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01 '10.37885/220809759 01 A felicidade como construto para Bem- Estar do ser humano na Psicologia Positiva Ágabo Borges de Sousa Universidade Estadual de Feira de Santana Waleska Naura Santos Oliveira Melo Faculade Anísio Teixeira https://dx.doi.org/10.37885/220809759 RESUMO Objetivo: Este artigo discute a relação do Bem-Estar Subjetivo - BES e Bem-Estar Psicológico - BEP com a Felicidade na Psicologia Positiva. Método: Trata-se de um trabalho de cará- ter exploratório-descritivo, avaliando os artigos em duas plataformas acadêmicas (Scielo e Indexpsi) dos últimos vinte anos, publicados no Brasil, seguindo os descritores Felicidade AND Bem Estar Subjetivo OR Bem Estar Psicológico. Resultados: Como resultado, perce- beu-se que a compreensão de Felicidade na Psicologia Positiva, que pode ser hedônica e eudaimônica está diretamente vinculada às compreensões de Bem-Estar, sendo, em alguns casos, identificados, a primeira com BES e a segunda com BEP; porém parece haver uma amplitude maior no conceito de Felicidade, sendo o Bem-Estar, parte dela, sem contudo, encerrá-la. Conclusão: A felicidade, enquanto construto psicológico, pode ser compreen- dida de duas formas; a primeira como felicidade hedônica, que estaria mais próxima do Bem-Estar Subjetivo e a segunda, como felicidade eudaimônica, que estaria mais próxima do Bem-Estar Psicológico. Palavras-chave: Psicologia Positiva, Felicidade, Bem-Estar Psicológico, Bem-Estar Subjetivo. 13 Psicologia e Saúde: pesquisa, aplicações e estudos interdisciplinares - ISBN 978-65-5360-208-3 - Vol. 2 - Ano 2022 - Editora Científica Digital - www.editoracientifica.com.br INTRODUÇÃO A história da espécie humana revela um atravessamento complexo de importantes transformações no modo de compreender a interação com o mundo e como as pessoas funcionam na sua dimensão ontológica e relacional. Acompanhado a isso, diversos siste- mas de pensamento emergiram na tentativa de orientar os modos de ser e estar no mundo, principalmente devido à concretização sócio-histórica de temas relativos à experiência de sofrimento (STEINER, 2018). Nesse sentido, dentre esses diversos sistemas, a Psicologia, em especial, começa a ascender e ter o seu empreendimento reconfigurado em um contexto marcado pelos impactos biopsicossociais, econômicos e territoriais provocados por um conjunto de relações humanas perniciosas que culminaram na Segunda Guerra Mundial. Contexto esse perpassado por profundas experiências de desestruturação social, política e psicossocial que mobilizaram um enfoque no adoecimento mental (GRAZIANO, 2005). Desse modo, tal ascensão da Psicologia tornou-se acompanhada, inclusive até hoje, por um enfoque teórico-metodológico majoritariamente orientado pelo processo de adoeci- mento, o qual está presente em uma boa parte das suas escolas, minando assim, uma lacuna importante no que se refere a ausência de contemplação da totalidade de complexidade e diversidade da experiência humana em detrimento do enfoque nos seus atributos negativos (PASSARELI; SILVA, 2007; ROBLES, 2018). Esse cenário, agregado às demandas originárias dos diversos contextos sociocultu- rais, eventualmente mobilizou e continua mobilizando pressões na Psicologia, relativas à construção de referenciais cientificamente orientados que sustentem estratégias decisivas, para criar, junto com as pessoas, condições de vida plena e com qualidade. Em virtude desses aspectos, a Psicologia Positiva tem sua inserção na realidade acadêmica e so- cial caracterizada por um movimento científico, cujo esforço de investigação e reavaliação dos potenciais e virtudes das pessoas visa facilitar condições para o alcance da felicidade (PALUDO; KOLLER, 2007). Esse movimento, então, engendra uma inclinação relativamente diferenciada em com- paração à tradição psicológica orientada pelo modelo biomédico. Apresenta uma tentativa de compensação do problema de contemplar a experiência humana exclusivamente pelo viés da patologização. Devido ao seu enfoque nos aspectos positivos da experiência, ou seja, nos sentimentos, emoções e comportamentos que aproximam as pessoas umas das outras e no modo como elas avaliam subjetivamente uma vida proveitosa, a Psicologia Positiva vem se expandindo na ciência psicológica e facilitando o alcance do bem-estar e da qualidade de vida (ARAÚJO, 2013; REPPOLD et al., 2019). 14 Psicologia e Saúde: pesquisa, aplicações e estudos interdisciplinares - ISBN 978-65-5360-208-3 - Vol. 2 - Ano 2022 - Editora Científica Digital - www.editoracientifica.com.br Além disso, essa expansão também vem sendo favorecida pela apresentação de evi- dências que sustentam a validade dos pressupostos da Psicologia Positiva que permitem a concretização da felicidade, ou bem-estar. Uma revisão sistemática e meta-análise rea- lizada por Chakhssi et al. (2018) demonstrou que intervenções psicológicas positivas, cujo enfoque está em despertar sentimentos, emoções e comportamentos positivos favorecem o bem-estar, além da redução do sofrimento em pessoas com transtornos mentais. O projeto de intervenção longitudinal realizado por Lai et al (2016), com 50 assistentes sociais e 1419 participantes, evidenciou que o treinamento em temas da Psicologia Positiva melhorou estatisticamente a comunicação familiar e o bem-estar dos participantes. No Brasil, Scorsolini-Comin e Santos (2011) em uma pesquisa quantitativa com amostra de 106 parti- cipantes em união estável concluiu que os afetos positivos desempenham uma função im- portante no envolvimento e avaliação de relações conjugais satisfatórias. Já uma pesquisa qualitativa realizada por Camalionte e Boccalandro (2017), com 10 universitários de ambos os sexos indicou que os pressupostos da Psicologia Positiva estavam permeados nos dis- cursos dos participantes em função da felicidade. Buscar entender o sentido da felicidade, especialmente no âmbito da Psicologia Positiva se torna um fator importante e este artigo propõe uma análise de caráter bibliográfico deste conceito, ligado à