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EDUCAÇÃO DAS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS AULA 7 - EDUCAÇÃO MULTICULTURAL E DIRETRIZES BÁSICAS DA LEI BRASILEIRA Prezado(a) aluno(a), O Brasil é composto por uma variedade de grupos étnicos que convivem uns com os outros. Alguns desses grupos são nativos do território brasileiro, como os indígenas, enquanto outros chegaram por meio do processo de colonização. Cada uma dessas etnias traz uma cultura única, que abrange modos distintos de compreender o mundo e de viver em sociedade, o que representa um desafio para a convivência e a construção de uma identidade nacional. Na presente aula, serão analisados os desafios que existem para garantir a representação de todos os grupos étnicos no ambiente educacional brasileiro. Analisaremos ainda a relevância de desenvolver uma educação multicultural. E por fim, serão apresentadas as iniciativas que podem facilitar melhores relações entre estudantes de diferentes grupos étnicos nas escolas. Bons estudos! 7 EDUCAÇÃO MULTICULTURAL NO BRASIL: DESAFIOS E POSSIBILIDADES Para iniciar os estudos sobre uma educação que inclua todos os grupos étnicos do país, é fundamental compreender o conceito de cultura sob uma perspectiva antropológica e sociológica. Isso colabora na compreensão dos desafios que precisam ser enfrentados para que a educação multicultural se concretize. Segundo Burke (2005), o conceito de cultura passou por diversas transformações ao longo do tempo. Inicialmente, ele se opunha aos fenômenos da natureza e estava relacionado aos artefatos criados pelo ser humano. Com o tempo, esse conceito evoluiu para abranger as práticas e tradições que caracterizam a humanidade, incluindo elementos que diferenciam diferentes classes sociais. Dessa forma, algumas classes passaram a ser vistas como mais elitizadas, possuindo uma “cultura” superior em relação a outras, com acesso a aspectos acadêmicos e eruditos, como as artes, a literatura e as obras clássicas. Em contrapartida, outras classes foram associadas a uma cultura popular, considerada de “menor valor”. A partir do século XX, o mundo vivenciou um fenômeno conhecido como virada cultural, no qual o conceito de cultura começou a abranger todos os setores da sociedade. Isso inclui um conjunto de práticas discursivas (o que é dito) e não discursivas (o que é feito) que estão presentes em um determinado grupo étnico e que geralmente são ensinadas e transmitidas às gerações futuras. Ainda de acordo com Burke (2005), cultura também pode ser entendida como um sistema que integra, diferencia e serve de referência para organizar e dar significado às atividades de seus membros. Em outras palavras, por meio da cultura dos grupos aos quais pertencem, as pessoas desenvolvem sua identidade cultural. A partir disso, elas se sentem parte desses grupos e passam a estruturar suas vidas e ações cotidianas com base no que aprendem com os outros membros. Reforçando o conceito em comento, Moreira (2008, p. 27), pondera que: “Cultura identifica-se, assim, com a forma geral de vida de um dado grupo social, com as representações da realidade e as visões de mundo adotadas por esse grupo”. Assim, é possível afirmar que todos os indivíduos são moldados na sociedade por meio de sua cultura, aprendendo a interpretar o mundo e a desenvolver seu pensamento a partir de um conjunto de ideias que são transmitidas pelos grupos com os quais interagem, os quais estabelecem regras de convivência. Esses grupos oferecem papéis a serem desempenhados, que ajudam a formar suas subjetividades. A partir dessas reflexões sobre os conceitos de cultura, faz-se necessário compreender o conceito de colonialismo. Segundo Quijano (2007, p. 93): “A colonialidade é um dos elementos constitutivos e específicos do padrão mundial do poder capitalista. Funda-se na imposição de uma classificação racial/étnica da população mundial como pedra angular deste padrão de poder”. Quando o Brasil foi conquistado pelos portugueses, seguindo a tradição do processo de expansão europeu durante a era das grandes navegações, começou a se estabelecer uma hierarquia de privilégios. Surgiu, assim, uma desigualdade de valor e poder entre as etnias envolvidas no processo de colonização. Nesse cenário, as etnias europeias detinham mais força e prestígio em comparação às demais. É importante notar que os "descobridores" portugueses, ao encontrarem os indígenas, os rotularam como selvagens e sem cultura, o que levou à determinação de que deveriam ser catequizados e civilizados segundo os padrões europeus. Assim, com a colonização, foi instaurada uma classificação étnico-racial