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AULA 2 PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL Profª Heloísa Monte Serrat Barbosa 2 INTRODUÇÃO Para falarmos a respeito do envolvimento da Psicomotricidade Relacional no desenvolvimento do ser humano, acredito ser muito importante iniciarmos com alguns aspectos neurológicos envolvidos com o desenvolvimento psicomotor do sujeito. O desenvolvimento neuropsicomotor é de grande importância e relevância para o desenvolvimento integral do sujeito. Um dos principais aspectos a serem beneficiados por esse desenvolvimento é o aspecto cognitivo, o qual depende do amadurecimento dos sistemas nervosos autônomo e voluntário para ocorrer de forma satisfatória. TEMA 1 – DESENVOLVIMENTO PSICOMOTOR E ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DO CÉREBRO Para iniciar este tópico, há a necessidade de esclarecer a importância do desenvolvimento do tônus muscular na vida do ser humano. O tônus muscular é a contração natural dos músculos que, de alguma forma, mantêm o sujeito em pé, por exemplo, ou preparado para uma ação súbita, como numa emergência. Mesmo durante o sono, o tônus muscular está ativo, menos que em vigília, mas está. Os estímulos para que o desenvolvimento do tônus muscular aconteça, são internos e externos. Os internos fazem parte dos estímulos que os neurônios provocam para que o tônus se desenvolva, em contrapartida, é essencial o estímulo externo para que essa ação se efetive de forma eficiente, assim o cérebro vai, aos poucos, amadurecendo e tornando o sujeito mais maduro, tanto em termos motores, quanto em termos psíquicos emocionais e sociais, pois somos sujeitos sistêmicos e não há como separar um aspecto do outro. Deve ser destacado o fato de que o sistema nervoso já está completo e funcionando adequadamente ao nascimento. O que ocorre é que este precisa ser aprimorado, o que ocorrerá principalmente no início da vida, a partir de estímulos sensoriais e motores. Vecchiato (2022, p. 35) coloca que: “A vida relacional e as experiências que a criança tem por meio do corpo e que aumentam gradativamente nos primeiros meses de vida estimulam cada vez mais o sistema nervoso que, por conseguinte, se desenvolve e melhora ainda mais sua estrutura”. 3 Por vezes a resposta a algum estímulo pode ser involuntária, automática, porém, diferente para cada pessoa, pois essa resposta motora será resultado das experiências vividas pelo sujeito, as quais podem ser, por exemplo, emocionais, mas individuais e específicas. Nesse sentido, a seguir, serão abordadas algumas etapas do desenvolvimento ontogenético1 do ser humano. 1.1 Reflexos Os reflexos, segundo Gallahue e Ozmun (2001), são ações involuntárias do corpo que ocorrem como reação a diversas formas de estímulos externos. Essa resposta provém da medula óssea e não do cérebro. Por esse motivo é caracterizado por ser um movimento involuntário. Os reflexos podem ser classificados reflexos primitivos, relacionados com a sobrevivência que tendem a desaparecer nos primeiros meses de vida e como posturais, precursores de movimentos voluntários. Alguns dos reflexos considerados primitivos são: • Moro; • Busca; • Sucção; • Palmar-mental; • Palmar-mandibular/ Babkin • Preensão palmar; • Preensão plantar; • Babinski. Já alguns dos considerados reflexos posturais são: • Marcha; • Escalada; • Tônico-cervical assimétrico (esgrimista). Como dito anteriormente, a tendência é a inibição desses reflexos, os quais vão em direção a movimentos rudimentares controlados. 1 Percurso do desenvolvimento pré-definido pela espécie. O percurso será diferente para cada indivíduo a partir das contribuições e influências do meio em que vive. 4 Após o estágio de inibição dos reflexos, grande parte progride para movimentos rudimentares e controlados, os quais serão detalhados a seguir. 