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PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM PSICANÁLISE AULA 3 Profª Gabriela Eyng Possolli CONVERSA INICIAL Na pesquisa clínica, o sujeito em análise está tão envolvido quanto o próprio pesquisador, porém pode ser surpreendente notar que o mesmo acontece com a pesquisa teórica, quando se considera a implicação do pesquisador diante do objeto de estudo. Iribarry (2012) pontua que, ao se estudar e comparar as aplicações da pesquisa clínica e teórica em psicanálise, observa-se que a transferência está presente em ambos os contextos. Reconhecemos o mecanismo da transferência na prática clínica, mas em uma pesquisa teórica como isso ocorre? Em um método de pesquisa com objeto abstrato como uma revisão, que tipo de transferência pode haver com base no vínculo do pesquisador com seu campo de estudo? Mesmo em uma pesquisa teórica há transferência, pois ao debruçar-se sobre um contexto teórico-explicativo sobre o qual se quer avançar, o pesquisador assume uma relação transferencial com o conteúdo em investigação conforme essas leituras e aprofundamentos levam para além da racionalidade e se estabelece uma relação intersubjetiva entre o sujeito e o objetivo em construção. Ao ler, estudar e esforçar-se para compreender a articulação teórica, não é apenas a nossa cognição que entra em ação, mas justamente com a razão, os processos inconscientes são disparados pela aproximação com o objeto e campo em investigação que é a própria teoria (Iribarry, 2012). O estranhamento experimentado pelo pesquisador psicanalítico para além de um não-senso compreensivo implica um provável remanejamento de sua posição como sujeito sob o olhar de sua vivência clínica (da perspectiva de analista e de paciente). Isso distingue decididamente uma pesquisa teórica sobre psicanálise e uma pesquisa em psicanálise como referimos em etapa anterior. Por meio dessa articulação marca-se a posição de que a pesquisa teórica sobre psicanálise pode ser realizada por um pesquisador que não seja analista. Porém, uma pesquisa em psicanálise implica um desenvolvimento teórico que é impregnado pelas vivências do pesquisador como analista ou paciente no processo psicanalítico. A instrumentalização na pesquisa teórica em psicanálise se refere a uma sistematização sobre o que o pesquisador transfere inconscientemente a respeito de teorias que estuda, que o deslocam de contexto e que, ao interpretá-las, deixa algo de si e mobiliza intuitivamente seu aparelho psíquico. O processo de produção científica teórica em psicanálise não se dá apenas por meio de leituras com rigor e aprofundamento para preencher lacunas de entendimento sobre o pensamento freudiano. Ele mobiliza no pesquisador a intuição e dispositivos cognitivo-afetivos ao se contatar com o caráter peculiar da própria psicanálise, que versa sobre o próprio sujeito, sua constituição e processos intersubjetivos, que se transferem aos temas em estudo. Ao acessar e refletir a respeito da obra psicanalítica, e ao agir e argumentar sobre ela como investigador do arcabouço teórico, o pesquisador implica sua psiquê no processo, à medida que os assuntos em estudo dizem respeito ao funcionamento humano e a ele mesmo como sujeito. Com base nesse entendimento sobre a relevância e a possibilidade de pesquisa em psicanálise com bases teóricas, abordaremos aqui a revisão sistemática de literatura. Trata-se do tipo mais rigoroso metodologicamente e que entrega resultados relevantes para o avanço da ciência psicanalítica. Saiba mais Revisões sistemáticas são estudos observacionais retrospectivos ou pesquisas experimentais de registro e análise crítica da literatura. Elas testam hipóteses, objetivando identificar, organizar e apreciar criticamente a metodologia da pesquisa e sistematizar resultados de uma coletânea de estudos primários. Assim como na revisão integrativa, a sistemática procura responder a uma questão de pesquisa que esteja claramente estabelecida. Aplica métodos sistemáticos e explícitos para buscar e tornar explícitos os resultados de estudos proeminentes em psicanálise por meio da reunião e argumentação a respeito de dados de estudos primários. A revisão sistemática é aceita pela comunidade científica como evidência de maior grandeza em um campo científico, que apoia não apenas pesquisas práticas, mas também a tomada de decisão clínica, de gestão e de projetos posteriores. TEMA 1 – BASES CONCEITUAIS DA REVISÃO SISTEMÁTICA A revisão sistemática da literatura tem por finalidade agrupar estudos convergentes, avaliando-os criticamente em sua estrutura, metodologia e resultados, realizando