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GESTÃO E MAPEAMENTO DE PROCESSOS AULA 5 Prof. Luciano Furtado C. Francisco 2 CONVERSA INICIAL Sri Ramakrishna Paramahamsa (1836-1886) foi um filósofo e popular líder religioso hindu. Até hoje tem seguidores e é reverenciado na Índia e em outros países em razão de seus ensinamentos. Ele cunhou uma célebre frase: “a única coisa imutável é a mudança”. Por trás dessa aparente contradição, ao analisarmos a máxima do guru indiano percebemos que o fluxo da vida e dos acontecimentos nos apresenta mudanças constantes que ocorrem por uma série de motivos: alguns, frutos de nossas decisões e intenções; outros, ocasionados por circunstâncias externas sobre os quais temos pouco ou nenhum controle. As mudanças também são corriqueiras nas organizações. A complexidade do mundo em que vivemos, em que tudo é acelerado e exige decisões e ações ágeis, leva à necessidade de modificações nos processos empresariais. Isso acontece porque os processos foram mal mapeados? Houve pouca habilidade no levantamento e desenho deles? Ocorreram falhas ao elencar seus indicadores ou no monitoramento destes? A empresa não soube usar corretamente a abordagem BPM ou outra filosofia de gestão de processos? Pode ser por alguns desses motivos ou simplesmente por nenhum deles. Como dito acima, o mundo complexo e mutável em que estamos inseridos pode desencadear a necessidade de mudarmos os processos, mesmo que estejamos conduzindo o gerenciamento da melhor forma, seguindo corretamente o BPM e usando as tecnologias da maneira mais eficaz. Na linha do filósofo Ramakrishna, a mudança é inevitável. Nunca se alcança uma estabilidade, o que dificulta decisões no mesmo ritmo da volatilidade do mundo. Quando se tem impressão de que estamos estáveis, novos acontecimentos nos obrigam a promover modificações. Portanto, é mais do que necessário seguirmos “processos para mudar processos”; significa mais do que apenas “melhorar processos” ou “redesenhar fluxos de processos”. Essas ações são integrantes da transformação de processos, mas não seu todo. Portanto, nesta etapa vamos estudar a transformação de processos, o redesenho deles, a reengenharia, o comprometimento para a mudança e as atividades na gestão dela. Bons estudos! 3 CONTEXTUALIZANDO Dependendo de sua idade, você pode se lembrar das locadoras de vídeo surgidas nos anos de 1980. Se isso não for do seu tempo, não se preocupe, vamos explicar. No início da década de 1980 os aparelhos de videocassete começaram a se tornar muito populares. As pessoas podiam ver filmes e programas diversos gravados em uma fita no momento que desejassem. Assim surgiram as videolocadoras, lojas nas quais era possível alugar as fitas e devolvê-las dias depois mediante o pagamento de uma taxa. Esse modelo de negócios sofreu uma pequena modificação no início dos anos de 2000 com a chegada dos aparelhos de DVD, discos digitais similares aos CDs e que tinham a mesma função das fitas, isto é, armazenar filmes. As locadoras, então, foram substituindo gradativamente as fitas por DVDs. Contudo, o modelo continuou o mesmo: as pessoas se dirigiam até as locadoras para alugar os DVDs e depois retornavam para devolvê-los e pagar pela locação. Nesse contexto, uma empresa global teve muito sucesso: a Blockbuster. Era uma locadora com grandes lojas, que tinha muitas cópias de cada filme, o que garantia que qualquer cliente encontrasse o que desejava, sem correr o risco de estar locado a outra pessoa. Essa estratégia constituía seu grande diferencial. Por volta da mesma época, outra locadora alcançava certo sucesso, porém era bem menor que a Blockbuster. Seu nome era Netflix. Seu diferencial era enviar e buscar os DVDs por delivery onde o cliente estivesse. Na metade dos anos de 2000, a internet já era uma realidade, e os sites de vídeos, como YouTube, começaram a ser muito assistidos. O que a Netflix percebeu? Que poderia ter um web site pelo qual os clientes pudessem simplesmente assistir aos filmes on-line, por streaming, sem necessidade de mídias físicas nem sequer baixá-los por download. A pessoa pagaria uma assinatura fixa e teria todo o acervo à disposição na internet. Isso significou uma verdadeira disrupção nesse mercado, a chamada locadora virtual. A empresa apostou nesse modelo, e o restante da história nós conhecemos. Os streamings são uma realidade, ameaçando até mesmo modelos de negócios tradicionais, como as TVs por assinatura, cinemas e canais de TV abertos. E quanto à Blockbuster? Não seguiu por esse caminho, não alterou seus processos como a Netflix e insistiu no modelo que a consagrou. Resultado? 