Prévia do material em texto
Mamãe, tô com medo! Fabiana Vieira Gauy Quem nunca sentiu medo uma vez na vida? Medo de escuro, de ficar sozinho, do palhaço da festa, do barulho do foguete, de fantasma, medo na hora de dormir, medo depois de assistir a um desenho ou a um filme, de animais, de médico, de dentista, de injeção, de avião, de fazer xixi na cama, de dormir na casa do amiguinho(a), de elevador, de escada rolante, de ser assaltado, de algo terrível acontecer, medo de errar, de ninguém gostar de você, medo dos pais se separarem, de alguém querido adoecer ou de morrer... Ufa! O medo é um sentimento natural que todos nós, crianças e adultos, temos. Ele nos protege de riscos, nos faz agir rápido, nos faz fugir ou lutar se for preciso. Você já pensou que o medo pode até nos ajudar a ter boas idéias? Lembra da estória de Joãozinho e Maria? É por sentirem medo de se perder que eles marcam o caminho de volta, quando entram na floresta. E é por medo que, ao serem presos pela bruxa malvada, mostram a ela o pé da galinha, ao invés do dedo, para ela achar que eles estavam magrinhos e pouco apetitosos. Mas quando temos medo nem sempre conseguimos entender porque sentimos isso, não é? Só conseguimos perceber o desconforto, a respiração rápida, o coração disparado, as pernas bambas e começamos a chorar. Tudo parece perigoso e não entendemos o que está acontecendo. Sistema Nervoso Você sabe por que sente essas coisas? Nós temos em nosso corpo um grande motor, com várias funções. Um carro anda sem motor? Claro que não. Pois os humanos e os animais também não. Só que o nosso motor tem muito mais tecnologia do que qualquer outro. Esse motorzão tem um nome enorme: Sistema Nervoso. É ele que nos faz andar, pensar, comer, respirar... Tudo que fazemos, sentimos ou pensamos tem o “dedo” dele. Até aqui você entendeu? Então vamos para frente. O medo é ligado por um botão chamado de Sistema Nervoso Simpático. Cá entre nós, às vezes ele não tem nada de simpático. Ele é todo agitado e apressadinho. O trabalho dele é receber mensagens e pistas de perigo, para nos proteger. Quando ele é acionado, o o corpo fica preparado para enfrentar o perigo: a mão esfria para o sangue ir para os grandes músculos, o coração dispara e a respiração fica mais rápida para termos mais força para correr e enfrentar o perigo. Em outras palavras, funciona assim: o medo alerta ao Sistema Nervoso Simpático de alguma situação de perigo e ele prepara o nosso corpo para enfrentar esse perigo. Quando o medo passa ou percebemos que não há o que temer, outro botão é acionado. Ele é o bombeiro do nosso corpo e se chama Sistema Nervoso Parassimpático. Quando esse aí aparece ficamos mais tranqüilos, paramos de chorar e até conseguimos rir do que aconteceu. Ele é o único que consegue conversar com o Sistema Nervoso Simpático. Depois de uma conversinha, às vezes curta, às vezes longa, ele se acalma e relaxa. Esses dois costumam ser grandes amigos e são chamados ao trabalho por motivos diferentes conforme a nossa idade. Os Medos de Cada Idade Alguns tipos de medos aparecem em determinada idade e são considerados normais. Isso ocorre porque não conseguimos ainda entender todas as coisas da vida. • Nos nossos primeiros meses de vida, por exemplo, nos assustamos com estímulos fortes e inesperados, como som, luz ou movimentos que dão a sensação de desconforto ou de queda. Até mais ou menos sete meses de idade, tememos esses estímulos e reagimos com choro e movimentos no corpo. Logo depois passamos a ter medo de pessoas estranhas ou pouco conhecidas. • Já entre os nove meses e os dois anos de idade tememos outras coisas. Não entendemos, por exemplo, porque o papai e a mamãe precisam sair. Por que não ficam o tempo todo com a gente? Na nossa imaginação, quando eles saem não vão voltar! Isso dá muito medo! Já pensou se eles não voltassem mesmo? Só de pensar já sinto um frio na barriga, aquela sensação de que tem inseto dentro do meu estômago. Você já sentiu isso? Pois é, além disso, ainda não entendemos os barulhos altos e repentinos, como os foguetes ou latidos de cachorro. Também não entendemos que aqueles palhaços ou aqueles bichos peludos das festas são apenas pessoas fantasiadas para nos divertir. Nesta idade, o nosso mundo é de fantasia, somos muito novos para saber que algumas coisas não são possíveis. Temos medo de monstros, escuro e fantasmas. • A partir dos quatro anos, começamos a compreender o mundo de forma diferente. Os medos passam a ser cada vez menos imaginários, mais reais, porém, ainda são amplos, como: medo de barulho, de animais, de doença, de morte, de avião, de se perder ou de perder o pai ou a mãe. Por isso, quando os pais se separam nesta época a criança sente muito. É o maior medo virando realidade: “Papai e mamãe não moram mais na mesma casa!” • A partir dos seis anos, os medos ficam mais específicos: medo de cachorro grande ou medo do cachorro que mordeu a vizinha, medo de chegar atrasado na escola, medo do amiguinho que bate e morde todo mundo, medo de errar ou levar bronca da professora e preocupação com os pais. • Aos sete anos já entendemos mais os nossos medos e sabemos lidar com eles de forma diferente e elaborada. Os