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1 GESTÃO EM ESPAÇOS ESCOLARES E INSTITUIÇÕES EDUCATIVAS Karla Saraiva NESTE CAPÍTULO VOCÊ IRÁ APRENDER: ● A contextualizar historicamente o surgimento da gestão em ambientes educativos; ● A planejar processos de gestão em escolas e ambientes não escolares; ● A reconhecer a importância do planejamento e da gestão para o bom funcionamento dos ambientes educativos. INTRODUÇÃO Este capítulo trata da gestão em ambientes educativos. Ele começa fazendo uma breve discussão sobre o significado e a origem do conceito de administração, como este conceito aportou na área de Educação e como ele acaba por se transformar em gestão. 2 Após esta contextualização, o capítulo apresenta algumas diretrizes para a gestão escolar, tomando como base a ferramenta de gestão PDCA (planejar-implementar-monitorar-agir), destacando a importância do planejamento para o processo de gestão em suas múltiplas dimensões. O capítulo se encerra com algumas considerações sobre gestão em ambientes não escolares. Tendo em vista a multiplicidade de instituições que cabem nesta definição, são apontados os princípios gerais, que convergem para os princípios da gestão escolar. Bons estudos! GESTÃO EM ESPAÇOS ESCOLARES E NÃO ESCOLARES A noção de administração surge no início do século XX, no contexto da chamada segunda Revolução Industrial. Nesta época, vai se desenhando uma concepção de que as atividades produtivas só poderiam ser bem sucedidas a partir do desenvolvimento de um planejamento e da execução deste plano. O estadunidense Frederick Winslow Taylor é considerado o “pai da Administração” e suas obras inspiraram o modelo fordista de produção industrial, implantado em 1914, que consistia na decomposição da produção em tarefas simples, organizadas em uma linha de montagem. Também, nesta mesma época, o francês Henri Fayol desenvolveu estudos na área, porém seu foco não era a organização da produção, mas a direção da empresa (CUNHA, 2014). https://servicos.ulbra.br/BIBLIO/PPGEDUM179.pdf 3 Fábrica de automóveis Ford com organização taylorista (1934). Fonte: pxhere Gradativamente, esta ideia vai migrando para o campo educacional, consolidando o entendimento de que as escolas só teriam um bom funcionamento e alcançariam seus objetivos com ações administrativas. No Brasil, estas discussões se iniciam a partir de 1930. Nesta época, sob a presidência de Getúlio Vargas, o país inicia a implantação de políticas públicas nacionais na área de Educação e passa por um processo de modernização, com incentivos à industrialização do país, o que demandava o uso de técnicas administrativas. É neste contexto que Anísio Teixeira faz seus primeiros escritos sobre a administração da educação. https://pxhere.com/pt/photo/621856 4 Entretanto, apesar de nos anos 1930 já terem sido iniciadas as discussões sobre o tema, a administração da educação só ganhará força na década de 1950. Nesta época, foi se desenhando internacionalmente o conceito de país subdesenvolvido, sendo que o Brasil estava incluído nesta categoria. O desenvolvimento seria alcançado com a industrialização do país, tornando necessário avançar na oferta de educação para a população, o que somente seria possível com uma eficiente administração educacional. A partir destas discussões, em 1961, foi fundada a Associação Nacional de Política e Administração da Educação (ANPAE), que publicou, entre 1961 e 1982 os Cadernos de Administração Escolar, uma série de publicações que foi um marco nacional na produção de conhecimento nesta área (KLAUS, 2016). Contudo, nos últimos anos, é possível observar um deslocamento da administração para a gestão, não apenas na área educacional, mas de modo mais amplo. O conceito de administração baseia-se em uma concepção centralizada e rígida, em que o planejamento é desenvolvido por instâncias superiores, restando aos níveis hierárquicos inferiores sua implementação de modo fiel. No caso da administração educacional, os planos eram desenvolvidos por entidades como secretarias ou o ministério de educação, devendo ser executados pelas escolas. Este conceito era adequado em uma sociedade em que a inovação e as mudanças eram muito lentas e que se poderia imaginar um futuro previsível e estável. Desde os anos 1990, este cenário vem se transformando. O mundo contemporâneo é marcado pela volatilidade e pela mudança rápida e https://plataforma.bvirtual.com.br/Leitor/Loader/41702/pdf https://plataforma.bvirtual.com.br/Leitor/Loader/41702/pdf 5 contínua. Planos rígidos e centralizados perdem sua eficácia. A administração se reformula em gestão, uma forma de planificar mais dinâmica e flexível, que conta com uma maior participação de todos envolvidos no