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Módulo 1.
Teoria Geral dos Fatos Jurídicos
1. Conceito: Em sentido amplo, fatos jurídicos são os acontecimentos que dependem ou independem da vontade humana, previstos na norma jurídica, em virtude dos quais nascem, se modificam, subsistem e se extinguem as relações jurídicas.
            As relações jurídicas, marcadas pela intersubjetividade, são relações sociais tuteladas pelo Direito.
2. Classificação:
Os fatos jurídicos em sentido amplo (lato sensu) podem ser naturais (independem da vontade humana) ou humanos (dependem da vontade humana).
            2.1. Fatos naturais, também denominados fatos jurídicos em sentido estrito (strictu sensu), são os acontecimentos que independem da vontade humana, ou seja, decorrem da natureza. Os fatos jurídicos em sentido estrito (strictu sensu) se subdividem em:
                        2.1.1. Fatos jurídicos em sentido estrito ordinários (morte, nascimento, maioridade, decurso de tempo - prescrição etc.).
                        2.1.2. Fatos jurídicos em sentido estrito extraordinários (terremoto, tempestade, inundação, enchente etc.).
            2.2. Fatos humanos são os acontecimentos que dependem da vontade humana, abrangendo tanto os atos lícitos como os ilícitos. Os fatos humanos se subdividem em:
                        2.2.1. Atos lícitos ou atos jurídicos em sentido amplo: são os atos humanos praticados em conformidade com o ordenamento jurídico, também denominados pela doutrina como voluntários, uma vez que produzem efeitos jurídicos querido pelo agente. Os atos jurídicos em sentido amplo se subdividem em:
a) Atos jurídicos em sentido estrito (ou meramente lícitos). Em tais atos, os efeitos da manifestação da vontade estão predeterminados na lei. Exemplos: notificação, que constitui em mora o devedor; reconhecimento de filho; tradição; ocupação; uso de alguma coisa.
Assim, os atos jurídicos meramente lícitos ou em sentido estrito são manifestações da vontade obedientes à lei, porém geradoras de efeitos que a própria lei determina. As partes não podem através de suas vontade modificar os efeitos jurídicos que serão produzidos.
b) Negócios jurídicos. Nestes há uma composição de interesses mediante a criação de normas que objetivam regular tais interesses, harmonizando vontade que, na aparência, demonstram serem antagônicas. O negócio jurídico é uma declaração da vontade destinada à produção de efeitos queridos pelas partes. Pode haver ou não correspondência entre o desejado pelas partes e o determinado pela lei. Neste caso prevalecerá a vontade das partes, uma vez que a regra da norma é meramente supletiva, isto é, valerá somente na ausência da vontade. Exemplos: testamento (negócio jurídico unilateral na formação); contratos (negócio jurídico bilateral na formação).
2.2.2. Atos ilícitos, também denominados pela doutrina de involuntários, uma vez que acarretam consequências jurídicas alheias à vontade do agente. A prática de ato ilícito produz efeitos previstos em norma jurídica, como sanção, porque viola mandamento normativo.
3. Negócio Jurídico.
O Código Civil de 2002 substitui a expressão genérica “ato jurídico” (art. 81, CC/1916) por “negócio jurídico” – art. 104, uma vez que somente os negócios justificam a pormenorizada regulamentação dos preceitos contidos no Livro III da Parte Geral. Contudo, o art. 185 determina que se apliquem, no que couber, aos atos jurídicos lícitos, as disposições disciplinadoras do negócio jurídico.
O artigo 81 do Código Civil de 1916 dizia que "todo o ato lícito que tenha por fim imediato adquirir resguardar, transferir, modificar ou extinguir direitos se denomina ato jurídico". Pois bem, o antigo ato jurídico é denominado hoje como negócio jurídico, por haver o intuito negocial. Por isso não pode ser confundido com uma mera transação comercial.
O negócio jurídico, conforme Francisco Amaral, é a declaração de vontade provada destinada a produzir efeitos que o agente pretende e o direito reconhece. Esses efeitos são a constituição, a modificação ou a extinção das relações jurídicas. Desta forma, o negócio jurídico possui uma finalidade negocial, sendo que esta abrange a aquisição, a conservação, a modificação ou a extinção de direitos.
4 - Da Classificação de Direitos.
Como a finalidade negocial diz respeito à aquisição, conservação,  modificação ou extinção de direitos é preciso fazer uma breve classificação destes direitos. Conforme ensina Silvio Venosa, os direitos podem ser classificados da seguinte forma:
Direito atual: é o que já foi adquirido e está em condições de ser exercido, por estar incorporado ao patrimônio do adquirente.
Direito futuro: é aquele cuja aquisição ainda não se operou e que não pode ser exercido.
Direito eventual: é o direito incompleto. Por isso é futuro, já que depende de acontecimento para completar-se, mas já apresenta formação e certa relação com o presente.
Expectativa de direito: é a mera possibilidade de adquirir um direito.
Direito condicional: é o que se perfaz pelo advento de um acontecimento futuro e incerto.
Direito potestativo: se traduz numa faculdade ou poder por ato livre da vontade.
5 - Da Finalidade negocial.
5.1 - Aquisição de direitos
A aquisição de um direito ocorre com a sua incorporação ao patrimônio e personalidade do titular. Pode ser
Originária: Sem qualquer interferência do titular anterior. Exemplos: usucapião e ocupação.
Derivada: Decorre de transferência feita por outra pessoa. Exemplos: contratos de doação e compra e venda.
5.2 - Conservação de direitos
A conservação serve para resguardar seus direitos. O titular muitas vezes necessita tomar certas medidas ou providências preventivas ou repressivas, judiciais ou extrajudiciais. Tais como hipoteca, penhor, protesto, notificação, legítima defesa, ações possessórias.
5.3  - Modificação de direitos
Nem sempre os direitos conservam suas características iniciais e permanecem inalterados durante sua existência.
Podem sofrer alterações em relação ao seu objeto e também em relação ao seu sujeito. Por exemplo: dação em pagamento, cessão de crédito.
5.4 - Extinção de direitos
Os direitos podem ser extintos por diversas razões. Por exemplo: perecimento, alienação, renúncia, abandono, falecimento do titular de um direito personalíssimo, decadência.
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Da representação.
1. Conceito
A representação se trata de relação jurídica mediante a qual certa pessoa se obriga diretamente perante terceiro, por meio de ato praticado em seu nome por um representante ou intermediário.
Desta forma, com exceção dos atos personalíssimos, os atos jurídicos podem ser praticados por intermédio da representação, uma vez, que, nos termos do art. 116 “A manifestação de vontade pelo representante, nos limites de seus poderes, produz efeitos em relação ao representado”.
Reza o art. 115 que os poderes de representação são conferidos pela lei ou pelo interessado. Tal artigo elenca duas das espécies de representação existentes no ordenamento jurídico: a legal e a convencional.
2. Espécies
A representação legal é aquela na qual a norma jurídica confere poderes para administrar bens alheios, como: os pais, em relação aos filhos menores (art.1634, V e 1690); os tutores, em relação aos pupilos (art. 1747, I) e os curadores, quanto aos curatelados (art. 1774).
A representação convencional ou voluntária é estabelecida na Parte Especial do Código (Contrato de Mandato - art. 653 ao art. 691). Art. 653. O mandato ocorre quando alguém recebe de outrem poderes para, em seu nome, praticar atos ou administrar interesses. A procuração é o instrumento do mandato.
Ressalte-se, ainda, que a representação pode se dar também por via judicial. Nesta espécie de representação o juiz nomeia determinadas pessoas para exercerem certos cargos em determinados processos (o síndico como representante da massa falida, no processo de falência; o inventariante como representante do espólio, na abertura do inventário etc.).
3. Prova da representação
Conforme disposto no art. 118, o representante tem o dever de provar às pessoas, com quem vier a contratar em nomee acarretará:
a) Obrigação de ressarcir danos causados a outrem.
b) anulabilidade do negócio jurídico feito sob coação (art. 153 cc 171,II).
c) Invocação da idade por menor relativamente incapaz, se dolosamente a ocultou (art. 180,CC).
Vários são os artigos que reprimem o abuso de direito em nosso Código:
Art. 1277 – uso anormal da propriedade.
Art. 939 – cobrança de dívida antes do vencimento (fora dos casos legais)
Art. 940 – cobrança de dívida já paga, no todo ou em parte.
Art. 1637 – Suspensão do poder familiar decorrente de abuso de autoridade dos pais (ou de um deles), faltando aos deveres ou arruinando os bens dos filhos.
Art. 1638 – Destituição do poder familiar devido ao castigo imoderado, ao abandono dos filhos, etc.
MODULO 8
Prescrição e Decadência
1. Prescrição
1.1. Conceitos
Clóvis Bevilácqua: “É a perda da ação atribuída a um direito, e de toda a sua capacidade defensiva, em consequência do não uso dela, durante determinado espaço de tempo”.
Câmara Leal: “Extinção de uma ação ajuizável, em virtude da inércia de seu titular durante certo lapso de tempo, na ausência de causas preclusivas de seu curso”.
Pontes de Miranda: “Exceção que alguém tem contra o que não exerceu durante um lapso de tempo fixado em norma, sua pretensão ou ação”.
Orlando Gomes: “A prescrição é o modo pelo qual um direito se extingue em virtude da inércia, durante certo lapso de tempo, do seu titular, que, em consequência, fica sem ação para assegurá-lo”.
Assim como entre nossos doutrinadores, no direito comparado sempre houve falta de uniformidade de posição em relação ao conceito do instituto da prescrição.
O direito romano, assim como o medieval, tinha a prescrição como um fenômeno no plano processual, que afetava a ação (actio) e não diretamente o direito material. Seguindo essa linha, o direito alemão e o suíço evoluíram para a extinção da pretensão (anspruch), como o efeito do transcurso do prazo prescricional aliado à inércia do titular do direito violado. Por sua vez, o Código Italiano de 1942 declara a prescrição como causa de extinção do próprio direito.
O Código Civil vigente, na esteira do direito alemão, optou por conceituar a prescrição como perda da pretensão:
Art. 189. Violado o direito, nasce para o titular a pretensão, a qual se extingue, pela prescrição,
Nas palavras de Maria Helena Diniz:
“Violado um direito nasce para o seu titular a pretensão (Anspruch), ou seja, o poder de exigir, em juízo, uma prestação que lhe é devida”.
A pretensão é, pois, o poder de exigir de outrem uma ação ou omissão e, desta forma, a prescrição revela-se como uma sanção para o negligente, que deixa de exercer seu direito de ação, dentro de determinado prazo estabelecido na lei, ante uma pretensão resistida.
Não é o direito subjetivo descumprido pelo sujeito passivo que a inércia do titular faz desaparecer, mas o direito de exigir em juízo a prestação inadimplida que fica comprometida pela prescrição.
Desta forma, o direito subjetivo fica, em decorrência da prescrição, desguarnecido da pretensão, mas subsiste, pois, caso o devedor se disponha a cumpri-lo, não está autorizado à repetição do indébito (art. 882, CC). Vale lembrar, ainda, que se o devedor demandado não arguir a prescrição, o juiz não poderá reconhecê-la de ofício, salvo se favorecer o absolutamente incapaz (art. 194, CC).
Anteriormente, a prescrição era conceituada como a perda do direito de ação. Contudo, o direito de ação (ação formal ou processual) não se confunde com a pretensão (ação material). Esta é o poder de exigir de outrem uma ação que permite a composição do dano verificado em decorrência da violação de um direito.
O direito de ação processual é um direito subjetivo autônomo, de ordem pública, à prestação jurisdicional. Sendo assim, o titular de um direito prescrito não perde o direito processual de ação.
A violação de um direito subjetivo gera para seu titular a pretensão (poder ou faculdade de exigir de alguém uma prestação ativa ou omissiva). O exercício de tal pretensão se sujeita ao fator tempo (prazo legal), que findo, sem que o credor a tenha feito valer em juízo, provocará a prescrição.
A prescrição não extinguirá o direito material, mas cria para aquela pessoa a quem a prescrição beneficia (devedor) uma exceção. Se esta não for exercitada, o direito do autor será tutelado em juízo, a par de consumada a prescrição. Mesmo se a exceção for acolhida, em havendo o pagamento da prestação pelo devedor ou se este renunciar aos efeitos da prescrição, é como se o direito do credor jamais tivesse sido afetado pelo efeito prescricional.
Conclusão: Não é nem o direito subjetivo material, nem o direito processual de ação (ação formal) que a prescrição atinge, mas apenas a pretensão de obter a prestação devida por quem a descumpriu (actio romana ou em sentido material).
