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Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 1 APELAÇÃO Nº.: 0173157-21.2014.8.19.0001 APELANTE : ESTADO DO RIO DE JANEIRO APELADO : DANIELE CONCEIÇÃO DOS SANTOS DES. RELATOR: CARLOS ALBERTO MACHADO ADMINISTRATIVO. CONSTITUCIONAL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. DANO MORAL. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO POR OMISSÃO ESPECÍFICA RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA. LAUDO DO PERITO DO JUÍZO QUE APONTA OMISSÃO DE PROCEDIMENTO MÉDICO. AUSÊNCIA DE ANOTAÇÃO NO PARTOGRAMA DOS ÍNDICES DA PRESSÃO ARTERIAL DA PARTURIENTE DURANTE AVALIAÇÃO CLÍNICA. CONDUTA QUE NÃO ENCONTRA RESPALDO NA LITERATURA MÉDICA E PODE CAUSAR PROBLEMAS MATERNOS E FETAIS. GRAVIDEZ DE RISCO. EXAMES NECESSÁRIOS DEIXARAM DE SER REALIZADOS. FALTA DE CUIDADO E ACOMPANHAMENTO ADEQUADO PARA COM A PACIENTE E SUA FILHA. DEVERES QUE COMPETIAM AO ESTADO E QUE SE OBSERVADOS PODERIAM CONDUZIR A RESULTADO DIVERSO. DANO MORAL IN RE IPSA. Insurge-se o Apelante, Estado do Rio de Janeiro, contra a r. sentença que o condenou ao pagamento de indenização por dano extrapatrimonial, em razão de não haver a equipe do Hospital Albert Schweitzer adotado todos os procedimentos e os exames necessários para uma parturiente de risco como a autora, ora apelada. Entendeu a douta julgadora monocrática que a equipe do referido hospital agiu com a falta de cuidado básico o que pode ter contribuído para a hipóxia fetal que ocasionou sequelas irreversíveis na filha da apelada. Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 2 O regramento constitucional disposto no artigo 37, §6º , adota a responsabilidade objetiva do Estado fundamentada na Teoria do Risco Administrativo, segundo a qual havendo nexo de causalidade entre o funcionamento do serviço e o prejuízo sofrido haverá o dever de indenizar. A administração pública apenas se exonera desse dever se presentes as excludentes do nexo causal. O caso sob exame adequa-se à responsabilidade civil da Administração Pública por omissão específica. Deverão ser comprovados o dano e o nexo de causalidade. Laudo pericial indica que õ atendimento prestado à parturiente não atendeu aos protocolos necessários ao seu quadro clínico, mormente no que concerne a aferição periódica de sua pressão arterial, eis que ela já ingressou no Nosocômio com a pressão arterial elevada, potencializando riscos ao parto, tanto para a mãe quanto para o feto. Criança nasceu com paralisia cerebral, sendo certo que a omissão estatal resta configurada pela falta de cautela com que foi tratada a parturiente, não tendo sido observadas cautelas necessárias em face de um gravides de risco. Nexo causal configurado. Em razão das omissões quanto aos procedimentos adequados, bem como quanto aos exames necessários e não realizados, restou configurado o dano moral, isto é, a violação ao direito da personalidade da autora que, na hipótese, ocorre in re ipsa, uma vez que advém dos próprios fatos, a saber, o evento danoso é suficiente para atestar a existência do dano. Verba extrapatrimonial arbitrada em R$30.000,00 (trinta mil reais) que se exibe consentânea com os princípios da razoabilidade e proporcionalidade. R. Sentença que não merece reparo. Recuso desprovido. Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 3 A C Ó R D Ã O Vistos, relatados e discutidos estes autos da Apelação Cível e Remessa Necessária, acordam os Desembargadores da Sétima Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, por unanimidade, em CONHECER DO RECURSO E NEGAR-LHE PROVIMENTO, na forma do voto do Desembargador Relator. Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 4 RELATÓRIO Trata-se de ação indenizatória proposta por DANIELE CONCEIÇÃO DOS SANTOS em desfavor do ESTADO DO RIO DE JANEIRO, objetivando o recebimento de indenização por danos extrapatrimoniais no valor de 40 (quarenta) salários-mínimos ou no valor a ser arbitrado pelo juízo. A petição inicial de indexador 03 (fls. 03/07) veio acompanhada dos documentos de indexadores 08/27 (fls. 08/27). Narrou a autora que, em 19/12/2012, grávida de nove meses, em início de trabalho de parto, procurou o Hospital Estadual Albert Schweitzer e foi atendida às 07:05 horas, pela médica Maria Bianca, a qual deixou a autora aguardado até às 16:00 horas para o parto normal. Aduz que, diante da demora para o procedimento e diante do imenso sofrimento, seu marido procurou a chefe de plantão, Drª Vera Barbosa, que, ao verificar o ocorrido, encaminhou a autora para o centro cirúrgico onde o parto ocorreu às 16:27 horas. Salienta que o longo tempo de espera resultou em complicações em seu trabalho de parto e causou sequelas irreversíveis em sua filha Beatriz Santos de Carvalho. Afirma que, pelo fato de não ter recebido o devido atendimento, suportou sofrimento e agonia o que lhe causou dano moral, além de haver causado sequelas permanentes em sua filha, o que lhe traz abalos ainda mais profundos. Emenda à inicial (indexador 35), recebida conforme decisão que determinou a retificação do polo passivo de indexador 43. Em defesa (indexador 47 – fls. 47/62), desacompanhada de documentos, o réu argumentou que: (i) a autora não imputa ao hospital qualquer falha específica, sendo alegado demora injustificada para a realização do procedimento cirúrgico; (ii) não há provas de tratamento negligente ou descuidado; (iii) nega que tenha havido demora injustificável para a realização do procedimento cirúrgico e tampouco existe prova do risco cogitado pela