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PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM PSICANÁLISE AULA 5 Profª Gabriela Eyng Possolli 2 CONVERSA INICIAL Vamos aprofundar os pressupostos da pesquisa em Psicanálise. Até aqui, abordamos a pesquisa na Psicanálise como um campo de pesquisa com interações com a psicologia e a saúde, conhecendo os tipos de pesquisa, abordagens e delineamentos, bem como os quatro principais tipos de revisão (integrativa, sistemática, narrativa e de escopo). A metodologia científica em Psicanálise confunde-se com a própria pesquisa, ou seja, a Psicanálise em seus processos terapêuticos é uma pesquisa. A Psicanálise, enquanto experiência original, pode ser formalizada na obra de Freud como a pesquisa psicanalítica. Aprofundamos a pesquisa teórico-prática como base para as evidências científicas da Psicanálise por meio da produção de fundamentação teórica e dos quatro tipos de revisão de literatura abordados. Detalhamos os alicerces que possibilitam estruturar e desenvolver pesquisas sobre as bases conceituais no campo psicanalítico, que apresentem alicerces teóricos, linhas de análise, que servem de contexto argumentativo para pesquisas em Psicanálise. Certamente, todos os exemplos práticos de pesquisa reais na Psicanálise que vimos até aqui ajudam muito na sua trajetória como pesquisador nesse campo. Os pressupostos e guias que serão abordados nesta etapa são imprescindíveis para a realização de pesquisas psicanalíticas, seja qual for o seu escopo, objetivos ou metodologia aplicada. A Psicanálise é em si um processo de pesquisa, tal qual documentado por Freud, e desenvolvido também por outros analistas e pesquisadores que se basearam nele. Por um lado, a pesquisa aplicada é o tratamento psicanalítico, e por outro, é também o que escapa ao foco do tratamento psicanalítico: a teoria psicanalítica, são as bases e conceitos que o psicanalista acessa por meio da investigação da natureza e das ações humanas. Cabe destacar que a produção científica psicanalítica em relação à prática e à teoria se desenvolve na associação livre, em que não há distanciamento entre sujeito e objeto, o que é esperado na pesquisa em outras áreas. Esse não distanciamento acontece por causa da transferência, entendida como um fenômeno humano, não exclusivamente psicanalítico, que ocorre entre os falantes da relação psicanalítica: paciente e analista. 3 Assim, podemos dizer que a Psicanálise inaugura uma área de estudos inédita, fundamentada a partir dos estudos de Freud. E, como tal, a Psicanálise acaba por se misturar com o próprio tratamento. De modo que, quando se aborda a Psicanálise, aborda-se o tratamento e os conceitos por ele mobilizados, no contexto da intersubjetividade, implicando que a pesquisa em Psicanálise se baseie em estudos de casos clínicos, assim como Freud fez em suas obras completas, cartas, aulas e estudos. Como guias e pressupostos para a pesquisa psicanalítica, abordaremos principalmente: inconsciente, significante, associação livre, atenção flutuante, transferência, casos clínicos. Por meio dessas bases, chegaremos a algumas conclusões sobre a importância da compreensão desses elementos para a pesquisa em Psicanálise. TEMA 1 – DISCURSO SUJEITO DO INCONSCIENTE Quando dizemos que o método psicanalítico também é um método de pesquisa, é porque se trata de uma análise do discurso do inconsciente. O primeiro pressuposto que iremos abordar é o inconsciente, enquanto objeto e matéria de trabalho da Psicanálise, conceito por meio do qual se estrutura a teoria e a clínica psicanalítica. Qual é a diferença entre a metodologia de análise de discurso e de conteúdo com o método psicanalítico? Caregnato e Mutti (2006) abordam o método de análise do discurso e de análise de conteúdo. O artigo publicado na base de dados Scielo, intitulado “Pesquisa qualitativa: análise de discurso versus análise de conteúdo”, descreve com detalhes essas metodologias de análise em pesquisa. Em Psicanálise, cabe ressaltar que analisar discurso ou conteúdo difere no sentido de que se faz análise do discurso do sujeito do inconsciente. Na metodologia