1.2. Requisitos da Prescrição
1.2.1. Violação do direito, com o nascimento da pretensão. Violado o direito pessoal ou real nasce a pretensão (ação material) contra o sujeito passivo. Caso este se recuse a atender a pretensão, nasce a ação processual, com a qual se provoca a intervenção estatal. É a pretensão (ação material) que prescreverá se o interessado não a mover.
1.2.2. Inércia do titular da ação por um período de tempo fixado em lei. A prescrição ocorre em virtude da inércia do titular que não exerce a sua pretensão no prazo fixado em lei. O prazo prescricional geral é, atualmente, 10 anos, conforme disposto no art. 205, CC, que será utilizado subsidiariamente, na ausência de prazos especiais, os quais encontram-se fixados no art.206, CC, ou em legislação extravagante.
1.2.3. Ausência de causas suspensivas, interruptivas ou impeditivas.
Causas interruptivas (art. 202 e 204 CC) são as que inutilizam a prescrição iniciada, de modo que o seu prazo começa a correr a partir da data do ato que interrompeu ou do último ato do processo que a interromper.
Causas impeditivas são as que impedem o curso da prescrição. As mesmas causas, ora impedem, ora suspendem a prescrição (art. 197 ao art. 201, CC). Se o prazo ainda não começou fluir, a causa do obstáculo impede que comece (ex; a constância da sociedade conjugal). Se, entretanto o obstáculo (casamento) surge após o prazo ter se iniciado, dá-se a suspensão. Nesse caso, somam-se os períodos, isto é cessada a causa de suspensão temporária, o lapso prescricional volta a fluir somente pelo tempo restante.
1.3. Princípios da prescrição
1.3.1. Matéria de ordem pública: As regras prescricionais, ainda que relacionadas aos direitos subjetivos de ordem privada, não comportam alteração (imperatividade absolutamente cogente). É que a matéria envolve a paz social, não podendo ficar entregue ao livre jogo da conveniência das partes.
1.3.2. Admissibilidade de renúncia: A prescrição pode ser renunciada, desde que tenha sido consumada (art. 191, CC). A renúncia prévia da prescrição, assim como da prescrição em curso, torna a ação imprescritível, não sendo admitida. A renúncia pode ser expressa, quando há declaração nesse sentido, ou tácita, que se caracteriza por comportamentos reveladores da intenção de renunciar (ex: devedor, ciente da prescrição, efetua o pagamento ou oferece garantia ao credor). A renúncia não pode prejudicar interesse de terceiro (ex: caso o devedor esteja em situação econômica precária e tendo outros credores, não poderá renunciar o direito de invocar a prescrição em ação judicial movida por outro credor).
1.3.3. Inadmissibilidade de alteração dos prazos prescricionais – O art. 192, CC, inexistente no Código Civil revogado põe fim à polêmica doutrinária sobre a possibilidade de redução dos prazos prescricionais. A doutrina e a jurisprudência sempre foram unânimes em admitir que as parte não podem convencionar a ampliação do prazo prescricional (disfarce da renúncia). Quanto à diminuição, sempre houve argumentos favoráveis, uma vez que se ajusta à finalidade do instituto – manutenção da ordem pública. Pelo “Codex” atual, os prazos prescricionais são inalteráveis. Os prazos da prescrição não podem ser alterados por acordo das partes;a proibição abrange tanto a ampliação como a redução.
1.3.4. Decretação de ofício ou alegação por aquele a quem aproveita a prescrição – O art. 193 dispõe que a prescrição pode ser alegada em qualquer grau de jurisdição, pela parte a quem aproveita. O referido dispositivo significa que a prescrição pode ser alegada em primeira ou em segunda instância, em qualquer fase do processo, ainda que o réu tenha deixado de invocá-la na contestação (a sua não alegação não significa renúncia tácita).
O art. 193 reza que a prescrição pode ser alegada pela parte a quem aproveita. Sendo assim, não é apenas o devedor principal (ou devedores) que tem interesse em alegar a prescrição. Podem alegá-la, os devedores-garantidores, os credores do devedor insolvente, o responsável pela evicção etc.
Em 16.2.2006, a Lei nº 11.280 revogou o art. 194, que estabelecia que o juiz não podia julgar extinto o processo de ofício, fundado na prescrição da pretensão do direito de ação, salvo se para beneficiar ao absolutamente incapaz. Tal regra tinha como fundamento o princípio da eticidade: se o devedor não alegava a prescrição em juízo, presumia-se que ele não queria se eximir de uma responsabilidade sem o exame de mérito.
Hoje pode ser decretada de ofício a prescrição.
1.4. Pretensões imprescritíveis
            A prescritibilidade é a regra, a imprescritibilidade é a exceção. São imprescritíveis as pretensões que se exercem por meio de ações declaratórias e mediante ações constitutivas sem prazo fixado em lei.
Exemplos:
* Direitos da personalidade – direito à vida, à honra, à liberdade, etc.
* Direitos relativos ao estado da pessoa – filiação, condição conjugal, cidadania.
* Bens públicos
* Bens confiados à guarda de outrem, a título de penhor, mandato ou depósito.
* Direitos potestativos (inexistência de direito violado). Ex: a pretensão do condômino de a qualquer tempo exigir a divisão da coisa comum (art. 1320), de pedir-lhe a venda, ou a meação de muro divisório (artigos 1297 a 1327)
* A exceção de nulidade
Saliente-se que conforme entendimento do Professor Caio Mário da Silva Pereira, citado pelo mestre Carlos Roberto Gonçalves, “a prescrição fulmina todos os direitos patrimoniais, e, normalmente, estende-se aos efeitos patrimoniais de direitos imprescritíveis, porque estes não se podem extinguir, o que não ocorre com as vantagens econômicas respectivas”.
Cite-se como exemplo os direitos de personalidade. As pretensões relativas a tais direitos não prescrevem, mas a de obter vantagem patrimonial em decorrência de sua ofensa é prescritível. (art. 206, § 3º, V).
1.5. Prescrição e institutos processuais afins: preclusão e perempção
A preclusão e a perempção são institutos jurídicos processuais que guardam semelhança com a prescrição, mas que com ela não se confundem. A semelhança reside no fator tempo, ou seja, lapso de tempo e as diferenças estão expostas a seguir:
Preclusão é a perda da faculdade processual, por não ter sido usada no momento próprio. Ela impede que questões já decididas, na mesma ação, sejam renovadas. Só produz efeitos no processo da qual advém. (Ex: o réu tem 15 dias para contestar a ação). Conforme palavras do eminente processualista Professor Humberto Theodoro Júnior: “Justifica-se a preclusão pela aspiração de certeza e segurança que, em matéria de processo, muitas vezes prevalece sobre o ideal de justiça pura e absoluta”.
Perempção é a perda do direito de ação pelo autor contumaz, que deu causa a três arquivamentos sucessivos. O direito material do autor não se extingue, nem a sua pretensão, mas só podem ser opostos como defesa, desde que o adversário proponha uma ação versando sobre o mesmo fato.
A prescrição extingue a pretensão, que é a exigência da subordinação de um interesse alheio ao interesse próprio. Quando um direito é violado, nasce a pretensão que é deduzida em juízo por meio de uma ação. Extinta a pretensão, não há ação. Logo, a prescrição ao extinguir a pretensão, extingue a ação. Contrariamente, a perempção não extingue a pretensão, só a ação. O direito material e a pretensão podem ser opostos em defesa.
1.6. Inovações sobre a prescrição no Código Civil - 2002.
1.6.1. Disposições gerais
Na seção relativa às disposições gerais, o Código Civil vigente, conserva muitas regras que se faziam presentes na lei revogada, trazendo, contudo, três inovações:
a) Art. 189. Violado o direito, nasce para o titular a pretensão, a qual se extingue, pela prescrição, nos prazos a que aludem os art. 295 e 206.
Ressalte-se que não se trata de uma novidade, mas apenas uma nova forma de dizer, considerando o que estava disposto no art. 75 do Código – 1916 (A todo direito corresponde uma ação, que o assegura) em cotejo com as regras elencadas dos art., 177 ao 179 do diploma legal anterior.   
b) Art. 190. A exceção prescreve no mesmo prazo que a pretensão.
A inclusão desse artigo reflete a construção pretoriana sobre a matéria.
c) Art. 192. Os prazos de prescrição não podem ser alterados por acordo das partes.
Reitere-se o que já foi comentado: Veda-se o pacto a respeito dos prazos prescricionais, uma vez que a regra, em questão, é de imperatividade absoluta (matéria jus cogens).
1.6.2. Causas suspensivas:
Na seção relativa ao disciplinamento da suspensão da prescrição, outra “novidade”:
Art. 200. Quando a ação se originar de fato que deva ser apurado no juízo criminal, não ocorrerá a prescrição antes da respectiva sentença definitiva.
1.6.3. Causas interruptivas: o prazo volta a correr do início.
No que concerne às causas interruptivas, merece destaque a inclusão do protesto cambial como meio de se interromper a prescrição – art. 202, III.
1.6.4. Prazos
Quanto aos prazos, a Lei Civil atual, em seu art. 205 trata da prescrição ordinária ou comum, alterando substancialmente o disposto no art. 177 do Código Civil de 1916, uma vez que estabelece o prazo único de 10 anos (para pretensões obrigacionais ou reais), salvo se a lei fixar prazo menor.
Em relação à prescrição especial, podem ser constatadas as seguintes alterações:
1ª) O prazo especial passa a ser anual, trienal, quadrienal e quinquenal (art. 206, §§ 1º a 5º).
2ª) Os parágrafos constantes do Código Civil de 1916 e ausentes na relação do art. 206 do Código Civil vigente, sempre foram entendidos pela doutrina como decadenciais.
3ª) Modificação de prazos prescricionais, para mais ou para menos, em diversas pretensões já relacionadas no Código Civil de 1916.
Código Civil 1916                                                               Código Civil 2002
Art. 178, § 10, I                                                         Art. 206, § 2º
Prescreve em cinco anos as prestações alimentícias  Em dois anos, a pretensão para haver prestações alimentares, a partir da data em que se vencerem.
Art. 178, § 10, IV                                                     Art. 206, § 3º, I
Prescreve em cinco anos os alugueres de prédio                 Em três anos, a pretensão relativa a aluguéis de prédios
rústico e urbano                                                                    rústicos e urbanos     
Art. 178, § 6º, VI, IX, X e § 7º, III e IV                             Art. 206, § 5º, II
Prescreve em um ano                                                           Em cinco anos a pretensão dos profissionais                                                                                  liberais em geral, procuradores judiciais,
                                                                                  curadores e professores pelos seus honorários,
                                                                                  contado o prazo da conclusão dos serviços,
                                                                                  da cessação dos respectivos contratos ou mandato.
A ação de professores, mestres ou repetidores de ciência...
pelas lições que derem, pagáveis por períodos não
excedentes a um mês
A ação dos médicos, cirurgiões ou farmacêuticos ...
A ação dos advogados, solicitadores, curadores, peritos,
procuradoresjudiciais...
Prescreve em dois anos
A ação de professores, mestres ou repetidores de ciência...
cujos honorários sejam estipulados em prestações
correspondentes a períodos maiores de um mês...
A ação de engenheiros, arquitetos, agrimensores... por
seus honorários, contado o prazo no termo dos seus
trabalhos.
4ª) Determinação de prazos especiais para determinadas pretensões (muitas delas, sob a égide do Código anterior prescreviam no prazo geral de vinte anos).
Art. 206. Prescreve:
§ 1º Em um ano:
IV - a pretensão contra os peritos, pela avaliação dos bens que entraram para a formação do capital de sociedade anônima, contado da publicação da ata da assembleia que aprovar o laudo.
V- a pretensão dos credores não pagos contra os sócios ou acionistas e os liquidantes, contado o prazo da publicação da ata de encerramento da liquidação da sociedade.
§ 3º Em três anos:
IV – a pretensão de ressarcimento de enriquecimento sem causa;
V – a pretensão de reparação civil;
VI – a pretensão de restituição dos lucros ou dividendos recebidos de má-fé, correndo o prazo da data em que foi deliberada a distribuição;
VII – a pretensão contra as pessoas em seguida indicadas por violação da lei ou do estatuto, contado o prazo:
a) para os fundadores, da publicação dos atos constitutivos da sociedade anônima;
b) para os administradores, ou fiscais, da apresentação, aos sócios, do balanço referente ao exercício em que a violação tenha sido praticada, ou da reunião ou assembleia geral que dela deva tomar conhecimento;
