereira de Abreu, submetido ao curso de Mestrado Acadêmico em Ensino, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), intitulado Atuação do Professor do AEE: desafios da inclusão de alunos com TEA. 74 Teve como objetivo analisar a prática docente, sob a ótica dos professores da Sala de Atendimento Educacional Especializado – AEE, no que tange à efetivação do processo inclusivo contemplado nas Políticas de Formação de Professores para estudantes com Transtorno do Espectro Autista – TEA. O autor ressalta que a pesquisa se enquadra como exploratória, de abordagem qualitativa, e é composta por pesquisa documental com a utilização dos laudos das crianças matriculadas na instituição selecionada, assim como da legislação específica acerca da educação especial, com enfoque na educação inclusiva. Com relação à pesquisa de campo, foi realizada com entrevistas semiestruturadas e a aplicação de questionários a 05 (cinco) docentes da sala do AEE, que trabalhavam com crianças com TEA. Para Abreu (2021), a pesquisa de campo possibilitou conhecer e reconhecer a presença das políticas inclusivas nos espaços educativos que têm alunos com TEA. Ressalta, ainda, a necessidade de averiguar a percepção dos professores com relação ao trabalho que desenvolvem junto às crianças com TEA e, identificar, sob a ótica dos docentes, os entraves que dificultam o trabalho para o desenvolvimento dos alunos, nesses espaços. Em relação ao lócus de pesquisa, Abreu (2021) explica as motivações que o levaram a escolher uma escola pública da rede estadual da Paraíba, situada na cidade de Cajazeiras, sertão do Estado. O autor afirma que essa escolha se deu pela ausência de pesquisas relacionadas ao tema e manifesta sua alegria mencionando que o município ficou conhecido como a cidade que ensinou a “Paraíba a ler”. Abreu (2021) ressalta a importância de trabalhos que tragam para o debate a educação especial e a educação inclusiva, e coloca que se faz necessária a abertura da “caixa de pandora” que, para ele, atende pelo nome de exclusão e que, embora tenhamos avançado muito com relação à legislação e às garantias das pessoas com deficiência, ela ainda insiste em ficar aberta. Reportando-se à mitologia grega, cita a liberação de diversos males em nossa sociedade, como: discriminação, preconceito, sofrimento, injustiças. Enfatiza que se faz necessário sair do campo teórico, e que ganhem corpo prático, para que de fato se efetive na escola e na sala de aula. Abreu (2021), destaca que, na pesquisa de campo, junto aos docentes, ficou evidenciado que todos têm uma noção do que é educação inclusiva, mesmo que de modo superficial, e isso evidencia a necessidade de formação continuada dos profissionais, assim como que o número de vagas disponibilizadas é insuficiente. Isso faz com que somente uma pequena minoria tenha acesso à formação, refletindo no 75 trabalho realizado. Desse modo, é necessário que o poder público tenha uma maior sensibilidade para a oferta de formação, pois a qualificação profissional é indispensável, visto que, somente a abertura de salas de atendimento educacional especializado, não resolve, e não inclui, se não se conta com os subsídios necessários e contínuos para serem mantidos. O autor também destaca a falta de estruturação e manutenção do espaço destinado ao atendimento, dos materiais disponíveis, e a dificuldade para o desenvolvimento dos trabalhos junto às crianças com TEA. Os docentes do AEE relatam a não aceitação do diagnóstico e o não reconhecimento das necessidades das crianças por parte da família, nem da atuação do professor da sala regular, o que dificulta o trabalho com as crianças atendidas. Contudo, os docentes julgam conseguir contribuir para o desenvolvimento das crianças com transtorno, com o atendimento e o trabalho no AEE. Em suma, o trabalho do referido autor deixa clara a importância do trabalho realizado pelos professores do AEE, e fala dos desafios que precisam ser superados, assim como do suporte que deve ser oferecido pelo poder público no que diz respeito à inclusão, para que seja efetivada de forma prática, tanto na escola, quanto nas ações cotidianas, perpassando o campo teórico e o da legislação. Destaca-se que a leitura do referido trabalho foi enriquecedora e agregadora no que tange às discussões realizadas e aos resultados apresentados. O trabalho de Gabrielle Lenz da Silva, intitulado A percepção de professores sobre os desafios e possibilidades de implementação do plano educacional individualizado (PEI) para alunos com transtorno do espectro do autismo, dissertação defendida em 2021, na Universidade Federal de Pelotas, no Programa de Pós- graduação em Educação, traz uma discussão de grande relevância sobre o PEI. No estudo consta um apanhando histórico no que se refere à legislação do Brasil e dos Estados Unidos, assim como se refere à obrigatoriedade de sua utilização. Segundo a autora, no Brasil, apenas duas cidades têm uma legislação municipal que normatiza a utilização do PEI com alunos com transtorno do espectro autista. Na introdução do trabalho, Silva (2021), conta a sua trajetória acadêmicae profissional, e sua aproximação com a temática, fazendo perceber que, a sua formação, sempre esteve ligada aos estudos sobre inclusão, alunos com necessidades especiais e alunos com transtorno do espectro autista e, por isso, sentiu a necessidade de fazer um levantamento das produções nacionais sobre o PEI e de 76 sua conceituação enquanto trabalho colaborativo. Também identificou a necessidade de investigar as percepções das professoras quanto às possibilidades e desafios na elaboração do PEI de estudantes com TEA, visto que são elas as principais responsáveis pela sua implementação e quem trabalha diretamente com os aspectos educacionais do aluno com TEA. Silva (2021), faz uma discussão sobre a utilização do PEI, com 16 (dezesseis) alunos do espectro autista, trazendo os principais pontos de cada trabalho, e sua análise acerca do que ficou faltando em cada abordagem, permitindo acompanhar a produção científica em torno do PEI. Também traz um apanhado da legislação brasileira no que concerne à garantia de direitos das pessoas com necessidades especiais, à inclusão, e a alunos com transtorno do espectro autista, fazendo perceber que os professores precisam de formação para possibilitar a aprendizagem, e usar as ferramentas e metodologias adequadas para cada aluno, não contemplando somente a socialização. A autora apresenta, de forma didática, como a escola/rede de ensino/professores deve proceder para compreender todos os documentos que precisam ser vistos, entendidos e elaborados para que, de fato, o PEI se efetive e seja utilizado pelos docentes como metodologia de trabalho escrita e implementada de forma colaborativa. Na figura 2, Silva (2021, p. 46) traz um fluxograma dos planejamentos escolares, no qual explica a função de cada um, dentro da escola, e sua importância para a efetivação do PEI para não ser pensado, elaborado e implementado de maneira incorreta, sem a devida apropriação por parte da unidade escolar e pelos professores. Figura 2 – Fluxograma dos planejamentos escolares 77 Fonte: (SILVA, 2021, p. 46). Silva (2021, p. 47) apresenta, também, as diferenças entre o PEI e o Plano do AEE, tendo em vista a necessidade de entender qual é a função de cada um, como pode ser observado na figura 3 proposta pela autora. Figura 3 – Diferenças entre PEI e Plano do AEE Fonte: (SILVA, 2021, p. 17) Silva (2021) menciona que, entender o papel do PEI nos planejamentos escolares, faz com que se compreenda a sua elaboração, sua finalidade, e possibilita uma maior assertividade na sua implementação. No tocante à metodologia, o trabalho, segundo a autora, enquadra-se como pesquisa empírica de abordagem qualitativa e que, quanto aos objetivos, refere-se às pesquisas exploratórias e descritivas. Participaram dessa pesquisa professoras de contextos em que o PEI é obrigatório (Bethune, nos Estados Unidos e São Gabriel, no Brasil) e docentes de contextos em que o PEI não é obrigatório (Pelotas e Gravataí, no Brasil). Foram realizadas entrevistas guiadas por um roteiro semiestruturado que buscou conhecer as práticas de planejamento dessas professoras. Foi apresentada 78 uma divergência de concepção do que é o PEI entre as professoras de Bethune e de São Gabriel: enquanto as professoras da cidade de Bethune, nos Estados Unidos, compreendem o PEI como um planejamento colaborativo que guia o plano de aula, as professoras da cidade de São Gabriel, no Brasil, entendem que o PEI é um plano para o aluno com autismo que elas elaboram de forma individual, ou seja, sem o auxílio de outros profissionais. Evidenciou-se que, tanto as professoras dos EUA, quanto as do Brasil, apresentaram dificuldades na elaboração e implementação do PEI, como não saber reconhecer as necessidades do aluno e ensiná-lo ou qual o momento de utilização dos recursos diferenciados, chamando a atenção para a falta de materiais e recursos, de tempo para conversar com a educadora especial sobre necessidades imediatas do aluno, dúvidas sobre como trabalhar com as características do TEA em sala de aula, etc. A autora identificou, por meio dos dados analisados, que as professoras dos EUA que utilizam o PEI desenvolvem uma prática de planejamento mais colaborativa do que as professoras brasileiras que o utilizam, e ainda das que não o utilizam. Indica que, no Brasil, o PEI deveria estar na legislação educacional para que todas as escolas passem a utilizá-lo. Contudo, destaca que as dificuldades apresentadas pelas professoras de Bethune evidenciam que somente uma legislação que normatize o PEI não é suficiente para uma prática mais concisa. Faz-se necessário uma formação continuada, oferecida a todos os professores e demais profissionais que trabalham com AEE e com alunos com transtorno do espectro autista, que os respalde, para poder, com propriedade e saber científico, elaborar e implementar o PEI de forma adequada. Desse modo, o trabalho de Silva (2021) possibilita uma reflexão muito agregadora no que tange ao processo de elaboração e implementação do PEI, trazendo a percepção de professores do Brasil e dos Estados Unidos, em contexto de obrigatoriedade ou não de elaboração, e como eles superam os desafios e buscam mecanismos para contribuir com o desenvolvimento dos alunos com transtorno do espectro autista. 79 6 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS De acordo com Gil (2019, p. 17), a busca por conhecimento necessita de metodologia e “Conceitua a pesquisa como um procedimento racional e sistemático que necessita da utilização cuidadosa de métodos, técnicas e outros procedimentos científicos para galgar conhecimentos e contribuições relevantes”. 6.1 Delineamento da pesquisa: Centro de Referência para Atendimento Educacional Especializado (AEE) Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes A pesquisa foi realizada no município de Cícero Dantas, uma cidade do interior da Bahia, situada, aproximadamente, a 334 km de Salvador, capital da Bahia, e a 174 km de Aracaju, capital de Sergipe. Ela faz parte da Microrregião de Ribeira do Pombal, Semiárido Nordeste II, pertencendo ao Núcleo Territorial de Educação (NTE) 17. O município dispõe de unidades escolares particulares, estaduais, municipais e filantrópicas (conveniadas ao município), contemplando Educação Infantil (Creche e Pré-escola), Ensino Fundamental (anos iniciais e finais), Ensino Médio, Ensino Médio técnico, Educação de Jovens e Adultos (EJA) e Educação Especial. A rede estadual é a responsável pelo Ensino Médio e o Ensino Médio Técnico; a rede municipal e a particular atendem a Educação Infantil, o Ensino Fundamental (anos iniciais e anos finais), e uma escola particular que também oferece Ensino Médio. Na tabela 1, pode ser observado o quantitativo de escolas do município: 80 Tabela 1 – Unidades escolares do município Rede Total Urbanas Rurais Estadual 4 2 2 Municipal 20 07 13 Particular 6 5 1 Filantrópica 4 4 - Fonte: Elaborado pelo autor, a partir de busca no Conselho Municipal de Educação (CME) e no Censo Escolar (2022). Por meio da Lei Municipal n.º 342 de 12 de fevereiro de 2019 (republicada em 09 de novembro de 2021), foi criado o Centro de Referência para Atendimento Educacional Especializado (AEE) no município de Cícero Dantas, e o parecer 007/2021 – CME/CD-BA, aprovado em 18 de dezembro de 2021, por meio da Resolução CME n.º 007 credencia e autoriza o funcionamento do Centro de Referência em AEE – Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes. Nos anos anteriores à inauguração do Centro de Referência em AEE Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes, o município dispunha de uma sala chamada “sala de recursos multifuncionais”, vinculada à escola Raimunda Neves Aguiar, e realizava, de forma tímida, um trabalho em paralelo com a escola regular, com atividades em turno oposto, com osalunos atendidos. Contudo, não contava com uma equipe multidisciplinar. Era um trabalho de começar a mobilizar a rede, ou seja, começar a plantar sementes para que a educação especial pudesse começar a avançar. Na tabela 2, consta o quantitativo de alunos registrados no censo escolar da rede. Tabela 2 – Quantitativo de alunos da Educação Especial 2017 2018 2019 2020 2021 2022 46 87 113 136 194 209 Fonte: Elaborado pelo autor, a partir de busca no Censo Escolar - (2022). Destaca-se que o Conselho Municipal de Educação (CME) realizou um trabalho de busca ativa desses alunos, em todas as escolas da rede (estadual, municipal, filantrópicas e particulares), para identificar aqueles que se enquadravam como especiais, e entender se já contavam, ou não, com diagnóstico e laudos médicos que atestassem tais especificidades. Foi um trabalho de formação, orientação e conscientização dos profissionais, das equipes gestoras e das famílias desses alunos, para a importância de possuírem o diagnóstico. Dessa forma, o município conseguiu, através de um trabalho colaborativo, 81 aumentar o quantitativo de alunos registrados no censo escolar, pois os pais, e/ou responsáveis, entenderam a importância de buscar ajuda profissional para seus filhos e de possuírem documentos comprobatórios que garantissem o acesso a um trabalho individualizado para, assim, de fato, serem incluídos e ver atendidas suas necessidades. Nessa perspectiva, quando em 2019 foi inaugurado o Centro de Referência em AEE, montou-se uma equipe multidisciplinar com profissionais de diversas áreas, para o trabalho com os alunos atendidos pela municipalidade. No quadro 3, apresenta-se o detalhamento da equipe de profissionais do Centro de Referência em AEE. Quadro 3 – Equipe de profissionais do Centro Carmelita Joana dos Santos Menezes Profissionais Idade Tempo de atuação no município Formação Atividades realizadas 1 59 40 anos Bacharelado em Serviço Social, Licenciatura em pedagogia Diretora 2 63 40 anos Licenciatura em História e Especialização em Educação Inclusiva Vice-diretora 3 40 4 anos Licenciatura em História, Especialização em Cultura Afro Brasileira Secretária 4 45 18 anos Licenciatura em Pedagogia Supervisora Pedagógica 5 46 8 anos Bacharelado em Psicologia Psicóloga 6 30 2 anos Bacharelado em Psicologia Psicóloga 7 28 7 anos Bacharelado em Serviço Social Assistente Social 8 36 17 anos Licenciatura em Pedagogia, Especialização em Psicopedagogia Psicopedagoga 9 42 7 anos Licenciatura em Pedagogia, Especialização em Psicopedagogia Psicopedagoga 10 30 5 anos Bacharelado em Nutrição Nutricionista 11 29 3 anos Bacharelado em Fonoaudiologia Fonoaudióloga 12 34 1 ano Bacharelado em Fisioterapia Fisioterapeuta 13 37 1 mês Bacharelado em Enfermagem, Mestrado em Ciências da Saúde Assistência aos alunos, familiares e profissionais do Centro 14 59 30 anos Licenciatura em Letras Professora 15 57 28 anos Licenciatura em Pedagogia Professora 16 42 20 anos Licenciatura em Pedagogia Professora 17 43 10 anos Licenciatura em Pedagogia Professora 18 41 8 anos Licenciatura em Letras e Pedagogia Professora 19 38 8 anos Licenciatura em Letras, Bacharelado em Enfermagem e Administração Professora 20 32 8 anos Magistério e Licenciatura em Pedagogia (incompleto) Professora 82 21 38 8 anos Licenciatura em Educação Física e formação em Yoga Professora 22 25 5 anos Licenciatura em Pedagogia Professora 23 40 5 anos Magistério, Intérprete de Libras Professora 24 42 4 anos Licenciatura em Pedagogia Professora 25 42 4 anos Ensino médio Professora 26 31 2 anos Ensino médio Professora 27 31 2 anos Licenciatura em Educação Física (incompleto) Professora 28 22 1 ano Ensino superior incompleto Professora 29 18 1 mês Ensino médio Auxiliar de sala 30 40 3 meses Ensino médio Auxiliar de sala 31 51 4 anos Ensino Fundamental Portaria 32 33 2 meses Ensino médio Vigilante 33 47 8 anos Ensino Médio Serviços gerais 34 44 4 anos Ensino Fundamental Serviços gerais 35 38 3 meses Ensino médio Serviços gerais 36 50 34 anos Ensino médio Serviços gerais 37 35 8 anos Nível superior incompleto Recepcionista 38 21 1 ano Ensino médio Recepcionista 39 24 2 anos Ensino médio Auxiliar administrativo Fonte: Elaborado pelo autor, mediante busca no Setor de Recursos Humanos da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Lazer (2022). Após o levantamento de dados dos profissionais que realizam as suas atividades no Centro de Referência em AEE (idade, tempo de atuação, formação e função), foram selecionados 8 (oito) profissionais que atuam como docentes, no apoio pedagógico e no apoio psicológico e assistencial, para participar da pesquisa, sendo 4 (quatro) professores, 2 (dois) profissionais de apoio pedagógico, 1 (um) de apoio psicológico, e 1 (um) de apoio assistencial. Os 8 (oito) profissionais foram escolhidos tendo como base o objetivo deste trabalho dissertativo, que é sobre o ensino de alunos com TEA. Esses profissionais selecionados assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, no modelo que se encontra nos apêndices do trabalho. Levou-se em consideração, também, o tempo de atuação no Centro de Referência em AEE, e na municipalidade, assim como a sua participação na elaboração do Plano Educacional Individualizado (PEI). Além disso, foi necessário buscar o detalhamento dos alunos com TEA, para compreender aspectos como, idade, tempo de atendimento no centro e grau de TEA. No quadro 4 apresenta-se o detalhamento. 