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1 APLICAÇÕES EM PROCESSOS BIOLÓGICOS USANDO MODELAGEM MATEMÁTICA E COMPUTACIONAL APPLICATIONS IN BIOLOGICAL PROCESSES USING MATHEMATICAL AND COMPUTATION MODELING NASCIMENTO, Adriana Carla de Souza;SANTOS, Genilton Ferreira dos;NASCIMENTO, Arlyson Alves do1 Grupo Temático 1. Subgrupo 1.1. Resumo: A matemática e a biologia têm grande relação e esta relação vem da contribuição que uma oferece à outra através de modelos matemáticos para explicar teoricamente os processos biológicos. Esse trabalho tem por objetivo apresentar como são aplicados os modelos matemáticos em alguns problemas biológicos reais com a utilização de recursos tecnológicos para facilitar a compreensão do problema e auxiliar no processo de ensino e aprendizagem. Para isso utilizaremos a modelagem matemática para a criação dos modelos e as equações de diferenças de primeira ordem baseadas na recursividade para formulá-los matematicamente. O software livre GNU Octave será utilizado com o intuito de apresentar o modelo de forma prática e contextualizada implementando os dados numéricos para a visualização do gráfico. Serão analisadas três aplicações onde duas serão estudadas de forma geral e teórica e uma, além de teórica, será estudada de forma prática para mostrar como os padrões funcionam bem próximos de situações reais. Observou-se que, de fato, o uso de recursos tecnológicos facilitou a compreensão e absorção dos conteúdos matemáticos e tornou o problema teórico em problema prático e visual. Palavras-chave: Biomatemática. GNU Octave. Matemática. Modelagem Matemática. Abstract: Mathematics and biology have a great relationship and this relationship comes from the contribution that one offers to the other through mathematical models to theoretically explain biological processes. This work aims to present how mathematical models are applied to some real biological problems with the use of technological resources to facilitate the understanding of the problem and assist the teaching and learning process. For this we will use mathematical modeling to create the models and first order difference equations based on recursiveness to formulate them mathematically. The free software GNU Octave will be used in order to present the model in a practical and contextualized way by implementing the numerical data for the graph visualization. Three applications will be analyzed where two will be studied in a general and theoretical way and one, besides theoretical, will be studied in a practical way to show how the patterns work very close to real situations. It was observed that, in fact, the use of technological resources facilitated the understanding and absorption of mathematical contents and turned the theoretical problem into a practical and visual problem. Keywords: Biomathematics. GNU Octave. Mathematical. Mathematical Modeling. 1 Graduanda do Instituto Federal de Alagoas (IFAL); Graduando do Instituto Federal de Alagoas (IFAL); Docente do Instituto Federal de Alagoas (IFAL) 2 1. Introdução A matemática e a biologia têm grande relação. Essa relação vem de problemas biológicos complexos onde se utiliza a matemática para modelar esses problemas e, ao serem modelados, a biologia testa esses modelos de forma real, podendo surgir novas informações e até novos questionamentos de acordo com (MANCERA, 2002). Essa relação mútua entre ambas deve-se ao fato de que a matemática contribui para que a biologia entenda as relações em seus fenômenos e a biologia contribui com novos conceitos e teorias para a matemática (SAMPAIO; SILVA, 2012). Dessa relação surge a Biomatemática que é o estudo dos processos biológicos através de modelos matemáticos onde esses modelos são inspirados nos processos em questão. Os modelos matemáticos surgem com o objetivo de buscar a interação entre a teoria matemática e outras ciências e essas interações acontecem por meio de situações reais (BARROS; BASSANEZI, 2010). São estudados e criados pela modelagem matemática através de etapas