c) para os liquidantes, da assembleia semestral posterior à violação
VIII – a pretensão para haver o pagamento de título de crédito, a contar do vencimento, ressalvadas as disposições de lei especial;
IX – a pretensão do beneficiário contra o segurador, e a do terceiro prejudicado, no caso de seguro de responsabilidade civil obrigatório;
§ 4º Em quatro anos, a pretensão relativa à tutela, a contar da data da aprovação das contas.
§ 5º Em cinco anos:
I – a pretensão de cobrança de dívidas líquidas constantes de instrumento público ou particular;
III – a pretensão do vencedor para haver do vencido o que despendeu em juízo.
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Decadência
2.1. Conceito
A decadência é a extinção do direito pela inação de seu titular que deixa escoar o prazo estabelecido na lei ou fixado voluntariamente para o seu exercício.
O objeto da decadência são os direitos potestativos de qualquer espécie, disponíveis ou indisponíveis, que conferem ao respectivo titular o poder de influir ou determinar mudanças na esfera jurídica de outrem, por ato unilateral, sem que haja dever correspondente, apenas uma sujeição.[1]
Direitos potestativos são direitos sem pretensão, uma vez que insuscetíveis de violação. A eles não se opõe um dever de quem quer que seja, mas uma sujeição de alguém (ex: o direito de certa pessoa em anular um negócio jurídico por vício de consentimento não pode ser violado pela parte a quem a anulação prejudica. Tal pessoa está apenas sujeita a sofrer as consequências da anulação decretada pelo juiz , não tendo dever algum que possa descumprir.[2]
Conforme Maria Helena Diniz:
O objeto da decadência é o direito que, por determinação legal ou por vontade humana unilateral ou bilateral, está subordinado à condição de exercício em certo espaço de tempo, sob pena de caducidade.
2.2. Espécies
a) Legal
Quando resulta da vontade estatal.
Exemplos: art. 445, CC (vícios redibitórios).
Art. 26 e parágrafos, Lei 8078/90 – CDC (vícios aparentes e ocultos).
b) Convencional
Quando resulta da vontade humana. Ex: prazo decadencial disposto em testamento ou no contrato.
2.3. Decadência no Código Civil – 2002.
O Código Civil de 1916 não se referia explicitamente à decadência e, comumente, levava o operador do direito a confundir o instituto da prescrição com o da decadência, por terem um traço comum que é o decurso do tempo aliado à inércia do titular do direito.
O Código Civil vigente, no título IV, do livro III dedica o capítulo I à prescrição e o capítulo II à decadência.
Os prazos prescricionais especiais encontram-se discriminados no art. 206, §§ 1º a 5º. Todos os demais prazos constantes do diploma legal vigente, na parte geral (ex. art. 26; art. 45; art. 45, parágrafo único; art. 178, I, II e III e art.179) e na parte especial (ex; art. 505; art. 1560; art. 445), tratam-se de lapsos temporais decadenciais.
Saliente-se que o Código Civil, no capítulo dedicado à decadência trata de enumerar somente as regras gerais atinentes ao relativo instituto. São elas:
a) Inaplicabilidade das causas suspensivas, impeditivas e interruptivas da prescrição à decadência convencional e, em regra, à legal – art. 207
Com relação à decadência decorrente da lei, somente expressa disposição legal contrária tem o condão de permitir a sua aplicação – art. 207, a contrario sensu. Cite-se como exemplo a disposição contida no CDC em seu art. 26, § 2º, que autoriza a interrupção ou suspensão do prazo decadencial.
b) Dever do juiz em conhecer “de ofício” a decadência emanada da vontade estatal (art. 210), ainda que se trate de direitos patrimoniais. A decadência convencional, semelhantemente à prescrição, deve ser alegada por quem a aproveite (interesse jurídico), podendo alegá-la em qualquer grau de jurisdição – art. 211.
c) Aplicabilidade das disposições contidas no art. 195 e 198, I, relativas ao instituto da prescrição, conforme regrado no art. 208. Os relativamente incapazes e as pessoas jurídicas têm ação contra os seus assistentes ou representantes legais que derem causa à decadência. E mais, a decadência não corre em relação aos absolutamente incapazes referidos no at. 3º.
d) Impossibilidade da renúncia da decadência fixada em lei – art. 209. Contudo, se o prazo decadencial para o exercício de determinado direito for fixado pelas partes, nada obsta a renúncia.
A irrenunciabilidade da decadência fixada em lei é questão de ordem pública e as partes não podem afastar a incidência da regra. Na decadência convencional, as partes podem pactuar diversamente. Ex: Na retrovenda, as partes podem estabelecer o prazo para o resgate inferior ao estabelecido em lei. Caso as partes renunciem ao prazo por elas estabelecido, o mesmo prorroga-se para aquele fixado na norma (três anos).
3. Distinção doutrinária entre prescrição e decadência
Prescrição é expressão ambígua que, em sentido largo, compreende a decadência, e, em sentido estrito contrapõem-se a esta. Quando se diz que certo direito é imprescritível, isso significa que nem a prescrição (em sentido estrito), nem a decadência podem importar seu desaparecimento[3].
A doutrina estabeleceu, didaticamente, a distinção entre os dois institutos:
1ª) A prescrição extingue a pretensão alegável em juízo por meio de uma ação, fazendo desaparecer, por via oblíqua, o direito por ela tutelado. A decadência extingue o próprio direito pela falta do seu exercício dentro do prazo prefixado pela vontade do estado ou por intermédio da vontade humana.
2ª) A prescrição supõe direito já exercido pelo titular, enquanto que a decadência supõe um direito ainda não exercido pelo titular.
3ª) Os prazos prescricionais são fixados por lei, ou seja, o exercício da pretensão em juízo deve ser exercido em prazo prefixado legalmente, não podendo ser alterado por acordo entre as partes. Por sua vez, os prazos decadenciais podem ser determinados pela vontade do Estado (prazo legal) e também pela vontade humana (vontade unilateral e bilateral).
4ª) A prescrição implica numa ação, com origem distinta da do direito, tendo, pois, nascimento posterior a ele. A decadência supõe uma ação cuja gênese é idêntica à do direito, haja vista nascerem simultaneamente.
5ª) A prescrição pode ser renunciada pelo prescribente, desde que tenha sido consumada. A decadência decorrente de prazo fixado em lei não pode ser renunciada, nem antes, nem depois de consumada.
6ª) A prescrição atinge as ações condenatórias, uma vez que as mesmas protegem direitos dos quais irradiam pretensões (prestações sujeitas à violação ou lesão).A decadência atinge as ações constitutivas (positivas ou negativas) com prazos fixados em lei, ou seja, que se referem a direitos sem pretensão (sem prestação) que não podem ser violados. O prazo decadencial se refere a um direito que deve ser exercido por mero ato de vontade, independentemente de atuação de terceiro.
3.2. Quadro Comparativo
Prescrição e Decadência
1. A prescrição supõe direito já exercido pelo titular. 1. A decadência pressupõe um direito que não foi exercido.
2. Extingue apenas a pretensão alegável em juízo. 2. Extingue o próprio direito.
3. Implica numa ação com origem distinta do direito, 3. Gênese simultânea do direito e da ação.
tendo nascimento posterior a ele.
4. Prejudica só o tipo de ação em que foi arguida, 4. Prejudica todas as ações possíveis.
podendo o direito ser pleiteado por outra via, se
houver.
5. O prazo prescricional é fixado somente por lei 5. O prazo decadencial é estabelecido por lei ou por vontade unilateral ou bilateral.
6. Pode ser renunciada, desde que consumada 6. Decadência legal não pode ser renunciada, nem depois de consumada.
7. É sujeita à às causas de impedimento, suspensão e 7. Somente por disposição legal pode ser impedida, suspensa interrupção. ou interrompida.
8. Incide nas ações onde se exige uma prestação, ou 8. Incide nas ações em que se visa a modificação de uma
seja, ações condenatórias situação jurídica, ou seja, ações constitutivas (positivas ou
negativas) com prazo fixado em lei.
9. Aplica-se o prazo geral, na falta de prazo especial 9. Só tem prazos especiais e expressos; não há prazo geral
Diferenciações práticas entre prescrição e decadência no Código Civil
O Código Civil anterior englobava os prazos extintivos sob o nomen iuris de prescrição e, sendo assim, eram regidos literalmente pelos mesmos princípios e regras.
Considerando que a lei não pode contraria a natureza das coisas, a doutrina e jurisprudência tiveram de assumir a tarefa de distinguir quais eram os prazos ditos prescricionais no texto da lei, daqueles que, embora assim rotulados, representavam, na verdade, casos de decadência.
Por falta de parâmetros legais, a distinção doutrinária pátria entre os dois institutos redundava, quase sempre, em controvérsias, uma vez que, buscando inspiração no direito comparado, nunca conseguiu uniformidade em suas posições a respeito da matéria.
Reitere-se que o direito alemão buscou a fundamentação para o conceito da prescrição no direito romano. Neste, o aludido instituto era tido como um fenômeno do plano processual, que afetava a actio e não diretamente o direito material. Por sua vez, o direito italiano (Código Civil Italiano – 1942) declara que a prescrição extingue o próprio direito.
Entre nossos doutrinadores nacionais, estabeleceu-se uma divisão entre os que se mantinham fiéis às tradições romanas, por defenderem a prescrição como causa de extinção apenas da ação e os que qualificavam como causa de extinção dos próprios direitos. O Código Civil se posicionou e optou por conceituar a prescrição como a perda da pretensão, em seu art. 189.
Por fim, saliente-se que A Lei Civil, no Título IV, do Livro III, da Parte Geral, dedica o Capítulo I à prescrição e o Capítulo II à decadência.
Na aludida norma jurídica os prazos de prescrição da pretensão, ou seja, prazos prescricionais encontram-se discriminados nos art. 205 (prazo ordinário ou geral) e 206, §§ 1º a 5º (prazos especiais).
Todos os demais prazos constantes no Código Civil vigente, dispostos na parte geral (ex. art. 26; art. 45; art. 45, parágrafo único; art. 178, I, II e III e art.179) ou na parte especial (art. 505; art. 1560; art. 445, etc.), são considerados decadenciais.
Direito Intertemporal
Como já analisado, o instituto da prescrição sofreu uma considerável alteração no que se refere aos prazos. O prazo geral foi uniformizado para dez anos, quando a lei não lhe houver fixado prazo menor (art. 205). No que se refere aos prazos especiais elencados no art. 206, observa-se que ocorreram reduções (ex: art. 206, § 2º e 206, § 3º, I) e um aumento (art. 206, § 5º, II) nos lapsos temporais da prescrição.
Recorde-se, exemplificativamente, que sob a égide do Código anterior, o prazo para se exercer judicialmente a pretensão da reparação civil era de vinte anos. Atualmente tal prazo é de três anos. Ou seja, por demais exíguo, podendo ser insuficiente para ação de reparação.
Diante de tal constatação surge uma indagação: como conciliar os prazos em andamento com a entrada em vigor dos novos prazos do Código Civil de 2002?
Prevendo essa hipótese, o legislador inseriu no artigo 2028 uma regra de transição, determinando a aplicação dos prazos antigos para os prazos em andamento quando da entrada em vigor do novo Código. Dispõe o mencionado artigo:
Art. 2028. Serão os da lei anterior os prazos, quando reduzidos por este Código e se, na data de sua entrada em vigor, já houver transcorrido mais da metade do tempo estabelecido na lei revogada.
Prescrição. Ação de reparação de danos. Jornada STJ 50: A partir da vigência do novo Código Civil, o prazo prescricional das ações de reparação de danos que não houver atingido a metade do tempo previsto no Código Civil de 1916 fluirá por inteiro, nos termos da nova lei (art. 206)”.
A maioria dos doutrinadores vem entendendo que são exigidos dois requisitos para aplicação do prazo antigo estabelecido no Código revogado: a) que tenha ocorrido diminuição do prazo prescricional no Código de 2002; b) que tenha ocorrido o transcurso de mais da metade o lapso temporal previsto no Código de 1916.
Contudo, há entendimento que essa interpretação pode resultar numa manifesta inconstitucionalidade do artigo 2028, uma vez que viola o direito de igualdade, outorgando prazos maiores para o inerte credor - que deixou passar mais da metade do prazo – e prazos menores para os credores em que o lapso não transcorreu pela metade
Para salvar a lei da inconstitucionalidade, sugere-se uma nova leitura ao dispositivo em questão, aplicando-se o prazo antigo em duas situações distintas: a) em todos os prazos diminuídos pela nova Lei; b) em todos os prazos que – na data da entrada em vigor do Novo Código – já houver transcorrido mais da metade do tempo.
 