83 Quadro 4 – Alunos com TEA no Centro de Referência em AEE Quantidade Aluno Idade Tempo de Atendimento no Centro Grau de TEA 1 PGRL 6 36 meses F84 2 RJG 11 60 meses F84+F90 3 DSO 12 36 meses F84+G91 4 MJS 13 36 meses F84 5 JMD 7 36 meses F84+F90 6 JPAS 8 24 meses F84 7 ASS 3 3 meses F84 8 AVGR 4 3 meses F84 9 AFS 3 3 meses F84 10 DLSO 4 12 meses F84 11 HOC 3 1 mês F84 12 RSS 3 12 meses F84 13 VGC 3 10 meses F84 14 JERA 3 8 meses F84 15 JHEJ 4 12 meses F84 16 YJP 3 12 meses F84 17 JANS 3 3 meses F84.9 18 NSJ 5 12 meses F84+F90 19 ACSO 1 ano e 11 meses 2 meses F84.9 20 ALSL 7 2 meses F84.8+G40+G93. 4+F98.8 21 ASG 2 2 meses F84.1 22 GOM 7 2 meses F84 23 MOS 14 24 meses F84.1 24 SOC 10 24 meses F84 25 YVNS 3 12 meses F84 26 BJRC 9 12 meses F84+f81 27 HEMO 3 24 meses F84 28 JFOS 3 3 meses F84 29 LMJR 3 3 meses F84.9 30 VOD 9 3 meses F84+F71.1 31 JVPF 7 3 meses 32 BNS 10 36 meses 10F84+F84 33 DWPR 5 4 meses F84 34 EGSC 3 2 meses F84 35 HCB 5 24 meses F84 36 JFCDL 12 24 meses F84 37 PHBS 17 anos 36 meses F84+F84.0 38 ALCA 6 4 meses F90+F84.9 39 GRS 5 3 meses F84.0 40 GOS 7 36 meses F84 84 41 HCAG 15 36 meses F84 42 KBS 6 24 meses F84+F90 43 MASA 6 24 meses F84+Q90 44 SAC 10 36 meses F84 45 AGRS 13 36 meses F84 46 CAOL 20 36 meses F84+G40 47 DESA 15 36 meses F84 48 TSBC 13 36 meses F84.0 49 MTC 15 36 meses Q90+F84 50 ALS 11 12 meses F84+G40 51 DLSS 4 2 meses F84 52 JLAS 3 3 meses F84 53 PLBM 5 12 meses F84 54 WSR 4 5 meses F84.0 55 SS 22 36 meses F84.0+F90+F60.1 56 JSG 1 1 mês F84 57 YMGR 3 4 meses F84.1 58 EJBN 16 24 meses F72+F84 59 MCSS 21 36 meses F72+F84 60 GSM 5 12 meses F84.0 Fonte: Elaborado pelo autor, a partir de busca no Centro de Referência em AEE (2022). Assim, percebe-se que o Centro de Referência em AEE atende 60 alunos com TEA, com diversos graus, conforme os códigos acima listados. Outro aspecto considerado é o tempo de atendimento, sendo que um aluno estava desde a abertura da sala de recursos multifuncionais, outros alunos há alguns anos e, outros, há meses. Que esses alunos não abandonem (evasão), e continuem frequentando o Centro de Referência em AEE, em paralelo com a escola regular, representa uma grande conquista parao município. 6.2 Construção do corpus da pesquisa Na visão de Gil (2019), a palavra qualitativa refere-se às qualidades das entidades e aos processos que não podem ser examinados ou medidos experimentalmente em termos de quantidade, volume, intensidade ou frequência. A pesquisa qualitativa reside no aprofundamento da compreensão de um fenômeno social, por meio da aplicação de questionários e entrevistas, realizados de maneira detalhada, que resultem em análises qualitativas conscientes e articuladas dos atores envolvidos no fenômeno. Nessa perspectiva, a validade da pesquisa não 85 é dada pelo tamanho da amostra, como na pesquisa quantitativa, mas pela profundidade com que o estudo é realizado. As pesquisas são classificadas de acordo com seus objetivos, assim, o objetivo geral deste estudo é de abordagem qualitativa, que segundo Gil (2019, p. 06) é um tipo de pesquisa que promove o detalhamento do problema estudado, tendo como finalidade aprimorar ideias e descobrir concepções acerca do mesmo, atendendo, também, a objetivos gerais e específicos. O problema é a análise de estratégias a partir da problematização do perfil didático-pedagógico dos docentes que utilizam o Plano Educacional Individualizado (PEI) e que trabalham com crianças com TEA. Isso, tendo como desafio o processo de inclusão e aprendizagem e trazendo discussões pertinentes como estudo de caso, ante a carência de um Currículo definido e norteador, no ambiente social escolar pesquisado. O presente estudo alavanca uma discussão acerca da fronteira entre o conhecimento pedagógico sobre inclusão escolar de crianças com autismo e o exercício docente. Desse modo, pensar no distanciamento entre teoria e prática requer (re)pensar cada manifestação que o TEA apresenta. O interesse pelo tema partiu da observação do fazer pedagógico nas experiências de Educação Inclusiva no Centro de Atendimento Educacional Especializado Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes, na cidade de Cícero Dantas – BA, assim como da necessidade de transformações humanizadas, nas práticas, respeitando as diferenças. Entrou em consideração reestruturar e redefinir o currículo utilizando-se do Plano Educacional Individualizado, verificando o estado social e a especificidade do transtorno de cada caso. Portanto, o objetivo geral é analisar o ensino de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) a partir da utilização do Plano Educacional Individualizado (PEI) e os objetivos específicos são: conhecer a percepção dos professores no que tange à evolução do aluno com Transtorno do Espectro Autista (TEA); apresentar as principais dificuldades encontradas pelos professores em lidar com o transtorno, pela carência de um currículo definido e norteador; entender como ocorre o trabalho colaborativo entre a equipe multidisciplinar e os professores da educação básica; verificar o posicionamento dos professores referente à formação para o trabalho com alunos com TEA e; a utilização do Plano Educacional Individualizado (PEI). No que tange à pesquisa, o município de Cícero Dantas – BA possui, desde 2020, o Referencial Curricular Municipal, através do Parecer CME 04/2020, aprovado 86 em 23 de novembro de 2020, e a Resolução CME 04/2020 de 20 de dezembro de 2020 e, por fim, a Portaria de homologação 008/2022 de 23 de março de 2022, documentos que constam nos anexos. Esse referencial foi construído de maneira colaborativa pela rede municipal de ensino, mediante estudos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que foi analisada e debatida, sendo o documento norteador para a construção desse referencial da rede de ensino. Assim, o documento permitirá o entendimento da estruturação/organização da educação especial. Outro documento que foi analisado foi o Plano Educacional Individualizado (PEI), que também consta em anexo, elaborado pelos profissionais da rede que trabalham no Centro de Referência em AEE Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes, no ano de 2020, o qual começou a ser utilizado como uma ferramenta de trabalho com os alunos atendidos no ano de 2021. A referida pesquisa se enquadra como estudo de caso que, segundo Gil (2019) “é uma modalidade de pesquisa amplamente utilizada nas ciências biomédicas e sociais”. Para o autor, esse tipo de pesquisa permite um estudo aprofundado de um tema, de modo a permitir a compreensão ampla e detalhada sobre o assunto investigado. Desse modo, a pesquisa ocorreu entre os ano de 2017 a 2022, quando o referido pesquisador assume a Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Lazer (SEMEC), na função de Secretário/gestor da pasta, e entende a importância de mapear a educação especial da municipalidade, a partir da sala de recursos multifuncionais vinculada à escola municipal Raimunda Neves Aguiar. Nesse ano, no censo escolar, foram registrados um total de 46 (quarenta e seis) alunos que faziam atividades complementares, em horário oposto ao da escola regular, na sala de recursos multifuncionais, e como o trabalho com a educação especial foi sendo ampliado na rede, após a construção e inauguração do Centro de Referência em AEE Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes, no segundo censo de 2022, são registrados 209 (duzentos e nove) alunos atendidos. Para Gil (2019, p.54) o estudo de caso, pode apresentar as seguintes intenções: 1) explorar situações da vida real cujos limites não estão claramente definidos; 2) preservar o caráter unitário do objeto estudado; 3) descrever a situação do contexto em que está sendo feita determinada investigação; 4) formular hipóteses ou desenvolver teorias e; 5) explicar as variáveis causais de determinado fenômeno em situações muito complexas que não possibilitam a utilização de levantamentos e experimentos. 87 Desse modo, será possível fazer uma retrospectiva da educação especial na rede de ensino, e do trabalho que foi desenvolvido, e ainda de como se encontra, atualmente, no que tange ao ensino e à aprendizagem, e como se dá a integração/colaboração com as demais unidades escolares da rede de ensino. Segundo Gil (2019, p. 55) o estudo de caso tem a intenção “de proporcionar uma visão global do problema ou de identificar possíveis fatores que o influenciam ou são por ele influenciados”. Na visão de Yin (2014) é uma das mais utilizadas metodologias de pesquisa. No entanto, ainda não tem status legítimo de estratégia de investigação em ciências sociais por não dispor de protocolos bem definidos e bem estruturados. Define o estudo de caso como “fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto de vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não são claros e o pesquisador tem pouco controle sobre o fenômeno e o contexto” (YIN, 2014, p. 13). Assim, sua definição de caso mostra também sua defesa do estudo de caso como método legítimo de investigação. O pressuposto subjacente à definição de Yin (2014), é que outras estratégias de investigação, tais como a histórica, a experimental e os levantamentos, não são capazes de investigar o caso que interessa a pesquisadores. Dessa forma, eles precisam de uma “estratégia abrangente de investigação”, totalmente nova, chamada estudo de caso (YIN, 2014, p. 14). A partir dessa definição, este estudo se constitui numa investigação empírica que indaga no caso ou nos casos e, em conformidade com a definição acima referida, aborda questões de “como” ou “por quê” relativas ao fenômeno de interesse, investigando a concepção dos professores sobre a utilização do Plano Educacional Individualizado (PEI) com alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Centro Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes no município de Cícero Dantas (BA). Yin (2014), enfatiza que o estudo de caso traz um instrumental específico para um programa de avaliação. O resto de sua definição técnica chama a atenção para os aspectos da coletade dados e sua análise em relação à situação em estudo: a fim de investigar uma situação distinta, incluindo “muito mais variáveis de interesse do que os pontos de coleta”, o estudo de caso se baseia em linhas múltiplas de evidência, a partir de propostas trianguladas, e utiliza-se do “desenvolvimento prévio de proposições teóricas para guiar a coleta e a análise de dados” (YIN, 2014, p. 13-14). 88 Assim, Yin (2014), assinala que o estudo de caso é uma abordagem meticulosa, em termos de coesão e coerência, entre os componentes do projeto e as fases do estudo de caso, visto que ao realizar cada movimento, ou tomar decisões ao longo do processo de investigação, os investigadores devem ser capazes de fornecer a lógica que está por trás disso, em conformidade com as proposições teóricas e as características do caso. O trabalho realizado na Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Lazer do Município de Cícero Dantas (BA), possibilita o acesso aos Gestores Escolares do Apoio Pedagógico (Coordenadores, Supervisores, Psicopedagogos, Psicólogos, Assistente Social). O primeiro contato realizado, foi com a Coordenadora Geral do município e com o Presidente do Conselho Municipal de Educação (CME), para explicar o propósito e a finalidade do estudo, bem como solicitar a autorização para a realização da investigação junto aos profissionais do Centro de Referência em AEE Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes cujo termo de anuência aparece nos apêndices do trabalho. O contato realizado com a Diretora do Centro de Referência em AEE Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes possibilitou acesso aos dados dos profissionais que compõem a equipe multidisciplinar e o detalhamento e quantitativo de alunos com TEA. À referida diretora, foi solicitado o contato telefônico dos profissionais selecionados, para poder agendar uma reunião e explicar a finalidade da pesquisa, assim como para convidá-los a participar. Esse cuidado se faz especialmente necessário quando se compreende a possibilidade de uma maior aproximação entre a teoria e os dados ou, ainda, quando “[...] no estudo de campo estuda-se um único grupo ou comunidade em termos de sua estrutura social, ou seja, ressaltando a interação de seus componentes [...]” (GIL, 2019, p. 57). Seguindo a orientação de Lakatos (2021, p. 100), de que “o questionário é um instrumento de coleta de dados constituído por uma série ordenada de perguntas, que devem ser respondidas por escrito e sem a presença do entrevistador”, a coleta de dados foi realizada a partir da entrega do questionário impresso, previamente elaborado com perguntas abertas e fechadas, que pode ser encontrado nos apêndices deste trabalho. No momento da entrega, foi acordado com os participantes um prazo de 15 dias para a devolução, o que foi rigorosamente cumprido por todos, que se mostraram bem atenciosos e satisfeitos em contribuir com a pesquisa. Os profissionais participantes foram questionados sobre ensino, metodologia, 89 utilização do PEI, etc. E tais informações serão confrontadas com o material selecionado (PEI), o Referencial Curricular Municipal, e demais documentos citados pelos docentes e outros profissionais participantes, realizando, posteriormente, uma análise dos documentos coletados e das respostas do questionário dos referidos profissionais. 6.3 Algumas noções teórico-metodológicas referentes à análise de conteúdo A organização e a análise dos dados são processos importantes, portanto, necessitam apresentar clareza e concisão com os propósitos da pesquisa. Conforme Gil (2019), nos estudos qualitativos utilizam-se mais os procedimentos analíticos no tratamento dos dados, e o pesquisador possui mais autonomia na organização e na análise das informações coletadas. Dessa forma, Gil (2019) enfatiza, entre as etapas importantes para a análise dos dados de uma pesquisa qualitativa, a redução dos dados, ou seja, selecionar e simplificar as informações, por meio de categorias, agrupá-las e organizá-las para que os resultados encontrados se tornem conclusivos. Ademais, a apresentação dos dados é a forma sistemática de organização e explanação, que pode acontecer de diferentes formas, com interferências, elencando semelhanças e diferenças em forma de texto, diagramas, mapas e outras maneiras que possibilitem uma leitura coerente das informações e conduzam à produção de conhecimentos. Por conseguinte, é preciso realizar uma significação dos dados, ou seja, estabelecer explicações coerentes e validades para as informações. Para interpretar os resultados, o pesquisador precisa ir além da leitura dos dados, para integrá-los num universo mais amplo em que poderão ter algum sentido. Esse é o universo dos fundamentos teóricos da pesquisa e dos conhecimentos já acumulados em torno das questões abordadas. Daí a importância da revisão da literatura, ainda na etapa do planejamento da pesquisa. Essa bagagem de informações, que contribuiu para o pesquisador formular e delimitar o problema e construir as hipóteses, o auxilia na etapa de análise e interpretação para conferir significado aos dados. Mediante o auxílio de uma teoria pode-se utilizar a análise e interpretação ao verificar que por trás dos dados existe uma série complexa de informações, um grupo de suposições sobre o efeito dos fatores sociais no comportamento, e um sistema de proposições sobre a atuação de cada grupo. Assim, 90 as teorias constituem um elemento fundamental para o estabelecimento de generalizações empíricas e sistemas de relações entre proposições (GIL, 2019, p. 179). Em consonância com Bardin (2016), a análise de conteúdo organiza os discursos em conteúdo, através da pré-análise, a exploração do material e o tratamento dos resultados com inferência e interpretação, como aparece na figura. Figura 4 – Fases da análise do conteúdo Fonte: Bardin (2016). Reconstruído pelo autor, 2022. Conforme ilustra a figura 4, as fases da análise do conteúdo compreendem uma pré-análise, quando é escolhido o documento, são formuladas hipóteses e elaborados indicadores. Ademais, é aplicada a codificação dos dados, ou seja, a transformação dos dados em registro ou em contexto. Por conseguinte, a categorização é a formulação de um sistema de categorias, extraindo uma interpretação e conclusões dos dados coletados. No âmbito da análise do conteúdo surgiram discussões sobre suas diferentes funções. Segundo a autora, uma delas ficou conhecida como função heurística, objetivando a análise do conteúdo e enriquecendo a tentativa exploratória e, a outra, como função de “administração da prova”, que verificava se os achados da análise eram verdadeiros ou não. Ainda nesse sentido, enfatizavam-se as diferenças na técnica de análise do conteúdo nas abordagens qualitativa e quantitativa. Nas pesquisas qualitativas, o referencial era a presença ou a ausência de características de determinado fragmento, ao passo que, nos estudos quantitativos, o referencial era a frequência (dados estatísticos) com que apareciam determinadas características do conteúdo. Os critérios de organização de uma análise: a pré-análise, a exploração do 91 material e o tratamento dos resultados. O tratamento dos resultados compreende a codificação e a inferência. Descreve, por fim, as técnicas de análise, categorização, interpretação e informatização, apresentando alguns exemplos facilitadores. Na fase inicial, a pré-análise, o material é organizado para compor o corpus da pesquisa. Escolhem-se os documentos, formulam-se hipóteses e elaboram-se indicadores que norteiem a interpretação final, porém, é fundamental observar algumas regras: exaustividade, que sugere esgotar todo o assunto, sem omissão de nenhuma parte; representatividade, que se preocupa com amostras que representem o universo; homogeneidade, nesse caso os dados devem referir-se ao mesmotema, serem coletados por meio de técnicas iguais e indivíduos semelhantes; pertinência, é necessário que os documentos sejam adaptados aos objetivos da pesquisa e; exclusividade, um elemento não deve ser classificado em mais de uma categoria. Assim, o questionário foi organizado em eixos: O eixo I – “Perfil Geral”, contemplou perguntas como nome, idade, formação acadêmica, atuação como professor/apoio pedagógico/apoio psicológico e, na educação especial, tempo de atuação na