compreensão de bem-estar subjetivo e bem-estar psicológico, com base nas publicações de duas plataformas acadêmicas, conforme relatado na metodologia, consi- derando as publicações no Brasil nos últimos vinte anos. Diante das informações supracita- das, levantamos o seguinte questionamento: O que se compreende por felicidade, enquanto construto psicológico? Qual a relação de felicidade com as compreensões de “bem estar subjetivo” e “bem estar psicológico”? Convém enfatizar que estes questionamentos foram levantados em diálogo direto e constante com a realidade, pois tem sido anseio manifesto em diversos espaços de vivência, incluindo as variadas redes sociais, portanto, trata-se de uma proposta que pretende dialogar com categorias apreendidas a partir da realidade, dos relatos de observações empíricas e do movimento histórico da discussão científica deste tema. METODOLOGIA Este artigo é o resultado de uma pesquisa bibliográfica de cunho conceitual, que propõe apresentar conceitos discutidos na literatura, para cotejar com uma compreensão de um construto próprio da Psicologia Positiva. “A pesquisa bibliográfica implica em um conjunto ordenado de procedimentos de busca por soluções, atento ao objeto de estudo, e que, por isso, não pode ser aleatório.” (LIMA; MIOTO, 2007, p. 38). É importante destacar que não se trata de uma revisão de literatura ou revisão bibliográfica, que é parte imprescindível de 14 15 Psicologia e Saúde: pesquisa, aplicações e estudos interdisciplinares - ISBN 978-65-5360-208-3 - Vol. 2 - Ano 2022 - Editora Científica Digital - www.editoracientifica.com.br toda pesquisa, pois estabelece ponto de chegada do tema em questão. Contudo, este arti- go resulta de uma pesquisa de caráter exploratório-descritivo, que pretende ao final expor uma síntese integradora das soluções que formaram o processo de investigação. Podemos afirmar que nos propomos apresentar os resultados de uma pesquisa bibliográfica como umprocedimento metodológico importante na produção do conhecimento científico capaz de gerar, especialmente em temas pouco explorados, a postulação de hipóteses ou interpretações que servirão de ponto de partida para outras pesquisas. (LIMA; MIOTO, 2007, p. 44). Com os descritores Felicidade AND Bem Estar Subjetivo OR Bem Estar Psicológico, fo- ram filtrados os últimos 20 (vinte) anos de artigos publicados no Brasil, nas plataformas Scielo e Indexpsi, sendo encontrado na primeira plataforma 15 (quinze) publicações ficando no nosso spectrum de interesse 09 (nove); na segunda – Indexpsi – foram encontradas 29 (vinte e nove) publicações, das quais 18 (dezoito) foram selecionados dentro de nosso interesse. A compreensão de saúde inclui bem-estar como um conceito chave. Contudo, encon- tramos na literatura diferentes proposições teóricas para bem-estar. Tem sido desafiador assimilar no contexto da Psicologia, como ciência, o conceito de “bem-estar”, porém este tem sido um tema bastante discutido, analisado com “instrumentos de mensuração” e aplicado para compreender fatores psicológicos que integram uma vida saudável. Vários trabalhos psicométricos já foram desenvolvidos, tendo alguns já sido validados no Brasil, o que nos possibilita discutir de maneira mais clara e fundamentada os conceitos de “bem-estar”, que vem sendo objeto de estudo no meio acadêmico. “Bem-estar subjetivo (BES) constitui um campo de estudos que procura compreender as avaliações que as pessoas fazem de suas vidas” (SIQUEIRA; PADOVAM, 2008, p. 202). Por outro lado, as proposições sobre o conceito de “Bem-estar Psicológico” aparecem como crítica a aspectos que sustentam a formulação do conceito de “Bem-Estar Subjetivo”, que não consideram as causas e consequências do funcionamento positivo, que vincula esta compreensão com o construto de felicidade. Neste ponto, a Psicologia Positiva, parece trazer uma contribuição significativa para a mensuração, para os estudos dos processos cognitivos positivos e para a terapêutica dos processos de mudanças, que potencializam aspectos positivos do ser humano. Propomo-nos, portanto, neste artigo, a destacar os conceitos de bem-estar subjetivo (BES) e bem-estar psicológico (BEP), relacionando-os com a compreensão de felicidade destacada nos Manuais de Psicologia Positiva. 16 Psicologia e Saúde: pesquisa, aplicações e estudos interdisciplinares - ISBN 978-65-5360-208-3 - Vol. 2 - Ano 2022 - Editora Científica Digital - www.editoracientifica.com.br RESULTADOS E DISCUSSÕES Devemos destacar que a Psicologia Positiva “é um enfoque científico e aplicado da descoberta das qualidades das pessoas e da promoção de seu funcionamento positivo” (SNYDER; LOPEZ, 2009, p. 17). Podemos considerar que se trata de um olhar positivo do ser humano, tentando equilibrar uma abordagem relacionada ao sofrimento psicológico, buscando não apenas a eliminação do sofrimento, mas também um bem-estar, para além do alívio do sofrimento. Isto de forma alguma reduz a importância do cuidado do sofrimento humano, mas busca potencializar o bem-estar, ressaltando qualidades e virtudes do ser humano, para uma vida mais feliz e produtiva. Neste contexto alguns conceitos se tornaram importantes para a Psicologia Positiva. Dentre eles está o Bem-Estar Psicológico (BEP), que se trata de um “estado de bem-estar caracterizado por autoaceitação, crescimento pessoal, propósito na vida, domínio do am- biente, autonomia e emoções positivas” (SNYDER; LOPEZ, 2009, p.139). Por outro lado, o Bem-Estar Subjetivo (BES) é o “julgamento individual que uma pessoa tem de sua atual situação no mundo. Muitas vezes, a expressão é usada como sinônimo de felicidade.” (SNYDER; LOPEZ, 2009, p. 140). Tendo estes conceitos fundamentais da Psicologia Positiva, gostaríamos de destacar como têm se desenvolvido as pesquisas nesta área, com base nas publicações no Brasil nos últimos 20 (vinte) anos. Um dos aspectos discutidos nos trabalhos pesquisados é a psicometria, considerando a necessidade de instrumentos de avaliação, que meçam os construtos propostos para o BEP e o BES, que precisam de