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UNIP - UNIVERSIDADE PAULISTA
A ALTERAÇÃO DA PENA DE FEMINICÍDIO E A SUA EFICÁCIA JURÍDICA
FERNANDO ANTONIO FRANZZOLA DE LIMA
SÃO PAULO
2026
FERNANDO ANTONIO FRANZZOLA DE LIMA
A ALTERAÇÃO DA PENA DE FEMINICÍDIO E A SUA EFICÁCIA JURÍDICA
Monografia apresentada à Unip-
Universidade Paulista, como requisito
parcial para obtenção do grau de Bacharel
em Direito, sob orientação do Professor:
Dr. Ricardo Martins
SÃO PAULO
2026
FERNANDO ANTONIO FRANZZOLA DE LIMA
A ALTERAÇÃO DA PENA DE FEMINICÍDIO E A SUA EFICÁCIA JURÍDICA
Monografia apresentada à Unip-
Universidade Paulista, como requisito
parcial para obtenção do grau de Bacharel
em Direito, sob orientação do Professor:
Dr. Ricardo Martins
BANCA EXAMINADORA
_________________________________/___/_____
(Orientador-Unip) Dr. Ricardo Martins
____________________________________________/___/_____
Prof. Universidade Paulista – UNIP
____________________________________________/___/____
Prof. Universidade Paulista – UNIP
Dedico este Trabalho de Conclusão de Curso a todas as
mulheres que tiveram suas vidas interrompidas pelo feminicídio,
vítimas da violência de gênero que persiste como uma das mais
graves violações aos direitos humanos na sociedade
contemporânea.
Dedico, de forma especial, à memória de minha colega
de faculdade, Carla Viera, cuja trajetória foi brutalmente
interrompida em 2024, e cuja ausência reforça a urgência de
que o Direito não se limite à norma escrita, mas atue como
instrumento efetivo de proteção, justiça e dignidade.
Que este trabalho represente não apenas uma produção
acadêmica, mas também um compromisso com a vida, com a
justiça e com a construção de uma sociedade que não tolere a
violência contra a mulher.
AGRADECIMENTOS
Agradeço, primeiramente, a Deus, pela vida, pela força e pela perseverança
ao longo de toda a trajetória acadêmica.
Ao meu orientador, Professor Dr. Ricardo Martins, pela disponibilidade,
orientação técnica e contribuições fundamentais para o desenvolvimento deste
trabalho.
À Universidade Paulista – UNIP, aos professores e colaboradores, que
contribuíram para minha formação acadêmica e jurídica.
Aos colegas de curso, que compartilharam desafios, aprendizados e
experiências ao longo da graduação.
À minha família, pelo apoio incondicional, incentivo constante e
compreensão nos momentos de dedicação intensa aos estudos.
Por fim, registro meu respeito e solidariedade a todas as mulheres
vítimas de violência de gênero, cuja memória reforça a necessidade de um Direito
Penal comprometido não apenas com a punição, mas com a prevenção, a dignidade
humana e a efetivação da justiça.
“O Direito não se contenta em ser apenas lei, ele precisa ser
Justiça.” – Piero Calamandrei
RESUMO
O presente Trabalho de Conclusão de Curso analisa a alteração da pena do crime
de feminicídio no ordenamento jurídico brasileiro e a sua eficácia jurídica no
enfrentamento à violência de gênero. O feminicídio foi introduzido no Código Penal
pela Lei nº 13.104/2015, que incluiu a qualificadora no artigo 121, §2º, inciso VI,
reconhecendo o homicídio praticado contra a mulher por razões da condição do
sexo feminino como circunstância qualificadora, com pena de reclusão de 12 a 30
anos. O estudo examina as alterações legislativas relacionadas ao tema, à luz da
Constituição Federal, dos princípios da dignidade da pessoa humana, da igualdade
material e da proporcionalidade da pena. É analisado a relação do feminicídio e a
Lei Maria da Penha, destacando o papel das políticas públicas de proteção à mulher
e a necessidade de uma atuação integrada entre o Direito Penal e medidas
preventivas.
Palavras-chave: Feminicídio; Direito Penal; Violência de Gênero.
ABSTRACT
This undergraduate thesis analyzes the alteration of the penalty for the crime of
femicide in the Brazilian legal system and its legal effectiveness in combating
gender-based violence. Femicide was introduced into the Penal Code by Law No.
13.104/2015, which included the aggravating circumstance in Article 121, §2, item VI,
recognizing homicide committed against a woman due to her gender as an
aggravating circumstance, with a prison sentence of 12 to 30 years. The study
examines the legislative changes related to the topic, in light of the Federal
Constitution, the principles of human dignity, material equality, and proportionality of
punishment. The relationship between femicide and the Maria da Penha Law is
analyzed, highlighting the role of public policies for the protection of women and the
need for integrated action between Criminal Law and preventive measures.
Keywords: Femicide; Criminal Law; Gender-Based Violence.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Ilustração 1: Estimativas regionais...........................................................................30
Ilustração 2: Série histórica, vítimas de feminicídio de 2015 a 2025........................33
Ilustração 2: Feminicídios no Brasil em 10 anos......................................................33
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO.........................................................................................................12
1. LEI N°13.104/2015.............................................................................................13
1.1 Conceito..................................................................................................13
1.2 Classificação doutrinária da lei N° 13.104/2015......................................15
1.3 Processo histórico do feminicídio............................................................17
1.4 Igualdade de gênero no Brasil e endentimento jurisprudencial...............20
1.5 Legítima defesa da honra........................................................................23
2. ALTERAÇÕES NA LEI N° 14.994/2024..............................................................24
2.1 Aumento de pena na Lei N°14.994/2024.................................................24
2.2 Eficácia do aumento de pena na Lei N°14.994/2024...............................26
2.3 Crescimento do Feminícidio.....................................................................28
2.3.1 Estatística do feminicídio no Mundo........................................29
2.3.2 Estatística do feminicídio no Brasil e entendimento
jurisprudencial..........................................................................................32
3. A INEFICÁCIA DA LEI N°13.104/2015.................................................................34
3.1 Políticas públicas de prevenção................................................................34
3.1.1 Política criminal de prevenção.....................................................36
3.2 Política cultural de prevenção ao feminicídio............................................38
3.3 Feminicídio e falha estatal........................................................................39
CONCLUSÃO............................................................................................................42
BIBLIOGRAFIA.........................................................................................................44
INTRODUÇÃO
A violência contra a mulher é uma das mais graves violações de direitos
humanos na sociedade contemporânea, revelando desigualdades estruturais
historicamente construídas. No Brasil, o enfrentamento jurídico dessa realidade
ganhou maior densidade normativa com a promulgação da Lei Maria da Penha, que
estabeleceu mecanismos de prevenção e repressão à violência doméstica e familiar,
e, posteriormente, com a tipificação do feminicídio como qualificadora do homicídio
pela Lei nº 13.104/2015.
No Capítulo 1, trata-se do conceito da Lei N° 13.104/2015, classificação
doutrinária,processo histórico do feminicídio e igualdade de gênero no Brasil, além
de entendimento jurisprudencial.
No Capítulo 2, aborda-se as alterações na lei N° 14.994/2024, o aumento de
pena, a eficácia do aumento de pena, o crescimento do feminicídio no mundo e no
Brasil.
No Capítulo 3, trata-sehttps://www.google.com/search?q=Lei+Maria+da+Penha&oq=medidas+protetivas+s%C3%A3o+descumpridas&gs_lcrp=EgZjaHJvbWUyCQgAEEUYORigATIHCAEQIRigATIHCAIQIRigATIHCAMQIRigAdIBCDYxNDNqMGo3qAIAsAIA&sourceid=chrome&ie=UTF-8&ved=2ahUKEwjH5fvvxoGTAxUPqpUCHRMzMWIQgK4QegQIARAC
Sob essa perspectiva Maria Berenice Dias leciona que a Lei Maria da
Penha (Lei nº 11.340/2006) instituiu medidas protetivas de urgência pois reconhece
a previsibilidade do agravamento da violência. Contudo, a inefetividade na
fiscalização dessas medidas compromete sua finalidade preventiva. A autora
evidencia a ausência de monitoramento adequado transforma a medida protetiva
em “pr81.
Sob essa perspectiva Rogério Sanches Cunha a tipificação do crime de
descumprimento de medida protetiva (art. 24-A da Lei 11.340/2006) busca reforçar a
autoridade judicial, mas sua eficácia depende de resposta estatal célere, entretanto
na prática este princípio constitucional dificilmente é efetivado, pois são muito lentos
e burocráticos59.
Além disso, estudos sociológicos como os de Heleieth Saffioti demonstram
que a violência de gênero é estrutural, cultural e as vezes até hereditária, e
demanda atuação integrada de políticas públicas60, não se limitando à resposta
penal a previsibilidade do feminicídio impõe ao Estado responsabilidade ampliada
na implementação de uma rede de proteção efetiva, com: Fiscalização rigorosa das
medidas protetivas, monitoramento eletrônico quando necessário, integração entre
Judiciário, Ministério Público, Defensoria, assistência social e segurança pública.
Entretanto, vale ressaltar que há falhas no monitoramento, conforme o site
Associação Brasileira de Impressa Para pesquisadoras da área de políticas públicas
e segurança, o principal gargalo está na fiscalização. A decisão judicial determina
afastamento, proibição de contato ou restrição de aproximação, mas nem sempre
há monitoramento contínuo do agressor, uso de tornozeleira eletrônica ou
integração entre polícia, Judiciário e assistência social. Em muitas regiões, a
verificação do cumprimento depende exclusivamente de patrulhamento eventual ou
da própria vítima comunicar nova violação61.
____________________
58 DIAS,Maria Berenice. A Lei Maria da Penha na Justiça, editora Revista dos Tribunais. 2021, p.
178-182.
59 CUNHA, Rogério Sanches. Lei Maria da Penha Comentada Artigo por Artigo, JUSPODVM. São
Paulo. 2023, p. 312-318.
60 SAFFIOTI, Heleieth SaffiotiGênero. Patriarcado e Violência. expressão popular. São Paulo. 2015,
p. 67-74.
61 Associação Brasileira de Impresa.ALVAREZ, Gloria. Medidas protetivas crescem, mas falhas na
fiscalização ainda expõem mulheres ao feminicídio no Brasil. Disponível
em:https://www.abi.org.br/medidas-protetivas-crescem-mas-falhas-na-fiscalizacao-ainda-expoem-
mulheres-ao-feminicidio-no-brasil/. Acesso em: 01 mar 2026.