qualitativa clássica, a análise de discurso e de conteúdo ocorre considerando o discurso do ego, já significado pela cultura. Assim, trata-se de pesquisar o sujeito do inconsciente conforme expressão criada por Lacan. Freud considerava que tinha um conteúdo inconsciente que se manifestava na fala das pessoas. A partir dessa colocação de Freud, Lacan passou a postular que esse inconsciente se comunica, e disso decorreu: o 4 inconsciente se comunica como uma linguagem, a linguagem do inconsciente, e por isso o inconsciente é um sujeito. Esse sujeito do inconsciente é o que desmente a pessoa (discurso racional do ego). É o que comete atos falhos, é o que demonstra irritação e faz a pessoa pedir desculpas, ou seja, é aquele que constrange, que envergonha, que faz a pessoa se sentir transparente. Vamos ver um exemplo: um menino internado em um hospital estava com medo de ir para a UTI depois de uma grande cirurgia que faria no dia seguinte. A psicanalista foi chamada para atendê-lo e, no primeiro contato, fez perguntas fáceis para que o menino respondesse, com a intenção de estabelecer um rapport, uma aliança terapêutica positiva: qual é o seu nome, quantos anos você tem, em que série está no colégio, e coisas assim. A psicanalista já sabia que ele tinha 13 anos, mas não o interpelou nem confrontou quando ele disse que tinha oito anos. Seguiu a conversa, pois a intenção não era acessar discursos racionais e sim os do inconsciente. Em seguida, perguntou como ele imaginava a UTI e o menino descreveu um lugar pequeno, quadrado, escuro e onde ele ficava sozinho. A psicanalista imaginou um túmulo, mas não disse nada. Perguntou a ele o que poderia ajudá-lo a suportar ficar naquele lugar. Ele disse que tinha medo de ficar sozinho no escuro e que não queria ir. Como a cirurgia já seria no dia seguinte e não havia possibilidade de adiá-la, a intervenção buscou diminuir a ansiedade e, para tanto, ele foi convidado a ir à UTI para ver como era. Ele viu um ambiente grande, iluminado e cheio de gente. As crianças estavam acompanhadas de suas mães. Então, concordou em fazer a cirurgia e, quando acordou no pós-operatório, a equipe garantiu que o ambiente era diferente daquele que ele havia imaginado. A mãe e a enfermeira estavam com ele, a televisão estava ligada em um filme que ele gostava, alguns objetos pessoais estavam com ele, havia muita luz e, da posição em que estava na cama, era possível ver a porta de entrada e o balcão de prescrição, sempre com a presença de membros da equipe de saúde. Nos dias seguintes, ele mesmo abordou esse assunto com a psicanalista, dizendo que estava gostando da UTI, mas achava que seu irmão tinha sido internado em outro lugar. Contou que seu irmão tinha a mesma doença, operou aos 8 anos de idade, foi para a UTI e morreu. 5 O discurso que interessa é aquele do sujeito do inconsciente, que de fato determina o comportamento. Como visto no exemplo, o engano e os atos falhos são muito mais relevantes do que o discurso bem educado mediado pelo filtro do ego. Assim, temos que: O discurso do sujeito do inconsciente é o conteúdo expressado como manifestação do inconsciente, irracional, desprovido de sentido. Discurso do ego: material consciente já organizado, censurado, adequado, coerente, que pode ser explicado, comprovado, entendido e que faz sentido. Freud defendia a importância do reconhecimento da existência do inconsciente por meio de reconhecimento científico, como objetivo dos estudos da Psicanálise. Nesse sentido, Freud discorreu sobre dados que comprovam sua existência. Ele aponta que manifestações do consciente expressam uma quantidade significativa de lacunas, independentemente de as pessoas serem saudáveis ounão. Freud também complementou, afirmando que, por meio de sua experiência clínica, percebeu que os atos conscientes ficam imperceptíveis quando há insistência de que os atos mentais devem ser experimentados apenas pela consciência. Por outro lado, mesmo reivindicando o reconhecimento científico da teoria psicanalítica, Freud também admitia a impossibilidade de que todos os fenômenos ocorridos na mente e nas emoções humanas