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Aspectos Antropológicos e 
Sociológicos
Marcos R. C. Ketelhut
AULA 06
Trabalho
Para a maioria de nós, o trabalho ocupa um espaço maior
da vida do que qualquer outro tipo de atividade. É
comum associarmos a noção de trabalho a uma atividade
maçante. No entanto, há outras implicações – não fosse
assim, as pessoas não se sentiriam perdidas e
desorientadas ao ficarem desempregadas. O trabalho
representa um elemento estruturador na composição
psicológica das pessoas.
De todo modo, a palavra “trabalho” pode ter nascido do
vocábulo latino “tripallium”, que significa “instrumento
de tortura”, e durante muito tempo esteve associada à
ideia de atividade penosa.
Diversas características do trabalho são relevantes, dentre
elas: dinheiro, nível de atividade, estrutura temporal,
contatos sociais e identidade pessoal.
Dinheiro: um salário é o principal recurso do qual muitas
pessoas dependem para satisfazer suas necessidades.
Nível de atividade: proporciona uma base para a aquisição e o
exercício das aptidões e habilidades, oferecendo um ambiente
no qual as energias do indivíduo são absorvidas.
Estrutura temporal: o dia se organiza em torno do ritmo do
trabalho.
Contatos sociais: proporciona amizades e oportunidades de
participação em atividades comuns com outras pessoas. Fora
do ambiente, é possível uma restrição do círculo de
possibilidades em termos de fazer amizades e conhecer
pessoas.
Identidade pessoal: valoriza-se o trabalho pela sensação de
identidade social estável que ele oferece.
Estamos inclinados a pensar no trabalho como se ele
equivalesse ao emprego remunerado. Entretanto, essa é uma
visão simplificada. Por exemplo, quando observamos o
trabalho doméstico, este não se ajusta às categorias ortodoxas
do emprego remunerado. Outro exemplo é o trabalho feito na
economia informal, definido como transações que ocorrem
fora da esfera do emprego regular, que às vezes envolve a
troca de dinheiro por serviços prestados.
1. Em outros momentos históricos e sociais
A escravidão na Antiguidade
Na sociedade grega, era a mão de obra escrava que
garantia a produção que supria as necessidades da
população. Os escravos eram basicamente prisioneiros
das conquistas e da guerra. Entretanto, na Cidade-Estado
de Atenas, os senhores e proprietários integravam a
camada dos cidadãos, à qual cabia discutir os assuntos da
cidade. Portanto, para se dedicarem a essa atividade, o
trabalho escravo era fundamental.
Labor, trabalho e ação
De acordo com Hanna Arendt (1906-1975), os gregos
classificavam as atividades humanas em três categorias:
• labor: esforço físico voltado para a sobrevivência do
corpo, como o cultivo da terra;
• trabalho: o fazer, fabricar, criar algum produto,
como o trabalho do artesão ou do escultor;
• ação: atividade que tem a palavra como instrumento,
como a política e a vida pública.
A produção nas sociedades tribais
A produção nas sociedades tribais é diferente uma da
outra. De qualquer forma, ela não é estruturada de acordo
com a atividade que, em nossa sociedade, denominamos
trabalho. Todos fazem quase tudo, e as atividades
relacionadas à obtenção do que as pessoas necessitam
para se manter (coleta, caça, agricultura) estão associadas
aos ritos e mitos, ao sistema de parentesco, às festas e às
artes, integrando-se, portanto, a todas as esferas da vida
social.
Marshall Sahlins (1930-) chama essas sociedades de
“sociedades da abundância” ou “sociedades do lazer”,
pois seus membros não só tinham todas as necessidades
materiais e sociais plenamente satisfeitas, como
dedicavam um mínimo de horas diárias ao que nós
comumente chamamos de trabalho.
Duas explicações podem ser apresentadas para o fato de
eles dedicarem menos tempo às atividades que
denominamos trabalho.
A primeira está no modo como se relacionam com a
natureza. A terra, além de ser o espaço em que vivem,
tem valor cultural.