4 Desapareceu do mercado, sendo hoje uma distante lembrança para aqueles que a conheceram. E quanto à Netflix? Por que alterou profundamente seus processos? Seus objetivos mudaram? O que você acha? Acompanhe esta etapa e ao final veremos! TEMA 1 – TRANSFORMAÇÃO DE PROCESSOS Em um mundo de mudanças contínuas, é impossível não pensar nas transformações dos processos organizacionais; no fundo, é a própria transformação organizacional. Ela pode ocorrer em função de novas necessidades dos clientes ou para aproveitar oportunidades, de modo que está ligada diretamente à transformação dos processos. Como nos diz o BPM CBOK (2013, p. 233), “a transformação organizacional depende diretamente da transformação dos processos de maneira disciplinada e planejada para assegurar que estes continuem dando suporte a objetivos de negócio”. E qual é a relação da transformação de processos com o BPM? A filosofia de gestão por processos, o BPM, tem tudo a ver com a transformação de processos, sendo quase uma causa e uma consequência um do outro. Há diversos motivos para a organização implementar mudanças em seus processos, entre os quais podemos citar: • atender às necessidades do cliente; • aumentar a produtividade; • reduzir falhas, defeitos e desperdícios; • garantir a efetividade e a sustentabilidade da operação; • reduzir o tempo de ciclo (execução) dos processos; • melhorar a qualidade dos processos e produtos; • inovar; • mudar paradigmas; • reduzir custos e riscos. Assim, a transformação de processos significa encontrar uma melhor forma de um processo ser executado. Isso pode se dar por meio de um novo equipamento, novos sistemas, nova infraestrutura de TI, novas formas de negócios ou uma combinação desses elementos. Não é tarefa fácil, já que exige investimentos, recursos, mudança de cultura e rompimento com o tradicional e conhecido, o que 5 pode provocar resistências. Contudo, uma implementação gradual da mudança do processo, sincronizada com o orçamento e com o devido aculturamento, pode diminuir tais objeções. Nesse ponto, já vimos o que é a transformação de processos, seus motivos, como ocorre e sua relação com o BPM. Agora vamos entender os níveis da transformação deles. 1.1 Níveis de transformação de processos Segundo o BPM Cbok (2013), há quatro níveis de transformação de processos (repare que são níveis incrementais): 1) Melhoria de processos – chamada de BPI, sigla em inglês de Business Process Improvement (melhoria de processo de negócio), trata-se de pequenos ajustes nos processos, feitos de forma gradual, visando à sua melhoria; as abordagens Lean, Six Sigma e Total Quality Management (TQM ou gerenciamento da qualidade total) são algumas das formas de se implementar o BPI. 2) Redesenho de processos − consiste em reestruturar um processo, numa visão ponta a ponta, em alguns casos de forma interdepartamental; ao contrário do BPI, defende uma visão integral dos processos, um intermediário entre o BPI e a reengenharia de processos. 3) Reengenharia de processos – também conhecida como Business Process Reengineering (BPR ou reengenharia de processos de negócios), é uma mudança radical e drástica nos processos;estes são mapeados do zero. 4) Mudança de paradigma – ainda mais radical que o BPR, propõe reposicionar a organização como uma opção única no mercado, eliminando a competição com outras empresas por meio de um sistema altamente inovador. 1.2 Características dos níveis de transformação de processos Também segundo o BPM Cbok (2013), os níveis de transformação de processos possuem certas características, resumidas no Quadro 1 a seguir. 