Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

Caminhando com Deus sob o sol: Introdução ao Eclesiastes – 1 
Caminhando com Deus sob o sol: 
Introdução ao Eclesiastes 
[1] Palavra do Pregador, filho de Davi, rei de Jerusalém: [2] Vaidade de vaidades, diz o Pregador; 
vaidade de vaidades, tudo é vaidade. Eclesiastes 1.1–2. 
Sermão pregado na IPB Rio Preto em 23/09/2012, às 9h. 
Introdução 
1 Esta é a segunda vez que eu prego sobre o livro de Eclesiastes. 
1.1 A primeira ocasião foi na Igreja Presbiteriana Central do Gama, nos anos 2004 e 
2005. Muitos daqueles primeiros sermões foram filmados e gravados, mas, 
infelizmente, devido a um problema em meu computador, eu perdi a maior parte 
dos esboços, anotações, áudios e vídeos. 
1.2 Com exceção de algumas meditações sobre os capítulos 1, 5, 8, 9 e 12, tudo o 
mais se foi. 
2 Sendo assim, o que apresento nesta série é um material novo. 
2.1 Desde 2005, pela graça de Deus, eu tive acesso a outros textos, traduções e 
recursos de interpretação de Eclesiastes. Pela bondade de Deus, obtive algumas 
compreensões novas sobre este livro. 
2.2 Por isso minha leitura atual de Eclesiastes é diferente, mais consistente com a 
revelação bíblica sobre criação, queda e redenção, e mais atenta ao cordão 
dourado que unifica toda a Escritura — o cordão de três cordas do reino, da 
aliança e do Mediador. 
3 Como disse William Golden, “criar algo simples é uma tarefa muito complexa”.1 
 Sendo assim, eu me esforcei para retirar destes sermões toda informação técnica 
desnecessária. 
3.1 Para as pessoas interessadas em aprofundar-se nos principais debates 
teológicos, eu produzi uma versão do sermão com notas de rodapé e 
referências bibliográficas. 
3.2 Para os grupos de comunhão, eu produzi um guia de estudos com perguntas e 
respostas. Tais materiais podem ser baixados ainda hoje na página de 
downloads de nosso site, em www.ipbriopreto.org.br. 
O livro de Eclesiastes inicia apontando para seu autor e tema, da seguinte forma: 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
1 GOLDEN, William. O Tipo é Para Ser Lido. [Preleção apresentada em 1959, na Conferência Sobre Tipografia 
Contemporânea na Associação dos Diretores Tipográficos de Nova York]. In: BIERUT, Michael et al. (Org.). 
Textos Clássicos do Design Gráfico. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010, p. 123. A empolgação com 
discussões teológicas e técnicas foi tão grande que a primeira versão deste sermão continha mais de sete 
páginas só com dados críticos e introdutórios. 
Caminhando com Deus sob o sol: Introdução ao Eclesiastes – 2 
I Deus fala conosco por meio do filho de Davi 
[1] Palavra do Pregador, filho de Davi, rei de Jerusalém. 
1 A primeira coisa que Eclesiastes nos ensina é que Deus fala conosco por meio do 
filho de Davi. Vejamos como ele faz isso. Primeiro, apresenta-se o título do livro: 
“Palavra do Pregador” (v. 1). 
1.1 O termo traduzido por “Pregador” é קהלת, qhlt ou Qohelet (Coélet). É difícil 
sabermos ao certo o que esta palavra significa porque apenas o autor de 
Eclesiastes a utiliza — ela não é encontrada em nenhum outro lugar da Bíblia.2 
1.2 Os estudiosos da língua hebraica sugerem quatro possibilidades de 
entendimento: 
1.2.1 A primeira, usada em nossa e em outras Bíblias, é “Pregador”. 
1.2.2 Uma segunda possibilidade é entender Coélet como um substantivo 
ligado a um verbo que transmite a ideia de reunir uma assembleia. 