As políticas preventivas contínuas é sempre bem-vindas, pois para a
erradicação e diminuição do feminicídio deve haver muitas políticas públicas de
conscientização e prevenção. Então é necessário acabar com a ausência de
proteção efetiva, é necessário que todas as medidas que tutelam a mulher
funcionem de fato. A omissão ou atuação insuficiente pode configurar falha estatal
na proteção de direitos fundamentais positivados na nossa atual Constituição da
República Federativa do Brasil - CF/88, especialmente o direito à vida e à dignidade
da mulher. Portanto, houve tantas críticas que fez o governo federal lançar
recentemente o Pacto Nacional – Brasil contra o Feminicídio, criando um comitê
interinstitucional para articular ações entre Executivo, Legislativo e Judiciário. A
proposta é integrar dados, acelerar fluxos de informação e fortalecer o
monitoramento das medidas protetivas, .
Dentre as medidas cabíveis além de medidas penais, há também a
responsabilização do agressor além da pena, como programas de reeducação
masculina nas prisões, dentre educação de gênero nas penitenciárias em detentos
que cometeram todos os tipos de crimes contra a mulher, a conscientização e
educação com provas e exames psicológicos para evidenciar que de fato ele não
voltara a cometer crimes contra a mulher, para desconstruir essa masculinidade
tóxica, por exemplo: Na Suécia e Suiça eles adotam politicas criminais de educação
para desestruturar a idéia da violência de genero, através de: Terapias cognitivo
comportamental - TCC, reflexões sobre masculinidade e papéis de gênero, controle
de impulsos e responsabilização, trabalho psicológico individual e em grupo.
As escolas podem ter uma matéria de violência de gênero e desconstruir a
masculinidade tóxica e a idéia de família patriarcal, e induzir a igualdade de gênero,
dentre as medidas não penais complementares e até mesmo muitas propagandas
públicas em ‘outdoors’ e locais de grande movimentações de pessoas.
CONCLUSÃO
A presente aborda a alteração da pena do crime de feminicídio no
ordenamento jurídico brasileiro e sua eficácia jurídica, à luz das recentes
modificações legislativas, promovidas por a Lei nº 14.994/2024. O legislador
buscou fortalecer a tutela penal para maior proteção da vida da mulher, agravando
as consequências penais diante de um fenômeno estrutural marcado por
desigualdade de gênero, violência doméstica e discriminação histórica, porém parte
da doutrinaainda entendeque o feminicídio continua estruturalmente vinculado ao
homicídio.
A elevação da pena é uma opção político-criminal para reafirmar o caráter
reprovável da conduta e à tentativa de reforçar a função preventiva geral da norma
penal. Entretanto, o simples aumento da sanção não é, por si só, suficiente para
garantir a redução significativa dos índices de violência letal contra a mulher. A
eficácia jurídica de uma norma penal não se limita à sua validade formal ou à
severidade da pena, mas depende também da efetividade de sua aplicação, da
atuação integrada dos órgãos de persecução penal e da existência de políticas
públicas complementares de prevenção e proteção.
Constatou-se também que a violência de gênero no Brasil possui
características específicas, agravadas pela interseccionalidade entre gênero, raça e
classe social, tornando mulheres negras e periféricas as principais vítimas da
violência letal. Esse dado reforça a necessidade de políticas públicas que não sejam
apenas repressivas, mas que contemplem ações educativas, assistenciais,
econômicas e culturais.
A pesquisa evidenciou que o enfrentamento ao feminicídio exige o
reconhecimento de sua dupla dimensão: Social, ao demandar mudanças culturais
profundas, desconstrução de estereótipos e promoção da igualdade de gênero
Jurídica, ao requerer aperfeiçoamento legislativo, fortalecimento da rede de
proteção e atuação comprometida das instituições estatais. Conclui-se que o
combate ao feminicídio deve ser compreendido como prioridade de Estado,
orientado por uma abordagem multidisciplinar que articule prevenção, proteção,
responsabilização e políticas sociais. Somente a conjugação dessas estratégias
permitirá a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e livre da violência
de gênero que historicamente vitimiza as mulheres.
Por fim, conclui-se que o enfrentamento do feminicídio exige mais do que a
expansão do Direito Penal. Exige compromisso estatal contínuo, políticas públicas
eficazes, atuação integrada das instituições e transformação cultural profunda. O
Direito Penal, embora necessário, atua tardiamente quando o ciclo de violência já se
encontra avançado. Portanto, a prevenção, a proteção efetiva das vítimas e a
responsabilização adequada dos agressores mostram-se como caminhos
indispensáveis para a construção de uma sociedade que não naturalize a morte de
mulheres em razão de seu gênero.
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https://buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/5679/motivo-torpe-e-feminicidio-inexistencia-de-bis-in-idem.
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NUCCI, Guilherme de Souza. Código Penal Comentado. 20. ed. Rio de Janeiro:
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NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de Direito Penal – Vol 2. Gen Editora Forense.
Rio de Janeiro. 2024. APUD GUSTAVO A. AROCENA e JOSÉ D. CESANO, El delito de
femicidio, p. 46, traduzimos.
NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de Direito Penal – Parte Especial. Rio de
Janeiro: Forense, 2021.
NUCCI, Guilherme de Souza. Código Penal Comentado. 17 ed. São Paulo:
Forense, 2017, p. 455, livro digital. Assim também MASSON: Feminicídio é o
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UNESCO. Igualdade de gênero. Disponível
em:https://www.unesco.org/pt/fieldoffice/brasilia/expertise/gender-equality. Acesso
em: 26 fev 2026.
Fonte: CAP/SSP/SP. Disponível em:
. Acesso em: 29 ago.
2025.
NAÇOES UNIDAS BRASIL. ONU: 137 mulheres e meninas são mortas todos os
dias por parceiros íntimos ou familiares. Disponível em:https://brasil.un.org/pt-
br/305981-onu-137-mulheres-e-meninas-s%C3%A3o-mortas-todos-os-dias-por-
parceiros-%C3%ADntimos-ou-familiares. Acesso em: 21 fev 2026.
ZAFFARONI, Eugenio Raúl; PIERANGELI, Andrés; DELGADO, Roxana. Tratado
de Derecho Penal – Parte General. Buenos Aires: Ediar, 2017.
https://jurismenteaberta.com.br/feminicidio-e-politica-criminal-protecao-da-mulher-e-limites-penais/.
https://jurismenteaberta.com.br/feminicidio-e-politica-criminal-protecao-da-mulher-e-limites-penais/.
	BANCA EXAMINADORAda Ineficácia da Lei N° 13.104/2015, quais as políticas
públicas de prevenção, política criminal de prevenção, e a política cultural de
prevenção ao feminicídio.
Por fim a conclusão de todo conhecimento adquirido ao decorrer da presente
pesquisa, e a bibliografia de todo material consultado. A pesquisa adotou a
metodologia qualitativa, de caráter bibliográfico e documental, com análise de
legislação, doutrina especializada, jusrisprudência e dados estatísticos sobre
feminicídio no Brasil e no mundo.
1. LEI N°13.104/2015
Neste Capítulo é abordado o conceito da Lei N° 13.104/2015, a classificação
doutrinária, seu processo histórico e a igualdade de gênero.
1.1 Conceito
Conforme leciona Nestor Sampaio Penteado Filho e Eron Veríssimo Gimenes,
A palavra “feminicídio” é usada para conceituar o homicídio de mulheres em função
do gênero e representa a violência extrema, máxima, contra elas. Fala-se também
em uxoricídio, do latim ‘uxor’ (esposa, mulher casada), e ‘caedere’ (matar), que
significa o homicídio da mulher casada, tipificando tal crime com a necessária
condição de marido/convivente do sujeito ativo. Ambos resultam geralmente de uma
escalada da violência contra a mulher/esposa: Caracterizada por ofensas, vias de
fato, lesões corporais, até o homicídio1.
O autor evidencia que no Brasil o feminicídio é tipificado na Lei n. 13.104/2015,
que alterou o Código Penal, incluindo como homicídio qualificado aquele perpetrado
contra a mulher por razões da condição de sexo feminino, aumentando a pena para
reclusão de 12 a 30 anos. Esse elemento objetivo do injusto típico, “razões de
condição do sexo feminino”, refere-se ao delito que envolva violência doméstica ou
familiar, assim como menoscabo ou desprezo à condição de mulher. Além disso,
prevê-se também como causa de aumento de pena (de um terço até metade) o
delito ser praticado durante o estado gestacional ou nos três meses subsequentes
ao parto1.
Feminicídio — Rubrica acrescentada pela Lei n. 13.104/2015.
VI — contra a mulher por razões da condição de sexo feminino; — Inciso acrescentado pela
Lei n. 13.104/2015.
Sob essa perspectiva Guilherme de Souza Nucci:
A eliminação da vida da mulher sempre foi tutelada pelo direito penal, na forma do
homicídio. Em verdade, não significa o termo “homicídio” apenas eliminar a vida do
homem, mas do ser humano, vivente no Planeta Terra2..
___________________
1 FILHO, Nestor Sampaio Penteado. GIMENES, Eron Veríssimo. CRMINOLOGIA. Ed 14. Saraiva
Jur. São Paulo. 2023.
2 NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de Direito Penal – Vol 2. Gen Editora Forense. Rio de
Janeiro. 2024.
O autor menciona que há normas foram editadas ao longo do tempo, com o
objetivo de proteger à mulher, em face da nítida opressão enfrentada em regra com
pessoas dos sexo masculino, é de notório saber jurídico que constitucionalmente,
todos são iguais perante a lei. Entretanto a norma não bastou, pois as mulheres
continuavam a sofrer dentro de seus lares (principalmente) inúmeras formas de
violência física e psicológica. Adveio a Lei 11.340/2006 (Lei Maria da Penha)
contendo normas explicativas, programáticas e determinadas, com o fito de tutelar,
de maneira mais eficiente, a condição do sexo feminino, em particular nos
relacionamentos domésticos e familiares.
Sob essa perspectiva Guilherme de Sousa Nucci:
O feminicídio é uma continuidade dessa tutela especial, considerando homicídio
qualificado e hediondo a conduta de matar a mulher, valendo-se de sua condição de
sexo feminino3.
Sob essa perspectiva Ana Carcedo, à vista disso, nota-se que o feminicídio
não se limita a um único contexto. Inspirando-se na classificação tradicional, é
possível dividi-lo em três tipologias básicas:
1) feminicídio íntimo;
2) feminicídio não íntimo;
3) e feminicídio por conexão.
