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PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM 
PSICANÁLISE 
AULA 5 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Gabriela Eyng Possolli 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Vamos aprofundar os pressupostos da pesquisa em Psicanálise. Até aqui, 
abordamos a pesquisa na Psicanálise como um campo de pesquisa com 
interações com a psicologia e a saúde, conhecendo os tipos de pesquisa, 
abordagens e delineamentos, bem como os quatro principais tipos de revisão 
(integrativa, sistemática, narrativa e de escopo). A metodologia científica em 
Psicanálise confunde-se com a própria pesquisa, ou seja, a Psicanálise em seus 
processos terapêuticos é uma pesquisa. A Psicanálise, enquanto experiência 
original, pode ser formalizada na obra de Freud como a pesquisa psicanalítica. 
Aprofundamos a pesquisa teórico-prática como base para as evidências 
científicas da Psicanálise por meio da produção de fundamentação teórica e dos 
quatro tipos de revisão de literatura abordados. Detalhamos os alicerces que 
possibilitam estruturar e desenvolver pesquisas sobre as bases conceituais no 
campo psicanalítico, que apresentem alicerces teóricos, linhas de análise, que 
servem de contexto argumentativo para pesquisas em Psicanálise. Certamente, 
todos os exemplos práticos de pesquisa reais na Psicanálise que vimos até aqui 
ajudam muito na sua trajetória como pesquisador nesse campo. 
Os pressupostos e guias que serão abordados nesta etapa são 
imprescindíveis para a realização de pesquisas psicanalíticas, seja qual for o seu 
escopo, objetivos ou metodologia aplicada. A Psicanálise é em si um processo 
de pesquisa, tal qual documentado por Freud, e desenvolvido também por outros 
analistas e pesquisadores que se basearam nele. Por um lado, a pesquisa 
aplicada é o tratamento psicanalítico, e por outro, é também o que escapa ao 
foco do tratamento psicanalítico: a teoria psicanalítica, são as bases e conceitos 
que o psicanalista acessa por meio da investigação da natureza e das ações 
humanas. 
Cabe destacar que a produção científica psicanalítica em relação à prática 
e à teoria se desenvolve na associação livre, em que não há distanciamento 
entre sujeito e objeto, o que é esperado na pesquisa em outras áreas. Esse não 
distanciamento acontece por causa da transferência, entendida como um 
fenômeno humano, não exclusivamente psicanalítico, que ocorre entre os 
falantes da relação psicanalítica: paciente e analista. 
 
 
3 
Assim, podemos dizer que a Psicanálise inaugura uma área de estudos 
inédita, fundamentada a partir dos estudos de Freud. E, como tal, a Psicanálise 
acaba por se misturar com o próprio tratamento. De modo que, quando se aborda 
a Psicanálise, aborda-se o tratamento e os conceitos por ele mobilizados, no 
contexto da intersubjetividade, implicando que a pesquisa em Psicanálise se 
baseie em estudos de casos clínicos, assim como Freud fez em suas obras 
completas, cartas, aulas e estudos. 
Como guias e pressupostos para a pesquisa psicanalítica, abordaremos 
principalmente: inconsciente, significante, associação livre, atenção flutuante, 
transferência, casos clínicos. Por meio dessas bases, chegaremos a algumas 
conclusões sobre a importância da compreensão desses elementos para a 
pesquisa em Psicanálise. 
TEMA 1 – DISCURSO SUJEITO DO INCONSCIENTE 
Quando dizemos que o método psicanalítico também é um método de 
pesquisa, é porque se trata de uma análise do discurso do inconsciente. O 
primeiro pressuposto que iremos abordar é o inconsciente, enquanto objeto e 
matéria de trabalho da Psicanálise, conceito por meio do qual se estrutura a 
teoria e a clínica psicanalítica. 
Qual é a diferença entre a metodologia de análise de discurso e de 
conteúdo com o método psicanalítico? 
Caregnato e Mutti (2006) abordam o método de análise do discurso e de 
análise de conteúdo. O artigo publicado na base de dados Scielo, intitulado 
“Pesquisa qualitativa: análise de discurso versus análise de conteúdo”, descreve 
com detalhes essas metodologias de análise em pesquisa. 
Em Psicanálise, cabe ressaltar que analisar discurso ou conteúdo difere 
no sentido de que se faz análise do discurso do sujeito do inconsciente. Na 
metodologia qualitativa clássica, a análise de discurso e de conteúdo ocorre 
considerando o discurso do ego, já significado pela cultura. Assim, trata-se de 
pesquisar o sujeito do inconsciente conforme expressão criada por Lacan. 
Freud considerava que tinha um conteúdo inconsciente que se 
manifestava na fala das pessoas. A partir dessa colocação de Freud, Lacan 
passou a postular que esse inconsciente se comunica, e disso decorreu: o 
 