escola e no município, o que permitiu organizar o percurso dos professores na sua trajetória profissional. O eixo II, “o Ensino de alunos especiais – alunos com TEA” questionou os professores a respeito de como é ensinar alunos especiais, em específico alunos com TEA, indagou em quais são as principais dificuldades e desafios no ensino; o que é considerado importante para os alunos aprenderem/evoluírem; quais são os maiores desafios de ensinar alunos com TEA; quais desafios já foram superados e quais ainda precisam ser, no que se refere ao ensino de alunos com TEA, mostrando a realidade do Centro de Referência em AEE. Dessa forma, é possível compreender a visão dos professores sobre ensino e, em específico, o ensino de alunos com TEA, assim como conhecer a análise que eles fazem sobre os aspectos que contribuem para ensino dos alunos. O eixo III, “Propostas de ensino – utilização do Plano Educacional Individualizado”, perguntou aos professores/coordenação pedagógica, quais os recursos didáticos que utilizam para ministrar as aulas com alunos com TEA; quais alternativas de ensino são mais efetivas para promover o ensino dos alunos com TEA; com quais propostas de ensino percebem que os alunos aprendem e/ou se desenvolvem mais, ou ficam mais interessados e participativos; e que falem sobre o processo de construção e implementação do PEI, na referida unidade de ensino, e do 92 o processo de formação continuada para o trabalho com alunos especiais. Nesse sentido, se observa a percepção dos professores sobre propostas de ensino, elaboração e implementação do PEI, e como elas contribuem com a desenvolvimento dos alunos. Por fim, o eixo IV, a avaliação dos professores/análise documental do material selecionados e/ou citados por eles como consulta para a elaboração do planejamento do AEE, Plano de aula do AEE, PEI dos alunos com TEA, a partir das respostas dos professores no questionário, e dos documentos e dados coletados, para compreender o trabalho desenvolvido. Essa é a estrutura metodológica que define a pesquisa, em consonância com os objetivos e alinhada à obtenção de respostas do problema que motiva esse estudo. Portanto, esta pesquisa mostra o esforço empenhado dentro da metodologia científica para oportunizar a superação de desafios, a destreza para auxiliar na transformação de ideias em problemas de pesquisa, para desenvolver competências, gerar aprendizado, impactar e implementar novas formas de pesquisa frente ao TEA. 93 7 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS Este capítulo destina-se a discutir e analisar os dados coletados ao longo desta pesquisa. É bom ressaltar que o estudo apresenta a técnica de Análise de Conteúdo perpassando a discussão entre a teoria e a prática em pesquisas aplicadas ao Transtorno do Espectro Autista, trazendo o Plano Educacional Individualizado como proposta de trabalho. Inicia com uma preleção dos métodos quantitativos e qualitativos a partir da observação de autores clássicos na área, e introduz o método de análise de conteúdo com fundamento em Bardin (2016). Para a autora, o termo análise de conteúdo designa: um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) dessas mensagens BARDIN (2016, p. 47). Comungando com o pensamento teórico, Bardin salienta que a análise de conteúdo já era utilizada desde as primeiras tentativas da humanidade de interpretar os livros sagrados, e que foi sistematizada como método apenas na década de 20, por Leavell. A definição de análise de conteúdo surge no final dos anos 40-50, com Berelson, auxiliado por Lazarsfeld, mas somente em 1977 foi publicada a obra de Bardin, Analyse de Contenu, na qual o método foi configurado nos detalhes que servem de orientação atualmente, conforme se observa na figura: Figura 5 – Etapas da análise de conteúdo 94 Fonte: Elaborado pelo autor (2022), com base em BARDIN (2011). A primeira fase, a de pré-análise, pode ser identificada como uma fase de organização. Nela se estabelece um esquema de trabalho que deve ser preciso, com procedimentos, embora flexíveis, bem definidos. Normalmente, segundo Bardin (2016), envolve a leitura “flutuante”, ou seja, um primeiro contato com os documentos que serão submetidos a análise, a escolha deles, a formulação das hipóteses e objetivos, a elaboração dos indicadores que orientarão a interpretação e a preparação formal do material. Assim, o trabalho ora desenvolvido, intitulado Alunos com Transtorno do Espectro Autista: Procedimentos Pedagógicos e Metodológicos traz uma análise de estratégias a partir da problematização do perfil didático-pedagógico dos profissionais que utilizam o Plano Educacional Individualizado (PEI) e trabalham com crianças com TEA, e o desafio no processo de inclusão e ensino, aportando discussões pertinentes como estudo de caso, pela carência de um currículo definido e norteador, no ambiente social escolar pesquisado. A pesquisa alavanca uma discussão acerca da fronteira entre o conhecimento pedagógico sobre inclusão escolar de crianças com autismo e o exercício docente. Desse modo, pensar o distanciamento entre teoria e prática significa (re)pensar cada manifestação que o TEA apresenta. Por isso, o interesse pelo tema partiu da observação de experiências de Educação Inclusiva no Centro de Atendimento Educacional Especializado Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes, na cidade de Cícero Dantas – BA que, quanto ao fazer pedagógico, mostra a demanda de transformações humanizadas nas práticas, respeitando as diferenças, considerando a necessidade de reestruturar e redefinir o currículo, utilizando o Plano Educacional Individualizado e verificando o estado social e a especificidade do transtorno na busca por adequações para cada caso. 95 Nesse percurso, inicia-se o trabalho com leituras dos documentos para devida análise, entendendo que as entrevistas serão ancoradouro de dados que constituirão o corpus da pesquisa. Para tanto, é preciso obedecer às regras de exaustividade (deve-se esgotar a totalidade da comunicação, sem omissão); representatividade (a amostra deve representar o universo); homogeneidade (os dados devem referir-se ao mesmo tema, serem obtidos por técnicas iguais e colhidos por indivíduos semelhantes); pertinência (os documentos precisam adaptar-se ao conteúdo e objetivo da pesquisa) e exclusividade (um elemento não deve ser classificado em mais de uma categoria). Essa é a primeira etapa que a autora apresenta para a organização da Análise de Conteúdo. Depois de coletados os dados, parte-se para a codificação. Porém, antes de iniciar a análise propriamente dita, é importante organizar os materiais e ver o que está disponível. Nesta fase, é possível avaliar o que faz sentido analisar e o que ainda precisa ser coletado. Dentro dessa análise, o material pesquisado requer leitura e interpretação dos dados inseridos nas entrevistas. O questionário que dá suporte de análise a este trabalho está dividido em eixos, acompanhando o seguinte percurso: 7.1 Eixo I – Perfil Geral Este primeiro eixo permitiu considerações acerca da atuação com estudantes autistas, o quefoi possível realizar a partir dos relatos coletados. O “perfil geral”, que contemplou perguntas como nome, idade, formação acadêmica, atuação como professor, apoio pedagógico e apoio psicológico/assistencial na educação especial, tempo de atuação na escola e no município, permitiu uma organização do percurso dos professores na sua trajetória profissional. Segue a resposta do Professor, do Segmento Docentes: O trabalho com Educação Especial nos faz crescer como profissionais e principalmente como seres humanos. Trabalhar num Centro de Referência em AEE, à primeira vista foi um grande desafio, onde me questionei profundamente se teria a capacidade técnica e psicológica para atuar junto a crianças e famílias em muitos casos “vulneráveis”. Apesar do pouco tempo frente ao Atendimento Educacional Especializado, percebo que já não sou a mesma profissional de quando adentrei nessa instituição. Conforme Belisário, Cunha e Mata (2010) é grande o impacto nos profissionais da educação que recebem esses alunos na escola, quando se deparam com suas 96 reações, pois ainda estão diante de uma experiência nova. Face a essa novidade, muitos professores relatam sentir-se despreparados para atender essa demanda de inclusão, o que gera uma sobrecarga de estresse (BAPTISTA; OLIVEIRA, 2002; CAMARGO; BOSA, 2009; JORDAN, 2005). Os 4 (quatro) docentes que participaram da pesquisa, serão chamados de Professores, tendo em vista a similaridade das respostas nos questionários aplicados. Verifica-se que todos os profissionais participantes têm 10 anos ou mais de atuação como docentes na rede municipal de ensino, e estão no Centro de Referência em AEE desde a sua inauguração, no ano de 2019. Todas possuem formação superior com especialização, conforme observa-se idade, tempo de atuação no município, tempo de atuação na educação especial e formação: Quadro 5 – Professoras participantes da pesquisa Nome Idade Tempo de atuação no município (anos) Tempo de atuação na Educação Especial (anos) Formação P1 59 30 4 Licenciatura em Letras P2 57 28 4 Licenciatura em Pedagogia P3 43 10 4 Licenciatura em Pedagogia P4 42 20 4 Licenciatura em Pedagogia Fonte: Elaborado pelo autor. Pesquisa de campo, 2023. Esse “despreparo docente” para lidar com o autismo, indica uma falta de conhecimento que impede os professores identificar corretamente as necessidades de seus alunos. Isso gera ideias distorcidas sobre as possibilidades de educação dessas crianças e a dificuldade de lidar com seus problemas de comportamento (BAPTISTA, VASQUEZ, RUBLESCKI, 2003). Nesse sentido, o aluno é visto pelo professor sob o ângulo de suas limitações e, consequentemente, isso compromete a prática pedagógica a ser desenvolvida. O Profissional da Assistência Social, relata: O trabalho na educação especial, para mim, é bastante desafiador e prazeroso. Exige bastante estudo, pesquisa, uma mudança de olhar sobre o processo de aprendizagem, com foco em uma educação inclusiva que nos leve para uma sociedade inclusiva. No Centro de Referência, atuo na equipe de apoio pedagógico. Atendo o público de professores do AEE, professores do ensino regular, pais e responsáveis dos alunos da educação especial. As minhas atividades são de acolhimento, orientação, formação e intervenções psicoeducativas. Os meus atendimentos são realizados em grupo e individual. 97 Destaca-se que é uma profissional que chegou ao município por meio do último concurso, em 2013, tem 28 anos, possui 7 anos de atuação na municipalidade e há 4 anos que integra o grupo do Centro de Referência em AEE, Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes, contando com graduação em Serviço Social e especialização em áreas correlatas. Os desafios enfrentados pelos docentes na sala de aula são numerosos. Percebe-se uma busca constante para que a inclusão se torne uma realidade em nossa sociedade, no entanto, fazer inclusão não tem sido fácil, pois a escola inclusiva deve ser uma escola para todos, ou seja, aquela que se insere em um sistema educacional que reconhece e atende as diferenças individuais, respeitando as necessidades de todos os alunos. Sacristán (2003) afirma que: Grande parte dos problemas e dos temas educativos conduzem a uma implicação dos professores, exigindo-lhes determinadas atuações, desenhando ou projetando sobre sua figura uma serie de aspirações que se assumem como uma condição para a melhoria da qualidade educacional. O debate em torno do professorado é um dos polos de referência do pensamento sobre a educação, objeto obrigatório da investigação educativa e pedra angular dos processos de reforma dos sistemas educativos ((2003, p.64) Os professores precisam compreender, desenvolver e aprimorarconhecimentos e técnicas que proporcionem a inclusão de alunos com autismo. O Profissional do Segmento de Apoio Psicológico, conduz para o campo da Psicologia: A Psicologia configura-se como uma das profissões que podem contribuir para a inserção de todos aqueles que possuem alguma deficiência, o que implica a atuação dessa ciência em diversos setores e contextos da sociedade. Além disso, a Psicologia proporciona instrumentos e técnicas favoráveis ao processo inclusivo, como também favorece a todos aqueles que, de alguma forma, estão à mercê de uma sociedade carregada de convencionalismos que têm se desdobrado ao longo de décadas. A contribuição pertinente da Psicologia deve-se ao seu corpo de conhecimentos e procedimentos vinculados a métodos de ensino, aprendizagem, desenvolvimento humano, afetividade, relações grupais e familiares, entre outros. Desse modo, o psicólogo deve buscar aliar tais temáticas aos preceitos da inclusão, visando um trabalho interdisciplinar com outros profissionais. Contudo, é comum 98 encontrar situações em que o psicólogo sente dificuldades para trabalhar dessa forma. Trata-se de uma profissional de 46 anos, que chegou ao município por meio do último concurso, em 2013, e que integra o quadro de profissionais da municipalidade há 8 anos, sendo 4 desses no Centro de Referência em AEE, Professora Carmelita Joana dos Santos Meneses. É graduada em Psicologia, com especializações em áreas correlatas. Os profissionais do Segmento Apoio Pedagógico têm uma visão construída a partir da vivência pedagógica com o estudante, conforme resposta: O pedagogo pode contribuir com a inclusão escolar da pessoa com deficiência na medida em que promove a participação de toda a comunidade escolar, de forma democrática, possibilitando trocas de conhecimento acerca desse processo, seus limites e possibilidades e a necessidade de respeito às diferenças. Destaca-se que os dois profissionais de Apoio Pedagógico, serão chamados de Apoio Pedagógico, tendo em vista a similaridade nas respostas apresentadas nos questionários. Trata-se de duas profissionais com mais de 10 anos de atuação na municipalidade, como se observa no quadro 6: Quadro 6 – Profissionais de apoio pedagógico participantes da pesquisa Nome Idade Tempo de atuação no município Tempo de atuação na Educação Especial Formação AP1 45 18 4 Licenciatura em Pedagogia, Supervisora Pedagógica. AP2 36 17 4 Licenciatura em Pedagogia, Psicopedagoga. Fonte: Elaborado pelo autor. Pesquisa de campo, 2023. Segundo Tamarit (2004): As pessoas progridem como pessoas graças às suas habilidades para envolver-se e participar com as demais pessoas em contextos comuns; para isso, necessita-se de algo mais que os conteúdos escolares tradicionais. A obrigação da escola é preparar os apoios para que ocorra um desenvolvimento adequado de todas as habilidades de adaptação necessária. (2004, p. 260): A informação coletada no Eixo I traz a experiência profissional de trabalhar com alunos com Transtorno do Espectro Autista. As respostas obtidas aparecem na seguinte apresentação gráfica:99 Gráfico 1 – Trabalho com alunos com TEA Fonte: Elaborado pelo autor, 2023. No gráfico, observa-se a percepção dos professores quando questionados sobre: dificuldades em lidar com os alunos com TEA, metodologias apropriadas (conhecimento) e falta de formação docente (que ocasiona o despreparo para o trabalho com os alunos com TEA), e foi constatado que os profissionais são muito esforçados, buscando sempre aprimorar os seus conhecimentos. Todos se mostram muito abertos à construção de relações com o aluno, buscando entender cada criança/adolescente/adulto atendido e compreender as suas especificidades na procura por uma metodologia mais adequada para trabalhar com cada um deles, dentro do seu grau de TEA e das dificuldades que apresentam. Seguindo Bardin (2016), no que envolve a leitura “flutuante”, ou seja, um primeiro contato com os documentos que serão submetidos a análise para a elaboração dos indicadores e a interpretação devida, a preparação do material foi realizada com a "edição" das entrevistas transcritas e os recortes das questões julgadas pertinentes. O gráfico mostra o recorte de uma série de 8 (oito) questionários aplicados, em que as condições de trabalho faziam parte de um dos fatores pesquisados. Professores Assistente Social Psicólogo Apoio Pedagógico Dificuldades em lidar 2 2 2 2 Metodologias Apropriadas 3 3 2 2 Despreparo Docente 2 2 2 2 2 2 3 3 2 22 2 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Trabalho com Alunos com TEA 100 7.2 Eixo II – Ensino Nesse Eixo a questão foi: Quais os desafios encontrados no trabalho com alunos com TEA? Relate o trabalho desenvolvido. De acordo com o Professores, Um dos maiores desafios encontrados é o de incluir alunos com TEA com diagnóstico tardio e fazer com que o aluno supere suas dificuldades por meio das intervenções pedagógicas. Oferecendo o acompanhamento necessário, atenção individualizada, materiais didáticos condizentes com suas necessidades e particularidades, tecnologia assistida e intervenção precoce. Diante dos desafios citados pelo educador, é necessário a busca de conhecimento sobre o espectro do autismo, com informações que possibilitem a escolarização do aluno com autismo e oferecer-lhe oportunidades para que o processo de ensino aprendizagem ocorra de forma eficiente. É preciso que os profissionais da educação sejam capacitados com conhecimento sobre os aspectos do autismo para tornar possível a sua escolarização. Após o estudante estar incluído, cabe ao educador fazer uma identificação precoce sobre o comportamento da criança com observação de sua conduta, essencial para a intensificação da comunicação e a interação social da criança no ambiente escolar e na sociedade. A assertiva de Félix López (2004) acrescenta que: É fundamental que as crianças com dificuldades de aprendizagem não sejam vistas como culpadas, e que a escola não sacralize como único valor o rendimento escolar, de modo que aqueles que tenham alguma limitação sejam bem aceitos na escola, na família e na sociedade, circunscrevendo o problema à própria dificuldade de aprendizagem. LOPEZ (2004, p. 118) Quando questionado o profissional do segmento da Assistência Social, a leitura que se faz é a de que todos que se expressaram sobre essa área tem o mesmo perfil de resposta. Segue uma dessas respostas que abrange a ideia central de todos os questionados: Na visão social, os maiores desafios encontrados são as dificuldades de acessar as políticas públicas voltadas à saúde e à previdência. Mesmo