análise estatística (metanálise). Ao sintetizar pesquisas primárias de boa qualidade, a revisão sistemática é reconhecida como o melhor nível de evidência para guiar a tomada de decisão no contexto terapêutico. A fim de impedir viés de análise na revisão sistemática, os procedimentos de seleção e apreciação das informações são definidos antes de a construção da revisão ser iniciada, por meio de um processo bem estruturado. Quanto à origem das revisões sistemáticas, a primeira publicada foi elaborada em 1955 sobre um cenário clínico no Journal of American Medical Association (Beecher, 1955). Existem registros anteriores de publicações a respeito de métodos estatísticos (embrião da metanálise) para compilar resultados de estudos independentes e sintetizar conjuntos de pesquisas em temas próximos. O termo metanálise foi cunhado pela primeira vez em meados da década de 1970, em um artigo na revista Educational Research (Glass, 1976). A era das revisões sistemáticas junto com os recursos da metanálises, na área da Saúde, consolidou-se com a publicação do livro Effective care during pregnancy and childbirth (Chalmers; Enkin; Keirse, 1989). Na década de 1990 foi criada a fundação da Cochrane Collaboration, uma instituição internacional com a finalidade de capacitar, registrar e disseminar revisões sistemáticas na área da Saúde (incluindo a área de Psicologia). Na Europa, existem sete centros Cochrane (Alemanha, Itália, França, Espanha, Inglaterra, Holanda e Dinamarca), e outros seis centros em outros lugares do mundo: China, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Canadá e Brasil (Cochrane, S.d.). A Cochrane registra os protocolos das pesquisas de revisão sistemática que são acessíveis para que os pesquisadores cadastrados possam verificar se existe alguma revisão na área que pretendem investigar. Além disso, divulgam-se relatórios e resultados de revisões para propagar as evidências científicas na área da saúde. Um grupo de cientistas em um congresso na Alemanha em 1995 conceituou revisão sistemática como “aplicação de estratégias científicas de forma a limitar o viés e avaliar com espírito científico as pesquisas, sintetizando os estudos relevantes em tópicos específicos seguindo metodologia adequada” (Cochrane, S.d.). Saiba mais O acesso à Biblioteca Cochrane é feita pela BVS (Biblioteca Virtual da Saúde) que é mantida pela OPAS (Organização Pan-americana da Saúde), acessível pelo link a seguir, disponível para profissionais de saúde, resultado de acordo cooperativo entre a BIREME/OPAS e o Centro Cochrane do Brasil: PORTAL REGIONAL DA BVS. Disponível em: . Acesso em: 24 jun. 2023. TEMA 2 – PRODUÇÃO DE REVISÃO SISTEMÁTICA E PASSOS PARA ELABORAÇÃO As revisões sistemáticas são classificadas como investigações científicas, qualificadas como pesquisas observacionais retrospectivas. Outros autores as colocam entre os estudos experimentais e observacionais (Dixon-Woods, 2005). Para termos uma visão geral desde o princípio, cabe ressaltar que a revisão sistemática começa com a elaboração da questão norteadora, ou seja, o objetivo de estudo dentro de uma proposta de revisão. Após isso, é realizadoum amplo levantamento de literatura para se identificar a maior quantidade de estudos possível dentro do escopo da revisão. Uma vez selecionados os estudos a serem incluídos, são aplicados critérios de avaliação dos objetivos de pesquisa, qualidade metodológica e detalhes de organização. Quando as convergências entre os estudos estiverem sistematizadas, os resultados podem ser evidenciados em uma metanálise (Mulrow, 1994). Uma revisão sistemática bem elaborada baseia-se na formulação adequada da questão norteadora. Uma pergunta bem elaborada é o primeiro passo para uma boa revisão, já que pontua as estratégias que serão utilizadas para selecionar os estudos a serem incluídos e quais dados serão coletados para os estudos. Para descobrir a questão norteadora da revisão, é preciso identificar cinco elementos: o problema (P), a intervenção (I), o escopo a ser comparado (C), o desfecho (D) e, quando se aplicar, o tempo (T) transcorrido para aferição do desfecho. Nas revisões sistemáticas os participantes da pesquisa são os estudos primários (chamadas unidades de análise) por meio de método sistemático e preconcebido. Tradicionalmente, a revisão sistemática é um estudo retrospectivo, debruçando-se sobre pesquisas já publicadas com base no delineamento inicial do problema que dá causa à revisão. A revisão sistemática como um tipo de estratégia de pesquisa com método de síntese de evidências é útil em variados campos científicos, trazendo resultados para a evolução do conhecimento. Dentre os aspectos mais relevantes de uma revisão sistemática, é possível elencar os seguintes: 1. A pesquisa desenvolve um protocolo a priori registrado em plataformas como Prospero, Cochrane, entre outras conforme a área de saber; 2. O pesquisador procede uma busca ampla por obras vinculadas ao tema e usa estratégias diversificadas para busca em bancos de dados nacionais e internacionais; 3. Avaliam-se qualitativamente os estudos incluídos na revisão sistemática, registrando os metadados de casa pesquisa. 