6 Quadro 1 − Características dos níveis de transformação de processos Fator de comparação Melhoria (BPI) e redesenho de processos Reengenharia (BPR) e mudança de paradigma Nível de mudança Incremental a holística Radical e sem precedentes Ponto inicial Processo “AS-IS” “Quadro branco” com novas ideias Frequência de alteração Contínua a regular Eventual Risco Baixo a moderado Alto Habilitador primário Controle estatístico Novos paradigmas e tecnologias Fonte: elaborado com base em BPM Cbok, 2013. E quanto à tecnologia na transformação de processos? Podemos dizer que hoje essa transformação passa pela digitalização, tornando os processos cada vez mais digitais e com uso intenso da tecnologia da informação. Saiba mais Quer conhecer cases de sete empresas que passaram pela transformação de processos em direção à digitalização? Confira o artigo de Gustavo Andrade no site Digilândia, disponível no seguinte link: . Acesso em: 9 jun. 2022. Na sequência de nosso estudo, veremos alguns desses níveis em mais detalhes. TEMA 2 – REDESENHO DE PROCESSOS No trabalho de mapeamento de processos – uma das diretrizes do BPM –, os processos atuais são desenhados no que se chama de as-is (“como é”, em inglês). Corresponde a um raio-x da situação atual deles, como são executados, seus responsáveis, fluxos etc. Nesse momento se levantam as oportunidades de melhorias. Em seguida, se faz o chamado to-be (“para ser”, em inglês). Desenha-se o processo desejado, aquele que vai trazer as melhorias identificadas no as-is; ou seja, o to-be é o novo desenho ou o redesenho dos processos. Trata-se de uma 7 importante parte do BPM que busca melhorias de grande impacto em termos de qualidade, produtividade e tempo de execução. Contudo, é relevante diferenciarmos redesenho de processos e alteração de processos. No redesenho, a perspectiva é macro, isto é, são vistos os processos como um todo e a mudança é mais incisiva; eles são alterados de ponta a ponta, um trabalho bem mais abrangente. Por sua vez, na alteração, as mudanças são incrementais, de forma gradual e em geral atingem certos pontos de um processo (apenas uma atividade, por exemplo). Longaray (1997, citado por Longaray et al., 2018, p. 3) considera o redesenho de processos como “[...] uma nova forma de execução do trabalho organizacional, orientada pelo redesenho dos fluxos de atividades da empresa, e que possui como principal objetivo o aumento significativo dos resultados operacionais, proporcionado pela melhor performance dos processos organizacionais”. 2.1 Por que redesenhar processos? El Sawy (2001, citado por Longaray et al., 2018, p. 3) afirma que o motivo principal para um redesenho de processos é a mudança quanto a regras e funcionamentos desatualizados que ainda possam estar sendo executados; logo, são processos que não atendem à organização para o atingimento de seus objetivos. Em suma, a organização está desperdiçando recursos. Muitas empresas focam mais a conclusão de projetos ou o mapeamento de processos do que a eficiência desses processos. Nesse contexto, elas são bem- sucedidas, sendo bem avaliadas pelo mercado e seus clientes. Essa situação causa uma “névoa” na visão de seus dirigentes, pois os recursos nem sempre estão sendo empregados da melhor maneira, o que acaba impedindo a melhoria contínua e o próprio redesenho de processos. Apesar de estarem em um cenário satisfatório, tais empresas podem ser pegas desprevenidas diante do mundo extremamente volátil em que vivemos. Portanto, a análise constante de seus processos, a adoção de uma filosofia BPM e de melhoria contínua devem ser considerados sempre, o que leva à necessidade de que o redesenho dos processos seja parte da cultura empresarial. 8 2.2 Quando é preciso redesenhar processos? Não há um momento-padrão no qual é preciso redesenhar processos. Cada organização é peculiar, e essa decisão varia segundo muitos fatores. Todavia, alguns desses fatores podem ser elencados para indicar que se trata do momento para isso ocorrer, conforme descrito no Quadro 2. Quadro 2 − Fatores indicativos de redesenho de processos Fator Descrição Problemas de qualidade Quando a expectativa dos clientes sobre os produtos e serviços da organização não está sendo atingida. Falha na otimização Mesmo que os resultados estejam sendo alcançados, os processos podem estar sendo ineficazes e gerando desperdícios; portanto, os gestores devem buscar continuamente a otimização deles. Retrabalho em excesso Se as atividades precisam ser refeitas com frequência, é sinal de que os processos estão falhos, necessitando passar por reavaliações. Fonte: Francisco, 2022. 