Prévia do material em texto
USINAGEM Diego Batista Valim U N I D A D E 4 Fluidos de corte Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Descrever os principais tipos de fluidos de corte. � Apontar como o fluido de corte aumenta a produtividade. � Explicar os cuidados necessários no manuseio e manutenção do fluido de corte. Introdução Neste capítulo, você vai estudar os diferentes fluidos de corte utilizados na usinagem e quais suas funções, compreenderá como a utilização do fluido de corte pode melhorar a produtividade dos processos de usinagem e saberá determinar qual o melhor fluido utilizar. Função do fluido de corte A primeira utilização do fluido de corte (Figura 1) na usinagem de materiais foi realizada por Frederick Winslow Taylor em 1894 (MACHADO et al., 2009). Inicialmente, ele utilizou água e soluções aquosas para resfriar a interface peça/ ferramenta; em um primeiro momento, o resultado obtido foi satisfatório, mas logo notou-se que a água, além de resfriar, também provocava a oxidação da superfície da peça e da ferramenta, e apresentava baixo efeito lubrificante. A partir desse ponto, foram realizadas pesquisas em busca do desenvolvimento de fluidos de corte mais eficientes. lalves Retângulo lalves Retângulo Figura 1. Aplicação do fluido de corte. Fonte: Pixel B/Shutterstock.com. Durante os processos de usinagem, são alcançadas altas temperaturas decorrentes do atrito da peça com a ferramenta de corte, e devido à energia necessária para provocar a deformação do cavaco. Esse calor produzido precisa ser dissipado para não provocar a dilatação térmica da peça e, consequen- temente, a impossibilidade de atingir tolerâncias mais apertadas, evitando o desgaste excessivo da ferramenta. Dessa forma, as principais funções do fluido de corte são: � lubrificação a baixas velocidades de corte; � refrigeração a altas velocidades de corte. Efeito lubrificante do fluido de corte Quando a operação de usinagem é realizada com baixa velocidade de corte, a temperatura alcançada também é baixa, e por essa razão não é preciso refrigerar a peça e a ferramenta. Nesse caso, o fluido de corte precisa apre- sentar características lubrificantes, diminuindo o atrito entre a ferramenta e o cavaco, evitando, assim, o desgaste prematuro da ferramenta ou os defeitos na peça usinada. Fluidos de corte2 A lubrificação permite a redução do coeficiente de atrito entre a ferramenta e cavaco, reduzindo a força de corte, a potência necessária e a temperatura. O fluido penetra na região de corte pelo efeito da capilaridade. Impulsionado pela vibração entre ferramenta, peça e cavaco, o efeito lubrificante sofre redução quando a velocidade de corte é aumentada, pois o fluido encontra mais resistência para atingir a interface peça/ferramenta. O fluido com efeito lubrificante deve apresentar as seguintes características: � resistir a pressões e temperaturas elevadas sem vaporizar; � boas propriedades antifricção e antissoldantes; � viscosidade adequada (não muito elevada, para permitir o escoamento até interface peça/ferramenta, e não muito baixa, para aderir à peça e a ferramenta). Efeito refrigerante do fluido de corte O efeito refrigerante do fluido de corte evita que a ferramenta e a peça atin- jam uma temperatura elevada. O fluido de corte absorve o calor e o dissipa, mantendo, assim, temperaturas mais brandas durante o processo de usinagem. A eficiência do fluido de corte com efeito refrigerante é reduzida com o aumento da velocidade e profundidade de corte. Os fluidos de corte refrige- rantes devem apresentar: � baixa viscosidade, pois assim eles não ficarão aderentes na peça e fluirão facilmente; � elevado calor específico, propriedade que possibilita a absorção de calorias pelo fluido sem o aumento de temperatura; � alta condutividade térmica, para absorver o calor gerado. Embora não sejam as principais, os fluidos de corte também apresentam as funções descritas a seguir. Retirada do cavaco da região de corte: ajuda a promover a remoção do cavaco da interface peça/ferramenta, e, em operações de furação profunda, o fluido de corte é o único agente responsável pela retirada do cavaco do furo. Nesse caso, sua aplicação 3Fluidos de corte deve ser em alta pressão e baixa viscosidade. Vale lembrar que a forma e o tamanho do cavaco implicam na dificuldade de sua remoção, onde cavacos pequenos são removidos mais facilmente. Prevenção contra a soldagem cavaco-ferramenta: a baixa velocidade de corte pode provocar a formação da aresta postiça de corte, devido à microssoldagem de cavacos na ferramenta. Proteção contra corrosão: lubrificantes que não sejam a base