pudessem ser conhecidos pela consciência. Freud estruturou o aparelho psíquico como constituído de instâncias que ele chamou de topos. A partir da obra A interpretação dos sonhos, a primeira estrutura freudiana era composta de inconsciente, pré-consciente e consciente. Para ele, o que mais importa é o lugar relativo que cada instância tem em relação às demais. Mais adiante no desenvolvimento de sua teoria, Freud propôs a substituição da estrutura, renomeando-a como id, ego e superego, como estrutura psíquica. Os “processos mentais são inconscientes em si mesmos, e assemelham a percepção deles por meio da consciência à percepção do mundo externo por meio dos órgãos sensoriais” (Garcia-Roza, 2005, p. 46). A Psicanálise alerta os sujeitos para não estabelecer correspondência entre impressões vindas da consciência e processos mentais inconscientes, que de fato são o objeto de análise psicanalítica. 6 TEMA 2 – O SIGNIFICANTE EM PSICANÁLISE Quando falamos em significante na Psicanálise, estamos nos referindo ao campo de estudos da Semiótica, que estuda os Signos e sua interface com os estudos da Psicanálise. De maneira breve, podemos dizer que um signo diz respeito a um objeto ou fenômeno que representa outro, como um sinal, composto por significante e significado. O significante é o elemento perceptível ou material do signo, enquanto o significado é o conceito, a parte abstrata do signo. Como exemplo, pense em uma placa de trânsito de proibido estacionar (E): o significante é a placa em si, o símbolo da E cortado; o significado é conhecido pelas pessoas que dominam as regras de trânsito e compreendem o conceito de que naquele local não se pode estacionar. Assim, o significante remete a um determinado significado. A discussão sobre o significante na Psicanálise diz respeito à compreensão do conjunto de sinais e signos tangíveis e perceptíveis que representam as manifestações do inconsciente, que precisam ser interpretadas no processo clínico em Psicanálise. Essa discussão ganhou corpo com a obra de Lacan. Na Psicanálise, o significante lacaniano aparece nas discussões teóricas como um conceito citado por Lacan. Foi Michel Arrivé quem relacionou o significante lacaniano com o signo de Saussure (um dos maiores linguistas da Semiótica), buscando estudar na área da Linguística a teoria do significante lacaniano. Arrivé (1999) destaca que, considerando a teoria lacaniana, não podemos deixar de estabelecer uma conexão entre Linguística e Psicanálise, entre linguagem e inconsciente. Entre a área da Linguística e a Psicanálise, há duas principais possibilidades de vinculação: a primeira é com a estrutura, e a segunda é com o sujeito. Ao atuar em um campo de estudos na interface entre duas áreas do conhecimento, não se pode supor uma mera articulação, pois articular supõe unir partes para construir um elemento. É por isso que Flores (1999) afirma que entre as duas áreas há uma implicação, ou seja, uma afinidade entre as proposições. Desse modo, trata-se de um desafio de interdisciplinaridade, que precisa ser encarado sob dois princípios: 1) o cuidado para que os conceitos da Linguística e da Psicanálise não sejam justapostos sem a devida interpretação 7 do arcabouço teórico exigido por cada área; 2) deve-se assumir um ponto de partida para as análises conjuntas — ou Linguística, ou Psicanálise — para que seja possível argumentar sem misturar os pressupostos, por mais atraente que possa parecer a simples mistura de conceitos. Aqui, portanto, destacamos a Psicanálise como ponto de análise e utilizamos pressupostos de outros campos, como a Linguística e a Semiótica, para compreender os atributos do significante na Psicanálise. Cabe ressaltar que tanto para Saussure quanto para Lacan, há a visão de que na produção do discurso há algo que escapa ao consciente do sujeito, questões que vão além da expressão objetiva, uma vez que, ao falar, sempre dizemos mais do que pretendemos, inclusive por meio da linguagem corporal. Nesse contexto de vinculação entre Psicanálise e Linguística, o sentido para a Psicanálise está justamente no lugar em que o sentido parece não estar. A