autora; (iv) independentemente do regime de apuração da responsabilidade estatal (subjetiva ou objetiva) ou mesmo da conduta (comissiva ou Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 5 omissiva), exige-se, nos casos envolvendo atuação médico-hospitalar, a comprovação do dano e do nexo causal, este último associado à falha ou erro grosseiro na prestação do serviço. Por fim, sustentou que, em caso de acolhimento do pedido indenizatório, precisam ser respeitados os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Requereu a improcedência dos pedidos da autora. A produção de prova pericial foi deferida por meio da decisão saneadora de indexador 98. Deferida a expedição de ofício no indexador 196, consta resposta no indexador 211 (fls. 211/214). Expedido novo ofício de indexador 230 (fl. 230), houve resposta de indexadores 237 (fls. 237) e 239 (fls. 239/262) e manifestações das partes sobre os ofícios de indexadores 270 (fls. 270/271) e 273. Manifestação do Ministério Público no sentido de sua não intervenção no processo (indexador 279). Despacho de indexador 282 para a realização da prova pericial para auxiliar o juízo na análise dos registros médicos onde foi realizado o parto, a despeito de haver o réu desistido da referida prova. Decisão de indexador 342 que homologou os honorários da Perita do Juízo e determinou ao réu depositar 50% (cinquenta por cento) dos honorários periciais. Acórdão, indexador 417, proferido no recurso de agravo de instrumento interposto pelo réu contra a decisão supramencionada. Houve parcial provimento do recurso para desobrigar o réu a recolher, de forma adiantada, 50% (cinquenta por cento) dos honorários periciais. Laudo pericial (indexador 459 – fls. 459/468).A ação foi julgada parcialmente procedente, nos seguintes termos do dispositivo (indexador 504 – fls. 496/503): Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 6 (...) Isso posto, JULGO PARCIALMENTE PROCEDENTE o pedido formulado na inicial CONDENO o Réu ao pagamento da importância de R$ 30.000,00 (trinta mil reais), corrigidos monetariamente a se contar desta data, acrescidos dos juros de mora conforme fixado no julgamento dos Temas 810 do STJ e 905 do STF, até a data da EC113/2021, 08/12/2021, quando passa a ser aplicada, uma única vez, a Taxa Selic. Em razão da sucumbência recíproca, cada parte arcará com as despesas a que deu causa e honorários de seu Patrono. Após o trânsito em julgado, dê-se baixa e arquive-se. (...) Em apelação (indexador 516 – fls. 516/525), o réu reitera a ausência de responsabilidade civil do Estado, alegando que: (i) inexistem erros de conduta, dano e nexo de causalidade; (ii) o laudo pericial concluiu que: a) as condutas com o recém- nascido e com a paciente foram adequadas; b) não há como confirmar que as sequelas na criança ocorreram devido à demora na realização do parto e nem que a ausência de certos procedimentos médicos pelo hospital seriam imprescindíveis diante do quadro apresentado. Sustenta que a responsabilidade civil por erro médico é subjetiva, sendo imprescindível a comprovação da conduta culposa do agente público, além do nexo e do dano. Registra que a obrigação é de meio e não de resultado, nos serviços médicos. Por fim, aduz que o valor do dano moral fixados na sentença foi excessivo e viola os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Requer a reforma integral da sentença para julgar improcedente o pedido, ou, subsidiariamente, a redução do valor fixado a título de danos morais. A parte autora não apresentou contrarrazões. Este é o relatório. Passo ao voto Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 7 VOTO Satisfeitos estão os pressupostos de admissibilidade deste recurso, motivo pelo qual deve ser conhecido. Insurge-se o réu contra a r. sentença que o condenou ao pagamento de indenização por dano extrapatrimonial, em razão de não haver a equipe do Hospital Albert Schweitzer adotado todos os procedimentos e os exames necessários para uma parturiente de risco como a autora, ora apelada. Entendeu a douta julgadora monocrática que a equipe do referido hospital agiu com a falta de cuidado básico o que pode ter contribuído para a hipóxia fetal que ocasionou sequelas irreversíveis na filha da apelada. No que se refere à responsabilidade estatal, o regramento constitucional disposto no artigo 37, §6º1, adota a responsabilidade objetiva do Estado fundamentada na Teoria do Risco Administrativo, segundo a qual havendo nexo de causalidade entre o funcionamento do serviço e o prejuízo sofrido haverá o dever de indenizar. A administração pública apenas se exonera desse dever se presentes as excludentes do nexo causal. Os fatos retratados pela autora estão relacionados à responsabilidade civil da Administração Pública por omissão. Sobre o tema, atualmente, o Supremo Tribunal Federal entende que sendo omissão genérica, a responsabilidade será subjetiva. Significa dizer que a omissão da Administração Pública é motivo indireto do dano. Caberá ao lesado comprovar o dano, o nexo de causalidade e a culpa do agente público. Porém, em se tratando de omissão específica, a responsabilidade será objetiva. A omissão é o motivo direto e determinante do dano. 1 Art. 37. (...) § 6º As pessoas jurídicas de direito público e as de direito privado prestadoras de serviços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa. Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 8 A distinção entre omissão genérica e omissão específica encontra-se delineada no julgamento do RE 841.526 (Leading case) com repercussão geral que deu origem ao Tema 592. O caso sob exame adequa-se à responsabilidade civil da Administração Pública por omissão específica. Deverão ser comprovados o dano e o nexo de causalidade. É desnecessário que o lesado prove a existência da culpa do agente público. O Estado somente não responderá quando comprovar a existência de uma das excludentes da responsabilidade, quais sejam, o fato exclusivo da vítima, o caso fortuito, a força maior e o fato de terceiro. Na questão litigiosa em apreço, segundo o laudo da Experta do juízo que analisou os documentos existentes no processo, a autora chegou ao Hospital Albert Schweitzer no dia19.12.2012, às 06:54h (doc de fl. 15), e foi atendida às 07:05h. No momento do atendimento, a autora apresentava pressão arterial de 150 x 110 mmHg, colo dilatado para 4 cm, bolsa íntegra, apresentação fetal cefálica insinuada, contrações uterinas (metrossístoles) esparsas, batimentos cardiofetais presentes (fl. 460, item 5.1. – indexador 459). (grifei) Considerando o documento de fl. 17, constatou a Perita do Juízo que houve a realização da evolução do trabalho de parto (partograma) desde as 13:10h. Os batimentos fetais na faixa de 140 a 142 batimentos por minuto, apresentação cefálica alta e bolsa íntegra até as 16:00h. (fl. 461, item 5.4. – indexador 459). Consta, ainda, do documento de fl. 19 – ficha de anestesiologia – que há informação pré-operatória de DHEG (doença hipertensiva específica gestacional) com parada da progressão do trabalho de parto normal. Relata uso do medicamento Aldomet (fl. 461, item 5.6 – indexador 459). A cirurgia (cesariana) ocorreu sem qualquer intercorrência. Teve início às 16:14h e término às 16:59h. Esta afirmação está inserida no documento “Relato da cirurgia” e mencionado pela Perita do Juízo no item 5.7, fl. 461 (indexador 459). Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 9 E, de acordo com o documento denominado “Resumo de alta do recém-nascido no HEAS”, constou que a criança nasceu e sofreu de síndrome de asfixia por mecônio (SAM). Foi colocada em ventilação mecânica. Sofreu parada cardiorrespiratória por cinco minutos. Apresenta síndrome hipóxico – isquêmica com pouca convulsão. (item 5.10, fls. 461/462 do Laudo da Perita do Juízo – indexador 459). (grifei) Em 09.09.2013, em razão do laudo de avaliação para portador de deficiência do Instituto de Pediatria e Puericultura Martagão Gesteira, a criança Beatriz Santos de Carvalho possui hipotonia global difusa, desvio de olhar, não sustenta a cabeça e faz uso de medicação. Diagnóstico de asfixia pré-natal e paralisia cerebral. (item 5.11 de fl. 462 – indexador 459 do Laudo Pericial). (grifei) Complementa a Perita do Juízo, quando da realização da perícia (item 06, alínea “c” – Exame Clínico – fl. 462, indexador 459), que Beatriz Santos de Carvalho, “atualmente não anda; não senta sem apoio; não sustenta a cabeça; usa calha nos pés; movimenta mãos e dedos das mãos; não possui coordenação motora; não fala; não obedece a comando; come pela boca. Crises convulsivas esparsas.” (grifei) Ainda com amparo na documentação trazida ao processo, a Perita do Juízo pôde constatar, haja vista o item 7.2 “Das Considerações Técnicas e Conclusões” (fl. 463 – indexador 459), que a autora ao chegar ao Hospital Albert Schweitzer “não estava em fase ativa do trabalho do parto. Denomina-setrabalho de parto a presença de contrações uterinas ritmadas em pelo menos 2 contrações em 10 minutos e com uma intensidade de até 50 segundos e colo com dilatação de 4 cm. A paciente apresentava 4 cm de dilatação e frequência de contrações uterinas 1 em cada 10 minutos o que caracteriza ainda a fase latente do trabalho de parto”. (...) (grifei) Em prosseguimento, no item 7.3 “Das Considerações Técnicas e Conclusões”, a Perita do Juízo observou que não constam dos documentos trazidos ao processo qualquer anotação/informação no período de 06:54h, quando a autora chegou ao Hospital Albert Schweitzer, até 13:10h, quando teve início o controle do trabalho de parto. Diz a Perita do Juízo que “Não é possível determinar o que aconteceu com a autora e o feto entre o período de chegada à maternidade às 6:54h e o início da anotação no Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 10 Partograma às 13:10h, já com 7 cm de dilatação. Vemos a dilatação de 01 cm por hora, chegando a 9 cm às 15:10h e mantido até às 16:00h, quando foi indicada parto cesariana por parada de progressão e hipertensão materna. No partograma verifica-se que a pressão arterial materna não foi anotada em nenhuma avaliação clínica. Essa conduta não encontra respaldo na Literatura Médica e pode causar problemas maternos e fetais.” (Grifos da Perita do Juízo). No item 7.4 “Das Considerações Técnicas e Conclusões”, disse a Perita do Juízo que “Os batimentos fetais estavam dentro da normalidade (140-142 bpm), sem haver queda abaixo de 100 ou acima de 160 bpm por 10 minutos consecutivos, o que poderia indicar alguma hipoxemia fetal. Acrescentou que (...) “Seria indicada amniotomia para acelerar o parto, favorecer a descida do polo cefálico, e observar o aspecto do líquido amniótico (a presença de mecônio indicaria presença de hipóxia intrauterina). Não há relato de ter sido efetuada a amniotomia”. (grifei) No item 7.5 “Das Considerações Técnicas e Conclusões”, a Experta teceu considerações sobre a indicação da cesariana e em quais situações este procedimento é aconselhável. Cabe ser registrado, contudo, a ausência de informações precisas nos documentos elaborados pela equipe