processo (KLAUS, 2016). A descentralização do poder não se limita a uma redistribuição entre entes federativos, dando maior destaque aos Estados e municípios. Ela significa incluir docentes e comunidade escolar nas tomadas de decisão nas escolas. Esta tendência também aparece no caso de gestão em espaços não escolares. O gestor de ambientes educativos, mais do que um papel de comando, deve ser um líder com capacidade de dialogar e construir os processos de gestão de forma coletiva. A liderança do gestor propicia um trabalho pedagógico vigoroso, com um engajamento potente da comunidade educacional. GESTÃO EM ESPAÇOS ESCOLARES Conforme já vimos, a LDBEN determina que a Educação Básica tem por objetivos a formação para o exercício da cidadania e para o trabalho, bem como o desenvolvimento que capacite os alunos a prosseguir seus estudos em nível superior. Para que ela possa atingir estes objetivos gerais, bem como outros objetivos específicos determinados pela comunidade escolar ou pelas redes de ensino, é fundamental uma boa gestão escolar. O principal responsável por liderar a gestão escolar é o diretor, que, em geral, conta com um vice-diretor. Outro profissional que está presente em boa parte das escolas é o coordenador pedagógico, que tem como funções 6 acompanhar a implantação do projeto político-pedagógico da escola, planejar a formação continuada dos professores, identificar problemas com a aprendizagem dos alunos e organizar reuniões pedagógicas com os pais, entre outras. Algumas escolas contam, ainda, com o orientador educacional, que é responsável pela articulação entre docentes, discentes e pais. Este conjunto de profissionais compartilha as responsabilidades por construir um processo de gestão democrático e inclusivo para a escola. Uma das principais ferramentas de gestão atualmente utilizada é o chamado Ciclo PDCA, que tem por objetivo um aprimoramento contínuo da instituição. Embora seja uma ferramenta geral, veremos a seguir como ela pode ser utilizada na gestão escolar (SILVA et al., 2019). O Ciclo PDCA tem sua sigla originária da língua inglesa: P – plan (planejar); D – do (implementar); C – check (monitorar); A – act (agir). Ou seja: planeja- se, implementa-se o planejamento, faz-se um monitoramento para detectar problemas na implementação e realizam-se intervenções com vistas a superar os problemas encontrados. https://periodicos.ufsm.br/regae/article/view/36102/pdf 7 Ciclo PDCA. Fonte: autora. O PDCA constitui-se um ciclo, pois cada uma de suas ações não devem ser vistas como etapas sucessivas e estanques, mas processos em movimento e em permanente aprimoramento. A seguir, discutimos cada uma das ações no contexto da gestão escolar. Planejamento educacional Planejar é um ponto fundamental para o bom funcionamento da educação. Ele envolve o desenvolvimento de uma metodologia para atingir determinados objetivos. O planejamento pedagógico envolve múltiplos níveis: o desenvolvimento e a atualização do Projeto Político-Pedagógico (que deve contar com a colaboração de toda comunidade escolar, como veremosquando comentarmos a Gestão democrática e participativa); os 8 planos de ensino, que são planejamentos de médio prazo desenvolvidos pelo corpo docente, preferencialmente de modo colaborativo; os planos de aula, em que o professor detalha o que será feito em cada aula. Entretanto, reconhecer a importância do planejamento não significa que os planos devam ser seguidos a qualquer preço. Corazza (1997) nos traz uma importante discussão para compreender a importância e os limites do planejamento, indicando que planejar é a condição que torna possível criar novas práticas que transformam a escola. Ainda dentro do planejamento, a gestão escolar exige planos relacionados à gestão administrativa e de pessoas, sendo necessário planejar a utilização de recursos financeiros, a aquisição e manutenção de equipamentos e instalações, o provimento dos cargos de docência e de funções administrativas, entre outros. Este planejamento deve ser elaborado com participação da comunidade escolar. Implementação do planejamento escolar Os diversos planos desenvolvidos devem ser implementados. A implementação destes planos envolve diversas dimensões, que seriam, segundo Lück (2009), seis: gestão pedagógica; gestão democrática e participativa; gestão de pessoas; gestão administrativa; gestão da cultura escolar; gestão do cotidiano escolar. https://plataforma.bvirtual.com.br/Leitor/Loader/2337/pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2190198/mod_resource/content/1/dimensoes_livro.pdf 9 Dimensões da implementação do planejamento escolar. Fonte: autora. A gestão pedagógica é a dimensão central no processo de implementação e todas