1.2.2.1 A palavra assembleia, em grego, é ἐκκλησία, ekklesia. 
1.2.2.2 Esta é, literalmente, a palavra “igreja”. 
1.2.2.3 Por isso as coisas da igreja são chamadas de eclesiásticas e o 
nome latino deste livro — assumido por nossa Bíblia em 
português — é Eclesiastes.3 
1.2.3 A terceira e quarta formas de entendimento de Coélet são sugeridas por 
aqueles que dizem que tal palavra pode indicar a pessoa que escreve, 
coleciona e ensina a sabedoria. Isso se encaixa perfeitamente com o 
que lemos em Eclesiastes 12.9-10. Por esta razão, Coélet é traduzido em 
algumas Bíblias como “Sábio”4 ou “Mestre”5 e uma paráfrase6 atual traz: 
“Estas são as palavras daquele que está em busca”.7 
2 Mais importante do que compreender o sentido exato do título, é saber que este 
Pregador pertence à linhagem real de Davi em Jerusalém (v. 1). 
2.1 Quem é ele? O debate sobre esta questão é acirrado e complexo. Para 
simplificar, a discussão se resume a duas proposições: 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
2 ARNOLD, Bill T.; BEYER, Bryan E. Descobrindo o Antigo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 326. 
3 Cf. EATON, Michael A. Eclesiastes. In: CARSON, D. A. et al. (Ed.). Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: 
2009, p. 920; CERESKO, Anthony R. A Sabedoria no Antigo Testamento: Espiritualidade Libertadora. São Paulo: 
Paulus, 2004, p. 100-101. ([Coleção] Bíblia e Sociologia). 
4 Na Bíblia Almeida Século 21 (A21) e Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH). 
5 Na Bíblia Nova Versão Internacional (NVI). 
6 Uma paráfrase não é uma tradução formal, mas uma tradução livre, uma espécie de leitura atualizada de um 
texto, sem muita preocupação de fidelidade ao texto original. Por isso, apesar de serem boas de ler, nem 
sempre as paráfrases são confiáveis. 
7 PETERSON, Eugene H. A Mensagem: Bíblia em Linguagem Contemporânea. São Paulo: Vida, 2011, p. 905. 
Grifo nosso. 
Caminhando com Deus sob o sol: Introdução ao Eclesiastes – 3 
2.1.1 O ponto de vista tradicional enxerga neste versículo o rei Salomão.8 Um 
dos problemas com esta posição é que o nome de Salomão não 
aparece em nenhuma parte do texto. 
2.1.2 Daí surgiu outra perspectiva, ligando Eclesiastes 1.1 ao rei Ezequias.9 
Outros defendem que o texto não se refere nem a um nem a outro e 
sugerem teorias diversas: A possibilidade de diversos autores; de dois 
autores diferentes; de um editor que compilou as palavras de um sábio 
anônimo e de um único autor que criou um personagem literário.10 
2.2 O fato é que, se analisarmos o livro cuidadosamente, concluiremos que muitas 
de suas palavras e experiências se aplicam ao rei Salomão, mas nem todas 
elas. Outras se encaixam com o rei Ezequias, mas nem todas. 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
8 Até cerca de 500 anos atrás a maioria dos judeus e cristãos entendia que tais palavras apontavam claramente 
para a figura de Salomão: “Uma fonte rabínica declara que ele [Salomão] escreveu o Cântico dos Cânticos, com 
sua acentuação do amor, em sua juventude; Provérbios, com sua ênfase nos problemas práticos, em sua 
maturidade; e Eclesiastes, com suas reflexões melancólicas sobre a vaidade da vida, em sua velhice” ― Midrash 
Shir Hashirim Rabba 1,1, 10º século, apud LÍNDEZ, José Vílchez. Eclesiastes ou Qohelet. São Paulo: Paulus, 
1999, p. 12. (Coleção Grande Comentário Bíblico). Grifos do autor. Esta é a posição esposada por Matthew 
Henry; cf. HENRY, Matthew. Comentário Bíblico. Antigo Testamento. Jó a Cantares de Salomão. Edição 
Completa. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2010, p. 891-893. 