A segunda está no fato de que a estrutura das sociedades
tribais e o modo como os membros produzem e
reproduzem sua existência não se baseiam na necessidade
de acumular bens ou alimentos. Os excedentes são
consumidos em festas e cerimônias.
A servidão nas sociedades feudais
Nas sociedades feudais europeias, podemos afirmar que o
regime de trabalho que dominou o período foi a servidão.
Os servos não gozavam de plena liberdade, mas também
não eram escravos. Prevalecia um sistema de deveres do
servo para com o senhor. Além de cultivar as terras do
senhor, eles trabalhavam na construção e manutenção de
estradas e pontes. Essa obrigação se chamava corveia.
Os servos, os camponeses livres e os aldeãos eram os que
trabalhavam. Os senhores feudais e os membros do clero
viviam do trabalho dos outros. A terra era o principal
meio de produção, e os trabalhadores tinham direito a seu
usufruto, mas nunca à propriedade.
2. O trabalho na sociedade moderna
Com o fim do período medieval e a emergência do
capitalismo, a estrutura de trabalho passou por um processo de
transformação. Os artesãos e pequenos produtores
trabalhavam, muitas vezes, na própria casa. Eles tinham suas
ferramentas e seus instrumentos, e produziam ou obtinham,
por meio de troca, as matérias-primas para produzir o que
necessitavam.
Pouco a pouco, essa situação se modificou. Em primeiro lugar,
houve a separação entre a moradia e o local de trabalho. Em
segundo, o trabalhador foi separado de seus instrumentos. Por
fim, perdeu a possibilidade de obter a própria matéria-prima.
Essa transformação fez com que o trabalhador (artesão) já não
participasse de todo o processo de produção, consolidando o
trabalho coletivo. Cada trabalhador só participava de um passo
da produção. No final, o produto tornou-se resultado da
atividade de muitos trabalhadores, que passaram a receber um
salário. Além disso, trabalhavam durante um tempo definido
por quem lhes pagava esse salário.
3. A divisão do trabalho
Uma das características mais distintivas das sociedades
modernas é a existência de uma divisão do trabalho complexa:
o trabalho passou a ser dividido em um número enorme de
ocupações diferentes, nas quais as pessoas se especializam.
Uma outra característica foi a localização do trabalho. Antes
da industrialização, a maior parte do trabalho ocorria em casa,
sendo concluído coletivamente por todos os membros da
família.
Os avanços nas tecnologias contribuíram para a separação
entre trabalho e casa. As fábricas de propriedade de
empresários tornaram-se o foco do desenvolvimento industrial:
maquinário e equipamentos concentraram-se dentro destas, e a
produção em massa de mercadorias ofuscou a habilidade
artesanal em pequena escala.
Um outro aspecto importante das sociedades modernas é a
interdependência econômica. Significa dizer que, para termos
acesso aos produtos e aos serviços que nos mantêm vivos,
dependemos de um número imenso de trabalhadores – que
estão espalhados pelo mundo.
Marx e Durkheim
Os primeiros sociólogos escreveram a respeito das
consequências da divisão do trabalho. Para Marx, a mudança
para a industrialização e a mão de obra assalariada resultariam
em uma alienação entre os trabalhadores. Uma vez que
estivessem empregados em uma fábrica, os trabalhadores
perderiam todo o controle sobre seu trabalho, sendo obrigados
a desempenhar tarefas que despojariam seu trabalho do valor
criativo. Em uma sociedade capitalista, os trabalhadores
acabam adotando uma orientação instrumental, afirmava ele,
vendo o trabalho como nada mais do que uma maneira de
ganhar a vida.
Durkheim tinha uma visão mais otimista sobre a divisão do
trabalho, embora ele também reconhecesse seus efeitos
prejudiciais. Segundo Durkheim, a especialização em papéis
serviria para fortalecer a solidariedade social dentro das
comunidades. Em vez de viverem em unidades isoladas,
autossuficientes, as pessoas estariam ligadas por sua
dependência mútua. A solidariedade seria intensificada por
meio de relações multidirecionais de produção e consumo.