 
[1] Amaral, Francisco, obra citada por Gonçalves, Carlos Roberto, Direito Civil Brasileiro, op. Cit. pág. 482
[2] Alves, José Carlos Moreira, idem, pg. 483.
[3] Coelho, Fábio Ulhoa, Curso de Direito Civil, Vol. 1, 1ª ed., Editora Saraiva, São Paulo, 2003, p. 372.
2do representado, não só sua qualidade, como a extensão de seus poderes, sob pena de responder pelos atos negociais que a estes excederem.
4 Efeitos da Representação
A representação produz efeitos, dentre os quais, o principal é o fato de que uma vez realizado o negócio jurídico pelo representante, o representando adquire direitos e obrigações. Os direitos são incorporados no patrimônio do representado. Por sua vez, as obrigações assumidas em nome do representado devem ser cumpridas, e por elas responde o seu acervo patrimonial.
5. Hipóteses de anulabilidade do negócio jurídico realizado via representação:
5.1. Negócio jurídico realizado pelo representante consigo mesmo, no seu interesse ou por conta de outrem (art. 117), salvo se a lei ou o representado permitir.
5.2. Substabelecimento da representação (art. 117, parágrafo único), salvo se o representado permitir.
5.3. Celebração do negócio jurídico pelo representante em conflito de interesses com o representado, se tal fato era ou devia ser do conhecimento da outra parte. Caso o representante em conflito de interesses com o representado celebrar negócio jurídico, este poderá ser anulado no prazo decadencial de 180 dias, a contar da celebração do ato negocial ou da cessação da incapacidade.
6) O contrato consigo mesmo
É da natureza da representação que o representante atue em nome de apenas uma das partes do negócio jurídico no qual intervém. Por exemplo, em uma locação o locador pode ser representado por terceiro. Isso é comum em imobiliárias que administram imóveis.
Porém pode acontecer de duas partes de um negócio jurídico se manifestarem por meio de um mesmo representante. É a situação da dupla representação. Por exemplo, na mesma locação o locador e o locatário sendo substituídos na assinatura do contrato por um só representante.
Outra hipótese, é a de que o representante de uma das partes  seja justamente a outra parte. Por exemplo, o mandatário que tem poderes para alienar um certo bem por certo preço a si próprio. Ele representa o vendedor e é o comprador.
Nas duas hipóteses acima temos o contrato consigo mesmo.
De qualquer forma, deve ser observado o artigo 117 que diz ser anulável o negócio jurídico celebrado consigo mesmo sem a permissão da lei ou do próprio representado. Nas hipóteses de representação legal, como na tutela e curatela isso não é permitido. Na hipóteses de representação convencional somente com a permissão do representado. Lembrando, ainda, que o advogado não poderá representar duas partes contrárias.
7) Atos praticados contra o interesse do representado.
O representante atua em nome do representado. Por isso deve agir de conformidade com os poderes recebidos. Se ultrapassar haverá excesso de poder e pode ser responsabilizado por isso.
Modulo 2.
Negócio Jurídico
1. Conceito: Negócio Jurídico é uma norma concreta estabelecida pelas partes, cujo objetivo é produzir direitos e deveres. Ë no negócio jurídico que se revela o princípio da autonomia da vontade, ou seja, os sujeitos de direto podem autorregular os seus interesses legais, nos limites estabelecidos pela lei.
2. Origem: O negócio jurídico nasce da vontade humana, ou seja, pressupõe a presença de um elemento volitivo que se materializa numa declaração da vontade através da qual se realiza uma ação ou um ato, o qual está vinculado a uma intenção. Ressalte-se, ainda, que o princípio da autonomia da vontade é relativo, uma vez que é reduzido pela supremacia das normas de ordem pública (normas absolutamente cogentes). Nas últimas décadas verifica-se uma “publicização” do Direito Civil, com a evidência de muitas normas públicas no direito privado.
3. Declaração da Vontade
O que interessa para o Direito? A intenção ou a ação? Interessa para o Direito a vontade declarada, haja vista que somente a intenção não possui nenhum valor. Após a declaração da vontade a intenção será considerada.
3.1 - O silêncio
A declaração da vontade deve ser declarada por palavras (escritas ou não), gestos ou sinais. Pode ser, ainda, expressa ou tácita, sendo que o silêncio, juridicamente considerado, é nada. Via de regra, o silêncio é nada. O silêncio só terá valor quando houver indicação na norma.
Ex.: art. 539 – “O doador pode fixar prazo ao donatário, para declarar se aceita, ou não, a liberalidade. Desde que o donatário, ciente do prazo, não faça dentro dele, a declaração, entender-se-á que aceitou, se a doação não for sujeita a encargo”.
Neste caso, o silêncio do donatário significa que aceitou a doação (manifestação tácita). Trata-se de exceção à regra de que o silêncio nada significa para o Direito.
3.2 - Reserva mental
A reserva mental ocorre quando um dos declarantes oculta a sua verdadeira intenção. Quando não quer um efeito jurídico que declara querer. Tem por objetivo enganar o outro contratante. Se este outro não sabe da reserva, o negócio subsiste e produz os efeitos que o declarante não desejava.
Desta forma, a reserva mental é indiferente ao mundo jurídico porque se passa apenas na mente do declarante, sendo irrelevante no que se refere à validade ou eficácia do negócio jurídico.
O Código Civil trata do assunto no artigo 110.
O exemplo clássico de reserva mental ocorre quando um amigo manifesta a vontade de emprestar dinheiro a outro para evitar um possível suicídio. A intenção real não é emprestar e sim evitar a morte do outro. Por isso, sempre há que se verificar se a outra parte sabe a real intenção do declarante.
3.3 - A declaração da vontade pode ser receptícia (endereçada) ou não receptícia (não endereçada).
a) Declaração da vontade endereçada ou receptícia: Tal declaração é endereçada a pessoa determinada, seja com o propósito de levar-lhe o conhecimento da intenção do agente, seja com a finalidade de ajustar a declaração de vontade oposta com o objetivo de concretizar o negócio jurídico. Ex. proposta e aceitação (art. 427 e seguintes).
b) Declaração de vontade não endereçada ou não receptícia é aquela onde basta tão somente a manifestação do declarante, sem que tal declaração tenha que ser conhecida pela outra parte para a produção de efeitos jurídicos. Ex. seguro de vida em nome de terceira pessoa.
4. Classificação dos negócios jurídicos
4.1. Quanto à manifestação da vontade:
            a) Negócio Jurídico Bilateral é aquele negócio jurídico que reclama para a sua concretização a convergência de duas ou mais vontades, sendo que tais vontades determinarão o surgimento do negócio e a consequente produção dos efeitos almejados pelas partes. Ex.: contratos
            b) Negócio Jurídico Unilateral é aquele negócio no qual a sua concretização depende tão somente de manifestação da vontade de somente uma das partes. Ex.: testamento, promessa de recompensa.
4.2. Quanto às vantagens que produzem:
            a) Negócio Jurídico Oneroso é aquele onde em relação à vantagem obtida corresponde um sacrifício. Ex. compra e venda.
            b) Negócio Jurídico Gratuito é aquele onde apenas uma das partes suporta o sacrifício e a outra a vantagem. Ex. doação pura.
4.3. Quanto ao tempo da produção dos efeitos:
            a) Negócio Jurídico Inter Vivos – os efeitos serão produzidos durante a vida dos emitentes da vontade. Ex. compra e venda.
            b) Negócio Jurídico Causa Mortis – o pressuposto para a produção de efeitos jurídicos é a morte do emitente da vontade. Ex. testamento.
4.4. Quanto à solenidade:
            A forma do negócio jurídico pode ser ad solemnitatem (solene) e ad probationem tantum (não solene). Ressalte-se que, em relação à forma dos negócios jurídicos, vigora a regra geral: LIBERDADE DE FORMA. Entretanto, à vezes, a lei exige forma solene (ex.: compra e venda de imóvel – escritura pública, salvo se o valor do imóvel for inferior a 30 salários mínimos, cf. art. 108, além de registro no Cartório de Registro de Imóveis, cf. art. 1227). Se o negócio jurídico exigir forma solene, esta deve ser obedecida sob pena de nulidade absoluta, nos termos dos art. 104, III, cc. art. 166, IV.
4.5. Quanto à existência
            a) Negócio Jurídico Principal – existepor si só. Ex. contrato de locação entre locador e locatário.
            b) Negócio Jurídico Acessório – depende do principal. Ex. contrato de fiança entre o locador e o fiador não existe por si só, pois depende do contrato principal.
4.6. Quanto ao conteúdo
            a) Negócio Jurídico Patrimonial – o objeto da relação jurídica pode ser avaliado economicamente (direitos pessoais ou obrigacionais e direitos reais).
            b) Negócio Jurídico Extrapatrimonial – o objeto da relação jurídica não pode ser avaliado economicamente (direitos de família e direitos da personalidade).
4.7. Quantos aos efeitos
            a) Constitutivo - Ex Nunc – o negócio jurídico passa a ter efeitos a partir da conclusão. Ex. adoção, compra e venda.
            b) Declaratório - Ex Tunc – os efeitos do negócio jurídico retroagem à data que se operou o fato a que se vincula a vontade. Ex. reconhecimento de filho.
4.8. Quanto ao exercício dos direitos
            a) Negócios Jurídicos de Disposição – exercício amplo de direitos sobre o objeto. Ex. doação.
b) Negócios Jurídicos de Simples Administração – exercício de direitos restritos sobre o objeto, sem que haja alteração na sua substância. Ex. locação, mútuo.
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Interpretação e Requisitos do Negócio Jurídico
1. Interpretação
A declaração da vontade deve ser interpretada com a finalidade de buscar o sentido e o alcance das expressões. Reza o art.112 que nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção nelas consubstanciadas do que o sentido literal da linguagem.
Assim, quando se interpreta a vontade leva-se em conta mais à intenção manifestada no contrato, não o pensamento íntimo do contratante.
Art. 113: Os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé e os usos do lugar de sua celebração.
A boa-fé é presumida, a má-fé deve ser provada.
Art. 114: Os negócios jurídicos benéficos e a renúncia interpretam-se restritivamente.
Nos contratos benéficos apenas um dos contratantes se obriga, enquanto o outro aufere um benefício (ex.: doação pura). Deve ter interpretação restrita pois importa renúncia de direitos.
Na parte especial do Código existem outras regras de interpretação: art. 423, 843, 819, 1899.
A interpretação do negócio jurídico pode ser:
a) Declaratória = expressa a intenção dos interessados
b) Integrativa - preenche lacunas por meio de normas supletivas, p.ex. costumes.
c) Construtiva - objetiva reconstruir o negócio com a finalidade de salvá-lo.
Exemplos de entendimento doutrinário e jurisprudencial relativo à interpretação dos negócios jurídicos:
- Nos contratos com palavras que admitem dois sentidos, deve-se preferir o que mais convier a sua natureza.
- Nos contratos de compra e venda, no que se refere à extensão do bem alienado, deve-se interpretar a favor do comprador. Nos contratos de compra e venda, as dúvidas são interpretadas contra o vendedor.
- As estipulações obrigacionais devem ser interpretadas de modo menos oneroso ao devedor.
- A interpretação do contrato de consumo será sempre a favor do consumidor – art. 47, CDC.
- Nas cláusulas duvidosas, prevalece o entendimento de que se deve favorecer quem se obriga.
2. Requisitos do Negócio Jurídico
2.1. O negócio jurídico para ter validade e possuir eficácia deve preencher os seguintes requisitos:
·Elementos essenciais = vontade humana, idoneidade do objeto e finalidade negocial.
Os elementos essenciais se referem à própria substância do negócio. Caso tais elementos não se apresentem ocorre a inexistência do negócio. Negócio jurídico inexistente não produz efeitos jurídicos.
a) Manifestação da vontade humana. Esta deve ser límpida. Se uma pessoa pratica qualquer ato jurídico em virtude de coação física, a vontade inexiste. Se o ato é praticado em face de coação moral, a vontade é viciada.
b) Idoneidade do objeto é diferente de ilicitude do objeto. Um objeto pode ser lícito, mas ser inidôneo para a relação jurídica em questão. Objeto idôneo é aquele que se presta para determinado fim. Por ex. A coisa fungível é objeto idôneo para figurar no contrato de mútuo (empréstimo de coisa fungível), mas não o é em relação ao contrato de comodato (empréstimo de coisa infungível)
c) Finalidade negocial O negócio jurídico possui uma finalidade negocial, sendo que esta abrange a aquisição, a conservação, a modificação ou a extinção de direitos, conforme explicado no módulo 1.
Requisitos de Validade - agente capaz, objeto lícito e forma.
Tais requisitos determinam se o negócio é válido, ou seja, indicam a maior ou menor possibilidade de produzir efeitos jurídicos. Negócio jurídico válido é ato eficaz, ou seja, capaz de produzir a aquisição, modificação ou extinção de efeitos jurídicos.
a) Agente capaz – Relembre-se que a capacidade é a regra e a incapacidade, nos termos dos art. 3º e 4º é a exceção. Os absolutamente incapazes e os relativamente incapazes podem praticar os atos da vida civil, desde que devidamente representados, mediante o instituto da representação, no primeiro caso (absolutamente incapazes), e da assistência, no segundo (relativamente incapazes).
Saliente-se que a representação pode ser legal (pais, tutores e curadores); judicial (síndico é o representante da massa falida) ou convencional (decorrente de um contrato de mandato).
Ressalte-se que, outras vezes, para o negócio ter validade, necessária também a legitimação para a sua prática. A legitimação é relativa e se refere a determinadas pessoas, que em virtude de determinados vínculos, não podem praticar certos negócios, ou devem praticá-los sob certas condições impostas pela norma jurídica. Ex. Os ascendentes não podem vender aos descendentes, sem que os demais descendentes e o cônjuge do alienante expressamente consintam. Sem o devido consentimento a venda é anulável – art. 496. Há a dispensa do consentimento do cônjuge, se o regime de bens for o da separação obrigatória. – par. único do art. 496.
b) Objeto lícito, possível, determinado ou determinável – Nos termos do art. 104, II o objeto do negócio jurídico deve ser lícito (permitido pelo Direito) e possível. Saliente-se, ainda, que o objeto deve ser física e juridicamente possível. Ex. Não pode ser objeto de compra e venda um terreno na Lua (impossibilidade física). Não pode se objeto de compra e venda herança de pessoa viva - pacto corvina (impossibilidade jurídica). O objeto deve ser determinado, ou pelo menos determinável (ex.: obrigação de dar coisa incerta, que deve ser indicada, ao menos, pelo gênero e pela quantidade - art. 243).
c) Forma – como regra há liberdade de forma para a prática do negócio jurídico. Porém, determinados negócios reclamam forma solene. Por ex. O instrumento adequado para a transmissão da propriedade imóvel decorrente de um contrato de compra e venda é a escritura pública, salvo se o valor for inferior de 30 vezes o salário mínimo vigente (art. 108), que deve ser levada a registro no competente Cartório de Registro de Imóveis (art. 1227).
2.2. Conforme entendimento da Profa. Maria Helena Diniz, o negócio jurídico deve possuir os seguintes requisitos:
·Requisitos essenciais gerais = consentimento, capacidade do agente e objeto lícito e possível.
a) Consentimento é a anuência válida do sujeito a respeito do entabulamento de uma relação jurídica que versa sob determinado objeto
b) capacidade do agente (vide acima, item a - requisitos de validade do Prof. Silvio Rodrigues).
c) Objeto lícito, possível, determinado ou determinável (vide acima, item b – requisitos de validade do Prof. Silvio Rodrigues).
·Requisitos essenciais especiais.
No contrato de compra e venda são requisitos essenciais especiais a coisa, o preço e o consentimento (art. 481).
Conclusão: os requisitos essenciais são aqueles imprescindíveis à existência do próprio negócio, uma vez que se referem à sua própria substância. A sua ausência determinará a inexistência ou a nulidade que pode ser absoluta ou relativa, quando será chamada de anulabilidade.
·Requisitos naturais = são as consequências jurídicas normais do negóciojurídico, as quais estão previstas na hipótese da lei, razão pela qual é dispensável qualquer menção a seu respeito no ato de vontade. Ex. No contrato de compra e venda as duas mais importantes consequências são o vício redibitório e a evicção. Vício redibitório é o defeito oculto da coisa que diminui o seu valor ou a torna imprópria para o uso a que se destina. Evicção é a perda da coisa em virtude de sentença judicial. A lei diz “só pode vender quem é dono e, mais, não se deve vender coisa com defeito oculto”. Entretanto, as partes podem, pela manifestação da vontade, diminuir, aumentar ou excluir as consequências naturais dos negócios jurídicos.
·Elementos acidentais = são aqueles que não sendo indispensáveis para a constituição do negócio jurídico podem existir para alterar as consequências jurídicas que ordinariamente produzem. Tais elementos são inseridos no negócio jurídico por intermédio de cláusulas e, desta forma, possuem a denominação de cláusulas acessórias acidentais (ou modalidades) dos negócios jurídicos. São eles: condição, encargo (modo) e termo.
Ato jurídico lícito (em sentido estrito)
1. Introdução: O ato jurídico em sentido estrito é espécie de Fato Jurídico Lato Sensu e subespécie de Ato Jurídico Lato Sensu, este também denominado pela doutrina como Fato Humano. Desta forma, o ato jurídico em sentido estrito depende Vontade Humana.
2. Conceito
Conceito da Professora Maria Helena Diniz: “O ato jurídico em sentido estrito é o que gera consequências jurídicas previstas em lei e não pelas partes interessadas, não havendo regulamentação da autonomia privada”.
3. Classificação dos atos jurídicos em sentido estrito, segundo o Professor Orlando Gomes:
3.1. Atos jurídicos em sentido estrito materiais (ou reais) – a vontade humana atua e lhes dá existência imediata, sendo que não têm destinatários. Exemplos: a) ocupação (art.1263) b) fixação do domicílio (art. 70)
3.2. Participações – Tratam-se de atos jurídicos em sentido estrito consistentes em declarações para ciência ou comunicação de intenções ou fatos, sendo que têm destinatários. Exemplos: a) intimação (alguém participa a outra pessoa a intenção em exigir-lhe certo comportamento); b) interpelação (ato judicial ou extrajudicial praticado pelo credor para constituir o devedor em mora (art. 397, 2ª parte.
4. Semelhanças e diferenças entre ato jurídico em sentido estrito e negócio jurídico.
Tanto o ato jurídico em sentido estrito quanto o negócio jurídico são fatos jurídicos lato sensu que dependem da vontade humana, também denominados pela doutrina fatos humanos ou atos jurídicos em sentido amplo.
No ato jurídico estrito sensu a vontade humana não pode alterar os efeitos jurídicos que estão pré-fixados na norma jurídica. Exemplo: a lei civil garante o reconhecimento da paternidade (Lei 8.560/1992). Assim, o pai que vai ao Cartório de Registro Civil e solicita o assentamento da paternidade na certidão de nascimento do filho que deseja reconhecer, utiliza-se de uma prerrogativa da lei, mas não pode ampliar, nem restringir os efeitos da norma jurídica. O citado pai não pode dizer: reconheço o filho, mas o excluo da sucessão.
Por sua vez, no negócio jurídico vige o princípio da autonomia da vontade, ou seja, em regra, as partes podem ampliar ou restringir os efeitos da norma jurídica.
O art. 441 dispõe que a coisa recebida em virtude de contrato comutativo (ex. compra e venda) pode ser enjeitada por vícios ou defeitos ocultos, que a tornem imprópria ao uso a que é destinada ou lhe diminuam o valor. Tal artigo e os seguintes tratam dos vícios redibitórios - cláusula natural do contrato de compra e venda. Tal cláusula pode ser afastada pela vontade das partes, ou seja, o vendedor não se responsabiliza, em comum acordo com o comprador, pelos vícios redibitórios da coisa vendida. Saliente-se que na relação de consumo, tutelada pelo Código de Defesa do Consumidor, não pode haver o afastamento do vício, uma vez que o contrato é de adesão.
Conclusão
O ato jurídico em sentido estrito se trata de manifestação da vontade obediente à lei, geradora de efeitos que a própria lei determina. Assim, no campo de ato jurídico em sentido estrito, as partes não podem, por meio de suas vontades, modificar os efeitos jurídicos que serão produzidos.
Inversamente, o negócio jurídico se trata de manifestação da vontade destinada à produção de efeitos queridos pelas partes, podendo haver ou não correspondência entre o desejado pelas partes e o determinado pela norma. Nesse caso, prevalecerá a vontade das partes, uma vez que a regra disposta na norma jurídica é meramente supletiva. Lembre-se, a norma dispositiva, primeiramente, é permissiva (as partes podem dispor da vontade). Caso as partes não manifestem a vontade, valerá o disposto na regra, que é supletiva, ou seja, valerá somente na ausência de vontade.
MODULO 3
Defeitos dos negócios jurídicos - primeira parte
Os defeitos dos negócios jurídicos maculam a manifestação de vontade das partes, a qual, como regra, deve ser livre e espontânea, requisitos estes de validade de todos os negócios jurídicos.
O Código Civil prevê seis espécies de vícios do consentimento: erro, dolo, coação, estado de perigo, lesão (estes cinco são também chamados de vícios do consentimento) e fraude contra credores.
Os vícios do consentimento provocam uma manifestação de vontade que não corresponde com a vontade íntima do agente.
O negócio jurídico eivado de tais defeitos é anulável, a teor do que dispõe o art. 171, II CC.
 1. Erro ou ignorância
Consiste numa falsa representação da realidade.
O agente engana-se sozinho, sem a interferência de terceiros.
O Código Civil equipara os efeitos do erro à ignorância.
Erro = ideia falsa da realidade
Ignorância= completo desconhecimento da realidade
 