realizando todo um trabalho de orientação e encaminhamentos, as famílias ainda encontram dificuldades para acessar os serviços que são direito dos filhos. Porém, essa não é uma realidade apenas do município de Cícero Dantas/BA, percebemos a falta de vagas para atendimento com os profissionais da área da saúde, e alguns tipos de exames deveriam ser oferecidos pelos SUS, além da morosidade dos serviços quanto aos 101 encaminhamentos para requerer benefícios através do INSS. Vale ressaltar que o acompanhamento médico contínuo deve fazer parte da rotina dos alunos com TEA, pois esse vai auxiliar no seu desenvolvimento em conjunto com o acompanhamento que é oferecido na educação por meio do AEE e do ensino regular. Mesmo com todas essas dificuldades, venho realizando um trabalho de atendimento às famílias dos alunos com TEA, orientações, encaminhamentos, contato direto com os serviços e auxílio do conselho tutelar para requisitá-los ao município. De acordo com a resposta acima, o sentimento social está impregnado da vivência do aluno. Não se pode considerar o trabalho desconsiderando seu contexto. Ao entrevistar o Apoio Pedagógico é perceptível uma mesma linguagem nas respostas que derivam na mesma finalidade. Todos referem dificuldades e passam pela mesma situação. Assim, foi selecionada uma resposta que se aproxima à ideia central: Um dos maiores desafios encontrados é o de incluir alunos com TEA com diagnóstico tardio e fazer com que o aluno supere suas dificuldades por meio de intervenções pedagógicas. Oferecendo o acompanhamento necessário, atenção individualizada, materiais didáticos condizentes com suas necessidades e particularidades, tecnologia assistida e intervenção precoce. Os maiores desafios que encontramos em uma instituição como a escola ou em uma sociedade que não avançou no sentido da inclusão, é repensar as suas próprias regras, o próprio modo de atuar, a partir de práticas naturalmente excludentes, que consideram as diferenças em alguns e não em todos. Quando perguntado ao Profissional de Psicologia, se obteve uma categoria respaldada no conhecimento da função como meio de melhor estudar o perfil do estudante. Nesse sentido, foi selecionada uma resposta relacionada com as dos outros entrevistados: O grande desafio da inclusão tem sido apontado como quesito de leitura do outro a partir do estigma que lhe envolve. A Psicologia, nesse sentido, seria uma das alternativas utilizadas para a diminuição da estigmatização e dos preconceitos por uma grande parcela da população, assim como para a busca da igualdade e equidade que deve ser oferecida a todos aqueles que tenham a referida síndrome. Dessa forma, consideramos a importância de abordar conhecimentos da Psicologia, o que contribui, em parceria com as escolas, com as técnicas de inclusão, a fim de expandir a visão e a percepção dessa condição que é comum em grande parcela da população. A Educação é descrita como formadora e transformadora da mudança social dos sujeitos, de modo que pode contribuir de forma satisfatória para a vida de 102 indivíduos com necessidades especiais, já que, sem a educação, o dinamismo da mudança ficará comprometido. A esse respeito, Freire (1995) descreve, em uma de suas ideias, a importância da educação como recurso de transformação, o que revela os valores do autor. É válido ressaltar que, conforme Freire (1995), através do conhecimento o ser humano é capaz de buscar e lutar por ideais, bem como ascender a melhores condições de vida, numa constante luta por direitos até antes desconhecidos. Isso significa que a educação é capaz de modelar e proporcionar aos sujeitos uma independência que, muitas vezes, não se conhece. Quando foi perguntado sobre a superação: Como você tem superado as dificuldades encontradas? Percebemos que todos os segmentos dialogam com a mesma ideia: A superação ocorre por meio da aplicação da tecnologia assistida, do estudo, da atualização, da busca por atividades que não se tornem uma rotina cansativa, mas que estimulem o desenvolvimento, a criatividade e o imaginário, sempre respeitando o ritmo e o tempo de cada aluno. De fato, Goldberg, Pinheiro e Bosa (2005), mostram que os temores dos professores diante da inclusão de pessoas com autismo podem levar à adoção de estratégias em sala de aula que visam dominara ansiedade e o estresse deles próprios, mais do que configurar uma prática pedagógica que atenda as reais necessidades do aluno. Desse modo, cabe lembrar Pires (2006), quando diz que é possível considerar, na formação do sujeito, as mudanças educativas que se constroem em um processo de desenvolvimento e interação, e só através dessa interação, é possível conhecer, compreender e ressignificar as peculiaridades do indivíduo, sendo de grande valia, sobretudo, subsidiar o professor ao se preparar para o enfrentamento da diversidade e das diferenças na sala de aula. 7.3 Eixo III – Planejamento Uma situação comum entre professores que recebem, pela primeira vez, em sala de aula, um aluno diagnosticado com TEA, é a sensação de não estarem preparados para esse novo desafio. Quanto ao planejamento, a partir do momento em que o professor já sabe um 103 pouco do que o aluno com TEA precisa, é necessário desenvolver estratégias de ação. É muito importante o trabalho em equipe, mesmo que a escola ainda não tenha um departamento especializado que possa ajudar. Nesse caso, o próprio professor tem que buscar sua rede de apoio para esse planejamento que consiste em: ouvir a família, que sabe muitas coisas da criança; os terapeutas que a atendem, os quais podem contribuir com informações e; outros professores da própria escola, que já tiveram em sua turma alguma criança com autismo. Então, elaborar o planejamento vai ajudar muito no desenvolvimento dessas tarefas, pois o professor se organiza a curto, médio e longo prazo. Quanto ao questionamento feito ao docente – P: Relate como se dá o processo de elaboração do planejamento docente? A resposta mais abrangente que se aproxima das demais é: Por meio da identificação das necessidades do aluno e da produção de materiais acessíveis e adaptados, na maioria das vezes, sim, porém há situações em que o planejamento não se aplica na prática, tornando-se necessária a aplicação de estratégias alternativas. Diante dessa resposta, é salutar persistir na estratégia. Este é um passo importante: saber que a estratégia nem sempre vai dar certo e que será necessário descobrir como tudo funciona. Muitas vezes, diante da primeira resistência da criança ou da primeira dificuldade que aparece, o professor desiste de uma atividade ou de um processo que foi planejado. Sendo assim, é preciso dar um tempo para as coisas acontecerem, insistir um pouco mais. Não se consegue tirar a fralda de uma criança apenas em uma semana, ou em poucos meses, é necessário mais algum tempo para que a criança entenda aquilo. Então, se percebe que muitas vezes o professor começa com uma técnica, mas desiste; começa com outra, e desiste. Não persiste por um tempo. É muito importante planejar e, a partir disso, ter persistência na ideia, até verificar os resultados. O Segmento Apoio Pedagógico – AP7 e AP8 respondeu: O processo de ensino é complexo, necessita de revisão constante do planejamento. O ensino pautado na educação inclusiva vai além de um planejamento, todavia deixamos de executar as atividades planejadas, simplesmente para acolher o aluno no momento de uma crise. As atividades sincrônicas trazem a concretização do aprendiz, sobretudo para aqueles alunos que ainda não se desenvolveram. Elas são repetidas frequentemente, pois eles demoram a entender a função delas. Os alunos demonstram dificuldades de entender enunciados. Muitas vezes, usamos desenhos para 104 melhorar o entendimento, outras vezes, executamos a atividade antes do aluno, ou seja, exemplificação da atividade. Assim, ele consegue fazer sozinho. Algumas estratégias utilizadas para manter o sujeito com autismo em sala de aula são: privilegiar vínculos afetivos; utilizar linguagem objetiva; privilegiar as habilidades individuais; propor pequenas tarefas, mesmo que sejam diversas; incentivar sempre; propor atividades que estimulem o pensamento lógico; adaptar currículo, metodologias e processo avaliativo; evitar atividades muito longas; utilizar jogos; explorar o cotidiano; utilizar abordagens sensoriais (visual, auditivo, cinestésico); propor atividades baseadas no interesse do aluno; utilizar o concreto e o lúdico, mesmo nos anos finais da Educação Básica. Segmento Apoio Psicológico – P6: Também é preciso flexibilidade e criatividade. Com frequência, passam-se meses e o professor percebe que a estratégia adotada não está ajudando o aluno com autismo e, além disso, está causando uma desorganização na sala de aula. Então, trocar a técnica e entender até que ponto o professor está confortável é muito importante. Parar e pensar: o que pode estar acontecendo para que tenhamos pouco resultado? Nesse momento, precisamos ter criatividade, mudar algo, flexibilizar a forma como estamos trabalhando, lembrando sempre que, quando se fala em deficiências, a flexibilização e a adaptação do currículo são fundamentais. Quando foi perguntado: Como ocorreu o processo de elaboração? Ao iniciar meu trabalho como Professora do AEE, participei da construção e implementação do PEI, inicialmente é realizada entrevista com o responsável pelo aluno e em seguida são iniciados os atendimentos individualizados, na qual são aplicadas atividades diagnósticas que servirão de base e nortearão a aplicação do PEI ao longo do ano letivo. Percebe-se o avanço quando existe o processo de pensar o PEI como resultado efetivo do trabalho norteador, sobretudo quando a identificação e absorção alavancam progressos nas respostas. Muitas vezes, desejamos a perfeição em nossos resultados pedagógicos, mas a verdade é que, na educação especial e no ensino inclusivo, isso não vai acontecer, porque o objetivo não é sobre perfeição, mas sobre progressos. É fundamental identificar em quais áreas da educação foram desenvolvidas novas técnicas, abordagens e estratégias, pois isso vai ajudar o professor nos próximos planejamentos pedagógicos. Pensar em inclusão envolve todos esses pontos que fazem parte de assumir uma mudança de ação diante da 105 criança cujo desenvolvimento é diferente. Os sistemas de ensino vêm se adaptando às propostas de educação para todos, na perspectiva da inclusão de alunos com necessidades educativas especiais em sala de aula regular. Então, o que se espera é aquilo que Lira (2004, p.13) menciona: “promover uma melhor adaptação do indivíduo ao ambiente”. Dessa forma, acredita-se na manutenção do aluno autista em sala de aula, de forma a se desenvolver dentro das possibilidades de suas limitações. Quando é proposto: Avalie o seu trabalho mediante a utilização do PEI, uma resposta foi: Partindo do preenchimento do inventário de habilidades do aluno, o professor terá um maior subsídio para a aplicação do PEI junto ao seu aluno, sendo possível conhecer melhor o seu aluno, identificando suas habilidades, estabelecer quais são as suas metas a curto, médio e longo prazo, elaborar um cronograma com as metas traçadas e, por fim, avaliar as metas alcançadas. As estratégias de ensino para alunos autistas vêm sendo estudadas e elaboradas com base nas investigações das melhores práticas desenvolvidas e que obtiveram sucesso. As mais significativas para a área da educação têm por base as teorias de análise do comportamento. É necessário entender essas estratégias para uma prática pedagógica efetiva com alunos autistas para que o processo educacional não fique centrado mais na integração do que na inclusão. O AP7 e AP8 - Apoio Pedagógico responde sobre o referencial curricular municipal, sendo utilizado no planejamento docente: Sempre buscamos trabalhar em consonância com o referencial curricular municipal, adaptando as particularidades do aluno. O referencial curricular municipal, assim como a BNCC, sempre está disponível para consulta, bem como são feitas orientações por parte do apoio pedagógico para que sejam alinhados esses referenciaisqualitative approach, supported by Gil (2019) and; with data collection, from a previously elaborated questionnaire, with open questions about the teaching of students with ASD. The structure of this questionnaire was based on Axes with the following division: I – General profile; II – Teaching; III - Planning; IV- Evaluation and V - PEI. Eight professionals participated in the work, being: 03 of pedagogical support, 01 of psychological support, 01 of assistance support and 03 teachers. The research took place at the Centro Carmelita Joana dos Santos Menezes, located in the city of Cícero Dantas - Bahia. As a result, for data analysis, Bardin (2016) was used. Keywords: Teaching. Students with Autistic Spectrum Disorder. Individualized Educational Plan. LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 – Trabalho com alunos com TEA................................................................99 LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Modelo de Plano Educacional Individualizado........................................63 Quadro 2 – Relação de Teses e Dissertações encontradas na BDTD......................67 Quadro 3 – Equipe de profissionais do Centro Carmelita Joana...............................82 Quadro 4 – Alunos com TEA no Centro de Referência em AEE...............................83 Quadro 5 – Professoras participantes da pesquisa....................................................97 Quadro 6 – Profissionais de apoio pedagógico participantes da pesquisa................99 LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Pensamento de Coll sobre necessidades educacionais específicas........41 Figura 2 – Fluxograma dos planejamentos escolares................................................77 Figura 3 – Diferenças entre PEI e Plano do AEE.......................................................78 Figura 4 – Fases da análise de conteúdo..................................................................91 Figura 5 – Etapas da análise de conteúdo.................................................................94 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AEE – Atendimento Educacional Especializado BNCC – Base Nacional Comum Curricular CEE – Conselho Estadual de Educação CF – Constituição Federal CNE – Conselho Nacional de Educação DSMV – Manual de Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais DUDH – Declaração dos Direitos Humanos ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente LBI – Lei Brasileira de Inclusão LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional PAEE – Plano de Atendimento Educacional Especializado PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais PDI – Plano de Desenvolvimento Individual PEI – Plano Educacional Individualizado PNE – Plano Nacional de Educação TGD – Transtornos Globais do Desenvolvimento SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO..................................................................................................15 2 TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA......................................................20 2.1 Breve histórico..............................................................................................20 2.2 Enfoque do TEA à luz das teorias ..............................................................24 2.3 Documentos e marcos da legislação sobre a inclusão escolar...............29 2.4 O currículo na perspectiva do estudo para TEA........................................31 2.4.1 Referencial Curricular Municipal..............................................................36 2.4.2. Adaptação curricular para a Educação Inclusiva e o PEI ....................40 3 OS DESAFIOS NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DIANTE DO ALUNO AUTISTA..............................................................................................................46 4 PLANO EDUCACIONAL INDIVIDUALIZADO (PEI) PARA ALUNOS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA: EFEITO INTRODUTÓRIO, DEFINIÇÃO E DESAFIOS........................................................................................................51 4.1 Parâmetros discursivos sobre o PEI..........................................................51 4.2 Trabalho colaborativo entre equipe multidisciplinar e professores da Educação Básica................................................................................................57 4.3 Componentes do PEI...................................................................................58 4.3.1 Identificação do estudante.......................................................................59 4.3.2 Relatório circunstanciado........................................................................59 4.3.3 Dificuldades...............................................................................................61 4.3.4 Habilidades................................................................................................61 4.3.5 Material de apoio.........................................................................................61 4.3.6 Avaliação......................................................................................................62 4.3.7 Formulário....................................................................................................63 5 ESTADO DA ARTE: O QUE ESTÁ SENDO PRODUZIDO SOBRE O TEMA...65 5.1 Estado da arte na produção científica no ensino de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Plano Educacional Individualizado (PEI)...........65 6 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS............................................................80 6.1 Delineamento da pesquisa: Centro de Referência para Atendimento Educacional Especializado (AEE) – Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes.................................................................................................................80 6.2 Construção do corpus da pesquisa..............................................................85 6.3 Algumas noções teóricas metodológicas referentes à análise de conteúdo. ...............................................................................................................90 7 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS..............................................................94 7.1 Eixo I – Perfil Geral...........................................................................................96 7.2 Eixo II – Ensino ..............................................................................................100 7.3 Eixo III - Planejamento...................................................................................103 7.4 Eixo IV - Avaliação.........................................................................................106 7.5 Eixo V – PEI....................................................................................................108 8 CONSIDERAÇÕES FINAIS...............................................................................110 REFERÊNCIAS.....................................................................................................115 APÊNDICES..........................................................................................................124 ANEXOS................................................................................................................130 15 1 INTRODUÇÃO A questão da adaptabilidade do sistema de ensino é algo constante no meio acadêmico, pois a sociedade está continuamente sofrendo mutações, algumas drásticas, outras mais suaves, e o ato de ensinar precisa ser adaptado para conseguir atender as necessidades históricas e políticas que cada contexto apresenta. Quando se trata de Educação Inclusiva é notória a falta de habilidade no tratamento didático- pedagógico e a incerteza de qual metodologia definir para cada especificidade, já que há uma complexidade muito ampla em tornoao conteúdo trabalhado com o aluno. Ele serve como referência para a gestão e a organização do conhecimento escolar, ao dispor sobre os conteúdos a serem estudados e o modo como serão abordados em sala de aula, além de estabelecer as metodologias e estratégias de aprendizagem adotadas pela escola. O fazer pedagógico ocupa um amplo espaço na organização do trabalho escolar, sendo o professor um articulador no processo de formação cultural que se dá no interior da escola. Sua presença é fundamental na organização das práticas pedagógicas e, consequentemente, na efetivação das 106 propostas. 