Atualmente a autoria salomônica continua sendo defendida por diversos estudiosos. Cf. ARCHER JR., Gleason 
L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4ed. Reimpressão 2004. São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 432-448; 
BÍBLIA DE ESTUDO MACARTHUR (BEM). Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010, p. 834; e KIVITZ, Ed 
René. O Livro Mais Mal-Humorado da Bíblia: A Acidez e a Sabedoria do Eclesiastes. 1ed. 2009, 8ª reimpressão, 
2012. São Paulo: Mundo Cristão, 2009, p. 19. 
Stuart Olyott exemplifica a posição dos teólogos conservadores atuaisque defendem a autoria salomônica: 
“Assim que o livro se abre, Salomão se identifica como seu autor, sem, na verdade, nomear-se. Quem mais 
poderia ter descrito a si mesmo como “o filho de Davi, rei em Jerusalém”? Temos diante de nós as palavras de 
um homem que, por causa de sua posição privilegiada, desfrutou de tudo o que a vida tem a oferecer. Mas agora 
ele é rei e tem a responsabilidade de governar os outros. Ele também toma para si a responsabilidade de ensiná-
los e chama-se ‘Pregador’”; cf. OLYOTT, S. A Life Worth Living and a Lord Worth Loving. Darlington, England: 
Evangelical Press, 1983, p. 18. (Welwyn Commentary Series). E-book. In: Logos Bible Software. 
9 ARCHER JR., op. cit., p. 436, cita Baba Bathra 15a, um escrito da tradição judaica: “Ezequias e sua companhia 
escreveram Eclesiastes”. Depois de Davi e Salomão, Ezequias é o rei mais citado no AT. Eis o que diz 
Shepherd: “Nos cap. 1—2 Qohelet é pintado com evidentes características salomônicas, mas por não nomear 
explicitamente Qohelet como Salomão e pela introdução de dados conflitantes, como a referência a “todos os 
que antes de mim existiram em Jerusalém” (1.16), o autor deseja que o leitor olhe para outro rei israelita que 
também poderia caber no retrato. Ezequias, que na tradição bíblica e rabínica tem ligações com a sabedoria e 
que, nas contas do seu reinado, em 2Reis 18—20; 2Crônicas 29—32 e Isaías 36—39, faz várias declarações 
que parecem paralelas às feitas por Qohelet em Eclesiastes, é o provável candidato”. (SHEPHERD, Jerry E. The 
Identity of Qohelet. Paper Read at The Pacific Northwest Regional Meeting of the Society of Biblical Literature. 
Portland, Oregon: May 1998, apud SHEPHERD, Jerry E. Ecclesiastes. In: LONGMAN III, Tremper; GARLAND, 
David E. (Ed.). The Expositor's Bible Commentary. Proverbs — Isaiah. Revised Edition. Grand Rapids: 
Zondervan, 2009, p. 258; e-book Kindle, posição 6581 de 22443). 
10 A posição sugerida por DILLARD, Raymond B.; LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. 
São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 237-245, oferece uma solução ortodoxa, ou seja, conservadora, e ainda assim 
fiel às evidências textuais de Eclesiastes: Sugere-se que o livro foi provavelmente produzido por um editor que 
emoldurou (entre um prólogo e um epílogo escritos na terceira pessoa) os ditos de um sábio anônimo cujas 
experiências podem ser ligadas a grandes reis de Judá, mas que não necessariamente correspondem a um 
personagem identificável. Um apanhado histórico do desenvolvimento da percepção das duas vozes — e 
consequente autoria não salomônica de Eclesiastes — pode ser conferido em LÍNDEZ, op. cit., p. 11-14. 
Caminhando com Deus sob o sol: Introdução ao Eclesiastes – 4 
2.2.1 Temos de ser sinceros e admitir que a autoria de Eclesiastes continua 
cercada de mistério e sendo motivo de debate. 
2.2.2 Reconheçamos que o Espírito Santo — o supremo autor da Bíblia — não 
quis mostrar claramente quem escreveu este livro. 