 1.2 – Espécies
1) Erro substancial ou essencial: recai sobre circunstâncias e aspectos relevantes do negócio.
Deve ser determinante à realização do negócio jurídico, isto é, se o agente conhecesse a realidade não praticaria o ato.
- Erro acidental: oposto ao essencial, ou seja, refere-se à circunstância não determinante, secundária. Se conhecida a realidade, mesmo assim o negócio seria realizado.
- Características do  erro substancial:
 a) erro sobre a natureza do negócio (error in negotio): quanto à categoria jurídica. Ex: a intenção é de alugar, mas no contrato está escrito vender. O agente quer praticar um ato, mas pratica outro.
b) erro sobre o objeto principal da declaração (error in corpore): a manifestação da vontade recai sobre objeto diverso do desejado. Ex: o agente adquire quadro pensando ser de pintor famoso, porém é de seu aprendiz.
c) erro sobre algumas das qualidades essenciais do objeto principal (error in substantia ou error in qualitate): a razão determinante do negócio jurídico é a suposição de que o objeto possui uma qualidade, que depois se descobre inexistir. Ex: o agente adquire um relógio dourado, imaginando ser de ouro maciço, mas na realidade é apenas folheado a ouro.
d) erro quanto à identidade ou à qualidade da pessoa (error in persona): negócios jurídicos intuitu personae, negócios de liberalidade, e casamento. Deve influir na manifestação de vontade de modo relevante, e somente será considerado essencial quando não se puder identificar a pessoa ou a coisa a que se refere a declaração de vontade. Ex: doação à pessoa que o doador pensa ser seu filho.
e) erro de direito (error juris): é o falso conhecimento, ou interpretação errada, da norma jurídica (art. 139, III, CC). O Código Civil permite a alegação de erro de direito quando não implicar na recusa à aplicação da lei, e for o único motivo da realização do negócio jurídico.
- Erro substancial e Vício Redibitório
Vício redibitório é erro objetivo sobre a coisa, que contém um defeito oculto (artigos 441 a 446 CC).
O agente que aliena um objeto deve garantir que este sirva para a utilização a que se destina. Uma vez comprovado a existência de um defeito oculto, cabem ações edilícias,  visando à rescisão do contrato ou pedir o abatimento do preço.
O erro substancial quantoàs qualidades essenciais do objeto é subjetivo, pois recai na manifestação da vontade do agente. A ação anulatória é a solução para estes casos, visando anular o negócio jurídico viciado.
2-) Erro escusável
É o erro justificável, desculpável.
Há um critério padronizado de “homem-médio” para aferição da escusabilidade, comparando-se a conduta do agente com a média das pessoas (senso comum).
3-) Erro real
O erro deve ser efetivo, causando prejuízo concreto para o interessado.
4-) Erro obstativo ou impróprio
É aquele que tem relevância ao ponto de obstar o negócio jurídico, inviabilizando-o.
A doutrina equipara o erro obstativo aos vícios do consentimento, dando-lhes o mesmo tratamento (anulação do negócio jurídico).
 