as outras devem estar subordinadas. Ela está relacionada com o acompanhamento da implementação do PPP em relação a questões curriculares, didáticas e avaliativas, tendo por foco aprimorar as aprendizagens dos alunos. É também incumbência da gestão pedagógica orientar os processos de inclusão escolar e promover a realização de projetos interdisciplinares, entre outras atribuições. A gestão democrática e participativa é uma conquista importante e será tratada com mais detalhes no próximo capítulo. A gestão de pessoas está orientada para o estímulo a um ambiente pautado pelo diálogo, pelo comprometimento, pelo bom relacionamento interpessoal e pelo trabalho colaborativo. Também diz respeito ao desenvolvimento de competências de 10 professores e funcionários, por meio de processos de formação continuada, e de uma cultura de autoavaliação para aprimoramento das práticas escolares. A gestão administrativa está relacionada com a gestão dos recursos necessários para o bom funcionamento da escola. Abrange a gestão dos recursos financeiros e materiais, a organização da documentação, a manutenção e a limpeza da escola, a aquisição de materiais e equipamentos, entre outros. A cultura escolar é uma construção coletiva, a partir do acúmulo de experiências compartilhadas. Ela é constituída pela história da instituição, por sua relação com a comunidade externa, pela dinâmica das interações internas e pelo modo como são tomadas decisões e enfrentam-se os desafios. Em suma, a cultura escolar representa normas informais de conduta que podem beneficiar ou prejudicar a escola. A gestão da cultura escolar requer uma ação de liderança junto à comunidade, promovendo reflexões sobre seus valores e suas práticas, de modo a produzir transformações positivas. Por fim, a gestão do cotidiano escolar está voltada à promoção de rotinas e práticas cotidianas alinhadas com os objetivos estabelecidos nos planejamentos, cuidando para que haja um bom aproveitamento do tempo, que as atribuições de cada um estejam sendo cumpridas, que os relacionamentos sejam positivos, que o espaço esteja organizado. Para tanto, os gestores devem fazer-se presentes e estabelecer relacionamentos de confiança com os diversos segmentos da comunidade escolar. 11 Monitoramento de processos e avaliação institucional No processo de planejamento, a comunidade deve discutir as metodologias de avaliação da aprendizagem e do desenvolvimento institucional que serão adotadas. Embora algumas teorias curriculares oponham-se a que se monitore a aprendizagem, em nome da pluralidade e da importância das questões sociopolíticas, entendo, junto com Lück (2009), que seja um equívoco. A escola tem uma função formativa mais ampla, sem dúvida, mas a condição de não aprendizagem prejudica não apenas a formação para o trabalho, como também o exercício da cidadania. Para que alguém possa se posicionar criticamente frente ao mundo precisa estar apetrechado com um sólido letramento e numeramento, bem como com conhecimentos das ciências humanas e da natureza. A avaliação da aprendizagem deve pautar- se por uma perspectiva formativa, evitando reduzi-la apenas a modelos de avaliação que mensuram o desempenho dos alunos. A avaliação formativa deve ter monitoramento por parte da gestão, junto com os docentes, para poder detectar falhas no processo. A avaliação da aprendizagem, em termos de gestão, não deve ter por principal foco os indivíduos, mas localizar as falhas de modo mais amplo. Existem resultados insuficientes em alguma componente curricular, em algum ano, em alguma turma? Existem diferenças significativas nos resultados de grupos de diferentes etnias, composições familiares, gênero ou condições socioeconômicas? Em caso afirmativo, o que estaria https://educacao.imaginie.com.br/avaliacao-formativa/ 12 causando estes problemas? Estas são algumas das questões a serem colocadas para o monitoramento. Além dos processos de avaliação interna da aprendizagem, a gestão escolar exige atenção às avaliações externas. Este tema será discutido com maiores detalhes no próximo capítulo. O monitoramento dos processos, ainda que enfatize a avaliação da aprendizagem, também deve ser estendido às outras dimensões da gestão, que contribuem para que a escola possa atingir seus objetivos. É importante, neste sentido, estabelecer um plano com indicadores e metas para as diversas dimensões, atribuindo responsabilidades em relação a este monitoramento. A prática de monitoramento contínuo dos processos de implementação é condição para que a escola possa cumprir seu principal objetivo, a saber, oportunizar aos alunos uma formação de qualidade. Intervenções corretivas A partir do monitoramento das ações de implementação, é