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ERGONOMIA Capítulo 4: Ergonomia Física 4-2 Ergonomia Er go no m ia F ís ic a 44.1 Ergonomia Física Os distúrbios musculoesqueléticos continuam sendo uma das principais causas de afastamento do trabalho em nível global, im� pactando tanto economias desenvolvidas quanto em desenvolvi� mento. A ergonomia física mantém�se como uma ferramenta es� sencial na promoção da saúde e segurança do trabalho. A ergonomia física trata das características anatômicas, an� tropométricas, fisiológicas e biomecânicas do corpo humano em sua relação com as atividades laborais e ocupacionais. São anali� sados fatores como repetitividade, sobrecarga biomecânica, pos� turas de trabalho inadequadas, levantamento e transporte de car� gas, distúrbios musculoesqueléticos (LER/DORT), design do posto de trabalho, riscos ergonômicos e impactos na saúde e segurança (IEA, 2024). Compreender as diferenças corporais exige um conhecimen� to aprofundado sobre a estrutura e funcionamento do sistema musculoesquelético. Para isso, iniciaremos o estudo da ergono� mia física abordando aspectos fundamentais do corpo humano, incluindo músculos, tendões e articulações, seguido pela análise do trabalho muscular, biomecânica e gasto energético. 4.2 Músculos Esqueléticos A atividade motora é essencial para o desenvolvimento mus� cular, promovendo aumento de volume e força, independente� mente do ambiente onde ocorre. O crescimento muscular segue padrões fisiológicos específicos e requer períodos adequados de descanso e recuperação. Para ganhos de força muscular, por exemplo, é necessário um treinamento ativo que envolva a aplicação de cargas pro� gressivas, estimulando o aumento das miofibrilas (actina e mio� sina) e a expansão do retículo sarcoplasmático, essencial para a 4-3 Ergonomia Er go no m ia F ís ic a 4contração muscular. Exercícios de alta intensidade elevam a ativi� dade enzimática dos músculos esqueléticos, otimizando a capaci� dade funcional. Por outro lado, a inatividade muscular pode resultar em atro� fia progressiva do tecido muscular, enquanto sobrecarga excessiva sem tempo adequado de recuperação pode desencadear proces� sos inflamatórios, dores musculares e até mesmo lesões crônicas. Estudos recentes indicam que trabalhadores submetidos a esfor� ços repetitivos ou cargas excessivas sem pausas adequadas têm maior risco de desenvolver distúrbios musculoesqueléticos rela� cionados ao trabalho. No contexto laboral, a execução de tarefas exige diferentes padrões de controle motor, incluindo precisão, força aplicada, ritmo de contração, duração da ação muscular e alternância entre contrações estáticas e dinâmicas. A ausência de pausas ergonômi� cas, más condições de trabalho e repetitividade extrema podem resultar em fadiga crônica, dores persistentes e lesões estruturais. A Figura 4-1 ilustra esquematicamente a composição e estrutura das fibras musculares, destacando sua organiza� ção e funcionamento. 4-4 Ergonomia Er go no m ia F ís ic a 4 Figura 4-1: Esquema das fibras musculares. Fonte: CK. Disponível em: http://www.ck.com.br/materias/186-fibras-musculares.html. Acessado em 23/04/2014 Os principais fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos musculares relacionados ao trabalho incluem: h Repetição excessiva de contrações musculares sem tempo adequado de recuperação; h Exigência de força excessiva para desempenhar determi� nadas atividades; h Manutenção de contração muscular estática por períodos prolongados, aumentando a fadiga; h Posturas inadequadas e assimétricas que sobrecarregam grupos musculares específicos; h Trabalho que exige movimentos finos e de alta precisão, aumentando a carga cognitiva e muscular; 4-5 Ergonomia Er go no m ia F ís ic a 4 h Exposição excessiva a vibrações em membros superiores e no corpo inteiro; h Fatores ambientais, como iluminação inadequada, baixa temperatura e umidade elevada, que podem intensificar desconfortos musculares. Estes fatores de risco se agravam quando não há pausas su� ficientes para recuperação fisiológica entre períodos de trabalho. Aspectos como nível de estresse, condições do ambiente de traba� lho e fatores individuais também podem influenciar no desenvol� vimento de lesões musculares. Estudos recentes indicam que as regiões do corpo mais afe� tadas por dores musculares em trabalhadores incluem os om� bros, cotovelos, punhos e coluna vertebral, especialmente a re� gião lombar. Algumas das condições mais comuns associadas ao trabalho são: h Tendinites e tendinopatias; h Síndrome do impacto no ombro; h Epicondilite lateral e medial (cotovelo de tenista e cotove� lo de golfista); h Síndrome do túnel do carpo; h Bursites; h Síndrome miofascial; h Fibromialgia; h Hérnias de disco lombares e cervicais; h Distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (LER/DORT). 