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PRODUÇÃO CIENTÍFICA EM PSICANÁLISE AULA 6 Prof.ª Gabriela Eyng Possolli 2 CONVERSA INICIAL O estudo de caso é essencial para a fundamentação e construção da Psicanálise como campo científico, do ponto de vista terapêutico e conceitual. A produção científica psicanalítica não possui rigidez para fornecer parâmetros para a construção ou redação de estudos de caso. Freud detalhou muitos estudos de caso para apresentar a teoria psicanalítica, porém nunca orientou ou trouxe normas para fazê-lo. O fato de não haver um método psicanalítico específico para o estudo de casos clínicos pode até produzir críticas, porém esse nunca foi o objetivo de Freud, nem mesmo de Lacan. Sendo o método de construção do conhecimento na Psicanálise extremamente prático, as obras por eles publicadas são o maior indicativo de como conduzir a análise de casos clínicos. Dessa forma, tendo como base as orientações sobre estudos de caso na área de metodologia da pesquisa e usando exemplos da Psicanálise, objetiva-se detalhar orientações e linhas de condução expostas na literatura científica sobre o estudo de caso, seja como método ou como objeto de estudo. Para iniciar, pontua-se a relevância dos estudos de caso para o avanço das pesquisas na Psicanálise, com base em Lustoza, Oliveira e Mello (2019), que analisaram a produção científica em Psicanálise no Brasil entre 2013 e 2018. Identificaram 229 artigos publicados em cinco revistas registradas na base de dados da plataforma Scielo. Conforme esse estudo de revisão, essas 229 pesquisas são diversas, indo desde casos clínicos detalhados com articulações na teoria psicanalítica, até outros saberes que têm a Psicanálise como base e citam casos clínicos. São dados que demonstram a relevância crescente do estudo de casos na Psicanálise, um assunto emergente em pesquisa, que você irá aprender a partir de agora. TEMA 1 – O MÉTODO DE ESTUDO DE CASOS APLICADO À PSICANÁLISE O estudo de caso é um delineamento de pesquisa que estima o caráter único de um fenômeno ou conjunto de fenômenos, em articulação com um determinado contexto (na Psicanálise, com ligação com a clínica psicanalítica) e que se inscreve em um suporte conceitual (especificamente, a teoria psicanalítica). O método de estudo de caso possibilita obter informações com 3 maior profundidade, formular hipóteses e desenvolver teorias com suporte de dados empíricos. Estudos de caso são amplamente utilizados para pesquisa clínica na área da saúde, incluindo a saúde mental (psicologia e Psicanálise). Não existe consenso entre os especialistas em relação ao início de sua utilização como estratégia de pesquisa científica. Ventura (2007) realizou uma investigação e oferece três direções sobre a consolidação do uso dos estudos de caso: 1. psicologia e medicina como precursoras na área de pesquisa; 2. estudos antropológicos de Malinowski e da Escola de Chicago aprofundaram a utilização; 3. área jurídica, especialmente com Langdell, aprofundou o uso dos casos. Independente do campo que originou as pesquisas com estudos de casos, certamente as áreas da saúde, antropologia e direito foram importantes para a validação científica do estudo de caso como metodologia de pesquisa científica. Como campo científico, Yin (2005, p. 32) pontua que o estudo de caso é uma metodologia de pesquisa que “vincula a exploração empírica e as teorias, investigando um fenômeno contemporâneo dentro do contexto de vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o cenário precisam de aprofundamento”. Yin (2005) classifica o estudo de caso de acordo com sua aplicação no que se refere ao tipo: descritivo, explanatório e exploratório; com relação à finalidade: especificidade, pluralidade, contemporaneidade e análise intensiva. Os tipos já foram vistos no capítulo 1, e com relação aos atributos, é importante esclarecer a definição de cada classificação: Quadro 1 – Classificação quanto à finalidade do estudo de caso Finalidade Definição Exemplo na Psicanálise Estudo de Caso por Especificidade Objetiva estudar um caso único em específico, a fim de compreender a interação particular do sujeito, uma história e entorno. Estudo de caso clínico focando em um indivíduo, na relação terapêutica e