1.2 Movimentos rudimentares Nos primeiros meses/anos de vida, de acordo com os mesmos autores, as crianças necessitam treinar os movimentos para que eles sejam realizados da maneira mais eficiente possível. Quando esse movimento é executado, mas não de forma madura, este é denominado movimento rudimentar ou imaturo. A maior parte dos movimentos rudimentares controlados é proveniente da evolução de alguns reflexos, portanto, para que sejam desenvolvidos esses movimentos, deve-se buscar a integração dos sistemas sensorial e motor, em busca do movimento objetivo controlado. No início, os primeiros movimentos realizados são em supinação e pronação. Os braços, na maioria das vezes em supinação, estão direcionados para cima. A movimentação dos braços e das pernas nesta posição é muito rica para a aquisição de futuras habilidades motoras, físicas, cognitivas, sociais e afetivas. Ao estender os braços e pernas, pode querer explorar o espaço, a si mesmo ou estabelecer relações com o que ou quem esteja a sua volta. O movimento de supinação pode transitar pela posição pronada ou sentada. A posição pronada é de extrema importância para o desenvolvimento e o fortalecimento musculoesquelético. Ao tentar erguer a cabeça e, posteriormente, o peito do chão, a criança forma um arco dorsal que, lhe permite, quando preparada, ir para a posição quadrúpede. Enquanto ainda não a realiza, desliza pelo chão na posição pronada, o que possibilita que explore ao máximo o ambiente e suas possibilidades e capacidades corporais. Esta última questão citada é realizada em todas as fases do desenvolvimento, porém os níveis de complexidade vão aumentando. Nesta posição, ainda, realiza o reconhecimento de si e das possíveis relações que pode realizar com pessoas ou objetos. Nas posições de quadrupedia e ereta, as sensações que ocorrem nas posições supinada e pronada são as mesmas. Devemos levar em conta que em um primeiro momento o movimento, qualquer que seja, é realizado de maneira rudimentar. A partir do momento em 5 que a criança esteja em condições psicomotoras mais maduras, ela evolui para outro movimento mais complexo que, inicialmente, será realizado de maneira rudimentar até seu amadurecimento e assim sucessivamente, com relação à evolução das posturas e formas de locomoção e manipulação dos objetos. 1.3 Movimentos aprimorados controlados Devemos levar em conta que, a partir dos pensamentos de Szanto (Citado por Falk, 2021), em um primeiro momento, o movimento, qualquer que seja, é realizado de maneira rudimentar. A partir do amadurecimento das condições psicomotoras, ele evolui para outro movimento mais complexo. O amadurecimento das condições psicomotoras acontece durante toda a existência. Na infância, essa evolução é mais perceptível, já na vida adulta é mais sutil. Deve- se levar em conta que o ser humano está sempre em evolução em todas as suas dimensões, quer seja psicomotora, cognitiva, afetiva, social... Na infância, essa evolução é mais facilmente observada analisando a evolução das posturas e formas de locomoção e manipulação dos objetos. 1.4 Estágio pré-controle Para Gallahue e Ozmun (2001), este estágio tem seu desenvolvimento durante o período entre 1 e 2 anos de idade, neste período deve haver a prática e o consequente domínio de muitas tarefas rudimentares. Com o passar do tempo, a criança inicia o controle de seus movimentos. Para que esse intento seja favorável e eficiente, o adulto deve promover a integração dos sistemas sensorial e motor para que esses aspectos se desenvolvam de maneira satisfatória e, assim, possam contribuir com o desenvolvimento do sujeito. Para que essa integração aconteça, há a necessidade de incentivar a criança a realizar todos os movimentos, mesmo que rudimentares. Os estímulos sensoriais e motores são fundamentais para a superação dessa etapa do desenvolvimento. 