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AULA 1 PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL Prof.ª Heloísa Monte Serrat Barbosa 2 INTRODUÇÃO A psicomotricidade relacional apresenta alguns aspectos importantes para o desenvolvimento interno do sujeito. Tais aspectos podem ser utilizados como fundamentos por diversos profissionais, como educador físico, psicólogo escolar, psicomotricista, ou ainda quaisquer áreas de atuação que possam ser favorecidas por esses fundamentos. Alguns deles podem fazer parte do dia a dia de todos os profissionais que trabalham com indivíduos e/ou grupos. Tais profissionais podem se beneficiar desses fundamentos, na medida em que se comunicam, ou orientam as pessoas com as quais estão trabalhando. No ambiente escolar, tais fundamentos podem ser de grande valia para o trato dos profissionais com os aprendizes e as relações entre os profissionais de todos os departamentos da escola. TEMA 1 – PSICOMOTRICIDADE É importante contextualizar a psicomotricidade relacional dentro da história. Portanto, vamos estudar o “surgimento” da psicomotricidade, para posteriormente avaliar o “surgimento” da psicomotricidade relacional. Na França tiveram início os principais estudos a respeito da psicomotricidade. Porém, muitos conceitos foram sendo criados para até chegar nesse patamar de construção e desenvolvimento das questões da psicomotricidade. Segundo Morizot, citada por Prista (2010), o termo psicomotricidade usado pela primeira vez pelo psiquiatra e neurologista alemão Carl Wernicke (1870), em estudos a respeito das afasias1. Posteriormente, Ernest Dupré (1907) trabalhou o conceito de psicomotricidade na relação entre o psiquismo e a motricidade, sem necessariamente considerar deficiências e lesões cerebrais. Por volta de 1925, alguns trabalhos de Henri Wallon buscaram enfatizar o comportamento tônico ligado à emoção e à estruturação do caráter, considerando o movimento como a primeira estrutura de relação com o meio. Junto com os trabalhos de Dupré, essas estudos marcaram o início da escola francesa de psicomotricidade. 1 A afasia é uma disfunção que faz com que o paciente tenha dificuldade de se comunicar adequadamente, afetando a compreensão de imagens, sons e outros tipos de expressão. 3 A psicologia e a psicanálise passaram a incorporar os estudos a respeito da psicomotricidade entre as décadas de 1920 a 1940. Tais estudos foram realizados por autores como Jean Piaget (1936), Arnold Gesell (1925-1930), Georges Heuyer (1925), Edouard Guilmain (1935) e Paul Schilder (1941). A partir de necessidades teórica e prática da psicomotricidade, Julian de Ajuriaguerra (1947) agregou as teorias de Dupré, Wallon e Piaget. O autor passou a perceber o corpo e os seus movimentos como integração entre o desenvolvimento práxico, o corpo propriamente dito e as possíveis relações que podem advir desses elementos. Contextualizando, a palavra práxico deriva de praxia, que Bernal (2018, p. 21) define a partir das ideias dos autores Mailloux e Roley, Ayres, Schaaf e Roleye Chang e Yu: É a habilidade de ter uma ideia, planejar sobre uma futura e nova atividade que envolva a decisões do que fazer e como fazer [...] Praxia é a habilidade de contextualizar, planejar e completar ações motoras com sucesso em situações novas, é uma habilidade natural que se desenvolve conforme a criança tem interações de sucesso com pessoas e objetos no ambiente e sustenta a capacidade da criança de aprender novas habilidades: assistindo, imitando ou explorando [...]. É a capacidade de criar ideias sobre como agir e interagir com o meio ambiente e executar os planos de ação, assim, tem envolvimento de três áreas: ideação (a ideia), planejamento (reunindo as etapas e a sequência do que precisa ser feito) e a execução da ação (a fase motora), estas fases, trabalham juntas para permitir que o indivíduo organize seu comportamento no tempo e no espaço. [...] praxia refere- se à capacidade de realizar ações motoras complexas aprendidas. Para estes autores, ao avaliar crianças, é essencial determinar se uma tarefa foi previamente aprendida e desempenhada para entender a origem de um déficit de práxis. Para observar o desenvolvimento das praxias, nada melhor do que observar as brincadeiras das crianças e o envolvimento nas atividades do dia a dia. Retomando o histórico da psicomotricidade, gradativamente os estudos se distanciaram das questões neurológicas e orgânicas, pois passaram a levar em conta o desenvolvimento das questões psicofisiológicas relacionadas às emoções e ao desenvolvimento afetivo. A palavra psicomotricidade, assim definida no início dos estudo, perde o hífen, de modo a valorizar o afastamento do pensamento dualista. Assim, ela passa a ser escrita como psicomotricidade. No final da década de 1950, foram muito difundidas técnicas reeducativas que apresentavam relação com debilidades psicomotoras, em especial por parte dos pesquisadores Ajuriaguerra, Diatkine e Lebovici. 