nos processos psicoterapêuticos particulares. Estudo de Caso por Pluralidade Foca no estudo de um conjunto de casos individuais dentro de um escopo temático para realizar comparações e conclusões a respeito de Vimos no capítulo 4 uma revisão narrativa sobre a prevalência de depressão infantil (Brandão; Oliveira; Silva, 2023). É um tema que pode ser abordado também 4 aspectos psicoterapêuticos delimitados. com o relato de casos clínicos para definir, por exemplo, a prevalência de sinais e sintomas em uma comunidade. Estudo de Caso por Contemporaneidade Estudo de caso que busca abordar problemáticas atuais relevantes para a compreensão da psique humana, buscando casos de especificidade e/ou pluralidade para condução da pesquisa. Um estudo de caso que se encaixa nessa categoria foi realizado por Gomez e Chatelard (2020), denominado “A prática psicanalítica frente ao sujeito contemporâneo”. O contexto de onde emergiram os casos foi a prática clínica com adultos em uma clínica-escola. Estudo de Caso por Análise Intensiva Pesquisa de estudo de caso que pode ser de especificidade e/ou pluralidade com o direcionamento de se aprofundar em detalhes o problema de pesquisa. A pesquisa de Herszkowicz e Albino (2021), intitulada “A clínica da psicose: um estudo de caso”, descreveu em detalhes a proposta de atendimento e o desenvolvimento clínico de um paciente psicótico em um período de oito anos. Fonte: Possolli, 2023. A delimitação e trajetória metodológica do estudo de caso devem ser bem definidas para que o pesquisador evite utilizar dados da própria instituição em que trabalha (risco ético) caso o quantitativo de pacientes seja pequeno. Além disso, deve-se ter cuidado para não extrair variáveis imprecisas durante a coleta de informações. A pesquisa de estudo de caso deve ser precedida por um planejamento rígido, apoiado em um referencial teórico coeso, respeitando as características do caso e as ações no processo da pesquisa. O pesquisador psicanalítico executará tarefas técnicas conforme a natureza do fenômeno e a amplitude do contexto envolvido no caso em estudo. Ao longo da pesquisa, podem aparecer variáveis de interesse não previstas. Dessa forma, o uso de referenciais variados e evidências científicas dentro da temática é uma solução importante para lidar com a análise dos dados coletados. No Brasil, o método de estudo de caso vem sendo adotado progressivamente nas duas últimas décadas, sobretudo pelas ciências sociais e da saúde, incluindo-se a Psicanálise nessa interseção. Roese (1999) aponta que a pesquisa de contextos microssociais e realidades individuais, usando métodos como história de vida, estudos biográficos, observação e estudo, tem dois fatores principais como motivo: 1. Grupos de pesquisadores têm reagido contrariamente a estudos macrossociológicos, por reduzirem a percepção a respeito de 5 microrrealidades, provocando generalizações nocivas para a diversidade e a pluralidade. Nessa categoria, também se enquadram as restrições à sociologia quantitativista. 2. Redução dos recursos humanos e orçamento das pesquisas a partir dos anos 1990, inviabilizando projetos grandes que têm alto custo e cronogramas extensos, muitas vezes não se encaixando nos ciclos letivos das instituições. TEMA 2 – CASOS CLÍNICOS NA PSICANÁLISE E O RELATO CLÍNICO Stake (1995) destaca que o estudo de caso clínico, como metodologia na pesquisa em Psicanálise, resulta do testemunho de uma vivência clínica. Para conduzir um estudo de caso, o pesquisadordeve considerar o tipo mais adequado para sua investigação. Sabe-se que uma das “exigências para o estabelecimento de qualquer ciência diz respeito à comunicabilidade, tanto dos meios de investigação quanto dos resultados alcançados” (Barone, 2006, p. 224). Nesse ponto, destaca-se o dever científico do psicanalista como pesquisador de relatar e analisar seus casos, contribuindo na construção da Psicanálise como ciência, método de pesquisa e terapia. Isso amplia o sentido ao se compreender o relato clínico como uma permanente edificação teórica em Psicanálise. O método psicanalítico de produção científica foi continuamente questionado porque não se adequa ao modelo tradicional de ciência, travando um debate especialmente com os defensores da Medicina