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Júlia Pacheco-Medicina PANCREATITE AGUDA A pancreatite aguda (PA) é um processo inflamatório agudo do pâncreas, caracterizado pela ativação intrapancreática de enzimas digestivas, levando à autodigestão do tecido pancreático e podendo provocar inflamação local e sistêmica. A inflamação não se restringe apenas ao pâncreas, podendo atingir também os tecidos peripancreáticos e, em situações mais graves, provocar repercussões sistêmicas com comprometimento de órgãos distantes. Epidemiologia A pancreatite aguda é uma das principais causas de internação por doenças gastrointestinais, representando um importante problema de saúde pública devido à sua frequência, potencial gravidade e necessidade de hospitalização. Fatores que influenciam ➜ Acomete indivíduos de diferentes faixas etárias, sendo mais comum em adultos e apresentando maior incidência em populações com elevada prevalência de litíase biliar e consumo de álcool. ● Obesidade ● Outras doenças metabólicas ● Realização de procedimentos endoscópicos Mortalidade A mortalidade da pancreatite aguda depende diretamente da gravidade do quadro clínico. Pancreatite leve: Mortalidade é inferior a 1% Pancreatite moderada: Mortalidade varia entre 5 e 10% Pancreatite grave: Mortalidade pode chegar a até 30% Fatores de risco Os principais fatores de risco incluem: ❖ Condições clínicas ❖ Condições metabólicas ❖ Condições iatrogênicas ❖ Condições genéticas Favorecem o desencadeamento do processo inflamatório pancreático, principalmente por promoverem obstrução dos ductos pancreáticos, lesão direta das células acinares ou ativação precoce das enzimas digestivas dentro do pâncreas. Fatores de origem biliar . ➔ Colelitíase ➔ Coledocolitíase Colelitíase Corresponde à presença de cálculos na vesícula biliar, que podem migrar para as vias biliares e alcançar a ampola de Vater, causando obstrução temporária ou persistente do fluxo pancreático. Coledocolitíase Ocorre quando há cálculos localizados no colédoco, podendo bloquear o fluxo biliar e pancreático simultaneamente, favorecendo a ativação intrapancreática das enzimas digestivas e desencadeando o processo inflamatório. Álcool O consumo crônico e excessivo de álcool provoca diversas alterações estruturais e funcionais no pâncreas, especialmente nas células acinares pancreáticas, que são responsáveis pela produção das enzimas digestivas. O álcool exerce um efeito tóxico direto sobre essas células, causando: ● Lesão celular ● Alterações metabólicas ● Comprometimento dos mecanismos de proteção que normalmente impedem a ativação precoce das enzimas digestivas dentro do próprio pâncreas Além disso, o consumo prolongado de álcool também modifica a composição das secreções pancreáticas, tornando o suco pancreático mais viscoso e espesso. ➔ Esse aumento da viscosidade das secreções pancreáticas favorece a formação de tampões proteicos nos ductos pancreáticos. Esses tampões funcionam como pequenas obstruções dentro dos ductos, dificultando ou impedindo o fluxo normal das secreções pancreáticas. Consequência As enzimas digestivas produzidas pelo pâncreas podem permanecer retidas dentro do próprio órgão por mais tempo do que o normal. Quando essas enzimas permanecem acumuladas no interior do pâncreas, aumenta o risco de ocorrer ativação prematura dessas enzimas ainda dentro do tecido pancreático. Fatores metabólicos ➔ Hipertrigliceridemia (níveis superiores a 1000 mg/dL) ➔ Hipercalcemia Hipertrigliceridemia A hipertrigliceridemia pode causar pancreatite aguda quando os níveis de triglicerídeos no sangue estão muito elevados, geralmente acima de 1000 mg/dL. I. Quando o sangue muito rico em triglicerídeos passa pela microcirculação do pâncreas, os triglicerídeos são degradados pela ação da lipase pancreática, liberando ácidos graxos livres em grande quantidade. II. Esses ácidos graxos apresentam efeito tóxico sobre as células pancreáticas, provocando lesão celular, inflamação e alterações na microcirculação do pâncreas. III. Pode ocorrer ativação precoce das enzimas digestivas dentro do próprio órgão, levando ao processo de autodigestão pancreática. Hipercalcemia Nessa condição, ocorre aumento da concentração de cálcio no sangue, o que pode interferir nos mecanismos celulares