análise criteriosa para que possam dar validade ao estudo. Monteiro, Tavares e Pereira apresentam um estudo, que discute a “adaptação trans- cultural e estudo psicométrico da “Échelle de Mesure des Manifestations du Bien-Être Psychologique (ÉMMBEP)” para o contexto Português.” (2012, p. 61), que foi chamada de Escala de Medida de Manifestação de Bem-Estar Psicológico (EMMBEP). Monteiro, Tavares e Pereira salientam que “o instrumento analisado possui características psicométricas ade- quadas em termos de validade e fidelidade.” (2012, p. 72). A estrutura de seis fatores ava- liados (felicidade, sociabilidade, controle de si e dos acontecimentos, envolvimento social, auto-estima e equilíbrio) pelo EMMEP é adequada para avaliar o Bem-Estar Psicológico, no caso da pesquisa, em estudantes universitários. Pádrós, Gutierrez e Medina (2015) apresentam um estudo sobre as propriedades da Escala de Satisfação com a Vida de Diener (SWLS - Satisfaction With Life Scale), aplicada a um grupo de estudantes da cidade de Michoacán, no México. Este instrumento avalia a satisfação com a vida a partir de cinco ítens, onde os autores usam a tradução do Casteliano de Atienza, da seguinte forma: 16 17 Psicologia e Saúde: pesquisa, aplicações e estudos interdisciplinares - ISBN 978-65-5360-208-3 - Vol. 2 - Ano 2022 - Editora Científica Digital - www.editoracientifica.com.br (a) ‘En la mayoría de los aspectos mi vida es como quiero que sea’, (b) ‘Has- ta ahora he conseguido de la vida las cosas que considero importantes’, (c) ‘Estoy satisfecho con mi vida’, (d) ‘Si pudiera vivir mi vida otra vez, la repetiría tal y como ha sido’ y (e) ‘Las circunstancias de mi vida son buenas’. (p.225). Para os autores há uma relação das duas compreensões de felicidade com a percepção de Bem-Estar. Baseado em duas correntes filosóficas antigas eles destacam, que a felicidade eudaimônica da tradição aristotélica está refletida no Bem-Estar Psicológico – e a felicidade hedônica teria sua continuidade através da compreensão de Bem-Estar Subjetivo. Desta forma, o olhar para esses construtos se torna fundamental para a compreensão de felicidade. O trabalho conclui afirmando que a “respecto a la estructura factorial, los resultados del análisis factorial confirmatorio indican que el ajuste al modelo unidimensional es adecuado.” (PADRÓS; GUTIERREZ; MEDINA, 2015,p.228). Desta forma a Escala de Satisfação com a Vida de Diner se mostrou adequada para a avaliação da população pesquisada, legitimando o instrumento para análise da satisfação com a vida, que está bem próximo do Bem-Estar Subjetivo e Bem-Estar Psicológico. Arias e Garcia (2018) fizeram um trabalho similar ao de Pedrós, Gutierrez e Medina, aplicando a Escala de Satisfação com a Vida a uma população de equatorianos da Sierra. Participaron 756 adultos ecuatorianos de la sierra (63.5% hombres y 36.5% mujeres). La edad promedio de los participantes fue 30.83 (DE = 11.32). En cuanto al nivel educativo, el 7.3% correspondió a primaria, el 12.8% a secunda- ria, el 75% a nivel superior y el 4.9% a posgrado. El 15.7% de los participantes reportaron estudiar uma especialización, el 38.5% eran estudiantes universi- tarios, el 20.4% eran obreros de la construcción, el 14%, profesionales que buscaban mejorar su situación económica y el 11% profesionales de diferentes áreas. (ARIAS; GARCIA, 2018, p.23) Fica claro, nesta amostragem, o interesse de destacar uma diversidade populacional, ampliando, assim, a legitimidade do instrumento aplicado a múltiplas populações. Assim, eles chegam a conclusão de que a análise das propriedades psicométricas da Escala de Satisfação com a Vida de Diner se mostrou como um instrumento que apresenta validade de construto, “invariância fatorial por sexo e uma adequada confiabilidade para a medição da satisfação com a vida em homens e mulheres adultos equatorianos”(ARIAS; GARCIA, 2018, p.27). Outro estudo, no contexto da psicometria de construtos ligados à Psicologia Positiva de BEP e BES, consequentemente Felicidade, a ser destacado é o de Kamei et al “Psychological Capital Questionnaire – Short Version (PCQ-12): evidence of Validity of The Brazilian Version”. (2018) O capital psicológico é, neste contexto, recursos psicológicos positivos do indivíduo, com o qual a pessoa se sente confiante (autoeficácia) para buscar o sucesso pretendido em 18 Psicologia e Saúde: pesquisa, aplicações e estudos interdisciplinares - ISBN 978-65-5360-208-3 - Vol. 2 - Ano 2022 - Editora Científica Digital - www.editoracientifica.com.br situações e tarefas desafiadoras; faz atribuições positivas (otimismo) sobre sua condição de sucesso no presente e futuro; persevera em direção aos seus objetivos, redirecionando as estratégias (esperança) para alcançá-los, quando necessário e quando confrontado com problemas e adversidades, sendo capaz de superá-los (resiliência) para atingir o sucesso, naquilo que foi proposto (KAMEI et al, 2018, p. 204). A versão discutida pelos autores é a mais curta, que possui 12 itens (há uma outra de 24 itens PCQ-24), que é dividida em quatro sub-escalas: 1. Autoeficácia (3 ítens); 2. Esperança (4 ítens); 3. Otimismo (2 ítens) e 4. Resiliência (3 ítens). Esta pesquisa foi aplicada em uma população de 1.771 (um mil, setecentos e setenta e um) participantes brasileiros de idade variando entre 18 e 79 anos, portanto uma população adulta, homens e mulheres com diferentes níveis acadêmicos. Como resultado, temos a demonstração de propriedades psicométricas satisfatórias, com diversas evidências de validade para o contexto brasileiro. Há outro estudo psicométrico ligado às questões do BES e BEP, que é aplicado à rea- lidade brasileira. Trata-se do PANAS (Positive and Negative Affect Schedule) e sua validade convergente, que autoriza a sua utilização nesta realidade. A Positive and Negative Affect Schedule - PANAS foi traduzido para o Português como Escala de Afetos Positivos e Afetos Negativos. O trabalho de Nunes et al, que tem como título: Análise Psicométrica da PANAS no Brasil, trouxe uma contribuição importante para