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Máyra Dias T38
PERITÔNIO — ANATOMIA, EMBRIOLOGIA E APLICAÇÃO CLÍNICA
1. CONCEITO E ORGANIZAÇÃO GERAL
→ O peritônio é uma membrana serosa dupla,
contínua, transparente e brilhante, que reveste as
paredes da cavidade abdominal e pélvica (peritônio
parietal) e recobre as vísceras abdominais (peritônio
visceral).
→ É considerado um saco seroso invaginado pelas
vísceras gastrointestinais, formando a cavidade
peritoneal, que é virtual, contendo cerca de 50 mL de
líquido seroso que permite o deslizamento e a
mobilidade visceral.
Estrutura histológica
→ Revestimento: epitélio pavimentoso simples
(mesotélio).
→ Substrato: tecido conjuntivo laxo subjacente, rico
em vasos sanguíneos, linfáticos e fibras colágenas.
→ As células mesoteliais possuem microvilosidades
que facilitam a secreção e absorção do líquido
seroso.
Definição técnica:
→ Mesotélio: epitélio de origem mesodérmica que
reveste as cavidades serosas do corpo (pleura,
peritônio e pericárdio).
2. CAVIDADE PERITONEAL E SUAS DIVISÕES
→ A cavidade peritoneal é o espaço virtual entre o
peritônio parietal e o visceral, revestindo as paredes
e órgãos do abdome.
→ É fechada no homem e aberta na mulher,
comunicando-se com o meio externo através das
trompas de Falópio, útero e vagina, fato clinicamente
relevante por permitir ascensão de infecção vaginal
ao peritônio, resultando em doença inflamatória
pélvica (DIP).
Divisões:
• Saco maior → cavidade abdominal propriamente
dita.
• Saco menor (bolsa omental) → localizado atrás do
estômago.
→ Ambos se comunicam através do forame omental
(de Winslow).
→ No homem: cavidade totalmente fechada.
→ Na mulher: comunicação com o meio externo,
permitindo ascensão bacteriana e risco de DIP.
Aplicação clínica → Casos de DIP podem gerar
peritonite infecciosa secundária, pois o canal genital
permite acesso bacteriano ao peritônio.
3. FORAME OMENTAL (DE WINSLOW)
→ Comunica o saco maior com o saco menor.
Limites anatômicos:
• Anterior: Veia porta hepática (no ligamento
hepatoduodenal)
• Posterior: Veia cava inferior
• Superior: Lobo caudado do fígado
• Inferior: Duodeno (1ª porção)
Função clínica e cirúrgica → O controle do pedículo
hepático (veia porta, artéria hepática e ducto
colédoco) é feito pela manobra de Pringle,
comprimindo o ligamento hepatoduodenal através do
forame de Winslow, reduzindo hemorragias hepáticas.
4. INERVAÇÃO E DOR PERITONEAL
4.1. Peritônio Parietal (inervação somática)
→ Inervado pelos:
• Nervos toracoabdominais (T7–T11)
• Nervo subcostal (T12)
• Nervo lombar (L1)
• Nervo frênico (C3–C5) — porção diafragmática
→ Sensível à dor, pressão, toque e temperatura.
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→ A dor é bem localizada e intensa, pois os nervos
somáticos conduzem estímulos nociceptivos precisos.
Clínica e exame físico:
→ Compressão e liberação súbita da parede
abdominal estira o peritônio, produzindo dor aguda —
sinal de descompressão brusca (sinal de Blumberg).
→ Indica irritação peritoneal (peritonite), geralmente
de resolução cirúrgica imediata.
Dor referida do peritônio diafragmático:
→ A irritação do peritônio sob o diafragma, inervado
pelo nervo frênico (C3–C5), gera dor referida no
ombro direito, devido à convergência das fibras
frênicas com o plexo cervical (C4).
→ Exemplo: abscesso subfrênico direito após
colecistite.
Questão de prova: Explique a base fisiológica do
sinal de Blumberg → Estiramento abrupto do
peritônio parietal (inervação somática) produz dor
intensa e localizada.
4.2. Peritônio Visceral (inervação autonômica)
→ Inervado por fibras viscerais aferentes simpáticas
e parassimpáticas.
→ Sensível a distensão e irritação química, mas não
a corte ou calor.
→ A dor é difusa e mal localizada, referida em
dermátomos correspondentes (ex.: cólica biliar → dor
epigástrica, apendicite inicial → dor periumbilical).
Exemplo clínico — Apendicite aguda:
1. Fase inicial: dor visceral periumbilical (intestino
médio).
2. Fase tardia: inflamação atinge o peritônio parietal,
e a dor localiza-se na fossa ilíaca direita (sinal de
McBurney).
→ Explicação: o apêndice é derivado do intestino
médio, cuja dor referida projeta-se na região
umbilical.
Resumo anatômico funcional:
→ Dor localizada = peritônio parietal.
→ Dor difusa/referida = peritônio visceral.
5. FUNÇÕES DO PERITÔNIO
Permitir o deslizamento das vísceras → facilita o
peristaltismo e movimentos respiratórios.
Proteção imunológica → contém fagócitos e
linfócitos.