linguagem não se revela com transparência, a comunicação nem sempre é clara, é frequentemente um espaço de ocultamento. Ao interagir por meio da fala, nunca se adota uma dimensão única, sempre há outros aspectos e sentidos ocultos naquilo que se diz. A investigação psicanalítica introduzirá ao processo científico uma compreensão de sentido que não existe na Linguística, seria a noção do sentido a ser refletido no sem-sentido. No campo da Psicanálise, o discurso consciente do sujeito está cheio de arestas do discurso consciente, assim sempre há um discurso oculto que se inscreve no inconsciente e que precisa de pressupostos para ser interpretado (Arrivé, 1999). Lacan (1999, p. 52) explica que as leis que compõem o inconsciente, designadas por ele como leis do significante, coincidem com as leis do discurso. A estrutura do inconsciente, pontua Lacan, diz respeito àquilo que “a análise Linguística permite situar como sendo os meios essenciais de formação do sentido, na medida em que este é gerado pelas combinações do significante”. Portanto, ele estabelece uma relação clara entre inconsciente e linguagem, entendendo a linguagem como constituidora do inconsciente. O significante será sempre “uma expressão involuntária de um ser falante, podendo ser um lapso, um relato do sonho, uma impressão provocada por um signo, ou mesmo um gesto, um som, ou até um silêncio” (Nasio, 1993, p. 17). O que é recalcado pelo sujeito pertence à representação da palavra, sendo assim da ordem do significante (Lacan, 1999). 8 Saiba mais Para explicar o que pertence à ordem do significante, Lacan (1988) exemplifica com a figura do passo na areia: Os passos na areia da praia são sinais que o objeto deixa para trás. Esses sinais independem do sujeito para existir, já que permanecem mesmo sem a presença de alguém para observar. Desse modo, o significante se estende a múltiplos elementos do domínio do sinal. Enquanto o significante se refere a um sinal que “não remete a um objeto, mesmo sob a forma de rastro, embora o rastro anuncie, no entanto, seu caráter essencial. Ele é também um sinal de uma ausência. Mas, na medida em que ele faz parte da linguagem, o significante é um sinal que remete a um outro sinal, que é como tal estruturado para significar a ausência de um outro sinal” (Lacan, 1988, p. 192). Os conteúdos que a rede de significantes revela levam à possibilidade de criação de sentidos que ocorre na direção antagônica ao discurso linear, contrário ao discurso programado. Dessa forma, a metáfora, por fugir do esperado, demonstra algo criativo e que é matéria para análise e reflexão. TEMA 3 – ASSOCIAÇÃO LIVRE E ATENÇÃO FLUTUANTE Iniciamos com definições mais objetivas elaboradas com base no Dicionário de Psicanálise (Roudinesco; Plon, 1998), destacando que a atenção flutuante é a condição para que a livre associação ocorra, e esta última é a técnica fundamental do método psicanalítico. Historicamente, a associação livre surgiu como conceito no final do século XIX, quando Freud se desligou progressivamente da hipnose e da catarse, criando assim o método psicanalítico baseado na associação livre, que tem como fundamento a fala e a linguagem. O termo associação livre, atribuído a Breuer, que trabalhava com Freud,foi empregado pela primeira vez em 1896. Uma definição importante é que “qualquer implantação da Psicanálise passa pelo reconhecimento consciente da existência do inconsciente, da mesma forma que a associação livre, como técnica de tratamento, passa pelo princípio político da liberdade de associação” (Roudinesco; Plon, 1998, p. 344). Já a atenção flutuante, expressão criada por Freud em 1912, designa a “regra técnica segundo a qual o psicanalista deve escutar seu paciente sem 9 privilegiar nenhum elemento do discurso deste e deixando que sua própria atividade inconsciente entre em ação” (Roudinesco; Plon, 1998, p. 39). Assim, tanto a atenção flutuante como a associação livre são técnicas facilitadoras evocadas pelo analista para que os elementos latentes do inconsciente possam circular com liberdade no discurso dentro do processo terapêutico. Em sua autobiografia, Freud