do Hospital Albert Schweitzer quando apura a Perita que “(...) Não há anotações a respeito de alterações no quadro hipertensivo durante o trabalho de parto, no partograma ou sinais de eclampsia iminente, como cefaleia intensa, vômitos, dor abdominal. Porém, no relato da anestesia a pressão arterial estava alta (160x100mm Hg), sendo mantida apesar da medicação.” (...) (grifei) No mesmo sentido, no item 7.6 “Das Considerações Técnicas e Conclusões” (fls. 463/464), sinaliza a Perita do Juízo ausência de informações ao confrontar o documento relativo à descrição da cirurgia (fls. 19/20 e 24 – indexadores 15 e 23) e o documento referente à descrição da enfermagem (fl. 249 – indexador 239), senão vejamos: “Nas fls. 19/20 e 24 há a descrição da cirurgia. Foi descrita (na fl. 24) sem intercorrências e realizada de acordo com a técnica habitual.”(...) “Não informa presença de mecônio. Na descrição da enfermagem do centro cirúrgico (fl.249) há a informação de não ter a criança chorado ao nascer e estar banhada em Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 11 mecônio espesso. Foi entregue a pediatria de imediato, que entubou para realizar a aspiração traqueal”.(...) Esclarece a Perita do Juízo sobre o mecônio que “é sinal clínico de risco para ocorrência de sofrimento fetal intraparto acompanhado de hipóxia fetal. Persistindo a hipóxia e o feto apresentando comprometimento clínico devido a uma insuficiência placentária (presente em todas as gestações de alto risco, como a da paciente) ocorre uma descompensação cardiopulmonar (altera ritmo cardíaco fetal). Junto com essa alteração cardíaca, temos a acidose metabólica, causa de danos neurológicos fetais importantes.” (grifei) No mesmo tópico 7.6 “Das Considerações Técnicas e Conclusões”, informa a Perita do Juízo que as condições que propiciam lesões neurológicas estão associadas às condições prévias ao nascimento, tais como: “malformações congênitas, prematuridade (um dos fatores mais importantes para a lesão neurológica), infecções congênitas e crescimento uterino restrito do feto que indicam hipóxia fetal intrauterina crônica. Essas patologias são detectadas durante o pré-natal através de exames periódicos de avaliação do bem-estar fetal (ultrassonografias com dopplerfluxometria obstétrica, cardiotocografia, ultrassonografias morfológicas). A paciente não apresentou exames do pré-natal realizado na Maternidade Escola, não se podendo avaliar riscos anteriores ou alterações durante a gestação que esclarecessem o quadro neurológico do concepto. A causa da paralisia cerebral é uma hipóxia intrauterina, mas na grande maioria dos casos não tem fator desencadeante esclarecido. A hipóxia intrauterina não foi detectada em nenhum momento do trabalho de parto, com informações compatíveis nos autos. A cardiotocografia fetal realizada no momento da internação detectado nos autos (fl. 18), mostrava reatividade fetal, sinal de boa vitalidade fetal, sem sinais de hipóxia intraútero. A cardiotocografia em início do trabalho de parto não confirma a presença de hipóxia por si só. As aferições de batimentos cardíacos durante o trabalho de parto também não demonstram alteração da vitalidade fetal”. (grifei) Com amparo no relato da enfermagem (fl. 249) no centro cirúrgico, a criança foi reanimada com estímulo tátil (massagem) e oxigênio inalatório. Estava hipocorada, Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 12 dispneica com mecônio em cavidade oral e nasal. Foi encaminhada à UTI para ventilação mecânica. (item 7.7 “Das Considerações Técnicas e Conclusões” – fl. 464 – indexador 459). (grifei) A criança Beatriz Santos de Carvalho é portadora de paralisia cerebral. A Perita do Juízo, no item 7.8 “Das Considerações Técnicas e Conclusões” comenta que a paralisia cerebral infantil é “uma doença crônica devido a lesão do Sistema Nervoso que pode ocorrer no período pré, peri ou pós-natal causando alteração do tônus muscular, de postura e movimentos que podem interferir no desempenho das atividades funcionais e no desenvolvimento global das crianças. Os fatores que influenciam negativamente são devidos a saúde materna, a exposição a fatores tóxicos e infecciosos, as condições de viabilidade e nutrição do bebê, as condições do parto e a ocorrência de eventos hipóxicos ou traumáticos no estágio perinatal”. (grifei) Continua a Perita do Juízo que “As condições de maior risco são a prematuridade (menos de 28 semanas), peso menor que 1800g, Apgar menor que 7 no quinto minuto de nascimento. A idade média para diagnóstico fica entre a 18 e 34 semanas de gestação. A Autora durante a internação no HEAS não apresentou nenhum desses fatores de risco anotados nos autos assim como também não apresentou o cartão de gestante ou exames realizados durante o pré-natal, que torna impossível avaliar a ocorrência desses fatores de risco para a Paralisia Cerebral do recém-nascido com a documentação acostada aos autos.” Acrescenta a Perita do Juízo, ainda, no item 7.8, que o Comitê Internacional de Paralisia Cerebral, no ano de 1998, estabeleceu critérios para relacionar hipóxia intrauterina e paralisia cerebral. Os critérios estabelecidos devem estar presentes em sua totalidade para determinar a hipóxia como causa da paralisia cerebral. Identifica a Perita do juízo os seguintes critérios: “variabilidade da frequência cardiofetalna cardiotocografia (na paciente não foi verificado), líquido amniótico tinto de mecônio (informado somente após o nascimento), Apgar abaixo de 6 no décimo minuto de vida (o do recém-nascido foi de 6/8, sendo 8 no quinto minuto), quadro de encefalopatia hipóxico-isquêmico(descritanafl.18).” Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 13 Sobre a Síndrome de aspiração do mecônio, à fl. 465 (indexador 459), esclarece a Perita do Juízo que “é uma complicação grave e decorrente da aspiração do mecônio presente no líquido amniótico, que cai nas vias aéreas do feto ainda dentro do útero. A presença de mecônio indica com quadro de hipóxia fetal em algum momento da gestação (pré, peri ou no pós parto).”(...) (grifei) No item 7.9 das “Das Considerações Técnicas e Conclusões”, disse a Perita do Juízo que “O trabalho de parto da Autora transcorreu de forma normal em ritmo e dilatação”. (grifei) Assevera que a autora, a despeito de estar em fase latente, quando se internou no Hospital Albert Schweitzer, apresentava hipertensão importante para o trabalho de parto e a internação se torna fundamental para o controle direto do feto e das condições maternas. Devem ser realizados exames “obrigatórios em gestação de risco para avaliar as condições circulatórias fetais e placentária e excluir a hipóxia neonatal. Não há nos autos informações do que foi realizado com a Autora em questão de investigação, a não ser a cardiotocografia na internação (fl. 18), quando ainda em fase latente.” “Estudos apontam para a necessidade de controle da frequência cardiofetal durante todo o trabalho de parto em todas as fases, em estação de risco, com cardiotocografia, de preferência. Não caso concreto foi realizada monitorização com ausculta de batimentos cardíacos fetais e cardiotocografia no início do trabalho de parto. Não é possível determinar o que aconteceu com a autora e o feto entre o período de chegada à maternidade às 6:54h e o início da anotação no Partograma às 13:10h, já com 7cm de dilatação. Consta, apenas, uma cardiotocografia reativa às 10h. Não foi realizado acompanhamento da pressão arterial materna durante o trabalho de parto, mesmo a gestante tendo dado entrada na maternidade hipertensa. Essa conduta não apresenta respaldo na Literatura e pode ter contribuído para a hipóxia fetal.” O apelante não apresentou quesitos à Perita do Juízo. Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 14 A Experta ao responder o primeiro quesito formulado pela autora, ora apelada, disse que “Não há nos autos como confirmar que as sequelas na criança ocorreram devido demora na realização do parto”. (...) A ausculta fetal e a frequência das contrações evidenciam a possibilidade de uma hipóxia intrauterina quando há uma demora na recuperação ao padrão normal dos batimentos cardíacos frente a uma dinâmica uterina normal para trabalho de parto. Não há como avaliar esses parâmetros sem o relato médico da evolução do pré-parto. Importante ressaltar que, quando a autora chegou à Maternidade, ainda não estava em trabalho de parto”. De todo o contexto probatório, limitado à prova pericial, pode-se extrair as seguintes constatações e conclusões: 1. a primeira omissão dos agentes públicos do Hospital Albert Schweitzer, no dia atendimento da autora, diz respeito à inexistência de qualquer anotação no período de 06:54h, quando a autora chegou ao hospital, até as 13:10h quando teve início o exame do partograma. A pressão arterial da parturiente não foi anotada em nenhuma avaliação clínica. Essa conduta não encontra respaldo na Literatura Médica e pode causar problemas maternos e fetais. ((item 7.3- id. 463); 2. não foi observado pela equipe do Hospital Albert Schweitzer o procedimento denominado de amniotomia. Procedimento este para observar o aspecto do líquido aminiótico que acusaria a presença de mecônio que, por sua vez, indicaria a presença de hipóxia intrauterina, como descrito pela Perita no item 7.4 “Das Considerações Técnicas e Conclusões”. Registre-se que, além de não constar anotações sobre a evolução da pressão arterial da parturiente – gravidez de risco – a criança, como exposto nos itens 7.6, 7.7. e 7.8 do laudo pericial, ao nascer, não chorou, estava hipocorada, dispneica e banhada em mecônio espesso que penetrou nas cavidades nasal e oral. Foi entregue à pediatria de imediato, que entubou para realizar a aspiração traqueal. Relembre-se que o líquido Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 15 mecônio “é sinal clínico de risco para ocorrência de sofrimento fetal intraparto acompanhado de hipóxia fetal.” A Síndrome de aspiração do mecônio, à fl. 465 (indexador 459), esclarece a Perita do Juízo, é uma complicação grave e decorrente da aspiração do mecônio presente no líquido amniótico, que cai nas vias aéreas do feto ainda dentro do útero. A presença de mecônio indica quadro de hipóxia fetal em algum momento da gestação (pré, peri ou no pós parto). Dentre os fatores que influenciam para a ocorrência da paralisia cerebral infantil estão as condições do parto. 3. a autora, quando se internou, apresentava hipertensão importante para o trabalho de parto. Deveriam ter realizados exames obrigatórios, já que se tratava de gravidez de risco, para avaliar as condições circulatórias fetais e placentária a fim de ser excluída a hipótese de hipóxia neonatal. Estes exames necessários não foram realizados, já que não há qualquer anotação nos documentos elaborados no Hospital Albert Schweitzer, salvo a cardiotocografia no momento da internação, na fase latente. Item 7.9. do Laudo pericial. 4. não foi realizado acompanhamento da pressão arterial materna durante o trabalho de parto, mesmo a gestante tendo dado entrada na maternidade hipertensa. Essa conduta não apresenta respaldo na Literatura e pode ter contribuído para a hipóxia fetal. Item 7.9 do Laudo pericial. 