a psicometria dos construtos relativos ao Bem-Estar Subjetivo (BES) e Bem-Estar Psicológico (BEP). Participaram desta pesquisa 2648 estudantes universitários, matriculados nos cursos de Psicologia e Engenharia de uma universidade particular, em 15 cidades brasileiras respondendo ao questionário eletrônico disponibilizado na Internet. (NUNES et al, 2019, p.45). Nunes et al (2019) chegam a conclusão de que a PANAS tem propriedades psicométri- cas satisfatórias, que sustentam sua utilização na realidade brasileira. Mas, é necessário um aprimoramento do instrumento, no que diz respeito aos termos “utilizados em sua composi- ção, devido à diferença de significados e abrangência dos mesmos em diferentes idiomas.” (NUNES et al, 2019, p.52). Deve-se ressaltar que isso não invalida o aspecto satisfatório da mensuração e sua confiabilidade no uso nacional. Estas pesquisas deixam claro que os construtos de BES e BEP são efetivamente men- suráveis, mesmo necessitando, ainda, de desenvolvimento de mais instrumentos adaptados a uma avaliação da realidade brasileira. Alguns instrumentos já estão devidamente validados para seu uso em pesquisas no Brasil, como foi mostrado acima. Algumas pesquisas tratam do BEP das mulheres. Um deles destaca a multiplicidade de papéis e seus efeitos no BEP. Possatti e Dias avaliaram 132 mulheres da Paraíba que 18 19 Psicologia e Saúde: pesquisa, aplicações e estudos interdisciplinares - ISBN 978-65-5360-208-3 - Vol. 2 - Ano 2022 - Editora Científica Digital - www.editoracientifica.com.br trabalham e têm filhos, com nível de escolaridade a partir do segundo grau. Essas mulheres exercem atividades remuneradas de diversas complexidades, como: médicas, advogadas, professoras, administradoras e etc. Foram usados três instrumentos para a avaliação: 1. “Escala Qualidade de Papéis. Compreende aspectos positivos e negativos dos papéis de mãe e trabalhadora” (POSSATTI; DIAS, 2002.p.295); 2. “Questionário de Saúde Geral . QSG-12: Esta é uma versão reduzida do instrumento original (GOLDBERG, 1972), com- posta por 12 ítens, sendo que o QSG foi construído como um teste auto-administrado para diagnosticar desordens psiquiátricas menores.” (POSSATTI; DIAS, 2002.p.295) e 3. Escala de Satisfação com o Casamento. Os resultados da pesquisa de Possatti e Dias estão de acordo com resultados de outras pesquisas na mesma área, mostrando que as recompensas a partir da autonomia no trabalho e autoridade de decisão (poder de decisão – controle percebido) predizem as medidas de Bem-Estar Psicológico - BEP para todas as mulheres. Deve-se ressaltar que o controle percebido é um importante fator do BEP, pois possibilita a elevação da autoestima, bem como “o senso de domínio do ambiente necessário, que lhe permite ver-se como um ser capaz de atuar sobre sua vida criando as condições, modificando e controlando-as.” (POSSATTI; DIAS, 2002.p.299). Há, contudo, que se ter cuidado com esses resultados, pois “a multiplicidade de papéis desempenhado pelas mulheres não é necessariamente sinônimo de distress,” (POSSATTI; DIAS, 2002.p.300). Mas, a despeito do volume da popu- lação avaliada, pode-se perceber que as mulheres que possuem um trabalho remunerado, mesmo com a multiplicidade de funções, sobretudo no ambiente doméstico possuem níveis de Bem-Estar Psicológicos mais elevados do que as mulheres que não possuem trabalho remunerado fora do ambiente doméstico. Outro trabalho que se refere ao Bem-Estar Psicológico de mulheres é desenvolvido por Freitas e Barbosa, que analisam a Qualidade de Vida – QV e Bem-Estar Psicológico – BEP delas no climatério e sua relação com a QV e BEP, considerando as características demo- gráficas e ginecológicas. O climatério é uma fase importante na vida das mulheres e está ligado ao processo do envelhecimento, mas não se trata de uma fase, necessariamente, da idosa, pois pode ter início em períodos bem mais precoces. Climatério pode ser definido como a fase da vida da mulher na qual ocorre a transição do período reprodutivo para o não reprodutivo, tendo início próximo aos 40 anos e encerrando-se aos 65 (Galvão, Farias, Azevedo, Vilar, & Aze- vedo, 2007; Polisseni et al., 2008). É nesse espaço de tempo em que ocorre a menopausa. Geralmente, considera-se que ela ocorra 12 meses após o último ciclo menstrual. 20 Psicologia e Saúde: pesquisa, aplicações e estudos interdisciplinares - ISBN 978-65-5360-208-3 - Vol. 2 - Ano 2022 - Editora Científica Digital - www.editoracientifica.com.br É um período caracterizado pela diminuição da função ovariana, isto é, há uma redução significativa na produção de hormônios sexuais femininos pelos ovários, sobretudo, do estrogênio. O nível desse hormônio se torna tão reduzido que um conjunto de sinais e sintomas desagradáveis e característicos dessa fase pode aparecer (Silveira, 1997; Valença & Germano, 2010), influenciando negativamente o sono e diminuindo as energias (Poli et al., 2010). Os sintomas mais comuns são os vasomotores, a atrofia vaginal, as disfunções sexuais, os sintomas urinários, o aumento de risco para doença cardiovascular e a osteoporose (Polisseni et al., 2008). (FREITAS; BARBOSA, 2015, p.113) É óbvio que esses sintomas afetam a QV das mulheres em diversas áreas, conside- rando que se trata de um processo biopsicossocial que tem repercussões, também no BEP. Para a avaliação da QV foi utilizado WHOQOL-Bref (World Health Organization of quality of life – versão abreviada); para a avaliação do BEP o trabalho apresenta o uso da versão brasileira da Philadelphia Geriatric Center Morale Scale (PGCMS). A PGCMS possui 17 ítens, “divididos em três fatores: 1) Apreensão; 2) Atitude frente ao Próprio Envelhecimento e; 3) Insatisfação com a Solidão. A escala permite, ainda, a avaliação do BEP totala partir da soma desses três fatores.” (FREITAS; BARBOSA, 2015, p.117). Participaram da pesquisa 59 mulheres, com idade entre 39 e 63 anos, atendi- das no ambulatório de climatério de um hospital universitário entre os meses de março e maio de 2012. A amostra acidental é composta predominantemente