Baseada em Evidências. Aprofundar o método clínico psicanalítico, que valoriza a transferência, o inconsciente e as singularidades do caso, se justifica pelos aportes, sobretudo para a condução de casos clínicos graves (Val; Lima, 2014). O uso de estudos de caso como ferramenta de pesquisa auxilia na transmissão da teoria psicanalítica. Nesse sentido, torna-se importante deixar clara a importância do conceito de transmissão para a Psicanálise nesse contexto. A transmissão se opõe ao simples saber, uma vez que foca na experiência clínica entre o psicanalista e o analisando, mediados pela linguagem. Por isso, considerar a teoria psicanalítica por meio de casos clínicos é um suporte para desenvolver a transmissão na Psicanálise de forma aplicada. Comunicar fatos clínicos em Psicanálise é oportuno para fazer com que a experiência do analista seja transparente para concretizar a vinculação 6 intersubjetiva no setting psicanalítico. A transmissão da experiência clínica por meio de estudos de caso faz com que as concepções básicas da Psicanálise estejam em evidência em cada fase da pesquisa. O estudo de casos psicanalíticos permite, mediante a análise discursiva, o registro escrito e a transmissão da experiência e perfil de pesquisador do psicanalista (Leitão, 2018). Na clínica psicanalítica, a regra basal da associação livre resulta do palavrear, da linguagem e do discurso como ato de liberdade. O analisando verbaliza o que vem à mente, e é por meio desse discurso livre que acessa elementos inconscientes; assim, o caso clínico vai se construindo, a linguagem gestual vai se associando ao falado, e o analista consolida o caso. Expressar-se por meio de linguagem (verbal, gestual) diante do analista, que, devido à transferência, possui um fio condutor no processo psicoterapêutico, participa, nessa troca intersubjetiva, do próprio caso em construção por meio desse contexto discursivo (Lacan, 2008). Assim, importa destacar que, no caso clínico, para que ele se desenvolva como um método de estudo de caso, a fala é sempre endereçada ao Outro, por meio da transferência. Por isso, não pode ser considerada uma fala qualquer; trata-se de uma fala significante, articulada, cortada e elaborada na relação terapêutica. Do mesmo modo, a escrita ao relatar um caso psicanalítico. No estudo de caso, a escrita realizada pelo psicanalista-pesquisador passa por um processo significante que está em constante reconstrução, pois o caso clínico está sendo elaborado a cada sessão de maneira orgânica. Por isso, ao coletar os dados anotados nas sessões e elaborar em forma de texto, o analista escreve, corrige, relê, produzindo significações enquanto registra e organiza os casos. O analista pode ainda tomar como base casos registrados por seus pares ou bancos de dados, desde que esses casos estejam suficientemente detalhados para os propósitos da pesquisa. Sendo necessário em algumas situações a possibilidade de tirar dúvidas com o analista que registrou os casos, sempre seguindo os preceitos éticos para pesquisa com seres humanos (autorização de uso de dados, preservação do anonimato e minimização de riscos de vazamento de dados e viés de pesquisa). Cabe destacar que há uma aproximação, mas também uma diferenciação entre o relato clínico e o estudo de caso. Estamos tratando do estudo de caso como metodologia e especificaremos agora o relato clínico, que é entendido 7 como parte essencial do estudo de caso. O termo relato diz respeito a uma narrativa, ao testemunho de uma experiência clínica. A esse respeito, Figueiredo (2004, p. 79) afirma que o relato clínico precisa ter riqueza de detalhes, descrição de cenas e conteúdo discursivo, já que o caso é “produto do que se extrai das intervenções do analista na condução do tratamento e do que é decantado de seu relato. Atentando para o fato de que o caso será morto se for reduzido a uma fórmula”. No relato clínico residem os apontamentos que serão utilizados como dados de pesquisa no estudo de caso, examinados e articulados à teoria psicanalítica. Dessa forma, as informações serão sintetizadas ou refinadas conforme necessário para o que se deseja demonstrar nos objetivos e problema de pesquisa. É importante pontuar como princípio ético que o excesso de informações