4.3 Trabalho Muscular Apesar dos avanços tecnológicos e da automação de proces� sos produtivos, muitas atividades industriais e comerciais ainda 4-6 Ergonomia Er go no m ia F ís ic a 4exigem esforço muscular significativo. A ergonomia busca reduzir a sobrecarga e prevenir doenças musculoesqueléticas por meio de adaptações no ambiente de trabalho. O trabalho muscular pode ser classificado em dois principais tipos: h Trabalho muscular dinâmico. h Trabalho muscular estático. Ambos podem ocorrer durante manipulação de cargas, levan� tamento de materiais ou execução de atividades repetitivas. 4.3.1 Trabalho Muscular Dinâmico No trabalho muscular dinâmico, os músculos se contraem e relaxam continuamente, favorecendo o fluxo sanguíneo e a oxi� genação dos tecidos. Durante esse processo, o coração bombeia mais sangue para os músculos ativos, enquanto a circulação em outras áreas do corpo é reduzida. Esse tipo de esforço resulta em aumento da frequência car� díaca, elevação da pressão arterial e maior consumo de oxigênio pelos músculos, levando também a um incremento na ventilação pulmonar e na taxa respiratória. O grau de esforço muscular dinâmico pode ser medido pelo VO₂ máximo (VO₂max), que indica a capacidade aeróbica máxima de um indivíduo. Quanto maior o VO₂max, maior a capacidade de trabalho aeróbico sustentado. A relação entre massa muscular e gasto energético pode ser quantificada, onde 1 litro de O₂ consu� mido por minuto equivale a aproximadamente 5 kcal queimadas. Músculos maiores, como o quadríceps, exigem mais energia, mas geram menor impacto sobre a frequência cardíaca e pressão arterial do que músculos menores, como o bíceps braquial, que pode gerar resposta cardiovascular mais intensa. 4-7 Ergonomia Er go no m ia F ís ic a 4Curiosidade Quando uma contração muscular atinge entre 15% e 20% da força máxima, a circulação sanguínea segue normalmente. Entretanto, quando a contração ultrapassa 60% da força máxima, o fluxo sanguíneo é reduzido ou interrom- pido, causando fadiga rápida e impossibilitando a manutenção do esforço por mais de um ou dois minutos. Como resultado, há acúmulo de metabó- litos, levando a dores musculares intensas e necessidade de interrupção do trabalho. 4.3.2 Trabalho Muscular Estático O trabalho muscular estático é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de distúrbios musculoesqueléticos e fadiga crônica. Esse tipo de contração ocorre quando o músculo permanece tensionado sem a realização de movimento articular significativo, o que compromete a circulação sanguínea na região, reduzindo o aporte de oxigênio e favorecendo o acúmulo de me� tabólitos. Como resultado, o músculo entra em fadiga mais rapida� mente em comparação ao trabalho muscular dinâmico. Pesquisas recentes indicam que a restrição do fluxo sanguí� neo causada pela contração muscular estática pode levar a um aumento na rigidez muscular, dificultando a recuperação entre os ciclos de trabalho. Esse tipo de esforço pode aumentar o risco de microlesões no tecido muscular, que, quando acumuladas ao longo do tempo, favorecem o desenvolvimentode doenças ocupa� cionais crônicas, como tendinopatias e síndrome miofascial. O aumento da pressão arterial é a principal característica fi� siológica da contração muscular estática, enquanto a frequência cardíaca e o débito cardíaco sofrem variações menos expressivas. No entanto, em condições de sobrecarga e estresse prolongado, há risco de impactos cardiovasculares mais graves, como hiperten� são induzida por esforço. A Figura 4-2 ilustra o músculo operando em condições des� favoráveis de irrigação sanguínea durante a contração estática, 4-8 Ergonomia Er go no m ia F ís ic a 4evidenciando como a falta de circulação adequada favorece fadiga precoce, redução da capacidade funcional e aumento do risco de lesões musculares. Figura 4-2: Diferenças entre a demanda e o suprimento de oxigênio durante o trabalho estático e o trabalho dinâmico. Fonte: Lida (2003). A carga estática não deve superar 8% da força máxima mus� cular, quando estes esforços precisam ser realizados diariamente, durante várias horas. Se essa carga estática chegar de 15 a 20% da força máxima muscular e se for executada durante dias e sema nas sem intervalos, a consequência será a incidência de fadiga, dores e doenças osteomusculares (IIDA, 2005, p. 162). 