medos reais ficam cada vez mais fortes do que os imaginários. A necessidade de ser aceito e amado e situações novas passam a gerar mais medo do que antes. • Aos oito anos, passamos a expressar os medo por meio de preocupações. Situações como ser criticado, não ser amado, de errar ou ser punido são temidas. Quanto mais velho ficamos, mais condições temos para resolver nossas dificuldades. E, à medida que nos sentimos mais capazes de lidar e enfrentar essas situações, menos o botão do Sistema Nervoso Simpático é apertado. Na história dos três porquinhos, cada um faz a sua casa para esconder-se do lobo de acordo com sua capacidade. O mais novo faz a casa de palha, o do meio faz de barro e o mais velho faz de tijolo. Bom, acontece que, às vezes, alguns medos de antes ainda aparecem, como medo de escuro, de alguns animais ou de ficar sozinho. O que muda em relação aos 4 ou 6 anos é que aos 9 ou 10 anos pensamos diferente e aplicamos um teste no medo. Esse teste chama-se: Teste de Realidade. Ele ajuda a investigar: que provas temos de que realmente o que estamos sentido é verdade? Existe outra forma de avaliar a situação? O que você pode fazer para resolver este problema? Quem mais pode nos ajudar? Esse teste auxilia na compreensão do medo e o que fazer com ele, afinal já diferenciamos realidade e fantasia e temos noções de causa e efeito. Nossas casas já são de tijolo. Mas mesmo assim ainda podemos nos enganar. Você sabe por quê? Porque continuamos, em alguns momentos, confundindo medo e desconforto com perigo. Será que isso é verdade?! Deixa eu te contar um segredo: quando estamos com medo, muito medo, nosso teste de realidade pode começar a falhar. Sabe o que acontece? As nossas emoções, qualquer uma, quando são muito, muito, muito fortes, distorcem a realidade. Deixa eu te dar um exemplo: você já ouviu falar que as pessoas apaixonadas ficam cegas? E que as pessoas que estão com raiva não pensam pra falar? Ou que, quando as pessoas estão tristes, só vêem o lado ruim da vida? É isso que acontece com os medos! Olha, o medo é um grande bicho que se alimenta de... medo! Quando estamos com medo, acreditamos que o perigo é maior do que é na verdade e, para piorar, achamos que não vamos conseguir lutar contra isso. E aí ficamos engordando esse bichão, que vai tomando conta da gente. Ainda tem mais: quando ficamos mais velhos entendemos melhor o medo, mas as preocupações aumentam e algumas vezes as guardamos dentro da gente. Temos vergonha de contar! Algumas pessoas sofrem muito com o medo. Tem até doenças do medo. Essas doenças não são incomuns. Você sabia que de 5 a 8% das crianças e 1 em cada 3 adolescentes do mundo sofrem de medo e de preocupações? Quando o Medo É Doença As doençasmais comuns são: a) ansiedade de separação, quando temos pavor de nos separar de nossos pais e nos preocupamos muito com isso - ás vezes até ir para escola é difícil; b) a ansiedade generalizada, que nos faz sentir medo, preocupação, nervosismo e tensão com tudo. Geralmente as crianças com ansiedade generalizada sentem muita dor no corpo e mal estar físico e procuram muito o médico - que diz que elas não têm nada; c) as fobias, que nos fazem sentir medo intenso e irracional por coisas ou situações que não envolvem perigo, como medo de galinha, barata, lugar alto ou de escada rolante – há de fato algum perigo real nestas situações? e; d) o transtorno obsessivo compulsivo, que nos faz ter comportamentos excessivos de limpeza, como lavar muito as mãos e o corpo, pelas preocupações de pegar algumas doença ou se contaminar; comportamentos de guardar tudo, deixar tudo muito organizado e qualquer alteração na ordem causa grande sofrimento; ou comportamentos de apagar a luz e trancar a porta várias vezes, perguntar várias vezes se o pai pagou a escola, para evitar que algo “terrível” e “perigoso” aconteça. O Que Fazer Quando Vem o Medo? Quando você estiver com medo, o melhor a fazer é conversar com os seus pais. Conte para eles o que você sente e o que te preocupa. Peça a ajuda deles para aplicar o Teste de Realidade no seu medo. Além disso, aprenda a respirar. Quando estamos preocupados respiramos errado. Puxe o ar, encha a sua barriga e devagar, solte o ar pela boca, sem soprar. Faça isso várias vezes até ficar mais calmo. Sabe, as preocupações e os medos também são chamados de ansiedade. E muitas vezes ela bate na nossa porta como o lobo dos três porquinhos e fica soprando o tempo todo querendo derrubar a casa. Nessa hora, você pode fazer como os três porquinhos e se esconder na casa até o lobo cansar. Mas, também, pode tentar conversar com ele. Isso mesmo! Quem pode afirmar que o lobo queria era mesmo comer os três porquinhos? Dizem que toda história tem pelo menos duas versões: qual será a do lobo? Tente fazer algo diferente: converse com o seu medo e veja o que acontece. Você pode se surpreender. Se você não conseguir, mesmo com a ajuda dos seus pais, então procure uma pessoa que é especialista em conversar disso. Essa pessoa, que é preparada para ajudar você, se chama terapeuta. * psicóloga, terapeuta cognitivo-comportamental, mestre em Desenvolvimento Humano pela UnB, e doutora em Psicologia Clinica pela USP-SP.