como escolha de tema, coleta de dados, análise de dados, formulação do modelo e a validação. A modelagem formaliza um contexto através do modelo e, assim, trabalha este modelo de forma intelectual, desenvolvendo e absorvendo as habilidades matemáticas adquiridas para sua resolução (BASSANEZI, 2011). Para formular um modelo é necessário ter um embasamento teórico matemático que, em nosso caso, serão as equações de diferenças de primeira ordem que são ferramentas matemáticas muito úteis na modelagem de casos em que precisamos definir de forma recursiva modelos matemáticos. Para auxiliar o processo de ensino e aprendizagem será utilizado o software livre GNU Octave, como recurso tecnológico, com uma breve introdução e para a ilustração do gráfico da aplicação escolhida para ser estudada numericamente. As aplicações contam com três problemas biológicos reais sobre uma população de bactérias, o crescimento de uma população de pulgões e a administração de drogas no organismo. Todas elas são modeladas a partir das equações de diferenças de primeira ordem no caso discreto. Para exemplificar a terceira aplicação, descrevemos uma situação para contextualizar com dados numéricos e proporcionar um caráter mais prático. O GNU Octave foi utilizado para dar uma resposta ao problema de forma gráfica. O artigo tem por objetivo a aplicação de modelos matemáticos em problemas biológicos reais com a utilização de recursos tecnológicos para facilitar a compreensão do problema e auxiliar no processo de ensino e aprendizagem. 2. Modelagem matemática A modelagem matemática é a matemática em sua mais bela essência, retomando os princípios e ideias de como ela foi concebida ao longo de sua história, sendo assim utilizada para resolver problemas reais da humanidade. Esses problemas são descritos através de modelos matemáticos que seguem algumas etapas para sua resolução. De forma geral, um modelo matemático é uma descrição de algo do mundo físico, sendo essa descrição algo tão simples quanto uma função, de acordo com (ZILL; CULLEN, 3 2008). Mesmo que tenhamos inúmeros modelos matemáticos existentes, nos ateremos apenas aos modelos matemáticos específicos à biologia. O processo de modelagem matemática segue as seguintes etapas. 2.1. Etapas da modelagem Tendo em vista que a modelagem matemática é um processo dinâmico, as etapas que destacamos se complementam. Assim, dão forma ao que chamamos de processo de matematização ou modelação de situações reais. A escolha, coleta, análise, formulação e validação de modelos são as etapas de essencial importância para construção de tais modelos matemáticos. - Escolha de temas: A escolha do tema é feita a partir dos levantamentos das possíveis situações de estudo nas quais gerem questionamentos. - Coleta de dados: Uma vez que escolhemos o tema, o passo seguinte é a busca de informações que estejam relacionadas com o assunto em questão. Para isso as coletas de dados, sejam qualitativos ou quantitativos, poderão ser efetuadas através de revistas, pesquisas bibliográficas ou utilizando conceitos básicos de estatística. É útil organizar um questionário para coletas de dados e fazer pesquisas bibliográficas em livros, revistas ou artigos. O uso de tabelas favorece uma melhor análise, visualização e identificação dos dados. Esses dados poderão ser implementados através de um software obtendo, assim, o estudo do problema através dos gráficos. - Análise de dados: Analisando estes dados podemos através deles prever situações comuns, diagnosticar as principais características do problema estudado e decidir a partir daí quais delas deverão ser consideradas para o modelo. - Formulação de modelos: Considera-se para uma primeira escolha um modelo simples na formulação inicial do fenômeno estudado com o intuito de ajudar no entendimento do problema. Contudo, nem sempreé possível que essa formulação conduza a resultados satisfatórios, sendo por vezes necessário acrescentar mais variáveis ao objeto de pesquisa. Tendo em vista que os modelos matemáticos podem melhor