refletiu sobre a evolução de seu método, insistindo no respeito àquilo que chamou de regra fundamental da Psicanálise, que é chegar à associação livre (fluxo discursivo aberto com o paciente), meio para fazer surgirem as resistências (indicações de questões latentes no inconsciente) e possibilitar a exploração como canal a ser interpretado no processo psicanalítico (Freud, 1977). Nas pesquisas psicanalíticas, sejam clínicas ou teóricas, todas compartilham do método interpretativo e da ruptura de campo. A Psicanálise é um método interpretativo em ação, e não apenas uma teoria; mesmo as pesquisas teóricas servem para embasar a prática clínica. A Psicanálise é uma práxis, um conhecimento empírico que contém um saber sobre o qual é possível teorizar. Ao estabelecer o campo de estudos da Psicanálise, Freud desenvolveu, acima de tudo, um método de cura pela palavra para tratar as neuroses dos pacientes. Esse método vai além da racionalidade habitual e permite o surgimento do sujeito durante a interação analítica. “Freud estava introduzindo um método novo na arte de curar, um novo caminho que a arte havia explorado melhor, fato que certamente não lhe escapou” (Herrmann, 2004, p. 52). Ao desenvolver o método da associação livre, Freud rompe com o determinismo lógico da razão científica do início do século XX, acessando a subjetividade e refletindo sobre o sujeito para esclarecer suas questões psíquicas. A prática clínica proposta por Freud se caracteriza metodologicamente por uma proposta criativa resultante do processo de associação livre, que é específica e adaptada a cada sujeito, em que os sentidos latentes expostos pela análise constituem percursos discursivos singulares na fala do sujeito no processo terapêutico. Assim, observa-se que a Psicanálise, como método, aponta para uma implicação objetiva do sujeito, sendo uma característica da pesquisa em Psicanálise que difere da racionalidade científica tradicional, que busca neutralidade e imparcialidade no processo científico. 10 Vale ressaltar que a associação livre é um método freudiano para o tratamento terapêutico de neuroses, sendo um processo que revela o inconsciente e fundamenta uma compreensão teórica dos elementos psíquicos que explicam as patologias, como psicose, neurose e perversão. No campo da psicopatologia, a Psicanálise contribui para a classificação e descrição de doenças mentais, especialmente ao detalhar o conceito de demência precoce. Nesse sentido, o método psicanalítico fundamentou-se na observação e descrição das expressões clínicas do sujeito, buscando registrar sua evolução e técnicas de tratamento. Na obra A interpretação dos sonhos, de 1900, Freud estabeleceu como base a formulação inicial do aparelho psíquico em uma perspectiva dinâmica e empírica, além dos elementos constituintes da neurose. A tarefa de interpretar as manifestações inconscientes complementa a tarefa de falar no discurso terapêutico, consolidada pela atenção flutuante e pela associação livre. Assim, Barbosa define a associação livre e a atenção flutuante: A primeira corresponde ao ato de falar sem “censura” tudo o que lhe vier à mente, mesmo que pareça “bobagem” para quem fala; a segunda significa dizer que o analista não deve dar importância a qualquer elemento do discurso; deve permitir que sua escuta funcione o mais livremente possível, através da própria atividade do inconsciente, para, assim, suspender as motivações que se dirigem a dado elemento. (Barbosa, 2018, p. 55) Quando o paciente faz associações livres dos elementos discursivos, ele evoca seu contexto inconsciente, produzindo algo novo. Não está apenas relatando algo que vivenciou, mas evocando o que Freud chamou de recordações encobridoras. Essas recordações não são uma reprodução do passado, pois são atravessadas pela linguagem do sujeito que as descreve, trazendo elementos conscientes e expressões inconscientes que são trabalhados na clínica psicanalítica. É por meio dessas recordações encobridoras que uma linguagem é construída para se aproximar do inconsciente. Um objeto de linguagem é construído entre o analisante e o analista: o analisante fazendo