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GINECOLOGIA PRESCRIÇÃO DE CONTRACEPTIVOS sanarsaude.com PRESCRIÇÃO DE CONTRACEPTIVOS 1. Introdução ..........................................................................................................4 2. Gestação não planejada .....................................................................................4 3. Prescrição ..........................................................................................................6 4. Eficácia e Segurança ..........................................................................................6 5. Classificação ......................................................................................................6 5.1. Não hormonais ...................................................................................................... 7 5.2. Hormonais ............................................................................................................. 9 5.3. Cirúrgicos ............................................................................................................. 14 6. Critérios de Elegibilidade ..................................................................................16 7. Nomes Comerciais dos Contraceptivos Hormonais ..........................................16 7.1. Anticoncepcionais combinados orais ............................................................... 16 7.2. Injetável mensal (combinado) ............................................................................ 17 7.3. Anel vaginal ......................................................................................................... 17 7.4. Adesivo transdérmico ......................................................................................... 17 7.5. Pílulas de progestagênio isolado ....................................................................... 17 7.6. Injetável trimestral ............................................................................................... 17 7.7. Implante subdérmico .......................................................................................... 17 7.8. Sistema intrauterino de levonorgestrel .............................................................. 17 8. Fluxogramas ....................................................................................................17 Referências ........................................................................................................................20 3 PRESCRIÇÃO DE CONTRACEPTIVOS Dra. Carla Zucchi 1. INTRODUÇÃO O planejamento familiar inclui uma diversidade de práticas e informações fundamentais para que indivíduos ou casais façam escolhas conscientes e livres sobre o número de filhos que desejam ter e o momento mais apropriado para isso. Essa decisão é tomada com base em fatores de saúde, sociais e econômicos. Os direitos sexuais e reprodutivos de meninas e mulhe- res são uma parte essencial dos direitos humanos e visam assegurar que todas as pessoas possam tomar decisões informadas e autônomas sobre sua vida sexual e reprodutiva, incluindo o planejamento familiar. Além disso, a Constituição Federal do Brasil de 1988, no Artigo 226, parágrafo 7º, afirma que é garantido a todos o livre planejamento familiar, tendo a assistência com caráter prioritário, cabendo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas. Primeiramente, a educação sobre métodos contracep- tivos é central no planejamento familiar. Isso envolve não apenas o conhecimento das várias opções, mas também como usá-las efetivamente. O acesso a recursos de saúde sexual e reprodutiva assegura que os indivíduos possam obter informações e serviços necessários para implementar suas escolhas de maneira segura e eficaz. Além disso, o planejamento familiar também foca no apoio a decisões informadas sobre concepção e saúde reprodutiva, promovendo assim uma melhor qualidade de vida para pais e filhos. Este aspecto do planejamento visa garantir que todos os envolvidos exerçam plenamente seus direitos reprodutivos. Na prática médica, a prescrição de métodos contracepti- vos deve priorizar o método escolhido pela paciente, sempre respeitando os critérios de elegibilidade da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Centro de Controle de Doen- ças (CDC). Para recomendar o método mais adequado, é essencial que o médico esteja bem informado sobre todas as opções disponíveis e suas respectivas classificações. O processo de seleção do método contraceptivo ideal deve considerar fatores como custo, acessibilidade e possibilidade de continuidade do uso. Outro aspecto crucial é a eficácia de cada método, que deve ser claramente comunicada à paciente, juntamente com informações sobre a segurança, baseadas na história clínica, antecedentes e exame físico individual de cada mulher. Essa abordagem personalizada assegura que cada paciente receba o método mais com- patível com suas necessidades e circunstâncias de vida. Ao prescrever métodos contraceptivos, é indispensável enfatizar a importância da prevenção de infecções sexual- mente transmissíveis (IST). Embora muitos contraceptivos eficazes previnam a gravidez, poucos protegem contra IST. Portanto, é essencial aconselhar os pacientes sobre o uso concomitante de preservativos, que são a única forma de contracepção que também protege contra essas infecções. Esta abordagem ajuda a garantir que a saúde sexual seja tratada de forma abrangente, abordando tanto a prevenção da gravidez indesejada quanto a proteção contra IST, o que é vital para a saúde e o bem-estar geral dos indivíduos. Além disso, educar os pacientes sobre os sinais e sintomas das IST e a importância de testes regulares pode contribuir sig- nificativamente para detectar e tratar precocemente essas infecções, reduzindo riscos de complicações e transmissão. 2. GESTAÇÃO NÃO PLANEJADA O planejamento familiar e a contracepção são temas prioritários tanto para a OMS quanto para o Ministério da Saúde, em aspectos econômicos e sociais. Esses esforços são particularmente importantes para apoiar mulheres em situação de vulnerabilidade, ajudando a diminuir a incidência de gestações não planejadas. No Brasil, cerca de 55% das gestações não são plane- jadas, muitas vezes devido à ausência ou uso incorreto de métodos contraceptivos e falta de informação. Na adolescência, é essencial disponibilizar métodos contraceptivos, mesmo para aqueles cuja vida sexual se inicia antes dos 14 anos. Em vez de focar exclusivamente na abstinência sexual, a ênfase deve ser dada a métodos com alta efetividade como por exemplo os LARCs (contra- ceptivos reversíveis de longa duração), que oferecem uma proteção eficaz e prolongada. Ginecologia 4 Figura 01. Prevenção da Gravidez na Adolescência. Fonte: Acervo Sanar Ginecologia 5 O período pós-parto representa uma valiosa oportuni- dade para apoiar mulheres motivadas a utilizar métodos contraceptivos. Essa prática ajuda a aumentar o intervalo interpartal para mais de 18 meses, o que, por sua vez, reduz os riscos de baixo peso ao nascer, prematuridade e morta- lidade infantil, entre outros problemas. 3. PRESCRIÇÃO A prescrição de contraceptivos no Brasil é feita por profissionais da saúde. Durante a consulta, é importante realizar uma anamnese detalhada para identificar possíveis contraindicações e fatores de risco relacionados ao uso de contraceptivos hormonais. Da mesma forma, deve-se executar um exame físico para detectar sinais que possam impactar a escolha do método mais adequado. Por exemplo, a medição da pressão arterial é essencial, especialmente em pacientes que receberão contraceptivos combinados. O exame ginecológico é necessário para mulheres que optam pelo DIU, com o objetivo de excluir a presença de cervicite e outras lesões que possam contraindicar o uso do dispositivo. A seleção de um método contraceptivo deve seRisk and Economic Assessment of Thrombophilia Screening (TREATS) study. Health Technol Assess. 2006; 10(11): 1-110. 34. Nguyen AT, Curtis KM, Tepper NK, et al. U.S. Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use, 2024. MMWR Recomm Rep 2024;73(No. RR-4):1–126. 35. Benefits and risks of sterilization. ACOG Practice Bulletin No. 208. American College of Obstetricians and Gynecologists. Obstet Gynecol 2019:133:e194–207. 