fragiliza o sigilo quanto às pessoas mencionadas no relato, mesmo com a supressão dos nomes. O psicanalista-pesquisador é o guardião do chamado espaço de intimidade no processo analítico, que exige confiança. “Um desafio constante para o psicanalista na construção de sua ciência, diz respeito à necessidade de comunicar suas descobertas, ao mesmo tempo que preserva o sigilo no espaço de intimidade que a clínica lhe exige” (Barone, 2006, p. 224). TEMA 3 – CONSTRUÇÃO DO CASO VERSUS ESTUDO DE CASO Apesar de ser possível escrever relatos clínicos após um considerável tempo de relação terapêutica, Freud (1985) pontua como recomendação que o psicanalista escreva apenas após o término do tratamento. Essa orientação é importante para o distanciamento do pesquisador, a fim de que o “interesse científico não atrapalhe a relação transferencial” (Leitão, 2018, p. 419). Outra consideração está em ter o cenário completo, pois a aproximação do analista do caso clínico se dá progressivamente, e durante o tratamento alguns elementos ainda estarão obscuros. As percepções de cunho científico quanto ao que ocorre com o analisando durante a psicoterapia são delicadas. Devido ao interesse em buscar dados no caso, isso pode invariavelmente atrapalhar a escuta do psicanalista, contaminando o processo terapêutico e também a própria pesquisa, já que o discurso científico precisa refletir sobre a verdade dos fatos. Ou seja, cuidado para que não haja manipulação de dados! Deve-se exaltar a postura de escuta 8 atenta do analisando, por meio da atenção flutuante, abrindo espaço para o significante. Lembre-se de que se denomina relato de caso, e o termo caso diz respeito a uma ação já ocorrida. Segundo o próprio Dicionário Michaelis, significa “manifestação individual de uma doença ou ocorrência clínica”, ou ainda “fato em torno de um acontecimento passado importante” (Michaelis, 2023). Considerando que as construções do estudo e do relato de caso devem ocorrer posteriormente, entende-se que são ferramentas de elaboração teórica e técnica sobre o setting analítico. Permitindo a escuta da escuta, ou seja, a percepção daquilo que o outro escutou com relação ao relato do caso clínico. Por isso, a pesquisa entre pares é tão importante. No processo terapêutico, o psicanalista compõe uma visão abrangente do tratamento, formulando hipóteses que conduzirão a intervenção clínica. Dessa forma, é fundamental distinguir a construção do caso do estudo de caso. A construção do caso se refere ao tratamento psicanalítico em si, que permite ao analista “localizar o seu lugar na transferência para lançar suas interpretações” (Val; Lima, 2014, p. 109). Já o estudo de caso aborda a condição de pesquisador em Psicanálise, em que o psicanalista constrói um caso retrospectivamente, de formaarticulada com o desenho da pesquisa, seguindo os preceitos científicos. A Psicanálise, no ambiente clínico ou investigativo, “não opera com a lógica causal, nem com a dedução ou com a indução” (Guerra, 2010, p. 141). Guerra explica que a Psicanálise se posiciona como uma ciência que busca compreender menos e escutar mais. Isso não significa que o pesquisador em Psicanálise se isentará de formular hipóteses, mas que terá uma direção, assim como toda a análise também tem. Não é possível conhecer de antemão os detalhes do caminho, dadas as particularidades de cada caso. Sendo que esse caminho é pavimentado pela associação livre e pela transferência, tanto na clínica quanto na construção dos casos. A prática de expor e discutir casos é um meio eficaz para avaliar a qualidade de uma comunidade de analistas e melhorar serviços de saúde mental. Analisando os fundamentos da Reforma Psiquiátrica Italiana, Viganò (2010) explica que a edificação de casos em instituições de saúde mental precisa ser democrática, uma vez que cada um dos atores do caso (familiares, instituições, analistas, pacientes, supervisores etc.) participa com sua contribuição, que na verdade trata-se de: 9 juntar as narrativas dos protagonistas dessa rede social e de encontrar o seu ponto cego, encontrar aquilo que eles não viram, cegos pelo seu saber e pelo medo da ignorância. Este ponto comum, a falta de saber, é o lugar do sujeito e da doença que o acometeu. (Viganò, 2010, p. 