1.5 Ambiente Ambiente no qual a criança vive e convive deveser acolhedor, compreensivo, que ensine e que possibilite as diversas formas com as quais as 6 crianças podem explorá-lo. Todos os ambientes que a criança frequenta devem favorecer os estímulos que desenvolvam todas as dimensões citadas acima. Essa variedade de possibilidades contribui para que a criança experimente diferentes movimentos, formas de se locomover e manipulações. Para Emmi Pikler, citada por Soares (2017), o ambiente mais adequado para promover o desenvolvimento da criança deve assegurar “as condições necessárias para a movimentação livre e o brincar independente” (p. 18). Ao adulto cabe transmitir afeto (no sentido de afetar, não somente uma relação carinhosa), conversar com a criança, respeitar seu ritmo individual e não querer apressar o desenvolvimento das habilidades motoras. Há uma grande tendência de o adulto fazer comparações de processos de aquisição de conhecimento, quer seja cognitivo, social ou psicomotor. Quando há essa comparação, não se está respeitando o ritmo da criança, não que seja para ela aprender tudo sozinha, obviamente, devemos oferecer estímulos para que ela se desenvolva mais e melhor, mas estes devem ser possíveis de serem transpostos, pois corre-se um grande risco de causar um efeito contrário e a criança não querer mais olhar para aquela atividade ou vivência. Nos momentos em que a criança está sendo cuidada pelo adulto, ela deve ser atuante no processo, não ficar passiva esperando que tudo se apronte. “Momentos dos cuidados, para Pikler, representam a melhor oportunidade para a construção de um vínculo afetivo entre a criança e o adulto de referência (Soares, 2017, p. 18). Com essa vinculação afetiva sendo construída, a criança, com certeza, terá mais coragem e confiança para arriscar-se. Sabendo que, mesmo que falhe em seu intento, tem uma referência que estará por perto como apoio. 1.6 Desenvolvimento de habilidades motoras Quando falamos em desenvolvimento das habilidades motoras, concordamos com Vecchiato (2022) quando diz que devemos estar atentos em uma questão muito importante: esse desenvolvimento depende de fatores tais como maturação neurológica, tarefa, ambiente e indivíduo. • Maturação neurológica: está ligada com a intensidade e frequência das sinapses; 7 • Tarefa: é importante ter a tarefa bem clara para que o sujeito possa aprender a se organizar corporalmente, com seu pensamento, entre outras organizações necessárias; • Ambiente: necessário estar organizado de forma que promova ações para que o desenvolvimento de tais habilidades ocorra com eficiência; • Indivíduo: é o sujeito da ação. Seu desenvolvimento dependerá de fatores individuais e coletivos de acordo com suas experiências e vivências. TEMA 2 – ESTABILIDADE/LOCOMOÇÃO / MANIPULAÇÃO Os desenvolvimentos desta tríade estabilidade, locomoção e manipulação andam juntos. A estabilidade e a manipulação têm seus desenvolvimentos quase que simultâneos. Já a locomoção depende, principalmente da estabilidade para acontecer. 2.1 Estabilidade Quando falamos da estabilidade, podemos dizer que é uma constante luta contra a força da gravidade (Gallahue; Ozmun, 2001). Essa estabilidade não é observada somente quando a criança vai aprender a andar, mas está presente em todo o processo: quando, depois de muitos estímulos, a criança sustenta o pescoço e levanta o peito do solo deitada de bruços; quando consegue estabilizar- se ao sentar-se sem apoio nas costas, ou quando estabiliza-se na posição dita 4 apoios (posição de engatinhar); ou quando consegue se equilibrar em pé para poder dar os primeiros passos. Observando esse processo chega-se à conclusão de que o ser humano apresenta o desenvolvimento céfalo-caudal (da cabeça para os membros inferiores. Dentro dessa premissa, começamos pelo controle da cabeça e do pescoço, o que, usualmente, ocorre por volta do final do 1º mês de vida. A cabeça da criança fica ereta apoiada na base do pescoço e ela é capaz de erguer o queixo acima do chão/colchão (pronação – barriga para baixo). Para as próximas aquisições de habilidades motoras mais complexas, deve-se atentar ao controle do tronco – controle dos músculos das regiões torácica e lombar. A partir do 2º mês de vida, aproximadamente, quando a criança é segurada no colo, faz ajustes posturais, pois, em caso de ter sido estimulada de forma adequada, já consegue sustentar seu tronco sem “amolecer”. Por volta do 8 final do 2º mês de vida, a criança já pode erguer o peito do chão quando estiver em pronação. Com o passar