 
4 
inconsciente se comunica como uma linguagem, a linguagem do inconsciente, e 
por isso o inconsciente é um sujeito. 
Esse sujeito do inconsciente é o que desmente a pessoa (discurso 
racional do ego). É o que comete atos falhos, é o que demonstra irritação e faz 
a pessoa pedir desculpas, ou seja, é aquele que constrange, que envergonha, 
que faz a pessoa se sentir transparente. 
Vamos ver um exemplo: um menino internado em um hospital estava com 
medo de ir para a UTI depois de uma grande cirurgia que faria no dia seguinte. 
A psicanalista foi chamada para atendê-lo e, no primeiro contato, fez perguntas 
fáceis para que o menino respondesse, com a intenção de estabelecer um 
rapport, uma aliança terapêutica positiva: qual é o seu nome, quantos anos você 
tem, em que série está no colégio, e coisas assim. A psicanalista já sabia que 
ele tinha 13 anos, mas não o interpelou nem confrontou quando ele disse que 
tinha oito anos. Seguiu a conversa, pois a intenção não era acessar discursos 
racionais e sim os do inconsciente. Em seguida, perguntou como ele imaginava 
a UTI e o menino descreveu um lugar pequeno, quadrado, escuro e onde ele 
ficava sozinho. A psicanalista imaginou um túmulo, mas não disse nada. 
Perguntou a ele o que poderia ajudá-lo a suportar ficar naquele lugar. Ele disse 
que tinha medo de ficar sozinho no escuro e que não queria ir. Como a cirurgia 
já seria no dia seguinte e não havia possibilidade de adiá-la, a intervenção 
buscou diminuir a ansiedade e, para tanto, ele foi convidado a ir à UTI para ver 
como era. Ele viu um ambiente grande, iluminado e cheio de gente. As crianças 
estavam acompanhadas de suas mães. Então, concordou em fazer a cirurgia e, 
quando acordou no pós-operatório, a equipe garantiu que o ambiente era 
diferente daquele que ele havia imaginado. A mãe e a enfermeira estavam com 
ele, a televisão estava ligada em um filme que ele gostava, alguns objetos 
pessoais estavam com ele, havia muita luz e, da posição em que estava na 
cama, era possível ver a porta de entrada e o balcão de prescrição, sempre com 
a presença de membros da equipe de saúde. Nos dias seguintes, ele mesmo 
abordou esse assunto com a psicanalista, dizendo que estava gostando da UTI, 
mas achava que seu irmão tinha sido internado em outro lugar. Contou que seu 
irmão tinha a mesma doença, operou aos 8 anos de idade, foi para a UTI e 
morreu. 
 