de água evitam a corrosão da peça, máquina/ferramenta e ferramenta, pois criam uma camada isolante que protege da ação oxidante do ar. Redução da dilatação: quando qualquer material é aquecido, ele perde resistência ao cisalhamento e tende a se dilatar; o resfriamento da superfície do material evita que isso ocorra. A utilização, quando bem executada, do fluido de corte contribui para diminuir o custo de fabricação e aumentar a produtividade, pois seu uso apresenta os seguintes benefícios: � aumento da vida da ferramenta; � redução das forças e potência de usinagem; � melhoria do acabamento da peça; � facilidade de remoção dos cavacos da região de corte; � redução do risco de distorção da peça; � possibilidade de conseguir tolerâncias mais justas. Em conjunto, esses benefícios permitem ganho de tempo; remoção do cavaco da interface peça/ferramenta sem a necessidade de interrupção da operação de usinagem; qualidade, oferecendo peças com acabamentos me- lhores e menos defeitos (riscos e queimaduras); e redução de custos, uma vez que a vida da ferramenta aumenta e potência necessária durante a usinagem passa a ser menor. Classificação dos fluidos de corte Os fluidos de corte podem ser líquidos, gasosos e sólidos, contudo, os mais utilizados são os fluidos na forma líquida, classificados como óleo, emulsões e soluções. Fluidos de corte4 Óleos Os primeiros fluidos líquidos utilizados na usinagem de metais a base de óleo foram os lubrificantes de origem animal e vegetal (óleos graxos). Esses óleos possuem boa propriedade lubrificante, mas não são bons refrigerantes. Além disso, apresentam rápida deterioração e sua obtenção é de alto custo. Hoje, são usados como aditivos nos fluidos de origem mineral, a fim de melhorar a propriedade lubrificante deles. Os óleos minerais são obtidos através do refino do petróleo. Por serem hidrocarbonetos, suas propriedades dependem do comprimento de suas ca- deias carbônicas, do grau de refino e da estrutura molecular. Sua utilização é comum na usinagem de aço baixo carbono, latão, bronze e ligas leve. Os óleos minerais são divididos, basicamente, em dois tipos: � Óleo parafínico: derivado do petróleo que apresenta alto teor de para- fina (ceras) e, por essa razão, é um ótimo fluido lubrificante. Apresenta, também, alta resistência à oxidação e viscosidade constante em uma ampla faixa de temperatura. � Óleo naftênico: derivado do refino do petróleo rico em naftênico. Apesar de apresentar maior estabilidade térmica que o óleo parafínico, esse tipo é prejudicial à saúde humana. Os óleos integrais são óleos minerais basicamente puros ou com aditivos à base de cloro, enxofre e fósforo, que permitem que esse tipo de óleo seja submetido à pressões elevadas. Devido ao seu alto custo, baixo ponto de fulgor e por ser prejudicial à saúde, a utilização do óleo integral na usinagem vem sendo substituída pela aplicação de emulsões. Emulsões Compostos basicamente de óleos minerais e água, além de agentes emulsi- ficantes ou surfactantes esses tipos de lubrificantes abrangem os fluidos de corte semissintéticos e emulsionáveis. Os fluidos emulsionáveis apresentam em sua composição óleo de origem animal ou vegetal ou, ainda, aditivos de extrema pressão (EP) à base de enxofre e cálcio, paramelhorar sua propriedade de lubrificação. Para inibir o efeito corrosivo da água, empregam-se aditivos anticorrosivos, como o nitrito de sódio. As emulsões são utilizadas em operações de usinagem que necessitam 5Fluidos de corte de refrigeração da ferramenta e/ou da peça, não sendo recomendada em ope- rações com baixa velocidade de corte. Os fluidos semissintéticos são caracterizados por apresentar de 5 a 50% de óleos minerais e aditivos químicos compostos (emulsificantes), que dissolvem na água formando moléculas individuais. Soluções Conhecidas como fluidos sintéticos, as soluções são compostas de água e óleo, além de sais orgânicos e inorgânicos, e inibidores de corrosão, sem a presença de emulsificantes e óleo mineral, pois o óleo reage quimicamente com água, dissolvendo complemente e formando uma única fase. Os fluidos sintéticos mais comuns são usados como refrigerantes e apre- sentam proteção anticorrosiva; já os fluidos sintéticos mais complexos, além de bom efeito refrigerante, também apresentam características lubrificantes. Fluido de corte gasoso: normalmente, o ar comprimido é utilizado com a intenção de remover o cavaco da interface peça/ferramenta. O ar à temperatura ambiente não apresenta características para ser utilizado como fluido refrigerante ou lubrificante. Existem aplicações de fluido de ar a base de CO2 e N2 resfriado