4 As novas ideias com relação à psicomotricidade passaram a contemplar, segundo Motizot (2010, p. 15) “estático, equilíbrio dinâmico, coordenação viso- motora, organização espacial e temporal, estruturação do esquema corporal, lateralidade e domínio tônico.” Oficialmente, a psicomotricidade se torna uma especialidade em 1963. Nesse contexto, a psicomotricidade passa a fortalecer o olhar sobre as relações pessoais, em especial a partir da década de 1970, com base nos estudos dos autores como Bergès, Diatkine, Lebovici, Launay e Jolivet. Destaque também para o olhar psicanalítico de Klein, Winnicott, Spitz, Mahler, Reich, Schilder, Lacan, Mannoni, Zazzo, Sami-Ali e Dolto, e para as contribuições da análise bioenergética, da gestalt-terapia e do psicodrama. A partir de todos esses estudos, novas linhas de atuação passaram a ser criadas. São métodos que têm base na Educação Física, em nomes como André Lapierre, Bernard Aucouturier, Jean Le Boulch e Pierre Vayer. Eles originam uma metodologia de reeducação psicomotora, com base na terapia psicomotora (Desobeau, Iann Beltz, Bucher, Rossel, Giromini e Soubiran). De acordo com a Associação Brasileira de Psicomotricidade (ABP, 2019): Psicomotricidade é a ciência que tem como objeto de estudo o homem através do seu corpo em movimento e em relação ao seu mundo interno e externo. Está relacionada ao processo de maturação, onde o corpo é a origem das aquisições cognitivas, afetivas e orgânicas. É sustentada por três conhecimentos básicos: o movimento, o intelecto e o afeto. Nesse ínterim, foram desenvolvidas diferentes formas de compreender o sujeito, seu corpo e suas relações, o que fez surgir a necessidade de diferentes formações no campo da psicomotricidade, dentre elas: Sociopsicomotricidade Ramain – Thiers, Psicomotricidade Relacional, Psicomotricidade Sistêmica, Prática Psicomotora Aucouturier, Psicomotricidade Aquática, Psicomotricidade Relacional Somática, Transpsicomotricidade, Psicomotricidade Agathon, Psicomotricidade Funcional e Psicomotricidade Escolar. No início da década de 1970, André Lapierre e Bernard Aucouturier iniciaram a construção da teoria da psicomotricidade relacional. TEMA 2 – PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL A partir da observação da ação educativa nas escolas e da observação de adultos e crianças que vivenciam um “jogo”, no qual realizavam movimentos e comportamentos, de maneira simbólica, que eram “primitivamente” semelhantes, 5 Lapierre (2004) sente a necessidade de estudar os fatores que acarretavam tamanha semelhança. A conclusão do autor é que essas vivências atuavam no inconsciente, e que portanto se manifestavam dessa forma por fazerem parte da construção do sujeito enquanto ser humano. Nesse sentido, Lapierre (2004, p. 12) destaca: É essa vivência simbólica, arraigada no inconsciente, que, hoje, nosparece fundamental. Na nossa opinião, é possível atingir, por meio dessas situações, as camadas mais profundas da personalidade, abordando esse núcleo psicoafetivo que, em última análise, determina todo o porvir do ser. Então, o autor analisou a necessidade de atuar de forma preventiva na instituição escolar, pois muitas das dificuldades de aprendizagem identificadas tinham relações com a forma como o sujeito se sentia e se inseria no ambiente escolar – ou seja, com as relações afetivas que criava, aproximando-o ou afastando-o afetivamente das situações de aprendizagem. Essa teoria foi elaborada durante as vivências observadas, pois Lapierre e Aucouturier aplicavam-nas na prática, antes de desenvolverem teorias. A pesquisa de campo lhes permitiu verificar as condutas e os resultados acadêmicos durante todo o processo. A partir da aplicação da atividade espontânea, para a qual disponibilizavam materiais diversos e observavam a forma de utilizá-los (ou, até mesmo, de brincar com eles), a teoria da psicomotricidade relacional foi sendo desenvolvida. Os autores perceberam a centralidade do aspecto simbólico no desenvolvimento das crianças. Após vários estudos a respeito do tema, chegaram a pensamentos importantes a respeito da ludicidade, envolvendo jogos simbólicos e brincadeiras espontâneas. 