36. Allen, R. H., & Schreiber, C. A. (2025). Contraceptivos orais combina- dos de estrogênio- progesterona: seleção, aconselhamento e uso de pacientes. UpToDate. Retrieved March 28, 2025, from https://www. uptodate.com/contents/combined-estrogen-progestin-oral-contra- ceptives-patient-selection-counseling-and-useconcentrar na autonomia individual durante o processo de decisão. É fundamental que as pessoas tenham acesso igualitário a todos os métodos contraceptivos disponíveis e que os servi- ços sejam oferecidos de forma não coercitiva, respeitando os valores, objetivos e autonomia reprodutiva de cada indivíduo. Esse processo deve ocorrer por meio de uma decisão compartilhada entre a pessoa e o profissional de saúde. Os profissionais precisam considerar não somente os aspectos clínicos, mas os aspectos sociais únicos de cada pessoa que busca contracepção e discutir suas aspirações reprodutivas, expectativas, preferências e prioridades. Outros fatores podem ser considerados ao escolher um método contraceptivo, incluindo sua segurança, eficá- cia, disponibilidade (como acessibilidade e custo), efeitos colaterais, controle pelo usuário, reversibilidade e facilidade de interrupção. Além disso, devem ser levados em conta os riscos de saúde relacionados à gravidez e o acesso a serviços abrangentes de saúde durante essas discussões. Uma abordagem centrada no indivíduo para decisões contraceptivas coloca as preferências e a autonomia repro- dutiva em primeiro lugar, em vez de se concentrar apenas na prevenção da gravidez, e respeita a pessoa como principal tomadora de decisões, inclusive se optar por não usar con- tracepção ou interromper um método. A escolha informada e voluntária é um princípio essencial. Práticas coercitivas podem surgir de preconceitos pro- fissionais em relação a certos métodos, falta de aconse- lhamento centrado no paciente e políticas que incentivam métodos específicos. Os profissionais e suas instituições devem reconhecer e enfrentar os sistemas que mantêm desigualdades, buscando mitigar impactos negativos. Temos como exemplo o histórico de coerção contraceptiva nos Estados Unidos, principalmente em comunidades margi- nalizadas, incluindo violações dos direitos humanos, como a esterilização forçada. Portanto, a escolha do método contraceptivo deve ser centrada na pessoa, embasada em informações precisas e completas sobre as opções disponíveis, considerando a saúde, preferências, valores e objetivos reprodutivos do indivíduo, realizada em um ambiente de respeito e sem coerção, com o suporte do profissional de saúde para assegurar a segurança e adequação médica do método selecionado. 4. EFICÁCIA E SEGURANÇA A eficácia de um método contraceptivo refere-se à sua capacidade de proteger contra uma gravidez não planejada. Essa eficácia é frequentemente avaliada por meio do índice de Pearl, uma medida que expressa a taxa de falhas do método contraceptivo ao longo de um ano de uso. O índice é calculado com base no número de gravidezes que ocorrem em 100 mulheres que utilizam um determinado método de contracepção por um ano. Quanto menor o índice de Pearl, maior é a eficácia do contraceptivo, indicando uma menor probabilidade de falha e, portanto, uma maior proteção contra a concepção indesejada. A segurança de um método contraceptivo, por outro lado, está relacionada ao risco de causar efeitos adversos à saúde da usuária. Os critérios de elegibilidade da Organização Mundial da Saúde (OMS) são utilizados para classificar os métodos contraceptivos de acordo com essa segurança. Quanto maior a segurança de um contraceptivo, menor é a probabilidade de causar problemas à saúde. Esses critérios ajudam a garantir que as escolhas contraceptivas atendam às necessidades individuais e minimizem riscos potenciais, promovendo não apenas a prevenção da gravidez, mas também o bem-estar geral das usuárias. 5. CLASSIFICAÇÃO Os métodos contraceptivos podem ser classificados de diversas maneiras, como por exemplo hormonais e não hormonais, orais e não orais, reversíveis e irreversíveis. Na prática clínica é obrigatório conhecer todas as opções e classificações possíveis como forma de facilitar a explicação e oferecimento dos métodos para cada paciente. É comum que a mulher já chegue com alguma ideia pré-estabelecida de qual método pretende escolher. Cabe ao médico indicar a ela qual método se encaixa na sua escolha, mas também oferecer todas as outras opções, sempre considerando os critérios de elegibilidade. Por exemplo, uma paciente que em consulta deseja não receber nenhum método hormonal, ao longo da explicação pode entender que por conta de maior eficácia e conforto sua ideia inicial seja alterada. � Não hormonais: Comportamentais. De barreira. De longa duração (DIU de cobre e prata com cobre). � Hormonais: Só progestagênio. Combinados. De emergência. Ginecologia 6 � Cirúrgicos (ou definitivos) Laqueadura tubária. Vasectomia. � LARC (contraceptivos reversíveis de longa duração), que incluem: Dispositivos intrauterinos de cobre e cobre com prata. Sistemas intrauterinos liberadores de levonorgestrel (SIU-LNG). Implante subdérmico de etonorgestrel. Quanto aos métodos hormonais também podemos clas- sificar de acordo com a via de administração: oral, vaginal, transdérmica, intramuscular, intra-uterino, subdérmico. Como veremos adiante, a OMS classifica os métodos contraceptivos de acordo com a sua segurança, definindo critérios de elegibilidade que se resumem em: � Categoria 1: O método pode ser utilizado sem qualquer restrição. � Categoria 2: O uso do método pode apresentar algum risco, habitualmente menor do que os benefícios decor- rentes de seu uso. � Categoria 3: O uso do método pode estar associado a um risco, habitualmente considerado superior aos benefícios decorrentes de seu uso. � Categoria 4: O uso do método determina um risco ina- ceitável à saúde. 5.1. Não hormonais 5.1.1. Comportamentais ou naturais São técnicas baseadas na auto-observação de sinais e sintomas do ciclo menstrual para reconhecer o período fértil e abster-se de relação sexual nesse período ou ter relações com um método de barreira para evitar a gravidez. Os métodos comportamentais requerem disciplina, autoco- nhecimento, bem como hábitos de vida saudáveis, rotina de sono e atividade física regular. Dentre os principais sinais que devem ser observados para calcular o período fértil estão o muco cervical e a temperatura corporal basal. É importante orientar que algumas doenças e o uso de medicações podem afetar as características das secreções vaginais, elevara temperatura corporal ou retardar a ovulação, como, por exemplo, ansiolíticos, antidepressivos, antipsicóticos, alguns antibióticos, todos os anti-inflamatórios não esteroidais e os anti- histamínicos. A taxa de falha do uso ideal de cada método está descrita na Tabela a seguir. Tabela 01. Taxas de falha dos métodos baseados na percepção da fertilidade com o uso correto e consistente e abstinência nos dias férteis. Gravidezes por 100 mulheres no prmeiro ano de uso ideasl Método Ogino-Knaus 9 Método dos dias fixos 5 Método dos dois dias 4 Método Bilings 3 Gravidezes por 100 mulheres no prmeiro ano de uso ideasl Método da temperatura corporal basal 1 Método sintotérmico 2 Fonte: CMS. Não há dados na literatura referentes à taxa de falha do uso habitual de cada método especificamente, mas sabe-se que a taxa de todos os métodos comportamentais é de 25 gravidezes por 100 mulheres em 12 meses. Diante da alta probabilidade de gravidez, o casal que optar por usar um método comportamental deve estar receptivo a uma pos- sível gestação não planejada; caso contrário, o casal deve ser encorajado a usar um método mais eficaz. � Método Ogino-Knaus: Também conhecido como ritmo ou tabelinha. É calcu- lado através da análise do padrão menstrual. A mulher deve anotar durante pelo menos 6 meses a duração de cada ciclo, desde o primeiro dia da menstruação até o dia que antecede a menstruação seguinte. Em seguida, deve verificar qual o ciclo mais curto e o mais longo (por exemplo, 25 e 34 dias) e calcular a diferença entre eles (neste exemplo, 34 – 25 = 9 dias). Se a diferença for de 10 dias ou mais, a mulher não deve usar essemétodo. Tabela 02. Definições para o cálculo do período fértil. Cálculo do período fértil Do ciclo de duração mais curta, deve-se subtrair 18 para encontrar