severa e desigual. Os europeus (brancos) eram vistos como cultos, ricos e poderosos, enquanto os indígenas eram considerados selvagens e desprovidos de cultura. Por sua vez, os africanos e seus descendentes eram tratados como propriedade, sendo explorados por meio de sua força de trabalho. A crença monocultural de que apenas a cultura europeia tinha valor e deveria ser disseminada entre todos criou as condições para a escravização de outros grupos étnicos, como indígenas e negros. Oliveira e Candau (2010), descrevem essa colonialidade do poder como uma estrutura de dominação que subjugou a América Latina, a África e a Ásia desde o período de conquista. Essa ideia se refere à invasão do imaginário do "outro", ou seja, à sua ocidentalização. Mais especificamente, diz respeito a um discurso que se insere no mundo do colonizado, porém também se reproduz no lócus do colonizador. Nesse sentido, o colonizador destrói o imaginário do outro, ou seja, invisibiliza-o e subalternaliza-o, enquanto reafirma o próprio imaginário (OLIVEIRA; CANDAU, 2010, p. 19). Uma das maneiras de tornar invisíveis e subalternas as culturas consideradas de menor importância é através da elaboração de um currículo escolar que silencia o conhecimento das especificidades dessas culturas, promovendo uma única cultura como a principal. Sob essa ótica, os ensinamentos são ministrados apenas em relação à cultura central, adotando uma abordagem etnocêntrica. Assim, os conteúdos escolares escolhidos para serem abordados em sala de aula também cumprem a função de reforçar os aspectos coloniais. Essa realidade perdurou no Brasil até recentemente, uma vez que a discussão sobre educação multicultural começou a ganhar espaço apenas nas últimas décadas, após a promulgação da Constituição Federal de 1988. Esse ainda é um dos principais desafios da educação brasileira: reconhecer as singularidades e a relevância cultural de cada grupo étnico na formação das identidades dos cidadãos que compõem a nação. Ao explorar o conceito de multiculturalismo, é fundamental compreender que: O multiculturalismo é o jogo das diferenças, cujas regras são definidas nas lutas sociais por atores que, por uma razão ou outra, experimentam o gosto amargo da discriminação e do preconceito no interior das sociedades em que vivem [...]. Isto significa dizer que é muito difícil, se não impossível, compreender as regras desse jogo sem explicitar os contextos sócio- históricos nos quais os sujeitos agem, no sentido de interferir na política de significados em torno da qual dão inteligibilidade a suas próprias experiências, construindo-se enquanto atores (GONÇALVES; SILVA, 2001, p. 111). A identidade dos indivíduos é moldada por suas experiências culturais, caracterizando um processo socio-histórico. É a partir das diferenças entre o indivíduo e aqueles que estão ao seu redor que se dá a sua subjetivação, ou seja, o processo de se tornar quem realmente é. Embora as diferenças sejam fundamentais para a formação das identidades, elas não devem ser utilizadas como critério para emitir juízos de valor sobre as pessoas. A educação multicultural visa desmantelar essespadrões que se formaram ao longo das décadas, os quais privilegiaram determinados grupos étnicos, conferindo-lhes maior força e poder para estabelecer as normas de convivência social para os demais. Discutir a educação multicultural implica reconhecer sua relevância como um processo político. Silvério (2000), observa que: [...] a política multicultural e seus compromissos com a diversidade eclodiram de uma história de luta conflituosa e da resistência organizada pelas minorias em sua busca incessante da transformação da sociedade. Um terreno de luta em torno da reformulação da memória histórica, da identidade nacional, da representação individual e social, bem como da política da diferença (SILVÉRIO, 2000, p. 86). Buscar uma educação que abrace a diversidade cultural presente no Brasil significa, portanto, reescrever a própria história nacional, revisitando e ensinando essa história de maneira a enfatizar as correções necessárias, com o objetivo de incluir todos os grupos étnicos minoritários, especialmente em termos de acesso e oportunidades de vida social. Isso implica desconstruir a visão etnocêntrica e idealizada dos descobridores portugueses, que por muito tempo foram celebrados por suas ações, enquanto outros grupos étnicos, como os indígenas e os negros, foram historicamente invisibilizados e subalternizados. 