por participantes casadas ou com situação conjugal assemelhada, brancas, com ensino fundamental completo ou incompleto e com nível econômico C1 ou B2. (FREITAS; BARBOSA, 2015, p.117) Considerando a especificidade da pesquisa, Freitas e Barbosa chegam a conclusão de que a Terapia Hormonal – TH está associada a níveis mais elevados de BEP e possi- bilita uma melhor QV, em comparação com as não usuárias da TH. A associação positiva da TH com a QV, se encontra, especialmente no domínio Meio Ambiente e no fator do Próprio Envelhecimento do BEP. Isso se dá pelo combate aos sintomas da menopausa com a ação dos medicamentos, que eleva as sensações de contentamento, de satisfação com a vida, influenciando o BEP. Neste sentido as questões sociais e psicológicas devem ser consi- deradas, pois a sintomatologia da menopausa estabelece alterações nestes dois aspectos das vivências das mulheres no climatério. Este estudo mostrou também que a presença de afetos positivos, possibilitados pela TH, contribui para uma atitude mais positiva diante do processo de envelhecimento, consequentemente BEP. As pesquisas relativas ao trabalho têm mostrado a necessidade de estudos sobre o Bem-Estar Psicológico – BEP neste campo. Estramiana et al (2012) analisam o Bem-Estar Psicológico correlacionando amostras de trabalhadores empregados e desempregados do Brasil e da Espanha. Fica claro que o desemprego está associado à deterioração do BEP, independente do país; contudo, há uma 20 21 Psicologia e Saúde: pesquisa, aplicações e estudos interdisciplinares - ISBN 978-65-5360-208-3 - Vol. 2 - Ano 2022 - Editora Científica Digital - www.editoracientifica.com.br deterioração maior nos trabalhadores desempregados da Espanha. Isto, se dá, segundo os autores supracitados, pelo fato dos trabalhadores desempregados espanhóis atribuírem o desemprego mais a causas externas (sociais ou fatalistas) e menos a causas internas (indi- viduais); por outro lado os brasileiros tendem a associar o desemprego a causas fatalistas e individualistas. Observa-se que o grupo que atribui causas fatalistas e individualistas ao desemprego tem um BEP maior que o grupo que atribui a causas fatalistas e sociais, ou seja, causas externas. Outro estudo, que de alguma maneira está ligada a esta comparação de emprego e desemprego, foi realizado por Favero e Sarriera (2014), sendo que analisam o impacto da seca no BEP dos agricultores familiares do Rio Grande Sul. Considerando que sua atividade está ligada a circunstâncias climáticas, a seca pode representar uma situação próxima à condição de desemprego, pois reduz a possibilidade do sustento da família. A produção agrícola não é apenas um negócio de empresas (agronegócio), mas a base da vida de muitas famílias rurais, o sustento e a sobrevivência por meio de uma atividade com alta dependência das condições climáticas. (FAVERO; SARRIERA, 2014, p.810-811) Percebe-se neste estudo de Fevero e Sarriera (2014) que o BEP se deteriora na pro- porção do impacto na família do desastre natural, a seca. Pode-se inferir que quando a seca causa um alto impacto na família, ela passa a ter influência no bem-estar, o que sugere ser o nível (gravidade) dos impactos do desastre um indicativo de maior ou menor risco à saúde psicológica e não o desastre em si. (FAVERO; SARRIERA, 2014, p.818) A influência deste impacto na redução do BEP, contudo, não é sua magnitude, mas suas consequências para a família e as suas disponibilidades de recursos e sociais para lidar com a seca. Chama-nos a atenção como a questão do vestuário impacta no BEP do grupo estuda- do, pois está ligado à imagem social do agricultor familiar, impactando na sua autoestima. Percebe-se que a autoeficácia (capacidade de produção e auto sustento), a autoestima (imagem social e auto percepção) estão diretamente vinculadas ao BEP dos agricultores fa- miliares, influenciando seu nível de positividade ou negatividade, podendo esta negatividade levar a diversos níveis de depressão, reduzindo, portanto, o BEP e a saúde psicológica do agricultor familiar. Siqueira e Padovam (2008) têm uma visão mais ampliada desta compreensão, desta- cando que o BEP no trabalho deve considerar cinco aspectos do envolvimento no contexto do trabalho, que são: relacionamento positivo com outras pessoas; autonomia; domínio do ambiente; propósito de vida e crescimento pessoal. O estudo considera que o bem-estar no 22 Psicologia e Saúde: pesquisa, aplicações e estudos interdisciplinares - ISBN 978-65-5360-208-3 - Vol. 2 - Ano 2022 - Editora Científica Digital - www.editoracientifica.com.br trabalho (BEP e BES) precisa integrar três componentes, os quais são: satisfação no trabalho, envolvimento com o trabalho e comprometimento organizacional efetivo. Estes componentes têm aspectos cognitivos e afetivos, que não podem deixar de ser considerados. Ressalta-se a satisfação no trabalho, que considera a relação com a chefia e colegas, o aspecto salarial, oportunidades de promoção e satisfação com as tarefas realizadas. Este estudo parte do princípio que há duas visões filosóficas distintas sobre a felicidade, que requerem mais avaliação para melhor compreender suas implicações. A primeira (hedonismo) adota uma visão de bem-estar como prazer ou felici- dade, a segunda (eudemonismo) apoia-se na noção de que bem-estar con- siste no pleno funcionamento das potencialidades de uma pessoa, ou seja, em sua capacidade de pensar, usar o raciocínio e o bom senso. (SIQUEIRA; PADOVAM, 2008, p. 201) O estudo de Rabelo e Torres (2005), com trabalhadores em saúde mental, chama a atenção ao fato de que a adesão ao paradigma biológico, “que enfatiza fatores orgânicos como fundamentais para os problemas mentais” (p. 620) têm uma melhor condição de BEP, em relação aos trabalhadores que aderiram ao modelo psicossocial, que se baseia na reforma psiquiátrica e “tenta o exercício de modelos horizontais na organização institucional, tendo o saber interdisciplinar como fomentador do debate acerca do objeto.” (p.619). Percebe-se um aspecto cognitivo influenciando o