do tempo, realizando as vivências, principalmente corporais, necessárias, por volta do 5º mês a criança já é capaz de erguer a cabeça do colchão quando estiver em supinação, virada de barriga para cima. Dentro deste processo, o desenvolvimento esperado é que a criança adquira a capacidade de virar da posição supinada para a pronada a partir do 6º mês, porém, o contrário precisa de um aprimoramento de movimentos e controle maior dos movimentos e forças dos braços e músculos do tronco, por isso, ocorre mais tarde. O ato de sentar-se de forma madura requer controle completo do tronco. No 4º mês, a criança já se senta com apoio na lombar. Se estimulada, por volta do 7º mês já se senta sozinha. O fato de sentar-se já lhe permite maior liberdade e controle dos braços e mãos, podendo alcançar os objetos que deseja com mais facilidade. Essa liberdade contribui para que possa manipular mais e melhor os objetos que estão à sua volta. Com o corpo desenvolvido nesses quesitos e fortalecido, a próxima etapa é a criança começar as tentativas de ficar em pé. Isso só ocorre quando já há um pleno controle da musculatura global. As 1ªs tentativas ocorrem por volta do 5º mês. Nesse período, a criança, com a ajuda do adulto, experimenta essa forma de ver o mundo. Por volta do 9º, 10º mês, a criança já consegue segurar-se em móveis, levantar-se da posição sentada para em pé, usando-os como apoio e permanecer sozinha nessa posição. Entre 11º e 13º mês, levanta-se sem auxílio, de um adulto ou de móveis, da posição deitada à ereta e, aos poucos, vai arriscando caminhar. Gostaria de adicionar uma informação importante para todo e qualquer processo de desenvolvimento, seja ele psicomotor, afetivo, cognitivo, social... É de extrema importância a relação direta da aprendizagem com os estímulos. Em um primeiro momento, pode-se acreditar que estes são somente de origem externa, “de fora para dentro”, ou seja, alguém mais experiente estimula o menos experiente. Porém, esse estímulo também pode ter origem interna. A partir do momento que existe o desejo de aprender determinada questão, também pode- se observar a motivação interna. Algumas vezes necessita de um pouco de ajuda externa, mas a base da motivação, do estímulo, é interna. 9 2.2 Locomoção A locomoção é o movimento da pessoa pelo espaço (Gallahue; Ozmun, 2001), acontece quando o corpo já está estável em determinada posição. Portanto, para haver a locomoção é necessária a estabilidade. A partir do momento que se encontra o centro de gravidade, ou que os músculos necessários já estiverem fortalecidos o suficiente, o sujeito é capaz de se locomover. Também não podemos pensar na locomoção apenas no que se refere ao caminhar. A locomoção também acontece quando a criança se arrasta ou engatinha. Iniciando, então, pelo ato de arrastar-se. Esse ato acontece a partir das 1ªs tentativas objetivas de locomoção, quando a criança ainda está de bruços (posição pronada). Essa tentativa ocorre por volta do 4º ao 6º mês, quando há o intuito de alcançar objetos. Como já dito, com a evolução a partir de estímulos, a criança passa a fazer tentativas de engatinhar, a partir, na maioria das vezes, da posição sentada, entre 6 e 10 meses. A criança só estará apta a engatinhar se ela já tiver desenvolvido os pré-requisitosadquiridos no processo de arrastar. No ato maduro, há a alternância dos braços e pernas. “Restringir uma criança em carrinhos e cadeiras, [...] é uma estratégia de cuidado, embora prejudique o desenvolvimento motor dos lactentes” (Hermes, et al., 2021, p. 13). Bebês que não arrastam ou não engatinham podem vir a apresentar imaturidade no desenvolvimento neurológico e, com isso, existe a possibilidade de apresentarem, no decorrer de sua vida produtiva, dificuldades nas áreas motora, perceptiva, de linguagem, entre outras. “Na idade do desenvolvimento, o que favorece o processo de amadurecimento e, principalmente, a dimensão corporal” (Vecchiato, 2022, p. 39). Com relação ao caminhar, parte-se da postura ereta, a partir dela ocorrem as primeiras tentativas de andar de forma independente (10º e 15º mês). Pensando nesse intento, assim como no engatinhar, o equilíbrio deixa de ser estático e passa a ser dinâmico. No caso do ato de andar, um pouco mais difícil de ser encontrado do que no engatinhar. A criança larga base de apoio e, aos poucos encontra o ponto de equilíbrio, centro de gravidade, e começa a praticar. Entre acertos e tentativas de acertos vive momentos de potência e de frustração, também muito importantes para o desenvolvimento global. 