 
5 
O discurso que interessa é aquele do sujeito do inconsciente, que de fato 
determina o comportamento. Como visto no exemplo, o engano e os atos falhos 
são muito mais relevantes do que o discurso bem educado mediado pelo filtro 
do ego. Assim, temos que: 
O discurso do sujeito do inconsciente é o conteúdo expressado como 
manifestação do inconsciente, irracional, desprovido de sentido. Discurso do 
ego: material consciente já organizado, censurado, adequado, coerente, que 
pode ser explicado, comprovado, entendido e que faz sentido. 
Freud defendia a importância do reconhecimento da existência do 
inconsciente por meio de reconhecimento científico, como objetivo dos estudos 
da Psicanálise. Nesse sentido, Freud discorreu sobre dados que comprovam sua 
existência. Ele aponta que manifestações do consciente expressam uma 
quantidade significativa de lacunas, independentemente de as pessoas serem 
saudáveis ounão. Freud também complementou, afirmando que, por meio de 
sua experiência clínica, percebeu que os atos conscientes ficam imperceptíveis 
quando há insistência de que os atos mentais devem ser experimentados apenas 
pela consciência. Por outro lado, mesmo reivindicando o reconhecimento 
científico da teoria psicanalítica, Freud também admitia a impossibilidade de que 
todos os fenômenos ocorridos na mente e nas emoções humanas pudessem ser 
conhecidos pela consciência. 
Freud estruturou o aparelho psíquico como constituído de instâncias que 
ele chamou de topos. A partir da obra A interpretação dos sonhos, a primeira 
estrutura freudiana era composta de inconsciente, pré-consciente e consciente. 
Para ele, o que mais importa é o lugar relativo que cada instância tem em relação 
às demais. Mais adiante no desenvolvimento de sua teoria, Freud propôs a 
substituição da estrutura, renomeando-a como id, ego e superego, como 
estrutura psíquica. 
Os “processos mentais são inconscientes em si mesmos, e assemelham 
a percepção deles por meio da consciência à percepção do mundo externo por 
meio dos órgãos sensoriais” (Garcia-Roza, 2005, p. 46). A Psicanálise alerta os 
sujeitos para não estabelecer correspondência entre impressões vindas da 
consciência e processos mentais inconscientes, que de fato são o objeto de 
análise psicanalítica. 
 
 
6 
TEMA 2 – O SIGNIFICANTE EM PSICANÁLISE 
Quando falamos em significante na Psicanálise, estamos nos referindo ao 
campo de estudos da Semiótica, que estuda os Signos e sua interface com os 
estudos da Psicanálise. De maneira breve, podemos dizer que um signo diz 
respeito a um objeto ou fenômeno que representa outro, como um sinal, 
composto por significante e significado. O significante é o elemento perceptível 
ou material do signo, enquanto o significado é o conceito, a parte abstrata do 
signo. Como exemplo, pense em uma placa de trânsito de proibido estacionar 
(E): o significante é a placa em si, o símbolo da E cortado; o significado é 
conhecido pelas pessoas que dominam as regras de trânsito e compreendem o 
conceito de que naquele local não se pode estacionar. Assim, o significante 
remete a um determinado significado. 
A discussão sobre o significante na Psicanálise diz respeito à 
compreensão do conjunto de sinais e signos tangíveis e perceptíveis que 
representam as manifestações do inconsciente, que precisam ser interpretadas 
no processo clínico em Psicanálise. Essa discussão ganhou corpo com a obra 
de Lacan. Na Psicanálise, o significante lacaniano aparece nas discussões 
teóricas como um conceito citado por Lacan. 
Foi Michel Arrivé quem relacionou o significante lacaniano com o signo de 
Saussure (um dos maiores linguistas da Semiótica), buscando estudar na área 
da Linguística a teoria do significante lacaniano. Arrivé (1999) destaca que, 
considerando a teoria lacaniana, não podemos deixar de estabelecer uma 
conexão entre Linguística e Psicanálise, entre linguagem e inconsciente. 
Entre a área da Linguística e a Psicanálise, há duas principais 
possibilidades de vinculação: a primeira é com a estrutura, e a segunda é com o 
sujeito. Ao atuar em um campo de estudos na interface entre duas áreas do 
conhecimento, não se pode supor uma mera articulação, pois articular supõe 
unir partes para construir um elemento. É por isso que Flores (1999) afirma que 
entre as duas áreas há uma implicação, ou seja, uma afinidade entre as 
proposições. 
Desse modo, trata-se de um desafio de interdisciplinaridade, que precisa 
ser encarado sob dois princípios: 1) o cuidado para que os conceitos da 
Linguística e da Psicanálise não sejam justapostos sem a devida interpretação 
 