Bem-Estar no trabalho. Ressalta-se que os níveis de bem-estar físico e psicológico são idênticos nos dois ambientes de trabalho: clínica psiquiátrica e serviço substitutivo. Diante dessa reflexão, podemos começar a entender a relação entre a adesão ao paradigma biológico e níveis mais elevados de bem-estar físico e psicológico. (RABELO; TORRES, 2005, p.623). Pode-se entender deste estudo, que a adesão ao modelo biológico, possibilita maior controle do ambiente, possibilitando mais autoeficácia, que o modelo psicossocial. Há algumas pesquisas que tratam do BEP e BES no âmbito acadêmico, com dife- rentes olhares. O primeiro estudo a ser destacado é o de Boeckel e Sarriera (2006), que busca relacionar estilos parentais e estilos atribucionais e Bem-Estar Psicológico – BEP em estudantes universitários. Este estudo chega à conclusão que o estilo parental autorizante, diferente do estilo parental autoritário e o permissivo, possibilitou níveis elevados de BEP. Esse estilo influencia significativamente a construção das habilidades dos filhos para enfrentar situações estressantes, assim como há evidências de maiores níveis de competência psicossocial, menores índices de comporta- mentos disfuncionais e melhores níveis de auto-estima. O equilíbrio de poder, a reciprocidade e o afeto salientados por Bronfenbrenner estão presentes adequadamente nesta prática parental. (BOECKEL; SARRIERA, 2006, p. 54) 22 23 Psicologia e Saúde: pesquisa, aplicações e estudos interdisciplinares - ISBN 978-65-5360-208-3 - Vol. 2 - Ano 2022 - Editora Científica Digital - www.editoracientifica.com.br A compreensãode BEP neste estudo considera dois componentes, sendo o primeiro a satisfação com a vida, que está ligada a uma avaliação cognitiva e, o segundo, envolve sentimentos e humor, portanto, afetivo. Este Bem-Estar Psicológico, possibilita à população deste estudo maior autonomia e maiores habilidades em situações difíceis, facilitando, assim, os enfrentamentos da vida. Outro estudo que deve ser destacado é o estudo de Faro sobre um modelo explicativo para o Bem-Estar Subjetivo – BES em mestrandos e doutorandos no Brasil. O BES está ligado ao ajustamento da pessoa às diversas circunstâncias estressoras, com as quais ela se depara; no caso do Mestrado e Doutorado três fatores estressores foram identificados: 1. Tempo e Recursos Financeiros; 2. Demandas do Curso e 3. Supervisão e Desempenho; destes, o primeiro se mostrou de maior poder estressor. Faro entende que o modelo do Foco no Problema, como forma de enfrentamento, está associado a menor estresse. Essa modalidade de enfrentamento se refere à mobilização cognitiva pautada em ações (pensamentos e comportamentos) que buscam minimizar o impacto do estressor ou mesmo extinguir o estímulo estressógeno. (FARO, 2012, p.660) Um terceiro estudo no âmbito acadêmico a ser destacado é o de Vieira, Zanini e Amorim (2013), que discute a religiosidade e o Bem-Estar Psicológico de acadêmicos de Psicologia. Os autores destacam que apesar da religiosidade e espiritualidade terem um cres- cente interesse no campo científico, mantém-se por parte de alguns psicólogos e psiquiatras um olhar pejorativo, “relacionando-as com neuroses, atitudes irracionais, comportamento supersticioso ou infantilidade.” (VIEIRA; ZANINI; AMORIM, 2013, p. 142). Desta forma, se estabelecem conflitos ligados à cosmovisão dos estudantes, que se observa especialmen- te no estudo de duas abordagens, que são a psicanálise e o behaviorismo, a despeito da distinção de suas epistemologias. As principais contribuições deste trabalho são: 1) A confirmação da relação entre religiosidade e bem-estar, inclusive em estudantes de psicologia no contexto da formação; 2) A identificação de tensões entre a religiosidade e o curso, e; 3) A apresentação de dados que alertam aos professores quanto aos possíveis desdobramentos de seus posicionamentos frente a crenças que podem ser importantes para a manutenção da saúde dos estudantes. Mesmo que se admita que o impacto sobre crenças pessoais e religiosas faça parte do processo de formação, é importante considerar os cuidados necessários para que os estudantes se desenvolvam do modo mais saudável possível. (VIEIRA; ZANINI; AMORIM, 2013, p. 149). Destaca-se neste estudo o apoio da família e do grupo religioso do qual o estudante faz parte, para possibilitar-lhe maior resiliência e desenvolver sistemas de proteção para a manutenção do Bem-Estar Psicológico. 24 Psicologia e Saúde: pesquisa, aplicações e estudos interdisciplinares - ISBN 978-65-5360-208-3 - Vol. 2 - Ano 2022 - Editora Científica Digital - www.editoracientifica.com.br Entre os fenômenos que atingem a população mundial, o envelhecimento aparece como condição carregada de uma série de elementos estruturais, sociais, biológicos e simbólicos que alteram o curso de vida das pessoas a partir das suas diversas manifestações positivas e negativas. Dessa maneira, pesquisas sobre BES e BEP vêm levantando esforços para contextualizar seus preditores em idosos, considerando as suas especificidades e orientando intervenções para a promoção de sua qualidade de vida. A manutenção das condições para o BEP em idosos está intimamente relacionada com a qualidade da sua automotivação, a qual é mediada pelo grau de instrução e pela experiência de vida acumulada, relativa à criação de estratégias de coping frente às diferentes condições vividas ao longo do tempo. Idosos com alto grau de maturidade, entendida como uma qualidade do repertório que orienta a pessoa para uma auto realização e autopercepção positiva, conseguem regular as variadas experiências saudáveis e dificultosas a fim de se ajustarem às suas realidades externas e internas, o que contribui para o bem-estar (QUEROZ; NERI, 2005). Uma comorbidade de saúde frequentemente encontrada na velhice que costuma afetar negativamente o BEP e o BES, é o Acidente Vascular Cerebral (AVC), o qual devido à sua configuração incontrolável exige a formação de uma ampla rede de apoio associada à condi- ções próprias de cada idoso, como grau de