o dia do início do período fértil. Neste exemplo: 25 - 18 = 7o dia Do ciclo de duração mais longo, deve-se subtrair 11 para encontrar o último dia do período fértil. Neste exemplo: 34 - 11 = 23o dia Neste exemplo, o período fértil determinado foi do 7o ao 23o dia do ciclo menstrual (ambos os dias, inclusive), com uma duração de 17 dias. Fonte: CMS. É importante refazer e atualizar os cálculos a cada 6 meses, sempre com base nos últimos 6 a 12 ciclos. � Método dos dias fixos: Indicado para mulheres que apresentam ciclos de 26 a 32 dias. A mulher deve destacar em um calendário os primeiros 8 dias do ciclo menstrual com um círcu- lo, iniciando no primeiro dia em que há sangramento. Nos 12 dias que seguem, deve marcar estes dias do calendário com um “X”. Após este período, devemar- car as datas com um círculo novamente até a próxima menstruação. Nos dias marcados com um círculo, poderá ter relações livremente e, nos dias marcados com um “X”, deve praticar abstinência sexual ou usar um método de barreira. � Método de Billings ou do muco cervical: Baseia-se na identificação do período fértil por meio da observação das características do muco cervical. A mulher deve observar diariamente a presença ou au- sência de muco, a sensação de secura ou umidade da vulva e analisar s características do muco (pegajoso, Ginecologia 7 turvo, elástico, claro ou transparente). Ao término da menstruação, inicia-se uma fase seca, ou de secreção escassa, que dura dois ou mais dias. O casal pode ter relações sexuais nos dias da fase seca em noites al- ternadas, para que o sêmen não prejudique a obser- vação do muco cervical. Na fase ovulatória, o muco, que inicialmente é esbranquiçado, turvo e pegajoso, vai se tornando mais elástico e lubrificante, semelhante à clara de ovo, podendo-se puxá-lo em fio. Havendo fluxo mucoso ou sensação de lubrificação, o casal deve abster-se de relações sexuais. Quando o muco desaparece ou retorna à aparência de muco pegajoso, a ovulação ainda pode estar ocorrendo; portanto, o casal deve abster-se de contato genital. Na 4a noite após o desaparecimento do muco, a mu- lher entra no período infértil, que dura até a próxima menstruação, e nesse período o casal pode ter rela- ções sexuais livremente.3 � Método da temperatura basal corporal: Baseia-se nas alterações da temperatura corporal que ocorrem ao longo do ciclo menstrual. Antes da ovulação, a temperatura do corpo permanece num nível mais baixo e, após a ovulação, ela se eleva em alguns décimos de grau centígrado, permanecendo nesse novo nível até a próxima menstruação. A partir do primeiro dia do ciclo, a mulher deve verificar a tem- peratura diariamente pela manhã, antes de qualquer atividade e após um período de repouso de no míni- mo 5 horas, usando sempre o mesmo termômetro. A ocorrência de um aumento persistente de no mínimo 0,2°C por 4 dias consecutivos indica a mudança da fase ovulatória para a pós-ovulatória. O período fértil termina na manhã do 4o dia em que for observada a temperatura elevada. Para evitar a gravidez, o casal deve abster-se das re- lações sexuais com contato genital durante toda a primeira fase do ciclo (pré-ovultatório) até o 4o dia em que a temperatura se mantém alta durante os primei- ros 6 meses de uso do método. Posteriormente, sendo possível predizer a data da ovulação com base nos registros anteriores, a abstinência sexual pode ficar limitada ao período de 4 a 5 dias antes da data pre- vista da ovulação e até o 4o dia de temperatura alta. É importante ressaltar que o uso de bebidas alcóolicas, perturbações do sono, estresse e diversas doenças podem modificar a temperatura basal e prejudicar a eficácia do método. � Método dos dois dias: É um método apropriado para as mulheres com ciclos de qualquer duração, indepen- dentemente de sua regu- laridade. Baseia-se nos mesmos princípios do método de Billings e requer apenas a observação da presença ou ausência de secreção. Por exemplo, se a mulher detectar qualquer secreção vaginal, deve considerar-se fértil até que permaneça dois dias consecutivos sem secreção. Se não perceber secreção no dia e no dia anterior, poderá ter relações livremente. Esse método é bastante simples, mas exige um período maior de abstinência sexual. � Método sintotérmico: Baseia-se na combinação de múltiplos indicadores da ovulação para determinar o período fértil com maior precisão. Ele combina a observação da temperatura basal corporal, do muco cervical e parâmetros subjeti- vos como dor abdominal, sensação mamas inchadas ou doloridas, variações de humor ou da libido. Outros sintomas como cefaleia, náusea, acne, aumen- to de apetite, ganho de peso, sensação de distensão abdominal também são usados. � Método da amenorreia lactacional: Baseia-se na inibição de ovulação causada pelo au- mento do nível sérico de prolactina em mulheres em aleitamento materno. Só pode ser usado até 6 meses após o parto, enquanto a mulher ainda estiver em ame- norreia e o lactente estiver em amamentação exclusi- va. A taxa de falha é de 2 gravidezes por 100 mulheres nos primeiros 6 meses após o parto. � Coito interrompido e a relação sexual sem penetração: São práticas muito usadas, embora não sejam reco- mendadas como único método anticoncepcional. Ocoi- to interrompido tem alta taxa de falha: 27 gravidezes por 100 mulheres no primeiro ano de uso. Podem ser especialmente úteis quando não se dispõe de outro método contraceptivo. 5.1.2. Métodos de barreira Tabela 03. Taxas de gravidezes com uso correto dos métodos de barreira. Métodos de barreira Gravidezes por 100 mulheres no primeiro ano de uso Uso comum Uso ideal Preservativo masculino 15 2 Preservativo feminino 21 5 Diafragma 16 6 Espermicida 29 18 Fonte: CMS. � Preservativo masculino: Como os preservativos são os únicos métodos contraceptivos que protegem tanto con- tra a gravidez quanto contra as infecções sexualmente transmissíveis, seu uso deve ser sempre estimulado, mesmo que a paciente use outros métodos hormonais ou comportamentais. É um método barato, acessível e com baixo risco à saúde (alergia ao látex). Sempre informar à paciente que o uso concomitante de lubrificantes oleo- sos e cremes vaginais com nitrato de miconazol podem danificar o látex e comprometer sua eficácia. � Preservativo feminino: Assim como o preservativo mas- culino, é um método capaz de prevenir infecções se- xualmente transmissíveis. Ao contrário da maioria dos preservativos masculinos, que são feitos de látex, os preservativos femininos são feitos de plástico e podem Ginecologia 8 ser usados com qualquer tipo de lubrificante, à base de água, silicone ou óleo. Não se deve usar preservativos masculinos e femininos ao mesmo tempo, pois a fricção pode causar a remoção ou rompimento dos preservativos. � Espermicidas: São substâncias inseridas na vagina, perto do colo uterino, antes da relação sexual, e provocam a ruptura da membrana celular dos espermatozoides. Es- tão disponíveis em tabletes de espuma, supositórios de espuma, espuma pressurizada, geleia e creme. Podem ser usados isolados ou associados a um diafragma ou preservativo. O uso de espermicidas está associado à maior frequência de infecção do trato urinário e pode também aumentar o risco de infecção por HIV no caso dos espermicidas à base de nonoxynol-9. � Diafragma vaginal: Tem o formato de uma concha e é feito de látex ou plástico flexível. Hoje no Brasil, apenas o diafragma de tamanho único está disponível. Ele deve ser utilizado com gel para aumentar a aderência às pa- redes vaginais. Em outros países, existem modelos com 6 tamanhos de diafragma disponíveis, e a escolha para cada paciente deve ser feita por um profissional da saúde treinado através do toque vaginal, estimandoa distância entre o fundo de saco posterior e a pube. O diafragma escolhido deve ser o maior possível dentro desta medi- da, sem que cause desconforto à paciente. Seu uso deve ser associado a um espermicida e não devem ser usados lubrificantes oleosos e cremes vaginais con tendo nitra- to de miconazol concomitantes ao diafragma de látex, pois, como foi dito anteriormente, estes podem danificar estruturas de látex. O diafragma deve ser mantido na vagina por pelo menos 6 horas após a relação sexual e não mais do que 24 horas, devido ao risco de síndrome do choque tóxico, considerado um efeito adverso raro. Seu uso pode aumentar a frequência de infecções do trato urinário e, menos comumente, vaginose bacteriana e candidíase. O diafragma deve ser descartado a cada 2 anos ou antes se observadas rachaduras ou alterações de textura ou formato. 