do pâncreas. I. O excesso de cálcio favorece a ativação intracelular do tripsinogênio, que normalmente é uma proenzima inativa produzida pelas células acinares pancreáticas II. Quando ocorre ativação precoce, o tripsinogênio é convertido em tripsina dentro do próprio pâncreas, antes de chegar ao intestino Fatores iatrogênicos CPRE (colangiopancreatografia retrógrada endoscópica) É um procedimento utilizado para diagnóstico e tratamento de doenças das vias biliares e pancreáticas. Apesar de ser um exame importante, pode desencadear pancreatite aguda como complicação, principalmente devido à manipulação da papila duodenal, injeção de contraste ou trauma mecânico durante o procedimento. Medicamentos Alguns medicamentos, como azatioprina, diuréticos tiazídicos, valproato e corticoides, podem desencadear pancreatite aguda. ➔ Isso pode ocorrer por toxicidade direta às células acinares do pâncreas, por reações de hipersensibilidade ou por alterações metabólicas. Outros fatores ❖ Trauma abdominal ❖ Procedimentos cirúrgicos ❖ Infecções virais ❖ Pancreatite hereditária Fisiopatologia 1. Ativação precoce de enzimas digestivas Em condições fisiológicas normais, as enzimas pancreáticas são secretadas na forma inativa pelas células acinares do pâncreas. ● Esse mecanismo de secreção inativa é fundamental para proteger o próprio órgão contra a autodigestão. Após serem secretadas, as enzimas são transportadas pelos ductos pancreáticos até o duodeno, onde são ativadas pela enteroquinase (enteropeptidase) presente na mucosa intestinal. Assim, normalmente: I. As enzimas pancreáticas são secretadas inativas II. São ativadas apenas no duodeno, onde passam a exercer sua função digestiva sobre proteínas, gorduras e carboidratos. Na pancreatite: Ocorre ativação dessas enzimas dentro do próprio pâncreas, o que representa o evento fisiopatológico inicial mais importante da doença. Ativação intrapancreática de enzimas A principal enzima envolvida nesse processo é a tripsina. O tripsinogênio, que é a forma inativa da enzima tripsina, sofre ativação precoce dentro das células pancreáticas, sendo convertido em tripsina ativa. A tripsina desempenha papel central na fisiopatologia da doença, pois ela é capaz de ativar diversas outras proenzimas pancreáticas. Tripsina ativa outras enzimas digestivas, incluindo: ➔ Elastase: Atua degradando fibras elásticas presentes nos vasos sanguíneos, podendo causar lesão vascular e favorecer hemorragias pancreáticas ➔ Fosfolipase: Contribui para a destruição das membranas celulares e para a necrose do tecido adiposo peripancreático ➔ Quimotripsina: Participa da degradação de proteínas e contribui para o processo de autodigestão pancreática. O resultado final dessa ativação enzimática descontrolada é a autodigestão pancreática 2. Lesão celular pancreática A autodigestão provocada pela ativação precoce das enzimas digestivas leva à lesão direta das células pancreáticas. Principais consequências dessa lesão celular: ★ Necrose celular: caracterizada pela morte das células pancreáticas ★ Edema: decorrente do aumento da permeabilidade vascular e do extravasamento de líquidos para o interstício ★ Inflamação local: resultante da ativação decélulas inflamatórias e da liberação de mediadores químicos. Essas alterações contribuem para o aumento do volume pancreático, dor intensa e comprometimento das funções do órgão. 3. Liberação de mediadores inflamatórios A lesão pancreática desencadeia a ativação de células inflamatórias e a liberação de diversas citocinas pró-inflamatórias, que amplificam o processo inflamatório e podem atingir a circulação sistêmica. Entre as principais citocinas liberadas destacam-se: ● TNF-α (fator de necrose tumoral alfa) ● IL-1 (interleucina 1) ● IL-6 (interleucina 6) ● IL-8 (interleucina 8) Esses mediadores inflamatórios estimulam a resposta inflamatória e promovem alterações sistêmicas. Resposta inflamatória sistêmica (SIRS – Systemic Inflammatory Response Syndrome) Como consequência dessa liberação de citocinas ocorre uma resposta inflamatória sistêmica I. Febre II. Taquicardia III. Taquipneia IV. Alterações hemodinâmicas. 