7.4 Eixo IV - Avaliação Algo inerente ao processo de construção da aprendizagem são as constatações estabelecidas durante o ensino, “o nosso exercício pedagógico escolar é atravessado mais por uma pedagogia do exame do que por uma pedagogia do ensino-aprendizagem” (LUCKESI, 1997, p.18). Considerando essa situação e refletindo encima dos dados, a partir de um delineamento inicial sobre a avaliação da aprendizagem e, na emergência de analisar caminhos e possibilidades para a construção de uma avaliação sem um processo excludente, surge a pergunta: Qual sua percepção sobre avaliação para alunos com TEA? Os docentes – P, comungam nas respostas, quando afirmam: A evolução da aprendizagem varia de acordo com cada aluno, há alunos em que a evolução ocorre de forma contínua e veloz, onde os professores da rede regular nos sinalizam sobre a grande contribuição que o nosso trabalho vem trazendo ao seu dia a dia em sala de aula, com os avanços visíveis dos alunos com necessidades de atendimento especializado, que são atendidos no centro de AEE, muitas vezes esses avanços também são percebidos e sinalizados por parte família. Porém também existem os casos onde a evolução é lenta e gradual, onde só iremos perceber algum avanço com o passar dos meses ou até mesmo do semestre. A avaliação da aprendizagem se estabelece, efetivamente, na medida em que é articulada com o projeto de ensino, e quando como resultado tiver um ensino centrado na aprendizagem do aluno. Dessa forma elucida que: Desse modo, os encaminhamentos que estaremos fazendo para a prática da avaliação da aprendizagem destinam-se a servir de base para tomadas de decisões, no sentido de construir, com e nos educandos, conhecimentos, habilidades e hábitos que possibilitem o seu efetivo desenvolvimento, por meio da assimilação ativa do legado cultural da sociedade. (LUCKESI, 1997, p. 86). O presente questionamento surge da necessidade de investigar sobre o processo avaliativo das crianças que apresentem dificuldades de aprendizagem. O intuito é analisar se conseguem desenvolver-se em relação as demais crianças, assim como conhecer as concepções dos professores sobre avaliação. Nota-se a importância do profissional como mediador da aprendizagem na relação professor- aluno. 107 A essência dessas concepções por parte do Apoio Pedagógico – AP7 e AP8 está resumida na seguinte resposta: A visão de avaliação, nesta perspectiva de medição, é uma prática dolorosa em decorrência da situação ímpar de cada estudante, precisando de compreensão no papel do mediador enquanto valorizador da evolução de cada um, não cabendo classificar ou selecionar. Isso porque o caráter pedagógico da avaliação, no sentido de consolidação da aprendizagem contida no desenvolvimento acompanhado. O processo de formação escolar da criança não é um dever exigido apenas pela escola, pois a Constituição Federal (1988), no artigo 205, afirma que “A educação é dever da família e do Estado” (BRASIL,1988). Nesse sentido, o trabalho de escolarização passa a não ser somente dever da escola e dos professores, e sim uma construção família-sociedade-escola, para juntos articularem meios que passem a viabilizar melhores rendimentos na aprendizagem dos alunos. Corroborando essa ideia, o Apoio Psicológico – P6 foi sintético na resposta: A família, em muitos casos, é presente, participativa, busca melhorias, nos cobram e se envolvem em todo o processo de ensino/aprendizagem do aluno, porém também existem os casos em que a participação dos pais ou responsáveis é pequena ou quase nula, ficando todo o acompanhamento desse aluno sob responsabilidade dos professores e coordenadores do Centro AEE e da Rede Regular de ensino. Assim, a família e os profissionais da escola possuem aspectos fundamentais para o processo de aprendizado de uma criança. Quando uma criança apresenta alguma dificuldade de aprendizagem, nem sempre a família ou a escola contam com a preparação adequada para enfrentar, junto com essas crianças, o seu desenvolvimento em habilidades de leitura, de escrita e de matemática e, dessa forma, a criança terá dificuldade de se desenvolver em relação às demais crianças. Vinculado ao trabalho em pauta, o profissional da Assistência Social – P5, apresenta a seguinte resposta: É preciso que a família passe a observar diariamente como está indo o desenvolvimento da criança, estabeleça diálogos, faça perguntas, verifique sua escrita, qual a forma que desenvolve a interpretação e desenvolvimento das atividades, permitindo dinamizar atividades coerentes que facilitem o processo de aprendizagem, e estimulem nessa criança o desejo de aprender. Segundo esse entendimento, o apego familiar é o maior amparo que a criança 108 pode procurar nessa fase. É necessário envolver a criança para que ela possa desenvolver suas habilidades e, com isso, gradativamente, aumentar sua autoestima. Por exemplo, quando for tentar fazer algo que considere difícil, encorajá-la, instigá-la a não desistir, evidenciando seus pontos positivos. 7.5 Eixo V - PEI A pergunta macro do eixo é: A partir do PEI, como você verifica a evolução dos alunos? Para a etapa de avaliação do PEI, foram elaborados questionamentos e a primeira resposta dos docentes – P, foi: Para o professor que atende alunos com TEA deve ser elaborado a partir das informações da avaliação psicoeducacional no contexto escolar (potencialidades, possibilidades, capacidades e necessidades). Conforme as expectativas de aprendizagem previstas para o ano de matrícula do aluno no ensino comum, contendo objetivos, ações/atividades, período de duração, resultados esperados, de acordo com as orientações pedagógicas, verificamos um avanço, por estarmos direcionados. Para que a ação pedagógica se efetive, é necessário que o professor saiba perceber com nitidez em que nível de conhecimento se encontra o aluno, e quais suas peculiaridades a serem atendidas e assim ficar em perceptível o avanço previsto com o PEI. Ao longo do questionamento com os demais profissionais pesquisados sobre a conjuntura psicoducacional na tomada de decisão, todos recorriam ao PEI como resposta no coletivo de profissionais envolvidos no compromisso do trabalho. Isso ficou claro na devolução do Apoio Pedagógico – AP7 e AP8 na resposta: Com o PEI ficou evidente o seu papel na mediação da intervenção pedagógica ao propor situações de aprendizagem pautada nas reais necessidades dos alunos, levantadas no estudo realizado. Após o momento de socialização, passamos a acompanhar o trabalho desenvolvido pela equipe, a fim de subsidiar na ação pedagógica. Para este trabalho foi fundamental o apoio dos profissionais envolvidos, que sempre se prontificaram a colaborar no que lhes era cabível de acordo com suas funções. A elaboração e implementação do PEI deve contar com a participação de todos que tem contato direto com o aluno atendido. 109 110 8 CONSIDERAÇÕES FINAIS Com os estudos e pesquisas realizados sobre o tema abordado neste trabalho, pode-se perceber que a inclusão do aluno com transtorno do espectro autista ainda não está em um nível que garanta uma educação de qualidade. O que dificulta um ensino e uma aprendizagem de qualidadesão os percalços encontrados pelos educadores nas escolas, mesmo assim, estamos trilhando um caminho que, por certo, nos levará a uma Educação Inclusiva de qualidade para todos. O interesse pelo tema partiu da observação das experiências de Educação Inclusiva no Centro de Atendimento Educacional Especializado Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes, na cidade de Cícero Dantas – BA onde, quanto ao fazer pedagógico, foi constatada a necessidade de transformações humanizadas nas práticas, respeitando as diferenças, considerando a possibilidade de reestruturar e redefinir o currículo utilizando o Plano Educacional Individualizado, verificando o estado social e a especificidade do transtorno adequado para cada caso. Para que a inclusão ocorra de fato, é necessário que haja conscientização, aceitar as diferenças e aprender a conviver com a diversidade. Essa convivência é benéfica tanto para o professor quanto para os demais alunos e todos os demais indivíduos da comunidade escolar. As perspectivas em relação ao tema, Alunos com Transtorno do Espectro Autista: Procedimentos Pedagógicos e Metodológicos foram assimiladas. A partir dos estudos realizados, percebemos que, para haver o acesso a uma educação para todos, é preciso o comprometimento de todos que participam da vida escolar da criança com autismo. Quanto ao PEI, é necessário reafirmar que apresenta como uma ferramenta norteadora no sentido, não apenas da inclusão, mas também da integração do aluno com necessidades especiais, no âmbito da escola contemporânea. Derrubar as barreiras que dificultam o desenvolvimento desse aluno 111 se mostra imprescindível, sobretudo na implementação dessa inclusão/integração, assim como em identificar as complexidades do corpo docente para trabalhar com distintas formas de aprendizagem e ensino. Nesse contexto, a escola inclusiva se mostra como um lócus privilegiado, em que todos têm a possibilidade de aprender em conformidade com suas condições, seus ritmos, suas idiossincrasias e suas multiplicidades. A construção deste trabalho esteve assentada no problema de analisar estratégias, a partir da problematização do perfil didático-pedagógico dos docentes que utilizam o Plano Educacional Individualizado (PEI) que trabalham com crianças com TEA, para o desafio do processo de inclusão e ensino. Procurou-se trazer as discussões pertinentes para estudo de caso, considerando a carência de um currículo definido e norteador, para o ambiente social escolar pesquisado. Assim nasceu a pergunta: Como a análise do ensino de alunos com Transtorno do Espectro Autista a partir do Plano Educacional Individualizado pode melhorar a qualidade de vida e aprendizagem do estudante com transtorno? Com base nessa inquietação, a pesquisa delineou fronteiras de observação e práticas de ensino com os diversos segmentos do contexto educacional, em busca de respostas hipotéticas para o escopo deste estudo. Foram pesquisados 04 (quatro) segmentos: Docentes, Apoio Pedagógico, Assistência Social e Apoio Psicológico, que consideraram que o PEI atua como um facilitador a fim de promover ajustes curriculares que tendem a favorecer a aprendizagem expressiva e mitigar entraves educacionais para os alunos com autismo, em sua evolução e, em linhas gerais, é a resposta alcançada. Contudo, cabe aos agentes envolvidos no processo, dentre os quais, os profissionais da educação e as famílias, se atentarem para as formas específicas de apreensão, pelos autistas, do sentido dos signos e das ações de interlocução. Além disso, devem ser explicados, a esses alunos, os significados culturais subentendidos nos discursos compartilhados, de modo a facilitar a interação e sua comunicação social, visto que, tanto na escola, quanto na família, são inúmeras as ocasiões nas quais as conversas se desenvolvem somente como frases de cunho linguístico, empregadas, assim, de modo isolado, não dialógico, não possibilitando a condição de associarem os signos contidos nas falas com o contexto concreto que originou a sua utilização. Dialogando com esse resultado, o objetivo geral foi analisar o ensino de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) a partir da utilização do Plano 112 Educacional Individualizado (PEI), estudando como se compreende e como acontece o uso do Plano Educacional Individualizado (PEI) na rede municipal de ensino, e investigando como são desenvolvidos os planejamentos e quais estratégias são usadas pelo PEI para o bom andamento ao ensino e à aprendizagem dos alunos com autismo. Compreende-se que, atualmente, o PEI tem sido uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento de um ensino individualizado de crianças com TEA. Com essa ferramenta, a inclusão pode ser possível, afinal, existem respostas positivas quanto a sua viabilidade, porém, a escola necessita ter estrutura, os profissionais precisam ser qualificados e é imprescindível o apoio de uma equipe multidisciplinar. Dentro dos objetivos específicos, procura-se: Conhecer a percepção dos professores, no que tange à evolução dos alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), busca que redundou na necessidade de repensar a forma de ensinar e aprender, na realidade escolar atual, pois os indagados consideram o PEI uma proposta que possibilita um olhar mais apurado para o aluno, sendo constatado que os professores precisam rever a ideia de utilizar uma única metodologia de ensino na sala, mesmo nas turmas que parecem ser mais homogêneas. Cabe lembrar que a interação do professor da sala regular com a família é um fator importante, pois pode fornecer informações valiosas sobre as preferências do aluno, e diversos aspectos podem ser adaptados para as atividades pedagógicas. Para o trabalho com o PEI é recomendável que o professor saiba qual a deficiência do seu aluno, quais são as suas características, quais as áreas que afetadas, entre outras informações importantes. O segundo objetivo específico: Apresentar as principais dificuldades encontradas pelos professores em lidar com o transtorno; mostrou que os profissionais da educação, nos momentos de discussão sobre as dificuldades que enfrentavam, sentiam-se angustiados, na tentativa de apresentar os seus desconfortos quando da prática docente, talvez pela falta de habilidades para atender cada diagnóstico apresentado. Embora o município tenha um acompanhamento inicial sobre o quesito citado, este trabalho sugere a necessidade de repensar as ações e investir em um processo discursivo mais amplo. Ao Entender como ocorre o trabalho colaborativo entre a equipe multidisciplinar e os professores da educação básica; percebe-se quão difícil deve ser para um professor fazer um PEI para o aluno com TEA se esse educador 113 não dialoga com os outros profissionais que tratam dessa pessoa com deficiência. Nesse aspecto, ressaltam que a construção do PEI não deve ser elaborada por um único profissional. Para acompanhar o desenvolvimento do aluno, é imprescindível que as esferas da escola e os profissionais que trabalham na estimulação desse estudante, contribuam na elaboração, avaliação e concentração dos objetivos propostos. Quanto a verificação do posicionamento dos professores referente à formação para o trabalho com alunos com TEA, e a utilização do Plano Educacional Individualizado (PEI), os profissionais da educação afirmaram participar das formações continuadas promovidas pela Secretaria Municipal de Educação (SEMEC), por compreenderem a necessidade de aprimoramento, e até mesmo para compreender como lidar com alunos com TEA. Porém, mesmo com esses esforços, se faz necessário estruturar um sistema de formação em rede, para que o trabalho se amplie e se consolide. Quando Bardin (2011), fala de leitura “flutuante” como um primeiro contato, vinculado a esta análise, os resultados permitiram delimitar uma organização em que o PerfilGeral convidava a interpretar os desafios que os profissionais envolvidos travavam com a realidade. Ficou visível o grande impacto que causa nos profissionais da educação que recebem esses alunos na escola, se depararem com suas reações, pois ainda estão diante de uma experiência nova. Face a essa novidade, muitos professores relatam sentir-se despreparados para atender essa demanda de inclusão, o que gera neles uma sobrecarga de estresse. As pesquisas feitas sobre o Plano Educacional Individualizado (PEI), mostraram que a recepção dele permitiu a condução de roteiros de ação e um aprimoramento no acompanhamento, entendendo os caminhos para a sua elaboração, sua estrutura, sua aplicação, e sua forma de avaliação, porque cada professor tem autonomia para modificar o que for necessário. Cada integrante que compõe o grupo que expõe as particularidades do aluno contribui para que seu desenvolvimento seja o melhor possível. Seja a professora, a coordenadora, a direção escolar, os terapeutas, a auxiliar de sala e a família, todos são importantes na preparação do planejamento. Esta dissertação não é um trabalho conclusiva, pois se a temática for olhada por outros teóricos, resultados diversos poderão surgir. Em relação ao acervo de material pedagógico existente poderia ser igualmente inclusivo, pois as ferramentas 114 utilizadas pelos profissionais pesquisados poderiam oferecer muitas possibilidades de trabalho sendo usadas como estratégias de ensino. Este trabalho traz a reflexão sobre a inclusão do TEA, de que nunca é demais conferir as condições em que essa inovação acontece na consciência dos educadores. A escola prepara para o futuro e, é certo que, se as crianças aprenderem a valorizar e a conviver com as diferenças nas salas de aula, serão adultos bem diferentes de nós, pessoas que precisam de empenho para entender e viver a experiência da inclusão! O abismo existente entre o velho e o novo, no âmbito escolar brasileiro, ainda persiste como uma perpetuação cultural e é preciso quebrar esse grilhão. Penso que o futuro da escola inclusiva depende de uma expansão rápida dos projetos verdadeiramente imbuídos do compromisso de transformar a escola para se adequar aos novos tempos. Pesquisar o PEI se resume em uma experiência exitosa, pela demonstração e viabilidade da inclusão, com a força do óbvio e a clareza do quanto o planejamento é importante, necessário e urgente. Portanto, é salutar destacar que, com a experiência deste trabalho de pesquisa, foi possível perceber a minha transformação na conduta como pesquisador e como educador, posto que a prática inspira e direciona os profissionais da educação a desenvolverem a autonomia, a criticidade e a reflexão diante do ensino com pessoas com Transtorno do Espectro Autista. Então, considerando a inquietação primeira em forma de pergunta, a resposta a partir da pesquisa elaborada é que resultados positivos são possíveis com a utilização do PEI para trazer qualidade de vida e aprendizagem aos alunos com TEA. 115 REFERÊNCIAS ABREU, Adams R. P. de. Atuação do professor do AEE: desafios da inclusão de alunos com TEA. Dissertação (Mestrado Acadêmico em Ensino) – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, UERN, 21 dez. 2021. ADURENS, Fernanda D. L.; MELO, Maribél de S. de. Reflexões acerca da possibilidade de prevenção do autismo. Estilos clin. São Paulo, v. 22, n.