5. também houve falta de cuidado no preenchimento dos documentos clínicos. A Perita constatou divergência no preenchimento daqueles ao confrontar os documentos de fls. 19/20, 24 (descrição da cirurgia) e 249 (descrição da enfermagem) (item 7.6 do Laudo pericial). O dano ocorreu. A criança é portadora de paralisia cerebral. A criança que, ao nascer, estava banhada em mecônio, com a presença deste líquido nas cavidades nasal e oral. Significa dizer que a criança já estava envolta neste líquido no interior do útero materno. Deixou a equipe de realizar o procedimento denominado de amniotomia que acusaria a presença daquele líquido que, por sua vez, indicaria a presença de hipóxia intrauterina. Outrossim, não foram realizados os exames Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 16 necessários, já que a gravidez era de risco. E, tampouco, houve acompanhamento da evolução da pressão arterial da parturiente durante o trabalho de parto que pode ter contribuído para a hipóxia fetal. Destarte, as alegações do réu acerca da ausência de sua responsabilidade civil, em razão da falta dos requisitos legais quanto à conduta dos agentes públicos, ao dano e ao nexo de causalidade, não subsistem. Constatada a omissão específica em relação à inobservância de diversos procedimentos e exames médicos necessários como constatou a perícia. Estabelecido o nexo de causalidade, pois a adoção dos exames necessários e dos procedimentos médicos adequados teria havido a chancede evitar o resultado danoso. Cabia ao Estado, no caso, zelar pela saúde e pela vida da parturiente e do nascituro, que se encontravam nas dependências de hospital pertencente à sua rede de atendimento, aplicando todas as técnicas e procedimentos necessários, para que o parto ocorresse de forma segura e sem desdobramentos, o que não ocorreu. Em razão das omissões quanto aos procedimentos adequados, bem como quanto aos exames necessários e não realizados, restou configurado o dano moral, isto é, a violação ao direito da personalidade da autora que, na hipótese, ocorre in re ipsa, uma vez que advém dos próprios fatos, a saber, o evento danoso é suficiente para atestar a existência do dano. Nesse sentido: APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO. ATENDIMENTO PRESTADO EM HOSPITAL PÚBLICO. ÓBITO DE PACIENTE QUE PERMANECEU AGUARDANO INTERNAÇÃO NO CORREDOR DA UNIDADE HOSPITALAR SEM OS DEVIDOS CUIDADOS. FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO CARACTERIZADA. NEXO DE CAUSALIDADE. DANOS MORAIS E MATERIAIS. MANUTENÇÃO DA SENTENÇA. Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 17 Pretensão autoral que se funda na responsabilidade objetiva, nos termos do art. 37 § 6º da CR. 2- O sistema de responsabilidade civil do Estado recepciona a teoria do risco administrativo, desobrigando o lesado de demonstrar a culpa da Administração para obter indenização em razão de ato danoso causado por seus agentes. 3- A responsabilidade do hospital deve ser aferida na medida da sua culpabilidade, e o dever de indenizar somente se exclui caso haja comprovação de que foram adotadas todas as medidas necessárias para evitar o dano. 4- A parte Autora busca obter indenização por danos morais e materiais que teria experimentado em razão de falha do serviço prestado no Hospital Estadual Rocha Faria, durante o atendimento médico prestado ao seu filho, que veio a falecer com quadro de infecção generalizada. 5- Conjunto probatório dos autos revela que o Réu não forneceu atendimento médico adequado ao filho dos Autores, porquanto, que de acordo com a prova pericial indireta produzida nos registros de internação (prontuários médicos disponibilizados), restou identificado que não foram realizadas medidas necessárias de urgência para o paciente, circunstância que levou ao agravamento do quadro clínico e culminou no seu falecimento. 6- De acordo com o perito: "O menor João Paulo permaneceu durante todo período em sala amarela, mesmo com piora da sua condição clínica, sem monitorização hemodinâmica, sem continuação da investigação de infarto e de sepse cutânea. Tal conduta não está de acordo com a literatura médica. Só foi trocado esquema antibiótico (benzetacil para cipro e depois da PCR cefepime + vanco). Não consta justificativa para não realização da transfusão das unidades de plasma solicitadas. Não foram realizadas medidas de suporte para paciente séptico de acordo com a literatura médica, punção venosa profunda, hidratação venosa, realização de culturas, pressão arterial média, cateterismo vesical, monitoramento hemodinâmico etc, nem investigação do edema agudo de pulmão e da hemoptise". 7- Houve falha no serviço prestado, seja por negligência dos agentes públicos, diante da ausência de informação detalhada no prontuário médico, no momento da chegada do paciente ao hospital (anamnese detalhada, aferição dos sinais vitais para classificação de gravidade), seja pelas condições materiais inadequadas do atendimento fora da UTI, uma vez que o menor havia sido considerado séptico, fator que pode ter contribuído para a morte de João Paulo, que de acordo com o laudo pericial poderia ter sido evitado se tivesse recebido atendimento adequado. 8- Omissão do Estado na disponibilização e concretização ao direito à saúde, constitucionalmente garantido e, no caso em tela, objeto de total descaso por parte do ente público. 