instrução, manutenção ocupacional, capacidade cognitiva e estados positivos de humor, e principalmente um repertório de conhecimentos e habilidades para a regulação do ajustamento psicológico (RABELO; NÉRI, 2006). Para Rabelo e Neri (2006) o BES inclui esforços para melhorar a qualidade de vida, que está relacionada com percepções subjetivas de Bem-Estar, como por exemplo felici- dade e satisfação. Nos casos em que o BEP está comprometido, a realização do treino cognitivo em rela- ção às funções psíquicas: atenção, memória, inteligência, resolução de problemas, funções executivas e linguagem se mostra uma estratégia decisiva na melhora da qualidade de vida dos idosos. Assim, um bom funcionamento cognitivo é um importante preditor inter relacio- nado ao BEP e também para uma percepção positiva de qualidade de vida (IRIGARAY; SCHNEIDER; GOMES, 2011). Essa correlação também é apontada por Irigaray et al (2011), os quais defendem que ela funciona como fator protetor contra o estresse crônico e déficits funcionais e pode orientar a definição de condições de complexidade ambiental para a es- timulação do engajamento dessas pessoas em atividades neuroativadoras que aumenta a chance de níveis importantes de BEP. Por outro lado, numa realidade em que muitos idosos se encontram institucionalizados, a experiência de vida passa a ser atravessada pelo estreitamento de vivências possíveis e o contato entre gerações nem sempre se torna possível. Nesse sentido, ocorre uma desa- tualização da condição de sujeito de participação e transformação social dessas pessoas, 24 25 Psicologia e Saúde: pesquisa, aplicações e estudos interdisciplinares - ISBN 978-65-5360-208-3 - Vol. 2 - Ano 2022 - Editora Científica Digital - www.editoracientifica.com.br o que também interfere negativamente no seu BEP e BES. Nesse contexto, o acesso às novas tecnologias aparece como uma condição que, associada ao nível de escolaridade dos idosos, pode promover uma maior integração social e a regulação dos fatores associados à sua qualidade de vida (ALMEIDA et al., 2019). Um exemplo desse processo de fomento à participação social e tecnológica dos ido- sos é apresentado por Cachioni (2012), a dizer: as Universidades Abertas à Terceira Idade (UnATIs), que se inserem na proposta de educação permanente da UNESCO e possuem programas educacionais que visam o desenvolvimento das funções psíquicas, do BEP e BES, como também da saúde dessa população. Os autores apresentam diversos estudos que avaliaram os benefícios do contexto das UnATIs na vida dos idosos usando, principalmente, medidas de BEP e BES. A integração dos estudos indica que o envolvimento ativo dessa população na rotina dessas instituições contribui para a evolução de uma velhice realizada. Essa complexa dinâmica de fatores condicionantes do BEP e BES, junto com os efeitos práticos que produzem na vida dos idosos formam nestes uma rede de relações de signifi- cado sobre a velhice, cujos conteúdos variam de acordo com as idiossincrasias e o contexto mais amplo de cada idoso. Assim, uma concepção de envelhecimento saudável resulta da combinação de fatores individuais e coletivos que não se limitam a ter saúde, passando assim pela manutenção das condições funcionais, psíquicas, afetivas; a qualidade do estilo de vida, do desenvolvimento pessoal e interpessoal e o grau de autonomia (MONTAVANI; LUCCA; NERI, 2016). Montavani, Luca e Neri percebem que a expressão “velhice saudável” ultrapassa o limite da boa saúde, porém a saúde é elemento chavepara um vida longa, satisfatória e competente. Para os idosos entrevistados, envelhecer de forma saudável e feliz é mais do que ter saúde. Envolve, também, bem-estar psicológico e relações interpesso- ais. O envelhecimento saudável é compreendido pelos idosos como processo consequente ao equilíbrio da capacidade funcional, da função cognitiva, da memória, da felicidade, da autonomia, do estilo de vida, da construção indivi- dual e da dinâmica afetiva e social. (MONTAVANI; LUCCA; NERI, 2016, p.220). É importante destacar aqui, que o BEP está ligado à felicidade, mas não a encerra. Sathler e Batistoni (2012), confirmam em seu trabalho sobre o Bem-Estar Subjetivo e Psicológico na velhice sobre a perspectiva do conviver e do aprender, o que já havia sido percebido em outros estudos: de que para os idosos a compreensão de felicidade possui, especialmente, dois elementos; sendo o primeiro o aspecto social, que diz respeito aos vínculos afetivos, sobretudo com familiares e segundo, a saúde, que possibilita autonomia, dando liberdade para realizar as atividades cotidianas e de lazer, sem depender de auxílio direto de terceiros. 26 Psicologia e Saúde: pesquisa, aplicações e estudos interdisciplinares - ISBN 978-65-5360-208-3 - Vol. 2 - Ano 2022 - Editora Científica Digital - www.editoracientifica.com.br É importante destacar que construtos como Bem-Estar Psicológico, Bem-Estar Subjetivo e Felicidade são mensuráveis, como demonstra o uso de instrumentos psicométricos já adap- tados à realidade brasileira. Desta forma podemos afirmar com segurança que a discussão em torno destes aspectos da existência humana tem um caráter científico e, portanto, pode ser tratado com a crítica (análise com critério) devida. Além dos instrumentos apresentados nos artigos que tratavam da psicometria, perce- beu-se que vários outros instrumentos podem ser aplicados em conjunto para uma avaliação de Bem-Estar Psicológico, Bem-Estar Subjetivo e Felicidade. A pesquisa de Possatti e Dias (2002) demonstrou que o poder de decisão e o con- trole percebido influenciam o BEP, pois elevam a autoestima, mesmo diante de situações de multiplicidade de papéis, que podem ser elemento estressor, contudo, o domínio do ambiente é fator positivo no distress. Foram percebidos fatores correlatos, no estudo de Fevero e Sarriera (2014), no qual a autoestima, neste caso, a imagem social e auto percep- ção, se mostraram diretamente ligadas ao BEP, juntamente com a autoeficácia, que seria a capacidade de produção e auto sustento. Portanto, no caso de