 
7 
do arcabouço teórico exigido por cada área; 2) deve-se assumir um ponto de 
partida para as análises conjuntas — ou Linguística, ou Psicanálise — para que 
seja possível argumentar sem misturar os pressupostos, por mais atraente que 
possa parecer a simples mistura de conceitos. Aqui, portanto, destacamos a 
Psicanálise como ponto de análise e utilizamos pressupostos de outros campos, 
como a Linguística e a Semiótica, para compreender os atributos do significante 
na Psicanálise. 
Cabe ressaltar que tanto para Saussure quanto para Lacan, há a visão de 
que na produção do discurso há algo que escapa ao consciente do sujeito, 
questões que vão além da expressão objetiva, uma vez que, ao falar, sempre 
dizemos mais do que pretendemos, inclusive por meio da linguagem corporal. 
Nesse contexto de vinculação entre Psicanálise e Linguística, o sentido 
para a Psicanálise está justamente no lugar em que o sentido parece não estar. 
A linguagem não se revela com transparência, a comunicação nem sempre é 
clara, é frequentemente um espaço de ocultamento. Ao interagir por meio da 
fala, nunca se adota uma dimensão única, sempre há outros aspectos e sentidos 
ocultos naquilo que se diz. A investigação psicanalítica introduzirá ao processo 
científico uma compreensão de sentido que não existe na Linguística, seria a 
noção do sentido a ser refletido no sem-sentido. No campo da Psicanálise, o 
discurso consciente do sujeito está cheio de arestas do discurso consciente, 
assim sempre há um discurso oculto que se inscreve no inconsciente e que 
precisa de pressupostos para ser interpretado (Arrivé, 1999). 
Lacan (1999, p. 52) explica que as leis que compõem o inconsciente, 
designadas por ele como leis do significante, coincidem com as leis do discurso. 
A estrutura do inconsciente, pontua Lacan, diz respeito àquilo que “a análise 
Linguística permite situar como sendo os meios essenciais de formação do 
sentido, na medida em que este é gerado pelas combinações do significante”. 
Portanto, ele estabelece uma relação clara entre inconsciente e linguagem, 
entendendo a linguagem como constituidora do inconsciente. 
O significante será sempre “uma expressão involuntária de um ser falante, 
podendo ser um lapso, um relato do sonho, uma impressão provocada por um 
signo, ou mesmo um gesto, um som, ou até um silêncio” (Nasio, 1993, p. 17). O 
que é recalcado pelo sujeito pertence à representação da palavra, sendo assim 
da ordem do significante (Lacan, 1999). 
 
 
8 
Saiba mais 
Para explicar o que pertence à ordem do significante, Lacan (1988) 
exemplifica com a figura do passo na areia: Os passos na areia da praia são 
sinais que o objeto deixa para trás. Esses sinais independem do sujeito para 
existir, já que permanecem mesmo sem a presença de alguém para observar. 
Desse modo, o significante se estende a múltiplos elementos do domínio do 
sinal. Enquanto o significante se refere a um sinal que “não remete a um objeto, 
mesmo sob a forma de rastro, embora o rastro anuncie, no entanto, seu caráter 
essencial. Ele é também um sinal de uma ausência. Mas, na medida em que ele 
faz parte da linguagem, o significante é um sinal que remete a um outro sinal, 
que é como tal estruturado para significar a ausência de um outro sinal” (Lacan, 
1988, p. 192). 
Os conteúdos que a rede de significantes revela levam à possibilidade de 
criação de sentidos que ocorre na direção antagônica ao discurso linear, 
contrário ao discurso programado. Dessa forma, a metáfora, por fugir do 
esperado, demonstra algo criativo e que é matéria para análise e reflexão. 
TEMA 3 – ASSOCIAÇÃO LIVRE E ATENÇÃO FLUTUANTE 
Iniciamos com definições mais objetivas elaboradas com base no 
Dicionário de Psicanálise (Roudinesco; Plon, 1998), destacando que a atenção 
flutuante é a condição para que a livre associação ocorra, e esta última é a 
técnica fundamental do método psicanalítico. 
Historicamente, a associação livre surgiu como conceito no final do século 
XIX, quando Freud se desligou progressivamente da hipnose e da catarse, 
criando assim o método psicanalítico baseado na associação livre, que tem como 
fundamento a fala e a linguagem. O termo associação livre, atribuído a Breuer, 
que trabalhava com Freud,foi empregado pela primeira vez em 1896. Uma 
definição importante é que “qualquer implantação da Psicanálise passa pelo 
reconhecimento consciente da existência do inconsciente, da mesma forma que 
a associação livre, como técnica de tratamento, passa pelo princípio político da 
liberdade de associação” (Roudinesco; Plon, 1998, p. 344). 
Já a atenção flutuante, expressão criada por Freud em 1912, designa a 
“regra técnica segundo a qual o psicanalista deve escutar seu paciente sem 
 