sua associação livre e o analista registrando os casos e as abordagens terapêuticas. Lacan (2008), ao discutir a pesquisa psicanalítica e a técnica da atenção flutuante de Freud, ressalta que o analista ouve o que o analisante diz com atenção uniforme, sem pré-selecionar ou definir critérios para os conteúdos que 11 serão submetidos à análise. Por meio da escuta analítica, são encontrados no discurso os sinais do sujeito desejante, sendo que o próprio sujeito é resultado dos significantes inconscientes. Portanto, na Psicanálise não existe um objeto a ser minuciosamente estudado e examinado antes da intervenção na prática clínica. É por meio do processo clínico que o objeto da Psicanálise encontra seu lugar, onde o objeto não é simplesmente buscado, mas sim redescoberto. Pode-se considerar, conforme indicado por Lacan, que na regra da atenção flutuante está a reafirmação de que o percurso para a produção de pesquisas em Psicanálise não pode ser predeterminado. A produção científica em Psicanálise deve ser forjada de forma comprometida com a singularidade de cada circunstância. Caso contrário, encontraremos apenas o que já foi abordado por outras pesquisas, sem contemplar a natureza personalizada que os casos clínicos em Psicanálise demandam. Coelho e Santos (2012, p. 94), ao abordarem a pesquisa em Psicanálise em contextos não estritamente analíticos, fazem uso da técnica que Freud chamou de contrapartida do analista à regra da associação livre: a atenção flutuante. Toda pesquisa em Psicanálise implica que o pesquisador se submeta aos requisitos da prática clínica. É por isso que o método de pesquisa psicanalítica se baseia na fala e na escuta, por meio da associação livre e da atenção flutuante. Mesmo em pesquisas teóricas, é importante ter em mente a recomendação de que o pesquisador psicanalítico mantenha sua atenção uniformemente suspensa, aberto para o que possa surgir no processo de pesquisa. O pesquisador em Psicanálise não deve ter uma visão dogmática em que direcione sua atenção apenas para ideias que confirmem o que está previsto em suas hipóteses. Dessa forma, ao não rigidificar seus pressupostos teórico- práticos, o pesquisador adota uma postura compatível com a atenção flutuante, chegando assim a uma fundamentação conceitual que não seja totalizante. TEMA 4 – ANÁLISE DO PROCESSO PSICANALÍTICO E A TRANSFERÊNCIA Por meio da metodologia de estudos de caso, o psicanalista pode investigar e produzir conhecimentos sobre os fenômenos dos processos psicanalíticos, como os tipos de mecanismos de defesa mais utilizados e o 12 padrão de relacionamento mais comum entre pacientes neuróticos, limítrofes e com psicose. Neste tópico, abordaremos a transferência. O conceito de transferência em Psicanálise passou por várias mudançasdesde que Freud o formulou originalmente. A transferência envolve as projeções de sentimentos que o analisando faz ao longo do processo de análise. A definição de transferência foi desenvolvida nas obras de Freud: Dinâmica da transferência (1912), Recordar, repetir e elaborar (1914) e Conferências introdutórias sobre Psicanálise (1917). É um fenômeno que ocorre dentro do setting analítico, onde, no processo de análise, os sentimentos em relação às figuras parentais são ressignificados na relação paciente-analista. A transferência é um aspecto extremamente importante da técnica psicanalítica (Morettini, 2023). Saiba mais O setting analítico é um conjunto de instrumentos e estratégias que compõem o atendimento terapêutico oferecido ao paciente. Está relacionado ao par analítico, ou seja, à relação discursiva e afetiva entre analista e paciente. Pelo mecanismo transferencial, o analista identifica sentimentos atribuídos aos agentes parentais. As relações primordiais dos seres humanos são a materna e a paterna, e também outras pessoas significativas na infância do sujeito. A transferência é um movimento de conteúdos do inconsciente em direção ao pré-consciente, que transcorre por meio de uma projeção que o analisando faz em relação ao analista. Esse trânsito de sentimentos é imprescindível para que os padrões repetidos do paciente