4. Os autores buscam, selecionam e extraem dados em fontes confiáveis, categorizam os achados científicos e realizam a argumentação dos resultados. TEMA 3 – ASPECTOS IMPORTANTE PARA CRIAR UM ARTIGO DE REVISÃO SISTEMÁTICA Ao elaborar um artigo de revisão sistemática, a divulgação científica publicada oferece aos leitores informações atualizadas e esclarecedoras sobre um tema de interesse em um campo de saber, sistematizando a evolução da ciência daquele campo. Para que a pesquisa tenha qualidade e alcance os objetivos, deve ponderar os seguintes aspectos: a. Partir de uma questão norteadora de pesquisa adequada; b. Estruturar a revisão de modo orientado aos objetivos; c. Avaliar a qualidade e nível de evidência das obras selecionada; d. Organizar recomendações segundo a evidência científica encontrada; e. Os procedimentos da revisão sistemática devem estar detalhados metodologicamente de forma que se possa reproduzir em outra pesquisa; f. Os resultados obtidos orientam uma comunidade científica em aspectos de organização e prática para outras pesquisas e para mudança na realidade. Alguns passos-chave precisam ser seguidos pelos pesquisadores, sabendo-se que a estruturação de uma revisão sistemática envolverá as seguintes ações (Cordeiro et al., 2007): • Formular a questão norteadora para o estudo de revisão e seus objetivos; • Planejar os critérios de seleção das pesquisas incluídas; • Estruturar a metodologia da revisão sistemática; • Definir os estudos que estarão na revisão; • Aplicar os critérios de seleção; • Registrar os dados dos estudos incluídos em uma planilha; • Avaliar os estudos com relação aos encaminhamentos metodológicos, estrutura e resultados frente aos objetivos da revisão; • Definir categorias de análise com base nos objetivos e nos estudos incluídos; • Interpretar e analisar os resultados e escrever as conclusões; • Realizar a divulgação científica e depois de um tempo atualizar a revisão. TEMA 4 – ETAPAS DE ORGANIZAÇÃO, QUESTÃO NORTEADORA E VARIÁVEIS A seguir, um detalhamento de sete etapas a serem consideradas na elaboração de um artigo de revisão sistemática, segundo Assis e Arruda (S.d.): 4.1 Organizar os recursos informativos A primeira fase é elaborar planilhas e documentos para estruturar o relatório de pesquisa, criar uma folha de cálculos (Excel, Numbers etc.), conforme descrito no quadro a seguir: Quadro 1 – Como deve ser montada a estrutura do artigo de revisão sistemática Atividades Estrutura Planilha para registrar a estrutura do artigo de revisão sistemática 1- Título, autor, ano 2- Resumo, palavras-chave 3- Problema, objetivos 4- Método 5- Categorias presente no estudo 6- Resultados e Discussão 7- Conclusões Base para cálculos para o artigo Aba 1 – Tabela geral Aba 2 – Pesquisas incluídas Aba 3 – Tabela de resultados Documento para gerir citações dos estudos para a revisão sistemática Organização das citações para o artigo de revisão sistemática nas normas ABNT ou outra conforme as regras da revista para qual será submetida. Fonte: Possolli, 2023. Pontua-se como importante criar uma pasta para salvar os estudos incluídos na revisão, ação que dará suporte para o desenvolvimento do artigo de revisão sistemática, auxiliando a gerenciar as citações relevantes que poderão ser usadas na argumentação e detalhamento da discussão das informações na revisão. 4.2 Questão norteadora para a revisão sistemática Com base na definição do tema de pesquisa, a lacuna de conhecimento que se pretende investigar deve ser traduzida como um problema de pesquisa. Desse problema sairá o próprio título do artigo, as palavras-chave, os objetivos geral e específicos e os critérios de inclusão. Saiba mais Elaboração do problema de pesquisa É uma das etapas mais cruciais para o sucesso da pesquisa dada a sua importância. Portanto, ao se aproximar de um tema de interesse, o pesquisador deve realizar leituras, entender bem o contexto e, se não tiver experiência prévia, pode também conversar com profissionais com vivência no tema. Assim, terá clareza para problematização do contexto e formulação do problema. A pesquisa de revisão de uma temática parte justamente dessa questão norteadora da pesquisa e não pode iniciar-se adequadamente se esse problema não estiver bem delimitado e aprofundado no entendimento dos pesquisadores. 