possível detectar os problemas da escola, seja por meio do não cumprimento das metas, seja por observações qualitativas dos gestores escolares. A partir destes dados, é necessário planejar intervenções para correção das falhas. Os gestores devem liderar este processo, porém a construção deve ser coletiva, envolvendo a comunidade escolar. Os problemas detectados no monitoramento devem ser expostos e promovido um diálogo com os diversos segmentos para estabelecer as intervenções a serem 13 implementadas. Neste sentido, existe aqui uma nova etapa de planejamento, reiniciando-se o ciclo do PDCA. GESTÃO EM ESPAÇOS NÃO ESCOLARES Atualmente, já existe um reconhecimento de que as aprendizagens já não estão restritas às instituições de ensino formal. Na chamada sociedade da aprendizagem, formou-se um entendimento de que se aprende por diversos meios. A vertente dos Estudos Culturais em Educação utiliza o conceito de pedagogias culturais (ANDRADE; COSTA, 2015) para designar os diversos artefatos que produzem significados sobre as práticas e sobre os sujeitos, mesmo sem haver uma necessária intencionalidade. Constituem-se como pedagogias culturais filmes, músicas, programas de TV, jogos, redes sociais, e outros artefatos de nossa cultura. Porém, os chamados espaços não escolares desenvolvem práticas educativas que diferem das pedagogias culturais por terem uma intencionalidade pedagógica. Existeuma multiplicidade de instituições que, mesmo não estando ligadas ao sistema formal de ensino, desenvolvem práticas educativas sistematizadas. Entre outras, destacam-se empresas que têm programas de formação corporativa, ONGs, sindicatos e movimentos sociais. De acordo com a Resolução CNE/CP n. 1/2006 (BRASIL, 2006), que estabelece as diretrizes curriculares para os Cursos de Pedagogia, estes https://www.youtube.com/watch?v=eFFOz2almSg https://www.youtube.com/watch?v=eFFOz2almSg https://www.youtube.com/watch?v=eFFOz2almSg http://www.periodicos.ulbra.br/index.php/txra/article/viewFile/1501/1140#:~:text=Na%20an%C3%A1lise%2C%20procuramos%20evidenciar%20como,articula%C3%A7%C3%A3o%20entre%20Estudos%20Culturais%20e http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/rcp01_06.pdf 14 profissionais também podem atuar nestes espaços não escolares, constituindo-se um outro campo de trabalho. Basicamente, a atuação em gestão dos espaços não escolares estará pautada nos mesmos princípios daquela em espaços escolares, podendo ser pautada no ciclo PDCA. É necessário desenvolver um planejamento para atingir os objetivos educativos propostos, desenhando cursos ou programas de formação. Este planejamento será realizado coletivamente, envolvendo os colaboradores da instituição. O pedagogo se utiliza de seus saberes para orientar em direção a uma organização que permita uma prática pedagógica produtiva (CALEGARI-FALCO; MOREIRA, 2017). As dimensões relacionadas com a implementação terão variações em relação àquelas da escola, sendo que algumas podem ser assumidas por outros setores da instituição. Assim como nas escolas, é necessário um plano de monitoramento contínuo e a construção de intervenções para sanar as falhas que forem detectadas. REFERÊNCIAS ANDRADE, Paula; COSTA, Marisa. Usos e possibilidades do conceito de pedagogias culturais nas pesquisas em Estudos Culturais em: Educação. Textura, v.17, n.34, p.48-63, mai./ago. 2015. Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2021. https://www.bts.senac.br/bts/article/view/417/377 https://tinyurl.com/1eyq6u27 15 BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP nº 1, de 15 de maio de 2006. Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2021. CALEGARI-FALCO, Aparecida; MOREIRA, Jani. A gestão do trabalho pedagógico em: espaços escolares e não escolares. Boletim Técnico Senac, v. 43, n. 1, p. 256-273, jan./abr. 2017. Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2021. CORAZZA, Sandra. Planejamento de ensino como estratégia de política cultural. In: MOREIRA, Antonio Flavio. Currículo: questões atuais. Campinas, SP: Papirus, 1997. p. 103-143. Disponível na Biblioteca Virtual. CUNHA, Jeferson. Guia Você S/A Exame – As Melhores Empresas Para Trabalhar ensinando novas práticas de gestão de pessoas. 2014. Dissertação (Mestrado em Educação) – ULBRA, Canoas/RS. Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2021. KLAUS, Viviane. Gestão & Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2016. Disponível na Biblioteca Virtual. LÜCK, Heloísa. Dimensões da gestão escolar e suas competências. Curitiba: Positivo, 2009. Disponível em: . Acesso em: 30 jan. 2021. SILVA, Ronilson; OLIVEIRA, Erinaldo; SÁ FILHO, Paulo; NASCIMENTO E SILVA, Daniel. 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