2) Sintetizando, a diferença fundamental entre a construção do caso e o estudo de caso está em que no primeiro não é feita interpretação, pois a finalidade é construção e esclarecimento de elementos em um esforço conjunto. Em contrapartida, o estudo de caso ocorre por meio de um aparato de interpretações. A interpretação, como dispositivo da prática clínica, é uma construção, que na clínica se mostra inacabada, já que seu objetivo é alçar novas associações, para que um significante remeta a outro, operando assim a rede entre consciente e inconsciente. Mesmo que o estudo de caso deseje produzir sentidos sobre a narrativa do setting analítico, da mesma forma que a construção do caso, não se concluem todas as questões, pois surgem novas. Porém, o mais importante para ambos é permitir a partilha da experiência, visto que essa é colocada à prova. Concluindo, o principal ponto que se estabelece na construção e no estudo de casos, uma vez compreendido que não há um saber que explique por completo o que está em causa no processo de adoecimento, tanto a construção como o estudo permitem chegar a um melhor entendimento sobre as questões que necessitam constantemente de investigação, apreensão e compreensão: o primeiro para guiar o trabalho clínico, e o outro para elaborar e produzir algum sentido sobre este trabalho. Deste modo, o material criado nos procedimentos do estudo do caso torna-se uma ferramenta de organização da experiência clínica. Um material muito valioso, que, conforme pontuam Conti e Sperb (2010, p. 307), servirá para que o psicanalista-pesquisador recorra a qualquer momento “para interrogar, avaliar e até mesmo ressignificar a sua ação, refletindo sobre a singularidade de cada caso”. TEMA 4 – ESTUDO DE CASOS MÚLTIPLOS Uma dúvida frequente é sobre analisar mais de um caso em um mesmo trabalho de pesquisa. Como vimos na classificação de Yin (2005), existe um tipo de estudo de caso que se destina a trabalhar com múltiplos casos, o que deve estar fundamentado no método de investigação, nos instrumentos e na abordagem para análise de dados. Cabe pontuar que em um estudo de casos múltiplos não há um quantitativo fechado de casos que podem ser analisados. 10 Ao investigar múltiplos casos, ou um caso único, é necessária uma linha de análise e uma literatura para fundamentação. Os procedimentos metodológicos devem possibilitar comparar os casos em série, destacando as especificidades e as macroanálises. Uma das vantagens de realizar estudo de casos múltiplos é a possibilidade de demonstrar a prevalência de sinais e elementos relatados no arcabouço de pressupostos da Psicanálise. Para orientar o olhar do pesquisador na análise, deve-se acessar o que a literatura da área tem desenvolvido sobre o tema em pauta. Quanto mais sólida for a fundamentação teórica do estudo, maior será a qualidade da argumentação na análise dos casos, recuperando e validando os aspectos destacados na literatura à luz dos casos relatados na pesquisa. Convergências e divergências entre os resultados dos casos são bem- vindas e podem ser aproximadas ou contrastadas na discussão da pesquisa. A seleção e análise de mais de um caso clínico não visa à replicação, mas possibilitar a comparação. Verztman (2013) destaca que analisar casos em um conjunto argumentativo para atingir um objetivo comum levanta grandes questões e controvérsias para a pesquisa psicanalítica. A singularidade dos sujeitos e as variações contextuais são cruciais, e em alguns casos podem apontar para o incomparável. “Comparar abstrações, modelos e práticas que servem para dar parâmetros à clínica não é o mesmo que comparar sujeitos” (Verztman, 2013, p. 75). Ao propor uma pesquisa com múltiplos casos, deve-se levar em consideração que os elementos discursivos da psicoterapia evocarão cenários variados de análise. Para tornar essas considerações mais claras, apresentemos um exemplo de estudo de casos sobre casos de depressão. Suponha que, como analista, você teve acesso ao histórico de cerca de dez ou doze casos de depressão que podem participar da pesquisa que irá conduzir, mediante autorização da clínica que compartilhará os dados. Esses pacientes foram atendidos por profissionais diferentes com perfis diversos, assim como os pacientes