representar tal fenômeno é necessário uma reformulação nas leis estabelecidas do modelo para um melhor refinamento da modelagem. - Validação: Segundo (BASSANEZI, 2015), a validação de um modelo é um processo de aceitação ou rejeição do mesmo e esta análise é condicionada a vários fatores sendo preponderante o confronto dos dados reais com os valores do modelo. O uso de gráficos das soluções e a confecção de tabelas de dados modelados em confronto com os dados experimentais podem facilitar a validação de um modelo matemático ou mesmo sugerir modificações nos mesmos. Resumidamente, modelagem matemática é processada de forma teórica e, sobretudo, prática, motivando assim o entendimento da realidade. 3. Equações de diferenças de primeira ordem e recorrência 4 As equações de diferenças são ferramentas matemáticas muito úteis na modelagem de casos em que precisamos definir de forma recursiva modelos matemáticos. De acordo com (HUNTER, 2011), existem muitos objetos na natureza com estruturas recursivas: um galho de uma árvore se parece com uma árvore menor, as ondas do oceano têm a mesma forma que as ondulações formadas por suas marolas, uma cebola guarda uma cebola menor embaixo de cada camada exterior. O fenômeno natural da recursão permeia muitas áreas da matemática. Vamos entender como identificar e trabalhar com estruturas recursivas, desenvolvendo assim habilidades de enxergar padrões recursivos em objetos matemáticos, mesmo não nos atendo às demonstrações matemáticas. Veremos adiante como definir uma relação de recorrência. 3.1. Recorrência Em matemática, uma relação de recorrência é o tipo mais simples e concreto de objeto recursivo. Suponhamos que desejamos definir uma função :P . O caminho mais curto para isso é utilizar uma função explícita 1 2 n n P n . De onde, é suficiente substituir algum valor de n natural para calcular os valores de P n na sua forma explícita. É sempre bom ter uma função explícita, mas algumas vezes elas são difíceis de aparecer. O mais comum em matemática são funções definidas naturalmente de forma recursiva. Apresentaremos agora uma segunda forma de definirmos nossa função P n : 1 se 1 1 se 1 n P n n P n n . Acima temos uma definição recursiva, pois P é definida em termos de si mesma onde para todo n podemos utilizar a definição acima para calcular P n . Como exemplo, vamos calcular o valor de 5P pela lei recursiva de duas maneiras diferentes. A primeira abordagem é chamada de “ascendente” porque começamos calculando o valor de 1P e vamos “subindo” até calcularmos o valor de 5P . Note que para 1n , a primeira parte da definição afirma que 1 1P . Pela segunda parte da definição, tomando com 2n , temos que 2 2 1 2 1 3P P . Em seguida, pela segunda parte da definição, tomando 3n , temos que 3 3 2 3 3 6P P . No caso em que 4n , temos que 4 4 3 4 6 10P P e, finalmente, quando 5n , temos que 5 5 4 5 10 15P P . 5 De forma alternativa, podemos fazer uma computação “descendente”. Sempre que n 1 , podemos aplicar a segunda parte da definição da função para substituir o valor de P n por 1n P n . Dessa forma, temos que 5 5 4 5 4 3 5 4 3 2 5 4 3 2 1 5 4 3 2 1 15 P P P P P , onde utilizamos a condição inicial 1 1P para calcular o valor de 5P . É importante destacar que uma relação de recorrência não define uma sequência se o primeiro elemento não for definido. Em outras palavras, a equação de recorrência não pode definir sequências sem as condições iniciais, isto é, não é uma relação de recorrência. Note que, por si mesma, a equação 1n P n não definiria uma relação de recorrência, pois o cálculo ascendente não poderia nunca ser começado e o cálculo descendente nunca terminaria, segundo (ZILL; CULLEN, 2008). 