4.3.3 Prevenção de Sobrecarga Muscular A sobrecarga muscular ocorre quando a capacidade funcional do músculo ou do grupo muscular envolvido não é suficiente para suportar a demanda exigida por determinada atividade. O primei� ro sinal desse problema é a fadiga muscular, que reduz não apenas a capacidade para o trabalho, mas também a produtividade e a precisão das tarefas executadas. 4-9 Ergonomia Er go no m ia F ís ic a 4Para prevenir a sobrecarga muscular, é essencial avaliar tanto o conteúdo da atividade quanto o ambiente de trabalho. A subs� tituição do esforço físico manual por dispositivos ergonômicos, como exoesqueletos assistivos, guindastes mecânicos e carrinhos elétricos de transporte, tem sido um dos principais avanços na redução do impacto das atividades que envolvem levantamento e carregamento de cargas. Outra estratégia relevante é a implementação de rodízios de tarefas e pausas programadas, além de um redesenho ergonômico do ambiente de trabalho, considerando as capacidades individu� ais dos trabalhadores. Com o avanço das tecnologias de monito� ramento biomecânico, como sensores de fadiga muscular e wea- rables, torna�se possível analisar em tempo real o nível de esforço dos trabalhadores e intervir preventivamente. Além das adaptações no ambiente de trabalho, o treinamento do trabalhador e a adoção de um estilo de vida ativo são funda� mentais para minimizar riscos. Manutenção de uma boa condição física, controle do peso corporal e fortalecimento da musculatura estabilizadora são fatores que podem reduzir consideravelmente a incidência de lesões ocupacionais. Isso reforça que as ações ergo� nômicas precisam ser complementadas pelo autocuidado e pela conscientização dos trabalhadores sobre sua própria saúde. Exercícios 4-11 Ergonomia Ex er cí ci os 401 Analise as afirmativas abaixo: (I) O trabalho muscular dinâmico favorece a irrigação sanguínea e pode ser sustentado por períodos mais longos, graças à alternân� cia de contração e relaxamento. (II) O trabalho muscular estático promove maior circulação e oxige� nação dos tecidos, prevenindo fadiga precoce. (III) A manutenção de contrações estáticas prolongadas é um dos principais fatores de risco para o surgimento de doenças osteomusculares. Assinale a alternativa correta: ▢ (a) Apenas I e II estão corretas. ▢ (b) Apenas II está correta. ▢ (c) Apenas II e III estão corretas. ▢ (d) Apenas I e III estão corretas. ▢ (e) I, II e III estão corretas. 02 A _______________ é caracterizada por contrações musculares manti� das sem movimento articular expressivo, comprometendo a circula� ção sanguínea e favorecendo a fadiga precoce. ▢ (a) Contração isotônica. ▢ (b) Atividade anaeróbica. ▢ (c) Contração estática. ▢ (d) Biomecânica compensatória. ▢ (e) Resistência passiva. 4-12 Ergonomia Ex er cí ci os 403 Relacione os fatores de risco com suas respectivas consequências no contexto da ergonomia física: Coluna 1 – Fatores de Risco 1 Repetitividade excessiva. 2 Posturas assimétricas. 3 Vibração constante. 4 Contrações estáticas prolongadas. 5 Força muscular excessiva. Coluna 2 – Consequências ( ) Compressão articular e fadiga localizada. ( ) Estresse biomecânico unilateral. ( ) Degeneração articular e dores persistentes. ( ) Síndrome do túnel do carpo. ( ) Fadiga crônica e inflamação muscular. ▢ (a) 1�(D), 2�(B), 3�(C), 4�(E), 5�(A). ▢ (b) 1�(A), 2�(C), 3�(B), 4�(D), 5�(E). ▢ (c) 1�(C), 2�(A), 3�(E), 4�(B), 5�(D). ▢ (d) 1�(B), 2�(E), 3�(D), 4�(A), 5�(C). ▢ (e) 1�(C), 2�(D), 3�(B), 4�(E), 5�(A). 04 O parâmetro fisiológico utilizado para medir a capacidade máxi� ma de esforço aeróbico durante o trabalho muscular dinâmico é o __________. ▢ (a) FRC. ▢ (b) VO₂max. ▢ (c) Gasto calórico basal. ▢ (d) Ritmo circadiano. ▢ (e) ECG funcional. 4-13 Ergonomia Ex er cí ci os 405 Analise as afirmativas a seguir: (I) A ergonomia física considera fatores como repetitividade, levan� tamento de cargas e posturas de trabalho. (II) A contração muscular acima de 60% da força máxima reduz o fluxo sanguíneo, levando à fadiga precoce. (III) A ausência de pausas e a manutenção de posturas estáticas pro� longadas não interferem no risco de lesões musculares. Assinale a alternativa correta: ▢ (a) Apenas I e III estão corretas. ▢ (b) Apenas II está correta. ▢ (c) Apenas II e III estão corretas. ▢ (d) Apenas I e II estão corretas. ▢ (e) I, II e III estão corretas.