º 1. p. 150-165, abr. 2017. Disponível em . acesso em 08 maio 2022. http://dx.doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v22i1p150-165. ANDRÉ, M. (org.). Pedagogia das diferenças na sala de aula. Campinas: Papirus, 1999. APA. American Psychiatric Association. DSM-V. Manual Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais. Porto Alegre: ARTMED, 2014. APAE. Relatório de Atividades. Brasília, 2015. 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Orientador: Prof. Dr. José Claudio Del Pino Pesquisador: Felipe Carvalho Castro Telefone: (75) 99859-0960 E-mail:felipe.castro@universo.univates.br EIXO I – Perfil Geral Nome: Idade: Formação acadêmica: Tempo de atuação no município: Tempo de atuação na educação especial: Relato do trabalho na educação especial e no Centro de Referência em AEE: EIXO II – Ensino 1 - Quais os desafios encontrados no trabalho com alunos com TEA? Como superá- los? Relate o trabalho desenvolvido. 2 - Quais as dificuldades encontradas no ensino de alunos com TEA? Como você tem superado? 3 - O trabalho com ensino de alunos especiais, em específico de alunos com TEA, requer quais habilidades e competências do professor? EIXO III – Planejamento, PEI 4 – Relate como se dá o processo de elaboração do planejamento docente. Este se efetiva de forma prática? 5 - Como ocorreu o processo de elaboração do PEI e a sua implementação? Como ocorre o trabalho com o PEI com os alunos com TEA? 6 – O PEI tem somado ao trabalho docente? Qual a avaliação que faz do aprendizado dos alunos? Retrocesso? Avanço? Discorra sobre. 7 - O referencial curricular municipal, é utilizado no planejamento docente. Discorra sobre a sua utilização, assim como de outras fontes que utiliza. mailto:felipe.castro@universo.univates.br 127 EIXO IV – Alunos com TEA (Avaliação) 8 - Qual sua análise sobre o ensino dos alunos atendidos pelo Centro de Referência em AEE, com TEA? 9 – Como ocorre a utilização do PEI, com estes, e como essa ferramenta contribuiu para o seu ensino e desenvolvimento destes? 10 – Como docente/apoio pedagógico/apoio psicológico qual a sua percepção a respeito da participação da família no trabalho desenvolvido com os alunos com TEA? 128 APÊNDICE B - Termo de anuência para a Coordenadora Geral de Educação do município de Cícero Dantas (BA) para utilização do Plano Educacional Individualizado (PEI). Eu, Ana Maria Andrade Barreto, na condição de Coordenadora Geral de Educação do Município de Cícero Dantas (BA), autorizo a utilização do Plano Educacional Individualizado (PEI), elaborado pela Rede Municipal de Ensino, na investigação desenvolvida pelo pesquisador Felipe Carvalho Castro, mestrando do Programa de Pós-Graduação do Mestrado em Ensino da Universidade do Vale do Taquari – UNIVATES, situado na cidade de Lajeado (RS). Fui informada do objetivo geral da pesquisa que é “Analisar o Ensino de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) a partir da utilização do Plano Educacional Individualizado (PEI)”. O pesquisador se colocou à disposição para esclarecer quaisquer dúvidas que eu tiver em qualquer momento da pesquisa. Estou ciente de que esse tipo de pesquisa exige uma apresentação de resultados. Por isso, autorizo a divulgação das análises de documentos para fins exclusivos de publicação e divulgação científica e para atividades formativas de educadores. Lajeado/RS, 03 de janeiro, de 2023. _____________________________________________ Ana Maria Andrade Barreto Coordenadora Geral de Educação do município de Cícero Dantas - BA ____________________________________________ Felipe Carvalho Castro Mestrando em Ensino da UNIVATES 129 APÊNDICE C - Termo de anuência para o Presidente do Conselho Municipal de Educação (CME) do município de Cícero Dantas (BA) para utilização das Resoluções e Pareceres referente ao Referencial Curricular Municipal. Eu, Antônio Neves de Santana, na condição de Presidente do Conselho Municipal de Educação (CME), autorizo a realização da investigação desenvolvida pelo pesquisador Felipe Carvalho Castro, mestrando do Programa de Pós-Graduação do Mestrado em Ensino da Universidade do Vale do Taquari – UNIVATES, situado na cidade de Lajeado (RS). Fui informada do objetivo geral da pesquisa que é “Analisar o Ensino de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) a partir da utilização do Plano Educacional Individualizado (PEI)”. A pesquisadora se colocou à disposição para esclarecer quaisquer dúvidas que eu tiver em qualquer momento da pesquisa. Estou ciente de que esse tipo de pesquisa exige uma apresentação de resultados. Por isso, autorizo a divulgação das análises de documentos para fins exclusivos de publicação e divulgação científica e para atividades formativas de educadores. Lajeado/RS, 03 de janeiro, de 2023. _____________________________________________ Antônio Neves de Santana Presidente do Conselho Municipal de Educação do município de Cícero Dantas - BA ____________________________________________ Felipe Carvalho Castro Mestrando em Ensino da UNIVATES 130 APÊNDICE D - Termos de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Eu, ______________________________, na condição de participante na investigação desenvolvida pelo pesquisador Felipe Carvalho Castro, mestrando do Programa de Pós-Graduação do Mestrado em Ensino da Universidade do Vale do Taquari – UNIVATES, situado na cidade de Lajeado (RS). Fui informada do objetivo geral da pesquisa que é “Analisar o Ensino de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) a partir da utilização do Plano Educacional Individualizado (PEI)”. O pesquisador se colocou à disposição para esclarecer quaisquer dúvidas que eu tiver em qualquer momento da pesquisa. Estou ciente de que esse tipo de pesquisa exige uma apresentação de resultados. Por isso, autorizo a divulgação das análises de documentos/questionários/relatos para fins exclusivos de publicação e divulgação científica e para atividades formativas de educadores. Lajeado/RS, 03 de janeiro, de 2023. _____________________________________________ Professor/Apoio Pedagógico/Apoio Psicológico (Participante) ____________________________________________ Felipe Carvalho Castro Mestrando em Ensino da UNIVATES 131 ANEXOS 132 ANEXO A – Plano de Ensino Individualizado (PEI) 133 ANEXO B – Referencial Curricular Municipal do Município de Cícero Dantas – BA.de cada caso. De acordo com Mantoan (2013), a Inclusão é a capacidade de entender e reconhecer o outro e, assim, ter o privilégio de conviver e compartilhar com pessoas diferentes de nós. Assim, a Educação Inclusiva constitui um paradigma educacional com fundamentos nos Direitos Humanos, em que a diferença é percebida como característica inerente ao indivíduo. Esse fato é uma concepção presente na Declaração de Salamanca, assinada em 1994, durante a Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais. O documento defende o compromisso com a Educação para Todos, afirmando que toda criança tem o direito fundamental à educação e que a ela deve ser dada a oportunidade de atingir e manter o nível adequado de aprendizagem, respeitando suas características, interesses, habilidades e necessidades de aprendizagem. Tratar de Educação Inclusiva demanda reflexão a partir de contextos humanizados no ato prático, respeitando as diferenças, com aporte na reestruturação do processo educativo que defina o Currículo para a concretização da própria escola e a forma particular de defini-la num momento histórico, político e social e, por conseguinte, atendendo os educandos de acordo com a singularidade de cada um. O 16 Transtorno do Espectro Autista (TEA) vem sendo significativamente abordado na atualidade. Estudos e pesquisas sobre o tema têm ganhado espaço por causa do aumento de casos diagnosticados. O tema, contudo, ainda é um desafio, visto que a insciência e o preconceito da sociedade são os maiores obstáculos para atender as demandas que ele apresenta. Nesse aspecto, Carvalho (2014), indica que cabe uma adequação no currículo para que nenhum aluno seja excluído do direito de aprender e de participar. Trata-se de mais uma estratégia para favorecer a inclusão educacional de quaisquer alunos. Dentre os alunos que devem ser atendidos com uma adequação curricular estão os alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Assim, nasce a construção deste trabalho, assentado na tentativa de análise e procura de estratégias a partir da problematização do perfil didático-pedagógico dos docentes que utilizam o Plano Educacional Individualizado (PEI) e trabalham crianças com TEA. Considerando o desafio do processo de inclusão e ensino, busca trazer discussões de estudo de caso pertinente, diante da carência de um currículo definido e norteador, no ambiente social escolar pesquisado. A partir disso, surge a pergunta: Como a análise do ensino de alunos com Transtorno do Espectro Autista, a partir do Plano Educacional Individualizado, pode melhorar a qualidade de vida e de aprendizagem do estudante com esse transtorno? O presente estudo alavanca uma discussão acerca da fronteira entre o conhecimento pedagógico sobre inclusão escolar de crianças com autismo, e o exercício docente. Desse modo, pensar o distanciamento entre teoria e prática significa (re)pensar cada manifestação que o TEA apresenta. O interesse pelo tema partiu da observação de experiências de Educação Inclusiva no Centro de Atendimento Educacional Especializado Professora Carmelita Joana dos Santos Menezes, na cidade de Cícero Dantas – BA que, quanto ao fazer pedagógico, mostra a demanda de transformações humanizadas nas práticas, respeitando as diferenças, considerando a necessidade de reestruturar e redefinir o currículo com a utilização do Plano Educacional Individualizado, e a verificação do estado social e da especificidade do transtorno, na procura por adequações para cada caso. Diante desse problema, este trabalho traz como objetivo geral: analisar o ensino de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), a partir da utilização do Plano Educacional Individualizado (PEI). Como objetivos específicos, apresentam-se os seguintes: conhecer a percepção dos professores no que tange 17 a evolução dos alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA); apresentar as principais dificuldades encontradas pelos professores em lidar com o transtorno; entender como ocorre o trabalho colaborativo entre equipes multidisciplinares e professores da educação básica; verificar o posicionamento dos professores referente à formação para o trabalho com alunos com TEA, e à utilização do Plano Educacional Individualizado (PEI). A estrutura desta dissertação compreende sete capítulos. O primeiro capítulo faz uma abordagem sobre Transtornos do Espectro Autista (TEA), trazendo desenho historiográfico, conceitos, legislação, o Currículo da Educação Básica, tudo pontuado com alguns marcos documentais e abordagens teóricas acerca da temática central da inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais na Educação Básica regular. Nesse Capítulo aparece o pensamento científico, relativo ao provável discurso contemporâneo, através de Santos (2011), Figueira (2011), Goffman (2008), Mantoan (2003), Bussata (2016), Morin (2001), Vygotsky (2011), Candau (2005) e, corroborando o pensamento desenvolvido por esses autores estão: a Constituição Federal (1988), a LDB (1996), a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) e a Declaração de Salamanca (1994), com acréscimos de artigos considerados cabíveis ao texto. Em consonância com o texto deste capítulo, o currículo ganha espaço de tópico confirmando falas teóricas de Saviani (2005), Moreira (1990), Libâneo (2004), Crepaldi (2015), Sacristan (2017). Como sequência do ato linear, aparece o Referencial Curricular Municipal de Cícero Dantas - BA, conforme o Parecer do CME 04/2020 e a Portaria 008/2022. No segundo capítulo, a abordagem traz discussão sobre os Desafios na Formação de Professores diante do aluno autista. Nessa parte são analisadas as principais dificuldades enfrentadas pelos professores na inclusão de alunos autistas, e as principais estratégias de inclusão que poderiam ser utilizadas. Além disso, também aborda o papel do docente que, ao se planejar, sente o dever de pesquisar estratégias de ensino que poderá adotar para adaptar o conteúdo e selecionar os recursos pedagógicos e a didática a ser utilizada de forma a favorecer o público em questão. De acordo com Baptista (2006. p. 93) “[...] o compromisso do educador tem como base a apropriação de seus próprios recursos e instrumentos: a observação, o diálogo, a negociação e a avaliação retroalimentam o agir do educador”. No terceiro capítulo, a análise se dá sobre o Plano Educacional Individualizado, com os aportes de Glat e Plestch (2013), autores que defendem o PEI como uma 18 alternativa promissora, na medida em que oferece parâmetros mais claros a serem atingidos com cada aluno, sem negar os objetivos gerais colocados pelas propostas educacionais. Trata-se de alternativas cuja construção pode resultar em ajustes ou adaptações curriculares, sem que isso reduza, ou empobreça, os conteúdos e objetivos a serem atingidos, vinculados ao trabalho geral da turma. A concretização de tal proposta educacional só será efetivada se o currículo e as práticas pedagógicas levarem em consideração as especificidades de cada processo. O quarto capítulo, o Estado da Arte, tem a finalidade de apresentar as produções acadêmicas que se debruçam sobre o ensino de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e sobre o Plano Educacional Individualizado (PEI), analisando a percepção dos professores que trabalham no Atendimento Educacional Especializado (AEE), na modalidade regular na educação básica. Busca-se compreender as dificuldades e os desafios que esses professores enfrentam, e oferecer contribuições para este estudo, destacando as propostas de ensino na implementação e utilização do PEI e como têm sido utilizadas por professores para superar os reveses na inclusão de alunos autistas. Foi realizado um levantamento bibliográfico de pesquisas produzidas nos últimos 5 (cinco) anos, na área da Educação/Ensino, com um recorte escolhido a partir do marco temporaldestacado em um dos objetivos específicos desta investigação. No quinto capítulo, consta a apresentação dos procedimentos metodológicos inseridos ao longo da pesquisa, com tratamento respaldado nas literaturas afins. Gil (2019 p. 17) afirma que a busca por conhecimento necessita de metodologia e “conceitua a pesquisa como um procedimento racional e sistemático que necessita da utilização cuidadosa de métodos, técnicas e outros procedimentos científicos para galgar conhecimentos e contribuições relevantes”. O estudo se insere na dinâmica de compreender a pesquisa documental, no horizonte da pesquisa qualitativa, tendo em vista a necessidade de conhecer e debater a política educacional voltada a educação especial no Brasil, e, em específico, a de alunos com TEA, assim como os documentos elaborados pela rede municipal de ensino (Referencial Curricular Municipal) e o PEI (Plano Educacional Individualizado). Para os Instrumentos de coleta de dados foi utilizado o questionário semiestruturado, aplicado a profissionais do Centro Carmelita Joana dos Santos Menezes. Teóricos como Gil (2019), Moraes (2016) e, Yin (2014) contribuíram sobremaneira na construção deste capítulo. No sexto capítulo, registra-se a análise dos dados obtidos por meio dos 19 instrumentos da coleta de dados, com base na Análise de Conteúdo de Laurence Bardin (2016) na busca da compreensão do processo de exploração do material, tratamento dos resultados, inferência e interpretação, com atenção especial aos subsídios que formaram a composição do estudo sobre a inclusão e escolarização do aluno com deficiência. O desafio a ser superado pela escola contemporânea é tentar proporcionar a homogeneização de todos, considerando a diversidade existente em nossa sociedade. Nesse contexto, surgiram estratégias diversificadas de ensino com a intenção de proporcionar uma educação considerável a esses indivíduos. Diante dos resultados obtidos, podemos interpretar que o PEI acaba por se constituir em uma importante estratégia de personalização do ensino para alunos com deficiência, regularmente matriculados na rede municipal de ensino público. Temos, neste capítulo, a Análise de Dados, distribuído nos eixos pontuados a seguir. Eixo: I – Perfil Geral, que trata da observação garimpada sobre os profissionais da educação envolvidos na pesquisa; II – Ensino, como se dá o tratamento do trabalho desenvolvido, metodologias aplicadas, ações empreendidas; III – Planejamento, como planejar encontros para alunos com Transtorno do Espectro Autista, como refletir possiblidades a partir do perfil do aluno; IV – Avaliação, como pensar a avaliação; V – PEI, como funciona o Plano Educacional Individualizado. Por fim, as considerações finais acerca da leitura apresentada na pesquisa. 