10 Durante esse processo, inicialmente anda com os pés virados para fora e joelhos levemente flexionados. Com a prática, passa a organizar melhor sua postura até o andar maduro, quando os membros inferiores e superiores se alternam para que o equilíbrio seja ainda mais eficiente. 2.3 Manipulação Segundo o dicionário on-line Aurélio, manipular pode ser considerado como ato de tocar, segurar ou transportar com as mãos. Também pode ter relação com manejo, utilização. Ou ainda, uma série de movimentos das mãos, feitos com destreza.2 Partindo desse princípio, iremos utilizar este termo nos sentidos acima descritos e vamos relacionar com as habilidades alcançar, segurar e soltar. O desenvolvimento deste aspecto da Psicomotricidade depende da maturação neurológica e dos estímulos oferecidos. 2.3.1 Alcançar Para que o sujeito manipule objetos ele precisa, inicialmente, alcançá-los. Nesse sentido o desejo de alcançar, mobiliza a estabilidade e a locomoção. Para pensarmos no desenvolvimento desse aspecto, podemos pensar da seguinte forma: por volta dos 4 meses, a criança faz ajustes manuais e visuais refinados quando pega algum objeto, ou seja, quando entra em contato pelo toque das mãos. Já por volta do 5º mês, a criança é capaz de alcançar e tocar o objeto para então manipulá-lo. Conforme a variedade de objetos, de estímulos e de vivência, a criança adquire maior repertório psicomotor para desenvolver outros aspectos, sejam eles psicomotores, cognitivos ou, até mesmo, afetivos. 2.3.2 Segurar Para segurar, a criança precisa utilizar a musculatura fina, ou seja, os músculos pequenos de suas mãos são acionados. Antes do 9º mês a criança 2 https://www.google.com/search?q=manipular+significado+aurelio&rlz=1C1JZAP_pt- BRBR844BR844&sxsrf=APwXEdfR2rMLvM8pJpMqM2Gn- VGoasp_2g%3A1683807023014&ei=L9tcZPI7wMjWxA- Dha2IBA&oq=Manipular&gs_lcp=Cgxnd3Mtd2l6LXNlcnAQARgDMgcIIxCwAxAnMgoIABBHENYE ELADMgoIABBHENYEELADMgoIABBHENYEELADMgoIABBHENYEELADMgoIABBHENYEELA DMgoIABBHENYEELADMgoIABBHENYEELADMgoIABBHENYEELADMgoIABCKBRCwAxBDSg QIQRgAUABYAGCzGGgBcAF4AIABAIgBAJIBAJgBAMgBCsABAQ&sclient=gws-wiz-serp 11 manipula o objeto de forma que ele, por vezes, não fica tão firme em sua mão. A partir deste tempo, aproximadamente, a criança inicia o uso do dedo indicador para segurar, o que dá muito mais firmeza e segurança para manter o objeto em seu poder. A partir do 10º mês, a criança é capaz de estabilizar-se, locomover-se, alcançar e segurar objetos. Esse movimento passa a ser contínuo e vai ficando cada vez mais eficiente, partindo do princípio de que haja estímulo para que isso ocorra. Com essa habilidade sendo desenvolvida, por volta do 18º mês a criança já é capaz de comer sem ajuda, ainda sem muita destreza, porém, com a prática, vai modulando o tônus e construindo seu esquema corporal para ficar cada vez mais hábil nesta tarefa. 2.3.3 Soltar A habilidade de soltar vai sendo ajustada nos primeiros meses de vida da criança, visto que, no início, ela somente lança os objetos. O que pode transformar essa ação em estímulo é quando o adulto (se for possível naquele momento) pega o objeto, entrega novamente para a criança e ela lança mais uma vez. Aos poucos, o adulto vai ensinando à criança modular o tônus para que, aos poucos, ela aprenda a soltar com delicadeza. A partir do 14º mês, aproximadamente, a criança já domina o corpo no sentido de conseguir soltar objetos. Encher um frasco com pedras, construir torres com blocos, arremessar bolas, virar as páginas de um livro – movimentos que ajudam no desenvolvimento desta aquisição. Por volta do 18º mês a criança bem estimulada já domina os três aspectos manipulativos, podendo ser, ainda, de forma rudimentar. TEMA 3 – DESENVOLVIMENTO COGNITIVO O desenvolvimento cognitivo está intimamente ligado com o desenvolvimento psicomotor, visto que este promove amadurecimentos neurológicos importantes para a aquisição de quaisquer conhecimentos. Para compreendermos melhor, vou usar aqui uma teoria trazida por Enrique Pichon-Rivière (1998) e difundida por Jorge Visca (2010). Quando vamos aprender alguma coisa ou entramos em contato com algo muito novo ou emergencial, passamos por alguns processos. 