4. As mulheres e o trabalho
Durante toda a história, homens e mulheres contribuíram paraproduzir e reproduzir o mundo social que os cerca, tanto
diariamente quanto durante longos períodos. Para as
sociedades anteriores ao sistema industrial, não havia uma
separação entre as atividades produtivas e as atividades
domésticas. A produção acontecia em casa ou nas
proximidades, e todos os membros da família participavam do
trabalho. As mulheres exerciam uma influência considerável
dentro do lar, ainda que fossem excluídas dos domínios
masculinos da política e da guerra.
O desenvolvimento da indústria moderna provocou a
separação entre a casa e o local de trabalho. Assim, os
empregadores passaram a contratar trabalhadores individuais,
e não famílias.
A ideia de esferas distintas (pública e privada) arraigou-se nas
atitudes populares. Os homens passavam mais tempo no
domínio público, envolvendo-se em assuntos locais, na política
e no mercado, em virtude de seu emprego fora de casa. As
mulheres acabaram sendo associadas aos valores
“domésticos”, sendo responsáveis por tarefas como cuidar dos
filhos, manter a casa e preparar a comida.
A ideia de que “lugar de mulher é em casa” trouxe diferentes
implicações para as mulheres em diversos níveis da sociedade.
As mulheres ricas contavam com serviços de faxineiras, babás
e empregadas domésticas; o fardo era mais cruel para as
mulheres pobres, que tiveram que enfrentar os afazeres
domésticos, além de se lançarem no trabalho industrial para
completar a renda do marido. De todo modo, os índices de
mulheres trabalhando fora de casa, em todas as classes, foram
bem baixos até o início do século XX.
O gênero e as desigualdades no trabalho
Apesar da igualdade formal em relação aos homens, as
mulheres ainda passam por diversas situações de desigualdade
no mercado de trabalho. Por exemplo, a questão da
disparidade salarial, que se refere ao fato de que o salário
médio das mulheres empregadas é menor do que os dos
homens. Uma das causas da disparidade salarial tem a ver com
a segregação ocupacional, uma vez que homens e mulheres
estão concentrados em tipos diferentes de empregos, baseados
nas interpretações dominantes do que vem a ser uma atividade
adequada para cada sexo.
A divisão doméstica do trabalho
O trabalho doméstico nasceu da separação entre o lar e o local
de trabalho. Com a industrialização, a casa tornou-se um local
de consumo, e não de produção de mercadorias. O trabalho
doméstico tornou-se “invisível” assim que o “trabalho de
verdade” passou a ser aquele que garante um pagamento
direto. Por tradição, o trabalho doméstico sempre foi visto
como um território feminino, enquanto o domínio do “trabalho
de verdade”, fora de casa, era reservado aos homens. As
mulheres assumiam a maioria das tarefas domésticas, se não
todas, ao passo que os homens “sustentavam” a família
recebendo um salário.
Um dos resultados do aumento no número de mulheres que
começaram a exercer uma atividade remunerada é a
renegociação de certos padrões familiares. O modelo de
“homem provedor” tornou-se exceção, em vez de regra, e a
crescente independência econômica das mulheres significa que
elas estão em melhor situação para escaparem, em casa, dos
papéis determinados pelo gênero, se assim o quiserem.
Tanto nos afazeres domésticos quanto nas decisões financeiras,
os papéis domésticos tradicionais estão passando por
mudanças significativas em direção a relações mais
igualitárias, embora a mulher continue sendo a responsável
pelas tarefas domésticas.
Estudos demonstram que mulheres casadas que trabalham fora
de casa executam menos tarefas domésticas do que as demais,
embora quase sempre sejam as principais responsáveis pelos
cuidados da casa – fato que levou a socióloga norte-americana
Arlie Hochschild a falar da “dupla jornada”, ou seja, as horas
extras de trabalho doméstico que muitas mulheres empregadas
executam após o expediente oficial para manter a casa
funcionando tranquilamente.