4. Comprometimento sistêmico Entre as principais alterações sistêmicas podem ocorrer: I. Vasodilatação sistêmica, que contribui para hipotensão II. Aumento da permeabilidade vascular, levando ao extravasamento de líquidos e formação de edema III. Choque circulatório, decorrente da redução da perfusão tecidual IV. Falência de órgãos, especialmente em casos graves. Os órgãos mais frequentemente afetados por essas alterações incluem: ● Pulmões, podendo ocorrer síndrome do desconforto respiratório agudo ● Rins, levando à insuficiência renal aguda ● Sistema cardiovascular, com hipotensão e choque circulatório. Quadro clínico Dor abdominal A dor abdominal é o principal sintoma da pancreatite aguda e ocorre principalmente devido à inflamação pancreática, ao edema do órgão e à distensão da cápsula pancreática, que contém terminações nervosas sensíveis à dor. Características I. início súbito II. Localização epigástrica III. Intensidade elevada IV. Irradiação para dorso V. Piora após alimentação, especialmente após ingestão de alimentos gordurosos VI. Dor contínua VII. Dor intensa VIII. Pode durar várias horas ou dias. Sintomas associados Além da dor abdominal, os pacientes frequentemente apresentam outros sintomas associados, como: ● náuseas ● vômitos ● anorexia ● distensão abdominal ● Desenvolvimento de íleo paralítico Esses sintomas refletem tanto o processo inflamatório pancreático quanto as alterações da motilidade gastrointestinal. Sinais clínicos Durante o exame físico pode apresentar: ❖ febre ❖ taquicardia ❖ taquipneia ❖ hipotensão ❖ dor à palpação abdominal, principalmente na região epigástrica ❖ Sinais de desidratação ❖ Diminuição dos ruídos intestinais e defesa abdominal Sinais cutâneos (casos graves) Embora sejam raros, existem sinais cutâneos clássicos que podem aparecer nos casos graves de pancreatite aguda, geralmente associados à presença de hemorragia retroperitoneal. Sinal de Cullen Caracteriza-se por equimose periumbilical, ou seja, uma coloração arroxeada ao redor do umbigo. Sinal de Grey-Turner Caracteriza-se por equimose em flancos, observada nas regiões laterais do abdome. Esses sinais indicam hemorragia retroperitoneal, sendo considerados marcadores clínicos de gravidade da pancreatite aguda e geralmente estão associados a formas mais graves da doença. Diagnóstico da Pancreatite Aguda O diagnóstico é feito quando 2 de 3 critérios estão presentes. - Atlanta Classification 1992 and Revised Atlanta Classification 2012 Critérios diagnósticos I. Dor abdominal típica II. Elevação de enzimas pancreáticas ● amilase ● lipase ● ≥ 3 vezes o valor normal III. Achados de imagem compatíveis ● tomografia ● ultrassom ● ressonância Parâmetros laboratoriais Lipase ● mais específica ● permanece elevada por mais tempo A lipase sérica é considerada o exame laboratorial mais específico para o diagnóstico de pancreatite aguda, pois apresenta maior sensibilidade e permanece elevada por mais tempo no sangue quando comparada à amilase. Útil quando o paciente procura atendimento tardiamente após o início da dor abdominal. No diagnóstico de pancreatite aguda considera-se: ● Lipase ≥ 3 vezes o limite superior da normalidade Amilase ● eleva rapidamente ● menor especificidade A amilase sérica também é utilizada no diagnóstico da pancreatite aguda, porém apresenta menor especificidade, pois pode elevar-se em diversas outras condições clínicas. Critério diagnóstico: ● ≥ 3 vezes Leucócitos A leucocitose reflete o processo inflamatório sistêmico desencadeado pela pancreatite. Na pancreatite pode ocorrer: ● > 12.000 leucócitos/mm³ PCR (Proteína C Reativa) A PCR é um marcador inflamatório importante, utilizado principalmente para avaliar a gravidade da pancreatite. Na pancreatite grave pode ocorrer: ● PCR > 150 mg/L após 48 horas AST e ALT (etiologia biliar) A elevação das enzimas hepáticas pode indicar que a pancreatite está associada a litíase biliar. Valores de referência: ● AST (TGO): 10 – 40 U/L ● ALT (TGP): 7 – 56 U/L Na pancreatite de origem biliar pode ocorrer: ● ALT > 150 U/L Esse achado possui alto valor preditivo para pancreatite biliar. Os quatro exames laboratoriais muito cobrados em pancreatite aguda são ❖ Lipase e Amilase ≥ 3x o normal ❖ PCR >150 mg/L (48h) → gravidade ❖ ALT >150 U/L → pancreatite biliar Exames de imagem Ultrassonografia ● Primeiro exame solicitado. Objetivo: ● detectar cálculos biliares ● avaliar vias biliares Tomografia computadorizada