1.3 - Falso motivo
O art. 140 CC trata do erro sobre os motivos.
Motivos = razões subjetivas, consideradas irrelevantes para a apreciação da validade do negócio jurídico (elemento acidental).
Em regra, o erro sobre os motivos não vicia o ato, exceto quando houver previsão expressa quanto aos mesmos, os quais passam a caracterizar elementos essenciais do negócio.
 
1.4 – Transmissão errônea da vontade
Ocorre quando o agente declarante não se encontra na presença do declaratário, e se vale de interposta pessoa para a transmissão de vontade. Se houver divergência entre o pretendido e  o que foi transmitido, caracteriza-se vício, e consequente anulação do negócio jurídico.
Deve ser apurado se houve culpa (in eligendo ou in vigilando) por parte do emitente da declaração. Caso afirmativo o erro será inescusável, não podendo ser o ato anulado.
 
1.5  - Convalescimento do erro
Se a parte que seria prejudicada se propõe a executar o ato conforme a vontade real do manifestante,  o erro deixa de ser real, pois ausente o prejuízo, não havendo que se falar em anulabilidade do negócio jurídico (art. 144 CC). Diz-se, nestes casos, que houve o convalescimento do erro.
 
2 - Coação
Coação é a ameaça ou pressão  injusta, que o agente coator exerce sobre alguém, visando a forçá-lo a praticar ato ou realizar um negócio jurídico.
A coação torna defeituosa a manifestação de vontade, devido ao temor que ela inspira.
2.1 – Requisitos da coação
a) Causa determinante do ato: significa que deve haver, necessariamente, uma relação de causalidade entre a coação e o ato praticado pela vítima, ou seja, o negócio somente foi praticado devido à ameaça grave ou violência, que incutiu à vítima fundado receio de dano à sua pessoa, sua família ou a seus bens.
b) Deve ser grave: para constituir vício de consentimento a coação há de ser de tal gravidade que chegue a causar na vítima um fundado temor de dano (moral ou patrimonial)  a bem relevante.  O critério para aferição da intensidade da gravidade não é o do homem médio, mas sim o caso concreto (condições particulares da vítima – art. 152 CC).
Art. 153 CC – não se considera ameaça o simples temor reverencial
c) Deve ser injusta: ilícita, contrária ao direito, abusiva. Não se considera coação a ameaça do exercício normal de um direito, por exemplo, o locador quando ameaça propor a competente ação de despejo contra o locatário inadimplente.
d) Deve o dano temido ser atual ou iminente: atual e inevitável. Aquele prestes a se consumar, pois se  o dano for evitável, ou mesmo impossível, não há que se falar em coação.
e) Ameaça de prejuízo à pessoa ou a bens da vítima, ou à pessoas de sua família: sofrimento físico, cárcere privado, incêndio,etc.
Art. 151, parágrafo único: o juiz decidirá conforme as circunstâncias.
2.2 – Espécies
a) Coação absoluta ou física e coação relativa ou moral
- Coação absoluta: não há qualquer consentimento ou manifestação de vontade. Há emprego de força física. O Código Civil não reconhece como vício de consentimento, pois o negócio praticado sem qualquer manifestação de vontade seria inexistente.
- Coação relativa ou moral: constitui vício de vontade, pois a vítima pratica o ato para não correr o risco de sofrer as conseqüências, havendo, portando, manifestação de vontade.
b) Coação principal e coação acidental
- Coação principal: quando é a causa determinante do negócio
- Coação acidental: é a que influencia as condições da avença, mas sem ela o negócio assim mesmo se realizaria, em condições menos desfavoráveis. Não constitui causa de anulação do negócio, mas sim obriga o ressarcimento do prejuízo sofrido.
2.3 – Coação exercida por terceiro
Só vicia o negócio jurídico permitindo sua anulação se a outra parte, que se beneficiou, conhecia ou deveria ter conhecimento da coação. Deve haver cumplicidade entre o beneficiário e o terceiro, autor da coação. Tanto o beneficiário como o terceiro responderão pelas perdas e danos (art. 154 CC).
 
Módulo 4 - Defeito dos Negócios Jurídicos - 2ª parte
3 -  Dolo
Dolo é o artifício utilizado para induzir alguém à prática de um ato que lhe é prejudicial, o qual interessa ao agente/autor do dolo ou terceiro.
Enquanto o erro é espontâneo, sendo que a vítima se engana sozinha, o dolo é provocado intencionalmente pelo agente, visando objetivamente causar prejuízo, levando a outra parte a se equivocar.
Ressalta-se que o dolo civil é diferente do dolo criminal e também do dolo processual.
Em regra, tanto no erro quanto no dolo, há uma ilusão da vítima, sendo que no primeiro ela se engana sozinha, e na segunda ela é levada ao equívoco pelo agente do dolo.
O negócio jurídico quando há dolo é passível de anulação, podendo inclusive levar o autor do dolo a indenizar os prejuízos sofridos pela vítima.
Para que o dolo constitua vício de consentimento é necessário: (i) que haja intenção de induzir o declarante a realizar o negócio jurídico; (ii) que os artifícios sejam graves; (iii) que estes sejam a causa determinante da declaração de vontade; (iv) que procedam do outro contratante, ou sejam deste conhecido, se procedentes de terceiro; (v) que haja prejuízo econômico ou moral da vítima.
3.1 Dolo x simulação x fraude
Dolo é diferente de simulação: no primeiro, a vítima participa diretamente do negócio, mas somente o autor do dolo conhece o artifício utilizado e age de má-fé.
Na simulação a vítima é lesada sem participar do negócio jurídico. As partes fingem ou simulam uma situação com o intuito de fraudar a lei ou prejudicar terceiros.
O dolo igualmente difere da fraude. A fraude, assim como na simulação, caracteriza-se pela não participação pessoal do lesado no negócio. No dolo, o lesado participa da realização do ato, sem ter o conhecimento da manobra ardilosa do autor do dolo.
A fraude e simulação, do ponto de vista jurídico, são mais graves que o dolo, que apenas gera a anulabilidade do negócio, enquanto as demais podem gerar a nulidade (art. 167 CC).
3.2 Espécies
a) Dolo principal e dolo acidental: somente o dolo principal, como causa determinante da declaração de vontade, vicia o negócio jurídico, podendo anulá-lo (art. 145 CC).
Isto porque o negócio jurídico só é realizado porque houve a indução maliciosa do agente.
O dolo acidental (art. 146 CC) não vicia o negócio jurídico, pois este seria realizado independentemente da malícia empregada pelo agente, mas de forma diversa. Não é causa de anulabilidade do negócio, porém pode a vítima reclamar perdas e danos. Ex: compra de imóvel por valor superior ao que vale.
b) Dolus bônus e dolus malus
Dolus bonus é o dolo tolerável, de pouca gravidade, não apto a viciar a declaração de vontade. Ex: o comerciante que exagera quanto aos atributos de um produto, para que a venda se efetive. Não torna anulável o negócio jurídico.
Dolus malus é aquele que tem gravidade, exercido com a intenção de ludibriar e de prejudicar. Este pode ser anulado, pois consiste em vício de consentimento. Pode até mesmo haver obrigação de indenizar perdas e danos.
c) Dolo positivo ou comissivo e dolo negativo ou omissivo: o dolo pode ser exercido através de ações maliciosas ou em comportamentos omissivos (art. 147 CC). Frise-se que o Código Civil pátrio equipara omissão dolosa à ação dolosa, em ambas podendo ser anulado o negócio jurídico.
d) Dolo de terceiro: é aquele proveniente de terceira pessoa, estranhaao negócio (art. 148 CC). A parte a quem aproveita deve ter conhecimento para que o negócio seja anulável. Pode haver obrigação de indenizar a vítima, por parte do terceiro que ludibriou.
e) Dolo do representante: o representante de uma das partes não é terceiro, pois ele atua em nome do representado. O art. 149 CC estabelece tratamentos diferentes ao dolo do representante: se for representação legal, o representado ficará obrigado a responder civilmente até a importância do proveito que auferiu. Se a representação for convencional, a responsabilidade do representado será solidária.
f) Dolo bilateral: é o dolo de ambas as partes. O art. 150 CC dispõe que se houve dolo de ambas as partes, nenhuma dela poderá invocá-lo para anular o negócio jurídico, ou pedir indenização.
g) Dolo de aproveitamento: ocorre quando alguém se aproveita da situação de necessidade ou da inexperiência do outro pra obter lucro ou vantagem, desproporcional a natureza do negócio (art. 157 CC).
4 -  Estado de Perigo
Considera-se estado de perigo a situação de extrema necessidade que faz com que alguém celebre negócio jurídico em que assume obrigação desproporcional e excessiva.
A anulabilidade do negócio jurídico efetuado em estado de perigo se justifica por diversos dispositivos do CC, como o que prevê a boa-fé objetiva e a função social dos contratos.
4.1 – Elementos do estado de perigo
a) situação de necessidade: necessidade de salvar-se ou a pessoa de sua família
b) iminência de dano atual e grave: capaz de incutir à vítima o temor de que, se não praticar tal ato, consequências ocorrerão. A gravidade do dano será avaliada objetivamente pelo juiz, ou seja, de acordo com o caso concreto.
c) Nexo de causalidade entre a declaração e o perigo de grave dano: basta que o declarante pense estar em perigo, e tal suposição dever ser de conhecimento da outra parte.
d) incidência da ameaça do dano sobre a pessoa ou sua família: dano pode ser físico ou moral.
Art. 156, parágrafo único: o juiz decidirá conforme as circunstâncias.
e) Conhecimento do perigo pela outra parte : há o aproveitamento da situação pela outra parte, daí haver necessidade de conhecimento.
f) Assunção de obrigação excessivamente onerosa: as condições entre as partes são desproporcionais, causando desequilíbrio contratual.
5 – Lesão
Lesão é o prejuízo resultante da desproporção entre as prestações de um contrato, no momento de sua celebração, determinada pela premente necessidade ou inexperiência de uma das partes.
No negócio eivado pela lesão as partes não observam o princípio da igualdade na prestação e contraprestação.
Embora não haja desconformidade entre a vontade real e a vontade declarada, é considerado vício de consentimento, sendo apto a anular o negócio jurídico defeituoso, para reprimir a exploração de um contratante por outro.
Na lesão a parte realiza o negócio pois está premido pela necessidade patrimonial, embora tenha noção da desproporção.
O art. 178, II prevê a anulabilidade do negócio jurídico viciado pela lesão, exceto se houver a possibilidade de a parte favorecida concordar com a redução do proveito. Trata-se do princípio da conservação dos contratos.
5.1 – Elementos da lesão
- Elemento objetivo: manifesta desproporção entre as prestações recíprocas, o que acaba gerando lucro e vantagens exageradas para uma das partes. Caberá ao juiz analisar, no caso concreto, se houve desproporção desde o início do contrato. (art. 157, §1º CC).
- Elemento subjetivo: premente necessidade ou inexperiência que gera desequilíbrio entre as partes. A necessidade não está relacionada com as condições econômicas, mas sim à necessidade contratual. A inexperiência consiste na ausência de conhecimentos técnicos e específicos para determinado negócio jurídico.
6 – Fraude contra credores
Fraude contra credores é todo ato do devedor, suscetível de diminuir, dilapidar, ou onerar seu patrimônio, reduzindo a garantia para pagamento de suas dívidas.
Trata-se de vício social, não consistindo vício de consentimento, uma vez que a vontade manifestada corresponde exatamente com a vontade real do agente, porém com a intenção de prejudicar terceiros, seus credores.
- O patrimônio do devedor responde por suas obrigações: princípio estampado no Direito Obrigacional. Se o devedor desfalca seu patrimônio, maliciosamente, a ponto de não garantir  o pagamento de suas dívidas, tornando-se insolvente, configura-se fraude contra credores.
- A fraude contra credores pode se dar em atos de transmissão onerosa ou gratuita, e também quando houver remissão de dívida.
6.1 – Elementos
a) Elemento objetivo (“eventus damni”): é a própria insolvência, que constitui ato prejudicial ao credor.
b) Elemento subjetivo: (“consilium fraudis”): é a má-fé do devedor. Para que o negócio seja anulável, deve o terceiro envolvido, que adquire os bens alienados pelo devedor, ter ciência do ato fraudulento ( conluio fraudulento). Caso o terceiro adquirente não tenha conhecimento da insolvência do alienante, não será anulado o negócio, em proteção ao terceiro de boa-fé.
- Art. 159 CC : má-fé do adquirente é presumida quando a insolvência for notória
6.2 – Ação pauliana ou revocatória
É a ação anulatória do negócio jurídico celebrado em fraude contra credores, proposta pelo credor em face do devedor.
A legitimidade ativa para a propositura desta ação é dos credores quirografários, uma vez que eles não possuem garantia especial de recebimento de seu crédito, sendo o patrimônio geral do devedor a única garantia de receberem o crédito. Os credores privilegiados não estão legitimados, pois estes já possuem destacados do patrimônio do devedor a garantia para saldar sua dívida (art. 158 CC).
Para que haja a legitimidade ativa, devem os credores já possuir esta condição ao tempo da alienação fraudulenta.
A legitimidade passiva para a ação pauliana será, necessariamente, do devedor insolvente, do terceiro com que este celebrou o negócio fraudulento, ou terceiros que hajam procedido de má-fé (art. 161 CC).
6.3 - Fraude contra credores x fraude à execução
 São institutos diferentes, embora guardem semelhanças. A principal diferença é que na fraude contra à execução pressupõe-se a existência de um processo judicial em andamento (a partir da citação do devedor, se houver alienação de bens que o tornem insolvente, ou que agrave sua insolvência, haverá fraude à execução).
MÓDULO 5
Condição, termo e encargo
Constituem elementos acidentais do negócio jurídico, introduzidos pelas partes de forma voluntária, e que passam a ter o mesmo valor dos elementos essenciais.
Em outras palavras, são cláusulas que acarretam modificações nos efeitos do negócio jurídico, determinadas pela vontade das partes, e não pela lei.
 