2.3 Etapas do redesenho de processos A atividade de redesenho de processos deve seguir uma estrutura, caso contrário o trabalho pode ter efeitos contrários ao que se espera. Trata-se de uma espécie de projeto, com início, meio e fim, e deve contar com recursos e planejamento para sua execução. Na Figura 1, podemos ver as etapas mais importantes do redesenho de processos e seu sequenciamento. 9 Figura 1 − Etapas e sequência do redesenho de processos 1. Coletar documentos do processo atual • Coletar fluxogramas, textos, planilhas, e-mails, instruções de trabalho etc. para entender como o processo atual funciona 2.Entrevistar os envolvidos no processo • Conversar com os líderes e executores do processo • Ideal se for realizada na fase as-is 3. Buscar oportunidades de melhorias • Pensar como o processo poderia ser otimizado • As oportunidades de mehoria em geral residem em pontos como atrasos, gargalos, desperdícios, erros recorrentes, mudanças de executores e pontos de contato com o cliente 4. Brainstorming com envolvidos • Reuniões com os envolvidos no processo atual e eventuais novos participantes • Colher sugestões, impressões e contribuições sobre o novo processo • Refinar o novo processo 5. Processo to-be • Desenhar o novo processo a partir do que foi definido nas fases anteriores • Tecnologia e métodos: fluxograma, bpmn, sipoc e outros 6. Reunião de viabilidade • Conversar novamente com os envolvidos e apresentar o desenho do novo processo • Coletar novas impressões e sugestões, chegando à versão final do processo 7. Refinamento, testes e implantaçção • Desenhar o novo processo • Testar com auxílio de tecnologias para simulação • Implantar e monitorar o novo processo 10 TEMA 3 – REENGENHARIA DE PROCESSOS Em 1993, foi publicado um dos mais representativos livros de administração daquela década, Reengineering the Corporation (no Brasil recebeu o título de Reengenharia: revolucionando a empresa. Nele, seus autores – Michael Hammer e James Champy – defendem que as organizações precisavam identificar seus processos principais e transformá-los para que fossem os mais eficazes e enxutos possíveis; em suma, preconizavam que deveriam ser reconstruídos do zero. Saiba mais Se você deseja conhecer um pouco mais sobre a reengenharia de processos e suas diferenças para a simples melhoria de processos, vale conferir o vídeo “Reengenharia X Melhoria de processos”. Ele está disponível no seguinte link: . Acesso em: 9 jun. 2022. Ocorre que nessa época se pregava também a necessidade de se cortarem custos. Assim, muitas organizaçõesusaram a reengenharia para justificar demissões, algo que Hammer e Champy não mencionam em sua teoria; por isso, as ideias da reengenharia foram até mesmo motivos de preconceito durante os anos seguintes. Com a chegada do BPM, a reengenharia foi aos poucos sendo resgatada em seu verdadeiro sentido, proposto pelos seus idealizadores. Vejamos a definição do BPM Cbok (2013, p. 241): “Reengenharia de processos (BPR – Business Process Reengineering) é um repensar fundamental e um redesenho radical de processos para obter melhorias dramáticas no negócio”. 3.1 Reengenharia x redesenho/melhorias de processos Repare que a reengenharia é um passo adiante e mais incisivo do que o redesenho de processos e a melhoria de processos. Se nestes há melhorias pontuais em alguns pontos de um processo ou em processos-macro, a reengenharia vai além e defende que determinados processos têm de ser inteiramente refeitos, nada do que existia importa mais. Como saber se deve-se usar a reengenharia? Sem dúvida, a resposta não é fácil, mas alguns caminhos indicam que uma transformação radical nos processos é recomendada, em vez de melhorias incrementais ou redesenhos. São eles: 11 • necessidade de repensar a missão e os objetivos de negócio em face de novas demandas do mercado; • quando fornecer qualidade ou baixos custos já não é diferencial; • necessidade de disrupção, pelos sinais do mercado; • perda constante e significativa de clientes e/ou de mercado; • estrutura da empresa que já não acompanha o crescimento e as exigências do negócio; • tecnologias defasadas, usadas de forma ineficiente ou subutilizadas; • processos de pesquisa e desenvolvimento deficientes; • problemas de logística e acesso a mercados; • novas legislações. 