Indicada quando: ● diagnóstico duvidoso ● suspeita de complicações ● pancreatite grave Permite avaliar: ● necrose pancreática ● coleções ● complicações Classificação de Balthazar É um sistema usado na tomografia computadorizada (TC) para avaliar a gravidade da pancreatite aguda, analisando o grau de inflamação do pâncreas e das estruturas ao redor. Ela ajuda os médicos a estimar quanto o pâncreas está inflamado e se existem complicações, como coleções líquidas ou necrose. Classificação da gravidade Abordagem terapêutica A abordagem terapêutica da pancreatite aguda baseia-se principalmente em: ● Suporte clínico intensivo ● Tratamento da causa desencadeante ● Prevenção de complicações O manejo inicial nas primeiras horas é essencial para reduzir o risco de necrose pancreática, sepse e falência de órgãos. ➜ As decisões terapêuticas são guiadas por parâmetros clínicos, laboratoriais e hemodinâmicos. Reposição volêmica A reposição volêmica precoce é uma das medidas mais importantes no tratamento da pancreatite aguda, principalmente nas primeiras 24 horas. Durante a doença ocorre perda de líquidos para o terceiro espaço, levando à hipovolemia e redução da perfusão pancreática. Se essa perfusão não for restabelecida, pode ocorrer necrose pancreática. Solução preferencial: Ringer Lactato Analgesia A dor abdominal intensa é o principal sintoma da pancreatite aguda e deve ser tratada precocemente. Indicação de analgesia ● Dor abdominal intensa: ≥ 7/10 ● ou dor epigástrica intensa irradiada para dorso. Opioides utilizados ➔ Morfina ➔ Fentanil ➔ Tramadol Esses medicamentos atuam inibindo a transmissão da dor no sistema nervoso central. Jejum inicial O jejum é indicado na fase inicial da pancreatite para reduzir a estimulação da secreção pancreática. Indicações de jejum ● dor abdominal intensa ● náuseas persistentes ● vômitos frequentes ● íleo paralítico Antibióticos Antibióticos não devem ser utilizados de forma rotineira na pancreatite aguda. Eles são indicados apenas quando há infecção comprovada. Manejo conforme gravidade Pancreatite leve Tratamento: ● hidratação venosa ● analgesia ● realimentação precoce. Alta hospitalar geralmente ocorreem 3 a 5 dias. Pancreatite moderada Necessita: ● monitorização hospitalar ● suporte clínico ● avaliação frequente de exames. Pancreatite grave Esses pacientes necessitam de: ● internação em UTI ● suporte hemodinâmico ● ventilação mecânica se necessário ● tratamento de complicações. Complicações da Pancreatite Aguda ● Necrose pancreática (Morte do tecido pancreático.) ● Pseudocisto pancreático (Coleção encapsulada rica em enzimas.) ● Coleções líquidas (Podem evoluir para pseudocistos) ● Abscesso pancreático (Infecção localizada.) ● síndrome do desconforto respiratório agudo ● insuficiência renal aguda ● choque ● hipocalcemia ● hiperglicemia Critérios diagnósticos I.Dor abdominal típica Parâmetros laboratoriais Lipase ●mais específica PCR (Proteína C Reativa) A PCR é um marcador inflamatório importante, utilizado principalmente para avaliar a gravidade da pancreatite. AST e ALT (etiologia biliar) A elevação das enzimas hepáticas pode indicar que a pancreatite está associada a litíase biliar. Exames de imagem Ultrassonografia Tomografia computadorizada Classificação da gravidade Abordagem terapêutica A abordagem terapêutica da pancreatite aguda baseia-se principalmente em: Reposição volêmica A reposição volêmica precoce é uma das medidas mais importantes no tratamento da pancreatite aguda, principalmente nas primeiras 24 horas. Solução preferencial: Ringer Lactato Analgesia A dor abdominal intensa é o principal sintoma da pancreatite aguda e deve ser tratada precocemente. Indicação de analgesia Opioides utilizados Jejum inicial O jejum é indicado na fase inicial da pancreatite para reduzir a estimulação da secreção pancreática. Indicações de jejum Antibióticos Antibióticos não devem ser utilizados de forma rotineira na pancreatite aguda. Eles são indicados apenas quando há infecção comprovada. Pancreatite moderada Pancreatite grave Complicações da Pancreatite Aguda ●Necrose pancreática (Morte do tecido pancreático.) ●Pseudocisto pancreático (Coleção encapsulada rica em enzimas.) ●Coleções líquidas (Podem evoluir para pseudocistos) ●Abscesso pancreático (Infecção localizada.)