7.1 Os esforços para a construção de uma educação multicultural no Brasil A educação multicultural no Brasil surgiu em sintonia com as tendências de movimentos que ocorreram em diversas áreas da sociedade, como arte, literatura, sociologia e nos movimentos sociais das minorias. Assim, existem documentos que foram fundamentais para garantir a representação das diversas culturas no ambiente escolar. A seguir, apresentamos os marcos legais da educação multicultural no Brasil: • Constituição Federal (1988) • Estatuto da Criança e do Adolescente (1990); • Parâmetros Curriculares Nacionais (1997) • Lei nº. 10.639/2003 • Lei nº. 11.645/2008 Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica: diversidade e inclusão (2013) • Base Nacional Comum Curricular (2017). A Constituição Federal de 1988 inclui diversos artigos que promovem o caráter plural da cultura nacional, afirmando em seu artigo 5º que: “[...] todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza [...]” (BRASIL, 1988, documento online). Além disso, o mesmo artigo assegura a liberdade de consciência e de crença — seja religiosa, filosófica ou política — e a livre expressão de atividades intelectuais e artísticas. Como você pode notar, os aspectos culturais dos diferentes grupos étnicos foram especialmente destacados no texto constitucional. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) reforça a importância do respeito e da garantia dos direitos de todos, sem distinção, ao afirmar, em seu artigo 5º, que: “Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais” (BRASIL, 1990, documento online). Para assegurar os direitos fundamentais de todos os grupos étnicos que compõem a população brasileira, garantindo igualdade de condições e respeito pelas suas diferenças, é essencial envolver a escola nesse processo. Através da educação, é possível ensinar crianças e jovens a manter um convívio social saudável, que é de extrema importância. Com o intuito de alcançar esse objetivo, em 1997, e buscando atender às discussões internacionais ocorridas em Jomtien, na Tailândia, o Ministério da Educação desenvolveu o Parâmetro Curricular Nacional (PCN) denominado “Pluralidade Cultural”, que aborda o: [...] conhecimento e à valorização de características étnicas e culturais dos diferentes grupos sociais que convivem no território nacional, às desigualdades socioeconômicas e à crítica às relações sociais discriminatórias e excludentes que permeiam a sociedade brasileira, oferecendo ao aluno a possibilidade de conhecer o Brasil como um país complexo, multifacetado e algumas vezes paradoxal (BRASIL, 1997, p. 121). A educação é chamada, conforme os PCNs (1997, p. 137), a: “[...] combater, no âmbito das atitudes, a discriminação expressa por meio de gestos, comportamentos e palavras, que exclui e estigmatiza grupos sociais”. É dentro das escolas que as relações sociais entre os diversos grupos étnicos podem ser trabalhadas para promover interações mais respeitosas e tolerantes. A proposta é valorizar as diferenças que formam os indivíduos, em vez de utilizá-las de maneira negativa, como na geração de discriminações e diversas formas de violência. Uma das vitórias do movimento negro no Brasil ocorreu em 2003, com a promulgação da Lei nº 10.639/2003, que modificou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 (LDB), em específico o artigo 26-A. Com isso, foi estabelecida a obrigatoriedade do “[...] ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira” (BRASIL, 2003, documento online) nas escolas de educação fundamental e média, tanto públicas quanto privadas. A Lei em comento tem como objetivo resgatar a presença histórica das etnias afrodescendentes nos currículos escolares brasileiros, e em seu §1º, especifica os conteúdos programáticos a serem abordados: [...] o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil (BRASIL, 2003, documento online). Mencionada lei colaborou de forma positiva na promoção da educação multicultural no Brasil, especialmente em relação aos afrodescendentes, cuja história, em decorrência do processo colonial, muitas vezes foi desvalorizada ou ignorada nos livros didáticos. Seguindo a mesma linha, a Lei nº 11.645 (BRASIL, 2008) também fez uma nova alteração na LDB de 1996, ao incluir a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura indígenas nos currículos escolares. Com isso, estabelece-se um marco legal que busca igualar, corrigir e reparar as disparidades étnicas presentes nos currículos, que, com frequência, apresentavam um viés monocultural e etnocêntrico, exaltando as etnias europeias na formação da sociedade brasileira. É necessário, alinhando-se ao pensamento de Gomes (2012), descolonizar os currículos escolares no Brasil, conforme ele menciona: Descolonizar os currículos é mais um desafio para a educação