Isolamento inflamatório → o omento maior move-se
até áreas de infecção, recobrindo o foco (função
“polícia do abdômen”).
Absorção e trocas → devido à grande área
vascularizada.
Via terapêutica → usada para diálise peritoneal,
anestésicos e quimioterápicos intraperitoneais.
Depósito de gordura visceral → reserva energética e
proteção mecânica.
Questão provável → “Qual a função do omento maior
nas infecções abdominais?” → Atua como barreira
protetora móvel, isolando o foco infeccioso e
favorecendo a absorção.
6. EMBRIOLOGIA DO PERITÔNIO
6.1. Origem e desenvolvimento
→ O peritônio deriva do mesoderma lateral, que
reveste o celoma intraembrionário.
→ Durante o dobramento embrionário, o tubo
digestivo primitivo invagina-se nessa cavidade.
→ O mesoderma esplâncnico recobre o tubo e forma
o peritônio visceral, enquanto o mesoderma somático
forma o peritônio parietal.
→ A invaginação leva vasos e nervos, formando
pregas duplas de peritônio — os mesentérios.
6.2. Mesentério ventral e dorsal
Mesentério ventral:
→ Presente apenas na região do estômago e fígado.
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→ Origina o mesogastro ventral, que dá origem a:
Fígado, vesícula biliar e ductos biliares
Pâncreas ventral (cabeça e processo uncinado)
Ligamento falciforme e omento menor
(hepatogástrico e hepatoduodenal)
Mesentério dorsal:
→ Persiste em toda a extensão do tubo digestivo.
→ Origina o mesogastro dorsal, que forma:
Baço e pâncreas (corpo e cauda)
Ligamentos gastroesplênico, gastrocólico, frenolienal
e gastrofrênico
6.3. Rotação do estômago
→ O estômago sofre duas rotações principais:
1. Eixo longitudinal (90° horário):
Curvatura maior → esquerda
Curvatura menor → direita
2. Eixo anteroposterior (90°):
Região pilórica → sobe e vai à direita
Região cárdica → desce e vai à esquerda
Consequências anatômicas:
→ Formação das curvaturas maior e menor.
→ Criação da bolsa omental.
→ Alteração dos nervos vagos:
Vago esquerdo torna-se anterior
Vago direito torna-se posterior
6.4. Rotação anti-horária do intestino
→ O intestino médio gira 270° anti-horário em torno
da artéria mesentérica superior.
→ Consequências:
Intestino delgado → migra para o centro
Cólon → moldura abdominal
Ceco → quadrante inferior direito
→ O rápido crescimento intestinal causa hérnia
umbilical fisiológica temporária, com retorno
posterior à cavidade.
6.5. Retroperitonealização e coalescência
→ O pâncreas e o duodeno, inicialmente
intraperitoneais, tornam-se retroperitoneais
secundários pela reabsorção do peritônio posterior.
→ Esse processo é chamado de coalescência
peritoneal, resultando na fusão e fixação desses
órgãos à parede posterior.
7. OMENTOS
7.1. Omento Maior
→ Extensa prega peritoneal derivada do mesogastro
dorsal.
→ Origina-se na curvatura maior do estômago e
duodeno proximal, descendo como um avental de
quatro lâminas mesoteliais, aderindo ao mesocólon
transverso.
→ Essa adesão fecha o espaço entre o estômago e o
cólon, formando a bolsa omental (saco menor).
→ O processo de fusão das lâminas é a reabsorção
(coalescência peritoneal).
Funções clínicas: Isolamento de áreas inflamadas
(abscessos, apendicite), depósito de gordura, defesa
imunológica, capacidade de selar perfurações
intestinais
→ Omento maior pode selar perfurações
intestinais ou recobrir áreas necróticas, evitando
disseminação de pus (abscessos localizados).
7.2. Omento Menor
→ Derivado do mesogastro ventral, conecta a
curvatura menor do estômago e duodeno ao fígado.
→ Divide-se em:
Ligamento hepatogástricoLigamento hepatoduodenal, que contém a tríade
portal (artéria hepática, veia porta e ducto colédoco).
→ Limita anteriormente o forame omental.
8. MESENTÉRIO, MESOCÓLON E MEOAPÊNDICE
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→ O mesentério é uma dupla lâmina de peritônio que
suspende o intestino delgado, permitindo mobilidade,
vascularização e inervação.
→ Cada mesentério contém vasos, linfáticos, nervos
e tecido adiposo.
→ O mesocólon fixa o intestino grosso:
Ascendente e descendente → aderidos
(retroperitoneais)
Transverso e sigmoide → livres, suscetíveis a volvo
intestinal
→ O mesoapêndice contém a artéria apendicular
(ramo da artéria ileocólica).
Clínica: → Perfuração do mesoapêndice durante
laparoscopia → peritonite fecal grave, exigindo
lavagens abdominais programadas.
9. LIGAMENTOS, PREGAS E RECESSOS
PERITONEAIS
Ligamentos → Lâminas duplas que unem órgãos ou
fixam-nos à parede abdominal.