têm características e histórias de vida distintas. No entanto, também pode haver pacientes diagnosticados com depressão advindos de cenários com elementos semelhantes. Para testar suas hipóteses, deve-se apreciar os elementos individuais, intersubjetivos e as técnicas aplicadas à terapia. Alguns pacientes podem ser submetidos à terapia psicanalítica associada à medicamentosa, 11 enquanto outros podem iniciar com terapia cognitivo-comportamental e migrar para Psicanálise usando apenas fitoterápicos. Como formatos distintos estão em jogo, é possível interpretar as reações e resultados dos tratamentos em um estudo de múltiplos casos, com várias opções de tratamento para uma mesma condição clínica inicial: a depressão. TEMA 5 – ORGANIZAÇÃO E ANÁLISE DE DADOS EM ESTUDO DE CASO Ao organizar uma pesquisa de estudo de caso, independentemente do tipo, existem procedimentos e momentos que devem ser respeitados para que a investigação e análise dos casos tenham o rigor científico adequado para a produção de conhecimento na Psicanálise. Registrar a clínica psicanalítica remete à escrita dos achados de casos concluídos, como vimos na orientação de Freud, com base em anotações e em um roteiro de coleta de informações. Para elaborar um roteiro, que será seu instrumento de pesquisa, tenha em mente que é necessário coletar dados de forma padronizada nos casos clínicos que se pretende analisar, registrando informações que não rompam o anonimato. Conforme os propósitos e problemas enunciados para a pesquisa, itens específicos farão parte desse roteiro. Para tornar mais claro o processo de composição do texto científico quando abordamos a metodologia de estudo de caso na Psicanálise, a seguir detalham-se os três momentos da escrita da clínica em Psicanálise, com base na publicação de Guimarães e Bento (2008). • Momento 1: escrita da história clínica e do processo analítico Moura e Nikos (2001) pontuam que a prática clínica analítica começa com o registro da anamnese, necessária para compor a história clínica ou da doença. A escrita do caso clínico terá correspondência coma trajetória do processo clínico, de modo que iniciará com o relato da história da doença/queixa, vinculando-a aos fatos da história de vida do paciente. É o que se verifica nos casos que Freud expôs. No relato das cinco Psicanálises clássicas, Freud (1992) demonstrou uma sequência para exposição, levantamento de dados e, ao final, a análise dos casos: 1. No caso Dora, a doença da paciente é trazida com detalhes e abordagens em um item que ele denominou de O Quadro Clínico. 12 2. Já no caso do pequeno Hans, descreveu a doença do paciente e o processo analítico em um item denominado O Caso Clínico e Análise. 3. No famoso caso do “homem dos ratos”, mais uma vez Freud valorizou a descrição da doença para depois detalhar o caso e a análise realizada, bem como os caminhos para o tratamento. 4. Até mesmo na análise de Schreber, que não foi um caso clínico propriamente dito, mas uma autobiografia, depois da introdução, Freud intitulou o primeiro item da obra como História Clínica. 5. No quinto e último caso, o homem dos lobos, Freud discorreu a respeito da doença do paciente em suas Observações introdutórias logo no primeiro item, para no segundo item descrever a “Avaliação Geral do Ambiente do Paciente e Histórico do Caso”. Em todos esses casos, é perceptível a preocupação de Freud em começar a exposição enfatizando a evolução da sintomatologia do paciente, desde seu aparecimento, situações anteriores desencadeantes, chegando às manifestações atuais, para só depois realizar uma análise do caso. Portanto, podemos dizer que nesse primeiro momento a escrita da clínica visa apresentar de forma clara a queixa do paciente, as manifestações psíquicas e de doença (conscientes ou não), buscando uma descrição neutra. Para embasar esse momento 1, a transcrição literal de falas do paciente é recomendável. É relevante ainda, não esquecer de delinear uma linha do tempo da evolução da doença do paciente, estabelecendo as relações com os principais fatos e sintomas manifestados. • Momento 2: descrição da transferência e dos detalhes do tratamento clínico Está em destaque nesse momento a transferência, como já vimos no capítulo 5, como um pressuposto