9- É cediço que a obrigação do médico é de meio, não de resultado, mas o Réu deveria ter juntado prova de que empregou os meios necessários, adequados ao caso do paciente como única forma de romper o nexo de causalidade entre o resultado e sua conduta. 10- Aplicação da Teoria da Perda d e uma Chance na solução justa da demanda à luz do princípio democrático de direito e de respeito à dignidade da pessoa humana. 11- Dano moral, que deriva do próprio fato negligente, isto é, ocorre in re ipsa. 12- A morte de um filho é sempre um choque. Não faz parte da lei natural de vida, não é algo que seja superado, pois os filhos representam a continuidade de nossa vida. A perda de um filho deixa cicatriz Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 18 indelével, uma dor eterna, gera profundo sentimento de tristeza, principalmente quando era tão jovem, 13 anos de idade. 13- O menor deu entrada inicialmente no hospital Albert Schweitzer no dia 24/12/2012 e muito embora estivesse em situação especialmente vulnerável, necessitando de assistência o mais rapidamente possível, aguardou por internação em uma maca no corredor da unidade, até dar entrada no Hospital Rocha Faria no dia 26/12/2012. Levado para a sala amarela, lá permaneceu durante todo período sem que lhe fosse garantido atendimento médico-hospitalar adequado, e quando finalmente, no dia 27/12/2012 conseguiu ser encaminhado ao CTI, veio a óbito no dia 28/12/2012, sendo mais uma vítima da administração pública. 14- Quantum indenizatório que deve ser mantido em R$100.000,00 (cem mil reais). 15- O pensionamento é devido à parte Autora na forma estabelecida na sentença, devendo ser paga na sua totalidade e não pela metade, sendo que presumivelmente, 1/3 desse valor seria consumido em despesas com a própria vítima, impondo-se fixar a pensão em 2/3 (dois terços) do salário mínimo nacional. A pensão deve ser paga até a data em que a vítima completaria 25 anos de idade, pois, daí para frente é razoável supor que o de cujus constituiria família fora do lar paterno, a partir de então, o pensionamento passará a ser de 1/3 do valor, até a data correspondente à expectativa média de vida da vítima, segundo tabela do IBGE na data do óbito ou até o falecimento dos beneficiários, o que ocorrer primeiro, sendo que se um falecer antes do outro a pensão se reverterá para aquele que continuar vivo. 16- Reparo na sentença, de oficio, para fixar os Juros de mora a partir da data do evento danoso, 28/07/2012, nos termos do art. 398 do Código Civil c/c Súmulas nºs. 43 e 54 do STJ, calculados segundo a tese nº 905 firmada pelo STJ e do julgamento pelo STF, do RE 870.947/SE, consectários que devem incidir por ocasião da execução da sentença, com o cômputo de juros de mora segundo índice de remuneração da caderneta de poupança e de correção monetária conforme o IPCA. 17- DESPROVIMENTO DO RECURSO. (0186923-78.2013.8.19.0001 - APELAÇÃO. Des(a). TERESA DE ANDRADE CASTRO NEVES - Julgamento: 18/05/2023 - VIGÉSIMA SEGUNDA CÂMARA CÍVEL) Quanto ao alegado excessivo valor do dano moral, a quantia fixada em R$ 30.000,00 (trinta mil reais) não se mostra violadora dos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, à luz do verbete nº 343 da Súmula desta Corte de Justiça2. 2 SÚMULA TJ Nº 343 Dano moral. Verba indenizatória. Fixação do valor da condenação. Proporcionalidade e razoabilidade. “A verba indenizatória do dano moral somente será modificada se não atendidos pela sentença os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade na fixação do valor da condenação.” Referência: Processo Administrativo nº. 0013830-09.2015.8.19.0000 - Julgamentoem 14/09/2015 – Relator: Desembargadora Ana Maria Pereira de Oliveira. Votação por maioria. Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 19 Tem-se a quantia como razoável e que guarda correlação entre o dano sofrido e a função punitivo pedagógica, estando em conformidade com a jurisprudência desta Corte. A propósito: APELAÇÃO CÍVEL. RESPONSABILIDADE CIVIL DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. ERRO MÉDICO. CIRURGIA PARA HÉRNIA DE DISCO. AUSÊNCIA DE CORREÇÃO DA PATOLOGIA. DEMORA NA IDENTIFICAÇÃO DO QUADRO E REPETIÇÃO DA OPERAÇÃO. LESÃO QUE SE TORNOU PERMANENTE. COMPROMETIMENTO DE MEMBRO INFERIOR DIREITO. PREJUÍZO MATERIAL DEMONSTRADO. DANO MORAL IN RE IPSA. PREPARO NA SENTENÇA DE PARCIAL PROCEDÊNCIA, EM RELAÇÃO AOS CONSECTÁRIOS LEGAIS. 1. Sentença que julgou procedente em parte o pedido indenizatório, condenando o Município a ressarcir as despesas realizadas pelo autor, bem como a pagar danos morais no valor de R$50.000,00, em razão de erro médico durante cirurgias para correção de hernia de disco, realizadas no Hospital Municipal Miguel Couto. 2. Apelo do ente federativo em que reitera ausência de erro ou do nexo de causalidade. 3. Autor submetido a operação de hernia de disco, sem sucesso. Laudo pericial conclusivo pela inadequação da operação, com prolongamento do quadro deficitário e doloroso, pela ausência de investigação adequada dos sintomas pós-operatórios, mediante exames de imagem que indicariam persistência do quadro e pela demora injustificada no diagnóstico correto, o que acabou por tornar a lesão de L5 definitiva. 4. Responsabilidade pelo risco administrativo do ente público, lastreada no artigo 37, §6º, da Constituição Federal. Prova pericial médica contundente a demonstrar a relação de causalidade entre o comportamento do agente público e o dano suportado. Configuração da responsabilidade da edilidade. 5. Erro médico que ocasionou, além de dor física, sequela permanente em membro inferior direito. 