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AMI_DIR_CIV_OBR: AULA 1 AULA
1 I —
OBRIGAÇÕES — TEORIA GERAL 1 —
CONCEITO Obrigação é a relação jurídica pela qual o
devedor se vincula a realizar, em favor do credor, uma prestação juridicamente
exigível, que pode consistir em dar, fazer ou não fazer, nos termos do Código
Civil (obrigações de dar: arts. 233 e ss.; obrigações de fazer: arts. 247 e
ss.; obrigações de não fazer: arts. 250 e ss.). 1.1 —
CARACTERÍSTICAS a) Relação jurídica pessoal (horizontal):
vincula sujeitos (credor e devedor), em regra com efeitos inter partes
(relatividade dos efeitos obrigacionais). b) Transitoriedade: tende ao adimplemento,
extinguindo-se com o cumprimento (ou por outras causas legalmente previstas). c) Coercibilidade estatal: em caso de
inadimplemento, o credor pode buscar tutela jurisdicional, inclusive tutela
específica e medidas para obtenção do resultado prático equivalente (CPC, arts.
497, 536 e 537), sem prejuízo de perdas e danos e consectários legais (CC,
arts. 389 a 404). d) Autonomia privada com conformação legal: a
liberdade contratual é exercida nos limites do ordenamento, observando-se a
função social do contrato (CC, art. 421), a disciplina do art. 421-A e a boa-fé
objetiva (CC, arts. 113 e 422). Obs.: tendência de relativização do efeito
inter partes em hipóteses previstas em lei (p. ex., oponibilidade a terceiros
mediante publicidade registral). P: E
O DIREITO REAL? Direito real não se confunde com direito
obrigacional (pessoal). Em termos gerais, o direito real apresenta: (i)
eficácia erga omnes (contra todos); (ii) tipicidade (rol taxativo — numerus
clausus: CC, art. 1.225); e (iii) publicidade, frequentemente por meio de
registro para constituição/oponibilidade (CC, arts. 1.227 e 1.245, § 1º; Lei
6.015/73 — Lei de Registros Públicos). Já a obrigação é, em regra, relação entre
pessoas, com eficácia inter partes (entre as partes). TERMINOLOGIA
LATINA: • Erga omnes: expressão latina que significa
"contra todos" ou "perante todos". Designa efeitos
jurídicos oponíveis a qualquer pessoa (eficácia absoluta). • Inter partes: expressão latina que significa
"entre as partes". Designa efeitos jurídicos que vinculam apenas os
sujeitos da relação jurídica (eficácia relativa). Obs.:
OBRIGAÇÃO COMO UM PROCESSO (ENFOQUE DINÂMICO) No plano dogmático, a obrigação pode ser
analisada para além do enfoque estático (vínculo credor–devedor e prestação).
Na execução da relação obrigacional, incidem standards normativos como a boa-fé
objetiva (CC, arts. 113 e 422), que informam deveres anexos de conduta (deveres
laterais), voltados ao adimplemento e à preservação do equilíbrio e da
confiança entre as partes. Deveres anexos (exemplos): lealdade,
informação, cooperação e proteção, conforme as circunstâncias do caso concreto,
enquanto desdobramentos normativos da boa-fé objetiva (CC, arts. 113 e 422). P:
QUAL A DIFERENÇA ENTRE SCHULD E HAFTUNG? No estudo das obrigações, consagra-se a
distinção terminológica entre: • Schuld (alemão): débito/dever jurídico de
prestar (o dever primário de cumprir). • Haftung (alemão): responsabilidade (a
sujeição patrimonial e as consequências jurídicas do inadimplemento). ORIGEM HISTÓRICA : A distinção entre Schuld e Haftung tem raízes
no direito romano e foi sistematizada pela doutrina alemã do século XIX,
especialmente por Alois Brinz (1820-1887), que desenvolveu a teoria dualista da
obrigação. No direito romano arcaico, a obrigação
(obligatio) tinha caráter pessoal extremamente rigoroso: o devedor respondia
com o próprio corpo (nexum, manus iniectio). Com a evolução do direito romano
clássico, a responsabilidade passou a recair sobre o patrimônio do devedor
(bonorum venditio), separando-se conceitualmente o dever de prestar (debitum)
da responsabilidade patrimonial (obligatio). A pandectística alemã (século XIX) aprofundou
essa distinção, diferenciando: • Schuld (debitum): o dever jurídico primário
de realizar a prestação. • Haftung (obligatio): a responsabilidade
patrimonial, a sujeição dos bens do devedor à execução forçada em caso de
inadimplemento. No direito brasileiro, a responsabilidade
patrimonial pelo inadimplemento aparece, entre outros, na disciplina das perdas
e danos (CC, arts. 389 a 404), bem como na tutela específica e medidas
coercitivas do CPC (arts. 497, 536 e 537). Observação prática : em regra, Schuld e Haftung recaem sobre a
mesma pessoa (o devedor). Contudo, podem estar dissociados, como na fiança, em
que o fiador tem Haftung (responsabilidade) sem ter Schuld (não é o devedor
principal). Nota Doutrinária: A Pandectística Alemã. A Pandectística foi uma escola jurídica
alemã do século XIX que se dedicou ao estudo e à sistematização do Direito
Romano (especialmente as Pandectas ou Digesto de Justiniano). Seu
objetivo era extrair conceitos lógicos e universais para construir uma Teoria
Geral do Direito Privado. Foi essa escola que consolidou distinções
fundamentais para o Direito Civil moderno, como a separação entre o débito
(Schuld) e a responsabilidade (Haftung), influenciando profundamente o Código
Civil Alemão (BGB) de 1900 e, consequentemente, a estrutura do Direito das
Obrigações no Brasil. CUIDADO!
