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TEOLOGIA ESPIRITUAL AULA 2 Prof. Heitor Alexandre Trevisani Lipinski 2 CONVERSA INICIAL Desde seu surgimento como indivíduo racional, o ser humano procura respostas para muitas dúvidas nos mais diversos assuntos, entre eles a espiritualidade, o transcendente, o oculto. A espiritualidade está relacionada com a vida interior, mas também com o lugar da liberdade, da consciência, dos projetos de vida, das grandes intuições da existência. Viver profundamente a espiritualidade é ter uma fé viva, que sente o divino ou o transcendente muito próximo de si, estabelecendo uma relação com Deus. Essa relação deve ser cultivada pela Palavra e pautada nos ensinamentos de Jesus. Se você mantém uma fé constante, está conectado com o transcendente de maneira profunda. Pode-se dizer, então, que vive a espiritualidade. A mística cristã está toda centrada na graça, iniciativa e primazia de Deus. O Papa Bento XVI, na primeira encíclica Deus caritas est, fala sobre o cristianismo de uma maneira muito precisa. Para ele, cristianismo é o encontro pessoal com cristo. No entanto, a espiritualidade não se limita apenas a essa relação de encontro; se estende também às relações com os outros, com o mundo e consigo mesmo, tornando a esfera da espiritualidade na vida religiosa muito mais ampla e global. TEMA 1 – RELAÇÃO COM DEUS PAI Quando atribuímos a Deus a figura de Pai, O reconhecemos como aquele que nos dá a vida, o gerador e responsável pela nossa existência. Deus, como Primeira Pessoa da Trindade, é o agente responsável pela Criação: "Façamos o homem à Nossa imagem, conforme a Nossa semelhança" (Gênesis 1,26), mas a Bíblia diz que Ele não é o único; Dele também procedem o Filho (João 1,1) e o Espírito Santo (Gênesis 1,2). Ao mesmo tempo que se mostra próximo, sempre pronto a nos ouvir e socorrer, Deus Pai se apresenta também com uma linguagem transcendente, muito além de nossa compreensão de ver e tocar. O catecismo da Igreja Católica relata que, como homens, não conseguimos compreender esse mistério, mas podemos reconhecer Deus Pai, por suas obras e por seu Filho, Jesus Cristo, quando cita: 3 Pela razão natural, o homem pode conhecer Deus com certeza, a partir das suas obras. […] Por uma vontade absolutamente livre, Deus revela-Se e dá-Se ao homem. […] Revela plenamente o seu desígnio, enviando o seu Filho bem-amado, nosso Senhor Jesus Cristo, e o Espírito Santo. (Catecismo, 2000, p. 27) Assim como um pai se alegra pelas conquistas e sofre com as angústias de seus filhos, Deus, de maneira convergente, também age em nós, demonstrando um aspecto misericordioso. Dessa maneira, compreendemos que Deus Pai é o amor em plenitude, pois “tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3,16). O Hino da Jornada Mundial da Juventude, realizada na Cracóvia em 2016, em sua tradução oficial lançada e aprovada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), apresenta duas estrofes que explicitam o amor de Pai e a misericórdia de Deus aos fiéis: Levantarei meu olhar aos montes De onde o auxílio virá Deus é a força de quem tem fé Misericórdia Ele é Quando erramos Ele é por nós Mostra-nos o colo do Pai Com seu sangue libertador Livra do mal e da dor. Assim, evidenciamos que nossa espiritualidade cristã é marcada por uma intensa relação de Deus como Pai, Criador, Benevolente e Misericordioso com seus filhos. TEMA 2 – RELAÇÃO COM O ESPÍRITO SANTO A relação íntima com Deus se dá pela ação do seu Espírito Santo. Na Bíblia, esse espírito significa “Ruah”, palavra hebraica que significa “vento”, “espírito”, “alento”, “hálito divino”, “sopro de vida”. Com esse sopro, Deus deu a vida ao primeiro homem, feito à sua imagem e semelhança. O Espírito Santo é o poder de Deus em ação, é Sua força ativa que se movimenta, como destaca o livro do Gênesis (1,2): “E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas”. 4 A pessoa espiritual é conduzida a Deus pela força do Seu espírito, que nos criou e que, pelo sopro da vida, toca nossa existência, habitando em todos nós, instigando para que tenhamos um caminho de santidade. Deus age em nosso coração e nos estimula a segui-lo por meio desse espírito. Na Bíblia, Deus enquanto Espírito é apresentado de várias formas: como vento (Gênesis 8,1; João 3,8); como força da vida presente nos seres vivos (Gênesis 6,17); como atitude ou disposição de uma pessoa (Números 14,24); e muitas outras. Todas essas denominações representam o Espírito Santo em seu intento, pois somente pelo Espírito de Deus é que podemos ter uma relação forte com Ele e, assim, somos chamados também a viver em comunidade e a continuar a missão proposta por Jesus, ungidos pelo Espírito Santo. A carta encíclica Dominum et vivificantem, do sumo pontífice João Paulo II, conclui essa ação do Espírito Santo na vida da Igreja e do mundo, quando cita: No ápice da missão messiânica de Jesus, o Espírito Santo torna-Se presente no mistério pascal em toda