5.1.3. Métodos não hormonais de longa duração: São os dispositivos intrauterinos (DIU) de cobre ou cobre com prata. Há diversos modelos de DIUs não hormonais com tamanhos, formatos e durações dis- tintas, porém com taxas de eficácia muito semelhan- tes: 6 a 8 por 1.000 mulheres no primeiro ano de uso. A combinação do cobre com a prata visa diminuir a fragmentação do cobre e evitar o aumento da sua ta- xa de falha além dos efeitos como aumento do fluxo menstrual e cólica. Mecanismo de ação: O cobre causa uma reação de corpo estranho que produz uma inflamação tecidual mínima que tem ação espermicida. Efeitos adversos: Os mais comuns são aumento do fluxo menstrual e dismenorreia. Os DIUs não aumentam o risco de contrair uma IST. Pode ocorrer doença infla- ma tória pélvica (DIP) caso a mulher esteja infectada com clamídia ou gonorreia no momento da inserção. Mulheres com ISTs ativas, como cervicites purulentas e doença inflamatória pélvica (DIP), devem ser tratadas antes da inserção do DIU.4 Gestação: Ao contrário do que se pensava, os DIUs reduzem o risco de gestação ectópica e não aumentam o risco de aborto quando a gestação ocorre após retirado o dispositivo. Caso ocorra gestação com um DIU normoposicionado, o risco de aborto espontâneo é de até 75% se o DIU de cobre foi mantido no lugar, e sua remoção precoce re- duz o risco de aborto para 30%. Caso o DIU seja man- tido durante a gravidez, o risco de parto prematuro se torna quatro vezes maior. Expulsão do DIU: Ocorre em 2% a 10% das usuárias no primeiro ano de uso. Fatores de risco para expulsão incluem inserção imediatamente após o parto, nuli- paridade e expulsão prévia de DIU. Uma mulher que expulsou um DIU tem uma chance de 30% de expulsar um dispositivo subsequente.Inserção: O DIU pode ser inserido, retirado e substituído em qualquer momento do ciclo menstrual, desde que descartada gravidez. Não há contraindicação para uso em pacientes nuligestas ou adolescentes, bem como pacientes com neoplasia endocervical intraepitelial (NIC). Mulheres com HIV/AIDS podem fazer uso de DIU des- de que estejam em terapia antirretroviral e estejam bem clinicamente. Após parto normal ou cesárea, o DIU pode ser usado se a inserção ocorrer em até 48 horas após o parto ou depois de 4 semanas. Após abortamento não infectado, o DIU pode ser inserido imediatamente. Recomenda-se uma consulta de acom- panhamento após a primeira menstruação com o DIU para verificar a ocorrência de efeitos adversos e sua posição através de exame especular, toque vaginal ou ultrassonografia. 5.2. Hormonais 5.2.1. Progestagênio isolado São os métodos hormonais que possuem apenas pro- gestagênio em sua fórmula. Tabela 04. Medicamentos com progestagênio isolado. Via Composição Duração Taxa de falha uso típico Taxa de falha uso ideal Pílula oral de progestágeno (POP) Desogestrel 75 mcg Diária 9 0,3 Drospirenona 40mg Diária 9 0,5 Intramuscular Acetato de medroxiprogesterona 150mg/ml Trimestral 6 - Dispositivo Intra-uterino Levonorgestrel 52mg e 19,5mg 5 a 8 anos 0,2 0,2 Implante subdérmico Etonogestrel 68mg 3 anos 0,2 0,2 Fonte: Guazzelli. Ginecologia 9 � Mecanismo de ação: A progesterona isolada provoca atro- fia endometrial, espessamento do muco endocervical e diminuição de motilidade das tubas uterinas. Além disso, o implante subdérmico, a pílulas orais de progestágeno e o acetato de medroxiprogesterona (injetável trimestral) são capazes de bloquear o eixo hipotálamo-ovariano, ini- bindo a ovulação. � Indicações: Pode ser usado por qualquer paciente, mes- mo em aleitamento materno, após 6 semanas do parto, exceto o acetato de medroxiprogesterona (categoria 3 até 6 semanas após o parto). É indicado principalmente para pacientes com contraindicação ao uso de estrogênio (Tabela 10) e pacientes com sintomas de hipermenorra- gia, dismenorreia e síndrome pré-menstrual. � Contraindicações: Tabela 05. Contraindicações ao uso de progestagênios isolados. Contraindicações ao uso de progestagênios isolados Amamentação há menos de seis semanas após o parto 2-3* Episódio atual de tromboembolismo 3 Câncer de mama atual 4 Câncer de mama pregresso há > 5 anos e sem recidiva 3 Adenoma hepático ou hepatoma 3 Hepatite viral ativa ou cirrose descompensada 3 Uso de barbitúricos, carbamazepina, oxcarbazepina, fenitoina, primidona, topiramato ou rifampicina 2-3** Doença cardíaca isquêmica atual e prévia 2-3*(I) 3(C) Acidente cerebrovascular e enxaquecas com aura 2-3*(I) 3(C) Doença vascular 2-3* I = Introdução, C = Continuidade (*) Todos são categorias 2, exceto AMDP (categoria 3). (**) Anticonvulsionantes podem diminuir a eficácia dos anticoncepcionais orais. Fonte: WHO, Guazzelli. � Eventos adversos: A paciente deve ser orientada sobre a possibilidade de ocorrência de escape menstrual e sangramento irregular. O número médio de episódios de sangramento e sangramento de escape de cada método deve ser analisado de acordo com os critérios do padrão de sangramento da OMS, utilizando intervalos de refe- rência de 90 dias. A insatisfação com o fluxo menstrual pode ser um motivo de descontinuação do tratamento. Outros sintomas adversos são: tontura, acne, dor mamá- ria, cefaleia e ganho de peso. Tabela 06. Definição da OMS de padrões de sangramento clinicamente impor- tantes em um período de 90 dias. Tipo de sangramento Definição da OMS Amenorreia Sem sangramento durante o período de referência Tipo de sangramento Definição da OMS Infrequente 1 a 2 episódios de sangramento Regular 3 a 5 episódios de sangramento Frequente Mais de 5 episódios de sangramento Prolongado Mais de 14 dias consecutivos de sangramento Fonte: Guazzelli. Tabela 07. Padrões de sangramentos dos progestagênios isolados após 12 meses de uso. Padrão de sangramento POP Desogestrel Implante AMPD SIU-LING Amenorreia 20% 22-44% 50-80% 20-60% Infrequente 30-40% 30-40% Indisponível 10-30% Regular 40% 20% 10% 10-50% Frequente 5% 6,7% 19-26% 5% Prolongado 10% 17,7% 15% Fonte: Guazzelli. � Pílula oral de progestagênio (POP): As pílulas orais de progestagênio que possuem efeito contraceptivo são: de- sogestrel 75 mcg e drospirenona 4mg. Possuem eficácia semelhante aos contraceptivos combinados, porém sem os riscos dos estrogênios, como por exemplo a trombo- se. Contudo, como todos os métodos de progestagênio isolado o padrão de sangramento é incerto e deve ser considerado ao prescrevê- las. O desogestrel é formulado para uso contínuo sem pausa. Já a drospirenona, mais recentemente lançada no mercado, é administrado em ciclos de 24 comprimidos ativos seguidos de 4 compri- midos placebos. Apesar desta pausa embutida nas car- telas, o sangramento de escape pode ocorrer. Um estudo comparativo mostrou que após 6 meses de uso, 16,7% das usuárias de desogestrel apresentam mais de 10 dias de sangramento no mês, enquanto 9,1% das usuárias de drospirenona apresentaram o mesmo o que pode ocorrer pelo fato desta possuir meia-vida mais longa. Após 10 ciclos, a taxa de amenorreia é maior com drospirenona (25-33%) do que com desogestrel (60%). Além disso,a drospirenona possui ação antiandrogênica, benéfica no tratamento da acne, e antimineralocorticóide, contribuin- do para a redução de edema. � Implante subdérmico: Trata-se de uma haste radiopaca flexível de 40 mm contendo 68 mg de etonogestrel (de- rivado do desogestrel) que, inserido logo abaixo da der- me, libera o hormônio com doses de 60 a 70 mcg/dia no primeiro ano de uso até 25 a 30 mcg/dia no término do terceiro ano, sendo esta dosagem suficiente para inibir a ovulação. Além da ocorrência de sangramento irregular, são efeitos adversos comuns o aparecimento de acne e alopecia. Outros efeitos adversos são associados à in- Ginecologia 10 serção e remoção, como infecção no local da inserção, dor, inserção profunda (intramuscular), dificuldade de remoção e, mais raramente, expulsão do implante. � Sistema intrauterino liberador de levonorgestrel (SIU-L- NG): Atualmente está disponível em 2 dosagens diferen- tes, 19,5 mg e 52 mg. A dosagem de 52 mg é indicada a pacientes com queixas de fluxo menstrual aumentado ou irregular e dismenorreia e induz