O feminicídio íntimo ocorre quando as vítimas possuem alguma relação com
seus algozes, seja afetiva, familiar ou de mera convivência. Ressalvado o
feminicídio por conexão, o feminicídio não íntimo é residual, abarcando os
homicídios em que não havia qualquer relação afetiva, familiar ou de convivência
anterior. Já o feminicídio por conexão refere-se às mulheres que não eram as
vítimas virtuais do intento criminoso, mas acabam atingidas. Ocorre, por exemplo,
quando o agressor pretende matar a filha, a amiga ou a mãe da vítima real, mas
depara-se com um ‘aberratio ictus’ (erro na execução ou erro por acidente)4.
___________________
3NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de Direito Penal – Vol 2. Gen Editora Forense. Rio de Janeiro.
2024.
4 CARCEDO, Ana (Org.). No olvidamos ni aceptamos: Feminicidio em Centroamérica 2000 – 2006.
San José: CEFEMINA, 2010, p. 14.
1.2 Classificação doutrinária da lei N° 13.104/2015
A classificação doutrinária do crime de feminicídio é quais os sujeitos do crime,
qual o bem jurídico tutelado dentre outras características. Sob essa perspectiva
Cezar Roberto Bittencourt: Dentre os bens jurídicos de que o indivíduo é titular e
para cuja proteção a ordem jurídica, visa proteger a vida se destacando como o bem
jurídico tutelado mais valioso. A conservação da pessoa humana, que é a base de
tudo, tem como condição primeira a vida, que, mais que um direito, é a condição
básica de todo direito individual, porque sem ela não há personalidade, nem há
direito individual. Embora esse bem jurídico constitua a essência do indivíduo
enquanto ser vivo, a sua proteção jurídica interessa conjuntamente ao indivíduo e
ao próprio Estado, recebendo, com acerto, assento constitucional (art. 5o, ‘caput’, da
CF). O respeito à vida humana é, um imperativo constitucional, que, para ser
preservado com eficácia, recebe ainda a proteção penal. A sua importância, dá a
base de todos os direitos fundamentais da pessoa humana, ao ponto de impedir que
o próprio Estado possa suprimi-la, dispondo a Constituição Federal que não haverá
pena de morte, “salvo em caso de guerra declarada, nos termos do art. 84, XIX (art.
5o, XLVII, a)5.
Conforme Rogério Greco, quanto ao sujeito passivo o crime de feminicídio é
considerado um Crime próprio, ou seja, só pode ter como vítima uma mulher, em
razão de sua condição de sexo feminino. O autor ressalta que o feminicídio tutela a
dignidade da mulher, protegendo-a contra práticas de gênero historicamente
enraizadas6.
Conforme entendimento do STJ – Superior Tribunal de Justiça, As qualificadoras
do motivo torpe e do feminicídio possuem naturezas distintas, sendo a primeira de
caráter subjetivo (motivação do crime, ‘animus’ do agente) e a segunda de cunho
objetivo, atrelada à condição especial da vítima (do gênero feminino), de modo que
a imputação simultânea das referidas qualificadoras não configura ‘’ Ne bis in idem7".
___________________
5 BITTENCOURT, Cezar Roberto. Código Penal Comentado. Saraiva Jur. São Paulo. 2019.
6 GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal – Parte Especial, vol. II. 17. ed. Rio de Janeiro: Impetus,
2019.
7 AREsp 2572671 / TO. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL 2024/0056963-2. Relatora. Ministra
DANIELA TEIXEIRA. Órgão Julgador T5 - QUINTA TURMA. Data do Julgamento 03/12/2024. Data
da Publicação/Fonte. DJEN 26/12/2024.
https://processo.stj.jus.br/SCON/GetInteiroTeorDoAcordao?num_registro=202400569632&dt_publicacao=26/12/2024
O feminicídio tem natureza objetiva de qualificadora, sendo essa qualificadora
podendo ser cumulativa com outra qualificadora do crime de homicídio, pois não
configura ‘ Ne bis in idem’, conforme entendimento da jurisprudência baixo:
APELAÇÃO CRIMINAL. DIREITO PENAL. FEMINICÍDIO. DELIMITAÇÃO DO
RECURSO. NULIDADE DA SESSÃO PLENÁRIA. INOCORRÊNCIA. EXCLUSÃO DE
QUALIFICADORA. IMPOSSIBILIDADE. ERRO REFERENTE À CONDENAÇÃO.
FURTO. ERRO NO EXTRATO DOS QUESITOS. INEXISTÊNCIA. PRISÃO
PREVENTIVA. MANUTENÇÃO. Consoante o disposto na Súmula nº 713, do
Supremo Tribunal Federal, o efeito devolutivo contra as decisões proferidas nos
processos submetidos a júri popular é adstrito aos fundamentos de sua interposição.
Não configura nulidade da sessão plenária, em razão dainfluência na íntima
convicção dos jurados, o fato de as oficialas de justiça presentes na solenidade
terem supostamente mantido diálogo entre elas, no intervalo da sessão, sobre a
rotina de trabalho, sem se imiscuírem sobre o fato em julgamento ou a culpabilidade
do réu. O choro contido de uma servidora, durante a sessão plenária, também não
tem o poder de influir na convicção dos jurados, tratando-se de emoção demonstrada
em razão das circunstâncias em que o crime foi praticado. O que se visa assegurar
com a incomunicabilidade dos jurados, constitucionalmente prevista, é a troca de
impressões pessoais, de conclusões, de opiniões dos jurados sobre os fatos,
pessoas e coisas que se liguem ao cerne do julgamento, à culpa lato sensu do réu8.
Conforme entendimento de Guilherme de Souza Nucci, o crime de feminicídio
é classificado como crime comum: pode ser praticado por qualquer pessoa (homem
ou mulher). Não se exige qualidade especial do agente. O primeiro bem jurídico
tutelado por o feminicídio é a vida, o segundo bem jurídico é a dignidade da mulher,
a igualdade de gênero e o combate à violência estrutural contra a mulher, conforme
Cezar Roberto Bittencourt9..
Sob essa perspectiva Damásio de Jesus, referente ao objeto jurídico Imediato
é a vida humana da vítima, e o objeto jurídico mediato é a integridade da mulher e
combate à discriminação/violência de gênero10.
Referente ao objeto material, sendo a própria mulher vítima do homicídio,
conforme entendimento de Fernando Capez11.
Sob essa perspectiva André Estefam a conduta do crime de feminicídio:
__________________
8 Acórdão 1864161, 0708975-78.2022.8.07.0017, Relator(a): ESDRAS NEVES, 1ª TURMA
CRIMINAL, data de julgamento: 23/05/2024, publicado no DJe: 28/05/2024.Acesso em 30 ago 2025.
9 NUCCI, Guilherme de Souza. Código Penal Comentado. 20. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2022.
10 BITTENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal – Parte Especial, vol. 2. 22. ed. São
Paulo: Saraiva, 2021.
11 JESUS, Damásio de. Direito Penal – Parte Especial. 34. ed. São Paulo: Saraiva, 2016.
12 CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal – Parte Especial, vol. 2. 21. ed. São Paulo: Saraiva,
2020.
https://jurisdf.tjdft.jus.br/acordaos/afdea6f7-2879-453b-9169-3d36017be905
Sob essa perspectiva André Estefam a conduta do crime de feminicídio:
Quanto à conduta é classificado como crime comissivo (matar mulher), Apenas
admite-se a excepcionalmente a forma omissiva imprópria (quando havia dever
jurídico de agir)13.
Conforme entendimento de Guilherme de Sousa Nucci, quanto ao resultado: É
considerado um crime material, ou seja, é um crime que exige resultado
naturalístico (morte). Referente ao dolo , é um crime que se consuma apenas por
dolo, seje o dolo direto ou eventual, é um tipo penal na qual não se admite a forma
culposa, conforme Rogério Grecco14.
Quanto à consumação e tentativa no entendimento de Fernando Capez,
consuma-se com a morte da vítima, com o resultado naturalístico do crime de
homicídio, só que com a qualificadora por questão do gênero. É um crime que
admite tentativa (quando a execução começa, mas não ocorre o resultado)15.
Conforme Cezar Roberto Bittencourt, quanto a natureza do crime de feminicídio,
a qualificadora do homicídio (não é crime autônomo), é considerado um Crime
hediondo (Lei 8.072/1990, art. 1º, I)16. A ação penal é pública incondicionada, ou
seja, a responsabilidade é do Ministério Público - MP, de denunciar o réu e iniciar o
devido processo legal. O elemento subjetivo deste tipo penal é o dolo de matar,
também conhecido doutrinariamente como ‘dolo necandis’ , na tradução livre, é a
vontade, ou intenção de matar, no caso a mulher, pois está ligado a condição do
gênero.
1.3 Processo histórico do feminicídio
A tipificação legal do feminicídio está presente nas legislações ao redor do
mundo. No entanto, desde a Bíblia há relatos de morte de mulheres, verdadeiro
feminicídio, apesar de o conceito de violência de gênero e de feminicídio, serem
___________________
13 ESTEFAM, André. Direito Penal – Parte Especial, vol. 2. São Paulo: Saraiva, 2019.
14 NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de Direito Penal – Parte Especial. Rio de Janeiro: Forense,
2021.
15 GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal – Parte Especial. Rio de Janeiro: Impetus, 2019.
16 CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal – Parte Especial. 2020.
17 BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal. 2021.
relativamente recentes. O primeiro feminicídio que se tem notícia registrado
inclusive na Bíblia, é a tentativa de “apedrejamento da mulher”, episódio descrito no
Evangelho de São João (8, 1-11). Em tal passagem bíblica, Jesus está no Templo
pregando, quando aparecem os escribas e os fariseus, trazendo consigo uma
mulher que praticou adultério. Eles a colocam no meio da roda, entre Jesus e o
povo. Conforme a lei da época, esta mulher deveria ser apedrejada até a morte.
Assim, eles perguntam a Jesus a sua opinião. No entanto, Jesus se levanta e diz:
“Quem for sem pecado, seja o primeiro a jogar a pedra!”. Assim, um depois do outro,
a começar pelos mais idosos, foram saindo do local, até restar somente a mulher.