4.3 Variáveis para elaboração do artigo de revisão sistemática Os pesquisadores da revisão deverão elaborar a tabela de resultados gerais conforme especificado na etapa 1, com as variáveis que serão extraídas dos estudos incluídos. As variáveis podem ser qualitativas ou quantitativas, conforme exemplos no Quadro 1. Na planilha, deve-se criar uma coluna para cada variável e adicionar quantas forem necessárias. A primeira coluna deve ter o ano da publicação, na segunda o sobrenome dos autores do estudo, e assim por diante. O restante das colunas será para as variáveis importantes conforme definido para a revisão. Cada uma das linhas da planilha corresponde aos registros dos estudos que farão parte dos artigos de revisão integrativa. A planilha auxiliará em todo o processo da pesquisa e também para a elaboração do quadro resumo fará parte do artigo de revisão sistemática para apresentar os dados dos estudos incluídos. TEMA 5 – BUSCA NA LITERATURA, SELEÇÃO, ANÁLISE DE ESTUDOS E ESCRITA DO ARTIGO 5.1 Busca na literatura Levando em conta o problema, são elencadas as palavras-chave, com variadas estratégias de busca em bases de dados e formulados os objetivos de pesquisa. A procura por estudo deve ser realizada em variadas bases de dados (como: Google Acadêmico, Periódicos da Capes, BVS, Sciello, PubMed, PePSIC, entre outras). Os bancos de dados dos portais de busca possibilitam pesquisar por palavra-chave, período,idioma, entre outros filtros, facilitando a identificação de obras dentro do escopo desejado. A ferramentas disponível nas bases de dados otimiza o tempo de busca com base nas palavras-chave e resumo das pesquisas localizadas em uma primeira busca, auxiliando para decidir quais são úteis para revisão que se pretende desenvolver. 5.2 Seleção de estudos incluídos A seleção dos artigos ocorre por meio de critérios de inclusão previamente estabelecidos a partir do contexto que emerge do estudo do tema. Critérios como tipos de pesquisa, variáveis dos estudos, temática central, comparações, pressupostos teóricos, resultados etc. 5.3 Análise dos estudos Os resultados e a discussão da revisão são a parte mais importante para que as evidências científicas fiquem estabelecidas e se construirão pela análise dos estudos selecionados sob um olhar qualitativo, que pode ainda ter um levantamento quantitativo de algumas variáveis por meio da metanálise. O quadro resumo final é produzido em função dos resultados obtidos 5.4 Escrita final do artigo de revisão sistemática Tendo por base as etapas anteriores e as orientações recomendadas nos itens, pode-se estruturar a redação da revisão sistemática, a ser realizada progressivamente, à medida que se prossegue no desenvolvimento da argumentação. Enquanto estrutura do texto, um artigo de revisão sistemática deve possuir os seguintes elementos: título, questão norteadora, objetivos, métodos, quadro de resumo dos estudos incluídos, resultados, discussão, considerações finais. NA PRÁTICA A compreensão prática de como fica uma revisão sistemática em psicanálise pode ser esclarecida utilizando-se de um exemplo real de um artigo publicado, conforme sistematizado no Quadro 2: Quadro 2 – Exemplo de revisão sistemática em psicanálise Referência LEITÃO, I. B. A construção do estudo de caso em psicanálise: revisão de literatura. Contextos Clínicos, São Leopoldo, v. 11, n. 3, set./dez.2018. Disponível em: . Acesso em: 24 jun. 2023. Método / Objetivo Revisão sistemática com objetivo de descrever como a literatura científica em psicanálise tem discutido e situado o estudo de caso, seja enquanto lente metodológica ou objeto de estudo. Detalhamento da busca Bases de dados: PePSIC e SciELO. Descritores e operadores booleanos da busca: “estudo de caso” OR “relato clínico” OR “caso clínico” OR “construção do caso”. Categorização As cinco categorias de análise: “O caso clínico como dispositivo para transmissão da experiência”; “O lugar da escrita na psicanálise”; “A construção do relato clínico”; “Construção do caso versus estudo de caso: dispositivos de elaboração”; “A singularidade do caso e o seu caráter ficcional”. Estudos Incluídos (critérios de inclusão e exclusão) 43 artigos que tratam do estudo de caso em psicanálise. Inicialmente foram filtrados 178 artigos. Para filtragem à luz dos objetivos da revisão, estabeleceu-se os seguintes critérios de inclusão: ser um artigo científico que tem como lente teórica e metodológica a psicanálise. Foram