 
9 
privilegiar nenhum elemento do discurso deste e deixando que sua própria 
atividade inconsciente entre em ação” (Roudinesco; Plon, 1998, p. 39). 
Assim, tanto a atenção flutuante como a associação livre são técnicas 
facilitadoras evocadas pelo analista para que os elementos latentes do 
inconsciente possam circular com liberdade no discurso dentro do processo 
terapêutico. Em sua autobiografia, Freud refletiu sobre a evolução de seu 
método, insistindo no respeito àquilo que chamou de regra fundamental da 
Psicanálise, que é chegar à associação livre (fluxo discursivo aberto com o 
paciente), meio para fazer surgirem as resistências (indicações de questões 
latentes no inconsciente) e possibilitar a exploração como canal a ser 
interpretado no processo psicanalítico (Freud, 1977). 
Nas pesquisas psicanalíticas, sejam clínicas ou teóricas, todas 
compartilham do método interpretativo e da ruptura de campo. A Psicanálise é 
um método interpretativo em ação, e não apenas uma teoria; mesmo as 
pesquisas teóricas servem para embasar a prática clínica. A Psicanálise é uma 
práxis, um conhecimento empírico que contém um saber sobre o qual é possível 
teorizar. Ao estabelecer o campo de estudos da Psicanálise, Freud desenvolveu, 
acima de tudo, um método de cura pela palavra para tratar as neuroses dos 
pacientes. Esse método vai além da racionalidade habitual e permite o 
surgimento do sujeito durante a interação analítica. “Freud estava introduzindo 
um método novo na arte de curar, um novo caminho que a arte havia explorado 
melhor, fato que certamente não lhe escapou” (Herrmann, 2004, p. 52). 
Ao desenvolver o método da associação livre, Freud rompe com o 
determinismo lógico da razão científica do início do século XX, acessando a 
subjetividade e refletindo sobre o sujeito para esclarecer suas questões 
psíquicas. A prática clínica proposta por Freud se caracteriza 
metodologicamente por uma proposta criativa resultante do processo de 
associação livre, que é específica e adaptada a cada sujeito, em que os sentidos 
latentes expostos pela análise constituem percursos discursivos singulares na 
fala do sujeito no processo terapêutico. Assim, observa-se que a Psicanálise, 
como método, aponta para uma implicação objetiva do sujeito, sendo uma 
característica da pesquisa em Psicanálise que difere da racionalidade científica 
tradicional, que busca neutralidade e imparcialidade no processo científico. 
 
 
10 
Vale ressaltar que a associação livre é um método freudiano para o 
tratamento terapêutico de neuroses, sendo um processo que revela o 
inconsciente e fundamenta uma compreensão teórica dos elementos psíquicos 
que explicam as patologias, como psicose, neurose e perversão. No campo da 
psicopatologia, a Psicanálise contribui para a classificação e descrição de 
doenças mentais, especialmente ao detalhar o conceito de demência precoce. 
Nesse sentido, o método psicanalítico fundamentou-se na observação e 
descrição das expressões clínicas do sujeito, buscando registrar sua evolução e 
técnicas de tratamento. 
Na obra A interpretação dos sonhos, de 1900, Freud estabeleceu como 
base a formulação inicial do aparelho psíquico em uma perspectiva dinâmica e 
empírica, além dos elementos constituintes da neurose. A tarefa de interpretar 
as manifestações inconscientes complementa a tarefa de falar no discurso 
terapêutico, consolidada pela atenção flutuante e pela associação livre. Assim, 
Barbosa define a associação livre e a atenção flutuante: 
A primeira corresponde ao ato de falar sem “censura” tudo o que lhe 
vier à mente, mesmo que pareça “bobagem” para quem fala; a segunda 
significa dizer que o analista não deve dar importância a qualquer 
elemento do discurso; deve permitir que sua escuta funcione o mais 
livremente possível, através da própria atividade do inconsciente, para, 
assim, suspender as motivações que se dirigem a dado elemento. 
(Barbosa, 2018, p. 55) 
Quando o paciente faz associações livres dos elementos discursivos, ele 
evoca seu contexto inconsciente, produzindo algo novo. Não está apenas 
relatando algo que vivenciou, mas evocando o que Freud chamou de 
recordações encobridoras. Essas recordações não são uma reprodução do 
passado, pois são atravessadas pela linguagem do sujeito que as descreve, 
trazendo elementos conscientes e expressões inconscientes que são 
trabalhados na clínica psicanalítica. É por meio dessas recordações 
encobridoras que uma linguagem é construída para se aproximar do 
inconsciente. Um objeto de linguagem é construído entre o analisante e o 
analista: o analisante fazendo sua associação livre e o analista registrando os 
casos e as abordagens terapêuticas. 
Lacan (2008), ao discutir a pesquisa psicanalítica e a técnica da atenção 
flutuante de Freud, ressalta que o analista ouve o que o analisante diz com 
atenção uniforme, sem pré-selecionar ou definir critérios para os conteúdos que 
 