Apesar da lei prever a morte do casal adúltero, somente a mulher era
apedrejada. Assim, a mulher desde então era culpabilizada, pela própria má sorte,
se um crime era praticado contra ela, no caso, a tentativa de feminicídio, tal só tinha
ocorrido, porque ela tinha dado causa. E a defesa da honra do homem, justificava
até mesmo a morte de quem na verdade, era vítima, do crime e da cultura patriarcal.
Entretanto, a própria Bíblia não conta a história do ponto de vista das mulheres, com
a sua visão sobre os ensinamentos bíblicos, a perspectiva feminina sobre os
ensinamentos de Jesus não aparece nos textos que chegaram ao nosso
conhecimento. Sendo que várias mulheres foram citadas pelos apóstolos, viveram
no grupo de Jesus, foram protagonistas de suas parábolas e milagres18.
O reconhecimento do feminicídio no ordenamento jurídico é resultado de um
processo histórico, social e político vinculado às lutas feministas e à consolidação
dos direitos humanos das mulheres. A morte de mulheres em contexto de violência
doméstica ou de gênero era tratada como homicídio comum, frequentemente
relativizada por argumentos como “crime passional” ou defesa da honra. O termo
‘femicide’ foi utilizado pela primeira vez por Diana Russell em 1976, durante o
Tribunal Internacional de Crimes contra as Mulheres, em Bruxelas19.
Posteriormente, Russell aprofundou o conceito ao definir feminicídio como o
assassinato de mulheres por homens motivado por ódio, desprezo, prazer ou
___________________
18 RABELO, Luciana do Amaral. AZAMBUJA, Fernanda Proença de. ARRUDA,Rejane Alves
de.FEMINICÍDIO: EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO CONCEITO, UMA ANÁLISE CULTURAL, A LUZ
DOS DIREITOS HUMANOS FEMINICIDE: HISTORICAL EVOLUTION OF THE CONCEPT, A
CULTURAL ANALYSIS, THE LIGHT OF HUMAN RIGHTS. Disponível em: Revista Direitos Sociais e
Políticas Públicas.Unifafibe.
19 RUSSELL, Diana E. H.; RADFORD, Jill (Orgs.). Femicide: The Politics of Woman Killing. New
York: Twayne Publishers, 1992.
ou sentimento de posse. Na obra ‘Femicide: The Politics of Woman Killing’, as
autoras defendem que o feminicídio não é um evento isolado, mas o ponto
extremo20. Na América Latina, a antropóloga mexicana Marcela Lagarde maximizou
o conceito para feminicidio, a autora destaca a responsabilidade do Estado pela
omissão e impunidade nos crimes contra mulheres, principalmente nos casos de
‘Ciudad Juárez’, no México. Conforme a autora é a falha institucional em garantir
sua proteção21.
Sob essa perspectiva Heleieth I. B. Saffioti:
No contexto brasileiro, o debate ganhou força com os estudos sobre violência
doméstica e de gênero desenvolvidos por autoras como Heleieth Saffioti, que
analisou a violência contra a mulher como expressão das relações estruturais de
poder patriarcal. A partir dessa construção teórica e da pressão internacional por
políticas públicas de proteção, o Brasilincorporou o feminicídio ao Código Penal por
meio da Lei nº 13.104/2015, reconhecendo-o como qualificadora do homicídio22.
O processo histórico mostra que o feminicídio era visto como fato isolado para
ser compreendido como fenômeno estrutural, vinculado à desigualdade de gênero e
à cultura patriarcal. Assim, sua positivação no ordenamento jurídico brasileiro
representa não apenas um avanço legislativo, é uma forma de proteção às
mulheres. Segundo Nucci o feminicídio tem qualificadora objetiva: “Trata-se de
uma qualificadora objetiva, pois se liga ao gênero da vítima: ser mulher. Não
aquiescemos à ideia de ser uma qualificadora subjetiva (como o motivo torpe ou fútil)
somente porque se inseriu a expressão “por razões de condição de sexo feminino”.
Não é essa a motivação do homicídio. O agente não mata a mulher porque ela é
mulher, mas o faz por ódio, raiva, ciúme, disputa familiar, prazer, sadismo, enfim,
motivos variados, que podem ser torpes ou fúteis; podem, inclusive, ser moralmente
relevantes. Sendo objetiva, pode conviver com outras circunstâncias de cunho
puramente subjetivo23.”
______________________
20 RUSSELL, Diana E. H.; RADFORD, Jill (Orgs.). Femicide: The Politics of Woman Killing. New
York: Twayne Publishers, 1992.
21 LAGARDE, Marcela. Del femicidio al feminicidio. In Los cautiverios de las mujeres. México:
UNAM, 2006. p. 219–235.
22 SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, Patriarcado, Violência. São Paulo: Fundação Perseu Abramo,
2004.
23 NUCCI, Guilherme de Souza. Código Penal Comentado. 17 ed. São Paulo: Forense, 2017, p. 455,
livro digital. Assim também MASSON: Feminicídio é o homicídio doloso cometido contra a mulher por
razões da condição de sexo feminino.
https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/91614/codigo-penal-decreto-lei-2848-40
1.4 Igualdade de gênero no Brasil e entendimento jurisprudencial
A UNESCO classifica a violência baseada em gênero com um aumento,
visto como um fenômeno mundial que atravessa fronteiras geográficas, culturais,
sociais, econômicas, étnicas e outras. Essa violência tem afetado profundamente
milhões de mulheres e meninas. No Brasil, a violência baseada em gênero tem
ocorrido em famílias, ambientes de trabalho e escolas. As jovens negras são as
vítimas mais comuns. Assim, estrategicamente, a UNESCO no Brasil e seus
parceiros têm buscado acabar com a violência e a discriminação contra as mulheres.
Conforme o Site da Unesco, os Dados são de 243 milhões de mulheres e meninas
(entre 15 e 49 anos) do mundo todo já foram submetidas a violência sexual ou física
por um parceiro de sua intimidade.
Foram no total 87 mil mulheres foram mortas intencionalmente em todo o
mundo. A maioria desses assassinatos foram cometidos por um parceiro íntimo ou
um membro familiar da vítima. São 83,5% das mortes violentas de mulheres no
Brasil ocorreram em ambientes domésticos familiares ou relações íntimas afetivas22.
Sob essa perspectiva o IBDFAM - Instituto Brasileiro de Direito de Família, a
advogada Adélia Moreira Pessoa, presidente da Comissão Nacional de Gênero e
Violência Doméstica do Instituto Brasileiro de Direito de Família - IBDFAM, lembra
que grande parte do trabalho realizado pelas mulheres, mesmo antes da pandemia,
era invisível e desvalorizado, as responsabilidades culturalmente atribuídas às
mulheres na esfera doméstica influenciam a posição ocupada por elas no mercado
de trabalho. “Estudos mostram que, regra geral, os efeitos da relação trabalho e
família manifestavam-se apenas entre as mulheres e não entre os homens sendo
que oferta de trabalho, ‘expertise’ e qualificação determinam o trabalho masculino,
enquanto o feminino sofre também o efeito de condicionantes familiares.”
Ela reflete: “Questões como a diferença salarial entre homens e mulheres, a
dupla jornada de trabalho e a sub-representação da mulher nos espaços de poder e
na política ainda são desafios que vêm à tona, ano após ano. As pesquisas já
revelam que as mulheres eram maioria nas posições mais vulneráveis, ocupando,
no mercado de trabalho, posição secundária em relação aos homens e com mais
dificuldade para crescer profissionalmente”.
As mulheres se concentravam em espaços mais precários do que aqueles
ocupados pelos trabalhadores masculinos, com menor nível de proteção social.
Uma parcela significativa do contingente das trabalhadoras no mercado de trabalho
era representada por atividades informais e trabalho doméstico.
“Apesar das barreiras, as mulheres vinham conquistando, progressivamente,
mais espaço no mercado de trabalho, nos últimos anos, superando alguns dos
limites impostos pela condição familiar, graças a prevalência das mulheres entre os
mais escolarizados, tanto no ensino médio como no superior24.”
Porém, mesmo com as conquistas gradativas de espaço feminino no
cenário profissional e político, ainda há muito a se fazer na luta pela igualdade de
direitos, e vários são os desafios que dificultam uma maior participação política
feminina25.
Abaixo alguns entendimentos jurisprudenciais, o STJ decidiu que não há ‘ Ne bis
in idem’ quando o feminicídio aparece junto com outras qualificadoras do homicídio.
Ementa oficial:
PENAL E PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. HOMICÍDIO QUALIFICADO.
DECISÃO DE PRONÚNCIA ALTERADA PELO TRIBUNAL DE ORIGEM. INCLUSÃO
DA QUALIFICADORA DO FEMINICÍDIO. ALEGADO BIS IN IDEM COM O MOTIVO
TORPE. AUSENTE. QUALIFICADORAS COM NATUREZAS DIVERSAS.
SUBJETIVA E OBJETIVA. POSSIBILIDADE. EXCLUSÃO. COMPETÊNCIA DO
TRIBUNAL DO JÚRI.
ORDEM DENEGADA.
1. Nos termos do art. 121, § 2º-A, II, do CP, é devida a incidência da qualificadora do
feminicídio nos casos em que o delito é praticado contra mulher em situação de
violência doméstica e familiar, possuindo, portanto, natureza de ordem objetiva, o
que dispensa a análise do ‘animus’ do agente. Assim, não há se falar em ocorrência
de bis in idem no reconhecimento das qualificadoras do motivo torpe e do feminicídio,
porquanto, a primeira tem natureza subjetiva e a segunda objetiva.
2. A sentença de pronúncia só deverá afastar a qualificadora do crime de homicídio
se completamente dissonante das provas carreadas aos autos. Isso porque o
referido momento processual deve limitar-se a um juízo de admissibilidade em que
se examina a presença de indícios de autoria, afastando-se, assim, eventual
usurpação de competência do Tribunal do Júri e de risco de julgamento antecipado
do mérito da causa.
3. Habeas corpus denegado.
(HC 433.898/RS, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em
24/04/2018, DJe 11/05/2018).
__________________________
24 UNESCO. Igualdade de gênero. Disponível
em:https://www.unesco.org/pt/fieldoffice/brasilia/expertise/gender-equality. Acesso em: 26 fev 2026.
25 IBDFAM. Igualdade de gênero se torna um ideal ainda mais distante devido à pandemia.
Disponívelem:https://ibdfam.org.br/noticias/8348/Igualdade+de+g%C3%AAnero+se+torna+um+ideal+
ainda+mais+distante+devido+%C3%A0+pandemia. Acesso em: 20 fev. 2026.