sejam identificados e reelaborados na análise. Os sentimentos passados evocados pelo paciente e a projeção dos afetos para a figura do analista podem ser reconfigurados em uma transferência que ocorra de modo guiado pelo processo terapêutico. Quando a transferência acontece de modo benéfico, com uma condução adequada pelo manejo do analista, o paciente poderá seguir em seu amadurecimento com autonomia e independência. No sentido contrário à transferência, há a contratransferência, que é uma direção de afetos do analista para o analisando. A contratransferência 13 merece um sinal de alerta, já que, dependendo do nível de envolvimento emocional do analista, pode ser prejudicial para o paciente. Um psicanalista inexperiente pode ser surpreendido por um conteúdo transferencial muito intenso e reagir a isso de modo contratransferencial, achando que é algo pessoal do paciente para ele. Por exemplo, o paciente tenta seduzir o psicanalista ou discorda de suas intervenções, desqualifica o psicanalista e questiona sua competência, com um perfil desafiador opositor. Isso pode irritar o analista inexperiente. Para não ser surpreendido pelos fenômenos do processo psicanalítico, o analista pode fazer pesquisas sobre quais os tipos de relação transferencial mais frequentes entre pacientes neuróticos, limítrofes e psicóticos, de modo a se instrumentalizar tecnicamente para o manejo. A supervisão dos casos em atendimento contribui para o refinamento da habilidade clínica. A pesquisa em Psicanálise não está restrita ao âmbito clínico, mas se realiza tendo a dimensão clínica em seu horizonte. Da mesma forma que não há Psicanálise sem psicanalista, pela sua própria estrutura, que se baseia na linguagem, é preciso pontuar que o psicanalista está sujeito à criação de seu inconsciente. Os afetos transferenciais convertidos em transferência de trabalho constituem uma perspectiva de chegar a uma concepção livre de preconceitos. Como sustenta Lacan (2003), a Psicanálise apenas pode ser comunicada de um indivíduo para outro via transferência de trabalho. Assim, pontua-se que é a transferência de trabalho que abre caminho para a pesquisa teórica que seja propriamente psicanalítica. Hashimoto e Tavares (2013) destacam, dentre os caminhos relatados em suas vivências de trabalho e pesquisa em Psicanálise, a importância de compreender a implicação do pesquisador psicanalítico diante de um certo objeto de estudo, assinalando a transferência que ocorre no método psicanalítico. Os autores apontam que na Psicanálise o pesquisador realiza […] uma relação transferencial com o próprio conteúdo investigado na medida em que essas leituras o tocam de determinada forma para além da racionalidade empregada na própria leitura de um texto em particular. No momento em que lemos, estudamos e nos esforçamos para compreender qualquer que seja articulação teórica, não só a nossa racionalidade está ativa como também os processos inconscientes. (Hashimoto; Tavares, 2013, p. 172) 14 TEMA 5 – CASOS CLÍNICOS A última categoria importante para a pesquisa em Psicanálise, que será abordada de forma mais aprofundada, são os casos clínicos. No campo da metodologia de pesquisa, um estudo de caso é um tipo de pesquisa que enfatiza a singularidade de um determinado fenômeno, articulando uma teoria para analisar esse contexto específico. Trata-se de um método que permite obter informações detalhadas, testar hipóteses e desenvolver teorias (Gil, 2002). O estudo de caso, como estratégia na pesquisa clínica em Psicanálise, deve ser compreendido como resultado do relato de experiência clínica. Para conduzir um estudo de caso, Stake (1995) apresenta três tipos de delineamento que devem ser considerados na investigação científica: 1) Intrínseco: concentra- se na compreensão do caso e dos dados e princípios presentes nele que são relevantes para a pesquisa; 2) Instrumental: utiliza o caso para gerar reflexões sobre um tema, a fim de esclarecer um tópico teórico ou desenvolver conhecimento sobre questões que não se limitam apenas àquele caso, de modo que o estudo de caso possa trazer entendimento sobre outros fenômenos; 