2.2.3 Temos de respeitar o texto bíblico, ser humildes e afirmar somente o 
que pode ser provado pela própria Bíblia, senão corremos o risco de 
afundar na areia movediça de hipóteses que não produzem resultados 
edificantes e satisfatórios. 
3 O que Deus nos diz aqui? Quem fala conosco em Eclesiastes é “filho de Davi, rei de 
Jerusalém” (v. 1). A intenção do Espírito Santo é simplesmente registrar que este 
Pregador provém da linhagem davídica. 
3.1 Dito de outro modo, o ensino de Eclesiastes tem ligação com a aliança divina 
firmada com Davi em 2Samuel 7.7-16.11 
3.2 É por isso que algumas experiências e ditos de Eclesiastes relacionam-se 
com Salomão; outras, com Ezequias, ou quem sabe, com outro rei de Judá. 
Mas não somente eles... 
3.3 Mais do que qualquer outro, Eclesiastes está vinculado com o mais 
proeminente herdeiro do trono davídico, o nosso Senhor Jesus Cristo. 
3.3.1 Coélet é Pregador? Jesus é quem cumpre o ofício de supremo Profeta, 
como lemos em Deuteronômio 18.15 e Hebreus 1.1-2. 
3.3.2 Coélet reúne a assembleia? Jesus reúne e edifica a igreja (Mc 3.13-18; 
Mt 16.18-19). 
3.3.3 Coélet é o Sábio? O Senhor Jesus é o “mistério de Deus [...] em quem 
todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos” (Cl 
2.2–3). 
3.3.4 Coélet é o Mestre? Jesus é o Rabi por excelência que nos ensina todas 
as coisas pertinentes para nossa salvação (Jo 3.2). 
Queremos compreender o Eclesiastes? Saibamos que este livro pertence à grande 
escola de sabedoria iniciada com Salomão, mantida por Ezequias e enriquecida e 
iluminada pela pessoa, pelos ensinamentos e pela obra de Jesus Cristo. Deus fala 
por meio de seu Pregador que é “filho de Davi e rei de Jerusalém”. Mas não 
apenas isso. Estas primeiras palavras de Eclesiastes nos revelam ainda que... 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
11 As palavras “aliança” e “pacto” não constam neste livro. CF. VAN GRONINGEN, Gerard. Criação e 
Consumação: O Reino, a Aliança e o Mediador. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 395. v 3. Uma nota 
introdutória da A21 explica que em Eclesiastes “o nome de aliança com Deus nunca é empregado” (p. 678). 
Ainda assim, aspectos importantes das alianças da criação e redenção aparecem no texto. Se nosso Senhor 
permitir, mostrarei e explicarei estas evidências nos próximos sermões. 
Caminhando com Deus sob o sol: Introdução ao Eclesiastes – 5 
II Deus nos ajuda a lidar com a vaidade da vida 
[2] Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade. 
1 Em Eclesiastes Deus nos instrui e fortalece para que lidemos com a vaidade da 
vida. O v. 2 contém: “Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo 
é vaidade”. 
1.1 Neste livro de Eclesiastes, a palavra “vaidade” ocorre 35 vezes na Bíblia Almeida 
Revista e Atualizada (ARA), 33 vezes no singular e duas vezes em sua forma 
plural. Os estudiosos falam de 37 ocorrências no original hebraico.12 
1.2 Ademais, a declaração “vaidade de vaidades” inicia e fecha o livro (1.2; 12.8), 
sinalizando que este é o seu tema ou ideia principal. 
1.3 O autor de Eclesiastes aponta diversas vezes para o livro de Gênesis. Neste v. 
2 nós encontramos o primeiro apontamento, uma vez que podemos ler da 
seguinte forma: “Abel de Abel, tudo é Abel”. 
1.3.1 Saibamos que a palavra hebraica הֶבֶל, hebel, traduzida por “vaidade”, é 
literalmente o nome do filho mais novo de Adão e Eva, registrado em 
Gênesis 4.2. 