No julgado acima demonstra que é possível o reconhecimento simultâneo
das qualificadoras do motivo torpe e do feminicídio, pois possuem naturezas
distintas (subjetiva e objetiva)26.
Conforme determina o art. 121, § 2º-A, I, do CP, a qualificadora do
feminicídio deve ser reconhecida nos casos em que o delito é cometido em face de
mulher em violência doméstica e familiar. Assim, "considerando as circunstâncias
subjetivas e objetivas, temos a possibilidade de coexistência entre as qualificadoras
do motivo torpe e do feminicídio. Isso porque a natureza do motivo torpe é subjetiva,
porquanto de caráter pessoal, enquanto o feminicídio possui natureza objetiva, pois
incide nos crimes praticados contra a mulher por razão do seu gênero feminino e/ou
sempre que o crime estiver atrelado à violência doméstica e familiar propriamente
dita, assim o ‘animus’ do agente não é objeto de análise, conforme HC 433.898-RS
do STJ27.
Conforme entendimento de Oliveira e Barros Filho J, o STJ, em diversas
decisões recentes, tem reafirmado que o feminicídio é crimehediondo, submetido a
regime inicial fechado e vedação à graça, anistia e indulto (STJ, AgRg no HC
697.169/DF, Rel. Min. Ribeiro Dantas, j. 28/03/2023). Além disso, observa-se
crescente consolidação jurisprudencial no sentido de reconhecer a motivação de
gênero em situações que envolvem relações afetivas, contextos domésticos e
práticas discriminatórias explícitas. Em diversos acórdãos, os tribunais têm
enfatizado que a prova da motivação de gênero não exige confissão ou declaração
explícita do agente, podendo ser inferida das circunstâncias do crime, da relação
entre autor e vítima e de elementos de contexto28.
__________________________
26 Motivo torpe e feminicídio: inexistência de bis in idem. BUSCADOR DIZER O DIREITO.
Disponível em: https://buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/5679/motivo-torpe-e-feminicidio-
inexistencia-de-bis-in-idem. Acesso em: 11 mar 2026.
27 DAMÁSIO. Concurso das qualificadoras motivo torpe e feminicídio sem bis in idem no
homicídio. Disponível em:https://juris.damasio.com.br/jurisprudencia/julgado/625/concurso-das-
qualificadoras-motivo-torpe-e-feminicidio-sem-bis-in-idem-no-homicidio?utm_source=chatgpt.com.
Acesso em: 11 mar 2026.
28 Oliveira, M. de N. A. de, & Barros Filho, J. (2025). A EFETIVIDADE DA LEI N° 14.994/24 NO
COMBATE A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER. Revista Ibero-
Americana De Humanidades, Ciências E Educação, 11(11), 2005–2018.
https://doi.org/10.51891/rease.v11i11.21674. Acesso em: 11 mar 2026.
https://buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/5679/motivo-torpe-e-feminicidio-inexistencia-de-bis-in-idem.
https://buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/5679/motivo-torpe-e-feminicidio-inexistencia-de-bis-in-idem.
https://doi.org/10.51891/rease.v11i11.21674.
1.5 Legítima defesa da honra
O Supremo Tribunal Federal - STF, decidiu que a tese da legítima defesa da
honra, utilizada em processos criminais nos casos de feminicídio ou agressão contra
mulher, é inconstitucional, por violar os princípios da dignidade humana (art. 1°, III,
da CF/1988), da proteção à vida e da igualdade de gênero (art. 5°, caput, da
CF/1988). Caso essa tese seja utilizada, estará sob pena de nulidade.
A tese da legítima defesa da honra foi muito utilizada em casos de
feminicídio ou agressão contra mulher, como excludente de ilicitude, para justificar o
comportamento do acusado como ato socialmente aceitável. O argumento era de
que o assassinato ou a agressão de mulher eram justos quando a vítima tivesse
sido infiel ao parceiro, pois a conduta supostamente feriria a honra do agressor.
A aceitação da tese da legítima defesa da honra nos julgamentos gera
consequências negativas para as mulheres e a sociedade, pois oficializa a
desigualdade entre homens e mulheres, naturaliza e estimula a violência doméstica
contra a mulher e o feminicídio, e contribui para a impunidade do agressor, ou seja,
dá uma boa justificativa para cometer o crime.
Por essas razões, a defesa da honra é uma tese inconstitucional e não pode ser
usada pela defesa, pela acusação, pela autoridade policial e pelo próprio juízo, antes
ou durante o processo criminal. Qualquer referência a essa tese pode levar à
anulação das provas ou do julgamento, inclusive no Tribunal do Júri. É dever do
Estado exercer o controle mínimo da decisão do júri popular quando a conclusão se
der a partir de argumentação discriminatória, indigna e inconstitucional, como é o
caso da legítima defesa da honra.
Arguição de descumprimento de preceito fundamental - ADPF questiona a
constitucionalidade da tese de legítima defesa da honra do acusado como estratégia
de defesa, em casos de feminicídio ou agressões contra a mulher. A tese era
habitualmente usada para inocentar acusados de assassinato de mulheres no
Tribunal do Júri, onde os jurados não têm conhecimento técnico. São teses de
defesa que fere diretamente os direitos fundamentais e a desigualdade de gênero29.
________________________
29 STF. ADPF 779. Inconstitucionalidade da tese de legítima defesa da honra para crimes
contra a mulher. Disponível
em:https://www.stf.jus.br/arquivo/cms/publicacaoBOInternet/anexo/link_download/casos_relevantes/p
t/ADPF_779.pdf. Acesso em: 10 mar 2026.
2. ALTERAÇÕES NA LEI N° 14.994/2024
Neste Capítulo é abordado quais foram as alterações que a Lei N°
14.994/2024 trouxe na legislação.
2.1 Aumento de pena na Lei N°14.994/2024
A Lei nº 14.994/2024 foi uma mudança profunda no ordenamento jurídico do
feminicídio no Brasil, transformando-o de qualificadora do homicídio para crime
autônomo no Código Penal e estabelecendo penas significativamente mais severas.
A Lei nº 14.994/2024 aumentou a pena para crimes de feminicídio na qual passou a
ter mínimo de 20 anos e máximo de 40 anos de reclusão, diferente do regime
anterior, que dispunha de pena de 12 a 30 anos como qualificadora de homicídio
doloso. Houve a inclusão de agravantes específicos, como o cometimento durante
gestação ou na presença de familiares, que podem majorar a pena de um terço até
metade do total previsto na nova tipificação penal.
Do ponto de vista dogmático-penal, o aumento da pena para o feminicídio e
a sua inserção como artigo autônomo (art. 121-A) no Código Penal não apenas
reforçam a reprovação jurídica da conduta, mas também unifica critérios de
tipificação, além de facilitar a aplicação no sistema de justiça criminal. A inovação
normativa é analisada em obras e manuais atualizados que abordam
especificamente a implementação da Lei nº 14.994/2024, com enfoque nas causas
de aumento de pena e nas implicações processuais e substantivas para acusadores,
magistrados e operadores do Direito.
O Manual de Atuação do Ministério Público em Casos de Feminicídio
(CNMP, 2025), atualizado após a promulgação da lei, detalha tanto a nova previsão
do artigo 121-A do Código Penal quanto as circunstâncias normativas que podem
agravar a pena (como a condição física ou vulnerabilidade da vítima ou a utilização
de meios cruéis), enfatizando o caráter de maior severidade punitiva como forma de
respaldo institucional à proteção da mulher na esfera penal30. Autores criminalistas e
ao comentar a reforma, abordam que o endurecimento da pena deve ser
compreendido não apenas como expressão da repulsa social e jurídica á violência
_________________
30 BRASIL. Manual de Atuação do Ministério Público em Casos de Feminicídio: revisado,
ampliado e atualizado de acordo com a Lei nº 14.994/2024. Brasília: CNMP, 2025.
de gênero, mas também como um instrumento de valoração normativa, no qual a
pena maior atribui maior gravidade ao crime em virtude da violação de bens
jurídicos fundamentais, dentre eles: A dignidade da pessoa humana e a vida.
No entanto, alguns autores contemporâneos pontuam que, embora o
aumento de pena explicitado pela Lei nº 14.994/2024 reflita o compromisso do
ordenamento jurídico com a proteção das mulheres, sua eficácia prática depende
diretamente da efetividade das investigações, da celeridade processual e das
políticas públicas complementares.
Sob essa perspectiva Rafael Bruno Cassiani:
As medidas punitivas isoladas nem sempre se traduzem em redução de violência
sem um conjunto articulado de ações preventivas e sócio educativas. Assim, a
alteração legislativa que aumentou a pena do feminicídio encontra amparo técnico
não apenas na resposta punitiva do sistema penal, mas também no arcabouço
doutrinário que relaciona a gradação das penas à valoração dos bens jurídicos
violados, ressaltando a centralidade da proteção da vida e da igualdade de gênero no
direito penal contemporâneo31.
Conforme entendimento de Kleber Leandro Toledo Rodrigues o legislador
trouxe para o delito de feminicídio a maior pena máxima em abstrato registrada no
ordenamento jurídico penal brasileiro, o que revela a austeridade da violência de
gênero no contexto social contemporâneo. Outra mudança é a possibilidade da
execução provisória da pena para os indivíduos condenados pelo tribunal do júri
pelo crime de feminicídio, já que oSTF, quando do recente julgamento do RE
1235340, com repercussão geral (Tema 1068), julgou constitucional a execução
provisória da pena, face à soberania dos veredictos e, ainda, conferiu interpretação
conforme, com redução de texto, ao art. 492, I, e, do CPP, de modo que a execução
provisória mostra-se possível independente do quantum de pena aplicada. A tese de
repercussão geral fixada no dia 12 de setembro de 2024 foi no sentido de que: A
soberania dos veredictos do Tribunal do Júri autoriza a imediata execução de
condenação imposta pelo corpo de jurados, independentemente do total da pena
aplicada32.
___________________
31 CASSIANI, Rafael Bruno. “Ten Years of the Feminicide Law: A Critical Analysis”.Revista Ibérica
do Direito, 2025. p.12-15.
32 JUSBRASIL, RODRIGUES, Kleber Leandro Toledo. Considerações sobre a Lei 26 n.º
14.994/2024 - Pacote Antifeminicídio. Disponível
em:https://www.jusbrasil.com.br/artigos/consideracoes-sobre-a-lei-n-14994-2024-pacote-
antifeminicidio/2789677799. Acesso em: 27 fev 2026.