 
11 
serão submetidos à análise. Por meio da escuta analítica, são encontrados no 
discurso os sinais do sujeito desejante, sendo que o próprio sujeito é resultado 
dos significantes inconscientes. Portanto, na Psicanálise não existe um objeto a 
ser minuciosamente estudado e examinado antes da intervenção na prática 
clínica. É por meio do processo clínico que o objeto da Psicanálise encontra seu 
lugar, onde o objeto não é simplesmente buscado, mas sim redescoberto. 
Pode-se considerar, conforme indicado por Lacan, que na regra da 
atenção flutuante está a reafirmação de que o percurso para a produção de 
pesquisas em Psicanálise não pode ser predeterminado. A produção científica 
em Psicanálise deve ser forjada de forma comprometida com a singularidade de 
cada circunstância. Caso contrário, encontraremos apenas o que já foi abordado 
por outras pesquisas, sem contemplar a natureza personalizada que os casos 
clínicos em Psicanálise demandam. 
Coelho e Santos (2012, p. 94), ao abordarem a pesquisa em Psicanálise 
em contextos não estritamente analíticos, fazem uso da técnica que Freud 
chamou de contrapartida do analista à regra da associação livre: a atenção 
flutuante. Toda pesquisa em Psicanálise implica que o pesquisador se submeta 
aos requisitos da prática clínica. É por isso que o método de pesquisa 
psicanalítica se baseia na fala e na escuta, por meio da associação livre e da 
atenção flutuante. 
Mesmo em pesquisas teóricas, é importante ter em mente a 
recomendação de que o pesquisador psicanalítico mantenha sua atenção 
uniformemente suspensa, aberto para o que possa surgir no processo de 
pesquisa. O pesquisador em Psicanálise não deve ter uma visão dogmática em 
que direcione sua atenção apenas para ideias que confirmem o que está previsto 
em suas hipóteses. Dessa forma, ao não rigidificar seus pressupostos teórico-
práticos, o pesquisador adota uma postura compatível com a atenção flutuante, 
chegando assim a uma fundamentação conceitual que não seja totalizante. 
TEMA 4 – ANÁLISE DO PROCESSO PSICANALÍTICO E A TRANSFERÊNCIA 
Por meio da metodologia de estudos de caso, o psicanalista pode 
investigar e produzir conhecimentos sobre os fenômenos dos processos 
psicanalíticos, como os tipos de mecanismos de defesa mais utilizados e o 
 
 
12 
padrão de relacionamento mais comum entre pacientes neuróticos, limítrofes e 
com psicose. Neste tópico, abordaremos a transferência. 
O conceito de transferência em Psicanálise passou por várias mudançasdesde que Freud o formulou originalmente. A transferência envolve as projeções 
de sentimentos que o analisando faz ao longo do processo de análise. 
A definição de transferência foi desenvolvida nas obras de Freud: 
Dinâmica da transferência (1912), Recordar, repetir e elaborar (1914) e 
Conferências introdutórias sobre Psicanálise (1917). É um fenômeno que ocorre 
dentro do setting analítico, onde, no processo de análise, os sentimentos em 
relação às figuras parentais são ressignificados na relação paciente-analista. A 
transferência é um aspecto extremamente importante da técnica psicanalítica 
(Morettini, 2023). 
Saiba mais 
O setting analítico é um conjunto de instrumentos e estratégias que 
compõem o atendimento terapêutico oferecido ao paciente. Está relacionado ao 
par analítico, ou seja, à relação discursiva e afetiva entre analista e paciente. 
Pelo mecanismo transferencial, o analista identifica sentimentos 
atribuídos aos agentes parentais. As relações primordiais dos seres humanos 
são a materna e a paterna, e também outras pessoas significativas na infância 
do sujeito. 
A transferência é um movimento de conteúdos do inconsciente em direção 
ao pré-consciente, que transcorre por meio de uma projeção que o analisando 
faz em relação ao analista. Esse trânsito de sentimentos é imprescindível para 
que os padrões repetidos do paciente sejam identificados e reelaborados na 
análise. 
Os sentimentos passados evocados pelo paciente e a projeção dos afetos 
para a figura do analista podem ser reconfigurados em uma transferência que 
ocorra de modo guiado pelo processo terapêutico. Quando a transferência 
acontece de modo benéfico, com uma condução adequada pelo manejo do 
analista, o paciente poderá seguir em seu amadurecimento com autonomia e 
independência. No sentido contrário à transferência, há a contratransferência, 
que é uma direção de afetos do analista para o analisando. A contratransferência 
 