3.2. Equação de diferenças de primeira ordem As equações de diferenças têm significativa importância em áreas distintas do conhecimento, sendo utilizadas para descrever o comportamento ou a evolução de fenômenos cuja variação em cada intervalo de tempo se dá de forma discreta, se opondo ao tempo contínuo. Podemos encontrar esses fenômenos nas diversas áreas do conhecimento, tais como na física, biologia, medicina, dentre outras. Apresentaremos alguns conceitos importantes sobre as equações de diferenças de modo a facilitar a compreensão do nosso trabalho, para mais detalhes consultar (ELAYDI, 2005). Definição 3.2.1. Dada uma função :f , definimos sistema dinâmico discreto de primeira ordem como sendo uma sequência de números reais denotados por x n , para n , de modo que, cada número após o primeiro é relacionado ao anterior através da seguinte equação 1x n f x n , denominada equação de diferenças. Vamos considerar uma população cujo crescimento seja entre gerações, ou seja, o tamanho da 1n –ésima geração é relacionado com uma função que depende da n – ésima geração. Podemos modelar essa relação através da equação de diferenças 1 . 1x n f x n 6 Sendo 00x x uma população inicial, podemos gerar a sequência através da equação 1 do seguinte modo: 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 0 2 1 3 2 . . . . . , , , , ... x x x f x f x x f x f f x x f x f f f x x f x f f x f f f x Essa sequência acima representa o tamanho da população em cada geração. Adotaremos a seguinte notação 2 3 0 0 0 0, , ...f f x f x f f f x f x em que 0f x é chamada de primeira iteração de 0x em f , 2 0f x é chamada de segunda iteração de 0x em f e, de forma geral, 0 nf x é chamada de enésima iteração de 0x em .f As equações de diferenças podem ser classificadas em lineares e não lineares e também pela sua ordem. A solução de uma equação de diferenças é obtida por um processo recursivo e na maioria das vezes não conseguimos determinar uma solução de maneira explícita para essas equações, em particular as equações de diferenças não-lineares. Em particular, neste trabalho, daremos atenção às equações de diferenças lineares de primeira ordem. Definição 3.2.2. Uma equação de diferenças é linear e de ordem m , se for possível ser escrita da seguinte forma 1 11 1 ,m mx m n a n x m n a n x n a n x n F n com m , ia n e F n funções reais e 0,ma n n . Portanto, uma equação de diferenças linear de primeira ordem, é uma equação que pode ser expressa como: 1 , 2x n a n x n b n em que a n e b n são funções reais definidas para 0n e 0a n , para todo n . Se 0b n , para todo n , a equação é denominada homogênea, caso contrário, será denominada não homogênea. Quando as funções a n e b n são constantes, se diz que a equação linear 2 é de coeficientes constantes. Esses tipos de equações são muito 7 interessantes para o estudo da dinâmicade populações, em que a n x n representa o crescimento da população no tempo n e b n é o número de indivíduos que no tempo n se incorporam na população como consequência da imigração (BARROS; BASSANEZI, 2010). 4. Breve introdução ao GNU Octave e as aplicações em processos biológicos 4.1. GNU Octave – breve introdução O GNU Octave é um software livre onde qualquer pessoa pode contribuir mediante a obediência de certas condições e regras. Pode-se executar, copiar, modificar os códigos já existentes e também pode criar novos códigos de alta qualidade para novos problemas. Foi criado em 1988 por John Eaton e outros colaboradores sendo inicialmente para resolver problemas relacionados a reações químicas e para computação numérica e, mais tarde, estendeu-se para problemas de álgebra linear, equações diferenciais, dentre outros. É uma linguagem de alto nível que possui uma boa interface para a resolução de problemas numéricos lineares e não lineares com base na linguagem compatível com a utilizada no MATLAB. O download pode ser feito através do site principal https://www.gnu.org/software/octave/ apresentado na Figura 1. Figura 1. Site do GNU Octave. Fonte: Autoria própria. Além da possibilidade de implementar códigos online pelo site https://octave- online.net/ como ilustra a Figura 2. https://www.gnu.org/software/octave/ https://octave-online.net/ https://octave-online.net/ 8 Figura 2. GNU Octave online. Fonte: Autoria própria. No GNU Octave podemos resolver problemas algébricos numéricos, obter as raízes de