e sob pressão, mas seu custo elevado inviabiliza sua utilização, ainda que os resultados apresentados sejam satisfatórios. Fluido de corte sólido: de emprego restrito, normalmente utilizado como efeito lubrificante, esse fluido, geralmente de grafita ou bissulfeto de molibdênio, é aplicado sobre a superfície da ferramenta, diminuindo o atrito entre ela e a peça. Manutenção e cuidados ao manusear o fluido de corte A fim de evitar a deterioração precoce do fluido de corte, algumas precauções devem ser tomadas desde o armazenamento até a aplicação nos processos de usinagem. Os fluidos de corte do tipo óleo são armazenados à temperatura ambiente, entre 20ºC e 25ºC. Sua aplicação sobre a interface peça/ferramenta deve ser Fluidos de corte6 feita de forma abundante, em quantidade suficiente para que a temperatura não ultrapasse os 25ºC. Essa classe de fluido necessita de filtração periódica para remoção de impurezas (cavacos oriundos da usinagem). As soluções e emulsões são fluidos que precisam de mais cuidado ao serem manuseados, e devem ser armazenados e usados à temperatura de até 15°C. Seu tempo de duração varia de poucas semanas a seis meses e está relacionado com o desenvolvimento de fungos e bactérias devido à presença da água. De maneira geral, o controle e monitoramento dos fluidos de corte levam em consideração as propriedades intrínsecas de cada classe: viscosidade, con- centração, potencial corrosivo, estabilidade, condutividade térmica, presença de microrganismo, pH e qualidade da água. O maior cuidado ao manusear e aplicar o fluido de corte está em evitar ao máximo o contato com a pele humana, pois ele pode provocar alergias, dermatites e ressecamento da pele. Durante a usinagem, como a temperatura elevada provoca o aquecimento do fluido, alguns compostos voláteis suspensos na atmosfera podem provocar irritações aos olhos e problemas respiratórios. Quando os fluidos de corte não apresentam mais a capacidade necessária de refrigeração e/ou lubrificação precisam ser substituídos, mas o problema que envolve essa operação é o descarte do fluido de corte velho. O ideal seria reciclá-lo, mas essa técnica não é usada na maioria das vezes. O mais comum é o descarte do fluido na rede de esgoto, seguindo as seguintes normas ambientais de tratamento: � separação do fluido de corte dos contaminantes; � adequação de pH com ácido sulfúrico; � extração do hidróxido de alumínio com sulfato de alumínio; � separação do óleo e da água; � descarte da água na rede de esgoto. Seleção do fluido de corte Não é uma tarefa fácil definir qual fluido de corte utilizar, pois, muitas vezes, a diversidade de materiais a usinar é enorme, o que dificulta sua utilização correta. De qualquer modo, o fluido de corte deve suportar a severidade ofe- recida pelas operações de corte e eficiência necessária requerida (refrigeração e/ou lubrificação). Os principais fatores que influenciam a escolha do fluido de corte são: material da peça, material da ferramenta e operação de usinagem. 7Fluidos de corte Material da peça As emulsões podem ser usadas nas ligas de fácil usinagem, pois estas não requerem grandes esforços durante o processo. Já as emulsões com óleos graxos são recomendadas em ligas de latão (sem chumbo), bronze ao fósforo, bronze ao silício e ligas de usinabilidade moderada. Uma mistura de óleo mineral e óleos graxo é aconselhada para ligas de chumbo, prata e bronze ao fósforo, que são consideradas de difícil usinagem. No caso de superligas, ligas à base de níquel, titânio e cobalto, por serem resistentes ao calor, a escolha do fluido de corte mais adequado dependerá da operação de corte e da tenacidade do material; comumente são usados óleos leves contendo cloro e evita-se óleos que contenham enxofre, pois eles podem descolorir a peça. O ferro fundido cinzento normalmente é usinado a seco, podendo ser empregado o ar comprimido, sobretudo no fresamento de cavidades, para auxiliar na remoção dos cavacos. Material da ferramenta As ferramentas de aço carbono, aço-liga e aço rápidos se desgastam facilmente em temperaturas elevadas, sendo necessária a utilização de um fluido de corte com efeito refrigerante. Quando essas ferramentas são usadas na usinagem de um material tenaz, é comum usar também aditivos antissoldantes. As ferra- mentas de metal duro, ligas fundidas e cermets também precisam de um fluido refrigerante, sendo os fluidos emulsionáveis usados com mais frequência. As ferramentas de cerâmica são sensíveis a choques térmicos, sendo necessário averiguar se existe alguma recomendação quanto à utilização de fluidos refri- gerantes. Já na usinagem