imprescindível para a pesquisa em Psicanálise. A transferência do paciente para o analista é fundamental para que a cura pela palavra ocorra, correspondendo ao segundo momento da clínica analítica. Na clínica, o processo psicoterapêutico evolui de um primeiro período, em que o paciente relata sua queixa e faz um retrospecto de vida inicial, para um segundo período em que o objeto focal de sua queixa não será mais o sofrimento pela doença, e passará sua pulsão para a relação transferencial com o analista. Nesse sentido, pode-se dizer que “a transferência será herdeira da doença, 13 possuindo uma equivalência funcional com a doença, que Freud denomina como transferência como sintoma na obra Estudos sobre a histeria” (Guimarães; Bento, 2008, p. 96). É natural e desejável, na clínica analítica, uma passagem da queixa pelo sofrimento vivido pelo paciente, para o sofrimento provocado pela transferência entre analista e analisante. A escrita dos fatos e contexto clínico terá correspondência com a evolução do tratamento da clínica propriamente dita. Para isso, como já referido, deve-se estudar, como pesquisa científica, casos concluídos, seguindo a recomendação de Freud (1985), para que o processo analítico não se contamine com os interesses e hipóteses que se espera ver na pesquisa. Nesse segundo momento, objetiva-se compor a história do tratamento, ressaltando principalmente a descrição dos cenários transferenciais e contratransferenciais que aparecem na clínica analítica e também da supervisão do caso. A descrição dos afetos e das relações no contexto da relação analista- analisando é fundamental. Portanto, também cabem aqui citações literais dos discursos, pontuando em seguida a intervenção ou entendimento do analista. • Momento 3: metapsicologia por meio da interpretação da história da doença e da transferência por meio da teorização psicanalítica A finalidade do terceiro momento é analisar a interpretação da história da doença e da evolução da clínica por meio da transferência, embasando em uma construção teórica em Psicanálise, a metapsicologia. Momento correspondente à discussão clínica dos momentos 1 e 2 por meio dos pressupostos psicanalíticos. Para atingir o objetivo dessa etapa, Moura e Nikos (2001) destacam que cabe ao terapeuta selecionar uma situação-problema do tratamento, que originará o problema de pesquisa. Partindo dessa questão central que emerge da clínica do caso, o analista-pesquisador delimitará o objeto da investigação, em que são escolhidos tópicos, fenômenos e abordagens para a pesquisa. O analista-pesquisador se embasa em teorias estabelecidas para confirmá-las ou refutá-las conforme os achados no campo da clínica. Podem ser refutadas por inadequação em dar conta daquela clínica específica que inspirou o estudo de caso, servindo assim para reformular a teoria e reconstruir bases de análise. É devido ao sujeito em análise que as teorias se constroem e são reformuladas. A clínica, embora singular, sempre desafiará a teoria já construída, 14 e se assim não for, os nós das resistências precisam ser identificados. Se é pela clínica que a teoria psicanalítica é concebida, também pode ser por ela reformulada, para que dê conta da fala única daquele sujeito em análise. Tendo a transferência como mecanismo fundamental para o método de pesquisa de Estudo de Caso na Psicanálise, opõe-se ao paradigma positivista de ciência, que valoriza o distanciamento entre sujeito e objeto, o que não é possível ou desejável na relação analisante-analista. A presença de um supervisor contribui para a construção objetiva de um caso. Safra destaca que é cada vez mais frequente que pesquisadores em Psicanálise recorram ao acompanhamento do trabalho de pesquisa por um supervisor com experiência no método para assim “garantir maior objetividade e auxiliar na descrição de suas reações contratransferenciais, submetê-las à análise, complementando a função analítica do pesquisador, trazendo confiabilidade ao processo de pesquisa” (Safra, 1993, p. 131). NA PRÁTICA A partir das leituras e análises dos temas apresentados sobre estudo de caso em Psicanálise, estabeleceram-se alguns pontos centrais que guiam a prática de construção e escrita de um estudo de caso psicanalítico, que servem de síntese e fundamento para colocar esse tipo de pesquisa em prática: 1. Situar a função do caso clínico apresentado é algo pertinente logo no início do estudo, podendo ser: sustentação da discussão; comprovação da possibilidade de articulação teoria-prática; esclarecer ao leitor, didaticamente, o desenvolvimento de conceitos no bojo da teoria psicanalítica. 