1 – Condição (art. 121 CC)
Condição é o acontecimento futuro e incerto de que depende a eficácia do negócio jurídico.
Fica na pendência da sua ocorrência (da condição) o nascimento e a extinção de um direito.
Importa frisar que a condição deriva da vontade das partes, e não da lei.
 
1.2 – Elementos da condição
Os requisitos (ou elementos) para que haja a condição são os seguintes:
Voluntariedade: a cláusula (condição) deve ser voluntária, ou seja, convencionada pelas partes interessadas, e não decorrente de lei (conditio iuris). Também não é considerada condição a morte em relação ao testamento, pois esta é intrínseca à aludida figura jurídica.
Futuridade: o evento deve ser futuro (nunca passado ou presente)
Incerteza: o evento deve ser incerto, podendo verificar-se ou não. A incerteza deve ser objetiva, isto é, deve ser o evento incerto para todos e não apenas para a pessoa declarante.
Possibilidade: o evento deverá ser juridicamente possível
 
1.3 - Espécies de condição
Condição voluntária: “conditio facti”, é aquela estabelecida pelas partes, como requisito de eficácia do negócio jurídico.
Condição legal: é aquela condição estabelecida por lei (“conditio iuris”). Na realidade, a conditio iuris é da essência do negócio jurídico, e não convencionada pelas partes, ainda que elas façam referência a elas no negócio jurídico.Ex: necessidade de casamento para a eficácia de pacto antenupcial (art. 1.653 CC).
O Código Civil atual só considera condição aquela que deriva da vontade das partes – nos termos do artigo 121 CC.
 
1.4 – Classificação das condições
Quanto à licitude
Podem ser lícitas ou ilícitas. Serão lícitas todas as condições não contrárias à lei, à ordem pública ou aos bons costumes ( art. 122 CC). Serão ilícitas todas as que ferirem a lei, a ordem pública e os bons costumes.
Quanto à possibilidade
 Possíveis ou impossíveis. As condições impossíveis podem ser física ou juridicamente impossíveis.
Fisicamente impossível: não poderão ser cumpridas por nenhum ser humano.
Juridicamente impossível: esbarra em proibição expressa na lei, fere a moral ou os bons costumes.
Ressalte-se que são consideradas inexistentes as condições impossíveis, quando resolutivas, bem como as de não fazer coisa impossível (conforme art. 124 CC).
Quanto à fonte de onde emanam:  casuais, potestativas e mistas:
Casuais são as que dependem do acaso, do fortuito.
Potestativas são as que decorrem da vontade de uma das partes. Dividem-se em:
- puramente potestativa: considerada ilícita, pois sujeita todo o efeito do ato ao arbítrio de uma das partes (art. 122CC). Ex: se me aprouver, e eu quiser, a meu critério, etc...
- simplesmente potestativa: são lícitas, pois dependem da vontade de uma das partes e também de acontecimento exterior. Ex: art. 420 CC, estipulação do direito de arrependimento.
Mistas são as condições que dependem simultaneamente da vontade de uma das partes e da vontade de um terceiro. Ex: dar-te-ei tal quantia se casares com fulana.
Quanto ao modo de atuação : pode ser suspensiva ou resolutiva. A condição suspensiva impede que o ato produza efeitos até a realização do evento futuro e incerto. Condição resolutiva é aquele que extingue, resolve o direito transferido pelo negócio, uma vez ocorrido o evento futuro e incerto.Ex: doação com condição resolutiva.
 
1.5 – Condição maliciosamente obstada ou provocada
A lei considera verificada a condição não ocorrida devido ao dolo (intenção) de obstá-la, pela parte a quem prejudica, e, por outro lado, a presume não ocorrida quando for maliciosamente provocada por aquele a quem aproveita (art. 129CC).
Por exemplo,  se na condição suspensiva o credor maliciosamente altera as circunstâncias de fato, ou o devedor evita que ela se manifeste.
Aqui é importante ressaltar que deve existir dolo por uma das partes.
 
2 – Termo
Significa o dia e o momento do início e fim da eficácia do negócio jurídico. Pode ser medido em hora, dia, mês ou ano.
O termo inicial suspende o exercício do direito, porém não suspende a aquisição do direito (art. 131 CC), pois este é dotado de certeza, diferentemente da condição, em que o evento futuro é incerto.
Assim, pode-se dizer que o termo assemelha-se à condição suspensiva, pois suspende o exercício do direito. Porém, difere desta última pois não suspende a aquisição do direito, apenas protelando-o para o futuro, sendo o evento futuro certo, ao contrário da condição suspensiva, em que o evento futuro é  incerto.
Alguns negócios jurídicos não admitem termo, da mesma forma que não admitem condição, por exemplo os direitos de personalidade e o direito de família.
 
2.1 – Espécies
- Termo convencional: ocorre pela vontade das partes.
- Termo de direito: decorre da lei.
- Termo de graça: dilação do prazo concedida ao devedor.
- Termo certo: refere-se a determinada data.
- Termo incerto: incerteza da data de sua verificação. Ex: termo inicial será a morte de tal pessoa: sabe-se que ela irá morrer, não se sabe ao certo o dia.
- Termo inicial ou suspensivo (dies a quo): contrato celebrado dia 10, mas que passará a ter vigência a partir do dia 20 (dies a quo)
- Termo final ou resolutivo (dies ad quem): data em que cessa os efeitos do contrato.
- Termo essencial: o efeito pretendido deve ocorrer no momento preciso, sob pena de perder seu valor. Ex: entrega de um vestido de casamento.
- Termo não essencial: momento não é dotado de precisão
.- Termo inicial impossível : demonstra a inexistência da vontade real de celebrar o negócio jurídico, sendo portanto nulo, como ocorre na condição suspensiva. Ex: início do contrato em 30/02.
- Termo final impossível: considerado inexistente, pois demonstra que as partes não desejam que o negócio se resolva.  Ex: Término do contrato em 30/02.
 
2.2 - Contagem de prazos
Mister ressaltar que o conceito de termo não se confunde com prazo.
Prazo é o intervalo compreendido entre o termo a quo e o termo ad quem (art. 132/134 CC).
Os dias são contados por inteiro (24 h), por ex. das 14 h de hoje às 14 h de amanhã.
Na contagem de prazos extingue-se o dia do início e inclui-se o último dia, e se este cair em feriado, considera-se prorrogado até o próximo dia útil (art. 132, § 1º CC).
Outras definições também relevantes:
Meado : 15º dia do mês (art. 132, § 2º).
Ano bissexto: regra do art. 132, § 3º.
Os prazos contados em hora computam minuto a minuto (art. 132, § 4º).
 
3 – Encargo ou modo
Constitui cláusula acessória às liberalidades, pela qual se impõe alguma obrigação ao beneficiário (artigo 136 CC). Ocorre em doações e testamentos.
Admite-se o encargo também em declarações unilaterais de vontade, como por exemplo na promessa de recompensa.
É inerente aos negócios jurídicos gratuitos ou benéficos, pois se fosse possível em negócios onerosos seria equivalente à contraprestação.
Comum em doações feitas ao Município ou Estado, com obrigação de construção de hospital, escola, etc, e também em heranças com a obrigação do beneficiário de cuidar de determinada pessoa ou até mesmo de animal de estimação.
Constitui-se geralmente em obrigação de dar, de fazer e de não fazer.
Caracteriza-se pelo seu cunho obrigatório, podendo inclusive ser exigido em ação cominatória.
O encargo difere da condição suspensiva, pois esta impede a aquisição de direitos, enquanto o encargo não suspende a aquisição nem o exercício do direito. A condição é imposta com o emprego da partícula “se” e o encargo com a expressão “para que” ou “com a obrigação de”. O encargo é coercitivo, mas não suspensivo, ao contrário da condição suspensiva.
O encargo igualmente difere da condição resolutiva, pois não implica na revogação do ato.
O encargo poderá ser imposto como condição suspensiva, com estipulação expressa (art. 136 CC, segunda parte).
Já o encargo ilícito ou impossível é considerado inexistente (nos termos do art. 137 CC).
Obs: se o encargo ilícito for objeto do negócio jurídico como razão da liberalidade, o negócio jurídico será nulo. Ex: doação de imóvel para que lá se mantenha casa de prostituição.
 
MODULO 6
Da invalidade do negócio jurídico
 
A invalidade de um negócio jurídico abrange a nulidade e a anulabilidade do negócio.
Os negócios jurídicos inválidos não produzem os efeitos esperados pelas partes.
Sua classificação se dá de acordo com o grau de imperfeição verificado no negócio jurídico, tornando-o nulo ou anulável.
 
1 – Negócio jurídico inexistente, nulidade absoluta e nulidade relativa
Importante se faz saber diferenciar negócio jurídico inexistente de negócio jurídico nulo e anulável.
O negócio inexistente é aquele que falta algum elemento estrutural, como por exemplo a manifestação de vontade. O negócio não chega a se formar, nem produz efeitos,  inexistindo, portanto.
Por outro lado, o negócio será nulo ou anulável quando estiver eivado de algum vício, ou quando estiverem ausentes requisitos essenciais, porém estes produzem efeitos jurídicos, ao contrário dos negócios inexistentes.
Além disso, a invalidade é sempre posterior à existência do negócio, pois só é válido ou inválido o que existe.
 
2 – Nulidade
Nulidade é a sanção imposta pela lei aos atos e negócios jurídicos realizados sem observância dos requisitos essenciais, impedindo-os de produzir os seus efeitos esperados.
Assim, o negócio jurídico será nulo quando ofender os preceitos de ordem pública, ou seja, aqueles que interessam à sociedade.
 
2.1 – Espécies de nulidades
a) Nulidade absoluta
Nesta espéciede nulidade, há um interesse social, além do individual, para que se prive o negócio de seus efeitos, em vista da ofensa a preceito de ordem pública, afetando a todos.
Pode ser alegada por qualquer interessado, devendo ser pronunciado de ofício pelo juiz (art. 168, parágrafo único CC).
b) Nulidade relativa
Também denominada anulabilidade, atinge aqueles negócios que estão eivados de vícios que os tornem inválidos, mas que podem ser afastados ou sanados.
c) Nulidade total
É aquela que atinge a totalidade do negócio jurídico, não se salvando nada no negócio.
d) Nulidade parcial
Afeta parcialmente o negócio jurídico, sendo que a parte válida não será alcançada pela nulidade, se for separável (art. 184 CC). Baseia-se no princípio da conservação do ato ou negócio jurídico.
e) Nulidade textual
É aquela que vem expressa na lei. Ex: art. 548 CC
f) Virtual ou implícita
Não sendo expressa, pode ser deduzida de expressões utilizadas na lei, como por exemplo “não podem”, “não se admite”,  outras. Ex: art. 1.521 CC
 
2.2 – Causas de nulidade (absoluta)
Entabuladas no art. 166 CC, incisos I a VII, causam a nulidade do negócio:
I – quando celebrado por pessoa absolutamente incapaz (requisito de validade do negócio jurídico)
II – objeto ilícito, impossível ou indeterminável (requisito de validade do negócio jurídico)
III – motivo determinante ilícito, comum a ambas as partes
IV – quando não revestir a forma prescrita em lei (requisito de validade do negócio jurídico)
V - quando for preterida formalidade essencial para sua validade (requisito de validade do negócio jurídico)
VI – quando fraudar a lei imperativa ( preceito de ordem pública)
VII – quando a lei o declarar nulo ou proibir-lhe a prática
 
2.3 – Simulação
É a declaração falsa, enganosa, da vontade, visando aparentar negócio diverso do efetivamente desejado. Há um conluio entre os contratantes, que objetivam enganar terceiros ou fraudar a lei.
A simulação é causa de nulidade do negócio jurídico (art. 167 CC).
Pode ser absoluta, quando as partes não realizam efetivamente nenhum negócio, apenas fingem para criar aparências e prejudicar terceiros; pode ser relativa, quando as partes desejam realizar um negócio, mas realizam outro, prejudicial a terceiro ou em fraude à lei.
Se a simulação for relativa, subsistirá o negócio dissimulado se este for válido na substância e na forma.
As causas de simulação estão entabuladas no §1º, incisos I a III do art. 167 CC.
OBS:  resguardam-se os direitos dos terceiros de boa-fé.
 
3 -  Anulabilidade (nulidade relativa)
Ocorre quando a ofensa atinge somente o interesse particular das pessoas envolvidas, facultando-se a estas promover a anulação do ato.
O negócio jurídico será anulável, porém será considerado válido se o interessado se conformar com os seus efeitos e não o atacar no prazo legal.
A anulabilidade visa à proteção do consentimento ou refere-se à incapacidade das partes.
 
3.1 – Causas de anulabilidade
Entabuladas no art. 171 CC, incisos I e II:
I – incapacidade relativa do agente
II – por vício de consentimento ( erro, dolo, coação, estado de perigo, lesão) e vício social (fraude contra credores).
 