a sua subjectividade divina: como Aquele que deve continuar agora a obra salvífica radicada no sacrifício da Cruz. Esta obra, sem dúvida, foi confiada por Jesus a homens: aos Apóstolos e à Igreja. No entanto, nestes homens e por meio deles, o Espírito Santo permanece o transcendente sujeito protagonista da realização desta obra, no espírito do homem e na história do mundo: Ele, o Paráclito invisível e, simultaneamente, omnipresente. (1986, p. 42) TEMA 3 – RELAÇÃO COM JESUS CRISTO Deus se revela a nós por seu filho, Jesus Cristo. Ele é o Verbo, ou seja, a Palavra de Deus. Na Bíblia, verificamos em João 1,14: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”, enfatizando que Deus, para nos alcançar enquanto homens, envia seu filho sob a condição humana, com o objetivo da salvação. Jesus Cristo é o centro da nossa espiritualidade cristã; crer Nele também significa crer no Pai, pois “Disse-lhe Jesus: ‘Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim’” (João 14,6). Nesse sentido, podemos dizer que a humildade foi assumida pela majestade, a fraqueza pela força, a mortalidade pela eternidade. Para saldar a dívida de nossa condição humana, e como convinha à nossa recuperação, Deus envia seu Filho, o único mediador entre Ele e os homens, para experimentar morte em Sua natureza humana e, da mesma forma, permanecer 5 incólume em Sua natureza divina. Essa relação entre humano e divino nos transmite a mensagem de que a espiritualidade cristã possui ligação não só com a vida e valores humanos, mas também com características divinas. Uma segunda reflexão, que também relaciona a junção da divindade e humanidade, pode ser feita ao observarmos A criação de Adão, de Michelangelo. Nela, os membros das duas figuras apresentadas são simétricos, têm uma constituição muito parecida, estabelecendo um equilíbrio entre os dois lados do afresco, entre a figura divina e a figura humana. Figura 1 – Detalhe do teto da Capela Sistina na Cidade do Vaticano, Itália. Afresco por Michelangelo; obra encomendada pelo Papa Júlio II (1443-1513) Créditos: Creative Lab/Shutterstock. Jesus, ao estabelecer uma relação de humanidade para conosco, nos encoraja a sermos como Ele e a seguirmos Seu modelo de santidade. Ser como Cristo é uma tarefa humanamente impossível. Mas “o que é impossível para os homens é possível para Deus” (Marcos 10,27). Jesus não apenas é modelo de santidade, como também é a própria fonte dela (Ezequiel 36,26-27), pois a santidade não é obra da carne, mas do Espírito (Gálatas 5,16). Desse modo, ser como Cristo é impossível pela plenitude de perfeição,mas imitá-lo é trilhar a espiritualidade da santidade. 6 TEMA 4 – RELAÇÃO COM O PRÓXIMO Se nós amamos um Deus que é Pai e que se preocupa instantemente com seus filhos, também devemos amar nossos irmãos. A verdadeira espiritualidade está relacionada ao amor que sentimos pelo próximo. Esse ato de amor é mencionado na Bíblia Sagrada em muitos momentos. Na noite em que Jesus foi preso, Ele deu inúmeras instruções aos discípulos, abrangendo parte considerável do evangelho de João. Entre as instruções, Ele enfatiza algo como novo mandamento. João 13,34 nos diz: “Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; como Eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis”. A grande importância que Ele deu a esse mandamento se evidencia por tê-lo repetido duas vezes na mesma noite. João 15,12-17 fala: O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como Eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos. Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer. Não me escolhestes vós a mim, mas. Eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda. Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros. Jesus Cristo nos manda amar uns aos outros, e de fato amar ao outro assim como Ele nos amou. Em Efésios 5,2 verificamos a prova do grande amor de Jesus por nós: “E andai em amor, como também Cristo vos amou, e [como consequência de seu amor] se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave”. Cristo nos amou tanto que ele deu a vida por nós. É com esse tipo de amor que ele também nos manda amar uns aos outros. Ele caracterizou o amor pelo próximo como um mandamento, como algo que deveria realmente ser seguido: “Purificando as vossas almas pelo espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro” (I Pedro 1,22). O amor ao próximo está vinculado ao amor aos menos favorecidos, aos desprovidos de assistência social pela população. Como cristãos, é nosso dever amar e zelar pela vida desses nossos irmãos. Essa configuração de amar pode ser expressa de diferentes maneiras: amor aos pobres, doentes, aos inimigos, ao meio ambiente, entre outros. 