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INTRODUÇÃO À BIOMEDICINA AULA 1 Prof. Benisio Ferreira da Silva Filho 2 CONVERSA INICIAL Ser um profissional de saúde no Brasil é um desafio que exige cuidado e dedicação, especialmente durante a fase de formação. Esse percurso requer tempo e comprometimento. Assumir a responsabilidade de cuidar da saúde de outras pessoas é algo que poucos conseguem encarar com plenitude. Se você está se preparando para servir à população na área da saúde, parabéns! Sua escolha é louvável e demanda que, neste momento, você priorize sua formação. Como futuro(a) biomédico(a), é essencial compreender que você é, por definição, um pesquisador nas ciências da saúde e um laboratorista de excelência. Porém, o papel do biomédico vai muito além do laboratório. Nosso perfil profissional adapta-se à evolução científica e às necessidades emergentes da sociedade, permitindo que muitos biomédicos expandam sua atuação e contribuam para a melhoria contínua dos serviços de saúde. Nós, biomédicos, somos fundamentais na formação e na disseminação do conhecimento na área da saúde. Não somos uma segunda opção ou resultado de um objetivo não alcançado. Representamos uma classe com milhares de profissionais no Brasil e no mundo, ocupando posições de liderança, coordenação e responsabilidade técnica, sempre contribuindo ativamente para a saúde da população. Nosso trabalho está presente no desenvolvimento de tecnologias e materiais de saúde. Nossa atuação é ampla, abrangendo áreas como estética, acupuntura, fisiologia do esporte, genômica, bioinformática e pesquisas em vigilância global de saúde. Recentemente, novas áreas como gerontologia, PICS (práticas integrativas e complementares em saúde) e visagismo também têm se tornado campos de atuação. Como nosso conhecimento está diretamente ligado à saúde humana, ele se torna relevante e aplicável também em áreas como análise ambiental e vigilância microbiológica e bromatológica dos alimentos. A formação sólida em biologia celular e molecular capacita o biomédico a atuar em genética, bioquímica e biologia celular, utilizando técnicas avançadas para diagnóstico de mutações e detecção de material genético de patógenos. Essa expertise torna o biomédico um profissional versátil, apto a atuar em investigações judiciais (como testes de paternidade e vínculo genético) e na área forense (investigação por DNA). 3 Além de sua especialização em citologia e hematologia, o biomédico é integrante essencial de equipes multidisciplinares, especialmente em radiologia ou imagenologia, onde atua sob supervisão médica, sem, no entanto, emitir o laudo final. Em neurocirurgias, participa do monitoramento neurofisiológico transoperatório, e o biomédico perfusionista é crucial em procedimentos cirúrgicos, operando a máquina coração-pulmão e monitorando as funções vitais do paciente. A pesquisa é outra área de destaque para o biomédico, especialmente na indústria, onde contribui para o desenvolvimento de materiais, reagentes, kits laboratoriais e equipamentos. Nesse campo, o sucesso depende de esforço, dedicação, capacidade de aprender e de aplicar o conhecimento. O escopo de atuação do biomédico é amplo e regulamentado pelo Conselho Federal de Biomedicina, que define áreas e competências. Diferentemente dos que se dedicam exclusivamente à pesquisa, os biomédicos que atuam como profissionais de saúde devem ater-se às atividades regulamentadas. Por exemplo, não podem atuar como cirurgiões, prescrever dietas ou trabalhar em farmácias de manipulação, pois não têm formação para isso. No entanto, podem contribuir significativamente no desenvolvimento de medicamentos, ainda que sem a formação específica de um farmacêutico. Assim, as áreas de pesquisa e atuação profissional apresentam universos distintos e complementares. TEMA 1 – ASSIM SURGIU A BIOMEDICINA NO BRASIL Em comparação com outras profissões da área da saúde, a biomedicina é relativamente recente no Brasil, tendo sido idealizada na década de 1950. A ideia ocorreu em Curitiba, durante a segunda reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, quando o Prof. Dr. José Leal Prado de Carvalho e representantes de instituições como a Escola Paulista de Medicina, a Universidade de São Paulo, o Instituto Butantã e o Instituto Biológico propuseram a criação de uma formação voltada para docentes especializados nas disciplinas básicas das escolas de medicina e odontologia, além de pesquisadores em áreas fundamentais e aplicadas da saúde. 