amenorreia em até 60% das pacientes. A medicação é liberada a uma taxa de 20 mcg/dia no primeiro ano, caindo para 10 mcg/dia após 5 anos de uso. A dosagem de 19,5 mg é liberada a uma taxa de 12 mcg/dia no primeiro ano de uso. São efei- tos adversos comuns a ambos a ocorrência de padrões de sangramento irregulares, humor deprimido, alopecia, acne e dermatite seborreica. Respeitadas as contraindi- cações ao uso de progestagênios isolados (Tabela 6), as recomendações quanto à inserção, retirada, substituição e ao seguimento dos SIU-LNG são semelhantes às dos DIUs não hormonais. � Injetável trimestral (AMDP): Além das contraindicações comuns aos demais progestagênios isolados, evitar uso do AMDP (categoria 3) em pacientes com múltiplos fa- tores de risco para doença cardiovascular arterial (idade maior que 35 anos, tabagismo, diabetes e hipertensão), hipertensão com doença vascular, doença cardíaca is- quêmica atual ou pregressa, acidente vascular cerebral, sangramento vaginal inexplicável, diabetes mellitus com nefropatia, retinopatia, neuropatia ou outra doença vas- cular ou diabetes há mais de 20 anos. O uso de acetato de medroxiprogesterona de depósito (AMPD) foi asso- ciado à perda de massa óssea, provavelmente, devido à menor produção de estrogênio ovariano resultante do bloqueio do eixo hipotálamo-ovariano, mas não há da- dos suficientes sobre o risco de fratura. Por isso, o seu uso deve ser particularmente evitado em adolescentes, que ainda estão em fase de aquisição de massa óssea, e em mulheres mais velhas, que podem já estar em risco de perda óssea. 5.2.2. Combinados Os contraceptivos hormonais combinados (CHCs) apre- sentam progestagênio e estrogênio na sua composição, e incluem pílulas, anéis vaginais e adesivos transdérmicos, são métodos altamente eficazes para a prevenção da gravidez. A eficácia contraceptiva desses métodos depende do uso correto e consistente. De acordo com a literatura médica, a taxa de falha típica dos contraceptivos orais combinados é de aproximadamente 9% ao ano, o que reflete o uso típico, incluindo erros de adesão. No entanto, quando usados cor- retamente e de forma consistente, a taxa de falha pode ser tão baixa quanto 0,1%. Tabela 08. Taxas de gravidezes com uso correto dos métodos de barreira. Via Estrogênio Progestagênio Duração Taxa de falha uso típico Taxa de falha uso ideal Oral Etinilestradiol, Valerato de estradiol e Estradiol Múltiplas formulações disponíveis Diária 2,18% 1,26% Injetável Valerato de estradiol Enantato de noretisterona Mensal 3% 1% Cipionato de estradiol Acetato de medroxiprogesterona Mensal 3% 1% Enantato de estradiol Algestona acetofenida Mensal 3% 1% Transdérmico (adesivo) Etinilestradiol Norelgestromina Semanal 0,71-1,24% 0,59-0,99% Vaginal (anel) Etinilestradiol Etonogestrel Mensal 0,25-1,23% 0,31-0,96% Fonte: Guazzelli. � Contraceptivo oral combinado (COC): São os mais usados em todo o mundo. Existem muitas formulações disponí- veis no mercado, e as principais diferenças entre elas são a dosagem de estrogênio (etinilestradiol ou valerato de estradiol) e o tipo de progestagênio. A escolha da pílula para cada paciente deve se basear na atividade biológi- ca de cada progestagênio, conforme o quadro abaixo. Quadro 01. Atividade biológica dos principais progestagênios. Efeito Progestagênio Agonista puro Progesterona, didrogesterona Efeito Progestagênio Glicocorticoide parcial Acetato de medroxiprogesterona, acetato de megestrol Antimineralocorticoide parcial Drospirenona Estrogênico parcial Acetato de noretindrona Antiestrogênico parcial Levonorgestrel Androgênico parcial Levonorgestrel, acetato de noretindrona, desogestrel, norgestrel, gestodeno Anti-androgênico parcial Acetato de ciproterona, acetato de clormadinoma, dienogeste Fonte: Schindler. Ginecologia 11 � Injetável intramuscular mensal: A aplicação dos con- traceptivos combinados injetáveis é realizada a cada 30 dias, preferencialmente, nas nádegas. Possuem boa aceitação em relação ao controle dos ciclos e efeitos colaterais. Contudo, sua taxa de continuidade é em tor- no de 50 a 80%. A descontinuidades pode ser atribuída a fatores como: dor no momento da injeção, necessidade de deslocamento e acesso a serviços de saúde e efeitos colaterais como cefaleia, náuseas e ganho de peso. As combinações disponíveis no mercado são: Cipionato de estradiol 5 mg/0,5 mL + Acetato de me- droxiprogesterona 25mg/0,5 mL Enantato de estradiol 10 mg/mL + Algestona Aceto- fenida 150mg/mL Valerato de estradiol 5 mg/mL + Enantato de noretis- terona 50 mg/mL � Anel vaginal: O anel vaginal contraceptivo, como o Nu- varing®, é um anel de silicone que contém os hormônios etinilestradiol (EE) etonogestrel . Ele é inserido na vagina e permanece por 21 dias. Após este período, o anel deve ser retirado e descartado, realizando-se uma pausa de 7 dias, durante a qual pode ocorrer sangramento menstrual. Após esses 7 dias de pausa, um novo anel é inserido. Também existe a opção de usar o anel continuamente, sem a pausa de 7 dias. Se o anel sair da vagina por menos de 3 horas, ele deve ser lavado e reinserido. Se sair por mais de 3 horas, a conduta depende da semana do ciclo: Nas duas primeiras semanas: o anel deve ser reinse- rido e deve-se usar um método de barreira por 7 dias. Na terceira semana: um novo anel deve ser inserido. É recomendado que a paciente verifique periodica- mente a presença do anel através do toque vaginal, o que pode ser feito após a relação sexual ou durante o banho, por exemplo. O anel pode causar aumento de volume de leucorreia fisiológica em 4,8% das pacientes e aumentar a fre- quência de vulvovaginites em 5,6%. � Adesivo transdérmico: O adesivo transdérmico contra- ceptivo, comercializado como Evra®, libera os hormônios etinilestradiol e norelgestromina através da pele. O adesivo deve ser usado da seguinte maneira: cada adesivo tem uma duração de 7 dias, e a paciente deve utilizá-lo por uma semana, durante três semanas consecutivas. Após esse período de três semanas, é necessário fazer uma pausa de 7 dias, durante a qual pode ocorrer sangramento menstrual. Depois da pausa, inicia-se um novo ciclo de 4 semanas com a aplicação de um novo adesivo. O adesivo pode ser colado em qualquer região do corpo onde a pe- le esteja livre de pelos e não sujeita à fricção por roupas apertadas, evitando colá-lo nas mamas e nas pernas. A pele deve estar limpa e seca antes de aplicar o adesivo. Caso haja um atraso na troca do adesivo: considerando que cada adesivo realmente dura 9 dias, se o atraso for de menos de 2 dias, deve-se simplesmente colo- car um novo adesivo. Porém, se o atraso ultrapassar 2 dias, é necessário aplicar um novo adesivo e utilizar um método de barreira, como o preservativo, por 7 dias para prevenção adicional. Se o adesivo descolar por menos de 24 horas, deve-serecolá-lo, garantindo que fique bem aderido, ou aplicar um novo adesivo, atualizando o dia da semana da tro- ca, se necessário. Se descolar por mais de 24 horas, a paciente deve colocar um novo adesivo, atualizar o dia de troca e usa um método de barreira por 7 dias. O adesivo não é recomendado para mulheres acima de 90 kg devido a possíveis falhas de eficácia. Ele possui as mesmas contraindicações de outros contracepti- vos hormonais combinados e apresenta um risco de falha similar ao das pílulas anticoncepcionais, com uma taxa de falha de aproximadamente 9%. Algumas mulheres podem experimentar reações na pele, como prurido ou alergia, afetando entre 5-8% das usuárias. Durante a orientação sobre o uso, é essencial mostrar à paciente como remover o adesivo da embalagem e aplicar corretamente em uma área limpa e seca do corpo, exceto nas mamas. � Mecanismos de ação: Agem inibindo o eixo hipotála- mo-ovariano, sendo que o progestagênio é o principal responsável pela inibição da ovulação ao inibir o pico pré-ovulatório do hormônio luteinizante (LH). O proges- tagênio também atua na contracepção ao causar espes- samento do muco endocervical, atrofiar o endométrio e reduzir a motilidade tubária. O estrogênio inibe o pico do hormônio folículo-estimulante (FSH), evitando a seleção e o crescimento do folículo dominante. O estrogênio também estabiliza o endométrio e potencializa a ação progestagênica ao aumentar a expressão de receptores de progesterona intracelulares. � Eventos adversos: Os