equações não-lineares, manipular polinômios dentre outras. As funções podem ser escritas pela própria linguagem ou escritas em outras linguagens, por exemplo, C++, C, usando módulos escritos e carregados nessas linguagens. Mesmo em sua gênese tendo sido criado para dar suporte a uma situação específica hoje vai mais além contribuindo assim para resolver problemas reais. No entanto, softwares científicos constituem um recurso mediador do modelo real para modelos matemáticos. Hoje, segundo (TEIXEIRA, 2012), milhares de pessoas no mundo usam o GNU Octave no ensino, na pesquisa e em aplicações comerciais. Para mais detalhes ver (SIQUEIRA, 2015) e (REAMAT, 2020). 4.2. Aplicações em processos biológicos Apresentaremos algumas aplicações em processos biológicos em que os fenômenos são modelados por equações de diferenças com variáveis discretas. 1. (BERTONE; BASSANEZI; JAFELICE, 2014) Imaginemos uma colônia de bactérias na qual cada bactéria se reproduz assexualmente, dividindo-se em duas bactérias após a duplicação do seu material genético. Esta divisão se produz a cada hora como na Figura 3. 9 Figura 3. Reprodução de bactérias. Fonte: Santos, 2020. Se a população inicial é de 100 bactérias, qual será o número de bactérias que terá a colônia quando tenha passado três horas? E quando tenham passado um número n de horas? A expressão geral da relação de recorrência que descreve este modelo de crescimento é dada por 1 2n nP P , n . Supondo que o número 0P é a população inicial e nP representa a população na hora n , um processo recursivo nos fornece as seguintes expressões 1 0 2 2 1 0 1 0 2 2 2 . . . . 2 2n n n P P P P P P P P . Assim, obtemos que, para qualquer número n de horas, a expressão obtida para a população de bactérias é dada por 02n nP P , n . Portanto, nas três primeiras horas teremos 3 3 02 8 100 800P P bactérias. Observe que podemos interpretar a relação de recorrência 02n nP P como uma Progressão Geométrica (PG), representada pela sequência 2 0 0 0 0,2 ,2 ,...,2 ,...nP P P P , cuja razão é 2 e o primeiro termo é 0P . Lembrando que para definir uma sequência 10 recursivamente, não basta fornecer a recorrência, mas é preciso dizer qual é o seu primeiro termo. Isto fica claro no caso de uma PG. 2. (EDELSTEIN-KESHET, 2005) Os insetos geralmente têm mais de um estágio em seu ciclo de vida, desde a descendência até a maturidade. O ciclo completo pode levar semanas, meses ou até anos. No entanto, é habitual usar uma única geração como unidade básica de tempo ao tentar escrever um modelo para o crescimento da população de insetos. Vários estágios do ciclo de vida podem ser representados escrevendo várias equações de diferenças. Frequentemente, o sistema de equações condensa em uma única equação na qual aparecem combinações de todos os parâmetros básicos. Como exemplo, considere a reprodução de uma espécie de pulgão. Pulgões fêmeas adultas produzem inchaços redondos nas folhas dos choupos, onde os inchaços são chamados de galhas. Essencialmente, a galha é uma casa para os pulgões imaturos crescerem, como mostra a Figura 4. Figura 4. Pulgões e exemplo da galha dos pulgões. Fonte: Meus animais, 2019; Kazakovmaksim, 2019. Toda a progênie de um único pulgão está contida em uma galha. Alguma fração destes emergirá e sobreviverá até a idade adulta. Embora geralmente a capacidade de produzir descendentes (fecundidade) e a probabilidade de sobreviver até a idade adulta (sobrevivência) dependam de suas condições ambientais, da qualidade de seus alimentos e do tamanho da população, vamos ignorar momentaneamente esses efeitos e estudar um modelo ingênuo em que todos os parâmetros são constantes. Primeiramente, vamos definir as seguintes variáveis: na é o número de pulgões fêmeas adultas na n-ésima geração. np é o número de progenitores da n-ésima geração. m é a mortalidade fracionada dos pulgões jovens. f é o número de progenitores por pulgão fêmea. r é a proporção de pulgões fêmeas em relação ao total de pulgões adultos. 11 Em seguida, descrevemos equações para representar as populações sucessivas de pulgões e as usamos para obter uma expressão para o número de fêmeas adultas na n-ésima geração, considerando que inicialmente temos 0a fêmeas, onde cada fêmea produz uma quantidade f de progênie. Dessa forma, temos que 1 . 3n np f a 1np é o número de descendência na 1n –ésima geração. f é o número de descendentes por fêmea. na é o número de fêmeas na geração anterior. Destes, a fração 1 m sobrevive à idade adulta, dando origem a uma proporção final de r fêmeas. Portanto, 1 11 . 4n na r m p Embora as equações 3 e 4 descrevam a população de pulgões, observe que elas podem ser combinadas em uma única sentença, ou seja, 1 1 . 5n na f r m a Considerando o caso, bastante teórico, onde ,f r e m são valores constantes, a solução é dada por 1 0 2 2 1 0 1 0 1 1 1 . . , . . 1 1 6 n n n a f r m a a f r m a f r m a a f r m a f r m a onde 0a é o número inicial de fêmeas adultas. A equação 5 é novamente uma equação de diferenças linear de primeira ordem, de modo que a solução 6 segue das observações anteriores. Vale a pena destacar que a constante 1f r m é o número per capita de fêmeas adultas que cada mãe pulgão produz. Para mais detalhes ver (MURRAY, 2002). 3. (FERNANDES, 2015) Tome-se como exemplo a administração de uma droga, medicamento, em intervalos constantes de tempo (de 6 em 6 horas, a cada 12 horas...) representado pela Figura 5. 12 Figura 5. Administração de um medicamento. Fonte: Pharmahoje, 2015. Sabemos que nosso organismo tende a eliminar partedessa droga através da urina, suor, entre outras transformações e reações químicas e/ou fisiológicas de nosso organismo. Admite-se que essa eliminação seja constante. Seja 0Q a quantidade inicial de droga aplicada e reaplicada a cada intervalo de tempo, r a quantidade de droga eliminada por nosso organismo a cada intervalo de tempo e nQ a quantidade de droga presente no organismo no instante de aplicação n . Nestas condições, qual é a quantidade de droga presente no organismo após n aplicações e qual será essa quantidade ao longo do tempo considerando que uma pessoa tenha que receber a droga pelo resto de sua vida? A expressão geral da relação de recorrência que descreve este modelo é dada por 1 01 . 7n nQ r Q Q Vamos analisar a equação de diferenças de primeira ordem 7 e encontrar uma solução para o modelo. Substituindo 0n na relação de recorrência 7 , temos que 1 0 01 . 8Q r Q Q Colocando em evidência o termo 0Q r e manipulando algebricamente a expressão 8 , obtemos 0 1 0 1 1 1 Q Q r Q r r . De modo análogo, fazendo 1n na relação de recorrência 7 e substituindo o valor de 1Q , temos que 13 2 0 2 0 1 1 1 Q Q r Q r r . Em resumo, deduzimos que a solução da relação de recorrência 7 é dada pela expressão 0 0 1 1 1 . 9 n n Q Q r Q r r Portanto, a quantidade de drogas nQ presente no organismo após n aplicações do medicamento é dada pela equação 9 . Uma observação que deve ser levada em conta é que não podemos eliminar mais de uma vez a droga do nosso organismo. Dessa forma, temos que 0 r 1 . A fim de determinar a quantidade de droga acumulada no organismo ao longo do tempo, vamos calcular o limite de nQ quando n tende ao infinito e analisar sua convergência. Note que, quando n , e usando o fato de que 0 r 1 , temos que 1 0 n r . Logo, 0 0 0 1 lim lim 1 1 n n n n Q Q Q r Q r r r . Portanto, nQ converge para 0Q r quando n tende ao infinito e, com isso, a quantidade de droga presente no organismo ao longo do tempo tende a se estabilizar. Para exemplificar nossa modelagem, vamos considerar que um paciente do Hospital Geral do Estado (HGE) é colocado em medicação que por sua vez é tomada uma vez por semana. A dose aplicada no paciente é de 7,5 mg. Além disso, considere também que a cada semana o seu metabolismo queima 12,5% da droga em seu organismo. Se o nível de medicamento no organismo atingir 69 mg as consequências são muito graves. É seguro para o paciente tomar este medicamento por tempo indeterminado? Para fazer um estudo com os dados fornecidos acima e dar uma resposta para o problema, escrevemos um algoritmo utilizando o GNU Octave. Para tal fornecemos os valores de entrada ao algoritmo implementado no GNU Octave. Sem perda de generalidade, vamos estudar o nosso problema no intervalo de tempo de um ano, ou seja, aproximadamente 52 semanas. Desta forma, vamos considerar os seguintes dados para o nosso problema 52n , 0,125r e 0 7,5Q . O algoritmo implementado para modelar nossa situação problema utilizou 52n , 0,125r e 0 7,5Q como dados de entrada. A Figura 6 ilustra o gráfico do Modelo de Administração de Drogas para os valores de entrada considerados no problema. 14 Figura 6. Modelo de administração de drogas. Fonte: Autoria própria. A curva representada pela cor preta, ilustrada na Figura 6, mostra que a quantidade de droga nQ se estabiliza ao longo das 52 semanas. Note que, por volta da semana 30 a quantidade de drogas no organismo se torna um valor bem próximo de 60 mg e a partir da semana 30 até a semana 52 a quantidade de drogas se aproxima cada vez mais de 60 mg que, por sua vez, não ultrapassa o valor de 60 mg. Em outras palavras, ao longo das 52 semanas a quantidade de droga nQ se aproxima do limite de convergência apresentado pelo modelo, em que o limite de convergência é representado pela curva de cor azul. Sabemos que para valores de n muito grande nQ converge para 0Q r , onde 0 7,5 60 0,125 Q r mg. Analisando o gráfico, ilustrado na Figura 6, percebemos que o limite de convergência do nosso modelo, curva de cor azul, está abaixo do limite tolerável pelo organismo do paciente que é de 69 mg, representado pela curva de cor vermelha. Portanto, é possível afirmar que é seguro para o paciente tomar este medicamento pelo intervalo de tempo de um ano. 15 Consequentemente, o paciente pode tomar o medicamento por tempo indeterminado. Uma vez que o modelo apresentado para este problema converge quando o número de semanas é muito grande, ou seja, tende ao infinito. Os códigos utilizados para estudar esse problema e gerar os resultados apresentados pelo gráfico, ilustrado na Figura 6, foram implementados no GNU Octave e estão disponíveis no link https://drive.google.com/drive/folders/1JFyF0p5G1ACr7x- mDhM9J7uGwoPzehXK?usp=sharing. 5. Considerações finais Esse trabalho apresentou aplicações de processos biológicos reais que são objetos de estudo da Biomatemática. Essas aplicações são realizadas através da modelagem matemática, seguindo algumas etapas, em conjunto com as equações de diferenças de primeira ordem como conteúdo matemático para a formulação dos modelos estudados. A primeira aplicação mostrou o crescimento de uma população de bactérias em relação ao tempo e como poderia ser esse crescimento matematicamente. A segunda aplicação retratou a reprodução de pulgões fêmeas adultas ignorando algumas condições naturais que afetariam o modelo deixando-o mais elaborado o que fugiria do escopo desse trabalho. Foi desenvolvido um modelo mais simples com parâmetros constantes apenas para mostrar como, na prática, seria essa reprodução. A terceira aplicação foi escolhida com caráter numérico para observar o que acontece com o modelo, a fim de mostrar, na prática, como os padrões funcionam bem próximos de situações reais. Essa aplicação partiu de uma situação-problema real sobre a administração de medicamentos no organismo, mostrando a estrutura teórica matemática relacionada à aplicação e depois sendo proposta uma nova situação para evidenciar com mais clareza o problema. No GNU Octave foram implementados os dados para explicar a matemática utilizada através do visual. Por fim, observamos que, de fato, o uso de recursos tecnológicos auxilia no processo de aprendizagem, facilitando a compreensão e absorção dos conteúdos matemáticos e pode transformar problemas teóricos em problemas práticos e visuais dependendo da natureza do problema. 6. Referências bibliográficas BARROS, Laécio Carvalho de; BASSANEZI, Rodney Carlos. Tópicos de lógica fuzzy e biomatemática. 2rd. Campinas, SP, Brazil: GP Silveira, 2010. 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