1.1 Jogo simbólico e brincadeira espontânea O jogo simbólico e a brincadeira espontânea são ferramentas fundamentais para a psicomotricidade relacional. Considerando que são o foco de diversas atuações, é importante salientar que diversos profissionais podem se apropriar dessas ferramentas. O aspecto lúdico integra o processo de desenvolvimento do ser humano. Porém, é necessário estar atento A algumas questões importantes: • O aspecto lúdico ainda é descreditado por muitos. O jogo é muitas vezes banalizado e superficializado. 6 • Por outro lado, outros trazem a crença de que o aspecto lúdico representado no jogo ou na brincadeira é capaz de gerar, por si só, o desenvolvimento de aprendizagens. O lúdico abre grandes possibilidades para a aquisição de conhecimento. Porém, é preciso ter sempre um mediador, quer seja um adulto, os pares ou, até mesmo, os próprios objetos. Quando o sujeito deve permanecer em um mesmo objeto sistematicamente, o mediador deve encontrar uma forma de tirar o foco, pois de alguma forma houve estagnação da aprendizagem. A intervenção, nesse caso, pode apresentar outras formas de interação com aquele objeto, ou até mesmo a apresentação de outros objetos. Os jogos e as brincadeiras podem ser um riquíssimo recurso de observação dos processos cognitivos, sociais e afetivos. Eles permitem reflexões sobre a atuação pedagógica e psicopedagógica com o sujeito-autor de seu próprio conhecimento. Dito isso, acredita-se que o jogo simbólico e a brincadeira espontânea são importantes ações que permitem ao sujeito construir o seu mundo interno e entender o seu mundo externo, de modo que, aos poucos e com mediação, ele poderá integrá-los. Ao construir o mundo interno, o ser constrói, também, entre outras questões, o seu imaginário. O sujeito precisa novamente da mediação para distinguir a imaginação da realidade, que muitas vezes estão dissociadas. A mediação deve sempre ter o objetivo de promover a integração entre essas dimensões. Outra importante questão da atuação do profissional por meio do jogo simbólico e das brincadeiras espontâneas é a construção do pensamento cooperativo, com o compartilhamento de pessoas e objetos. Pessoas que brincam e que “fazem de conta”, utilizando os aspectos citados há pouco, são emocionalmente mais saudáveis, pois crescem internamente, compartilham experiências e cooperam com o outro e com o meio, assim, promovendo o crescimento de todos à sua volta. Para dar continuidade ao tema, é importante falar do perfil do psicomotricista relacional e da sua formação. 7 TEMA 3 – PERFIL E FORMAÇÃO DO PSICOMOTRICISTA RELACIONAL Para atuar em psicomotricidade, é necessário formação especializada, pois são estudados mecanismos específicos que demandam uma base teórica especializada. Com a psicomotricidade relacional não é diferente: para atuar com essa metodologia, é preciso fazer uma outra formação. Alguns aspectos tratados na psicomotricidade relacional são tratados na formação em psicomotricidade, ainda que de forma mais superficial. Com relação ao método da psicomotricidade relacional, vejamos: Considera que conhecimentos precisam ser vividos ao nível do corpo e integrados à personalidade, sendo necessária e fundamental a experiência pessoal da comunicação corporal e não verbal. [...] destaca que, na intervenção psicomotora relacional, o conhecimento teórico não tem utilidade se não tiver sido vivido no nível do corpo e integrado à personalidade do próprio psicomotricista. (Batista, 2013, p. 149-150) Levando essa questão em consideração, é importante pensar em uma formação continuada, não somente com a realização de cursos, mas também COM a participação de grupos de estudos, congressos, estágios e supervisões. Segundo Barista (2013, p. 153), “não existe psicomotricista relacional perfeitamente formado. Por isso a necessidade de um espaço para se falar