1.3.2 Este termo significa “fôlego”, “vapor”, “temporário”, “passageiro”, 
“transitório”, “que não permanece por muito tempo” ou que “não possui 
sentido”;13 “o que não tem substância, o vazio, oco, nada”,14 ou, como diz 
outro estudioso, “descrédito, fragilidade e futilidade, ausência de 
propósito claro”.15 
1.3.3 “Vaidade”, em Eclesiastes é aquilo que escorre entre nossos dedos. A 
NTLH traduz a palavra como “ilusão”; a NVI traz “inutilidade” e a paráfrase 
de Peterson (A Mensagem) fala de “vazio”. 
2 Eis o que temos de captar. Esta palavra do filho de Davi tem relação com Gênesis 4. 
Pensemos em Abel que era íntegro, vivia pela fé, fez o bem e ainda assim morreu 
absurda e tragicamente. 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
12 CERESKO, op. cit., p. 106 e VAN GRONINGEN, op. cit., p. 388, registram 37 ocorrências. Para Greidanus, o 
termo “vaidade” pode ser encontrado 38 vezes em Eclesiastes; cf. GREIDANUS, Sidney. Preaching Christ from 
Ecclesiastes: Foundations for Expository Sermons. Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 
2010, p. 31; e-book Kindle; posição 406 de 5268. 
13 BARKER, Kenneth. (Org.). Bíblia de Estudo NVI (BENVI). São Paulo, Vida, 2003, nota 4.2, p. 12; BÍBLIA DE 
ESTUDO DE GENEBRA. 1ed. (BEG1). São Paulo;Barueri: Cultura Cristã; Sociedade Bíblica do Brasil, 1999, 
nota 4.2, p. 15; BÍBLIA DE ESTUDO NTLH. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2005, nota de estudo 4.2, p. 17; 
KIDNER, Derek. Gênesis: Introdução e Comentário. 1ed. Reimpressão 1991. São Paulo: Mundo Cristão; Vida 
Nova, 1979, p. 70; YOUNGBLOOD, Ronald F.; BRUCE, F. F.; HARRISON, R. K. (Ed.). Dicionário Ilustrado da 
Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2004, p. 3. 
14 SCHÖKEL, Luís Alonso. Bíblia do Peregrino. São Paulo: Paulus, 2002, nota 1.2, p. 1489. 
15 EATON, op. cit., p. 922. 
Caminhando com Deus sob o sol: Introdução ao Eclesiastes – 6 
2.1 O assassinato do justo Abel jamais aconteceria se não tivesse havido uma 
queda — se o homem vivesse em perfeição e se universo ainda funcionasse de 
acordo com a plena harmonia da criação. 
2.2 Gênesis 4 registra o assassinato de Abel e o surgimento de uma civilização que 
desprezou a Deus e banalizou a vida humana. Essas coisas marcam o estado 
atual das coisas: imperfeição, deterioração e fragmentação. Por isso afirma o 
apóstolo Paulo: Toda “a criação está sujeita à vaidade” (Rm 8.20). 
2.2.1 Você já pensou nisso? Dizer para Eva, aquela mãe de Gênesis 4, que seu 
filho mais velho matou seu filho caçula... Isso é grotesco, choca, assusta 
e machuca por dentro. Algumas coisas nos atordoam e parecem sem 
sentido. Este é o tema de Eclesiastes. 
2.2.2 Algumas coisas se mostram ilógicas e, portanto, incompreensíveis; não 
apenas difíceis, mas virtualmente impossíveis de explicar. É assim que 
enxergamos o que nos envolve; nós enxergamos, mas não nos 
conformamos; nós enxergamos, mas nem sempre compreendemos e 
muito menos conseguimos explicar. 
2.2.2.1 Somos tomados de assalto por indignação, perplexidade e uma 
sensação de ausência de sentido. 
2.2.2.2 Então prosseguimos em nossa caminhada, apegando-nos a 
uma coisa e outra, tentando encontrar segurança aqui e ali, 
mas no fim das contas, tudo escorre por entre nossos dedos. 