3) Coletivo: ocorre quando um caso instrumental abrange vários casos, por meio de uma análise comparativa, proporcionando um conhecimento mais abrangente sobre o fenômeno teórico-prático em investigação. Com base nesses três tipos, as pesquisas psicanalíticas que se debruçam sobre estudos de caso são classificadas como Intrínsecas e Instrumentais. O objetivo do estudo de caso em Psicanálise não é produzir generalizações, mas sim compreender a relação de um sujeito com seus sintomas. Assim, o estudo de caso ocupa uma posição fundamental na Psicanálise, registrando e refletindo sobre os impasses clínicos, como evidenciado por Freud em seus relatos de caso nas obras completas. A grande contribuição dos pesquisadores psicanalíticos na comunidade científica está na publicação de pesquisas baseadas em suas experiências clínicas. Esses pesquisadores geralmente realizam abordagens qualitativas, coletando fragmentos de seus atendimentos para formalizar estudos de caso, que são analisados com base nos pressupostos psicanalíticos. O estudo de caso em Psicanálise é um relato de experiência sobre o setting analítico em um 15 processo de tratamento, utilizando a transferência e a associação livre para acessar o inconsciente e vincular a teoria aos achados clínicos. A prática clínica é um contexto privilegiado para a produção científica, pois aborda “a prática como um problema de pesquisa, com o objetivo de melhorá-la com base em seus próprios resultados” (Avellar, 2009, p. 16). Além dessa relevância, as pesquisas de casos clínicos em Psicanálise contribuem para que a prática seja transmitida a outros processos psicanalíticos. NA PRÁTICA A fim de relacionar os conceitos que compõem as bases da Produção Científica em Psicanálise, o mapa conceitual a seguir propõe uma estrutura para relacionar esses pressupostos: Figura 1 – Mapa conceitual de pressupostos para pesquisa em Psicanálise FINALIZANDO Ao compreender o inconsciente como estruturado pela linguagem, entendemos que o sujeito que é afetado pelo significante se torna um ser da 16 linguagem. O foco do psicanalista ao realizar pesquisas teóricas é guiado pelo conhecimento do inconsciente. O inconsciente encontra na linguagem, em um contexto clínico de vinculação, um lugar para sua expressão através da relação significado-significante,sob a orientação do psicanalista. Para Freud, a norma fundamental da Psicanálise é a associação livre, que ele chamou de regra fundamental, que determina a criação do analisando por meio da linguagem. Essa regra orienta o trabalho na clínica psicanalítica, e a associação livre é a forma adequada de conduzi-la. O analista precisa encontrar sua própria posição na transferência, diante da associação livre baseada nas falas do paciente. A singularidade da escuta marca a ação do analista através da atenção flutuante. A atenção flutuante requer treinamento sólido e um estado de alerta peculiar. No que diz respeito à transferência na pesquisa psicanalítica, existem diferentes finalidades na investigação clínica e teórica. Na prática clínica, a transferência é dissolvida por meio da interpretação. Já na pesquisa psicanalítica teórica, ela precisa ser instrumentalizada para tornar o texto uma argumentação metapsicológica. A instrumentalização diz respeito à sistematização dos elementos que o pesquisador transfere de forma inconsciente juntamente com as teorias em estudo. O estudo de casos clínicos em Psicanálise permite comunicar a singularidade das vivências clínicas por meio das peculiaridades de uma análise, contribuindo para a construção teórica e técnica da Psicanálise. O estudo de caso é uma abordagem ideal para a pesquisa clínica, que traz a noção de que a prática sempre desafia a teoria e convoca a uma constante reavaliação. 17 REFERÊNCIAS ARRIVÉ, M. Linguagem e Psicanálise, linguística e inconsciente: Freud, Saussure, Pichon e Lacan. Tradução Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Zahar, 1999. BARBOSA, V. C. A importância do diagnóstico clínico no processo psicoterapêutico: um estudo de caso na formação em clínica escola. 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