sobre o lugar do Psicomotricista Relacional, a supervisão.” Essas vivências pós formação transformam certos conteúdos, que de alguma forma ainda não estão integrados no psicomotricista relacional, “em forças criadoras e produtivas para aperfeiçoamento da intervenção profissional e da construção do conhecimento.” A formação em psicomotricidade relacional apresenta três aspectos: • Formação teórica: estudos direcionados ao tema; • Formação profissional: aplicação do método em turmas com supervisão; • Formação pessoal: vivências nas quais o futuro psicomotricista relacional entra em contato com suas próprias facilidades, dificuldades, medos, desejos e anseios, para lidar com eles e conseguir conduzir o grupo de crianças sem realizar contratransferência, buscando estar disponível para que o grupo e seus integrantes vivam as suas necessidades de maneira simbólica e para que possam, aos poucos, elaborá-las e, se necessário, ressignificá-las. Esta formação pessoal, associada à prática profissional supervisionada, norteia a intervenção corporal do psicomotricista relacional ao se basear na ressonância entre a sua forma particular de ser e de atuar, a 8 observação, a leitura e a decodificação simbólica da linguagem do corpo no ato vivido na relação com o outro é também um encontro consigo mesmo. (Batista, 2013, p. 151) Portanto, as vivências pessoais, nas quais os futuros psicomotricistas relacionais podem conhecer suas potencialidades, medos e frustrações, são peças fundamentais para a consolidação da fundação de um bom psicomotricista relacional. TEMA 4 – FUNDAMENTOS DA PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL Ao aprender a “ser” psicomotricista relacional, alguns fundamentos passam a integrar o corpo e, inclusive, a vida do profissional. Um desses fundamentos é o olhar. Ao olhar para o psicomotricista relacional, a criança pequena identifica somente fragmentos de corpo (olhos e boca, principalmente), que chamam a atenção por suas funções comunicativas. O psicomotricista relacional pode se apropriar desse olhar atento da criança para observar o sujeito e o grupo, evidenciando as suas partes, sem esquecer que se trata de um todo sistêmico. Esse olhar cuidadoso ajuda a observar o movimento do grupo, possibilitando um direcionamento para a melhor evolução possível naquele momento. É muito importante perceber o funcionamento do grupo para realizar a intervenção mais adequada. No que se refere à comunicação, o método da psicomotricidade relacional se vale principalmente das comunicações não verbal e corporal. Na comunicação não verbal, podem ser emitidos sons, grunhidos, entre outras formasde “falar” sem palavras; na corporal, como o próprio nome sugere, a comunicação é feita por meio de ações corporais. Podem ser utilizados objetos como mediadores para a realização efetiva da comunicação. Para comunicar-se corporalmente, há que se levar em conta a forma como os corpos se comunicam. Eles podem se comunicar de forma harmônica ou desarmônica. O diálogo tônico é caracterizado pela “capacidade de receber as tenções tônicas do sujeito participante para que haja o acordo entre suas modulações tônicas” (Batista, 2014, p. 62). É nesse sentido que encontramos o parâmetro para a identificação de uma comunicação corporal harmônica (ou não). O tônus caracteriza-se como a intensidade com a qual os músculos agem e reagem a determinadas situações. 9 A autenticidade do diálogo tônico é a base da intervenção de todos os psicomotricistas relacionais. Destaca-se que, para estes profissionais, essa autenticidade depende diretamente da capacidade do sujeito em abandonar suas defesas e proteções contra a vulnerabilidade afetiva. Isto quer dizer que ele pode entregar-se na vivência afetiva emocional com o outro, sem perder o controle do que está se passando. Portanto, para que a comunicação aconteça no nível infraverbal, é essencial que o psicomotricista relacional tenha desenvolvido, por excelência, sua disponibilidade corporal. (Batista, 2014, p. 61) Em caso de intensidade grande em um movimento corporal, podemos dizer que se trata de um movimento hipertônico. Do contrário, temos um movimento hipotônico. O diálogo tônico esperado implica equilíbrio de tonicidade muscular entre o movimento hipo e o hipertônico. Portanto, o psicomotricista relacional precisa estar