excluídos os artigos que não apresentaram algum caso ou relato clínico, ou que não tiveram como objetivo discutir a temática do estudo de caso psicanalítico. Registro dos Estudos incluídos Os estudos analisados foram classificados em dois grandes grupos: 1. Estudos que discutiram os aspectos epistemológicos do estudo de caso, segundo os pressupostos teóricos e metodológicos da psicanálise; 2. Estudos que utilizaram estudo de caso para desenvolver questões relevantes para a clínica. Conclusões Considerando a relevância do estudo de caso para a metodologia de pesquisa psicanalítica, e uma importância nas publicações não apenas em psicanálise, e também no âmbito da psicologia clínica, foram estabelecidos guias e referências para a construção de estudos de caso. Conclui-se que o estudo de caso possibilita transmitir a singularidade de cada experiência clínica, por intermédio dos desdobramentos de uma análise e seu processo com o analista. Contribuindo ainda para a construção teórica e técnica da psicanálise. O estudo de caso como método de pesquisa clínica, destaca uma noção fundamental para a fazer clínico, que é o ato de tomar as palavras, onde a prática desafia a teoria e a convoca constantemente para a sua reformulação. Fonte: Possolli, 2023. FINALIZANDO A evidência científica advinda de uma revisão sistemática pode ser considerada um ensaio metapsicológico. Ao debruçar-se sobre um ensaio metapsicológico, estamos desenvolvendo uma pesquisa de natureza abstrata mesmo que tenha aplicação prática. A condução do método psicanalítico precisa se ater a certas características peculiares na relação entre pesquisador e objeto, entendendo o conceito de transferência como vimos anteriormente. Freud (1996) concebeu um método investigativo sobre o próprio ser humano, no qual, apesar de existirem alguns pressupostos, também destaca que a psicanálise precisa ser reinventada em cada caso em estudo, por isso a necessidade de uma revisão sistemática de pesquisa teórica em que se desejam avanços na própria teoria para esta possa embasar a prática. Nesse sentido, sobre a pesquisa psicanalítica Iribarry (2012, p. 12) destaca que é um tipo de pesquisa “que sempre terá uma apropriação do pesquisador, que ao pesquisar o método freudiano, acaba por descobrir um tipo de investigação propriamente sua, que o singulariza na condução da pesquisa”. Ao nos aprofundarmos em uma pesquisa teórica de revisão sistemática em psicanálise, que tem como produto um ensaio metapsicológico, é fundamental que o pesquisador lance mão da objetividade em suas argumentações, por meio do entendimento aprofundado de elementos conceituais. Mas ainda é preciso que o pesquisador tenha a habilidade de estar sensível às determinações subjetivas que emergem do seu vínculo com o objeto. Isto é, o diálogo que faz consigo mesmo e com o outro em função do contato humano com o seu objeto em estudo. Na psicanálise, todo saber é também projeção, já que supõe, para além de impressões recebidas via órgãos dos sentidos, um esforço de reflexão por meio do qual o sujeito elabora uma narrativa no formato de um saber estruturado. Isso implica deixar algo de seu na produção do novo, uma vez que o sujeito entrega ao real mais do que recebeu (Rouanet, 1989). Assim, não existe produção científica em psicanálise com conteúdo novo sem que haja a mobilização da própria subjetividade na estruturação de sentidos plausíveis. Nessa perspectiva, concebe-se que o atributo subjetivo da produção de uma revisão sistemática, como ensaio metapsicológico, deve ser entendido como condição de avanços teórico-práticos por meio das evidências científicas levantadas. A probabilidade de evolução teórica e a base para a prática em psicanálise, ainda que fundamentadas em um certo escopo temático ou ainda caso clínico, dependem da produção criativa e dedicada dos pesquisadores psicanalíticos. REFERÊNCIAS ASSIS, M. S.; ARRUDA, J. C. Guia completo de artigo de Revisão Sistemática. Artigo Científico, S.d. Disponível em: . Acesso em: 24 jun. 2023. BEECHER, H. K. The powerful placebo. Journal of American Medical Association., n. 159, v. 17. p. 1602-6, dez., 1955. CHALMERS, I.; ENKIN, M.; KEIRSE, M. J. N. C. Effective care in pregnancy and childbirth. Oxford: Oxford University Press, 1989. COCHRANE. Trusted evidence and informed decisions. Cochrane Brasil, USP, S.d. Disponível em: . Acesso em: 24 jun. 2023. CORDEIRO, A. 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MULROW, C. D. Rationale for systematic reviews. BMJ, n. 39, p. 591-599, 1994. ROUANET, S. P. Teoria crítica e psicanálise. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.