OBRIGAÇÕES "PROPTER REM" As obrigações propter rem são deveres cuja
titularidade passiva se relaciona à titularidade de um direito sobre a coisa,
acompanhando-a em determinadas hipóteses legais. Exemplo: dever do condômino de contribuir para
as despesas do condomínio (CC, art. 1.336, I). P: O
QUE SE ENTENDE POR OBRIGAÇÃO COM EFICÁCIA REAL (OPONIBILIDADE A TERCEIROS)? Em regra, obrigações produzem efeitos inter
partes. Contudo, a lei pode atribuir oponibilidade perante terceiros em
situações específicas, especialmente quando há publicidade registral. Exemplo: na locação, a alienação do imóvel pode
permitir ao adquirente denunciar o contrato, salvo se a locação for por prazo
determinado, contiver cláusula de vigência em caso de alienação e estiver
averbada na matrícula do imóvel, nos termos do art. 8º da Lei 8.245/91 (Lei do
Inquilinato). Nessa hipótese, a locação torna-se oponível ao adquirente. Lei 8.245/91 — Art. 8º: Se o imóvel for alienado
durante a locação, o adquirente poderá denunciar o contrato, com o prazo de
noventa dias para a desocupação, salvo se a locação for por tempo determinado e
o contrato contiver cláusula de vigência em caso de alienação e estiver
averbado junto à matrícula do imóvel. § 1º: Idêntico direito terá o promissário
comprador e o promissário cessionário, em caráter irrevogável, com imissão na
posse do imóvel e título registrado junto à matrícula do mesmo. § 2º: A denúncia deverá ser exercitada no prazo
de noventa dias contados do registro da venda ou do compromisso, presumindo-se,
após esse prazo, a concordância na manutenção da locação. 1.2 —
REQUISITOS / ELEMENTOS DA OBRIGAÇÃO a) Elemento imaterial: vínculo jurídico que une
credor e devedor e fundamenta a exigibilidade da prestação. b) Elemento subjetivo: sujeitos determinados ou
determináveis. c) Elemento objetivo: prestação (dar, fazer ou
não fazer), juridicamente exigível. 1.3 —
FONTES (CAUSAS) DAS OBRIGAÇÕES 1.3.1
— CLASSIFICAÇÃO CLÁSSICA DE GAIO (DIREITO ROMANO) Gaio (século II d.C.), jurisconsulto romano,
foi o primeiro a sistematizar as fontes das obrigações em suas Institutas
(Institutiones). Segundo Gaio, as obrigações nasciam de: a) Contractus (contrato): acordo de vontades
que gera obrigações recíprocas. No direito romano, os contratos eram
tipificados (contratos nominados) e exigiam formalidades específicas. b) Quasi ex contractu (quase contrato): figuras
que geravam obrigações sem acordo bilateral de vontades, mas por ato lícito
unilateral ou fato jurídico. Exemplos: gestão de negócios (negotiorum gestio),
pagamento indevido (solutio indebiti), enriquecimento sem causa. c) Delictum (delito): ato ilícito doloso
(intencional) que gera obrigação de reparar o dano. Exemplos: furtum (furto),
iniuria (injúria), damnum iniuria datum (dano injusto causado). d) Quasi ex delicto (quase delito): atos
ilícitos culposos (não intencionais) ou situações de responsabilidade
objetiva
que geravam obrigação de indenizar. Observação: a classificação de Gaio foi
posteriormente desenvolvida por Justiniano (século VI d.C.) nas Institutas de
Justiniano, que consolidaram a divisão quadripartite: ex contractu, quasi ex
contractu, ex delicto, quasi ex delicto. 1.3.2
— FONTES DAS OBRIGAÇÕES NO DIREITO BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO A doutrina moderna brasileira não adota
integralmente a classificação romana de Gaio. Prefere-se uma sistematização
baseada na estrutura do Código Civil de 2002 e na teoria geral do direito civil
contemporâneo: a) Lei: fonte primária e direta de obrigações.