efeitos adversos mais comuns re- lacionados aos progestagênios são fadiga, aumento do apetite, acne, oleosidade da pele e sangramento uterino irregular. Os efeitos relacionados aos estrogênios são náuseas, vômitos, mastalgia, cefaleia, irritabilidade, me- lasma e outros efeitos metabólicos como: Hipertensão: provocada pelo estrogênio, decorre do aumento da síntese hepática de angiotensinogênio a partir do sistema renina-angiotensina-aldosterona. Não provoca repercussões clínicas em mulheres sau- dáveis e normotensas. Carboidratos: o estrogênio induz a resistência à insulina, sem impacto significativo em mulheres não diabéticas. Coagulação: os contraceptivos orais combinados (COC) provocam efeito pró-coagulante na medida em que levam ao aumento da resistência à proteína C ativada, em comparação a mulheres saudáveis não usuárias destas medicações (B).14 Há evidências de que os COCs podem provocar elevação dos fatores pró-coagulação, tais como fibrinogênio, protrombina, VII, VIII, IX, X, XII e XIII e a redução dos inibidores da coagulação, proteína S e antitrombina (D). Os anticoncepcionais combinados administrados por via transdérmica e vaginal causam alterações semelhantes aos orais no sistema de coagulação (B).24,25 Já os injetáveis combinados provocam menor impacto sobre hemostasia Ginecologia 12 do que os COCs (B).26 A depender da dose de estrogênio, este efeito pode ser maior, especialmente com relação às pílulas com dosagem de etinilestradiol maior que de 50 mcg. Estudos mais recentes não têm demonstrado diferenças entre o risco de evento tromboembólico de COCs com dife- rentes progestagênios, como drospirenona e ciproterona (B). A incidência de tromboembolismo em uma mulher sau- dável não usuária de contraceptivos hor- monais é de 4 a 5 casos por 10 mil mulheres por ano, e entre usuárias de COCs é de 8 a 9 casos, por 10 mil mulheres por ano, com risco rela- tivo 2 vezes maior.29 O risco relativo de trombose venosa em usuárias de adesivo transdérmico é de 7,9 (95% IC 3,5-17,7), e em usuárias de anel vaginal é de 6,5 (95% IC 4,7-8,9), quando comparadas a não usuárias de contraceptivos hormonais. Não existem estudos consistentes avaliando os riscos de tromboembolismo em usuárias de injetáveis mensais. O rastreamento de trombofilias previamente à prescrição de contraceptivos combinados não é recomendado (A). � Contraindicações: Tabela 09. Contraindicações absolutas aos anticoncepcionais hormonais combinados, de acordo com critério de elegibilidade da OMS. TVP/EP atual ou pregressa, independentemente do uso de anticoagulante Trombofilia conhecida Cirurgia maior com imobilização prolongada Lúpus Eritematosos Sistêmico com ACA positivo ou desconhecido Doença valvular complicada com hipertensão pulmonar, FA, endocardite bacteriana Tabagismo (≥ 15 cigarros/dia) + idade > 35 anos Doença cardíaca isquêmica atual ou pregressa Hipertensão Arterial Sistêmica descompensada (PAS ≥ 160 mmHg ou PAD ≥ 100 mmHg) Hipertensão Arterial Sistêmica associada à doença vascular Múltiplos fatores de risco para DCV (idade avançada, tabagismo, DM, HAS) Acidente Vascular Cerebral atual ou pregresso Enxaqueca com aura Enxaqueca sem aura + idade ≥ 35 anos Câncer de mama atual ou prévio Diabete melito complicada com nefropatia, retinopatia, neuropatia ou outra vasculopatia, ou > 20 anos de doença Cirrose descompensada, adenoma hepatocelular e hepatoma (categoria 3 se injetável) Lactante nas primeiras 6 semanas pós-parto Puérpera não lactante, com fator de risco para TVP*, nos primeiros 21 dias TVP: trombose venosa profunda, EP: embolia pulmonar, PAS: pressão arterial sistólica, PAD: pressão arterial diastólica, IAM: infarto agudo do miocárdio, AVC: acidente vascular cerebral, FA: fiibrilação arterial, DM: diabete melito, HAS: hipertensão arterial sistêmica, DCV: doença cardiovascular, ACA: anticorpo antifosfolípide, HNF: hiperplasia nodular focal. * Fatores de risco para TVP: passado de TVP, trombofilia, obesidade, hemorragia ou transfusão sanguínea pós-parto, imobilidade, pré-eclâmpsia, tabagismo, parto cesariano imediato. Fonte: WHO,. � Benefícios não contraceptivos: melhora dos sintomas da síndrome da tensão pré-menstrual, da dismenorreia e diminuição do fluxo menstrual. Em uso prolongado, podem reduzir o risco de câncer de ovário, de endomé- trio e intestinal. � Interações medicamentosas: podem influenciar o meta- bolismo e eficácia de drogas anticonvulsivantes (fenitoí- na, carbamazepina, barbitúricos, primidona, topiramato, oxcarbazepina, lamotrigina) e da rifampicina. � Início de uso: Início Rápido: Inicie o CHC no dia da consulta. Se >5 dias após o início da menstruação, recomende contra- cepção de barreira (não hormonal) nos primeiros 7 dias. Primeiro Dia da Menstruação: Garante proteção con- traceptiva máxima no primeiro ciclo, sem necessidade de contracepção de barreira. Início no Domingo: Pode ajudar a evitar sangramen- to de privação no fim de semana, especialmente em regimes de ciclo estendido. Pós-Aborto: Inicie o COC nos primeiros 7 dias após aborto espontâneo ou induzido (1º ou 2º trimestre). Contracepção de barreira por 7 dias, a menos que o CHC seja iniciado imediatamente após o aborto. Pós-Parto: � Não amamentando: Evite COCs por pelo menos 21 dias pós-parto (risco de TEV). Inicie entre 21-28 dias, sem necessidade de barreira. Se houver outros fa- tores de risco para TEV, evite CHCs até 6 semanas. � Amamentando: Evite COCs até 6 semanas pós-parto. � Troca de Método Contraceptivo: Outra COC: Inicie o novo método no dia seguinte ao último comprimido ativo, adesivo ou anel. POP: Inicie o COC imediatamente (se o POP foi usado de forma consistente), mas use barreira por 7 dias. DIU de Cobre: Inicie o COC até o 5º dia do ciclo (Dia 1 para pílulas de estradiol), sem precauções. Caso con- trário, use barreira por 7 dias e remova o DIU de cobre 7 dias após a última relação sexual desprotegida. Implante/Injetável: Inicie o COC a qualquer momento até o dia da próxima injeção/remoção do implante. � Após contraceptivo de emrgência: Levonorgestrel/Pílulas Combinadas: Inicie/reinicie o COC imediatamente. Use barreira por 7 dias. Ginecologia 13 5.2.3. Anticoncepção de emergência É definido como método não arriscado de prevenir uma gravidez não planejada em até 120 horas da relação sexual desprotegida. Tabela 10. Contraceptivos de emergência. Levonorgestrel isoladoEtinilestradiol 0,1 mg e levonorgestrel 0,5 mg 1,5 mg em dose única ou 2 doses de 0,75 mg a cada 12 horas 2 doses com intervalo de 12 horas Até 5 dias (preferencialmente antes de 72 horas) Até 5 dias Fonte: Adaptado de Finotti. As opções disponíveis para contracepção de emergência incluem o DIU de cobre (Cu-IUD), acetato de ulipristal (UPA), levonorgestrel (LNG) e contraceptivos orais combinados (COC). O DIU de cobre pode ser inserido até 5 dias após o primeiro ato de relação sexual desprotegida ou até 5 dias após a ovulação quando esta pode ser estimada. Ele tem uma eficácia de 98,5% como contracepção de emergência, sendo considerado o método mais eficaz nessa categoria. O levonorgestrel deve ser administrado, preferencial- mente, nas primeiras 72 horas, mas é eficaz até 5 dias após a relação sexual desprotegida. A dose recomendada é de 1,5 mg em dose única ou 0,75 mg em duas doses com 12 horas de intervalo, apresentando uma eficácia que varia de 11 a 24 gestações por mil mulheres. O acetato de ulipristal, atualmente indisponível no Brasil, é uma pílula única de 30 mg, eficaz também até 5 dias após a relação. Já os contraceptivos orais combinados (COC) são usa- dos através do método de YUZPE, que consiste em pílulas combinadas de etinilestradiol (EE) e levonorgestrel (LNG) para aqueles que dispõem apenas de pílulas combinadas. O regime envolve administrar 500 mcg de LNG em duas doses com 12 horas de intervalo, apresentando uma eficácia de 75% e 29 gestações por mil mulheres. A eficácia diminui significativamente com o atraso na administração. Os eventos adversos são relativamente leves e podem incluir náuseas, vômitos, cefaleia, tontura e alteração de sangramento. Não há contraindicações absolutas para o uso de anticoncepção de emergência. É importante observar que drogas como barbitúricos, carbamazepina, felbamato, griseofulvina, oxcarbazepina, fenitoína, rifampicina, erva-de- são-joão e topiramato interferem e diminuem sua eficácia. A eficácia também pode estar comprometida em pacientes com sobrepeso e obesidade. 5.3. Cirúrgicos A esterilização cirúrgica é considerada um método anti- concepção definitivo e irreversível. Apesar de existir a pos- sibilidade de reversão por cirurgia, os pacientes devem ser informados de que esta técnica não está disponível em muitos serviços de saúde e que a reversão não é garantia de uma nova gravidez, e que no caso da reversão de laquea- dura tubária existe risco aumentado de gestação ectópica. A Lei nº 14.443, de 2 de setembro de 2022, altera a Lei nº 9.263, de 12 de janeiro de 1996, para regulamentar as condições para a esterilização no âmbito do planejamento familiar no Brasil. As principais alterações introduzidas pela Lei nº 14.443/2022 na Lei nº 9.263/1996 são: � Idade ou número de filhos vivos: A esterilização cirúrgica é permitida em homens e mulheres com capacidade civil plena e maiores de 21 (vinte e um) anos de idade ou, pelo menos, com 2 (dois) filhos vivos. Esta alteração reduziu a idade mínima anteriormente estabelecida. � Prazo entre a manifestação da vontade e o ato cirúrgico: Deve ser observado um prazo mínimo de 60 (sessenta) dias entre a manifestação da vontade e o ato cirúrgico. Durante este período, a pessoa interessada terá acesso a serviços de regulação da fecundidade e aconselha- mento multidisciplinar, visando desencorajar a esterili- zação precoce. � Esterilização durante o parto: A esterilização cirúrgica em mulher durante o período de parto será garantida à solicitante se forem observados o prazo mínimo de 60 (sessenta) dias entre a manifestação da vontade e o par- to e as devidas condições médicas. � Prazo para disponibilização de métodos contracepti- vos: A lei também determina que a disponibilização de qualquer método e técnica de contracepção dar-se-á no prazo máximo de 30 (trinta) dias. 5.3.1. Laqueadura tubárea Existem diferentes tipos e abordagens para a laqueadura tubária. Os principais tipos incluem a laqueadura por lapa- roscopia, proporcionando imediata eficácia e rápido retorno às atividades. A oclusão das trompas pode ser realizada por várias técnicas, como a eletrocoagulação, que utiliza energia elétrica para coagular e destruir um segmento da trompa de Falópio. A eletrocoagulação bipolar é usada exclusivamente por via laparoscópica, requerendo a coagulação completa de pelo menos 3 cm da trompa, enquanto a eletrocoagulação monopolar é raramente utilizada devido ao risco de lesão térmica no intestino. Em termos de dispositivos mecânicos, existem a banda de silicone (anel de Yoon), o clip de Hulka (clip de mola) e o clip de Filshie (clip de titânio revestido de silicone), que necessitam de aplicadores especiais e são mais eficazes em trompas normais. A excisão tubária, ou salpingectomia, envolve a remoção completa ou parcial das trompas de Falópio e é cada vez mais comum devido à sua alta eficácia contraceptiva, prevenção de doenças tubárias e potencial redução do risco de câncer de ovário. Outra abordagem é a minilaparotomia, geralmente reservada para procedimentos pós-parto e em locais com poucos recursos, envolvendo uma incisão menor no abdômen. A laqueadura tubária pode ser realizada em diferentes momentos, conforme diretrizes médicas e legislação vigente no Brasil. Os principais momentos incluem: � No período pós-parto imediato, onde a esterilização femi- nina pode ser realizada logo após o parto, aproveitando a internação hospitalar, com a OMS indicando segurança para procedimentos até 7 dias após o parto. No Brasil, para esterilização durante o parto, é necessário um pra- Ginecologia 14 zo mínimo de 60 dias entre a manifestação do desejo e o parto, conforme já mencionado. � Durante uma cesariana, a laqueadura pode ser realizada no momento do parto, evitando uma cirurgia separada. Porém, importante ressaltar que a indicação da cesaria- na deve seguir indicação obstétrica e não a necessidade da laqueadura. � Após um aborto, a esterilização pode ser feita imediata- mente após um aborto espontâneo ou induzido, principal- mente no primeiro trimestre, com o CDC recomendando a colocação de métodos contraceptivos cirúrgicos ime- diatamente após a conclusão do aborto. Como um procedimento de intervalo, a laqueadura é feita a qualquer momento fora da gravidez ou pós-parto, sendo chamada “esterilização de intervalo,” sendo recomendando teste de gravidez antes do procedimento para reduzir a probabilidade de gravidez concomitante. A escolha do método depende de fatores como o momento do procedimento, a preferência da paciente, condições médi- cas existentes e a experiência do cirurgião. A esterilização cirúrgica é um método permanente e não protege contra infecções sexualmente transmissíveis, como o HIV. 5.3.2. Vasectomia A vasectomia é tão eficaz quanto a laqueadura tubária na prevenção de gravidezes, permitindo um procedimento mais simples, seguro, rápido e menos custoso. Sua taxa de falha é de apenas 0,15% no primeiro ano, inferior à maioria dos métodos de esterilização feminina. Complicações sérias são raras, embora dados sobre morbidade e mortalidade sejam limitados. O procedimento é menos invasivo do que a oclusão tubária, realizado sob anestesia local e não interfere na função sexual masculina, mas não previne a gravidez ectópica, ao contrário da laqueadura. Esse método, porém, é severamente subutilizado em comparação à esterilização feminina; nos Estados Unidos, a taxa de vasectomias é significativamente menor. O acon- selhamento sobre planejamento familiar costuma focar nas mulheres, com pouca informação para homens. Assim, é essencial aumentar a conscientização entre os profissionais de saúde sobre a importância de discutir planejamento fami- liar com todos os pacientes. Mais de 80% das vasectomias são feitas em consultório, reduzindo o tempo de recuperação. Embora a vasectomia seja considerada permanente, a reversão não garante sucesso ou eficácia equivalente à concepçãonatural. O aconselhamento pré-operatório deve ser abrangente, incluindo informações sobre técnica, segurança, possíveis complicações e alternativas, como métodos reversíveis de longa duração. Os homens precisam de tempo para tomar uma decisão informada, considerando a natureza permanente do procedimento, alternativas dispo- níveis, detalhes do procedimento, possibilidade de falha e a necessidade de proteção contra ISTs. Jovens e homens com poucos filhos têm maior probabilidade de se arrependerem da esterilização, tornando o aconselhamento cuidadoso ainda mais importante. Após a vasectomia, é fundamental que os pacientes realizem uma análise de sêmen pós- vasectomia (PVSA) para confirmar a esterilidade antes de descontinuar outros métodos contraceptivos. A maioria dos homens está azoos- pérmica em até três meses, com 98-99% alcançando essa condição em seis meses, mas mais da metade não com- pleta esse teste. É necessário desenvolver estratégias para melhorar a adesão ao diagnóstico. Em relação à elegibilidade, não há condições médicas que restrinjam a aptidão de um homem para a vasectomia, e não há considerações especiais para aqueles em alto risco de HIV, desde que estejam assintomáticos ou apresentem formas leves da doença. Cuidado adicional deve ser tomado em casos de idade jovem, transtornos depressivos, diabetes, lesões escrotais anteriores, varicocele, hidrocele grandes, criptorquidismo e lúpus com anticorpos antifosfolipídios positivos ou em tratamento imunossupressor. A legislação brasileira, através da Lei nº 14.443/2022, regula a esterilização cirúrgica para homens e mulheres, estabelecendo uma idade mínima de 21 anos ou a com- provação de dois filhos vivos, além de um prazo mínimo de 60 dias entre a manifestação de vontade e o ato cirúrgico, com aconselhamento multidisciplinar. Tabela 11. Resumo dos métodos contraceptivos hormonais e não hormonais. LARCs Hormonais Oral Injetável Vaginal Transdérmico Intrauterino Subdérmico Combinados (E+P) COC Mensal Anel Adesivo De emergência Progestagênios isolados (P) POP Trimestral SIU-LNG 52 mg Implante etonorgestrelDe emergência SIU-LNG 19,5 mg Não hormonais Barreira / Cirúrgicos / Comportamentais TCu380A Cu380Ag Fonte: OMS Ginecologia 15 6. CRITÉRIOS DE ELEGIBILIDADE Os Critérios de Elegibilidade Médica da Organização Mun- dial da Saúde (OMS) oferecem orientações sobre a segurança de