12 Em um primeiro momento ficamos sem saber o que fazer ou o que pensar, em um estado, dito, confusional, de indiscriminação. Tudo embaralhado, confuso. A partir de intervenções ou de autorregulação, passamos para a outra fase que é a dissociação, na qual separamos o que está confuso e damos a elas valências positivas ou negativas. Após essa separação e identificados os aspectos que foram dissociados, fazemos, por meio de intervenção, ou não, a integração do conhecimento ou da situação. Então, como a aprendizagem e a construção do conhecimento é cíclica, outra confusão acontece e o processo é realizado novamente, porém, o sujeito já está diferente de antes e passa pelo mesmo processo com outros elementos que passaram a constituí-lo. Esse processo todo gera condutas e ansiedades que vão sendo vividas e amenizadas conforme o processo vai acontecendo. Em um primeiro momento, a conduta é mais dependente e a ansiedade é causada pela confusão. Num segundo momento a conduta é dissociativa mantendo a valência positiva dentro e a negativa fora, ou vice-versa; trazendo uma ansiedade relacionada ao medo de que o novo conhecimento ataque o conhecimento já existente. No terceiro momento, a conduta é reflexiva, na qual o sujeito para, repensa suas ações e faz as reflexões possíveis para promover a integração do objeto de conhecimento. Essa teoria nos faz pensar que em casa fase de desenvolvimento existem esses processos e cabe à pessoa que está à frente deles ajudar o sujeito a se organizar da melhor forma. 3.1 Níveis de desenvolvimento intelectual segundo Piaget Dentro disso explano a seguir um pouco da teoria que o Piaget traz com relação ao desenvolvimento cognitivo e algumas questões práticas que podem ser realizadas para contribuir com o processo. Ao nascer, a criança encontra-se em um estado de indiscriminação, como explicado acima, com o mundo que a rodeia. Portanto a convivência com o mundo externo é essencial. Nesse sentido, cabe salientar que a inteligência não é inata e nem adquirida, construída. É, então, resultado de construções devido à interação do sujeito com o meio em que vive. Esse desenvolvimento permeia 4 níveis: Sensório motor, pré-operatório, operatório-concreto e operatório-formal. 13 3.1.1 Sensório-motor Essa fase, segundo Piaget (citado por Inhelder; Cellérier, 1992) é vivenciadadesde nascimento até 1 ano e meio/2 anos de idade, nela as ações são somente de exploração do ambiente, não têm representação simbólica. A criança ainda não sabe “fazer de conta”. Precisa entender seus movimentos, seu corpo, os objetos para desenvolver, aos poucos, a capacidade de simbolizar. A questão afetiva3 também é muito importante neste processo, pois o afeto é o “combustível” que alimenta o “motor”, que é o desenvolvimento intelectual e cognitivo. 3.1.2 Pré-operatório Pré-operatório: de 2 a 7/8 anos de idade. Nesta fase já existe uma representação simbólica, ou seja, os objetos com os quais as crianças brincam passam a ser coisas que eles não são. Por exemplo, uma caixa de papelão passa a ser uma toca, ou um avião, ou uma cama, ou qualquer outra coisa que a imaginação quiser. Para isso a criança precisa ter repertório imaginativo. Os adultos que convivem com ela, devem ensiná-la a representação dos objetos, os quais ela passa a distinguir significante (imitação) de significado (objeto imitado). 