atento ao diálogo tônico em suas relações, realizando-o com uma intensidade ótima que favorece aquela relação na qual entrou. Outra questão importante a ser observada é a percepção aguçada para compreender as ações do grupo e de seus integrantes. Aquilo que é expresso por palavras nem sempre significa o verdadeiro sentimento. Essa percepção pode ser desenvolvida por meio de exercícios de observação de pessoas, em diferentes contextos, com um levantamento de hipóteses dos sentimentos que envolvem aquela pessoa ou aquele grupo de pessoas, por exemplo. A disponibilidade, principalmente a corporal, deve fazer parte do cotidiano do psicomotricista relacional. No momento em que ele se disponibiliza corporalmente, viabiliza o surgimento de brincadeiras capazes de mobilizar o inconsciente dos integrantes do grupo, para que eles se envolvam em situações que ajudam a dissolver, resolver, elaborar ou reelaborar, significar ou ressignificar determinada questão que possa estar latente, franqueando a oportunidade para que o objeto emerja e passe a ser resolvido de forma consciente. O psicomotricista relacional toca o outro; porém, mais do que isso, deixa-se tocar. O toque do psicomotricista não é sistematizado ou técnico. Ele simplesmente aceita o contato corporal quando essa situação se apresenta. Há que se pensar, também, na aceitação da conduta do sujeito ou do grupo, sem julgamento. Muitas vezes, em momentos que não são desenvolvidos de maneira simbólica, os sujeitos não podem transgredir de forma alguma. Já em sessões de psicomotricidade relacional, essa transgressão por vezes é permitida, a depender do grupo, de cada integrante e de suas histórias. Uma das ações mais julgadas, principalmente no ambiente escolar, é a agressividade. Segundo Lapierre E Lapierre (2002), a agressividade é uma pulsão de vida; por esse motivo, deve ser vivida de forma a não gerar culpa, sempre 10 com os devidos limites, que não devem ultrapassar a integridade física das pessoas envolvidas e do ambiente. O interessante é, ao invés de julgar, tentar compreender o motivo por que o sujeito realizou determinada ação, para então auxiliá-lo no que vem ao caso naquele momento. Tais fundamentos podem, e devem, ser realizados por quaisquer profissionais, independentemente da área de atuação, pois ao compreender as condutas realizadas pelos sujeitos, podemos vivenciar os conflitos internos e externos, em busca de percepção e construção estratégias, para superá-los. Em alguns momentos, as crianças precisam de ajuda para superar esses conflitos. Quando a ajuda vem de forma operativa, contribui para a construção da autonomia do grupo e de seus integrantes. Vamos expandir esse tema mais adiante, mas é importante salientar que a agressividade pode servir como forma de o sujeito romper a dependência fusional e conquistar a própria identidade. TEMA 5 – PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL: ATUAÇÃO NO ÂMBITO DA EDUCAÇÃO E DA SAÚDE Afinal, como os fundamentos da psicomotricidade relacional podem contribuir para a ação de outros profissionais, já que as atuações de cada um são conduzidas de maneiras diferentes? Pois bem, vamos iniciar com o objeto de estudos. De certa forma, há uma certa semelhança, pois o objeto de estudos da psicomotricidade relacional passa a ser o homem com seu corpo em movimento, mobilizando os seus mundos interno e externo, levando em conta as relações que serão estabelecidas por ele – com ele mesmo, com os objetos, com o ambiente e com o outro (quer sejam os pares ou o psicomotricista relacional em questão). No caso da psicopedagogia, por exemplo, o objeto de estudos é o sujeito que aprende, em seu envolvimento com os processos que vive para que as suas aprendizagens ocorram satisfatoriamente e de forma autêntica. Se pensamos nos outros profissionais que atuam na educação e na saúde, também vamos encontrar semelhanças e diferenças em seus objetos de estudos. Quaisquer que sejam as atuações profissionais, os objetos de estudos passam por processos de transformação interna e externa. Portanto, a psicopedagogia e as outras áreas podem se beneficiar do estudo dos fundamentos da psicomotricidade relacional, e vice-versa. Nosso foco aqui será a 11 forma como a psicopedagogia e outras especialidades podem se beneficiar desses estudos. Os atendimentos psicopedagógicos, ou outras atuações que envolvem aprendizes, podem ser realizados individualmente ou em grupo. 