4 O objetivo inicial era formar profissionais aptos a contribuir para o desenvolvimento da medicina e capacitar médicos, sem, contudo, desempenhar funções clínicas ou intervir diretamente no cuidado ao paciente. Eram basicamente professores e pesquisadores na área de saúde. Essa concepção foi o embrião da biomedicina. Esse momento é significativo na história da biomedicina, pois, embora o nome da profissão tenha semelhança com a medicina, o objetivo nunca foi realizar o trabalho médico. Nossa formação é direcionada para a capacitação de profissionais com conhecimento na área de saúde, com habilidades laboratoriais inicialmente e, hoje em dia, com algumas atuações fora do laboratório, mas não para o exercício da medicina. Embora os nomes sejam parecidos, nossas atuações são distintas. Na década de 1960, especificamente em 1965, começaram a ser organizados os cursos de graduação, mestrado e doutorado em Ciências Biomédicas, destinados a formar os profissionais idealizados anos antes. Em 1966, o Parecer n. 571 do Conselho Federal de Educação, órgão que então regulamentava a educação no Brasil, estabeleceu o conteúdo e a duração dos cursos de bacharelado em Ciências Biológicas – Modalidade Médica, que se tornou a designação inicial de nossa profissão. Esse parecer destacou a importância da atuação em trabalhos laboratoriais aplicados à medicina. À medida que as atividades laboratoriais tornavam-se mais complexas e exigentes, crescia a demanda por profissionais com formação específica e conhecimento técnico especializado. Em 1966, atendendo a uma solicitação de diversas escolas médicas do país, surgiram os primeiros cursos de Ciências Biológicas – Modalidade Médica. Muitos profissionais começaram a ser formados e, por não existirem tantos cursos superiores de saúde naquela época, os profissionais, devido a suas habilidades e conhecimento, começaram a ser absorvidos em laboratórios e na pesquisa. O reconhecimento dos egressos desses cursos impulsionou o movimento para a regulamentação da profissão, consolidando a biomedicina como uma nova especialidade a serviço da saúde pública. Inicialmente andávamos com os biólogos, obtínhamos o registro com os profissionais da biologia, porém devido à diferença de formação, a biomedicina foi justamente separada, em respeito aos biomédicos e aos biólogos, que também são profissionais excepcionais, mas são de fato “outro profissional” e 5 não a mesma coisa que o biomédico. Chega o momento então, na década de 1970, de desmembrar essas duas profissões. A regulamentação formal da biomedicina ocorreu em 1979 com as Leis n. 6.684 e n. 6.686, que definiram as diretrizes para o exercício da profissão. A Lei n. 7.135/1983 posteriormente alterou essas diretrizes, permitindo aos formados em Ciências Biológicas – Modalidade Médica, que ingressaram até julho de 1983, a realização de análises clínicas. O Decreto n. 88.394/1983, que regulamentou a profissão, também estabeleceu a atuação dos Conselhos Federal e Regionais de Biomedicina, enquanto a Resolução n. 86/1986 do Senado Federal ratificou o acordo no Supremo Tribunal Federal que assegurou o direito dos biomédicos de realizar análises clínico-laboratoriais. Com essas bases legais, a biomedicina consolidou-se como uma profissão distinta e essencial nocontexto da saúde no Brasil. A partir da regulamentação de 1983, os Conselhos Regionais de Biomedicina foram instituídos em 1989. Esses conselhos desempenham um papel fundamental na proteção dos interesses profissionais, bem como na fiscalização e na promoção do exercício ético e competente da biomedicina em diversas regiões do país. TEMA 2 – QUEM SÃO E O QUE FAZEM OS REPRESENTANTES DA BIOMEDICINA? Por se tratar de uma profissão regulamentada e legalmente reconhecida no Brasil, é fundamental compreender os órgãos que representam e defendem a categoria. Entre eles estão conselhos (federal e regionais), sindicatos e associações. Os conselhos são responsáveis pela fiscalização da profissão, regulamentação das habilitações e garantia de que os biomédicos atuem dentro das normativas legais. O Conselho Federal de Biomedicina (CFBM) tem a função de regulamentar a profissão, elaborando resoluções e diretrizes que norteiam a prática biomédica. Cabe ao CFBM definir as habilitações da profissão, enquanto os Conselhos Regionais de Biomedicina (CRBMs) asseguram que os biomédicos