2. O relato clínico e o caso em si precisam ser claros, fornecendo dados sobre a queixa, a doença, as falas do analisando, sua história de vida e o processo de transferência. 3. Ter cautela ao descrever antecedentes clínicos do paciente, evitando afirmações tendenciosas, julgadoras ou que possam romper o anonimato. 4. Apontar limitações ou variáveis relevantes para o entendimento da evolução clínica, como o tempo do tratamento, intercorrências, conflitos, equipe multiprofissional de saúde etc. 15 5. O campo psicanalítico possui linhas que defendem posições divergentes, portanto é preciso cautela no uso de autores variados, sobretudo os clássicos. Não é possível sustentar uma análise de casos tendo como base Lacan, seguido de Winnicott, e depois Melanie Klein, por exemplo. 6. Especificamente sobre o sigilo de dados, mesmo utilizando-se nomes fictícios, publicar casos clínicos é delicado, como advertiu Freud no caso Dora. É importante seguir as recomendações da Resolução n. 510/2016 do ConselhoNacional de Saúde. 7. Nem todos os estudos de casos resultarão em uma pesquisa científica. Relatar práticas clínicas só faz sentido ao estabelecer questões com potencial científico, definindo as contribuições dos estudos de caso no campo epistemológico, teórico e prático para a Psicanálise e para outros campos. A seguir, uma síntese conceitual em forma de esquema para reformular os principais elementos que contribuem para a compreensão do método de estudo de caso aplicado à Psicanálise: Figura 1 – Esquema síntese sobre estudo de caso em Psicanálise Fonte: Possolli, 2023. 16 FINALIZANDO Conclui-se que o estudo de caso em Psicanálise, como metodologia de pesquisa científica, é a escrita da clínica analítica, incluindo a descrição da história do paciente, de seus dados clínicos, da doença, da transferência na relação clínica e da teorização que interpreta as fases do tratamento. O objeto da teorização psicanalítica que analisa o caso está na memória inconsciente. Para estudar um caso em Psicanálise, são realizados três momentos como procedimentos metodológicos: 1. escrita da história clínica e do processo analítico; 2. descrição da transferência e dos detalhes do tratamento clínico; 3. metapsicologia por meio da interpretação da história da doença e da transferência por meio da teorização psicanalítica. Para empreender esse tipo de produção científica, o analista-pesquisador recorrerá às teorias construídas na área, visando confirmá-las ou refutá-las, de acordo com os achados no campo da clínica (estudos de caso selecionados). A clínica, sendo única em seus casos, desafia constantemente a teoria estabelecida, e a Psicanálise, mesmo com seus fundamentos conceituais, é uma ciência aberta. E é pela clínica que a Psicanálise se constrói e se reconstrói, como fizeram Freud, Lacan e tantos outros em suas obras com vastos relatos clínicos. Dessa forma, estudos de caso não podem ser vinhetas clínicas, como meras ilustrações clínicas de uma teoria pronta e acabada, mas sim uma possibilidade de acessar a clínica do caso como fonte para construção teórica, por meio da sua aceitação ou refutação. A participação do analista em uma pesquisa de estudo de caso torna-se importante ao entendermos que o psiquismo do pesquisador precisa ser considerado como elemento de análise na construção do caso. Quando o objeto de investigação faz parte da vida do pesquisador, isso contribui para elucidar algum ocultamento. Quando o psicanalista se depara com algo, reage a isso, acessa concepções pré-concebidas, uma contratransferência. Se a contratransferência ficar oculta, o analista falhará na análise de dados inconscientes do analisando, por isso a supervisão é fundamental para que o processo psicanalítico flua adequadamente. 17 REFERÊNCIAS BARONE, L. M. C. A escrita do analista: investigação, teoria e clínica. 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