com ferramentas ultraduras, o uso de fluido de corte não está relacionado com o material da ferramenta, e sim com o material da peça, pois essas ferramentas apresentam alta resistência ao desgaste a quente. Natureza da operação Nas operações de torneamento, onde as ferramentas permanecem em contato com a peça durante todo o processo de usinagem, recomenda-se o uso de óleos e emulsões de baixo peso molecular. Já nas operações de fresamento, de corte interrompido, a utilização de óleos mais concentrados é indicada. Nas operações de furação, as emulsões com aditivos a base de enxofre são as mais utilizadas. Nesse tipo de operação, como o fluido encontra dificuldade Fluidos de corte8 de penetrar no furo, normalmente eles são aplicados através de um canal presente na broca, como ilustra a Figura 2. Figura 2. Canal por onde escoa o fluido de corte nas brocas de furação. Fonte: Rebeyka (2016, p. 212). 1. A água foi o primeiro fluido de corte utilizado na usinagem. Quais foram os problemas encontrados com sua aplicação? a) Baixa capacidade lubrificante e refrigerante. b) Baixa capacidade refrigerante e incitação da oxidação. c) Baixa capacidade lubrificante e incitação da oxidação. d) Baixa capacidade refrigerante. e) Nenhuma das alternativas anteriores. 2. O fluido de corte, quando utilizado corretamente, possibilita o ganho em produtividade e qualidade. Analise as afirmativas a seguir. I. Diminui a incidência de defeitos de queimadura e riscos na peça. II. Aumenta a resistência a quente da ferramenta de corte. III. Permite maiores velocidades de corte durante a usinagem. IV. A vida útil da ferramenta de corte é aumentada. Assinale a alternativa correta. a) Somente as sentenças I e II são corretas. b) Somente as sentenças III e IV são corretas. c) Somente a sentença II está errada. d) Somente a sentença III está errada. e) Todas as sentenças são corretas. 3. Leia as sentenças abaixo. I.É recomendada a aplicação do fluido de corte por meio de 9Fluidos de corte jorro a baixa pressão contra a direção de formação do cavaco. II. A direção de aplicação de fluido de corte sobre cavaco, juntamente com a aplicação por meio de jorro a baixa pressão, é o modelo de aplicação mais utilizado. III. A aplicação do fluido de corte a alta pressão pode auxiliar na quebra do cavaco se a direção do jato for contrária à da formação do cavaco. IV. Os danos causados ao meio ambiente pelo método de aplicação MQF são os maiores obstáculos em sua aplicação industrial. Assinale a alternativa correta. a) Somente as sentenças II e III são corretas. b) Somente as sentenças II e IV são corretas. c) Somente as sentenças III e IV são corretas. d) Somente a sentença II é incorreta. e) Somente a sentença III é incorreta. 4. Os fluidos de corte líquido são classificados como óleos, emulsões e soluções. Analise as afirmativas a seguir. I. Os óleos podem ser de origem animal, vegetal, mineral ou integral, sendo que o óleo mineral parafínico apresenta elevado efeito lubrificante. II. O óleo graxo é caracterizado por apresentar bom efeito lubrificante, mas, como seu custo de produção é elevado, ele é utilizado como aditivo em outros tipos de fluido de corte. III. As soluções podem apresentar bom efeito lubrificante e refrigerante, e são caracterizadas por não conter óleo mineral em sua formulação. IV. As emulsões são compostas basicamente por água e óleo mineral, e apresentam bom efeito refrigerante. Assinale a alternativa correta. a) Todas as afirmações são corretas. b) Somente as afirmações I e II são corretas. c) Somente as afirmações II e III são corretas. d) Somente as afirmações II e IV são corretas. e) Somente as afirmações III e IV são corretas. 5. Dentre os materiais da ferramenta de corte, qual necessita de maior cuidado ao escolher um fluido com efeito refrigerante? a) Ferramenta de metal duro. b) Ferramenta de diamante. c) Ferramenta de cerâmica. d) Ferramenta de aço rápido. e) Nenhuma das alternativas anteriores. Fluidos de corte10 REBEYKA, C. J. Princípios dos processos de fabricação por usinagem. Curitiba: Intersa- beres, 2016. Leituras recomendadas DINIZ, A. E.; MARCONDES, F. C.; COPPINI, N. L. Tecnologia da usinagem dos materiais. São Paulo: MM, 1999. FERRARESI, D. Fundamento da usinagem dos metais. São Carlos: Blucher, 1969. MACHADO, A. R. et al. Teoria da usinagem dos materiais. São Paulo: Blucher, 2009. SANTOS, S. C.; SALES, W. F. Aspectos tribológicos da usinagem dos materiais. São Paulo: Artliber, 2007. STEMMER, C. E. Ferramentas de corte I. 3. ed. Florianópolis: UFSC, 1993. Referência 11Fluidos de corte Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra.