Prévia do material em texto
TEORIA DA CONTABILIDADE Aline Alves dos Santos Escolas e doutrinas da contabilidade Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Descrever as escolas da contabilidade. � Identifi car as doutrinas da contabilidade. � Reconhecer as contribuições das escolas de pensamento contábil. Introdução A escola personalista é posterior à escola contista. Surgiu no século XIX, mais precisamente em 1867, dando origem às contas para explicar a ligação entre direitos e obrigações. Para melhor entendimento sobre essas e outras escolas, convidamos você a acompanhar o conteúdo deste capítulo, que vai abordar as escolas que foram referência na história da contabilidade e as contribuições dessas escolas de pensamento contábil. As escolas de referência As escolas de pensamento contábil foram diversas, mas nem todas trouxeram progressos na essência do estudo da contabilidade. Muitas modifi caram so- mente o método de demonstração das correntes já desenvolvidas. No entanto, algumas escolas de pensamento contábil representaram mudanças na história da contabilidade. Você vai acompanhar a seguir a distribuição das mais im- portantes dessas escolas. Escola contista A escola contista se formou logo na primeira corrente do pensamento contábil. A sua origem está relacionada às pesquisas dos primeiros estudiosos que evidenciaram o método de partidas dobradas. Em 1458, um italiano chamado Benedetto Cotrugli incentivou o uso desse sistema mediante o seu manuscrito, porém não alcançou a esperada repercussão na sociedade da época pelo fato de não ser um livro. Cotrugli cedeu o mérito a Frei Luca Pacioli, que obteve sucesso com a sua obra, que abordava o mesmo tema. No ano de 1796, surgiu a estrutura inglesa referente ao registro, fun- damentada em dois livros, Diário e Razão, incluindo os livros auxiliares Caixa e Armazém. Esse novo modelo surgiu com o autor Jones, o primeiro a assumir a necessidade de se praticar o controle entre os livros principais em separado (Diário e Razão), a fim de constatar a isonomia das somas. A necessidade de veracidade e sigilo das informações que contemplavam o Diário e o Razão trouxe a exigência de procedimentos quanto ao registro das operações, resultando em melhorias relativas à qualidade do produto desse processo. A partir do surgimento de empresas que possuíam mais de um capitalista, surgiu também a conta denominada capital, compreendida como uma dívida da entidade com o capitalista. Entre os principais pensadores da Escola Contista, destacam-se Fibonacci, Pietra, Degranges, Pegolotti, Flori, sendo Cotrugli e Frei Luca Pacioli os de maior relevância. Escola administrativa Após a escola contista, em 1840, apareceu outra linha de pensamento contábil denominada escola administrativa, ou escola lombarda, motivada pela obra de Francesco Villa. Essa escola foi direcionada para a administração empresarial, dando ênfase ao controle da entidade, extraindo da contabilidade valores e números. A escola estabeleceu que o contador deveria ter conhecimentos específi cos sobre a gestão, além de técnicas precisas de escrituração. Escolas e doutrinas da contabilidade28 Escola personalista A escola personalista apareceu em 1867, segunda metade do século XIX, dando originalidade às contas para esclarecer a ligação entre direitos e obri- gações. Desde o surgimento do método das partidas dobradas, as contas já tinham originalidade, embora não formassem uma teoria científi ca — eram um processo utilizado para esclarecer o sistema das contas. A escola personalista teve por fundamento a teoria de Francesco Marchi, desenvolvida por Giuseppe Cerboni. Essa teoria afirmou que as contas preci- savam ser criadas e nomeadas em nome de pessoas físicas ou jurídicas. Nelas, o “dever” o e “haver” correspondiam a débito e crédito, relativos às pessoas para quem as contas foram criadas. Escola controlista A escola controlista deu destaque, como o nome indica, ao controle, tendo como um dos seus autores principais Fabio Besta. Foi contrária à teoria personalista e surgiu no fi m do século XIX, na Itália, mais precisamente no ano de 1880. Para Fabio Besta, a contabilidade correspondia à ciência do controle eco- nômico, que contemplava duas partes: a primeira responsável pelos registros das transações administrativas econômicas e pela sua aplicação por meio da escrituração, e a segunda responsável pela apresentação das partidas dobradas dos acontecimentos, vinculadas aos métodos empresariais, que são formados em conformidade com os sistemas de controle da escrituração contábil. O controle econômico é entendido como um dos objetivos do sistema de escrituração, não inserindo na sua totalidade o objeto da contabilidade. Os fatores referentes à constituição dos custos, à efetivação da receita, ao equilíbrio financeiro, entre outros, formam as mutações patrimoniais, que se referem às transações de controle. No entanto, a contabilidade não fica restrita a esses elementos. 29Escolas e doutrinas da contabilidade Escola norte-americana Teve início com o surgimento da American Association of Public Accountants (AAPA) em 1887, com a fi nalidade de normatizar e qualifi car a contabilidade. Essa escola passou por etapas de desenvolvimento e mirou na profi ssionalização da contabilidade, ou seja, nas questões relativas à capacitação. Em um primeiro momento, a escola norte-americana deu ênfase à cer- tificação da profissão pela criação do College of Accounts. Em seguida, entre 1916 e 1936, surgiram outros segmentos que destacaram o período, como a Securities and Exchange Commission (SEC), órgão que equivale à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no Brasil, focada em sanar a falta de confiança nas informações das demonstrações contábeis. A etapa seguinte ocorreu de 1936 a 1959 e destacou a publicação de boletins informativos sobre métodos contábeis. A partir de 1959, a AAPA passou a ser American Institute of Certified Public Accountants (AICPA), devido a críticas resul- tantes de insucesso anterior. Escola matemática A escola matemática afi rmava que a contabilidade não passava de registros secundários e sistemáticos. Essa escola contrariou todas as existentes até então, afirmando que a contabilidade seria somente uma ciência aplicada, e não social. Não contribuiu para a evolução contábil devido aos argumentos apresentados, que não foram aceitos pela sociedade. Escola neocontista Essa escola surgiu no fi nal do século XIX e defendeu que as contas não deveriam ser criadas para pessoas ou entidades, nem representar direitos e obrigações: deveriam demonstrar os valores dos elementos patrimoniais possíveis de mutações. Foi essa escola que atribuiu à contabilidade a função de demonstrar o ativo, o passivo e a posição líquida das unidades econômicas. Moderna escola italiana Criada em 1922, a escola determinou que o objetivo primordial da entidade seria o resultado do exercício. Um ponto relevante destacado nessa escola é a elaboração de um sistema teórico contábil por meio do resultado, que pode Escolas e doutrinas da contabilidade30 ser determinado a partir do acréscimo ou decréscimo ocorrido no capital em determinado período, em virtude das transações da empresa. Escola patrimonialista Foi criada em 1926, tendo por fi nalidade evidenciar o patrimônio da empresa, defi nindo-o como o objeto da contabilidade. A escola patrimonialista cor- responde a uma corrente científi ca da contabilidade que teve como principal destaque o italiano Vincenzo Masi. A sua doutrina defendeu os princípios estático e dinâmico da riqueza. As doutrinas da contabilidade Com o objetivo de ampliar o avanço do conhecimento contábil, vários estu- diosos realizaram estudos que, posteriormente, transformaram-se em escolas, contribuindo com obras de riquíssimo valor. As áreas do conhecimento se valem de registros e do seu manuseio. Entretanto, a contabilidade sempre contou com uma grande quantidade de informaçõesexigidas. A seguir, você vai poder analisar as doutrinas contábeis apresentadas pelas principais escolas do pensamento contábil. A escola contista adotou como pensamento básico o sistema das contas, fixando no seu funcionamento e desconsiderando que a conta é somente resultado das transações da empresa, e que tais transações necessitam de uma atenção especial. No contismo, a preocupação da contabilidade estava no sistema de escrituração e no mecanismo de registro das contas. O principal interesse da escola administrativa foi a administração das empresas e o seu controle, extraindo da contabilidade números. A escola defendeu o pensamento segundo o qual o profissional de contabilidade deveria obter conhecimentos específicos sobre escrituração e, sobretudo, gestão. A escola patrimonialista teve os seguintes princípios: � o objeto da contabilidade é o patrimônio aziendal; � as ocorrências patrimoniais referem-se a acontecimentos contábeis; � a contabilidade é compreendida como ciência social; � a divisão da contabilidade é feita em três ramos, que são estática patri- monial, dinâmica patrimonial e revelação patrimonial. 31Escolas e doutrinas da contabilidade Essa escola surgiu em 1926 na Itália, decorrente da obra de Vincenzo Masi, e considerava que a contabilidade tinha por prioridade enfatizar o patrimônio das empresas como fator mais relevante da sua evolução, tendo a escrituração como instrumento da prática contábil. Os patrimonialistas foram contrários à escola contista, pois enfatizavam os registros contábeis e não davam destaque aos elementos que os complementavam. As contribuições das escolas de pensamento contábil As escolas do pensamento contábil trouxeram grandes avanços para a conta- bilidade, embora nem todas tenham colaborado para essa evolução. As principais contribuições da escola controlista para a contabilidade foram: ■ o controle favoreceu o estudo das operações da empresa, para ve- rificar se as operações estavam sendo aplicadas em conformidade com os métodos definidos; ■ a informação contábil foi usada como base para verificar a gestão anterior e, deste modo, também realizar previsões; ■ a elaboração dos princípios que relatavam o patrimônio das empresas, os inventários, a avaliação de bens, os orçamentos e as demonstrações contábeis. A grande contribuição da escola personalista para a contabilidade foi torná-la conhecida como um método informacional para gestão de empresas, em vez de ser vista como um simples método de registro das operações eco- nômicas. A partir dessa escola, a contabilidade passou a ser entendida como uma disciplina que contribuía para a tomada de decisão e a gestão empresarial. Algumas das contribuições da escola norte-americana para a contabilidade: ■ buscou qualificar a informação contábil para auxiliar na tomada de decisão; ■ adotou a igualdade entre os métodos contábeis aplicados, visando à confiabilidade das demonstrações; Escolas e doutrinas da contabilidade32 ■ definiu os Princípios de Contabilidade Geralmente Aceitos (US– GAAP), objetivando assegurar que as informações prestadas pela contabilidade fossem fidedignas; ■ definiu dois objetivos: prestar informações sobre os recursos eco- nômicos e as obrigações da empresa e prestar informações sobre as modificações nos recursos da empresa, buscando divulgar essas informações para todos os usuários. A contribuição relevante da escola neocontista para a contabilidade foi a divisão entre passivo e situação líquida no balanço. As principais contribuições da moderna escola italiana para a contabi- lidade foram: ■ a teoria da contabilidade precisou entender os fatos vinculados à vida da empresa e apresentar a constituição do resultado e suas conexões com os fatos administrativos e com o restante da empresa; ■ o resultado foi visto como elemento econômico mais relevante da empresa; ■ o principal objetivo da contabilidade foi o conhecimento e a demons- tração do resultado da gestão organizacional. CONSELHO REGIONAL DE CONTABILIDADE DO RIO GRANDE DO SUL. Entidades da classe. Porto Alegre, 2017. Disponível em:<http://www.crcrs.org.br/memorial/ entidades-da-classe/>. Acesso em: 10 out. 2017. LUZ, E. E. Teoria da contabilidade. Curitiba: InterSaberes, 2015. NIYAMA, J. K.; SILVA, C. A. Teoria da contabilidade. São Paulo: Atlas, 2009. SÁ, A. L. Teoria da contabilidade. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010. SÁNTOS, J. L. D. Teoria da contabilidade. São Paulo: Pearson, 2009 Leituras recomendadas 33Escolas e doutrinas da contabilidade http://www.crcrs.org.br/memorial/entidades-da-classe/