3.2 Princípios da reengenharia de processos Hammer e Champy, em sua obra-base da reengenharia, elencam os seguintes princípios para se adotar a reengenharia de processos (Figura 2): 12 Figura 2 − Princípios do redesenho de processos Fonte: elaborada com base em BPM Cbok, 2013. TEMA 4 – COMPROMETIMENTO ORGANIZACIONAL PARA A MUDANÇA As mudanças são temas sempre delicados dentro das organizações e mesmo na vida pessoal. Pessoas e empresas tendem a atuar dentro da chamada zona de conforto, isto é, executar atividades e processos da maneira que dominam e que, de certa forma, já anteveem os efeitos, de forma que não haverá grandes surpresas ou Organizar em torno de resultados, não em torno de tarefas Fazer com que, sempre que possível, os beneficiários do processo também o executem Quem coleta os dados e produz as informações deve fazer também o processamento Recursos geograficamente dispersos devem ser tratados como centralizados Conexão de atividades paralelas em fluxos de trabalho, em vez de integração de seus resultados Pontos de decisão onde o trabalho é realizado e controles devem estar dentro do processo Informação deve ser capturada uma única vez, na fonte, e depois compartilhada 13 sobressaltos; quando estes acontecem, são de pequena intensidade e sua resolução não exige esforços muito significativos. Entretanto, vivemos em um mundo de grande volatilidade, no qual as formas de trabalho, as tecnologias, as demandas e o mercado como um todo tiveram profundas transformações nas últimas décadas. Esse cenário tende a ser ainda mais predominante, logo as mudanças organizacionais, as alterações em seus processos são uma constante. A melhoria contínua, preconizada pela filosofia BPM, é uma necessidade, caso contrário a sobrevivência das empresas estará em xeque. Portanto, é exigido delas − leia-se seus dirigentes e demais colaboradores − um compromisso efetivo com as mudanças, tendo em mente o que é necessário para tal, bem como saber conduzir as mudanças de processos. De acordo com o BPM Cbok (2013, p. 251): Transformações de processos mudam a forma como o negócio é abordado e realizado, portanto exigem compromisso executivo de longo prazo, compromisso em termos de tempo (inclusive para analisar ideias), recursos (incluindo financeiros) e apoio. A liderança executiva também deve prover orientações sobre como o desenho da nova operação deverá prover suporte a estratégias organizacionais. O texto do BPM Cbok aborda o compromisso executivo, porém podemos estender esse compromisso ao conjunto de colaboradores e até mesmo aos stakeholders. 4.1 Efeitos das mudanças organizacionais Quando se decide efetivar mudanças em processos, desde uma pequena melhoria de processos (BPI) até uma reengenharia, executivos e colaboradores devem ter claros os efeitos que isso pode causar na organização. A administração e condução das modificações se torna mais facilitada quando esses elementos são conhecidos. O Quadro 3 elenca os principais efeitos das mudanças de processos e como podem ser administrados, segundo o BPM Cbok v. 3.0 (2013). 14 Quadro 3 − Consequências de mudanças organizacionais Consequência Como administrar Problemas políticos e conflitos de prioridades Os gestores devem ter autoridade para resolver esses conflitos ou ter acesso aos que possuam tal autoridade. Mudanças culturais (na organização como um todo ou em parte dela) A mudança precisa ser apoiada pelos gestores dos diversos níveis, incluindo o executivo, que deverá definir a nova cultura e determinar a forma de criá-la. Baixo interesse gradativo com as mudanças Planejar a implantação das mudanças, deixando claros os benefícios pretendidos e com o mínimo de ruptura possível. Não credibilidade das mudanças por parte dos colaboradores Engajamento expresso e ativo dos gestores, transparecendo vontade de ver as transformações e removendo as barreiras. Estabelecer as mudanças como políticas da empresa, que seguirão mesmo se houver alterações no quadro gestor. Tomar decisões rápidas e assertivas. Tentativas de proteção de status quo por alguns colaboradores Estabelecer medidas de compensação e de benefícios pelas mudanças, promovendo um ambiente de engajamento geral