 
13 
merece um sinal de alerta, já que, dependendo do nível de envolvimento 
emocional do analista, pode ser prejudicial para o paciente. 
Um psicanalista inexperiente pode ser surpreendido por um conteúdo 
transferencial muito intenso e reagir a isso de modo contratransferencial, 
achando que é algo pessoal do paciente para ele. Por exemplo, o paciente tenta 
seduzir o psicanalista ou discorda de suas intervenções, desqualifica o 
psicanalista e questiona sua competência, com um perfil desafiador opositor. 
Isso pode irritar o analista inexperiente. Para não ser surpreendido pelos 
fenômenos do processo psicanalítico, o analista pode fazer pesquisas sobre 
quais os tipos de relação transferencial mais frequentes entre pacientes 
neuróticos, limítrofes e psicóticos, de modo a se instrumentalizar tecnicamente 
para o manejo. A supervisão dos casos em atendimento contribui para o 
refinamento da habilidade clínica. 
A pesquisa em Psicanálise não está restrita ao âmbito clínico, mas se 
realiza tendo a dimensão clínica em seu horizonte. Da mesma forma que não há 
Psicanálise sem psicanalista, pela sua própria estrutura, que se baseia na 
linguagem, é preciso pontuar que o psicanalista está sujeito à criação de seu 
inconsciente. Os afetos transferenciais convertidos em transferência de trabalho 
constituem uma perspectiva de chegar a uma concepção livre de preconceitos. 
Como sustenta Lacan (2003), a Psicanálise apenas pode ser comunicada de um 
indivíduo para outro via transferência de trabalho. Assim, pontua-se que é a 
transferência de trabalho que abre caminho para a pesquisa teórica que seja 
propriamente psicanalítica. 
Hashimoto e Tavares (2013) destacam, dentre os caminhos relatados em 
suas vivências de trabalho e pesquisa em Psicanálise, a importância de 
compreender a implicação do pesquisador psicanalítico diante de um certo 
objeto de estudo, assinalando a transferência que ocorre no método 
psicanalítico. Os autores apontam que na Psicanálise o pesquisador realiza 
[…] uma relação transferencial com o próprio conteúdo investigado na 
medida em que essas leituras o tocam de determinada forma para além 
da racionalidade empregada na própria leitura de um texto em 
particular. No momento em que lemos, estudamos e nos esforçamos 
para compreender qualquer que seja articulação teórica, não só a 
nossa racionalidade está ativa como também os processos 
inconscientes. (Hashimoto; Tavares, 2013, p. 172) 
 
 
 