2.2 Eficácia do aumento de pena na Lei N°14.994/2024
A Lei nº 14.994/2024 promoveu relevante modificação no tratamento jurídico
do feminícidio, criando o art. 121-A do Código Penal e conferido maior autonomia
normativa ao delito. A eficácia jurídica de uma norma penal não se mede apenas
pelo conteúdo do texto legal, mas pelo impacto concreto que suas regras têm na
prevenção, repressão e redução de crimes — especialmente quando se trata de
violência de gênero.
Conforme entendimento de Guilherme de Souza Nucci:
A teoria geral das penas demonstra que o simples aumento quantitativo da pena não
é, por si só, garantia de redução efetiva da criminalidade”. Para o autor, a eficácia do
aumento das penas depende da efetividade das instituições estatais ou das ações
penais, da capacidade investigativa e da correta aplicação pelos operadores do
direito33.
Para Mirabete não se pode confundir severidade penal com eficácia
preventiva, são duas coisas diferentes, e não necessariamente estão conectadas,
as medidas punitivas apenas produzem os frutos esperados se acompanhadas de
políticas públicas articuladas de educação, proteção e fiscalização. Nesse sentido, o
aumento de pena no feminicídio pode ter forte valor simbólico, mas sua eficácia
prática requer sistemas de proteção integrados34.
Sob a perspectiva de Zaffaroni, Pierangeli e Delgado, apontam que a
eficácia de uma lei penal deve ser analisada segundo seus efeitos reais no
fenômeno criminal, considerando as taxas de condenação, a atuação policial e a
celeridade processual35. Assim, a eficácia da lei não pode ser discutida
isoladamente, mas em conjunto com dados empíricos e indicadores de investigação,
julgamento e condenação.
Para Almeida Filho ressalta que a penalização rigorosa pode não ser
suficiente para provocar uma queda estatística dos feminicídios enquanto
persistirem falhas sistemáticas nas instituições encarregadas de operacionalizar a
lei, e por não ser apenas um problemas do sistema legislativo, e sim um problema
socio cultural, e tradicional na educação brasileira36.
_______________________
33 NUCCI, Guilherme de Souza. Código Penal Comentado. 18. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2023.
34MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de Direito Penal – Parte Geral. São Paulo: Atlas, 2018.
35 ZAFFARONI, Eugenio Raúl; PIERANGELI, Andrés; DELGADO, Roxana. Tratado de Derecho
Penal – Parte General. Buenos Aires: Ediar, 2017.
36 ALMEIDA FILHO, João. Criminologia – Novas Perspectivas. Porto Alegre: Bookman, 2021.
A Eficácia normativa e a função da pena para César Roberto Bittencourt,
afirma que a pena tem três funções tradicionais — retribuição, prevenção geral e
prevenção especial — e que a eficácia de sua majoração deve ser aferida segundo
esses critérios, nas palavras fiéis do autor:
A punição deve, além de satisfazer o sentido de justiça retributiva, alcançar eficácia
preventiva geral, desacreditando a conduta criminosa perante a sociedade, e eficácia
preventiva especial, desencorajando o agente a reincidir no crime37.
A eficácia do aumento de pena no feminicídio não se restringe à punição em
si, mas à sua capacidade de induzir mudanças no comportamento social e
institucional, tanto em potenciais autores quanto em toda a sociedade, a efetividade
da penalização severa depende de um conjunto de medidas sociais e institucionais.
Para Jakobs, o sistema penal não age de forma isolada; a eficácia de uma
legislação penal mais rígida está vinculada à sua inserção em um sistema de ações
sociais que abordem as causas profundas da violência. Tal perspectiva mostra que
o aumento de pena para o feminicídio só é eficaz se integrado a medidas educativas
e preventivas38.
Diante da análise doutrinária, a eficácia do aumento de pena previsto na Lei
nº 14.994/2024 apresenta um grande valor simbólico e punitivo importante no
reconhecimento do feminicídio como crime autônomo e considerado um crime
gravíssimo no ordenamento jurídico brasileiro. Há Limitações práticas, na medida
em que sua eficácia depende de estrutura institucional, ou seja de polícias,
Ministério Público e Judiciário para investigação, celeridade e aplicação consistente.
Há Necessidade de políticas públicas correlatas, que abordem as causas sócio
econômicas e culturais da violência de gênero, conforme sustentado por diversas
correntes da criminologia e do direito penal contemporâneo.
As alterações da Lei n.º 14.994/2024, busca interferir diretamente em profundos
eixos do ciclo de violência de gênero, modificando tanto as estruturas de base do
enfrentamento, intensificando a política combativa já nos atos iniciais de ameaça,
bem como nos seus reflexos mais gravosos, que culminam na prática do feminicídio,
ceifando a vida de inúmeras mulheres. Contudo, poderia ter aproveitado para tornar
as medidas mais eficazes para o atingimento dos objetivos almejados.
________________
37 BITTENCOURT, César Roberto. Tratado de Direito Penal – Parte Geral. São Paulo: Saraiva,
2019.
38 JAKOBS, Günther. Direito Penal: Sistema de Sanções. Rio de Janeiro: Forense, 2016.
https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/2781459898/lei-14994-24
2.3 Crescimento do Feminicídio
Segundo o Fórum de Segurança Pública só em 2025, foram 1.568 mulheres
vítimas de feminicídio no Brasil, crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior.
Desde a tipificação da lei do feminicídio, em março de 2015, ao menos 13.703
mulheres já foram assassinadas por sua condição de ser mulher. Os dados refletem
a quantidade de boletins de ocorrência produzidos pelas Polícias Civis de todo o
país que assumiram essa tipificação, desde a criação da lei, há evidências de
aprimoramento progressivo na capacidade institucional de identificar e classificar
corretamente os casos de feminicídio que envolvem violência doméstica e familiar,
ainda que haja uma variável enorme entre os estados. O percentual de feminicídios
entre os homicídios dolosos femininos saltou de 9,4% em 2015 para 40,3% em
202439.
O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) distribuiu o inquérito sobre a
morte da policial militar Gisele Alves Santana para a Vara do Júri da Capital. Foi
classificado como homicídio, feminicídio, induzimento ao suicídio, entre
outros. Inicialmente, o caso foi reportado como suicídio. Gisele foi encontrada com
um tiro na cabeça, em 18 de fevereiro, no apartamento em que morava com o
marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto. Ele estava no local, chamou
socorro e reportou o caso às autoridades como suicídio. Posteriormente, o registro
foi alterado para morte suspeita, este é um caso de feminicídio institucional 40.
O caso do STF – HC 144.888/DF no ano de 2017, na qual o Supremo
reconheceu que o feminicídio qualifica o homicídio mesmo quando a motivação
envolve relações de poder e controle, não apenas violência doméstica. Sob essa
perspectiva Bitencourt houve a ampliação da interpretação da qualificadora. Há
apontamentos que a decisão fortalece a compreensão do feminicídio como crime demotivação estrutural41.
___________________
39 FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, RETRATO DOS FEMINICÍDIOS NO BRASIL.
Disponível em:https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/03/nota-tecnica-dia-mulher-
2026.pdf. Acesso em: 11 mar 2026.
40 ARAUJO, Renata; TELES, Cristina. Violência de Gênero e Sistema de Justiça. São Paulo: Atlas,
2021. pp. 77–82.
41 BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal, vol. II. São Paulo: Saraiva, 2016. pp.
173–174.
2.3.1 Estatística do feminicídio no Mundo
O site da Nações Unidas Brasil, marcando o Dia Internacional pela
Eliminação da Violência contra as Mulheres, o Femicide Brief 2025 do Escritório das
Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e da ONU Mulheres confirma que o
feminicídio continua tirando a vida de dezenas de milhares de mulheres e meninas
em todo o mundo, sem sinais de progresso real, são 83 mil mulheres e meninas
foram mortas intencionalmente no último ano. Sessenta por cento — ou 50 mil —
foram mortas por parceiros íntimos ou membros da família. Isso significa que uma
mulher ou menina é morta por um parceiro ou familiar quase a cada 10 minutos. Em
contraste, apenas 11% dos homicídios de homens foram perpetrados por parceiros
íntimos ou familiares no mesmo ano.
“O lar continua sendo um lugar perigoso e, às vezes, letal para muitas mulheres e
meninas ao redor do mundo. O ‘Femicide Brief 2025’ é um lembrete contundente da
necessidade de melhores estratégias de prevenção e respostas da justiça criminal ao
feminicídio — respostas que considerem as condições que propagam essa forma
extrema de violência”, afirmou o diretor executivo do UNODC, John Brandolino.
Os Feminicídios não acontecem isoladamente. Eles fazem parte de um ciclo
contínuo de violência que se inicia com comportamentos controladores, ameaças e
assédio, inclusive online”, disse a diretora da Divisão de Políticas da ONU Mulheres,
Sarah Hendriks.
No mundo todo são 50.000 mulheres e meninas foram mortas por seus
parceiros íntimos ou outros membros da família durante 2024. Menor que a
estimativa de 2023 de 51.100 vítimas, essa mudança não indica uma diminuição
real, pois deve-se em grande parte às diferenças na disponibilidade de dados em
nível nacional.² O número de 2024 significa que 60% das 83.000 mulheres e
meninas mortas intencionalmente durante o ano foram assassinadas por seus
parceiros íntimos ou outros membros da família. Em outras palavras, uma média de
137 mulheres e meninas em todo o mundo perderam suas vidas todos os dias nas
mãos de seus parceiros ou parentes próximos42.
_______________________
42 NAÇOES UNIDAS BRASIL. ONU: 137 mulheres e meninas são mortas todos os dias por
parceiros íntimos ou familiares. Disponível em:https://brasil.un.org/pt-br/305981-onu-137-
mulheres-e-meninas-s%C3%A3o-mortas-todos-os-dias-por-parceiros-%C3%ADntimos-ou-familiares.
Acesso em: 21 fev 2026.
https://www.unodc.org/cofrb/uploads/documents/Publicacoes_Globais/Femicide_Brief_2025.pdf
Ilustração 1: Estimativas regionais
Fonte: United Nations, office on drugs and crimes, feminicides in 2024.
Na ilustração acima é abordado as mulheres e meninas em todas as
regiões que são afetadas por assassinatos relacionados ao gênero. Em 2024, a
África foi a região com o maior número absoluto de mortes e com o nível mais
elevado de violência em relação ao tamanho de sua população feminina. Total de
feminicídios cometidos por parceiro íntimo/membro da família.