3 É sobre isso que fala o Eclesiastes — a vida marcada por Abel, configurada por 
“vaidade”. Como disse alguém que captou a ideia do texto bíblico: 
Um pouquinho de fumaça, uma rajada de vento, um simples sopro — nada que se possa 
pegar com as mãos, a coisa mais próxima do zero. Isto é a vaidade de que trata este livro.16 
Talvez por causa da seriedade de seu tema: 
Coélet era (e ainda é) lido na sinagoga no terceiro dia da festa dos Tabernáculos. Confere aos 
festejos uma nota séria lembrando à congregação que as alegrias da vida são 
passageiras.17 
4 Sendo assim, Eclesiastes é uma graciosa porta de entrada para o evangelho. 
“Vaidade”, na maioria dos contextos em Eclesiastes, significa que nem uma coisa boa no 
mundo bom de Deus pode, em si mesma, dar-nos a chave da vida, ou fornecer o que é o 
summum bonum, o fim principal de toda vida, do amor e do trabalho. Deus reservou a 
resposta e a chave da vida para si mesmo e a compartilha somente com aqueles que se 
achegam a ele. Somente indo a ele podemos encontrar a integração e significado das coisas 
[...]. Sem a perspectiva e o sentido que Deus oferece àqueles que vão a ele, um vácuo 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
16 KIDNER, Derek. A Mensagem de Eclesiastes. 2ed. São Paulo: ABU Editora, 1998, p. 10. (A Bíblia Fala Hoje). 
Grifo [em negrito nosso] nosso; grifo [em itálico] do autor. 
17 HARRINGTON, Wilfrid J. Chave Para a Bíblia: A Revelação, a Promessa, a Realização. São Paulo: Paulinas, 
1985, p. 327. (Biblioteca de Estudos Bíblicos). Grifo nosso. 
Caminhando com Deus sob o sol: Introdução ao Eclesiastes – 7 
permanece [em nosso] coração, um vácuo tão grande quanto o próprio universo. Somos 
deixados nos sentindo sozinhos, descartados e com poucos ou nenhum ponto de referência 
neste mundo.18 
4.1 Isso significa que, ainda que seja um livro altamente filosófico, Eclesiastes não é 
uma obra de Filosofia.19 A Bíblia não se presta a este fim. Ela é a Palavra 
inspirada, infalível e inerrante de Deus ― a revelação do evangelho para 
salvação de toda pessoa que crer em Cristo como seu Senhor e Salvador. 
4.2 O fato é que Eclesiastes derruba todo o ideal humanista da Filosofia. 
Eclesiastes afirma que não é possível encontrar significado ou satisfação na 
razão ou sabedoria do homem à parte de Cristo. 
Então Deus fala conosco por meio do “filho de Davi”, ajudando-nos a lidar com uma 
vida passageira e aparentemente sem sentido. Deus nos mostra a vida sem 
glitter, o vazio por detrás das coisas e a necessidade de andarmos com ele 
mesmo estando exaustos e confusos. DITO ISTO, É HORA DE CONCLUIR. 
Concluindo 
1 O que temos aqui? 
1.1 Eclesiastes reafirma o ensino do restante da Bíblia: Deus fala e reina a partir de 
Sião, o monte santo de Jerusalém, por meio de seu Mediador, o “filho de 
Davi” descrito em Apocalipse 14.1 e 22.16. 
1.2 Deus garante a palavra firmada em Isaías 33.6: “Haverá, ó Sião, estabilidade nos 
teus tempos, abundância de salvação, sabedoria e conhecimento; o temor do 
SENHOR será o teu tesouro”. 
2 Ao desfrutar desta “sabedoria” disponível em Eclesiastes, nós somos 
fortalecidos. 
2.1 Você quer que seu filhinho ou filhinha aprenda a conviver com outras pessoas? 
Leve-o (ou leve-a) a lugares onde há pessoas. Traga-o (ou traga-a) desde os 
primeiros dias de vida à igreja. 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
18 KAISER, Walter. Documentos do Antigo Testamento: Sua Relevância e Confiabilidade. São Paulo: Cultura 
Cristã, 2007, p. 195. 