20 2 TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA Este trabalho apresenta uma pesquisa sobre o Transtorno do Espectro Autista, trilhando espaços de comunicação voltados para o estudo teórico, com aportes legais instituídos por normas, com discussão sobre o que a sociedade tem abordado nos últimos tempos, focando na inclusão escolar. Como contribuição à temática, também há preocupação com os profissionais que atuam na área, bem como com os familiares que percebem as dificuldades em sala de aula para um atendimento de qualidade desses alunos. A inclusão é uma ferramenta social fundamental para a igualdade de direitos, na construção de uma sociedade, de fato, cidadã. Assim, na perspectiva da inclusão educacional, todas as pessoas possuem os mesmos direitos, independente das suas características, limitações ou deficiências, pois só nessas condições será possível a construção de uma nova sociedade, mais plural e democrática. O termo autismo vem do grego “autos”, que significa “de si mesmo”. Kanner, em 1943 descreveu um grupo de crianças que apresentavam inabilidade para se relacionar com outras pessoas, tendência ao isolamento, falha no uso da linguagem para a comunicação e uma necessidade extrema de manter-se na mesmice. 2.1 Breve histórico A palavra autismo foi citada pelo psiquiatra suíço Eugen Bleuler, em 1908, para identificar pessoas com esquizofrenia. Em 1943, Leo Kanner, psiquiatra austríaco, utilizou o termo autismo como forma de identificação das crianças com certos atrasos no desenvolvimento, não lhes permitindo uma relação individualizada objetiva, na convivência. Em 1944, Hans Asperger, psiquiatra também austríaco, publicou, em um 21 artigo, que crianças com autismo apresentam, de forma visível, um comportamento especial em certos aspectos, sobretudo nos movimentos. Quarenta anos após os primeiros registros de observação e estudos, o autismo foi inserido no DSM – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, com a expressão TGD (Transtornos Globais do Desenvolvimento). De acordo com Santos (2011), o Transtorno de Espectro Autista (TEA) possui como principais características a dificuldade de comunicação social e a apresentação de comportamentos repetitivos. Suas principais manifestações aparecem antes dos primeiros três anos de vida, causando uma desordem que atinge a capacidade de se comunicar, assim como a de estabelecer relacionamentos no entorno dos afetados. O autismo, por ser uma perturbação global do desenvolvimento, evolui com a idade e se prolonga por toda a vida. Geralmente, para identificar uma criança com TEA, é importante observar se tem déficits na comunicação e na interação social, padrões de comportamento repetitivos e de interesses restritos, assim como alguns outros sintomas que aparecem no período de desenvolvimento. Conforme a 5ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais– DSM-V, os primeiros sintomas do Transtorno do Espectro Autista costumam ser observados entre os doze e os vinte e quatro meses de vida do indivíduo. Antes dos doze meses de idade, pode se notar algum atraso no desenvolvimento, entretanto, os sintomas começam a se manifestar de forma mais acentuada a partir dos vinte e quatro meses (APA, 2014). O Transtorno do Espectro Autista surge na primeira fase da infância. Essas evidências se constatam através do atraso no desenvolvimento da fala, o que dificulta a sua interação. Para Vieira e Baldin (2017), o Transtorno do Espectro Autista seria um conjunto de condições comportamentais assinaladas por prejuízos no desenvolvimento, assim como nas habilidades sociais, na cognição da criança e na comunicação. Os sintomas aparecem já nos primeiros anos de vida. O autor menciona a importância de se conhecer as principais características para que um diagnóstico seja realizado o mais rápido possível, de forma que a criança tenha a possibilidade de evoluir nas características do espectro. Com a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), proclamada no pós-guerra, em 1948, em Paris, manifestando que “[…] todos os seres humanos nascem livres e iguais, em dignidade e direitos”, surge um novo pensamento que 22 insere os marginalizados, por conseguinte, as pessoas com deficiência. Em razão do citado, estabelecem-se diretrizes legais sobre as condutas humanas e seu proceder enquanto relação humana contratual. Corroborando esse fato, no Brasil, A Constituição Federal Brasileira de 1988, foi elaborada com o propósito de assegurar o exercício dos direitos individuais e sociais, protegendo a liberdade, a igualdade e a justiça para alcançar uma sociedade justa, democrática e fraterna. Desse modo, o artigo 205 da Carta Magna, assegura aos cidadãos o direito de serem tratados de forma igual, sem diferenças. Então, quando se trata de pessoas iguais, é necessário garantir e preservar direitos, deveres e oportunidades iguais. Embora, na prática, a sociedade se manifeste, muitas vezes, com atos de desigualdade e discriminação, atropelando esse princípio que demonstra o comprometimento deque a lei é para manter a todos em condições de igualdade. Todos devem ser protegidos pela legislação, inclusive aqueles que apresentam necessidades diferentes. É bom salientar que o princípio da igualdade é considerado, também, princípio da isonomia, devendo compreender que ele se baseia e rege toda e qualquer sociedade democrática. É a ideia de que todas as pessoas merecem ser tratadas de forma igual, na medida do possível e do legal. Os direitos sociais visam resguardar direitos mínimos na sociedade, e têm como finalidade mitigar as vulnerabilidades ocasionadas pelo modus operandi capitalista. Por isso, o artigo 206 da Constituição propõe, como um dos princípios para o ensino, a igualdade de condições de acesso e de permanência na escola. É de suma importância citar Figueira (2007), quando narra fatos históricos sobre o início do atendimento a pessoas com necessidades educacionais especiais, antes dos colonizadores chegarem em terra Brasilis. Ele aborda a exclusão dos povos originários do ponto de vista assistencialista dos jesuítas, da mesma forma que traz os maus-tratos dos senhores feudais aos escravos, chegando, em alguns casos, a praticarem abusos, deixando neles marcas e deficiências físicas. No mesmo viés, a igreja contribuiu com a prática subjetiva, quando levanta a máxima religiosa do homem ser criado à imagem e semelhança de Deus, conforme cita Mazzotta (2005, p. 16): “a própria religião, com toda sua força cultural, ao colocar o homem como ‘imagem e semelhança’ de Deus, ser perfeito, inculcava a ideia da condição humana como incluindo perfeição física e mental”. Ao longo da história brasileira, a educação serviu de condição para subsidiar privilégios, causando diferenças. 23 Em 1989, com o intuito de apoiar pessoas com deficiência, foi sancionada a Lei n.º 7.853/89, que no Art. 1° estabelece “normas gerais que asseguram o pleno exercício dos direitos individuais e sociais das pessoas portadoras de deficiências, e sua efetiva integração social” (Brasil, 1989, p. 1). A referida Lei, no § 2º, afirma que suas normas devem: Garantir às pessoas portadoras de deficiência as ações governamentais necessárias ao seu cumprimento e das demais disposições constitucionais e legais que lhes concernem, afastadas as discriminações e os preconceitos de qualquer espécie, e entendida a matéria como obrigação nacional a cargo do Poder Público e da sociedade (idem, p. 1) Ela reestruturou os ditames da Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE), existente desde 1986, órgão responsável pela coordenação das ações governamentais relacionadas à pessoa com deficiência, pela elaboração de programas e projetos e pela conscientização da sociedade quanto à integração social dessas pessoas. Em 1990, O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) assegura os direitos da criança e do adolescente portadores de necessidades especiais, visando ampará- los em suas necessidades, diminuindo a exclusão social e o preconceito. A Conferência Mundial sobre Educação Especial, ocorrida na cidade espanhola de Salamanca, em 1994, com A Declaração de Salamanca proclamou o direito de todos à educação, independentemente das diferenças individuais, e comprometeu-se com a construção de um sistema educacional inclusivo, especificamente no que se refere à população de alunos com necessidades especiais. O documento garante o direito a uma educação de qualidade, tomando em consideração as características de cada educando, a fim de evitar a exclusão. Desse modo, traz uma proposta para as escolas se organizarem para esse tipo de atendimento, ao apontar os princípios de uma educação especial e de uma pedagogia centrada na criança. Simultaneamente à publicação da Declaração de Salamanca, no Brasil, promulgou-se a Política Nacional de Educação Especial (1994), seguindo os postulados da Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, baseada no modelo da integração, do ponto de vista da teoria que normatiza o modelo clínico de deficiência, apontando as particularidades físicas, sensoriais e intelectuais de cada aluno como uma questão de incompetência, representando com isso a restrição da sua inclusão no sistema educacional, bem como no meio social BUSSATA (2016). 24 Na fronteira dessas aprendizagens, no que se refere a inclusão, muitas escolas começam a perceber o quão importante é fortalecer os vínculos com a família e criar parcerias com a comunidade, com organizações que defendem os direitos da criança e com instituições de saúde e de assistência social que têm sido um grande trunfo para as escolas inclusivas. Os educadores têm percebido que os familiares, ao invés de serem um obstáculo, podem se tornar grandes potencializadores da inclusão, se estiverem sensibilizados e mobilizados quanto a sua importância no processo de escolarização. Porém, mesmo com esses avanços, as escolas ainda enfrentam timidez diante dos problemas, quanto a incluir crianças com deficiências mais graves. A Declaração de Salamanca (1994) contribuiu sobremaneira com a educação, sobretudo ao propor escolas de orientação inclusiva como meio eficaz para o combate de atitudes discriminatórias, instruindo a criação de comunidades acolhedoras, para ter uma sociedade inclusiva, com educação para todos. A Declaração Mundial de Educação para Todos diz, em seu artigo 8, § 1, que “[...] a educação básica para todos depende de um compromisso político e de uma vontade política, respaldados por medidas fiscais adequadas e ratificados por reformas na política educacional e pelo fortalecimento institucional” (UNESCO, 1990). 2.2 Enfoque do TEA à luz das teorias O TEA apresenta-se em vários níveis típicos e atípicos que correspondem a manifestações psíquicas e comportamentais caracterizadas pelo diagnóstico e classificados em níveis. O que se sabe, pela literatura, é que pessoas autistas diferem umas das outras dentro do próprio “espectro” e que podem apresentar particularidades e singularidades que acarretem diferentes danos ao neurodesenvolvimento da pessoa com transtorno do espectro autismo. Diante dessas inferências sobre o TEA, o processo de cognição surge como um mecanismo pautado na tríade cognitiva, de modo que a pessoa tende a reestruturar-se a partir das formas e conteúdos com base em pensamentos, emoções e sentimentos. Ou seja, a pessoa reestrutura a percepção da visão de mundo das outras pessoas e de si mesma (CORDIOLI; GREVET, 2019). Assim, essa abordagem requer ancorar em ações captadas em evidências do processo cognitivo provenientes de pensamentos, sentimentos e ações dispostas a cumprir ou regular a conduta comportamental. Embora a educação no Brasil tenha 25 marcas indeléveis, com alguns fracassos e registros de evasão, com casos significativos de alunos com sequelas provenientes da desigualdade social culminando na exclusão escolar. Nesse hiato, a escola tinha (tem) um cenário de classe e cor para os atores em situação de vulnerabilidade em que se encontravam (encontram) crianças e adolescentes, pretas (os), pobres, deficientes, enfim, na zona de minorias no Brasil. Na grandeza do olhar social sobre a escola, são séculos de lamúrias, em que os alunos são vítimas do estado, de seus pais, de seus professores das condições de pobreza em que viveram (vivem). Partindo desse pressuposto, o desafio da sociedade e da escola é combater as anomalias que impedem os avanços para a inclusão, posto que os estigmas e preconceitos violam o direito à vida e à educação quando enquadram pessoas com desenvolvimento atípico em situação de incapacidade. Goffman (2008), afirma que o estigma leva à exclusão e que, quando um indivíduo é estigmatizado é, automaticamente, excluído da sociedade, pois já não atende os padrões de normalidade que a sociedade estabelece. Gugel (2008) apresenta-nos um estudo sobre a era primitivano qual afirma que as pessoas com deficiência não sobreviviam devido ao ambiente desfavorável. Afinal, para seu sustento, o homem primitivo tinha que caçar e colher frutos, além de produzir vestuário com peles de animais. Com as mudanças climáticas, os homens começam a se agrupar e, juntos, a sair em busca de sustento e vestimenta. No entanto, somente os mais fortes resistiam e, segundo pesquisadores, era comum nessa época se desfazerem de crianças com deficiências, pois representavam um fardo para o grupo. O paradigma educacional tratado pela autora registra, através de regras que padronizavam os alunos, uma prisão curricular que resultava em segregação e em rótulos, não permitindo que esses alunos participassem de determinados espaços sociais. Assim, esse modelo passou a não atender as necessidades que impõem as transformações da própria sociedade, decorrentes de estudos, movimentos sociais, marcos históricos e legais construídos, sobretudo ao longo das últimas décadas. Esses dados aparecem com clareza na voz discursiva de Mantoan (2003, p. 12): A escola se entupiu do formalismo da racionalidade e cindiu-se em modalidades de ensino, tipos de serviço, grades curriculares, burocracia. Uma ruptura de base em sua estrutura organizacional, como propõe a inclusão, é uma saída para que a escola possa fluir, novamente, espalhando sua ação formadora por todos os que dela participam. 26 Analisando a citação da autora, e a velocidade com que as mudanças acontecem, o próprio conhecimento vem sendo reinterpretado, a cada momento, dando vazão a uma diversidade humana considerada condição primordial para o entendimento de como cada pessoa aprende e compreende o mundo e a si mesma. Percebendo essa dinâmica estrutural, o modelo educacional mostra, há algum tempo, sinais de esgotamento e, nesse vazio de ideias que acompanha a crise paradigmática, surge o momento oportuno para as transformações. Sendo assim, a escola não pode ignorar os fatos que acontecem em seu entorno. É bom salientar a passagem de Santos (1995), quando chama a atenção da comunidade sobre o quanto é grande o espaço do pensamento para ser colocado em um único modelo de cientificidade e em uma única epistemologia, e que, no fundo, o que resta é um saber trivial, um senso comum que essa mesma comunidade contesta em todos os níveis de ensino e de produção. Sobre isso, convém citar Morin (2002), a respeito de que, para se reformar a instituição, temos de reformar as mentes, mas não se pode reformar as mentes sem uma prévia reforma das instituições. O mesmo autor assinala: [...] a inteligência que só sabe separar fragmenta o complexo do mundo em pedaços separados, fraciona os problemas, unidimensionaliza o multidimensional. Atrofia as possibilidades de compreensão e de reflexão, eliminando assim as oportunidades de um julgamento coletivo ou de uma visão a longo prazo. (MORIN, 2002, p 14). São reflexões importantes sobre educação, ensino, saberes e pensamentos, sobretudo quando afirma que uma cabeça bem feita dispõe de ferramentas para tratar problemas e organizar princípios que permitam ligar os saberes - diferentemente de uma cabeça cheia que, no seu conceito, é um mero acumulador de saberes. Um sujeito com a cabeça bem feita consegue visualizar as várias formas de resolução de situações problemas. O autor critica fortemente essa educação, na qual os saberes são “retalhados”, fragmentados, o que resulta em “especialistas frios”, uma “tecnociência arrogante” e um humanismo desprezado. O próprio termo “formação” já nos traz a ideia de forma, de molde que limita a autonomia do indivíduo. Diante disso, a escola precisa ser inclusiva, cidadã, com reconhecimento e valorização das diferenças e de seus mediadores, consoante com uma gestão que pense macro, necessita compreender o que é que envolve a participação de todos. 