3.1.3 Operatório concreto O pensamento já começa a desenvolver determinada estrutura que permite à criança reconhecer aspectos no ambiente que podem assumir outras formas, porém, sabe que continuam os mesmos, por exemplo quando uma massinha de modelar assume o formato de bola e depois de minhoca, a criança entende que continua a mesma massinha de modelar e a mesma quantidade de massinha. Nesse momento, com a idade por volta dos 7 anos, indo até por volta dos 11, ela oferece argumentos que nos fazem entender se ela superou ou não esta fase. A área de estudos que analisa essa questão com mais profundidade é a Psicopedagogia. 3 Isso em todo o processo de aquisição de conhecimento, desde criança até adulto. 14 3.1.4 Operatório formal/hipotético dedutivo Durante esta fase do desenvolvimento cognitivo, o sujeito deve ter por volta de 11 anos de idade. Acredita-se que o desenvolvimento desse nível amadurece por volta dos 15 anos de idade. O pensamento do sujeito que se encontra neste nível de desenvolvimento apresenta o pensamento independente do concreto, ou seja, consegue abstrair e entender as informações sem que elas estejam explicitamente em sua frente. TEMA 4 – ATIVIDADES E FUNDAMENTOS PARA CADA NÍVEL DE DESENVOLVIMENTO A seguir colocarei algumas atividades psicomotoras que podem ser trabalhadas em cada fase e acrescento alguns dos aspectos psicomotores que serão trabalhados a partir delas. Sinalizo aqui a importância de se trabalhar essas atividades com foco principal no aspecto lúdico, ou seja, devem ser realizadas em forma de brincadeira, para que a aprendizagem não seja mecanizada, e sim, autêntica. 4.1 Atividades (Nível – Sensório-motor) Pensando que a criança está em um período de exploração do ambiente e das possibilidades e capacidades de seu corpo, destaco algumas atividades que podem ser desenvolvidas: 1. Atividade de encaixe de peças grandes em orifícios igualmente grandes de diferentes tamanhos e formas. As peças a serem encaixadas podem acompanhar os tamanhos e formas dos orifícios; 2. Movimento de exploração dos ambientes de convivência da criança. Utilizando objetos para que a criança percorra e conheça os espaços; 3. Atividades de esconder-se atrás de armários, sofás, portas, cortinas, ou quaisquer outros aparatos; esconder-se dentro de caixas, armários etc. 4.2 Fundamentos Trabalhados (Nível – Sensório-motor) Essas atividades permitem o desenvolvimento dos aspectos visuais, psicomotores, cognitivos e sociais, sendo alguns deles: 15 1. Coordenação viso-motora; 2. Orientação espaço-temporal; 3. Preensão; 4. Movimento de pinça; 5. Coordenação motora fina; 6. Coordenação motora ampla; 7. Percepção corporal; 8. Construção da imagem mental; 9. Desenvolvimento da imitação diferida; 10. Vivência de frustração; 11. Vivência de momentos em que se percebe capaz; 12. Superação de desafios; 13. Atividades cooperativas; 14. Etc. 4.3 Atividades (Nível – Pré-operatório) Partindo do princípio de que estamos buscando o desenvolvimento dos aspectos simbólicos, devemos realizar atividades que envolvam o faz de conta e o fato de dar significados e funções diferentes das usuais, de determinados objetos. Nesse sentido, algumas atividades que podem ser desenvolvidas: 1. Construção de objetos utilizando materiais recicláveis; 2. Dar um significado diferente a determinado objeto, por exemplo, uma fila de cadeiras ser um trem; 3. Utilização de objetos mais estruturados para a criação de histórias; 4. Utilização de objetos não estruturados para a construção de cenários para essas histórias; 5. Jogos cooperativos etc. 4.4 Fundamentos Trabalhados (Nível – Pré-operatório) Os mesmos dos anteriores em escala mais complexa, podendo ser encontrados outros aspectos que sejam aprimorados com as brincadeiras acima citadas e também as que envolvam o jogo simbólico (faz de conta), por exemplo: brincadeiras de escritório, de mercado, de hospital, de escola ou de qualquer outra brincadeira que possibilite o desenvolvimento da imaginação: 16 1. Organização do pensamento; 2. Noção de tempo – ontem, hoje e amanhã; 3. Estruturação cognitiva para compreender a imaginação e o imaginado, entre outros. 