5.1 Olhar Ao apropriar-se do olhar, fundamentado na psicomotricidade relacional, psicopedagogos, educadores, fonoaudiólogos, psicólogos etc. se desenvolvem como sujeitos curiosos. Essa vem confirmar que várias áreas de estudo apresentam um caminho adequado e promissor para lidar com esse fundamento. Quanto ao “olhar”, podemos também trazer à tona o termo olhar clínico que, muito além do que se pensa, é um olhar que não acontece somente em ambientes clínicos, como psicomotor e psicopedagógico. Acontece, sim, com “a intenção de perceber um sujeito que aprende, de forma inteira, em relação com os outros sujeitos, com a cultura, com a história, com os objetos, de aprendizagem e com as normas estabelecidas no contexto em que vive” (Zenícola; Barbosa; Carlberg, 2007, p. 205). Ao desenvolver essa sensibilidade, é possível realizar intervenções cada vez mais assertivas, pois o olhar possibilitará momentos nos quais a escuta, mesmo que do inaudível, se torna também uma importante ferramenta para o “sucesso” das intervenções. Nesse sentido, podemos entender que a “escuta do inaudível” abrange momentos em que são realizadas observações da dinâmica do sujeito em situação de avaliação ou de intervenção – por exemplo, psicopedagógica. Essa observação da dinâmica consiste em observar o que o sujeito faz, ou seja, as suas ações, o que é uma característica fundamental na observação de uma sessão de psicomotricidade relacional. O observador necessita se esvaziar para ver e notar o outro, da forma mais próxima possível do acontecimento e mais distante possível das suas interpretações pessoais. [...] necessita desenvolver o olhar e a escuta; para tal, é preciso fazer o exercício de conhecer asituação sem pré-conceitos, julgamentos e sem um foco determinado; mergulhado nela, mas não misturado com ela. (Barbosa, 2016, p. 60) 5.2 Comunicação Na psicopedagogia e em outras atuações profissionais, a comunicação mais evidente é a comunicação verbal, que envolve a linguagem falada. Porém, 12 no que tange às sessões de avaliação ou de intervenção psicopedagógica, é preciso atentar-se também às ações do sujeito. Esse fator vem ao encontro do que pensamos no fundamento da psicomotricidade relacional do “olhar”. Observar o que não é falado (observação da dinâmica) faz parte da comunicação – no caso, da comunicação não verbal. Esse estilo de comunicação nos leva a pensar na comunicação corporal, que por meio de gestos e expressões nos ajuda a identificar o que o sujeito pode estar querendo dizer. Tal identificação pode ser interpretada como a percepção que o psicopedagogo tem de determinada situação. Uma questão importante com relação a esse fundamento utilizado pela psicomotricidade relacional, é que muitas vezes o que é dito pelo cliente não designa o que ele está realmente sentindo ou desejando. Ainda com relação à comunicação, ela pode ter objetos como mediadores. Na psicomotricidade relacional, às vezes o sujeito não assume o desejo de querer estar em alguma relação, por ele mesmo, mas se inclui nela utilizando um determinado objeto. Na psicopedagogia, essa relação também ocorrer, em situações em que outros profissionais buscam algo que é de interesse do sujeito e dão atenção a isso, mesmo que aquele aspecto não tenha relação com a consigna da atividade daquele momento. Em alguns momentos, podemos nos encontrar em uma situação inusitada, para a sessão ou a aula, junto com nossos aprendizes. Nesses momentos, podemos sentir a necessidade de utilizar o chão, por exemplo, como protagonista do processo de interação. Não tem problema nenhum em levar essa intenção para a prática. Pelo contrário, com isso podemos estabelecer uma aproximação afetiva entre os sujeitos da relação, até mais rápido do que se imaginávamos. Ainda dentro da comunicação, gostaria de abordar o diálogo tônico. Dentro da atuação psicopedagógica, por exemplo, podemos utilizar-se do diálogo tônico em momentos nos quais o aprendiz precisa de segurança, precisa ser validado ou, até mesmo, repreendido por alguma eventual transgressão. O sujeito receberá o “recado” do diálogo tônico a depender da intensidade da comunicação tônica. Ressaltamos que, mesmo com uma comunicação tônica intensa, a integridade de ambos os agentes da situação deve ser preservada. 