14 
TEMA 5 – CASOS CLÍNICOS 
A última categoria importante para a pesquisa em Psicanálise, que será 
abordada de forma mais aprofundada, são os casos clínicos. No campo da 
metodologia de pesquisa, um estudo de caso é um tipo de pesquisa que enfatiza 
a singularidade de um determinado fenômeno, articulando uma teoria para 
analisar esse contexto específico. Trata-se de um método que permite obter 
informações detalhadas, testar hipóteses e desenvolver teorias (Gil, 2002). 
O estudo de caso, como estratégia na pesquisa clínica em Psicanálise, 
deve ser compreendido como resultado do relato de experiência clínica. Para 
conduzir um estudo de caso, Stake (1995) apresenta três tipos de delineamento 
que devem ser considerados na investigação científica: 1) Intrínseco: concentra-
se na compreensão do caso e dos dados e princípios presentes nele que são 
relevantes para a pesquisa; 2) Instrumental: utiliza o caso para gerar reflexões 
sobre um tema, a fim de esclarecer um tópico teórico ou desenvolver 
conhecimento sobre questões que não se limitam apenas àquele caso, de modo 
que o estudo de caso possa trazer entendimento sobre outros fenômenos; 3) 
Coletivo: ocorre quando um caso instrumental abrange vários casos, por meio 
de uma análise comparativa, proporcionando um conhecimento mais abrangente 
sobre o fenômeno teórico-prático em investigação. 
Com base nesses três tipos, as pesquisas psicanalíticas que se debruçam 
sobre estudos de caso são classificadas como Intrínsecas e Instrumentais. O 
objetivo do estudo de caso em Psicanálise não é produzir generalizações, mas 
sim compreender a relação de um sujeito com seus sintomas. Assim, o estudo 
de caso ocupa uma posição fundamental na Psicanálise, registrando e refletindo 
sobre os impasses clínicos, como evidenciado por Freud em seus relatos de 
caso nas obras completas. 
A grande contribuição dos pesquisadores psicanalíticos na comunidade 
científica está na publicação de pesquisas baseadas em suas experiências 
clínicas. Esses pesquisadores geralmente realizam abordagens qualitativas, 
coletando fragmentos de seus atendimentos para formalizar estudos de caso, 
que são analisados com base nos pressupostos psicanalíticos. O estudo de caso 
em Psicanálise é um relato de experiência sobre o setting analítico em um 
 
 
15 
processo de tratamento, utilizando a transferência e a associação livre para 
acessar o inconsciente e vincular a teoria aos achados clínicos. 
A prática clínica é um contexto privilegiado para a produção científica, pois 
aborda “a prática como um problema de pesquisa, com o objetivo de melhorá-la 
com base em seus próprios resultados” (Avellar, 2009, p. 16). Além dessa 
relevância, as pesquisas de casos clínicos em Psicanálise contribuem para que 
a prática seja transmitida a outros processos psicanalíticos. 
NA PRÁTICA 
A fim de relacionar os conceitos que compõem as bases da Produção 
Científica em Psicanálise, o mapa conceitual a seguir propõe uma estrutura para 
relacionar esses pressupostos: 
Figura 1 – Mapa conceitual de pressupostos para pesquisa em Psicanálise 
 
FINALIZANDO 
Ao compreender o inconsciente como estruturado pela linguagem, 
entendemos que o sujeito que é afetado pelo significante se torna um ser da 
 
 
16 
linguagem. O foco do psicanalista ao realizar pesquisas teóricas é guiado pelo 
conhecimento do inconsciente. O inconsciente encontra na linguagem, em um 
contexto clínico de vinculação, um lugar para sua expressão através da relação 
significado-significante,sob a orientação do psicanalista. 
Para Freud, a norma fundamental da Psicanálise é a associação livre, que 
ele chamou de regra fundamental, que determina a criação do analisando por 
meio da linguagem. Essa regra orienta o trabalho na clínica psicanalítica, e a 
associação livre é a forma adequada de conduzi-la. O analista precisa encontrar 
sua própria posição na transferência, diante da associação livre baseada nas 
falas do paciente. A singularidade da escuta marca a ação do analista através 
da atenção flutuante. A atenção flutuante requer treinamento sólido e um estado 
de alerta peculiar. 
No que diz respeito à transferência na pesquisa psicanalítica, existem 
diferentes finalidades na investigação clínica e teórica. Na prática clínica, a 
transferência é dissolvida por meio da interpretação. Já na pesquisa psicanalítica 
teórica, ela precisa ser instrumentalizada para tornar o texto uma argumentação 
metapsicológica. A instrumentalização diz respeito à sistematização dos 
elementos que o pesquisador transfere de forma inconsciente juntamente com 
as teorias em estudo. 
O estudo de casos clínicos em Psicanálise permite comunicar a 
singularidade das vivências clínicas por meio das peculiaridades de uma análise, 
contribuindo para a construção teórica e técnica da Psicanálise. O estudo de 
caso é uma abordagem ideal para a pesquisa clínica, que traz a noção de que a 
prática sempre desafia a teoria e convoca a uma constante reavaliação. 
 
 
 
17 
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