19 Cf. LÍNDEZ, op. cit., p. 17: “Alguns chamaram Qohelet filósofo. Creio que em sentido rigoroso não é 
adequada essa qualificação. Melhor seria chamá-lo pensador”. Grifos do autor. Mesmo assim, é necessário 
cuidado para não atribuir peso exagerado a este ponto, uma vez que a função do escrito bíblico de sabedoria 
é produzir verdadeira piedade e não mero saber filosófico. Cf. OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica: 
Uma Nova Abordagem à Interpretação Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 310, “a sabedoria é em especial 
um padrão teológico de pensamento que aplica a sabedoria de Deus às questões práticas da vida” (grifo 
nosso). Isso resulta na definição de “uma ‘compreensão sapiencial da realidade’”, ou seja, santidade 
decorrente de uma cosmovisão bíblica. 
Há quem leia Eclesiastes, por exemplo, com os óculos da filosofia existencialista, sugerindo que neste livro o 
autor afirma que a vida não possui qualquer sentido, ou seja, tudo é absurdo. FOX, M. V. Qohelet and His 
Contradictions. Decatur, GA: The Almond Press, 1989, p. 13–14, sugere um paralelo entre o Pregador e o 
filósofo existencialista Albert Camus. 
Caminhando com Deus sob o sol: Introdução ao Eclesiastes – 8 
2.2 Você quer que o organismo de seu filhinho ou filhinha se torne robusto para 
combater doenças? Deixe seu menino ou menina pisar no chão, sujar-se de terra, 
brincar com animais e dar umas boas arranhadas nos joelhos e cotovelos. 
Cicatrizes sinalizam recuperação — uma ferida foi sarada, isso é a vitória da 
saúde sobre a doença, da força sobre a fraqueza. 
2.3 O que eu estou dizendo aqui? Pra sermos fortalecidos temos de sair da 
redoma; temos de ser expostos ao “sol” (falarei sobre a expressão “debaixo do 
sol” no próximo sermão). 
2.3.1 Algumas pessoas abraçam expectativas irreais. Simulam perfeição e 
ordem absoluta e abraçam ideias simplistas e respostas fáceis para todas 
as perguntas. Quando surge o desconforto, o conflito e a angústia; 
quando se quebra o vidro da redoma; quando surgem a imperfeição, o 
caos e as perguntas difíceis, estas pessoas literalmente desabam. 
2.3.2 Quando sorvemos as palavras de Eclesiastes, aprendemos a encarar a 
complexidade e as aparentes contradiçõese mistérios de um mundo 
afetado pela vaidade. Eclesiastes nos fortalece para o enfrentamento do 
inimigo descrito por Henley: 
Fumaça espiralada que se desprende do pavio instável, 
em volteios, em lufadas, em devaneios circunvolutos, 
Irrealidade fina e vã mergulhando no vácuo. 
O mesmo fim para o casebre e o palácio, para a prisão e o tribunal! 
A mesma chama consome igualmente Sabedoria e loucuras. 
Para isso mesmo é que viemos: Ó vaidade das vaidades!20 
2.4 Em suma, a maioria dos nossos questionamentos dramáticos — Por quê?! — 
decorrem de nosso desconhecimento ou desconsideração de Eclesiastes. 
3 É por isso — porque queremos desfrutar do governo e provisão de Deus em um 
mundo imperfeito — que nós iniciamos hoje uma viagem. Percorreremos, por cerca 
de 20 semanas, as trilhas pedregosas e ao mesmo tempo transformadoras do 
reino de sabedoria do Eclesiastes. Você é convidado a participar desta viagem. 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
20 HENLEY, W. E. Of the Nothingness of Things — Das Coisas Reduzidas a Nada —, apud EATON, Michael A. 
Eclesiastes. In: EATON, Michael A.; CARR, G. Lloyd. Eclesiastes e Cantares: Introdução e Comentário. São 
Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1989, p. 13. (Série Cultura Bíblica)

Mais conteúdos dessa disciplina