Essa forma extrema de violência de gênero continua afetando mulheres e
meninas no mundo todo, sem exceção. Com uma estimativa de 22.600 vítimas de
feminicídio por parceiro íntimo/membro da família em 2024, a África é a região com
o maior número de vítimas em termos agregados, embora esse número apresente
um grau de incerteza devido à falta de dados disponíveis na região. Além disso, a
África continua a representar o maior número de vítimas de feminicídio por parceiro
íntimo/familiar em relação ao tamanho de sua população feminina (3 vítimas por
100.000 em 2024). As Américas e a Oceania também registraram altas taxas de
feminicídio por parceiro íntimo/familiar em 2024, com 1,5 e 1,4 por 100.000,
respectivamente, enquanto as taxas foram significativamente menores na Ásia e na
Europa, com 0,7 e 0,5 por 100.000.
Além do assassinato de mulheres e meninas por parceiros íntimos ou outros
membros da família, existem outras formas de feminicídio. Nos últimos anos, vários
países começaram a quantificar essas outras formas de feminicídio por meio da
implementação do Quadro Estatístico para Medição do Assassinato de Mulheres e
Meninas por Motivos de Gênero (também denominado “feminicídio”), desenvolvido
em conjunto pelo UNODC e pela ONU Mulheres. Entretanto, a disponibilidade de
dados sobre feminicídio perpetrado fora da esfera privada continua muito limitada e
ainda não é possível avaliar com precisão a dimensão deste tipo de feminicídio a
nível regional ou global.
A insuficiência de dados em outras regiões, e as tendências culturais e a
normalziação do feminicídio por parceiro íntimo/familiar gera um aumento
anualmente. Nas Américas, a taxa manteve-se relativamente estável entre 2010 e
2024. Na Europa, diminuiu lenta mas constantemente durante o mesmo período,
impulsionada por tendências decrescentes em países do Norte, Leste e Sul da
Europa.
O homicídio intencional de mulheres na esfera privada na Europa e nas
Américas é, em grande parte, cometido por parceiros íntimos. De todas as mulheres
mortas por parceiros íntimos ou outros familiares nessas duas regiões em 2024,
64% foram assassinadas pelos seus parceiros íntimos na Europa e 69% nas
Américas. Isto enfatiza a necessidade de garantir que a prevenção da violência
doméstica aborde os relacionamentos íntimos, bem como os contextos familiares
mais amplos onde as mulheres correm maior risco43.
_______________________
43 NAÇOES UNIDAS BRASIL. ONU: 137 mulheres e meninas são mortas todos os dias por
parceiros íntimos ou familiares. Disponível em:https://brasil.un.org/pt-br/305981-onu-137-
mulheres-e-meninas-s%C3%A3o-mortas-todos-os-dias-por-parceiros-%C3%ADntimos-ou-familiares.
Acesso em: 21 fev 2026.
Mesmo que muitos países divulguem regularmente dados sobre feminicídios
cometidos por parceiros íntimos/familiares, poucos conseguem produzir dados
sobre formas de feminicídio cometidas fora da esfera doméstica, em conformidade
com o Quadro Estatístico. Este relatório, portanto, é baseado nos dois primeiros
blocos de dados do Quadro Estatístico sobre feminicídios cometidos por parceiros
íntimos e outros familiares.
2.3.2 Estatística do feminicídio no Brasil
Segundo Números oficiais do governo de estatísticas de violência contra a
mulher:
Só para ilustrar os números absurdos de feminicídios no país, apenas no Estado de
São Paulo, de janeiro a novembro de 2019, foram registrados 155 casos, valendo
lembrar que são somente aqueles cujos boletins de ocorrência mencionaram a
circunstância da violência de gênero, havendo a probabilidade de existir
subnotificação ou cifra negra pelo registro de mortes de mulheres como homicídio.44
Conforme menciona o autor Nestor Sampaio Penteado Filho, Os dados
estatísticos revelam que a causa da morte na imensa maioria dos feminicídios é
decorrente de lesões por arma de fogo. Em muitos casos há outros métodos que
exigem contato direto do agressor com a vítima, como o uso de objetos cortantes
(faca, estiletes etc.), perfurantes (punhal, picador de gelo, tesoura etc.),
contundentes (pedra, pedaço de madeira, cano etc.) e sufocação (esganadura com
as mãos, pés, joelhos no pescoço da vítima, uso de travesseiros para impedir a
respiração etc.), para consecução do delito. Muitas vezes o contato direto do
agressor com a vítima vem aliado a torturas precedentes, lesões nos órgãos
genitais, estupro e lesões faciais, indicadores de crime passional, além de tortura
psicológica, moral ou financeira. Não é incomum o agressor alegar que a vítima seja
culpada de sua morte, quer implicando com a forma pelaqual ela se veste, quer
pela sua postura de mulher independente ou ainda por negar-lhe uma nova chance
em reatar a relação de matrimônio, namoro etc45.
_____________________
44 Fonte: CAP/SSP/SP. Disponível em: .
Acesso em: 29 ago. 2025.
45FILHO, Nestor Sampaio Penteado. GIMENES, Eron Veríssimo. CRMINOLOGIA. Ed 14. Saraiva
Jur. São Paulo. 2023.
Ilustração 2: Série histórica, vítimas de feminicídio de 2015 a 2025
Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública; Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2026.
A análise da série recente reforça esse cenário. Nos últimos cinco anos,
houve um crescimento de 14,5% nos registros de feminicídios no país. Entre 2021 e
2022, o aumento foi de 7,6%. Na sequência, entre 2022 e 2023 e entre 2023 e 2024
o crescimento arrefeceu, ficando na ordem de 1% ao ano46.
Ilustração 3: Feminicídios no Brasil em 10 anos
Fonte: Ministério da Justiça e Segurança Pública
________________________
46 FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, RETRATO DOS FEMINICÍDIOS NO BRASIL.
Disponível em:https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/03/nota-tecnica-dia-mulher-
2026.pdf. Acesso em: 11 mar 2026.
3. A INEFICÁCIA DA LEI N°13.104/2015
Neste Capítulo é abordado a ineficácia da Lei N°13.104/2015, quais as
políticas públicas de prevenção, política criminal de prevenção.
3.1 Políticas públicas de prevenção
Sob essa perspectiva Nestor Sampaio Penteado Filho e Eron Veríssimo
Gimenes, A violência contra as mulheres traz danos irreparáveis a elas e a suas
famílias, necessitando ser combatida pelo Estado e pela sociedade por intermédio
de ações multifacetadas, incluindo-se aí programas educacionais e de trabalho que
revelem a igualdade e importância das mulheres; acesso a mecanismos rápidos de
proteção em face de agressores; punição rápida e rigorosa de agressores, com
obrigação de prestação de serviços à comunidade depois do cumprimento da pena
privativa de liberdade etc47.
O Observatório Brasil da Igualdade de Gênero foi lançado em 08 de março de
2009, como resultado do processo de institucionalização e aprimoramento das
políticas para as mulheres no Brasil. É um mecanismo estratégico para subsidiar a
formulação e implementação das políticas públicas para as mulheres no Brasil e
para o acompanhamento dos indicadores de desigualdades de gênero e dos direitos
das mulheres. Editada pelo Ministério das Mulheres, foi publicada, em 20 de
dezembro, a Portaria nº 29, de 2023, na edição nº 241 do Diário Oficial da União. A
Portaria dispõe sobre o Observatório Brasil da Igualdade de Gênero e o oficializa
como órgão permanente no âmbito do Ministério das Mulheres e mecanismo
institucional gestor de dados e informações. As atividades do Observatório são
coordenadas pela Secretaria Executiva48.
A Lei nº 14.786 cria o protocolo “Não é Não”, para prevenção ao
constrangimento e à violência contra a mulher e para proteção à vítima em boates,
casas noturnas e de espetáculos. A norma foi assinada pela ministra das Mulheres,
Cida Gonçalves, pelo ministro da Educação, Camilo Santana, e pelo ministro
substituto da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Cappelli.O Painel de Indicadores
do Observatório Brasil da Igualdade de Gênero é uma ferramenta para
acompanhamento de temas de grande interesse no campo das políticas para
mulheres. Na página Autonomia econômica e igualdade no mundo do trabalho, o
painel apresenta indicadores de acesso e condições das mulheres no mundo do
https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-329-de-19-de-dezembro-de-2023-532160805
trabalho.
Em parceria com o Observatório Nacional de Mulheres na Política
(ONMP), o Observatório Brasil da Igualdade de Gênero irá elaborar, em 2024, uma
série de publicações temáticas para apresentar dados e informações, em diversos
formatos, com o objetivo de avaliar os cenários do ano eleitoral no Brasil, além de
proporcionar a discussão na perspectiva histórica. Haverá produção de conteúdo
em parceria em artigos, matérias, notas técnicas e material para redes sociais, além
de pautas para discussão e propostas específicas para mídia. O Observatório Brasil
da Igualdade de Gênero disponibiliza no Painel de Indicadores, de modo ágil,
dinâmico e amigável, um retrato da realidade das mulheres no País. Isso é feito por
meio de indicadores de desigualdade de gênero apresentados na forma de gráficos
e tabelas. A página Mulheres em espaços de poder e decisão fornece informações
sobre candidatas e candidatos a cargos eletivos e sobre eleitas e eleitos, por cor ou
raça, nas eleições de 2018 e de 2022. Observatório Nacional de Mulheres na
Política é vinculado à Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados e foi criado
para monitorar indicadores e centralizar estudos sobre a atuação política de
mulheres em âmbito federal, estadual e municipal.
O ONMP, por sua vez, mantém um Sistema de Monitoramento sobre
Mulheres e Eleições, que permite monitorar e analisar dados como gênero cor ou
raça, idade, grau de instrução, profissão e estado civil, entre outros, a partir de
dados abertos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Pesquisadores e profissionais
da área das Ciências Sociais e Políticas, jornalistas, assessores (as), consultores
(as) e classe política têm acesso direto a indicadores sobre as eleições, com recorte
de gênero, além de informações sobre normas eleitorais, candidaturas, novos
modelos partidários (Federação) e ranking dos partidos, conforme percentual de
candidatas inscritas. Inclui dados atualizados desde as eleições de 200249.
___________________
47 FILHO, Nestor Sampaio Penteado. GIMENES, Eron Veríssimo. CRMINOLOGIA. Ed 14. Saraiva
Jur. São Paulo. 2023.