com as mudanças. Gestores de nível médio e operacional encaram as mudanças como um atestado de que suas ações estão falhando, e esse pensamento deve ser combatido. Tentativas de sabotagem às mudanças Não tolerar qualquer tipo de sabotagem, comportamentos passivos, indiferentes ou agressivos. Porém, isso deve ser feito com cautela para não quebrar a harmonia organizacional. Fonte: elaborado com base em BPM Cbok v. 3.0, 2013. Perceba que gerenciar mudanças não é algo trivial e exige muita perspicácia dos gestores. Antes de se efetivarem, elas são encaradas como “promessas” e, assim, há chances de não se realizarem, não alcançarem os objetivos propostos ou de surtir efeitos adversos àqueles pretendidos. Essa visão é confirmada por Motta (2001, p. 14), que demonstra que as mudanças acarretam resistências, por requererem flexibilidade das pessoas: “a mudança é um ônus, pois requer que a pessoa reveja sua maneira de pensar, agir, comunicar, se inter-relacionar e criar significados para sua própria vida”. Apenas a verificação da execução dos novos processos poderá atestar se o processo de mudança foi bem planejado à medida que atingirem os efeitos desejados. 15 4.2 Tecnologias no processo de mudança A tecnologia alterou profundamente a forma como nos relacionamos, tanto em nível pessoal quanto na esfera profissional. É interessante lembrar que até o final do século XX as inovações tecnológicas aconteciam primeiro nas empresas e depois eram adaptadas às nossas vidas particulares. A partir do século XXI, essa dinâmica se inverteu: as inovações primeiro têm um objetivo pessoal e depois são incorporadas pelas organizações. Reflita sobre isso! As ferramentas tecnológicas são aliadas indispensáveis à gestão de mudanças na medida em que permitem a comunicação rápida, o armazenamentode vários formatos de informações e métodos de simulação de processos, entre outros benefícios. Mas a tecnologia por si só não opera esses benefícios, ela deve ser utilizada de maneira eficaz. Alguns pontos dessa eficácia incluem: • As tecnologias devem permitir que os colaboradores sejam “ouvidos” e envolvidos de alguma forma nas decisões; ferramentas colaborativas (por exemplo, Trello) são importantes para isso; • Contar com plataformas inteligentes de coletas de dados em tempo real que usem tecnologias de tratamento de grandes quantidades de dados (big data, data warehouse etc.); • Fazer simulações de cenários por meio de sistemas de apoio executivo (SAE) e/ou sistemas de informações gerenciais (SIG); • Compreender que estamos na era da transformação digital, ou seja, os processos, na medida do possível, devem ser digitalizados para ganhar eficiência. Saiba mais Você sabe o que é transformação digital e como ela afeta a vida das pessoas e organizações? Conheça um pouco mais a esse respeito no vídeo disponível no seguinte link: . Acesso em: 9 jun. 2022. TEMA 5 – ATIVIDADES NA GESTÃO DE MUDANÇA DE PROCESSOS As mudanças de processos não são simples, a começar pela identificação correta do que deve ser feito para que elas sejam levadas adiante com êxito. Isso porque, em geral, abrangem diversas áreas. Logo, o primeiro desafio é envolver esses setores e obter o seu apoio. Nem sempre os colaboradores desses locais 16 enxergam as mudanças sob a mesma ótica: alguns as encaram mais positivamente, ao passo que outros podem ver no processo fatores negativos, o que irá fazer com que apresentem resistências ao projeto. De acordo com o BPM Cbok (2013, p. 256), as mudanças organizacionais podem ser visualizadas na Figura 3 a seguir. Figura 3 − Atividades do plano de gerenciamento de mudança Fonte: BPM Cbok, 2013, p. 256. Vemos no núcleo central as pessoas, gestores executivos e stakeholders (interessados). Os hexágonos correspondem aos setores/atividades que devem ser considerados em um processo de mudança organizacional. O projeto de mudança deve começar com uma visão clara do que será tal mudança, a qual deve estar alinhada com a estratégia da organização. A partir dessas premissas, deve se mover para incluir as áreas citadas nos hexágonos. É importante observar que a figura que acabamos de ver não está vinculada ao processo de gestão da mudança organizacional e não exatamente ao BPM ou uma metodologia similar. Ele indica atividades, dentro dos setores, que devem ser consideradas para suportar o projeto de mudança, tanto no nível maior quanto nas alterações graduais. 