Principais:
Falciforme → fígado à parede anterior
Redondo → vestígio da veia umbilical
Coronário e triangulares → fixam fígado ao
diafragma
Gastroesplênico, gastrocólico, frenolienal,
gastrofrênico → mesogastro dorsal
Hepatoduodenal e hepatogástrico → mesogastro
ventral
Clínica adicional: → O ligamento freno-cólico
conecta o cólon esplênico ao diafragma. Sua ruptura
durante colonoscopia pode causar lesão esplênica e
hemorragia intra-abdominal.
Pregas peritoneais:
Umbilical mediana → úraco
Umbilicais mediais → artérias umbilicais obliteradas
Umbilicais laterais → artérias epigástricas inferiores
Recessos peritoneais:
Recesso retrocecal → atrás do ceco, abriga o
apêndice retrocecal
Recessos duodenais → superior e inferior
Questão frequente: → “Qual recesso está mais
relacionado à apendicite retrocecal?” → Recesso
retrocecal.
10. SUBDIVISÕES DA CAVIDADE PERITONEAL
Referência anatômica: mesocólon transverso.
Andar supramesocólico:
→ Fígado, estômago e baço.
→ Subdivisões:
Espaço subfrênico direito e esquerdo
Espaço sub-hepático (de Morrison)
Clínica → Em decúbito dorsal, o espaço de Morrison
é o primeiro local de acúmulo de líquido livre (sangue,
bile ou exsudato).
Andar inframesocólico:
→ Intestino delgado e grosso.
→ Dividido pelo mesentério em espaço direito
(superior) e esquerdo (inferior).
11. CORRELAÇÕES CLÍNICAS DETALHADAS
Ascite:
→ Acúmulo de líquido peritoneal por hipertensão
portal (cirrose) → aumento da pressão hidrostática
venosa, extravasamento de plasma → “barriga
d’água”.
→ O líquido tende a se acumular em regiões
declivosas (espaço de Morrison, cavidade pélvica).
Peritonite:
→ Inflamação infecciosa do peritônio, causada por
perfuração de vísceras (úlcera, apêndice, trauma).
→ Sintomas: dor intensa e localizada, defesa muscular
involuntária e sinal de Blumberg positivo.
→ Tratamento: cirurgia + antibióticos + lavagem
peritoneal.
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Divertículo de Meckel:
→ Remanescente do ducto vitelino
(onfalomesentérico).
→ Localiza-se 20–50 cm da válvula ileocecal.
→ Pode conter mucosa gástrica ectópica e ulcerar →
simulando apendicite.
Volvo intestinal:
→ Torção de segmento móvel (cólon transverso ou
sigmoide).
→ Ocorre apenas em segmentos móveis: cólon
transverso e sigmoide.
→ Causa obstrução aguda e distensão abdominal.
Câncer de cólon:
→ Tumores no cólon direito → anemia ferropriva
(sangramento crônico).
→ Tumores no cólon esquerdo → obstrução intestinal
(fezes mais sólidas).
Diálise peritoneal:
→ O peritônio atua como membrana semipermeável
para trocas metabólicas, substituindo temporariamente
a função renal.
12. PONTOS DE ATENÇÃO E QUESTÕES CLÁSSICAS
→ “Dor localizada = peritônio parietal / Dor difusa =
visceral.”
→ “Sinal de Blumberg → peritonite cirúrgica.”
→ “Saco menor e maior comunicam-se pelo forame
omental (veia porta anterior).”
→ “Omento maior: quatro lâminas mesoteliais;
função protetora.”
→ “Mulher → cavidade peritoneal aberta → risco de
DIP.”
→ “Volvo ocorre apenas no cólon transverso e
sigmoide.”
→ “Divertículo de Meckel: anomalia congênita mais
comum do TGI.”
→ “Irritação do peritônio diafragmático → dor
referida no ombro direito (C3–C5).”
	PERITÔNIO — ANATOMIA, EMBRIOLOGIA E APLICAÇÃO CLÍN
	1. CONCEITO E ORGANIZAÇÃO GERAL
	2. CAVIDADE PERITONEAL E SUAS DIVISÕES
	3. FORAME OMENTAL (DE WINSLOW)
	4. INERVAÇÃO E DOR PERITONEAL
	4.1. Peritônio Parietal (inervação somática)
	4.2. Peritônio Visceral (inervação autonômica)
	5. FUNÇÕES DO PERITÔNIO
	6. EMBRIOLOGIA DO PERITÔNIO
	6.1. Origem e desenvolvimento
	6.2. Mesentério ventral e dorsal
	6.3. Rotação do estômago
	6.4. Rotação anti-horária do intestino
	6.5. Retroperitonealização e coalescência
	7. OMENTOS
	7.1. Omento Maior
	7.2. Omento Menor
	8. MESENTÉRIO, MESOCÓLON E MEOAPÊNDICE
	9. LIGAMENTOS, PREGAS E RECESSOS PERITONEAIS
	10. SUBDIVISÕES DA CAVIDADE PERITONEAL
	11. CORRELAÇÕES CLÍNICAS DETALHADAS
	12. PONTOS DE ATENÇÃO E QUESTÕES CLÁSSICAS

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