agricultores, estaria ligado ao domínio do ambiente; o que aparece na pesquisa de Rabelo e Torres (2005) com os trabalhadores de saúde, que aderiram ao paradigma biológico, proporcionando autoeficácia, com controle do ambiente. Percebeu-se, no estudo de Estramiana et al (2012), um aspecto importante para o BEP diante de situações estressoras, como o desemprego e a compreensão de autonomia, vinculada a auto responsabilidade, que os trabalhadores que atribuíam causas fatalistas e individualistas à perda do emprego tinham um maior BEP, mesmo não tendo o controle total do ambiente, mas colocando-se como corresponsáveis, não se percebendo como vítimas de causas externas (sociais e fatalistas). O estudo de Boeckel e Sarriera (2006) considera a satisfação com a vida, ligada a uma avaliação cognitiva das circunstâncias junto com os sentimentos e humor, portanto aspectos afetivos, que são componentes do BEP. Resultado análogo encontramos no estudo de Faro (2012), que conclui que os mes- trandos e doutorandos que lidam com as circunstâncias estressoras no modelo do foco no problema, que se refere a uma mobilização cognitiva, pautado em ações, têm um maior BEP, assumindo o controle mínimo necessário do ambiente. Por outro lado, a pesquisa com os estudantes de psicologia e a relação da religiosidade e as abordagens psicológicas, resultou na constatação de que há uma relação entre o Bem- Estar (psicológico e subjetivo) e a religiosidade, e que a rede de apoio familiar e da comuni- dade religiosa possibilita maior resiliência diante dos questionamentos e conflitos entre as 26 27 Psicologia e Saúde: pesquisa, aplicações e estudos interdisciplinares - ISBN 978-65-5360-208-3 - Vol. 2 - Ano 2022 - Editora Científica Digital - www.editoracientifica.com.br abordagens psicológicas e as afirmações e convicções religiosas; desta forma, percebe-se que a espiritualidade é um aspecto que influencia positivamente o Bem-Estar do ser humano. Um outro aspecto que foi ressaltado nas pesquisas está relacionado ao envelhecimen- to. O estudo de Freitas e Barbosa (2015), que avaliou a Qualidade de Vida (QV) de mulheres no climatério vinculando ao processo de envelhecimento, apesar de não ser em uma fase idosa, considerando que o estudo trouxe uma população de 39 a 63 anos de idade. Ficou claro que o BEP estava ligado à redução dos sintomas, causado pela diminuição da função ovariana, reduzindo significativamente a produção de hormônios sexuais femininos. Mais uma vez temos, neste estudo, a constatação de que o domínio do meio ambiente é um dos fatores que potencializam o BEP, assim como outros elementos psicossociais, além da presença de afetos positivos, que a Terapia Hormonal (TH) possibilitou. A preocupação com a Qualidade de Vida (QV) foi importante nos estudos com o Bem- Estar entre os idosos. Esses estudos revelaram que a maturidade, que é uma qualidade do repertório que orienta a pessoa para a autorrealização e a autopercepção positiva, regula as experiências positivas e negativas, saudáveis e dificultosas, com a finalidade de ajustá-las às realidades externas e internas das pessoas, contribuindo para o BEP, pois isso melhora consideravelmente a QV. Uma estratégia para a melhora da QV, mesmo em situações de enfermidade limitante, como Acidente Vascular Cerebral (AVC), é o treino cognitivo em relação às funções psíqui- cas: atenção, memória, inteligência, resolução de problemas, outras funções executivas e linguagem. Com isso melhora o BEP, que por sua vez melhora a percepção positiva da QV. As relações sociais, que hoje podem ser intermediadas pela tecnologia, são outro fator importante para o BEP e BES (CACHIONE, 2021; ALMEIDA et al. 2019). Assim, vemos que uma percepção do envelhecimento com bons níveis de BEP e BES deve combinar fatores individuais e coletivos, que não significa a ausência de enfermida- des, mesmo as limitantes, mas passa pelo cuidado das condições funcionais psíquicas e afetivas, QV e do desenvolvimento pessoal e interpessoal, bem como a autonomia e o domínio do ambiente. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os estudos revelam que a compreensão de BEP e BES está diretamente ligada à ideia de Felicidade. Para alguns há uma identidade de BEP com felicidade eudaimônica e BES com felicidade hedônica (SIQUEIRA; PADOVAM, 2008); para outros há uma equivalência de BES com Felicidade (FARO, 2012); para outros, ainda, há uma correlação de Bem-Estar com a Felicidade, mas a primeira não encerra a segunda, é, contudo, uma parte importante dela (RABELO; NERI, 2006). 28 Psicologia e Saúde: pesquisa, aplicações e estudos interdisciplinares - ISBN 978-65-5360-208-3 - Vol. 2 - Ano 2022 - Editora Científica Digital - www.editoracientifica.com.br Percebemos, portanto, que a felicidade, enquanto construto psicológico, pode ser com- preendida de duas formas, segundo os estudos apresentados; a primeira como felicidade hedônica, que estaria mais próxima do Bem-Estar Subjetivo e a segunda, como felicidade eudaimônica, que estaria mais próxima do Bem-Estar Psicológico. Serão necessários, certamente, ainda mais estudos para compreender melhor a relação do BEP e do BES com a Felicidade, estabelecendo com mais clareza o que significa cada um desses construtos e seus aspectos na vida do ser humano. REFERÊNCIAS 1. ALMEIDA, Carlos et al. Utilização de novas tecnologias por idosos institucionalizados. Motricidade, v. 15, n. 4, p. 31-35, 2019. 2. ARAUJO, LudgleydsonFernandes de. A psicologia positiva como fomentadora do bem-estar e da felicidade. Psicol. estud., Maringá , v. 18, n. 4, p. 753-755, Dec. 2013 . 3. ARIAS, Patricio R.; GARCIA, Felipe E. Propiedades psicométricas de la Escala de Satisfacción con la Vida en población ecuatoriana adulta. Pensam. psicol., Cali , v. 16, n. 2, p. 21-29, Dec. 2018. 4. BOECKEL, M. G.; SARRIERA, J. C. Estilos Parentais, Estilos Atribucionais e Bem-Estar Psicológico em Jovens Universitários. Rev Bras Crescimento Desenvolv Hum. São Paulo, 16(3):53-65, 2006. 5. CACHIONI, Meire. 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