escolar. Muito já denunciamos sobre a rigidez das grades curriculares, o empobrecimento do caráter conteudista dos currículos, a necessidade de diálogo entre escola, currículo e realidade social, a necessidade de formar professores e professoras reflexivos e sobre as culturas negadas e silenciadas nos currículos (GOMES, 2012, p. 102). É fundamental que os educadores reconheçam a importância de incluir todos os grupos étnicos nas discussões e nos conteúdos abordados em sala de aula. Eles precisam entender que, essa abordagem de ensino e esses elementos curriculares diferem daquelas que experimentaram durante sua formação inicial, caracterizada por um currículo influenciado por ideias europeias. Essa “[...] descolonização do currículo implica conflito, confronto, negociações” (GOMES, 2012, p. 107) para que se crie algo inovador e eficaz no aprimoramento das relações interculturais na escola e, por extensão, em toda a sociedade. Assim, é viável promover uma transformação social que a torne menos racista e discriminatória. Em 2013, visando consolidar as regulamentações que promovem a aceitação da diversidade cultural e a implementação de uma educação multicultural focada no ensino das relações étnico-raciais nas escolas brasileiras, o Ministério da Educação apresentou as DiretrizesCurriculares Gerais da Educação Básica: diversidade e inclusão. Essas diretrizes buscam abranger todas as modalidades educacionais, reconhecendo que a educação de qualidade é um direito de todos e que “[...] torna-se inadiável trazer para o debate os princípios e as práticas de um processo de inclusão social, que garanta o acesso à educação e considere a diversidade humana, social, cultural, econômica dos grupos historicamente excluídos” (BRASIL, 2013, p. 7). As Diretrizes Curriculares Nacionais (2013) procuram abranger as: [...] questões de classe, gênero, raça, etnia, geração, constituídas por categorias que se entrelaçam na vida social, mulheres, afrodescendentes, indígenas, pessoas com deficiência, populações do campo, de diferentes orientações sexuais, sujeitos albergados, em situação de rua, em privação de liberdade, de todos que compõem a diversidade que é a sociedade brasileira e que começam a ser contemplados pelas políticas públicas (DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS, 2013, p. 7). Recentemente, com a implementação da Base Nacional Comum Curricular de 2017 (BNCC), as questões relacionadas à diversidade cultural foram novamente destacadas, como pode ser observado em uma das competências gerais da BNCC: Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza (BRASIL, 2017, documento online). A BNCC se alinha com os conceitos do multiculturalismo e do respeito à diversidade cultural, porém Walsh (2001) vai um pouco além ao valer-se do termo “interculturalidade”. Para esse autor, a interculturalidade é “[...] um espaço de negociação e de tradução onde as desigualdades sociais, econômicas e políticas, e as relações e os conflitos de poder da sociedade, não são mantidos ocultos e sim reconhecidos e confrontados” (WALSH, 2001, p. 10). Assim, não é suficiente apenas reconhecer, respeitar e tolerar a presença dos diversos grupos étnicos que formam a nação. É necessário enfrentar as profundas desigualdades sociais que ainda afetam de maneira mais acentuada alguns desses grupos em comparação com os outros, visando promover maior equidade e justiça. 7.2 Iniciativas multiculturais nas escolas As pessoas se formam como sujeitos a partir de suas vivências culturais. Através dessas experiências, elas adquirem conhecimentos sobre o mundo, sobre diferentes modos de viver e sobre a convivência com a sociedade e sua vida pessoal. Nesse processo de construção de subjetividades, algumas instituições têm um papel fundamental. A escola se destaca como uma das mais relevantes desde a maternidade. No contexto escolar, os indivíduos aprendem a cultivar a disciplina e a desenvolver comportamentos mais apropriados para a convivência social. Ademais, eles se apropriam de uma ampla variedade de conhecimentos gerados pela humanidade, que integram os saberes presentes nos currículos escolares. Considerando que todas as crianças no Brasil são obrigadas a frequentar a escola a partir dos 4 anos, o ambiente educacional deve ser utilizado como o principal meio para promover esforços em prol de uma educação multicultural. Essa educação multicultural, porém, deve ser realizada a partir de um currículo reestruturado, quebrando o antigo paradigma que determina que: “[...] o currículo escolar, tal qual a sociedade brasileira, está pautado numa compreensão de que apenas a cultura do colonizador — branca, masculina, heterossexual e cristã — tem legitimidade para ser estudada” (PASSOS, 2008, p. 17). Essa é a principal tensão que tem permeado as iniciativas relacionadas à diversidade cultural, à educação das relações étnico-raciais e à promoção de uma pedagogia antirracista e inclusiva nos dias atuais. Para que a escola implemente um projeto educacional eficaz no tratamento das questões multiculturais, promovendo interações e relacionamentos positivos entre seus alunos, é fundamental reconhecer que cada estudante deve ser entendido “[...] na sua diferença, enquanto indivíduo que possui uma historicidade, com visões de mundo, escalas de valores, sentimentos, emoções, desejos, projetos, com lógicas de comportamentos e hábitos que lhe são próprios” (DAYRELL, 1996, p. 5). Encarar os alunos dessa maneira contraria as práticas que, em diversas situações, buscam homogeneizar a todos, almejando um resultado comum e universal para os mesmos conteúdos, nos mesmos tempos e ritmos. Em oposição a isso, a escola que adota uma abordagem de educação multicultural deve ser “[...] curiosa, ousada, buscando dialogar com todas as culturas” (GADOTTI, 1992, p. 23). Atualmente, há diversas iniciativas sendo implementadas nas escolas com o objetivo de promover a educação multicultural em todos os níveis e modalidades de ensino. Um exemplo disso são os vários projetos voltados para a educação infantil, que buscam abordar as diferenças entre os alunos. Ao reconhecer as características individuais de cada estudante e de seus colegas, esses projetos auxiliam na compreensão das particularidades que tornam cada um único. Com essa abordagem, a formação das identidades e a valorização da alteridade começam a ser entendidas desde a infância. Os livros de literatura destinados à educação infantil são amplamente utilizados para abordar temas relacionados à diferença e ao multiculturalismo. Eles ajudam no ensino dessas questões ao apresentar personagens que permitem às crianças simbolizarem papéis durante a leitura. Silveira, Bonnin e Ripoll (2010), ao examinarem algumas coleções de literatura infantil que tratam das diferenças, alertam os educadores de que, em certas situações, essas obras podem transmitir a ideia de que a diferença é uma característica inerente aos indivíduos, em vez de ser um resultado de relações de poder e classificações. Na educação básica, tanto nos anos iniciais quanto nos finais do ensino fundamental, ou ainda no ensino médio, é possível implementar projetos no formato de “feira multicultural”. As turmas podem se envolver no aprendizado, na vivência e na apresentação dos diversos traços de cada grupo étnico presente na comunidade à qual pertencem. O objetivo é promover um exercício democrático e inclusivo que garanta a participação equitativa de todos. É importante observar que “[...] a reflexão sobre educação e diversidade cultural não diz respeito apenas ao reconhecimento do outro como diferente. Significa pensar a relação entre o eu e o outro” (GOMES, 2003, p. 69). Assim, o professor, ao implementar seus projetos de educação multicultural, deve criar oportunidades para a interação e o relacionamento entre os diferentes alunos. O objetivo é que, por meio do diálogo e das experiências coletivas, eles possam compreender os conceitos de igualdade e equidade que devem prevalecer entre todos os grupos étnicos do Brasil. Segundo Gomes (2003), é importante também levar em conta que as discussões sobre multiculturalismo na escola não devem ser limitadas: [...] a análise de um determinado comportamento ou de uma resposta individual. Ela precisa incluir e abranger uma discussão política. Por quê? Por que ela diz respeito às relações estabelecidas entre os grupos humanos e por isso mesmo não está fora das relações de poder (GOMES, 2003, p. 72). Em outras palavras, a escola deve ultrapassar a mera discussão sobre a atitude em si, investigando as possíveis raízes sociais desse comportamento.Por exemplo, ao identificar comportamentos bullying por parte de alguns alunos na escola, os professores não devem apenas abordar diretamente aqueles que praticam essas violências. É fundamental também investigar as relações de poder que foram construídas ao longo da históriae que podem ter contribuído para essas atitudes. Esse processo de análise pode ser aprimorado através de dinâmicas de grupo, jogos coletivos, dramatizações e outras técnicas pedagógicas. O essencial é promover interações que favoreçam o desenvolvimento de atitudes altruístas e empáticas entre todos os alunos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. 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