estejam atuando conforme as normativas legais e regulamentações vigentes em suas respectivas regiões. São os braços do CFBM fora de Brasília, onde fica a sede. 6 Figura 1 – Brasões do Conselho Federal de Biomedicina: o antigo, à esquerda, e o novo, à direita Os CRBMs trabalham de forma efetiva na fiscalização da prática profissional, verificando a atuação dos biomédicos em suas respectivas regiões e identificando possíveis infrações, como a prática da atividade por não biomédicos que se passam por profissionais habilitados. Caso um biomédico atue em uma área sem a devida habilitação, o CRBM tem autoridade para aplicar as sanções cabíveis. Até o momento, há seis conselhos regionais e esse número pode aumentar, caso seja necessário e com aprovação do Conselho Federal. Figura 2 – Brasões dos CRBMs: da esquerda para a direita, CRBM1, CRBM2, CRBM3, CRBM4, CRBM5 e CRBM6 As associações, por sua vez, são formadas por profissionais que se unem com o objetivo de valorizar e fortalecer a categoria ou uma área específica de atuação, promovendo o crescimento técnico-científico e a atualização contínua de seus membros. Existem várias associações das quais os biomédicos fazem parte, porém a principal é a Associação Brasileira de Biomedicina – ABBIOM. Figura 3 – Logotipo da Associação Brasileira de Biomedicina – ABBIOM 7 Os sindicatos, por sua vez, são organizações voltadas à defesa dos interesses dos trabalhadores, promovendo melhores condições de trabalho entre os empregadores, que possuem suas próprias associações. Entre as atribuições dos sindicatos estão o estabelecimento do piso salarial e a definição de parâmetros específicos para determinadas atuações profissionais. O sindicato auxilia na integração do profissional ao mercado, estabelecendo limites que os empregadores devem respeitar. Em algumas regiões do Brasil, ainda não há sindicatos específicos para biomédicos e, nesses casos, os conselhos regionais oferecem apoio limitado, pois certas atribuições são exclusivas dos sindicatos, como a negociação de acordos coletivos e a representação formal dos trabalhadores. Figura 4 – Símbolo do Sindicato dos Biomédicos do Estado de Pernambuco. Existem inúmeros outros e todos com a mesma finalidade: cuidar dos interesses trabalhistas Essas entidades oferecem benefícios como cursos, congressos, encontros de especialistas e até a possibilidade de realização de exames para obtenção do título de especialista em áreas específicas da biomedicina. TEMA 3 – O BIOMÉDICO Conforme discutido, o profissional biomédico surgiu com o objetivo de atuar como pesquisador e docente, obtendo rapidamente o direito de realizar análises clínicas. Desde o início, além dessas análises, os biomédicos também desempenhavam papéis na indústria e na academia, contribuindo para as ciências da saúde. Com o tempo, outras áreas foram regulamentadas e incorporadas ao rol de habilitações da biomedicina. 8 Figura 5 – Uma profissional laboratorista com microscópio, imagem clássica de uma biomédica Crédito: Drazen Zigic/Shutterstock. O CFBM é responsável por analisar pedidos e justificativas legais para a inclusão de novas habilitações, que são formalizadas por resoluções detalhando como o biomédico deve atuar em cada área reconhecida. Atualmente, existem 33 áreas de habilitação, atingindo mais de cem áreas de atuação, com possibilidades de expansão nos próximos anos à medida que o CFBM reconhece novas áreas de atuação do biomédico e expande as áreas em que esse profissional contribui com seu conhecimento. Para o exercício regulamentado de suas atividades, o biomédico deve atuar em conformidade com sua habilitação. O mercado de trabalho exige profissionais com formação robusta e conhecimento específico, e é importante diferenciar habilitação de especialização. Vamos explorar habilitações, pós- graduações, residências multiprofissionais e títulos de especialista conferidos por associações ou sociedades. Não há motivos para o(a) aluno(a) frustrar-se por não conseguir a habilitação durante os estágios da graduação (estágios obrigatórios e não obrigatórios, ambos supervisionados e com carga horária mínima de quinhentas horas, independentemente de qual seja a área, exceto aquelas que só podem ser obtidas através de pós-graduação). Existem outras formas de obtenção de habilitação como a pós-graduação, residências multiprofissionais, provas de títulos de entidades científicas, publicações e produtos gerados através de mestrados e doutorados. 