17 5.1 Conduzindo o processo de mudança Se observarmos mais atentamente a Figura 3, vamos perceber que as abordagens e os alvos da transformação são a chave para a mudança organizacional. A partir dos objetivos e requisitos das mudanças, os responsáveis devem ter um entendimento uniforme acerca do que significam e das expectativas dos interessados. Outra providência é seguir métodos de trabalho que contenham uma lista de ações a realizar e suas relações, além dos dados a coletar e dos artefatos a ser entregues. Nesse ponto, uma abordagem de escritório de projetos – se tal setor existir − e o apoio da área de tecnologia da informação são importantes. Os demais aspectos a serem observados são: • colocar-se na posição do cliente, e não da organização; • deixar de ter uma visão inside out, ou seja, a visão tradicional de que é a organização que gera valor para o cliente e, portanto, quem cria a cadeia de valor; • adotar a visão outside in, o inverso da visão anterior, isto é, passar a gerenciar a percepção de valor (em vez da cadeia de valor), tendo como base o que é valor perceptível para o cliente. Por fim, vale lembrar que, quando criadas, as organizações são estruturadas antes da definição dos processos. Assim, os gestores as forçam a funcionar dentro desse modelo, o que pode levar a ineficiências, problemas de qualidade, desperdícios e desconexão de ações e atividades. Portanto, o gerenciamento de mudanças defende a mudança da estrutura organizacional, de modo que essa ótica seja invertida. TROCANDO IDEIAS Quando pensamos em organizações, logo nos vêm à mente as empresas privadas. Mas temos de entender que a esfera pública, o Estado, também é uma organização, baseada em processos. Podemos vê-lo por meio de suas instituições: órgãos da Administração Direta, empresas públicas, autarquias, sociedades de economia mista e fundações. Uma ideia frequente é que o Estado é ineficiente na prestação de suas funções aos cidadãos e que isso se deve às ingerências políticas em suas estruturas. 18 Mas será esse o único motivo? Será que os processos das organizações públicas podem ser objeto de redesenhos, melhorias ou de reengenharias? Pense nisso e discuta com uma pessoa próxima. NA PRÁTICA No tópico “Contextualização” comparamos duas empresas atuantes no mesmo ramo de atividades, a Blockbuster e a Netflix. Vimos que a Blockbuster morreu e que a Netflix alterou seus processos, transformando-se em uma gigante, quase um sinônimo de streaming. Pensando nisso, responda: 1) A Netflix promoveu uma melhoria, um redesenho ou uma reengenharia em seus processos? Que elementos que comprovam isso? Justifique. 2) Qual é o papel da tecnologia nas mudanças da Netflix? E nos processos de mudança organizacional como um todo? Elenque os principais pontos da importância tecnológica nesse aspecto. FINALIZANDO Nesta etapa conhecemos as principais formas de mudança organizacional e a importância do comprometimento geral para que as mudanças aconteçam. Mudar não é fácil, seja para as organizações, seja para as pessoas, pois carrega um forte componente do desconhecido, da dúvida; assim, as resistências são normais. Todavia, vimos como conduzir as mudanças, suas graduações, ferramentas e formas de atenuar as objeções, bem como implementá-las de modo a reduzir as incertezas. Esperamos que tenha gostado e que continue ampliando seus conhecimentos sobre o assunto. 19 REFERÊNCIAS ABPMP Brazil. Association of Business Process Management Professionals. BPM CBOK. Guia para o Gerenciamento de Processos de Negócios ‒ Corpo Comum de Conhecimento ‒ ABPMP BMP CBOK V3.0. Brasília: ABPMP, 2013. ANDRADE, G. 7 cases de empresas que passaram pela transformação digital. Digilândia, 4 maio 2020. Disponível em: . Acesso em: 9 jun. 2022. BETTIOL, R. T. Efetiva transformação com gestão de processos de negócios – BPM. 104 f. Dissertação (Mestrado em Administração) − Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, 2016. Disponível em: . Acesso em: 9 jun. 2022. FONSECA, D. S. C. A reengenharia de processos de negócio: um estudo de casos. 133 f. 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