diversos métodos contraceptivos em relação a condições de saúde e características específicas. O principal objetivo desses critérios é aprimorar o acesso e a qualidade dos serviços de planejamento familiar, fornecendo recomenda- ções baseadas em evidências que ajudem na elaboração ou revisão de diretrizes nacionais sobre a elegibilidade médica para diferentes métodos contraceptivos. A OMS classifica a elegibilidade médica em quatro cate- gorias: � Categoria 1: Não há restrição para o uso do método contraceptivo. � Categoria 2: As vantagens do uso do método geralmente superam os riscos. � Categoria 3: Os riscos geralmente superam as vantagens no uso do método. � Categoria 4: O uso do método apresenta um risco ina- ceitável à saúde. Em algumas adaptações, um sistema simplificado de dois níveis é utilizado para profissionais com julgamento clínico limitado: “Use o método” (Categorias 1 e 2) e “Não use o método” (Categorias 3 e 4). Isso é útil em contextos em que os prescritores de contraceptivos não possuem formação médica formal. No entanto, se o profissional tem um julgamento clínico mais aprofundado, a categoria 3 pode ser considerada em casos específicos, como quando o risco de uma gestação indesejada é maior que o risco do método contraceptivo. Os Critérios de Elegibilidade são atualizados periodica- mente com base nas evidências clínicas e epidemiológicas mais recentes, com a quinta edição publicada em 2015. O processo de revisão envolve a identificação contínua de novas evidências e a convocação de grupos de desen- volvimento de diretrizes para avaliá-las usando a metodo- logia GRADE (Grading Recommendations, Assessment, Development and Evaluation). Para cada tópico prioritário, são realizadas revisões sistemáticas para responder a perguntas formuladas em PICO (População, Intervenção, Comparador, Resultado). As recomendações são mantidas em uma escala de 1 a 4 para garantir consistência, ao invés de serem classificadas como “fortes” ou “fracas” segundo a metodologia GRADE. O documento abrange todos os métodos contraceptivos, incluindo hormonais combinados, progestagênio isolado, dis- positivos intrauterinos (DIUs), métodos de barreira, métodos baseados na percepção da fertilidade, coito interrompido, método da amenorreia lactacional, esterilização masculina e feminina, e contracepção de emergência. As tabelas listam condições médicas relevantes, classificando a elegibilidade para início e continuação do uso de cada método em cate- gorias de 1 a 4. Elas também oferecem esclarecimentos, evidências e comentários adicionais para auxiliar profissio- nais de saúde no aconselhamento. A aplicação dos Critérios de Elegibilidade em programas nacionais deve considerar o contexto do país, a relevância das condições médicas para a saúde pública, a capacidade do sistema de saúde para rastreamentos e a necessidade de garantir a escolha informada e a qualidade do atendimento. O julgamento clínico e as preferências do usuário devem ser considerados ao selecionar um método contraceptivo. Exemplos de recomendações incluem o uso de contra- ceptivos orais combinados (COCs) por mulheres vivendo com HIV, que podem utilizá-los (Categoria MEC 1) mas são incentivadas a usar preservativos para prevenir a transmis- são do HIV e outras ISTs. Em contraste, mulheres com HIV que apresentam doença clínica grave não devem utilizar um DIU, enquanto aquelas com doença leve podem. No caso de contraceptivos de progestagênio isolado (POPs), mulheres com lúpus com anticorpos antifosfolipídios positivos geral- mente não devem usá-los. As classificações para hipertensão são baseadas na premissa de que não há outros fatores de risco para doenças cardiovasculares, e níveis pressóricos mais elevados podem resultar em categorias diferentes para certos métodos. Em agosto de 2024, o CDC publicou atualizações signifi- cativas nos critérios médicos de elegibilidade e nas novas recomendações de práticas selecionadas para o uso de anticoncepcionais. Essas atualizações substituem e revisam as versões de 2016, incorporando novas evidências e contri- buições de especialistas, e já estão em vigor no aplicativo do CDC. Entre as principais mudanças, destacam-se a adição de recomendações para pessoas com doença renal crônica, incluindo aquelas com síndrome nefrótica, em hemodiálise e em diálise peritoneal. Além disso, as recomendações foram revisadas para indivíduos com certas características ou condições clíni- cas, como amamentação, pós-parto, pós-aborto, obesidade, cirurgia, histórico de trombose venosa profunda ou embolia pulmonar, com ou sem terapia anticoagulante, trombofilia, trombose venosa superficial, doença cardíaca valvular, cardiomiopatia periparto, lúpus eritematoso sistêmico, cirrose, tumor hepático, anemia falciforme e transplante de órgão sólido. As orientações para pessoas com alto risco de infecção pelo HIV também foram atualizadas, baseando-se em recomendações desenvolvidas e publi- cadas em 2020. No que diz respeito às interações medicamentosas com antirretrovirais, as orientações foram revisadas para incluir a prevenção, além do tratamento para a infecção pelo HIV. Por fim, houve a inclusão de métodos contraceptivos adicionais, como novas doses ou formulações de contraceptivos orais combinados (COCs), adesivos contraceptivos, anéis vagi- nais, pílulas de progestagênio isolado (POPs), dispositivos intrauterinos de levonorgestrel (DIU-LNG) e moduladores de pH vaginal. 7. NOMES COMERCIAIS DOS CONTRACEPTI- VOS HORMONAIS 7.1. Anticoncepcionais combinados orais� Etinilestradiol + Clormadinona Belarina, Aixa, Amora, Belara, Cherry, Liberfem Ginecologia 16 � Etinilestradiol + Ciproterona Artemidis , Diane , Diclin, Duelle, Dunia , Ferane , Jaque, Repopil , Selene, Tess � Etinilestradiol + Levonorgestrel Clic, Level, Miranova, Ciclo 21, Gestrelan, Linofeme, Microvlar, Nociclin, Nordette, Neovlar, Triquilar � Etinilestradiol + Desogestrel Dioless, Primera, Femina, Mercilon, Minian, Microdiol, Gracial � Etinilestradiol + Gestodeno Adoless, Allestral, Mínima, Tâmisa, Tantin, Siblima, Di- minut, Ginesse, Feminane, Micropil, Previane, Gestinol � Etinilestradiol + Drospirenona Diva, Feminique, Fucsia, Ingrid, Iumi, Megy, Molièri, Niki, Yaz, Dalyne, Elani, Elô, Prevyasm, Yasmin � Valerato de estradiol + Dienogeste Qlaira � 17-β estradiol + Nomegestrol Iziz, Stezza 7.2. Injetável mensal (combinado) � Cipionato de estradiol + medroxiprogesterona Cyclofemina � Enantato de estradiol + Algestona Acetofenida Aldijet, Ciclovular, Dáiva, Perlumes, Pregnolan, Uno-ciclo � Valerato de estradiol + Enantato de noretisterona Mesigyna, Noregyna 7.3. Anel vaginal � Etinilestradiol + Etonogestrel Nuvaring, Livanel, Exelring 7.4. Adesivo transdérmico � Etinilestradiol + Norelgestromina Evra 7.5. Pílulas de progestagênio isolado � Desogestrel Araceli, Careli, Cerazette, Juliet, Mamades, Mylus, Nac- tali, Onua, Pérola, Rubia � Drospirenona Ammy, Slinda � Noretisterona Norestin 7.6. Injetável trimestral � Medroxiprogesterona Contracep, Demedrox, Depo provera 7.7. Implante subdérmico � Etonogestrel Implanon NXT 7.8. Sistema intrauterino de levonorgestrel � Levonorgestrel Mirena, Kyleena 8. FLUXOGRAMAS Fluxograma 1. Prescrição de Contraceptivos: Perguntas iniciais. Fonte: Elaborado pela autora. Ginecologia 17 Fluxograma 2. Prescrição de Contraceptivos: Indicações Fonte: Elaborado pela autora. Fluxograma 3. Prescrição de Contraceptivos: Contraceptivos orais. Fonte: Elaborado pela autora. Ginecologia 18 Fluxograma 4. Prescrição de Contraceptivos: DIU. Fonte: Elaborado pela autora. Fluxograma 5. Prescrição de Contraceptivos: Método apenas com progestógeno. Fonte: Elaborado pela autora. Ginecologia 19 REFERÊNCIAS 1. Gravidez — Ministério da Saúde https://www.gov.br/saude/pt-br/ assuntos/saude-de-a-a-z/g/gravidez 2. Azevedo, A. E. B. I. et al. (2019). Prevenção da Gravidez na Adolescência. Guia Prático de Atualização, 11, 1-7. https://www.gov.br/saude/pt-br/ assuntos/saude-de-a-a-z/g/gravidez/pub licacoes/guia-pratico-de-a- tualizacao-prevencao-da-gravidez-na-adolescencia 3. OMS - ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Guia de Implantação dos Critérios Médicos de Elegibilidade e das Recomendações da OMS para o Uso de Contracepção. Genebra: OMS, 2016.Disponível em: . 4. 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