48 GOV.BR.Ministério das Mulheres. Disponível em:https://www.gov.br/mulheres/pt-br/observatorio-
brasil-da-igualdade-de-genero. Acesso em: 27 fev 2026.
49 BOLETIM Observa Gênero A IMPORTÂNCIA DOS INDICADORES NO CENÁRIO DAS
MULHERES NO PODER. Disponível em:https://www.gov.br/mulheres/pt-br/observatorio-brasil-da-
igualdade-de-genero/boletim/BoletimObservaGneroJanFev2024.pdf. Acesso em: 27 fev 2026.
3.1.1 Política criminal de prevenção
A política criminal pode ser definida como o conjunto de estratégias,
diretrizes e escolhas adotadas pelo Estado para prevenir, controlar e reagir ao
fenômeno da criminalidade. Ela não se limita à criação de leis penais, mas envolve
decisões sobre punição, prevenção, execução penal e prioridades institucionais.
A inclusão da violência de gênero como tema central da política criminal
brasileira resulta de reivindicações sociais legítimas, especialmente provenientes de
movimentos feministas e de organismos internacionais voltados à proteção dos
direitos humanos. Episódios de grande repercussão, intensa exposição na mídia e
estatísticas preocupantes contribuíram para a adoção de medidas legislativas
céleres. O Estado passou a demonstrar, de forma expressa, que a violência contra a
mulher não seria mais admitida, valendo-se do Direito Penal como instrumento
simbólico de máxima censura institucional. A tipificação do feminicídio,
primeiramente como qualificadora do homicídio e, posteriormente, como crime
autônomo, integra esse processo de resposta normativa às demandas sociais por
maior proteção.
A transformação do feminicídio em tipo penal independente, ao lhe conferir
posição de maior destaque no sistema jurídico, evidencia sua relevância no âmbito
da política criminal nacional. Enquanto categoria penal específica, o feminicídio
desempenha diversas funções na política criminal. Além de viabilizar a
responsabilização do autor, contribui para dar visibilidade à violência de gênero,
orientar a atuação dos órgãos do sistema de justiça e reafirmar o compromisso
estatal com a tutela dos direitos das mulheres. Contudo, sob uma abordagem crítica,
observa-se que a tipificação também pode assumir caráter predominantemente
simbólico, transmitindo a imagem de rigor estatal sem, necessariamente, gerar
resultados concretos na diminuiçãoda violência letal.
Entre as justificativas frequentemente apresentadas para a criação e
posterior autonomização do feminicídio. À luz da teoria da prevenção geral, o
legislador aposta na dissuasão do potencial agressor pela imposição de sanção
mais gravosa50.
__________________
50 SILVA, Norma. Feminicídio e Política Criminal: Proteção da Mulher e Limites Penais. Disponível
em: https://jurismenteaberta.com.br/feminicidio-e-politica-criminal-protecao-da-mulher-e-limites-
penais/. Acesso em: 28 fev 2026.
https://jurismenteaberta.com.br/feminicidio-e-politica-criminal-protecao-da-mulher-e-limites-penais/.
https://jurismenteaberta.com.br/feminicidio-e-politica-criminal-protecao-da-mulher-e-limites-penais/.
Sob essa perspectiva Nucci leciona que na Áustria, Polônia, Espanha,
Suécia, Inglaterra e Gales, desenvolveram-se programas em prisões para homens
que tenham incorrido em violência de gênero, mediante intervenções psicológicas
ou educativas. Esses programas podem caracterizar-se pelos seguintes núcleos
comuns: centram-se especificamente na violência contra mulheres, com a finalidade
de prevenir os homens de exercê-la no futuro; os participantes são homens que
tenham perpetrado violência de gênero, e os programas são realizados
preferencialmente em grupos, sem prejuízo de que em alguns casos esteja
disponível, ademais, a assistência individual.” Na América Latina, tipificaram o delito
de feminicídio, além do Brasil em época recente, México (2007), Guatemala (2008),
El Salvador (2010), Honduras (2013), Nicarágua (2012), Panamá (2013), Costa Rica
(2007), Equador (2014), Peru (2011), Chile (2010) e Bolívia (2013)51.
As políticas criminais, tais como a tipificação de crimes de violência de
gênero e a criação de redes de proteção às vítimas, têm se mostrado essenciais,
mas ainda enfrentam desafios estruturais, que se manifestam na falta de recursos,
na impunidade e, especialmente, no preconceito enraizado no sistema de justiça e
na própria sociedade. Neste cenário, embora muito se tenha avançado, a deficiência
do sistema de enfrentamento à violência de gênero é latente, o que se extrai dos
numerários de ocorrência criminais registradas envolvendo delitos de gêneros que,
no que toca do feminicídio, por exemplo, registrou a sua maior taxa no ano de 2023,
desde o advento da Lei n.º 13.104/2015, que criminalizou a conduta, registrando
1.467 (mil quatrocentos e sessenta e sete) mortes por razões de gênero52.
Entretanto, a criminologia crítica sustenta que delitos praticados no contexto de
violência doméstica e vínculos afetivos dificilmente decorrem de um cálculo racional
acerca das consequências penais.
______________________
51 NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de Direito Penal – Vol 2. Gen Editora Forense. Rio de
Janeiro. 2024. APUD GUSTAVO A. AROCENA e JOSÉ D. CESANO, El delito de femicidio, p. 46,
traduzimos.
52 JUSBRASIL, RODRIGUES, Kleber Leandro Toledo. Considerações sobre a Lei 26 n.º
14.994/2024 - Pacote Antifeminicídio. Disponível
em:https://www.jusbrasil.com.br/artigos/consideracoes-sobre-a-lei-n-14994-2024-pacote-
antifeminicidio/2789677799. Acesso em: 27 fev 2026.
https://www.jusbrasil.com.br/legislacao/172426221/lei-13104-15
3.2 Política cultural de prevenção ao feminicídio
Sob essa perspectiva Nestor Sampaio Penteado Filho e Eron Veríssimo
Gimenes, os fatores comunitários que é os fatores culturais e social que influencia
diretamente a violência contra a mulher se relacionam a pobreza, desemprego,
associação a delinquentes, isolamento da mulher etc. Por seu turno, os fatores
sociais se ligam à praxe cultural de submissão da mulher ao poder do homem
(sociedade machista), à crença da utilização da violência como forma de resolução
de conflitos (“o homem não precisa saber porque está batendo na mulher, porque
ela sabe porque está apanhando”), à padronização e ao estereótipo da
masculinidade, vinculados à dominação da mulher, inclusive nas manifestações
culturais e na música, em que a mulher é reduzida a objeto sexual etc53.
As mulheres compreendem um grupo mais vulnerável à violência
doméstica por lamentáveis e malsinadas razões culturais e até jurídicas, porque o
Estado quase sempre não se importava em adequar sua legislação para preservar
os direitos humanos das mulheres. Somente depois da democratização do Brasil e
do advento da Constituição Federal de 1988 - CF/88, com o país assinando tratados
internacionais sobre direitos humanos, é que se manejou o ordenamento jurídico
nacional com vistas à maior tutela das mulheres.
Conforme menciona Guilherme de Souza Nucci:
Culturalmente, em várias partes do mundo, a mulher é inferiorizada sob diversos
prismas. Pior, quando é violentada e até mesmo morta, em razão de costumes,
tradições ou regras questionáveis sob a aura dos direitos humanos fundamentais. No
Brasil, verificou-se (e ainda se constata) uma subjugação da mulher no nível cultural,
que resvala em costumes e tradições.
Sob essa perspectiva o autor leciona que o feminicídio consiste em: Matar a
mulher por razões advindas da condição de sexo feminino. Matar o mais fraco, algo
francamente objetivo. O homem mata ou lesiona a mulher porque se sente (e é, na
maioria imensa dos casos) mais forte54.
___________________________
53 FILHO, Nestor Sampaio Penteado. GIMENES, Eron Veríssimo. CRMINOLOGIA. Ed 14. Saraiva
Jur. São Paulo. 2023.
54 NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de Direito Penal – Vol 2. Gen Editora Forense. Rio de
Janeiro. 2024.
O autor enfatiza que o seu motivo não é esse: mata porque acha que ela o
traiu; mata porque quer se livrar do relacionamento; mata porque é extremamente
ciumento; mata até porque foi injustamente provocado. O agente pode ser outra
mulher, num relacionamento homossexual; ao matar a outra mulher, porque ela é a
parte fraca da relação, também responde por feminicídio. Observe-se que, nessa
hipótese, a mulher mais forte, que mata a mais fraca, não o faz porque ela é do
sexo feminino, mas porque tem ciúme e o relacionamento deteriorou-se (por
exemplo). Assim, a qualificadora “contra a mulher por razões de condição de sexo
feminino” é o fiel espelho, em continuidade, da Lei Maria da Penha55.
3.3 Feminicídio e falha estatal
A análise do feminicídio no contexto brasileiro revela a maior parte dos
casos que é precedida por um histórico reiterado de violência doméstica e familiar,
essa violência pode ser carcterizada por violência psicológica, moral, financeira e
sexual, isso demonstra a previsibilidade do resultado letal e impõe ao Estado um
dever reforçado de prevenção de tutelar a vida da mulher.
Sob essa perspectiva Soraia da Rosa Mendes: O feminicídio raramente
constitui um ato isolado, mas representa o ápice de um ciclo progressivo de
violências já identificáveis pelo sistema de justiça. A autora destaca que o histórico
de agressões anteriores funciona como sinal inequívoco de risco elevado56.
No mesmo sentido, Alice Bianchini afirma que a violência doméstica
apresenta caráter escalonado, sendo comum a existência de boletins de ocorrência
e pedidos de medidas protetivas antes do homicídio consumado, porém a eficácia
das medidas protetivas são altas, pois dificilmente são cumpridas, mesmo com a
tipificação em caso de descumprimento de medidas protetivas de urgência57, no
Artigo 24-A da Lei Maria da Penha (Lei 13.641/2018), com pena de 3 meses a 2
anos de detenção. A violação autoriza prisão em flagrante e decretação de prisão
preventiva. A denúncia deve ser feita imediatamente à polícia ou pelo 190.
_______________________________
55 NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de Direito Penal – Vol 2. Gen Editora Forense. Rio de
Janeiro. 2024.
56 MENDES, Feminicídio: Uma Análise Jurídico-Feminista, 2017, p. 85-90.
57 BIANCHINI, Lei Maria da Penha: Aspectos Jurídicos e Práticos, 2022, p. 210-215.
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