13 5.3 Disponibilidade O profissional, assim como o psicomotricista relacional, deve estar disponível para o sujeito da ação, quer seja um indivíduo, quer seja um grupo. Essa disponibilidade aparece escuta, na paciência de aguardar o tempo de cada um, ou ainda na eventual necessidade de reformular alguma consigna. A disponibilidade corporal também é bem-vinda na ação, principalmente por parte dos adultos integrantes das relações, quando se trata de crianças, pois quando o profissional se dispõe corporalmente, abre espaço para que vínculos positivos sejam formados e para que a interferência do meio externo nas sessões (avaliativas ou interventivas) seja a menor possível. As intervenções devem ser realizadas sem gerar culpa sobre o sujeito que está em processo da ação educativa. Quanto menos culpa o sujeito sentir, mais se sentirá capaz e menos dificuldades vai apresentar. Possivelmente, obterá aprendizagens mais autênticas. Esse processo também facilita a superação de obstáculos causadores de dificuldades de aprendizagem. Nesse sentido, compreender o ponto de vista do sujeito, sem desejar que suas respostas sejam específicas, pode ser bastante positivo. Ao se deparar com dificuldades, o sujeito pode apresentar conflitos internos e conflitos externos. Assim como acontece com o psicomotricista relacional, o profissional pode permitir que o sujeito viva esses conflitos, fazendo intervenções operativas caso sinta necessidade, para que o sujeito, por si só, supere esses conflitos e sinta-se potente e capaz. O sentimento de capacidade move o aprendiz à superação de seus próprios limites. Ao permitir essa vivência, permitimos a criação, a busca e a construção de estratégias, estimulando o movimento do pensamento, a sua organização e a projeção para ações futuras de mesma natureza. Quando o sujeito se depara com as possibilidades de não saber, ou acredita saber mais do que tem a oferecer, ou ainda quando depende do outro para se sentir aprendiz, ele “se coloca numa relação de não disponibilidade e dificilmente consegue, com esses tipos de vínculos afetivos, estabelecer um contato positivo com as situações de aprendizagem” (Barbosa, 2003, p. 29) Quando falamos de ajudar o sujeito, é preciso considerar algumas ressalvas. Pessoalmente, prefiro a palavra contribuir. Penso em contribuir no sentido de agregar algo “meu” à maneira do outro ser, conforme seus desejos e 14 necessidades. Se uso a palavra ajudar, tenho a impressão de que o sujeito não tem muita informação para agregar ao que vou trazer de novo. Por conta disso, vou ajudar. Essa contribuição, em meu entendimento, deve estar envolvida com as atitudes operativas, que possibilitam que o sujeito opere por si mesmo, o que viabiliza o desenvolvimento e a construção da autonomia. Sabemos que a Atitude Operativa [...] promove a autonomia individual e grupal e é uma atitude a ser aprendida por todos os profissionais que trabalham com a aprendizagem no espaço coletivo. A cultura escolar possui, ainda, uma forte herança da educação militar, e a parada no estágio da heteronomia parece ser encarada com naturalidade. (Zenícola; Barbosa; Carlberg, 2007, p. 139) Ao se valer das atitudes operativas, o psicopedagogo passa a promover a construção da autonomia. Obviamente, a heteronomia faz parte dessa construção, mas quando cristalizamos a heteronomia (afinal, muitas vezes, é mais fácil e rápido resolver determinada situação dessa forma), mais distantes estamos de possibilitar o desenvolvimento da autonomia no outro. 15 REFERÊNCIAS ABP – Associação Brasileira de Psicomotricidade. O que é psicomotricidade? 2019. Disponível em: . Acesso em: 14 abr. 2023. BARBOSA, L. M. S. Projeto de trabalho: uma forma de atuação psicopedagógica. 3. ed. Curitiba: Cacique Ltda, 2003. _____. Psicopedagogia: o aprender do grupo. São José dos Campos: Pulso Editorial, 2016. BATISTA, I. B. Estresse docente: contribuições da prática psicomotora relacional para o seu enfrentamento. Fortaleza: RDS Editora, 2014. _____. Textos e contextos em psicomotricidade relacional. Fortaleza: RDS Editora, 2013. BERNAL, M. P. Praxia da criança com transtorno do espectro autista: um estudo comparativo. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018. LAPIERRE, A. 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