4.Desemprego
Os índices de desemprego apresentaram uma flutuação
considerável ao longo do século XX. De todo modo,
interpretar as estatísticas de desemprego oficiais não é tarefa
simples. Não é fácil definir o desemprego: significa “estar sem
trabalho”. Porém, o “trabalho” significa uma atividade
remunerada em uma “ocupação reconhecida”. Pessoas
“desempregadas” oficialmente podem estar exercendo muitas
formas de atividade produtiva, como pintar a casa ou cuidar do
jardim. Muitas têm um emprego remunerado de meio turno, ou
apenas arranjam trabalhos remunerados esporádicos.
O desemprego pode ser uma experiência bastante
perturbadora. Obviamente, a consequência mais imediata é a
perda da renda. Nos países em que há uma garantia de acesso
aos serviços de saúde e a outros benefícios assistenciais, os
desempregados podem até sofrer grandes dificuldades
financeiras, mas continuam sob a proteção do Estado.
Estudos sobre os efeitos do desemprego em termos emocionais
observaram que as pessoas que estão desempregadas
geralmente vivenciam uma série de fases até se ajustarem à sua
nova condição.
Altos níveis de desemprego podem provocar o
enfraquecimento das comunidades e dos laços sociais. Em um
estudo sociológico realizado na década de 1930, Marie Jahoda
e seus colegas investigaram o caso de Marienthal (pequena
cidade austríaca que estava atravessando uma situação de
desemprego em massa após o fechamento de uma fábrica). Os
pesquisadores notaram como a experiência de desemprego de
longa duração acaba desgastando muitas das estruturas sociais
e das redes de contatos da comunidade. As pessoas ficaram
menos ativas nas questões cívicas e seus convívios sociais
diminuíram.
5. O trabalho passa a ser menos importante?
O sociólogo francês e crítico social André Gorz afirma que, no
futuro, o trabalho remunerado irá desempenhar um papel cada
vez menos importante em nossa vida. Ele baseia seus estudos a
partir de Marx, para quem a classe trabalhadora lideraria uma
revolução que levaria a um tipo mais humano de sociedade.
Mesmo escrevendo como um esquerdista, Gorz diz que, ao
invés de a classe trabalhadora estar se tornando o maior grupo
da sociedade (como Marx sugeriu) e liderando uma revolução
de sucesso, ela está encolhendo.
Para Gorz, não faz mais sentido supor que os trabalhadores
possam assumir a direção das empresas das quais fazem parte,
quanto mais tomar o poder do Estado. Não existe nenhuma
esperança de se transformar a natureza do trabalho
remunerado, já que ele está organizado de acordo com
considerações técnicas que são inevitáveis para a eficiência de
uma economia. “O essencial agora”, como explica Gorz, é
“que nos libertemos do trabalho”. Essa ideia é necessária nas
situações em que a organização do trabalho se torna opressiva
ou monótona.
Ele acredita que o avanço da tecnologia da informação irá
reduzir ainda mais a disponibilidade de empregos em turno
integral. O resultado provavelmente será um impulso no
sentido de rejeitar a visão “produtivista” da sociedade, a qual
enfatiza a riqueza, o crescimento econômico e os bens
materiais. Nos próximos anos, uma diversidade de estilos de
vida permanente, fora da esfera do emprego remunerado, será
seguida pela maioria da população. Talvez aumente o número
de pessoas a se envolverem com o planejamento da vida, por
meio do qual elas poderão programar o trabalho de maneiras
distintas nas diferentes fases da vida.
Qual é a validade desse ponto de vista? Há grandes mudanças
ocorrendo na natureza e na organização do trabalho nos países
industrializados. Como sugeriu Gorz, realmente vale a pena
enxergar o desemprego por um ângulo que não seja
completamente negativo, mas como uma situação capaz de
oferecer aos indivíduos oportunidades de saírem em busca de
seus interesses e de desenvolverem os seus talentos.
Entretanto, para muitos, o emprego remunerado continua
sendo a chama para a geração de recursos materiais
necessários para manter uma vida diversificada.
Podemos perceber, ao longo da aula, que o objetivo
principal foi percorrer alguns pontos da história da
humanidade referentes ao trabalho. Também observamos
suastransformações nos últimos séculos e a questão do
desemprego.