A lei pode impor deveres jurídicos independentemente da vontade das partes
(ex.: obrigação alimentar — CC, arts. 1.694 e ss.; dever de indenizar por ato
ilícito — CC, art. 927). b) Negócios jurídicos (atos negociais):    •
Contratos (negócios jurídicos bilaterais ou plurilaterais) — CC, arts. 421 e
ss.    • Atos
unilaterais de vontade: promessa de recompensa (CC, arts. 854 a 860), gestão de
negócios (CC, arts. 861 e ss.), pagamento indevido (CC, arts. 876 e ss.).    • Testamento
(negócio jurídico unilateral causa mortis) — CC, arts. 1.857 e ss. c) Atos ilícitos e abuso de direito:    • Ato
ilícito (CC, art. 186): ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência
que viola direito e causa dano a outrem.    •
Abuso de direito (CC, art. 187): exercício de direito que excede manifestamente
os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons
costumes.    •
Dever de indenizar (CC, art. 927): aquele que, por ato ilícito, causar dano a
outrem, fica obrigado a repará-lo. d) Enriquecimento sem causa (CC, art. 884):
aquele que, sem justa causa, se enriquecer à custa de outrem, será obrigado a
restituir o indevidamente auferido. e) Atos jurídicos em sentido estrito: fatos
jurídicos que geram efeitos obrigacionais independentemente da vontade de
produzir efeitos jurídicos específicos (ex.: vizinhança — CC, arts. 1.277 e
ss.). COMPARAÇÃO:
GAIO × DIREITO BRASILEIRO ATUAL Gaio
(Direito Romano) • Contractus → Contratos (negócios jurídicos
bilaterais) • Quasi ex contractu → Atos unilaterais
(promessa de recompensa, gestão de negócios, pagamento indevido, enriquecimento
sem causa) • Delictum → Ato ilícito doloso (CC, art. 186) • Quasi ex delicto → Ato ilícito culposo e
responsabilidade objetiva (CC, art. 927, parágrafo único) Direito
Brasileiro Contemporâneo • Lei (fonte primária e direta) • Negócios jurídicos (contratos, atos
unilaterais, testamento) • Atos ilícitos e abuso de direito (CC, arts.
186, 187 e 927) • Enriquecimento sem causa (CC, art. 884) • Atos jurídicos em sentido estrito 2 —
ELEMENTOS DA OBRIGAÇÃO: VÍNCULO (TEORIA MONISTA E DUALISTA) a) Teoria unitária (monista): compreende o
vínculo obrigacional como uno, ressaltando o dever de prestar; a
responsabilidade civil aparece como consequência do inadimplemento. b) Teoria binária (dualista): distingue (i) o
dever jurídico de prestar (Schuld/debitum) e (ii) a responsabilidade pelo
inadimplemento (Haftung/obligatio). No direito positivo brasileiro, a
responsabilização do inadimplemento se manifesta na disciplina legal das perdas
e danos (CC, arts. 389 a 404) e demais consequências (mora: CC, arts. 394 e
ss.; cláusula penal: CC, arts. 408 e ss.; resolução por inadimplemento: CC,
art. 475). 2.2 —
ELEMENTO SUBJETIVO (SUJEITOS) Os sujeitos devem ser determinados ou
determináveis. A determinabilidade pode resultar da lei ou do próprio negócio
jurídico. Exemplos: . Se eu emitir
o cheque ao portador, o credor será indeterminado temporariamente, porque o
credor não está especificado, porém quando da apresentação do cheque, o credor
será preenchido. Promessa de recompensa (CC, arts. 854 a 860): credor
determinável por quem cumprir a condição. - Indeterminabilidade subjetiva
relativa ATIVA • Condomínio
edilício: dever do condômino de contribuir para despesas (CC, art. 1.336, I),
com sujeição vinculada à titularidade da unidade. Indeterminabilidade subjetiva
relativa PASSIVA (devedor):   Observação: a indeterminação subjetiva, quando
admitida, é temporária/relativa, devendo ser superável. 2.3 —
ELEMENTO OBJETIVO (PRESTAÇÃO) Prestação é o objeto imediato da obrigação: o
comportamento devido (dar, fazer ou não fazer). A prestação deve ser lícita, possível e
determinada ou determinável, conforme o parâmetro geral do objeto do negócio
jurídico (CC, art. 104, II), quando a obrigação decorre de negócio jurídico. 3 —
EFEITOS DAS OBRIGAÇÕES As obrigações podem produzir, em síntese: a) Efeitos diretos: adimplemento; mora
(atraso); inadimplemento. b) Efeitos indiretos: instrumentos legais para
obtenção do cumprimento (tutela específica — CPC, arts. 497, 536 e 537) e/ou
ressarcimento por perdas e danos (CC, arts. 389 a 404), conforme o caso.

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