9 A habilitação é uma autorização formal do CFBM permitindo que o biomédico desenvolva atividades específicas conforme as normas estabelecidas. Por exemplo, a Resolução n. 78, de 29 de abril de 2002, define o Ato Profissional Biomédico e estabelece as normas de responsabilidade técnica, permitindo que biomédicos realizem exames utilizando a técnica de reação em cadeia da polimerase (PCR – polymerase chain reaction), assumam a responsabilidade técnica e assinem laudos correspondentes. Logo, mesmo que o profissional seja apenas um bacharel habilitado, ele pode gozar de todas as permissões apresentadas no nosso ato biomédico. Contudo, nós professores sempre recomendamos que, mesmo habilitados, os alunos façam também uma pós-graduação, tornando-se profissionais especializados, e essa é a principal diferença do profissional biomédico: o nível de especialização de seu conhecimento. A técnica de PCR, amplamente utilizada em genética e biologia molecular, permite diagnósticos de mutações, detecção de cânceres hereditários, testes de paternidade, investigações forenses e muito mais. O biomédico habilitado ou especializado nessa área pode ser responsável técnico por esses laudos, tanto em setores públicos quanto privados, e prestar concursos públicos para cargos como perito criminal. Figura 6 – Termociclador, equipamento específico no qual são colocados os tubinhos com o mix de solução de PCR. A reação em cadeia da polimerase acontece nesse equipamento Crédito: Uvgroup/Shutterstock. 10 Para obter habilitação, o biomédico deve apresentar seu histórico escolar ao CRBM, que verificará se as exigências, como estágio supervisionado de quinhentas horas, foram cumpridas. Mudanças de habilitação após a graduação só são possíveis mediante especialização, obtenção de títulos emitidos por associações profissionais ou sociedades científicas reconhecidas pelo CFBM, residência multiprofissional ou apresentação de publicações geradas no mestrado e no doutorado. A pós-graduação lato sensu é uma especialização que aprofunda conhecimentos em áreas específicas, com carga horária mínima de 360 horas. Já os cursos stricto sensu, que incluem mestrado e doutorado, oferecem títulos acadêmicosque elevam o prestígio do profissional no meio acadêmico e no mercado, embora não sejam exigidos para habilitação, porém, como dito anteriormente, suas publicações e produtos gerados podem ser reconhecidos. Residências multiprofissionais, com carga horária de 5.760 horas (sessenta horas semanais), exigem dedicação exclusiva e são altamente valorizadas no mercado. Cada residente tem supervisão de um preceptor e de um tutor acadêmico, o que garante uma formação prática e aprofundada na área de atuação. É uma das melhores formas de aprofundar o conhecimento de forma especializada e aplicada. Mestrado e doutorado dão ao profissional um conhecimento muito aprofundado de determinada área, porém é um conhecimento e uma formação acadêmica. Os cursos de especialização e residência direcionam para a formação prática e aplicada, portanto é justo dizer que cabe ao profissional escolher e saber o que realmente quer: seguir a parte de rotina, prática e atuação direta com o público ou o mundo acadêmico da pesquisa e desenvolvimento. Ambas as escolhas são ótimas para o biomédico; cabe a cada um decidir o que quer seguir. Profissionais biomédicos podem obter títulos de especialista através de provas aplicadas por associações ou sociedades científicas, como a Associação Brasileira de Biomedicina – ABBIOM e a Sociedade Brasileira de Análises Clínicas – SBAC. Esses títulos, porém, não são permanentes e devem ser renovados periodicamente mediante comprovação de atividades na área, produção científica ou nova aprovação. 11 TEMA 4 – O BIOMÉDICO FORMADO FORA DO BRASIL Em diversos países, há profissionais com formação e atuação semelhantes às dos biomédicos brasileiros, embora com algumas diferenças em termos de nomenclatura e áreas de especialização. Esses profissionais, na maioria dos casos, atuam em laboratórios de análises clínicas e, dependendo de sua formação complementar, podem expandir suas atividades para outras áreas, de maneira similar ao que ocorre com os biomédicos no Brasil. Na Austrália, o Bachelor of Biomedicine possui uma atuação bastante semelhante à do biomédico brasileiro, porém sem habilitações em áreas como estética, perfusão extracorpórea e acupuntura. Os biomédicos