27 O que parece consensual é a necessidade de se reinventar a educação escolar (CANDAU, 2005) para poder oferecer espaços e tempos de ensino-aprendizagem significativos e desafiantes, dentro dos contextos sociopolíticos e culturais atuais, para atender as inquietudes de crianças e jovens. Não há educação que não esteja imersa nos processos culturais do contexto em que se situa. Educação e Cultura trazem para o seio da discussão o multiculturalismo, que hoje é uma questão planetária. A pesquisadora argentina Emília Ferreiro (2001) ao falar do contexto latino- americano e das dificuldades da escola pública para trabalhar com as diferenças, desde a sua institucionalização, assinala que a escola pública, gratuita e obrigatória do século XX, é herdeira do século anterior, e encarregada de missões históricas de grande importância: criar um único povo, uma única nação, anulando as diferenças entre os cidadãos, considerados como iguais diante da lei. A tendência principal foi equiparar igualdade a homogeneidade. Se os cidadãos eram iguais diante da lei, a escola devia contribuir para gerar esses cidadãos, homogeneizando a atenção às crianças, independentemente de suas diferentes origens. Encarregada, então, de homogeneizar, de igualar, essa escola mal podia apreciar as diferenças. Lutou, não somente contra as diferenças de língua, mas também contra as diferenças dialetais da linguagem oral, contribuindo, assim, para gerar o mito de um único dialeto padrão para ter acesso à língua escrita. A inclusão escolar constitui uma proposta condizente com a igualdade de direitos e oportunidades educacionais para todos, no chão da escola, local em que se produz e se interage com as práticas cidadãs. A escola, nessa perspectiva, busca consolidar o respeito às diferenças, cumprindo com as ações educativas, conforme cita Mantoan (2003, p. 15). Na perspectiva inclusiva, suprime-se a subdivisão dos sistemas escolares em modalidades de ensino especial e de ensino regular. As escolas atendem as diferenças sem discriminar, sem trabalhar à parte com alguns alunos, sem estabelecer regras específicas para se planejar, para aprender, para avaliar (currículos, atividades, avaliação da aprendizagem para alunos com deficiência e com necessidades educacionais especiais). Dialogando com a citação, a consciência integral e pedagógica garante formatos alusivos à compreensão e ao modus operandi. O impasse para lidar com as diferenças em sala de aula, muitas vezes, está no professor, por compreender-se como incapaz de lidar com o adverso, o que inclui os alunos especiais. 28 Nessa perspectiva, Vygotsky (1995) afirma que a criança deficiente não sente diretamente sua deficiência, mas percebe as dificuldades que resultam dela e, com isso, acaba por sentir-se numa posição social inferior. Dessa forma, a família e a escola precisam estar atentas aos vínculos pessoais estabelecidos, que devem buscar proporcionar à criança, confiança em suas potencialidades e condições de superação. Para superar as deficiências biológicas, originadas em doenças ou síndromes, o teórico explica que as crianças com algum desenvolvimento atípico precisam interagir com crianças com desenvolvimento mais avançado e com adultos, permitindo troca de saberes e experiências para que todos aprendam juntos. As experiências sociais mobilizam competências capazes de superar dificuldades. Ainda sobre a teoria de Vygotsky (2011), a sua abordagem debate sobre a inclusão nos campos da educação na escola e na sociedade. Segundo a educadora Mantoan (2006), na escola inclusiva, professores e alunos aprendem uma lição que a vida dificilmente ensina: respeitar as diferenças. Ressalta, ainda, que a inclusão é a nossa capacidade de reconhecer o outro e ter o privilégio de conviver com pessoas diferentes. Segundo Coll (1999) a igualdade educacional não pode ser obtida quando se oferece o mesmo cardápio a todos os alunos; a integração escolar das crianças com deficiências torna-se possível quando seoferece a cada aluno aquilo que ele necessita. A Constituição Federal de 1988 determina, em seu art. 227, que: É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-la a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. Em 1990 foi promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), documento determinante para as questões da infância e adolescência, que traz referência ao processo de promoção e defesa dos direitos de crianças e adolescentes, tratando-os como sujeitos de direito, cuja proteção integral deve ser assumida como prioridade absoluta. O ECA valoriza os laços familiares e comunitários, o acesso à formação escolar, os cuidados a adolescentes que cometem atos infracionais e o estímulo ao desenvolvimento cultural e intelectual torna-se uma agenda prioritária na 29 perspectiva de prevenção à violência, orientadora de ações que assegurem direitos e oportunidades para a infância e a adolescência. Com relação à educação, o ECA prevê que os portadores de deficiência tenham atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino (artigo 54, III). Essa disposição, além de garantir um atendimento adequado às necessidades da criança, busca evitar qualquer tipo de segregação. Destarte, compreender que cada sujeito tem sua história, suas potencialidades, suas dificuldades, requer atenção e respeito a cada situação, frente as adversidades. Para tanto, lidar com pessoas como sujeito de direito requer reconhecimento do outro, percebendo sua autonomia e a não redução das suas necessidades; é preciso situar o protagonismo de cada ser, fortalecendo seu espaço de pertencimento. Nessa linha de pensamento, por certo, investir na potencialidade de cada estudante é o que fará a diferença, oferecendo-lhe ferramentas de superação. Na perspectiva dos direitos humanos, as pessoas com transtorno do espectro autista têm direito à inclusão e à proteção do Estado contra a violação de seus direitos e no enfrentamento de barreiras construídas em decorrência de preconceitos e da não aceitação de suas especificidades. Essa é uma conquista trazida pela Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, na qual se ampara a Lei n.º 12.764/2012. A Lei n.º 13.146/2015, denominada Lei Brasileira de Inclusão (LBI), também conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, ratifica que a educação constitui um direito das pessoas com deficiência, ao incluir o aprimoramento dos sistemas de ensino para que exista inclusão. A LBI traz o acesso a garantias e direitos para as pessoas com deficiência, nas mais diversas áreas. Na Educação, versa sobre a inibição da recusa de matrícula de aluno com deficiência no ensino regular, inclusive na educação privada, ratificando o que apregoa a Constituição Federal (BRASIL, 1988) e o Plano Nacional de Educação – PNE/2014 (BRASIL, 2014), ou seja, o reconhecimento do respeito à valorização da diversidade e aos princípios de equidade, chamando para o poder público a responsabilidade de garantir o acesso à educação. 2.3 Documentos e marcos da legislação sobre a inclusão escolar 30 Os marcos documentais pós Constituição Brasileira de 1988 se distribuem em modalidades diversas, apontando um direcionamento legal segundo o entendimento que se percebia nesse momento histórico cultural. Após o fato histórico da passagem de Fernando Collor de Mello pela presidência, com o insucesso ético e administrativo que originou a suspensão de seu mandato, foi substituído pelo seu vice, que passou a constituir um governo de coalizão político-administrativa, cabe citar a Portaria n.º 1.793∕ 94 do Ministro da Educação e do Desporto. O mesmo, no uso de suas atribuições, considerando a necessidade de complementar os currículos de formação de docentes e de outros profissionais que interagem com portadores de necessidades especiais, definiu: Art.1º. Recomendar a inclusão da disciplina “ASPECTOS ÉTICO- POLITICOEDUCACIONAIS DA NORMALIZAÇÃO E INTEGRAÇÃO DA PESSOA PORTADORA DE NECESSIDADES ESPECIAIS”, prioritariamente, nos cursos de Pedagogia, Psicologia e em todas as Licenciaturas. Art. 2º. Recomendar a inclusão de conteúdos relativos aos aspectos–Ético– Políticos– Educacionais da Normalização e Integração da Pessoa Portadora de Necessidades Especiais nos cursos do grupo de Ciência da Saúde (Educação Física, Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina, Nutrição, Odontologia, Terapia Ocupacional), no Curso de Serviço Social e nos demais cursos superiores, de acordo com as suas especificidades. Conforme esse documento, há recomendação de inclusão de conteúdos relativos a aspectos éticos, políticos e educacionais da normalização e integração da pessoa portadora de necessidades especiais, nos currículos de formação de docentes, a título de solidificar os estudos, aprofundando os conhecimentos para melhor compreender as teorias que aproximam à prática para uma posterior ação. Em 1996, foi publicada a Lei n.º 9.394/96, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), para regulamentar o sistema educacional público e privado do Brasil, da educação básica ao ensino superior, inspirada e defendida pelo antropólogo Darcy Ribeiro, que conseguiu manter suas ideias em um texto legal e bem sintetizado. No que tange à Educação Especial, o art. 58 (Redação dada pela Lei n.º 12.796, de 2013) manifesta: Entende-se por educação especial, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação. 31 § 1º Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender às peculiaridades da clientela de educação especial. § 2º O atendimento educacional será feito em classes, escolas ou serviços especializados, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível a sua integração nas classes comuns de ensino regular. Para que essa educação especial se desenvolva, a Lei de Diretrizes e Bases de 1996 estabeleceu, ainda, em seu Artigo 59, como dever dos sistemas de ensino, assegurar métodos, currículos, recursos e professores especialistas para desenvolverem um ensino adequado a essa população. O termo deficiência, para denominar pessoas com deficiência, tem sido considerado, por algumas ONGs e por cientistas sociais, inadequado, pois o termo leva consigo uma carga negativa e depreciativa da pessoa, fato que foi se tornando, ao longo dos anos, cada vez mais rejeitado pelos especialistas da área e, em especial, pelos próprios indivíduos a quem se refere. Muitos, entretanto, consideram que essa tendência politicamente correta tende a levar as pessoas com deficiência a uma negação de sua própria situação e, à sociedade, a não respeitar as diferenças. 2.4 O currículo na perspectiva do estudo para TEA Currículo deriva da palavra latina currere que se reporta a uma pista de corrida, ou estrada a seguir. Quanto à utilização do termo, do ponto de vista histórico, data de fins do século XVI e início do XVII, momento em que diversas modificações político- sociais conduziram as reformas pedagógicas. Segundo Saviani (2005, apud Eyng, 2012) falar de currículo escolar ganhou destaque no Brasil a partir da Escola Nova, entre os anos de 1920 e 1930, quando os estudiosos perceberam a necessidade de criar sistemas de educação com ideias emancipadoras e democráticas, quebrando o paradigma de adestramento focado em um determinado fim ou habilidade, mais precisamenteno ensino tradicional. Nesse viés, a Educação tinha como prioridade a formação de um cidadão que estivesse em gozo de seu pleno desenvolvimento social, moral, emocional e físico, apto a exercer sua cidadania na sociedade. E é nesse quadro histórico e inspirador da Educação Brasileira que está Anísio Teixeira, detentor da Teoria Liberal como apelo social, que defende a participação do indivíduo na sociedade contemporânea, com pressupostos de uma liberdade que só poderá ser adquirida por meio de uma concepção 32 democrática, tanto da escola quanto da sociedade. Teixeira defendia a criação de uma rede de ensino que fosse da Educação Infantil à universidade, e atendesse a todos, independentemente de raça, condição financeira ou credo, e olhasse para os interesses da comunidade em que estava inserida. Cabe ressaltar que, de acordo com Moreira (1997), nasciam algumas reformas educacionais que, além de estarem centradas nas necessidades e interesses individuais, também abordavam questões sociais. O currículo escolar, por sua vez, pode ser caracterizado de três formas: currículo formal, currículo real e currículo oculto. O currículo formal ou prescrito são os livros-textos, de caráter documental que norteiam a prática pedagógica. Nele estabelece metas a serem cumpridas. Este currículo supre todas as necessidades de aprendizagem dos alunos e, desde que seja executado de forma correta, alcançará os objetivos desejados. Quanto a mudar algo no currículo formal, não é necessário; o mais importante é colocar em prática seus conteúdos. O currículo formal é o currículo estabelecido pelos sistemas de ensino ou por instituições educacionais. É o currículo expresso em diretrizes curriculares, objetivos e conteúdo das áreas ou disciplinas de estudo. O currículo formal ou oficial é aquele conjunto de diretrizes normativas prescritas institucionalmente, como por exemplo, os Parâmetros Curriculares Nacionais divulgados pelo Ministério da Educação e as propostas curriculares dos Estados e Municípios (LIBÂNEO, 2001). O currículo real, são as situações de aprendizagem concretas que acontecem no cotidiano escolar, e é orientado por um projeto pedagógico, um plano de aula, a partir daquilo que foi executado, que se materializou, ou seja, o que de fato aconteceu. Dentro da sala de aula, na relação entre professor e aluno como participantes de um sistema de ensino, a aprendizagem se organiza percebendo competências, habilidades, valores e atitudes. Já o currículo oculto, segundo Libâneo (2004, p. 172), [...] é representado pelas influências que afetam a aprendizagem dos alunos e o trabalho do professor provenientes da experiência cultural, dos valores e significados trazidos pelas pessoas de seu meio social e vivenciado na própria escola, ou seja, das práticas e experiências compartilhadas em escola e na sala de aula. Se compreende, portanto, que o currículo oculto se relaciona com as influências 33 implícitas que envolvem a aprendizagem dos alunos, assim como o fazer pedagógico, embora não seja extrínseco, por estar imbuído de percepções, comportamentos e práticas. Silva (1996, p. 205) argumenta sobre a possibilidade de conexão entre a educação e o currículo, visando relações sociais mais amplas, mantendo conexão com as relações de classe, de gênero, de raça, discutindo e questionando as relações sociais e históricas que constroem nossas presentes categorias de divisão e exclusão social, e tendo presente a ideia de que nossa identidade social é produzida histórica e socialmente, não apenas no interior da escola, mas no contexto de processos pedagógicos e formativos mais amplos. Assim, exigem-se, do currículo, práticas pedagógicas, estratégias, dinâmicas e resultados que atendam as questões de diversidade, multiculturalismo e identidade, presentes dentro da sala de aula. São essas as múltiplas realidades vigentes na sociedade, e que devem ser consideradas no processo de construção social e intelectual de cada sujeito. “O pensamento pedagógico contemporâneo não pode se esquivar de uma reflexão sobre a questão da cultura e dos elementos culturais dos diferentes tipos de escolhas educativas, sob pena de cair na superficialidade”, (FORQUIN, 1993, p. 10 apud SILVA, 2021, 4-5). Dessa forma, os estudos curriculares começam a conectar-se com as questões culturais, a fim de compreender o indivíduo em seu tempo e espaço, ou seja, no lugar em que está. O autor justifica seu ponto de vista concluindo que, Nos Estudos Culturais voltados para o currículo não se podem mais ignorar as diferenças culturais, de gênero, de raça, de cor, sexo etc. [...] Há, em todo o enfoque cultural destas questões, uma profunda preocupação com os valores éticos do respeito, do cuidado heideggeriano com a vida, com o outro, com o sujeito diferente, com a dor da exclusão, com a mágoa das minorias marginalizadas, com os excluídos, com a discriminação dos gays e lésbicas, com a exploração da mulher, com o abandono das crianças com o silenciamento dos jovens e adolescentes, (BERTICELLI, 1999, p. 173-174). No entanto, Berticelli (1999) faz um alerta acerca da crescente produção de materiais científicos, intitulado “olhar/olhares”: “[...] não se trata, aqui, de ver a cultura como algo geral, genérico, abrangente, categoria universal. Trata-se, mais, de descobrir na cultura as diferenças mínimas, mas significativas, dinâmicas, diferenças que produzem diferenças”. (BERTICELLI, 1999, p. 173). Crepaldi (2015) aprofunda suas reflexões sobre a existência do currículo 34 multiculturalista crítico, na comunidade escolar, a partir das contribuições de Silva (2005), sobretudo quando traz a abordagem do multiculturalismo como uma visão de cultura contemporânea. Por um lado, o multiculturalismo é um movimento legítimo de reivindicação dos grupos culturais dominados. “[...] O multiculturalismo pode ser visto, entretanto, também como uma solução para os problemas que a presença de grupos raciais e étnicos coloca para a cultura nacional dominante” (SILVA, 2011, p. 85). Dialogando com esse pensamento, fica nítida a necessidade de um currículo com práticas pedagógicas, estratégicas e dinâmicas e respostas que possam atender as questões mais diversas e plurais, que considerem os alunos enquanto seres identitários em sala de aula. O multiculturalismo vigente deve estar no processo de construção de cada sujeito. O ponto de partida para esse novo conceito de currículo que se estabelece, requer um olhar voltado às subjetividades e particularidades de cada educando. Para tanto, o currículo passa a protagonizar a principal aposta para a materialização dessas mudanças, concebendo papel norteador para o desenvolvimento das atividades dos professores. Vale salientar que as reformas, promovidas pelos pioneiros, sob influência das ideias progressistas de implementar um ensino sistematizado, tornavam claro o anseio de ruptura da escola tradicionalista, que não tinha como prioridade as necessidades do aluno, e que, de forma indireta, não agregava aprendizagem por não fornecer subsídios primordiais para a construção de um conhecimento científico, como sim acontece com as habilidades de observar, pensar, julgar, criar, decidir e agir (MOREIRA, 1997). Consoante ao discurso, na atual conjuntura, Sacristán (2000) ressalta as várias expectativas em torno do trabalho pedagógico desempenhado pelo profissional de educação, mostrando habilidades profissionais com domínio da prática e com a promoção de aprendizagens significativas, a partir das concepções prévias dos alunos, atentando para as necessidades pessoais de cada um, com estímulo ao interesse pela aprendizagem. Conceituar currículo, no âmbito educacional, não é tarefa fácil, pelo fato de estar envolvido em concepções de sociedade, de educação e de cultura, peculiar ao grupo de inserção do quadro interpretativo, por ser