3.2 – Distinção entre nulidade e anulabilidade
A nulidade é decretada no interesse da própria coletividade, pois trata-se de matéria de ordem pública. Enquanto a anulabilidade é decretada no interesse privado (pessoa prejudicada), por conveniência das partes.
A anulabilidade pode ser suprida pelo juiz, a requerimento das partes, ou sanada pela confirmação. Quando a anulabilidade resultar da falta de autorização de terceiro, será validado se este autorizar posteriormente. Já a nulidade não pode ser sanada pela confirmação, nem suprida pelo juiz.
A nulidade deve ser pronunciada de ofício pelo juiz, operando efeitos “ex tunc”, enquanto a anulabilidade não pode ser pronunciada de ofício, necessitando ser alegada pela parte interessada, surtindo efeitos após declarada por sentença (efeitos “ex  nunc”) .
Na anulabilidade a natureza da sentença é desconstitutiva, pois o negócio até o momento da sentença continua produzindo efeitos. Na nulidade, a natureza da sentença é declaratória, pois o negócio é declarado nulo desde o início.
A anulabilidade pode ser alegada pelos interessados (prejudicados), enquanto a nulidade pode ser alegada por qualquer interessado, ou pelo MP.
 
4 – Conversão do negócio jurídico
Consiste na conversão do negócio jurídico nulo em outro, de natureza diversa, desde que se possa inferir que a vontade das partes era realizar o negócio subjacente.
Ex: uma venda simulada, que pode conter os requisitos de uma doação; um ato público nulo, que poderia ter os requisitos de uma escritura privada.
Devem ser observados dois requisitos:
Objetivo: necessidade de que o segundo negócio, em que se converteu o nulo, tenha por suporte os mesmos elementos fáticos.
Subjetivo: intenção das partes de obter o efeito prático da conversão do negócio nulo.
 MÓDULO 7.
 
Atos Ilícitos
1. Diferenciação entre antijuridicidade e ilicitude.
O Direito é um meio de organizar (ou controlar) a vida do ser humano em sociedade através da (s) norma (s) jurídica (s).
A norma jurídica é o instrumento do Direito. Ela diz como DEVE SER a conduta. Se a conduta está em conformidade com a norma, o ato é jurídico.
Logo, antijurídico é o ato que está em desconformidade com a norma jurídica regedora da conduta.
Saliente-se que um ato pode ser antijurídico, mas nem por isso ser ilícito.
A antijuridicidade deve ser analisada sob dois enfoques:
a) Enfoque objetivo da antijuridicidade
Objetivamente, a conduta viola preceitos ordinatórios, mas não produz dano ou viola direito subjetivo.
Ex: Alguém deseja transmitir algo (após a sua morte) para uma pessoa. Para tanto se vale do testamento. Este deve obedecer a certas formalidades legais, haja vista, ser um ato solene (negócio jurídico unilateral na formação). Se o testador não cumprir com as exigências legais, seu ato está em DESCONFORMIDADE com a norma e é, portanto, antijurídico.
A consequência é uma só: o testamento não produz efeitos, é nulo. O ato é tão somente antijurídico. Mas o testador não praticou ato ilícito, ou seja, não violou direito subjetivo, nem produziu dano. Não há, portanto, a obrigação de reparar o dano.
b) Enfoque subjetivo da antijuridicidade
O agente sequer praticou uma conduta, mas devido à imposição da norma é obrigado a indenizar.
Ex. O art. 1251, CC, trata da avulsão que é um meio de aquisição da propriedade imóvel. A avulsão é um fato jurídico strictu sensu (independe da vontade humana) e que provoca a aquisição da propriedade imóvel para uma pessoa em decorrência da perda da propriedade imóvel para outra pessoa. A avulsão decorre de uma força natural violenta que aumenta o curso d’água de um rio, fazendo com que uma porção de terra de um terreno situado à margem do rio se desloque e se agregue a outro terreno situado na margem oposta. Ressalte-se que os terrenos pertencem a donos distintos. Diz a norma da avulsão que o proprietário do terreno onde se agregou a porção de terra (aquisição da propriedade imóvel) deve aquiescer com o proprietário que perdeu a terra no sentido deste último poder retirá-la ou, então, INDENIZAR o proprietário prejudicado.
O ato ilícito reclama culpa (em sentido lato), dano e nexo causal entre o dano e a culpa.
O ato antijurídico é considerado ilícito quando pessoa capaz de entender e querer, violando norma jurídica por ação ou omissão culposa (sentido lato), lesa direito subjetivo de outrem, causando-lhe dano suscetível de avaliação pecuniária.
Art. 186: Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência, ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.
Assim, a violação do dever jurídico absoluto determinado pela norma jurídica, que traga prejuízo a alguém se configura como ilícito civil capaz de gerar uma obrigação, qual seja reparar o dano causado à vítima.
Saliente-se que o ato ilícito pode também se caracterizar como a violação de um dever jurídico relativo, ou seja, decorrente davontade humana.
Nesta hipótese existe uma relação jurídica obrigacional entre as partes (relação jurídica originária). O eventual descumprimento obrigacional voluntário (absoluto ou relativo – mora) consiste num ato ilícito que faz nascer outra relação jurídica derivada, qual seja a responsabilidade contratual, cuja consequência jurídica é a mesma da responsabilidade extracontratual: reparar o dano causado.
2. Ilícito Civil e Ilícito Penal
Em tese, não há diferença entre o ilícito civil e o ilícito penal. Entretanto, a diferenciação feita pelo Direito reside na tutela do bem jurídico violado e também na consequência (sanção).
No ilícito penal, o agente infringe uma norma de direito público, sendo que o interesse lesado é o da sociedade.
No ilícito civil, o interesse diretamente lesado é o privado, e o prejudicado pode ou não pleitear a reparação.
A prática de ilícito penal gera uma consequência: pena (sanção penal).
A prática de ilícito civil gera uma consequência que é a obrigação de reparar o dano causado à vítima.
Desta forma, em regra, a prática de um ilícito penal gera a responsabilidade penal. Por sua vez, a prática de um ilícito civil gera a responsabilidade civil.
A responsabilidade penal e a responsabilidade civil proporcionam as respectivas ações (ação penal e ação civil).
A ação penal é exercível pela sociedade (representada pelo Estado) e tende à punição. A ação civil é exercível pela vítima (ou seus representantes) e tende à reparação.
Saliente-se que a prática de um mesmo ato ilícito pode ser analisada sob o prima civil e penal, gerando duas consequências: uma de natureza civil (reparação do dano) e outra de natureza penal (pena).
2.1. Qual a influência da sentença proferida na jurisdição criminal no juízo cível? E vice-versa; qual a influência de uma sentença proferida na jurisdição civil no juízo criminal?
Em regra, a sentença proferida no juízo cível não produz efeito na jurisdição criminal, porém a sentença criminal produz efeitos na jurisdição civil.
2.1.1. Sentença Penal Condenatória
Reza o art. 935, CC, 1ª parte: A responsabilidade civil é independente da criminal.
Por sua vez, o art. 91, I, do Código Penal, que trata de um dos efeitos genéricos da condenação, determina: Art. 91. São efeitos da condenação: I – torna certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime
A sentença penal condenatória transitada em julgado é título executivo judicial.
Conforme art. 63, do Código de Processo Penal: Transitada em julgado a sentença condenatória, poderão promover-lhe a execução, no juízo cível, para efeito da reparação do dano, o ofendido, seu representante legal ou seus herdeiros.
Assim, a sentença penal condenatória transitada em julgado – título executivo judicial - é meio caminho andado para se buscar a reparação do dano, uma vez ser desnecessário, no juízo cível, a busca de um título executivo judicial.
Importante: Sentença criminal – um mesmo crime pode ser praticado por duas pessoas = coautoria (art. 29, Código Penal: Quem, de qualquer modo, concorre para o crime, incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade).
                  Sentença civil – um mesmo ato ilícito pode ser praticado por mais de uma pessoa: solidariedade legal (Parágrafo único do art. 942).     
Lembre-se: a morte do agente, na esfera criminal, é causa extintiva da punibilidade – art. 107, I, do Código Penal. Recorde-se, ainda: pena é pessoal e não passa da pessoa do agente que praticou o crime.
Entretanto, na esfera cível, há a determinação legal da solidariedade em se tratando de responsabilidade civil.
      Vamos exemplificar?
Ricardo (17 anos de idade) e Roberto (vinte anos de idade), amigos, estudantes, motociclistas, ambos residentes na cidade de Indaiatuba, cada qual nas casas de seus respectivos pais, participaram de uma despedida de solteiro de um amigo comum, na cidade de Campinas. Na festa beberam além da conta. Ao retornarem para sua cidade de origem, os jovens, cada um dirigindo a sua moto, vieram a colidir com um automóvel da marca Fiat – modelo Uno. O ocupante do Uno sofreu ferimentos graves e o carro, de sua propriedade, restou completamente danificado. Por conta do acidente, Ricardo, um dos motociclistas, faleceu.
Roberto responde penalmente (tem 19 anos e é imputável) e civilmente.
Entretanto, a vítima do acidente, sabendo que Roberto não tinha rendimentos e, mais, que seus pais tinham pouquíssimos bens, resolveu acionar, civilmente, o pai ricaço de Ricardo, o jovem motociclista que tinha falecido no acidente. É possível tal ação?
Resposta: SIM. A vítima acionou o pai de Ricardo com fundamento no art. 942, parágrafo único cc. 932, I.
2.1.2. Sentença condenatória proferida pelo Tribunal do Júri, transitada em julgado, também não impede a ação civil de execução visando a reparação dos danos causados pela tentativa ou consumação do crime doloso contra a vida.
2.1.3. Sentença penal absolutória fundamentada em prova da inexistência do crime ou da autoria faz coisa julgada no juízo cível.
O art. 935, CC, diz: A responsabilidade civil é independente da criminal; não se poderá, porém, questionar mais sobre a existência do fato, ou quem seja o seu autor, quando estas questões se acharem decididas no crime.
Logo, a sentença penal absolutória que se fundamentou em prova de que o crime inexistiu ou em prova de que o réu não era o seu autor, faz coisa julgada no juízo cível e NÃO se pode ingressar com ação de reparação de dano.
Vamos exemplificar?
José e João trabalhavam por dez anos na farmácia de propriedade de Manoel. Numa determinada ocasião, Manoel percebeu que o estoque de medicamentos vinha diminuindo sem que tivessem sido vendidos. Um belo dia, José e João “pediram a conta”: desligaram-se da farmácia, associaram-se e resolveram abrir uma nova farmácia.
Por conta desses fatos, Manoel dirigiu-se a delegacia e, em decorrência de um boletim de ocorrência, no qual havia afirmado suspeitar que o estoque da segunda farmácia lhe pertencia, foi instaurado, pelo delegado, um inquérito policial. Com base no inquérito, o digno representante do Ministério Público denunciou José e João pela prática de furto qualificado.
Ocorre que, finda a instrução no processo criminal, o juiz absolveu os réus por inexistência do crime. O juiz inviabilizou que Manoel pleiteasse, no juízo cível, uma ação de reparação.
2.1.4. Sentença criminal absolutória por não existir prova de ter o réu concorrido com a infração penal.
O julgamento penal improcedente por falta de provas, não impede a reparação cível, pois na ação civil de conhecimento poderá haver a produção de provas.
2.1.5. Motivo peculiar ao Direito Penal
A morte do autor do crime produz a extinção da punibilidade – art. 107, I, Código Penal.
No juízo cível, os bens do responsável solidário ficam sujeitos à reparação do dano. Se a responsabilidade for contratual, a obrigação opera-se entre as partes, bem como entre os seus herdeiros.
3. Excludentes de ilicitude
Reza o art. 188, CC, e incisos que não constituem atos ilícitos:
I. os praticados em legítima defesa ou no exercício regular de um direito reconhecido;
II. a deterioração ou destruição da coisa alheia, ou a lesão a pessoa, a fim de remover perigo iminente.
O art. 188, CC estabelece em repetição ao determinado pelo Código Penal, causas que excluem a ilicitude do fato, ou seja, a legítima defesa, o exercício regular do direito e o estado de necessidade.
Dispõe o parágrafo único do art. 188, que no caso do inciso II, o ato só será legítimo quando as circunstâncias o tornarem absolutamente necessário, não excedendo o indispensável para a remoção do perigo.
Assim, pode ser que mesmo para remover perigo, alguém que destruiu coisa alheia, poderá ser obrigado a reparar o dano.         
4. Abuso de Direito – art. 187, CC
Comete ato ilícito o titular de direito que, ao exercê-lo, excede manifestadamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé e pelos bons costumes.
Razão da regra: reprimir o exercício antissocial dos direitos subjetivos.
O abuso de direito prescinde da culpa

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