4.5 Atividades (Nível – Operatório-concreto e operatório-formal) Neste momento, as brincadeiras e jogos devem ser: 1. Brincadeiras estruturadas que permitam os movimentos amplos e finos (brincadeiras de correr e pegar, jogos de tabuleiro, entre outros); 2. Brincadeiras espontâneas4 com materiais estruturados e não estruturados; 3. Atividades artísticas que envolvam desenhos, pinturas, modelagens; 4. Jogos competitivos e cooperativos5. 4.6 Fundamentos Trabalhados (Nível – Operatório-concreto e operatório- formal) Os mesmos dos anteriores em escala mais complexa, podendo ser encontrados outros aspectos que sejam aprimorados com esses jogos, brincadeiras e atividades. TEMA 5 – AQUISIÇÃO DE CONHECIMENTO SEGUNDO JEAN PIAGET No momento em que estamos com o foco na Psicomotricidade, sendo ela na abordagem relacional ou não, devemos ter em mente que toda a aprendizagem passa pelas etapas que Piaget nos traz da organização estrutural dos conhecimentos: assimilação, acomodação e adaptação. Para Inhelder e Cellérier (1992, p. 31), preconizou-se uma mudança no foco do estudo da psicologia genética, “[...] em lugar de estudar os funcionamentos do pensamento, Piaget interessou-se pela organização estrutural dos conhecimentos do sujeito, tal como se pode inferir a partir das suas condutas e suas respostas”. Portanto, na etapa da assimilação, o aprendiz tem contato com o novo conhecimento; ele recebeu-o, mas ainda não está integrado. Na etapa de 4 São as brincadeiras não dirigidas, criadas pelas crianças e que possibilitam aumento de repertório criativo e de execução de atividades e tarefas do dia a dia. 5 Jogos que envolvam a cooperação e a competição. 17 acomodação o sujeito acomoda aquelas novas informações, o que pode ou não “confrontar” com o conhecimento já adquirido. E, “por fim” a equilibração que, ainda segundo os mesmos autores, descreve “[...] um sujeito activo, o qual compensa as perturbações resultantes de sua interacção com o ambiente e as integra no seu sistema cognitivo, ultrapassando-as.” Em outras palavras, depois que o sujeito teve contato com um novo conhecimento e este “entrou” em processo, haverá a interação desse sujeito com o meio em que vive e as relações que pode realizar entre esse novo conhecimento e suas vivências internas e externas, ocasionando a integração deste novo conhecimento. O que ocorre é que esse processo é contínuo. A partir do momento que um novo conhecimento é apresentado, o mesmo ocorre para que o conhecimento, ora apresentado, também seja integrado. Diferentes sujeitos apresentam diferentes ritmos parasuperar todas as etapas de aprendizagem. Portanto, precisamos ficar atentos no caso da não superação de determinada etapa, se está dentro do esperado, ou não. Quanto maior o número de possibilidades e oportunidades de reconhecimento do mundo, mais repertório a criança vai criando para desenvolver-se. 18 REFERÊNCIAS FALK, J. Educar os três primeiros anos: A experiência de Pikler-Lóczy. São Carlos: Pedro & João Editores, 2021. FONSECA, V. da. Psicomotricidade: perspectivas multidisciplinares. Lisboa: Âncora Editora, 2001. GALLAHUE, D.; OZMUN, J. Compreendendo o Desenvolvimento Motor. São Paulo: Phorte, 2001. HERMES, L. et al. Sazonalidade e fatores de risco associados ao desenvolvimento motor de lactentes nascidos a termo. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, v. 29, 2021. Disponível em: . Acesso em: 19 jun. 2023. INHELDER, B.; CELLÉRIER, G. O percurso das descobertas da criança. Lisboa: Instituto PIAGET, 1992. PICHON-RIVIÈRE, E. Psicologia da vida cotidiana. São Paulo: Martins Fontes, 1998. SOARES, S. Vínculo, movimento e autonomia – educação até 3 anos. São Paulo: Omnisciência, 2017. VECCHIATO, M. O jogo psicomotor: psicomotricidade psicodinâmica. Rio de Janeiro: WAK Editora, 2022. VISCA, J. Psicopedagogia: novas contribuições. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. _____. Clínica Psicopedagógica: Epistemologia Convergente. Trad. Laura Monte Serrat Barbosa. 2. ed. São José dos Campos: Pulso Editorial, 2010. _____.Mosaico psicopedagógico – textos e reflexões. In: KIELMANOWICZ, R; BARBOSA, L. M. S. (Org.). São José dos Campos: Pulso Editorial, 2015.