australianos também se destacam em pesquisa e desenvolvimento no campo das ciências da saúde. No Reino Unido, o Biomedical Scientist é um dos profissionais mais comparáveis ao biomédico brasileiro em termos de formação. Sua atuação é equivalente, especialmente em análises clínicas e diagnósticos laboratoriais avançados, embora com um número menor de habilitações. Nos Estados Unidos, o biomédico caracteriza-se por uma formação com ênfase em áreas tecnológicas, incluindo engenharia, matemática e ciências computacionais. Isso se deve, em parte, ao fato de os EUA abrigarem o maior banco de dados de informações biotecnológicas do mundo, demandando profissionais altamente qualificados em bioinformática, entre outras especializações. Graduados em Bachelor of Science que direcionam seus estudos para as ciências biomédicas seguem um percurso semelhante ao brasileiro, mas posteriormente ingressam em programas de especialização nas áreas de saúde. No México, o biomédico é um profissional emergente, com uma formação fortemente orientada para a pesquisa científica. Muitos biomédicos mexicanos buscam especialização no exterior, frequentemente em programas de mestrado e doutorado, para complementar sua formação. A formação e a atuação dos profissionais biomédicos não são exclusivas dos países mencionados. Esses aspectos variam amplamente conforme as legislações e diretrizes educacionais de cada nação, refletindo as especificidades e demandas locais. 12 Chamam a atenção, quanto ao biomédico brasileiro, sua versatilidade e quantidade de áreas de atuação fora do laboratório, transformando-o em um dos mais versáteis e atuantes do mundo. TEMA 5 – A ATUAL BIOMEDICINA BRASILEIRA No Brasil, a biomedicina teve início predominantemente na área de análises clínicas. A partir da década de 1990, a profissão ganhou visibilidade e respeito, ampliando seu campo de atuação para diversas outras áreas. Atualmente, os biomédicos não se limitam aos laboratórios; atuam como gestores em serviços de saúde, incluindo laboratórios e hospitais, e como empreendedores, criando oportunidades com clínicas de acupuntura e estética. Figura 7 – Uma das ações mais lembradas em estética, porém não a única, é a aplicação da toxina botulínica Crédito: Fast-Stock/Shutterstock. Biomédicos também estabelecem laboratórios especializados, como aqueles que analisam a microbiologia ambiental, avaliando restaurantes (microbiologia de alimentos), lanchonetes e outros espaços de grande circulação. Também atuam em laboratórios de citologia, clínicas de reprodução humana e como integrantes de equipes médicas em cirurgias especializadas. Além disso, os biomédicos desempenham papéis relevantes em treinamento de atletas de alto rendimento e no desenvolvimento de novas tecnologias para a gestão de saúde e engenharia biomédica. 13 Figura 8 – Ação de plaqueamento de amostras em placas de Petri numa câmara de fluxo laminar, uma ação bem característica da microbiologia Crédito: Pratchaya.Lee/Shutterstock. A biomedicina é amplamente difundida no Sudeste do Brasil, onde teve início, mas também possui forte presença nas regiões Centro-Oeste e Nordeste. No Norte, há um crescente número de profissionais, enquanto a região Sul, a última a receber cursos de biomedicina, apresenta um crescimento anual significativo no número de biomédicos formados. O CRBM6 é atualmente o único responsável não por uma região (mais de um estado), mas apenas por um estado (Paraná). Figura 9 – O brasão do CRBM6 é o contorno do estado do Paraná A consolidação da biomedicina no Brasil, contudo, enfrenta desafios de reconhecimento em algumas localidades, principalmente devido à atuação majoritariamente nos bastidores da saúde, longe do contato direto com o público. Apesar disso, a demanda por biomédicos aumenta em resposta ao crescimento populacional e à necessidade de serviços especializados e eficientes. A profissão exige contínua especialização e atualização para acompanhar avanços tecnológicos e metodológicos. 