7 Utilizando o exemplo do cuidado com o meio ambiente, verificamos também que se trata de uma maneira de amar as próximas gerações. O Papa Francisco, quando presidia a missa de encerramento da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, disse: “Os erros do passado não foram suficientes para deixarmos de saquear os outros e causar ferimentos aos nossos irmãos e à nossa irmã terra: vimos isso no rosto desfigurado da Amazônia” (Francisco, 2019). A fala do Papa demonstra a grande preocupação da Igreja com as questões ambientais, problemas atuais, mas também demonstra a forma correta de agir como cristãos e filhos do mesmo Deus que é Pai e Criador. A Igreja está comprometida em ser aliada da Amazônia, mostrando que o amor ao próximo é muito amplo. Com cinco capítulos, uma introdução e uma breve conclusão, o Documento Final da Assembleia Especial para a Região Pan-Amazônica, divulgado na noite de 26 de outubro de 2019, evidencia a necessidade de nos amarmos verdadeiramente, das mais diversas formas e manifestações, assim como o Pai nos ama, a fim de vivermos a espiritualidade cristã em plenitude. TEMA 5 – A IGREJA E O REINO DE DEUS Outra relação de destaque para compreender a vida espiritual é a relação com a Igreja, pois Cristo nos convida a viver em comunidade. Somos criados em espírito de comunhão, e a vida cristã não se desliga dessa premissa. Jesus orou para que seus seguidores estivessem unidos a Ele e interligados uns com os outros (João 17, 22-23). E isso não acontece à distância, isoladamente. A Bíblia diz que devemos nos reunir como Igreja (Hebreus 10,25), pois juntos somos encorajados a aguardar a vinda de Jesus, e unidos formamos a Igreja de Cristo. Somos como membros de um corpo, que precisam uns dos outros (1 Coríntios 12, 12-14). Por isso, precisamos viver em comunhão. A união vem da convivência, que é absolutamente essencial. Pelo batismo, somos chamados a viver em comunidade, em igreja, e dessa maneira assumimos a missão de anunciar o Reino de Deus, a obra da salvação. O catecismo da Igreja Católica nos diz que: O santo Baptismo é o fundamento de toda a vida cristã, o pórtico da vida no Espírito («vitae spiritualis ianua – porta da vida espiritual») e a 8 porta que dá acesso aos outros sacramentos. Pelo Baptismo somos libertos do pecado e regenerados como filhos de Deus: tornamo-nos membros de Cristo e somos incorporados na Igreja e tornados participantes na sua missão. (2000, p. 340) Esse sacramento é o princípio da vida cristã e, por meio dele, nos tornamos membros do corpo de Cristo, que é a Igreja. Seu espírito passa a habitar em nós e, assim, nossas faltas são perdoadas e nos tornamos suscetíveis ao projeto da salvação, pois: O próprio Senhor afirma que o Baptismo é necessário para a salvação. Por isso, ordenou aos seus discípulos que anunciassem o Evangelho e baptizassem todas as nações. O Baptismo é necessário para a salvação de todos aqueles a quem o Evangelho foi anunciado e que tiveram a possibilidade de pedir este sacramento. A Igreja não conhece outro meio senão o Baptismo para garantir a entrada na bem-aventurança eterna. (Catecismo, 2000, p. 349) Em sua essência, a vida espiritual só é alcançada se tiver por início o sacramento do batismo, pois é com ele que teremos o anúncio do Reino de Deus e da vida em comunidade, a vida em Igreja. NA PRÁTICA Nesta aula, verificamos as concepções de diversas relações fundamentais para a vida espiritual, fundamentada principalmente na relação com Deus, que é Pai, fonte de vida e de misericórdia, que nos convida a amar uns aos outros e a viver em comunidade, em Igreja. Compreendemos também que, pelo relacionamento com Deus Pai, consequentemente nos referimos a seu filho Jesus Cristo e a seu Espírito Santo. Como atividade prática, elabore uma síntese sobre o que diz o catecismo da Igreja Católica a respeito da Santíssima Trindade e indique qual rito proferimos em comunhão com a Igreja lembrando a Trindade. FINALIZANDO As reflexões desta aula foram importantes para compreendermos a vida espiritual em seus diversos aspectos, percebendo que ela não se restringe apenas a um momento, mas sim a toda a nossa existência. Considerando a espiritualidade como vida em espírito, entendemos que ela é o conjunto das diversas relações dela provenientes, ou seja, a união da vida em comunhão 9 com Deus, Com Jesus, Seu Filho, com o Espírito Santo e com a Igreja, enraizados no amor a Deus e ao próximo. 10 REFERÊNCIAS BENTO XVI. Carta Encíclica Deus Caritas Est. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 2006. CATECISMO da Igreja Católica. Edição típica vaticana. São Paulo: Loyola, 2000. JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Dominum Et Vivificantem: sobre o Espírito Santo na vida da Igreja e do mundo. São Paulo: Loyola, 1986. PAPA FRANCISCO. Íntegra da Homilia do Papa na missa de encerramento do Sínodo para a Pan-Amazônica. 27 out. 2019. Disponível em: . Acesso em: 23. nov. 2019 TRADUÇÃO oficial hino JMJ 2016. Título original: Błogosławieni Miłosierni. Letra: Jakub Blycharz. Versão: Pe. Zezinho, Pe. Joãozinho e Jonas Rodrigues (Versão oficial aprovada pela CNBB). Disponível em: do-hino-oficial-e-lancada-pela-cnbb.html>. Acesso em: 22 nov. 2019.