6. Dano material que observou corretamente os demonstrativos de despesas médicas realizadas, em decorrência da conduta do nosocômio. Impossibilidade de utilização da tabela SUS na hipótese. 7. Configuração do dano moral in re ipsa. Compensação fixada no valor de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais) que observou os princípios da razoabilidade e proporcionalidade, se mostrando adequado à finalidade do instituto e da função punitivo pedagógica, estando em conformidade com a jurisprudência desta Corte. 8. Na ausência de recurso da parte contrária, deve ser prestigiado o valor arbitrado pelo Julgador de primeiro grau, mais próximo dos fatos e das partes. Inteligência da Súmula 343 desta Corte. 9. Termo inicial dos juros de mora sobre dano moral que é a data do evento danoso, nos moldes da Súmula 54, da Corte Superior e não a Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 20 data da citação, como fixado em sentença. Matéria de ordem pública e, como tal, aferível de ofício. 10. Em relação aos índices dos consectários da mora, impõe-se igualmente a necessidade de observância dos critérios definidos pelos Temas 810 do STF e 905 do STJ conforme defendido pelo Município em sua apelação, até a entrada em vigor da EC nº 113/2021, quando ambos deverão observar a SELIC. 11. PARCIAL PROVIMENTO DO RECURSO, retificada a sentença, ex officio, para correção do termo a quo dos juros de mora. (0163207-75.2020.8.19.0001 - APELAÇÃO. Des(a). FERNANDO CESAR FERREIRA VIANA - Julgamento: 28/05/2024 - SÉTIMA CÂMARA DE DIREITO PÚBLICO APELAÇÃO CÍVEL. DIREITO CIVIL. AÇÃO INDENIZATÓRIA. ERRO MÉDICO. HOSPITAL MUNICIPAL. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. PROVA PERICIAL. NEXO CAUSAL. FALHAS GRAVES. AÇÕES/OMISSÕES ESPECÍFICAS DO ENTE MUNICIPAL NÃO ELIDIDAS. TEORIA DO RISCO ADMINISTRATIVO (ARTIGO 37, §6º, DA CRFB/88). PENSIONAMENTO VITALÍCIO DEVIDO. ART. 950 DO CÓDIGO CIVIL. INCAPACIDADE PARCIAL E PERMANENTE DO MENOR. PROVA PERICIAL. DANO MORAL IN RE IPSA. DANO ESTÉTICO COMPROVADO. VALORES FIXADOS EM OBSERVÂNCIA AOS PRINCÍPIOS DA RAZOABILIDADE E DA PROPORCIONALIDADE. JUROS. DIES A QUO. EVENTO DANOSO. RELAÇÃO EXTRACONTRATUAL. TAXA JUDICIÁRIA DEVIDA PELO ENTE MUNICIPAL. INCIDÊNCIA DOS VERBETES SUMULARES NºS 54 DO STJ, 42 DO FETJ, 145, 161, 343 DO TJRJ. REFORMA PARCIAL DA SENTENÇA. - Apelante que alega ausência de nexo causal e falha na análise das provas, não podendo ser o réu responsabilizado pela lesão do neonato. Requer a improcedência integral do pedido e, subsidiariamente, a redução das verbas reparatórias e do valor do pensionamento. - Falha no atendimento prestado à gestante em hospital municipal, cuja responsabilidade do ente municipal é objetiva, com suporte na Teoria do Risco Administrativo (art. 37, §6º, da CRFB/88), ante a comprovação pericial de ações/omissões específicas de prepostos do réu, no tocante às manobras realizadas para desprendimento dos ombros do 1º autor, durante o parto, acarretando-lhe lesão do plexo braquial. - O dano estético e a lesão de natureza parcial e permanente restaram demonstrados no laudo pericial (encurtamento de 3,5 cm do ombro direito do primeiro autor, cuja rotação ficou prejudicada em grau leve, moderado e grave). Segundo dicção do art. 950 do Código Civil, não é necessária a comprovação do efetivo exercício de atividade econômica, eis que a incapacidade laboral da vítima é presumida com a prova da sequela física permanente, que, no caso dos autos, é de 30% (trinta por cento). - Configurado o dano moral na modalidade in re ipsa, reputa-se justo, razoável e proporcional aos fatos a quantia de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais), para o primeiro demandante, R$ 20.000,00 (vinte mil reais), Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro Tribunal de Justiça 7ª Câmara de Direito Público Gabinete do Desembargador Carlos Alberto Machado G 21 para o segundo, e, R$ 30.000,00 (trinta mil reais), para a terceira autora, para minimizar o dano extrapatrimonial por eles sofrido, à luz do verbete nº 343 da Súmula desta Corte de Justiça, dos princípios da razoabilidade e proporcionalidade. Precedentes. - Dever do ente municipal ao pagamento da taxa judiciária, na forma dos verbetes sumulares n° 145 do TJRJ e n° 42 do FETJ, o que ora se corrige à luz do verbete sumular nº 161 do TJRJ. - Juros de mora sobre a verba reparatória por danos morais que devem fluir da data do evento danoso, nos moldes do verbete nº 54 da Súmula do STJ, pois, in casu, a responsabilidade do Poder Público é de natureza extracontratual, submetida às regras do Direito Administrativo, na forma do art. 37, § 6º c/c arts. 196 e 197, todos da CRFB/88, por se tratar de serviço público essencial (AgInt no AREsp 1094566). DESPROVIMENTO DO RECURSO E REFORMA PARCIAL DA SENTENÇA COM FULCRO NO ENUNCIADO SUMULAR Nº 161 DO TJRJ. (0283649-75.2017.8.19.0001 - APELAÇÃO. Des(a). MARIA HELENA PINTO MACHADO - Julgamento: 08/07/2022 - QUARTA CÂMARA CÍVEL) Assim sendo, o julgado monocrático não merece reparo, uma vez que o Juízo de 1ª instância analisou detalhadamente a questão e concluiu de modo adequado. Isso posto, voto no sentido de CONHECER DO RECURSO E NEGAR-LHE PROVIMENTO para manter a sentença tal como está lançada. Majoro os honorários advocatícios sucumbenciais em 2% (dois por cento) sobre o valor da condenação, nos termos do artigo 85, § 11, CPC. Rio de Janeiro, na data da sessão de julgamento. Desembargador CARLOS ALBERTO MACHADO. 2025-04-02T08:40:49-0300 GAB. DES. CARLOS ALBERTO MACHADO