14 Mesmo sem habilitação específica, muitos biomédicos ocupam cargos públicos em áreas de desenvolvimento científico, como a Embrapa, graças ao seu extenso conhecimento adquirido na graduação e em suas especializações. Além disso, biomédicos também se destacam em biotecnologia, bioinformática e ciências ômicas (genômica, transcriptômica, proteômica, metabolômica etc.), atuando como pesquisadores e integrantes de grupos de pesquisa, tanto no Brasil quanto no exterior. A biomedicina mantém um contato constante com o desenvolvimento tecnológico dos serviços de saúde, o que exige que o biomédico esteja sempre em evolução. Biomédicos formados há mais de duas décadas testemunharam a expansão da profissão para áreas como biologia molecular, acupuntura e estética, refletindo as demandas do mercado e o perfil multifacetado do profissional. Hoje em dia temos uma habilitação que está de acordo com as características nacionais. O Brasil está envelhecendo e a velhice traz consigo inúmeras questões de saúde, laboratoriais e de abordagem, fazendo da gerontologia biomédica uma moderna área da biomedicina que antes (vinte anos atrás) não era pensada e hoje se faz necessária. Figura 10 – A gerontologia biomédica é uma necessidade; os conhecimentos dos biomédicos são necessários em equipes multiprofissionais Crédito: Budimir Jevtic/Shutterstock. A área de perfusão extracorpórea também cresceu substancialmente, com biomédicos atuando em equipes neurocirúrgicas para monitoramento neurofisiológico transoperatório. A profissão exige dedicação aos detalhes e uma15 busca incessante por explicações científicas robustas, superando simplificações que não condizem com a complexidade do campo biomédico. Os biomédicos desempenham um papel crucial na interpretação de exames laboratoriais, compreendendo que os números apresentados nos resultados representam alterações fisiológicas ou patológicas, e não meramente valores de referência. Essa expertise inclui o entendimento de reações químicas, interações laboratoriais e a possível influência de variáveis que podem levar a resultados falso-positivos ou falso-negativos, impactando diretamente nas decisões médicas. Projeções indicam que, em 15 anos, a biomedicina será substancialmente diferente, refletindo a rápida evolução da ciência e exigindo profissionais preparados para aplicar conhecimentos em novos contextos. O profissional biomédico, além de seu papel histórico como pesquisador e docente, deve estar atualizado com as literaturas científicas, preferencialmente em inglês, a língua predominante da ciência, para acompanhar os avanços globais. Envolver-se em eventos científicos, minicursos, projetos de pesquisa ou extensão durante a graduação é crucial para o desenvolvimento profissional, oferecendo experiências que complementam e enriquecem o currículo tradicional de bacharelado, que se mostra breve para a vastidão da biomedicina. O mercado de trabalho busca biomédicos diferenciados, altamente especializados e capacitados para enfrentar os desafios de um campo em constante transformação. NA PRÁTICA Você já observou nos seus últimos exames quantos biomédicos assinaram o laudo? Ao verificar o laudo, abaixo do nome do responsável técnico, você encontrará o número de registro profissional no CRBM. Esse registro identifica o biomédico que, nos bastidores, foi responsável pela execução cuidadosa de seu exame. Já considerou buscar informações sobre biomédicos na mídia? Faça uma pesquisa na internet e explore as diversas contribuições e atividades que esses profissionais realizam. Compartilhe com seus amigos e familiares o que aprendeu sobre a biomedicina e a importância desse profissional no diagnóstico e cuidados em saúde. 16 FINALIZANDO Sua vida profissional começa agora. Seu empenho fará toda diferença. Os muito bons sempre serão lembrados; os muito ruins, também. Estude e trabalhe para ser sempre muito bom e estar entre os destacados. Anos de biomedicina nos ensinaram uma coisa: os bons estão muito ocupados para falar o quão contentes estão com seus trabalhos. Os ruins, que o mercado não quer e não irá absorver, têm tempo de sobra para falar dos outros e mal da profissão. Torcemos para que você se empenhe e fique bem ocupado, feliz, próspero e requisitado. 17 REFERÊNCIAS BRASIL. Conselho Federal de Biomedicina. Resolução n. 78, de 29 de abril de 2002. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 24 maio 2022. Disponível em: . Acesso em: 6 jan. 2025. _______. Conselho Federal de Biomedicina. Resolução n. 330, de 5 de novembro de 2020. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 6 nov. 2020. Disponível em: . Acesso em: 6 jan. 2025. CONVERSA INICIAL TEMA 1 – ASSIM SURGIU A BIOMEDICINA NO BRASIL TEMA 2 – QUEM SÃO E O QUE FAZEM OS REPRESENTANTES DA BIOMEDICINA? TEMA 3 – O BIOMÉDICO TEMA 4 – O BIOMÉDICO FORMADO FORA DO BRASIL Na prática FINALIZANDO REFERÊNCIAS